Nota do guia de Ogum: "Boa noite a todos, vós que vindes cá para mais um conto a ser lido. Este conto, por mítico que possa parecer em seus elementos primários e essenciais não o é. Creio que a grande introdução já fora necessária ser feita anteriormente, por isto hoje serei breve e, como de costume, somente tecerei comentários quando for relevante que o faça. Que assim seja segundo a vontade do Pai Criador que nos trouxe hoje neste sábado seguinte a celebração da encarnação nesta orbe de Nosso Senhor irmão e mestre Jesus Cristo.- George."
"Irmãos e irmãs encarnados, vos saludo deste plano espiritual de onde vos comunico através desta jovem médium. No dia de hoje, tão perto de findar outro ano deste século ascendente espiritualmente, me apresento para importante missão. Consciente sigo na tarefa de que nem todos acreditarão no que transporei em palavras, mas nem diante de tais dificuldades recuarei. Conversei muito com o bondoso mestre Saint-Germain, de quem obtive permissão em vir cá para expor, ainda que brevemente, deste período que, atualmente, muitos de vós enxergueis como lenda, mito cristianizado pela Igreja medieval a fim de despojar-se dos elementos pagãos que configuram a história do Rei Arthur. Mas, para além das aparências, a mensagem está cá para ser levada a todos, sem distinção de gênero, cor, raça, ideologias, crenças. É somente um espírito que fala para outro que desejar aprender a ser melhor.
Acho relevante, de minha perspectiva, tecer um panorama que pode vir a satisfazer a curiosidade dos leitores, mas, mais que isso, vem a clarificar este período de encarnação. Por mil anos encarnei na Terra, e por mil anos permaneci no erro. Fui um auxiliar das primeiras dinastias do Egito que incorreu no perjúrio de tirar a vida do grande faraó; estive na Babilônia, testemunhei as arrogâncias dos que desejavam construir a Torre de Babel. Na realidade, minha alma foi muito marcada pelos mais diversos eventos que, segundo vossa concepção, periodizam tais tempos em "Idade Antiga". Também estive presente em Jerusalém quando nosso Senhor foi crucificado, mas mesmo enquanto camponês ignorante, de longe somente absorvi seus ideais, mas todos sabemos quão penosa é a estrada para os que se conservam em orgulho. Demoram muitas encarnações e tantas mais doutrinações no plano superior para que nós não persistamos nos pecados da vida. Ora sejamos como Pedra e negamos o que há em nosso interior, ora agimos como Judas ao trairmos nossos princípios em prol do materialismo. Dito isto, é quase beirando a obviedade o especular que a encarnação presente se desenrolou. Colhi o que plantei e, de certa maneira, soube disto. Pedi pelas provações mais duras, e se em algumas sucedi, outras me compliquei. Por isso, reencarnei mais algumas vezes, e, outra vez registro gratidão a Saint-Germain por seu auxílio eterno nesta minha caminhada. Depois desta vida que virei expor a todos vós, retornei à Terra por todo o medievo, quase sempre à Inglaterra: fui um dos ilegítimos de Carlos Magno na França, em seguida um camponês miserável em Yorkshire na Inglaterra, cheguei mesmo a ser um padre católico na região próxima da Alemanha, para então ser um dos condes dinamarqueses que fizeram parte da conquista de Canute, o Grande, em 1016. No século seguinte, fui mais uma vez padre e responsável com outros na propagação do culto de Thomas Beckett, de onde peregrinei descalço até Roma. E, finalmente, voltei como rei inglês cuja vida foi abreviada em meio ao caos da guerra civil. E por que digo isso tudo tranquilamente? Para mostrar que, quanto mais orgulhosos somos, mais humildes a lei do progresso demandará que nós nos tornemos. E se nossas vidas apresentam amenidades, que sejamos gratos pela misericórdia do Pai sobre nós. E ao contrário, também. Enfrentei vários tipos de morte e renascimento, passei pela fome, pestilência, guerra... componentes bíblicos do Apocalipse. Mas tudo há um propósito, meus caros e caras irmãos da Terra. Um dia eu permaneci no erro e que fiz comigo se não prolongar tortuoso caminho toda santa vez? É como diz nosso bom amigo Saint-Germain: nós somos os que complicamos a vida porque o Pai não deseja que nenhum de nós sejamos infelizes. Reencarnar não precisa ser um castigo, pois respirar o oxigênio e estar em meio às obras divinas não é punição nenhuma. O Pai ama a todos igualmente, sem distinção, sem favorecimento. Mas nós, em nossas limitações, percorremos os caminhos mais tortuosos. E não digo somente nos atos mais criminosos, mas nos do dia-a-dia: quando apontamos o dedo para o irmão e nos achamos superior por termos feito algo que ele não faria; quando julgamos a dor do próximo por não sentir da mesma forma como nós sentimos; quando comparamos, criticamos, desdenhamos; quando gritamos; quando recusamos ajudar o outro... Quando não levamos a palavra do Pai ao nosso rival em oportunidade que se abre. Quando não olhamos para nós mesmos e nos indagamos a razão que nos leva a tratar tão mal o nosso semelhante. Que moral possuímos nós em esperar o melhor do outro se nem praticamos os sermões dados gratuitamente àquele que, em nossa concepção, nos é inferior e incapaz de fazer algo de útil? Ações pequeninas, de fato, as quais muitas das vezes nos passam despercebidos. Que fique esta reflexão, logo de início, porque eu cometi tudo isso ao longo de minha existência na Terra, seja ela qual for. E desde o século XV, quando Cristo me ofereceu outras oportunidades de auxílio espiritual que não mais envolvessem o ciclo de encarnações, não hesitei em prontamente aceitar o trabalho que me levou aqui. Por isso, deixo esta reflexão não para fazer-vos sentir inferiores e limitados, mas, muito pelo contrário, para acender a luz que todos possuíres a fim que possais, como também eu pude e sigo ainda na lei do progresso que me envolve, dissipar as sombras que vós mesmos encucais em torno de vós.
Tendo dito isto, e penso que minha eloquência patrística ainda permanece forte em mim (por ventura, deixo registrado meu pedido de desculpas por ter-me prolongado), podemos dar início à memória desta existência particular convosco. Com isso, vou aqui apresentar-me segundo o nome que me foi dado nesta encarnação: Saewine. Nasci em 402 D.C na região que, em vosso português, escreve-se Jutlândia. Hoje em dia ela se situa entre a Dinamarca e a Alemanha, tendo sido, na verdade, por muito tempo subjugada a esta última, próxima particularmente da Saxônia, quando não considerada sua tribo um prolongamento dos saxões de outrora. Contudo, não deveis ler neste prolongamento como sinônimos, pois não era assim que funciona. Seria o mesmo que falar que vós e vosso primo são irmãos, quando, na realidade, gerações interpõem-se em aparentamento próximo.
A Jutlândia era composta por diversas tribos, grande parte das quais viviam em brigas, embora compartilhassem alguns dialetos em comum, mas um sistema de crenças religiosas muito similar, para não afirmar que acreditavam em um panteão de mesmas deidades. Da Jutlândia do norte, porém, predominava o culto ao deus do trovão, Thor, conquanto mais ao sul, rezava-se mais para Odin e, pasmem podeis ficar, Loki. Se desconheceis estas divindades, vos explicarei: os povos nórdicos não eram diferentes dos gregos, romanos e indianos que, para explicar os fenômenos da natureza, nomeavam de acordo com o seu entendimento. Se vejo um trovão cair numa árvore que, por conseguinte, tira a vida de um companheiro meu, logo percebo que naquele trovão reside algo poderoso contra o qual mero humano não pode lutar. Houve, é verdade, idiotas (se me permitem usar este termo) que já mesmo declararam guerra ao deus do mar, Netuno. Mas isto foi lá para Roma Antiga.
Os nórdicos simbolizavam seus deuses em dois grupos: os aesir e os vanir que, como falei, representavam mais o medo da natureza que outra coisa. Em termos espirituais, algumas dessas entidades seriam falangeiros (e a umbanda traz isso melhor, vejamos, por exemplo, o falangeiro de Iansã: não é um orixá que está atuando quando incorporado ou não, mas um espirito que trabalha sob seu 'círculo de atuação') destes "deuses". Não havia o Odin que as histórias indicavam, seria, se posso dizer, uma tentativa de explicar a presença de um espírito divino que desceu à Terra para ensinar aos povos primitivos (no sentido de conhecimento, sabedoria, cultura moral e espiritual) o desenvolvimento da consciência racional. Isso vos indicaria semelhança com outra presença encarnada? Pois sim, embora não sejam as mesmas entidades. Entretanto, como os espíritos que viviam nestes tempos (século IV, V e até mesmo à época dos Vikings) estavam presos fortemente à influência da matéria corpórea e os instintos dela que não sabiam controlar, era natural que projetassem sobre figuras divinas suas faltas. Claro que isso não isentava a apropriação de espíritos perdidos e maliciosos com os pobres sujeitos: de onde mais surgiriam os gigantes, lobisomens e Loki, responsável pelo Ragnarok?
Os aesir, portanto, englobavam seres como Odin, Thor, Frigga, Baldin e alguns outros mais. Os vanir, por outro lado, chamados desdenhosamente de fazendeiros por alguns aí, eram compostos por Freyja, Frey, e assim por diante. É um panteão complexo e muito grande para me alongar mais do que o necessário. Como falei, cada um representava uma força da natureza, humana ou não. E pelas regiões da Alemanha, Suécia, Suiça e Dinamarca eram onde tais cultos, mesmo com o advento do Cristianismo, predominavam com força. Se foram parar na Inglaterra, por exemplo, isso se deu pelas ondas migratórias que ocorriam cada vez mais.
Contudo, a Inglaterra do século V não era nem sequer conhecida por este nome, mas um amontoado de reinos que guerreavam entre si, chefiados pelos últimos romanos que, orgulhosos, se recusavam a partir. O Império Romano, que caiu em torno dos anos 430 a 450, dominou um dia a ilha que, na verdade, era conhecida como Abion, ou, para vosso melhor entendimento, Avalon. Povos celtas e outras tribos cujas identidades se perderam pela História tinham também seu próprio sistema social, costumando ser nômades e avessas a qualquer tipo de violência. Na vossa contemporaneidade, a herança mais forte da presença (até mesmo espiritual) destes indivíduos se encontra na Irlanda.
Bem, como dizia, os romanos dominaram Avalon por muitos e muitos anos, não sem dificuldade, é claro. Pois os celtas, para além de nômades, eram excelentes guerreiros e ofereceram resistência aos invasores. Um exemplo que vossos historiadores costumam resgatar para pintar cenário caótico é o de Boudica (ou Bodicéa, dependendo da grafia). De essência bélica, aquela foi uma entidade que veio passar por provações muito dificeis, e, embora seu desencarne não tenha sido pacífico, foi necessário para sua evolução espiritual. Com Boudica e outros líderes subjugados, os romanos fizeram prevalecer suas crenças e suas atuações. Londinum, por exemplo, já era capital importante naqueles dias, tanto em termos econômicos quanto políticos, ainda que fosse em Eorfic que residisse os nobres reminiscentes.
Conforme o império se desmantelava, as tribos germânicas (e quando uso este nome não me restrinjo ao território que, pela vossa modernidade, conheceis como Alemanha, mas as mais diversas cidades e sub-cidades que ali compuseram em sua independência; e além destas, a Jutlândia, Kattegat, Copenhag, entre outras) cresciam em poder. Não à toa muitos de vossos estudiosos apontam como principal fator para a queda do poderio romano o aumento das invasões germânicas. Aqui, neste pequeno, mas relevante exemplo, vedes como a lei do retorno funciona: aqueles que os romanos chamavam de "bárbaros" foram por eles dominados de forma tão intensa que eles, naturalmente, revidaram o que receberam. Pois para tudo que dais, receberás.
Nesta época, é verdade que Roma já era cristã. E os romanos relutavam e bastante em enviar missionários para os lados da Germânia porque acreditavam que, por serem "sujos e bárbaros", não mereciam receber a palavra de Cristo. É surpreendente que isto se tenha passado, mas, a elitização já dava por aí e a deturpação dos ensinamentos do mestre também. Contudo, os bispos de Roma acreditavam que se o império desmantelava, foi por terem falhado em seguir nosso Senhor. Dali renovaram a incontáveis tentativas de converter os mais diferentes povos. Apesar das dificuldades e dos martírios, não desistiriam nem mesmo no século XI, quando, no ano 1000 DC, ainda se achavam "resquícios" dos que reprovavam práticas tomadas como pagãs ainda entre suas ovelhas cristãs.
Mas, por enquanto, desconhecia eu e tantos outros da tribo que fazia parte a palavra e os ensinamentos de Jesus Cristo. Quando nasci, meu pai estava para se tornar o novo líder (não existia, até então, a lei da primogenitura, por isso tornava-se chefe aquele mais apto a liderar o povo e isso devia-se à força) e já era casado pela quinta vez. Não havia relação monogâmica tampouco, pois quanto mais crianças, tanto melhor, e viver nos anos 400 era quase um milagre: a higiene não era valorizada, a medicina era reflexo de "superstições" e, como consequência destes fatores aliados à ignorância dos sujeitos, a taxa de mortalidade era altíssima. A estimativa de vida para uma mulher era 20 anos e para um homem, 30. A mulher porque, uma vez que sangrasse a primeira vez, já estava apta a ter filhos e, desde os treze anos, já dava ao esposo crianças. Como falei antes, a medicina era muito limitada, por isso os partos provocavam doenças que ceifavam a vida da jovem. O homem tinha suas próprias batalhas a lidar: quando não morriam com uma lança atravessada no pescoço, seu último suspiro era resultado de doenças dos mais diversos tipos. Crianças, então, que dizer destes pobres inocentes?! Pelo tempo de meu nascimento, dez irmãos já haviam sido enterrados, duas irmãs foram casadas "precocemente", e as outras duas estavam sob a guarda da madrasta. Alguns outros irmãos, dez, quinze anos mais velhos que eu até, viviam como nômades. A conceituação de família era complexa e faltava a afeição para unir e apaziguar as desavenças que, não raro, surgiam entre seus membros.
Apesar disso tudo, era relativamente comum que houvesse homens e mulheres que vivessem para além da expectativa comum. Meu próprio pai, ao se tornar chefe tribal, contava quase cinquenta anos. Minha mãe, por outro lado, tinha vinte e dois quando me deu à luz. Como tenho ciência de que os nomes são muito difíceis de serem escritos, darei a vós somente os daqueles que têm mais "importância" para a história e de maneira que se familiarize convosco. Fui, portanto, nomeado Saewine e "batizado" (na verdade, embora o ritual seja similar ao da Igreja Católica com poucas diferenças, chamava-se isto "porta de entrada para os deuses", no qual a criança era reconhecida e abençoada pelas deidades) quase no mesmo instante. Minha mãe, uma moça loira de olhos claros e feições simples, abraçou-me contra o peito e falou:
--Bendita seja Frigga por tê-lo trazido em segurança, meu filho.
E assim me embalou ternamente. Mais tarde, minha mãe me diria com orgulho que fui tão bravo em vencer a gravidez porque Frigga havia me abençoado, e concomitantemente lamentaria o destino de meus irmãos que foram perdidos em abortos espontâneos.
(Nota de Ogum: "Vê se aqui o que André Luis já demonstrou nas obras que Chico Xavier psicografou a respeito das gravidezes. Embora o espírito possua o livre arbítrio de permanecer ou não na preparação da encarnação, tudo isso é planejado. Quando a mãe de Saewine remete agradecimentos à deusa por isso, em verdade, o que ela quer dizer é que ela foi apresentada a Saewine no plano espiritual, onde concordou em receber a criança em seu ventre sabendo que essa gravidez prosseguiria sem tormentos pela missão que o menino deveria viver... a não ser que ele mudasse de ideia, como acontece com outros espíritos em momentos similares da gravidez. No entanto, estes irmãos de que fala a entidade que aqui está transcrevendo a memória, foram espíritos que, justamente como falei, tomados pelo medo, recusaram a vida. Entretanto, outros ainda constituiram em prova para a mãe terrena de Saewine, que tinha a expiar pelo passado não tão distante.")
Pois bem, recebi uma educação bélica, como era de se esperar. Conforme crescia, me adaptava a um mundo novo que me introduziam. O senhor meu pai derrotou o chefe da tribo da Jutlândia do norte, e a partir de então lidou com certa oposição que quase levou a um conflito civil. Mas havia sacerdotes, como toda crença possuía, fosse ela qual fosse, que representavam a ligação terrena com o divino. Alguns destes eram médiuns extensivos, outros, apenas charlatões. Curiosamente, era possível distinguir um do outro, e não era à toa que os anciões costumavam ser os responsáveis por eleger aqueles que tinham como missão trazer alento e alerta das divindades. Como a nossa tribo cultuava Odin, o sacerdote era encarregado de consultá-lo e, de quando em quando, fazer sacrifícios. Em essência, não éramos diferentes dos vikings de séculos mais tarde. Bom, foram alguns destes (em média, eram três; mas isto variava de tribo para tribo, que costumava ter somente um, o chamado "vidente") que impediram desperdício de sangue.
Uma vez consolidado o poder, o senhor meu pai passou a determinar missões para seus cinco filhos mais velhos, meus irmãos de quatro casamentos anteriores, enquanto cuidava dos que ficavam. Eram excursões no sentido militar do termo: cabia a cada um levar um amontoado de homens para dominar, saquear e, claro, tomar as esposas de terras vizinhas. O crescimento populacional estava ficando incômodo, por isso se viu na necessidade de expandir para o oeste. Afinal, que fazer com tanta gente e terra que, em invernos mais duros, propiciavam produção insuficiente? Não vos esqueceis, por surpreendente que possa isso vos parecer, que aqueles guerreiros que comandavam toda uma tribo eram fazendeiros.
E a cada inverno mais rigoroso, o senhor pai ficava mais preocupado. De vez em quando, afundava-se na bebida, pois não gostava de lidar com problemas que não sabia ou sequer tinha como resolver. Dobraram os sacrifícios, e me lembro de quando era garoto duas donzelas terem se oferecido para serem sacrificadas. Donzelas no sentido como o termo literal explica: intocadas, virgens. Perdidos em ilusões que mascaravam a dureza da encarnação, pareceu-nos que isso resolveu nossos problemas. Em meio a tais tensões, recordo de estar à direita de meu pai em uma noite de festas. Fazia um frio dos sete infernos, e era eu o único jovem masculino da longa ninhada do chefe da tribo a não ter partido para as invasões.
Vendo-me de cara fechada, ele soltou uma risada e falou:
--Saewine, por que está carrancudo? Que te faz assim, garoto?
Antes que respondesse, a senhora mãe o fez por mim com um tom que indicava divertimento:
--É do anseio deste filho seu seguir o caminho dos irmãos.
Naquele dia, ela usava um vestido tingido de vermelho com bordado em dourado e longas mangas que, no entanto, prendiam-se em torno do pulso. Os cabelos dourado estavam presos em longa trança, e em seu rosto havia sinais de robustez. Pela forma como a barriga salientava-se e os seios pareciam cheios, estava outra vez prenha. Meu pai, ao seu lado, já não era tão belo quanto antes: via-se ao centro de sua cabeça espaço que denotava ausência de cabelos. O restante dos fios que caíam às costas eram já grisalhos, e que desapareciam no dia seguinte, pois, impaciente, rasparia toda cabeleira que ainda havia. Uma barba longa e trançada com anéis de esmeralda caíam sobre o peito. O número de anéis na barba determinava quão poderoso era aquele que os portava. Usava roupas de couro e tudo em si reportava riqueza e poder. Mas um observador atento notaria as bolsas em torno dos olhos, as rugas que marcavam a pele, as feridas que não cicatrizavam ou mesmo aquelas que lhe marcavam. O nariz era torto, o sobrolho mais baixo que o outro, e o lábio, ressecado, parecia caído. Faltavam-lhe alguns dentes, e o hálito não era agradável. Em suma, era como se a morte deixara nele sua marca.
--Claro que é--ele rugiu, e os outros companheiros que o respeitavam e desejavam ter de sua estima, riram--Esse daí é melhor que Thoryn, minha cara. Ele sabe como portar uma espada.
E, virando-se a mim, falou:
--Tenha paciência, garoto. Sua hora vai chegar.
--E quando é?--não consegui segurar a língua.
Em vez de me dar um tapa pela indolência, ele sorriu. Encarou-me por um momento, fitando os olhos azuis e a cabeleira loura que havia herdado de minha mãe, mas a ferocidade e temperamento que obtive dele, certamente.
--Os deuses dirão no devido tempo.
Algo em mim fê-me pensar que deveria treinar a paciência. Não sei dizer muito bem o que foi, mas, retornando às memórias com mais finco, vejo que era a mediunidade a aflorar. No meu entendimento pérfido ainda, entendia que os deuses falavam conosco, por mais que em meu íntimo houvesse aquela intuição de algo maior que essas divindades. Nunca ousei expressar tais questionamentos, primeiro porque o ambiente não era propício para tais questionamentos e segundo que poderia ser morto por isso. Muitos de vós afirmam que a heresia foi inventada pela Igreja Católica a fim de queimar os que contra seus dogmas pensassem ou criticassem. Digo-vos que isso existia muito antes. Na verdade, havia já no século seguinte exemplos de "heresia" como com os visigodos que aceitaram a fé ariana em vez da genuinamente cristã, mas não me cabe dizer mais que isso. O ponto que venho dizer, meus amigos, é que o homem quando tem poder em suas mãos e falta a ele o discernimento da alma para fazer bom uso do que recebeu do Pai, entrega-se facilmente a corrupção moral.
De toda a forma, como vinha dizendo, uma intuição se abria em mim e me dizia que deveria observar mais, ouvir mais e falar menos. E foi o que passei a fazer. Meus irmãos mais velhos debochariam de mim, alegando, inclusive, que era filho da traquinagem de Loki, mas nem mesmo nosso pai permitiria tamanha ofensa. Isso resultou em briga feia que, lamento dizer, teve como consequência a morte daquele que foi mencionado sob o nome de Thoryn.
Sofria com a rejeição dos irmãos mais velhos que almejava ser como eles, e isso levou-me a solidão. Talvez alguns de vós recordarão de Ivar, o sem ossos, e o paralelo pode ser traçado, embora não tivesse nascido com nenhuma deficiência porque meus desafios eram outros, psicológicos, por assim dizer. Contudo, cabe citar a velha máxima de que os quietos costumam ser os piores. Valeu para mim como valeu para Ivar dois ou três séculos seguintes ao meu.
Treinei com ferocidade e não fiz amigos. Carregava em mim uma solidão que, na verdade, era mais mágoa, ressentimento de irmãos que deixaram-me para trás e jamais realmente me aceitaram entre eles. Isso me fez mais forte, paradoxalmente. Conforme nosso pai envelhecia, ele mantinha os olhos sobre mim. Lembro-me de Gyda, irmã de quem fui próximo, já casada com um nobre menor de tribo vizinha, ter-me visitado aos dezoito anos.
--Meu marido regressou recentemente e me pediu para lhe trazer notícias.
Arqueei as sobrancelhas para ela. Como ela não sabia escrever ou ler, não nos comunicávamos havia alguns tempos. Por isso, as notícias que desejava que eu recebesse ela enviava por aqueles que confiava. O esposo dela era ninguém menos que o irmão do avô de Cerdic, o futuro rei de Wessex.
--E que notícias são essas?--indaguei. Havia regressado de uma pilhagem com colegas seletivos que, no curso da vida, se tornariam meus amigos. Foram eles: Ragnar, Regynald, Lotair, Otyr e Bald.
--Confirmaram que há terras à oeste. O império caiu e os outros estão tomando conta dos territórios deixados por eles.--ela me sorriu. Embora fosse, segundo os padrões da época, uma esposa exemplar, Gyda não me enganava. Era uma escudeira e lutava tão bem quanto a lendária Lagertha.
--Os romanos ainda ocupam tais territórios--lembrei-a. Não me interessava, à princípio, o que havia em Avalon, terra mística que, no entanto, havia sido abandonada pelos deuses e caiu nas mãos de estrangeiros. Queria ir para o extremo norte e subjugar um rei importante para provar meu valor. Era assim que um rapaz de cultura bélica como a germana, que, sem dúvida algum, disto absorveu dos romanos, era educado. E não vos esqueceis que o meio onde habitamos nos influencia bastante moralmente.
--São poucos os que persistem--ela me informou, ansiosa--Há um general chamado Aurelinus Ambrosius que está reunindo as tropas para derrotar um falso rei chamado Vortigern. Alguns dos anglos e dos saxões estão partindo para esta oportunidade. Na guerra civil, sussurram, ascende-se novo poder.
Arrepiei-me com aquelas palavras, pois senti que os deuses falavam através dela.
--O que quer dizer com isso? Odin fala por você?
Gyda deu um sorriso afetado.
--Talvez tenha falado através de meu marido, que me enviou aqui.
Ri sem humor. Como eu era desconfiado!
--Ah, valha-me os deuses! Ele não gosta de mim este seu marido, creio que deve preparar-me para alguma armadilha! Sem dúvida aliou-se ao nosso irmão para me derrubar porque, na ilusão dele, crê que sou o filho favorito de nosso pai.
Gyda riu alto e eu, não nego, me assombrei com seu senso de humor.
--Por que rir, mulher?
--Porque você é um tolo--e, dizendo isso, esbofetou-me as faces--Pare com este orgulho bobo, que o impede de seguir adiante para novos horizontes. O que importa se é favorecido ou desfavorecido pelo pai? Por que é tão relevante demonstrar quem é diante de nossos irmãos, que agem como hienas entre si? Há oportunidade em Avalon, escute-me, irmão, por favor. Convoque os homens que tem e...
--Pois que homens tenho se nenhum me segue?--falei, movido pelo temperamento.
--Nenhum o segue porque preferiu se esconder no conforto das saias da mãe!--ela me acusou de covardia e não nego que considerei levantar a mão, mas algo me impediu. Mais calma, Gyda disse--Seja corajoso. Há um destino lá para você, não viria aqui se não acreditasse que não houvesse, irmão. Saiba que meu esposo possui por você fraterna afeição. Eis a oportunidade por que tanto sonhou. Não é Kattegat ou outro estado que lhe proverá riquezas e títulos, pois aquelas terras ao norte são vazias e improdutivas. Sua ascensão reside à oeste. E irei com você.
Pensei em rosnar debochadamente, dizer que ela não poderia ir comigo de forma alguma. Mas, por mais embrutecido que um homem possa ser, o amor, seja qual ele for, quando sincero é capaz de operar mudanças. Aquietou-me, pois, o temperamento e fê-me aquiescer a cabeça e dizer:
--Tudo bem. Vou chamar Regynald.
* * *
Vertigern havia se quedado morto quando depositamos os pés na ilha de Avalon no porto que hoje em dia reside o condado de Devon. Mas os anglos e os saxões, inimigos de longa data e que haviam se juntado por ouro, traíram-no ao fim da expedição e contribuíram para sua queda. Contudo, não era tão fácil quanto se poderia prever. Havia ainda romanos que resistiam e muito bem. Ambrosius era um deles. Pai de Uther Pendragon, ele se responsabilizou em unir os últimos romanos e cavalgou contra os anglos e saxões pelo norte de Avalon. Lutou bravamente. Não perdeu uma guerra sequer. As perspectivas não eram otimistas.
--E, no entanto, há uma fraqueza--eu falei, contemplativo--Deve haver, ninguém é invencível. Se os deuses morrem, os humanos também os seguirão ao túmulo.
Dover era, à época, vazia e mal guardada. Havia residências de pedra, pequenas e insignificantes, que eram somente montadas à guarda por espíritos pretorianos que não admitiam ter perdido suas posses para seus inimigos. Na ocasião, o castelo que era mais uma fortaleza já estava a cair aos pedaços, mas servia, por ora, aos nossos propósitos. Mal iluminada, escondia-nos bem. E o vilarejo a que aquela fortaleza deveria proteger de invasores ficava não mais que três quilômetros e meio. Pelo menos foi o que supomos.
Sentados ao redor de uma fogueira, contava, comigo incluso, cerca de quinhentos homens. Esperávamos que os irmãos do esposo de Gyda trouxessem mais, segundo ele, estavam a caminho, o que aumentaria consideravelmente nossa vantagem.
--Precisamos, primeiro, mapear o território--indaguei, sem esperava comentários dos outros. Sentia-me incrivelmente inspirado naquela noite em particular, embora pouca experiência contasse, de fato, para liderar aquela expedição.--Do contrário, falharemos miseravelmente. Ouvi dizer que há ainda celtas por aí.
--Povos da floresta que vivem e esperam pelo momento da vingança--contemplou Gyda--Poderiam ser aliados.
--Não--falei, peremptoriamente--Eles nos trairiam na primeira oportunidade. Poderiam estar nos observando enquanto falamos. Dos relatos que chegaram aos meus ouvidos na Jutlândia, eles atacam enquanto os inimigos dormem. Não podemos confiar em gente assim... E como perderam as terras que lhes pertenciam, por que entregariam a nós? Não há lógica neste raciocínio.
--Mas estamos em desvantagem, Seawine--lembrou-me Lothair--Conhecer tudo isso é pedir para ser atacado. Não acha que Ambrosius já não tem conhecimento de nossa chegada?
--É provável, mas ele está ocupado com os anglos e os saxões ao norte. Estamos ao sul--falei--Até agora não provamos ser ameaçadores, ou algo assim. E precisamos ter certeza de que não teremos rivais que nos equiparem ao que viemos fazer. Precisamos observar antes de atacar, ou seremos destruídos. Precisamos, meus caros, nos antecipar aos nossos inimigos se desejamos conquistá-los. Portanto, discrição nos próximos doze meses.
--Doze meses?!--exclamou o esposo de Gyda.
Sorri a ele.
--Sim. Poderíamos, é verdade, usar da surpresa como fator para conquistar os próximos povoados, mas o alarme sem dúvida se espalharia e pode ser que Ambrosius envie generais competentes para nos subjugar. Se conhecermos o que ele pensa, como age e que tipo de pessoa é ao conviver com aqueles que, certamente, compartilham alguma coisa com este homem... Teremos como fazer da conquista algo completo.
O plano, sem dúvida, parecia perfeito quando foi traçado em concórdia com todos os presentes. E, de fato, funcionou por muito tempo. Contudo, seja na juventude ou na maturidade, a vaidade é veneno terrível! E eu não fui exceção. O excesso de confiança me cegou, fazendo-me crer ser melhor que todos aqueles que me cercavam. Em vossa linguagem moderna, poderíeis me qualificar como um "babaca".
* * *
Aurelius Ambrosius desencarnou mais cedo que pensávamos e no auge de sua "reunião" dos reminiscentes romanos de Avalon. A causa que o levara de volta à pátria espiritual foi enfermidade. Aquele era um homem honesto e bondoso, cristão nas ações (pois, leitores, não penseis que somente os convertidos e seguidores de Cristo viviam em batinas ou em templos; nem todo espírito que viveu fora destas conformidades era menos crístico em sua formação espiritual e moral. Vide Platão, por exemplo) e que tentou o que pôde refrear a leva de espíritos "atrasados" àquela terra que um dia mesmo abarcou o misticismo em sua forma mais pura. Mas quem de nós haverá de lutar contra a vontade do Pai? A verdade, para o bem ou para o mal, era que tudo aquilo era para acontecer. Se não pela via pacífica, pela outra via de acordo com os espíritos encarnados nestes tempos, infelizmente.
Contudo, seu filho, Uther Pendragon foi eleito rei à ocasião da morte de seu pai. Para os leitores modernos, explico: no século V depois de Cristo, Avalon era o nome dado para a região que acoplava sete diferentes reinos que vinham se formando desde a partida dos romanos. No entanto, cada reino, embora elegesse um chefe tribal sob o epíteto em latim "Rex" que significa rei, devia responder a uma autoridade maior que era visto como o Grande Rei. Esta figura aparecia em Vertigern, por exemplo, a quem reinos menores deviam obediência, e que foi perdida em rebelião que trouxe os anglos e saxões, ocasiando, afinal, em sua morte. Ambrosius, humilde que era, recusou o título de Grande Rei por não crer ser merecedor de portar tal título já que ele acreditava ter falhado em reunir toda a Avalon (que incluía o País de Gales e partes da Escócia).
No entanto, Uther era mais ambicioso que o pai e prontamente demandou que fosse reconhecido como o Grande Rei. Houve uma grande cerimônia situada em Londinum (atual Londres), e de lá observamos quão astuto era este soberano. Apesar da pompa, não de uma coroação, mas do conjunto de figuras aristocráticas e clericais (podendo estas variar entre o cristianismo e o não-cristianismo) em reconhecimento simbólico de seu poder, eu e meus companheiros notamos que o silêncio das tribos que um dia derrubaram Vertigern havia sido comprado com ouro e terras férteis.
Nessa época, infiltramo-nos entre tantos outros, vivendo no interior onde nem a Igreja mal estabelecida ou o poder político de reis menores nos alcançariam. Muitos de meus colegas se casaram, se é que posso usar este termo, já que eram, como os vikings depois deles, fora da tendência monoteísta. Isto, devo ressaltar, não nega que havia, sim, casamentos monogâmicos. Mas a poligamia, neste século, não era incomum.
--Está na hora--eu falei. Havia se passado quase dois anos, de pouco em pouco fomos pilhando, mas não matamos os vilões (homens e mulheres que viviam em vilarejos) porque queríamos que se espalhasse o boato de invasão. A ideia era que isso se mostrasse um descuido dos reis menores e, consequentemente, da incompetência do Grande Rei em proteger seus súditos.
Não me orgulho de minhas ações, Deus sabe em meu coração que viver em trevas é como cair eternamente em ignorância, como se vivesse em um loop infinito. Mas, de certa maneira, fui instrumento para que, do mal que fiz, propagasse o bem. Vereis o que digo a seguir.
Foram meses plantando a discórdia, incitando rebeliões aqui e lá. Confesso que, quando não bebia, a culpa remoía meu coração. Quando somos infelizes, projetamos nossas amarguras nos outros. Comecei a identificar defeitos nos amigos mais leais, embora não verbalizasse os pensamentos que, sem dúvida alguma, sintonizavam-se com outros desencarnados que queriam se vingar de mim. Como falei, foram tempos terríveis. Como ser feliz diante de tantas atrocidades?
As piores guerras, digo-vos, são as internas. Quando somos forçados pelas circunstâncias a olhar para dentro, a reconhecer que o outro de quem falávamos mal era um espelho de nossas próprias faltas. E vos deixo a pergunta: será mesmo possível fugir de nossa consciência pela eternidade?
Bem, eventualmente o Grande Rei de fato sofreu com as rebeliões que incitei. Foi na batalha de Iorvic que nossas espadas se encontraram. Espadas, lanças... Que seja! Era aço contra aço, força contra força. Homens gritavam, bradavam nomes, causas pelas quais lutavam. A verdade é que uma das causas do fracasso de Pendragon foi manter-se, em termos militares, em táticas há muito atrasadas. Hoje em dia, seria o equivalente a lutar usando um canhão contra uma bomba atômica.
E quando ele caiu, tornei-me eu o Grande Rei. E o dragão em breve não demoraria a ser derrotado.
* * *
Se pela tirania concorre o homem para alcançar seus fins, será pela tirania que os meios o tomaram pelo seu fim. A lei do retorno não é falível e ela, como a morte, não distingue o pobre do rico, o rei do camponês. Para tudo o que fizeres, há um retorno. E quanto mais insistirmos na cegueira, na recusa, no orgulho, pior será para nós.
Não governei sabiamente. Como poderia ser diferente? Aqueles que fazem da espada seu instrumento de controle, por ela serão controlados. A razão será subjugada pela emoção descabida. E é aí que reside a falta que nos faz cair.
Lamento, de fato, por tudo isso, pelo que fui naquela vida, mas aceito o passado porque ele concorre para sermos melhores no futuro. Se não aprendemos pelo amor, aprenderemos pela dor. Não fui exceção a este fato que nada mais é que reflexo, consequência da lei do progresso ao qual estamos todos submetidos.
Não vou me prolongar aqui mais do que já me prolonguei. Afinal, o que há de bom em rememorar os fatos de ser rei? Títulos são criações daí da Terra, a fim de distinguir soberbamente quem é sábio e quem não é, feitos para o exercício de uma dominação que não vos compete. Um dia, rezo eu, acordareis todos para isto. Uma governança justa não impõe medidas tirânicas, não segrega, não rotula, não categoriza. Não se faz escravo de outrem. E que governança falo eu? Da espada? Ou de nós sobre nossos resquícios sombrios que se perpetuam a cada existência até que não damos um basta em tais manifestações?
Arturo Pendragon ensinou-me isto. Foi um ser boníssimo e justo, e lembro das palavras que me açoitou quando nos encontramos em batalha. Assim disse ele:
--O senhor optou por esta tragicidade. Suas ações o trouxeram aqui. Um diálogo, um acordo teria sido o suficiente para que puséssemos fim ao ciclo tirânico. Não precisava ser assim.
--Fui educado pela espada--retruquei--Que melhor meio há que não esta para governar?
Ele me sorriu.
--Meu caro amigo! Nem os deuses são tão cruéis em fazê-lo crer que tudo se resolve nas guerras. Minerva foi sábia em evitar traçar batalhas que ela, em sua infinita sabedoria, reconhecia não atingir objetivo nenhum! Acha mesmo que Marte seria impetuoso em fugir ao diálogo? Há sensatez, razão, discernimento e prudência em guerras que não são lutadas. Somos um só povo, poderíamos compartilhar ensinamentos com os ignorantes que nos enxergam como seus pais. Se os deuses nos colocaram aqui foi por motivo. E, no entanto, por que quer brigar? Por que insistir nisto?
Ri eu, desdenhado. E a vergonha disto, leitor? Não nego que ainda hoje faz-me corar pálidas faces.
--No retumbar do trovão, a vergonha não há de me submeter ao seu domínio, romano!
--Não sou romano ou bárbaro. Sou apenas filho de meu pai e neto de meu avô eleito para reinar sobre pobres criaturas que se veem vitimadas pelo açoite de sua perdição.
--Não estou perdido!--berrei--Não olha para você mesmo e procura em você as faltas que em mim me expõem? Onde estava você e seus deuses quando pilhei e queimei, roubei e governei sobre todos? Quando exerci minha autoridade? Acaso ignora que sei mais que você sobre a terra que do seu pai tomei?
Arturo, sereno, sorria.
--Não ignoro nada que citou. E os deuses me trouxeram aqui, pois se pela razão não escuta, está na hora de partir. Em outra existência, talvez seja retirado dos seus olhos a venda que também atormenta seu coração.
E desembainhou a espada, desmontou de seu cavalo contra os protestos de seus valorosos amigos porque lutaria de igual para igual comigo. Com assombro, observei que mesmo naquele dia frio, ele mantinha-se confidente. Eu sabia do meu fim, mas recusei até o último instante a ceder.
--Perdoe-me, irmão. Não gostaria que isso se findasse desta maneira.
Como o ignorante que era, e assustado também, respondi sua gentileza com agressividade. A luta não demorou mais que duas horas. Vi tristeza sincera nos olhos de grande homem quando sua espada trespassou a cota de malha que me protegia. Senti liquido quente subir-me a garganta e, de olhos arregalados, todo um flash de uma vida passou. O ressentimento dos meus irmãos, a mágoa de meu pai, o sentimento de insegurança e prepotência, as pilhagens, o mal que eu fiz. E chorei, pela primeira vez em toda a existência.
Arturo me colocou no chão, também ele pranteando. Ouvi-o dizer:
--Vá em paz, irmão. Perdoo-o por tudo feito.
E as sombras, afinal, me levaram deste mundo infeliz do qual fiz parte.
* * *
Nota de Saewine: "A memória, encurtada para reforçar o propósito do ensinamento que, espero eu, tê-los trazido aqui, mostra várias questões que podem ser encontradas tanto no mito que se criou em torno de Arthur quanto nas sociedades medievais, mas igual forma no espiritismo. Contei a vós que vivi em erradicidade por muito tempo. Poderia ter mesmo compartilhado outros momentos de guerra de vidas passadas e até mesmo em algumas depois que me vi forçado a lutar, a reviver este lado bélico meu, mas escolhi essa porque foi aqui que ocorreu meu despertar. Como? Entendendo o que era certo e o que era errado. Quando fui parar nas sombras umbralinas depois disto, chorei em dor pelo que acredito ter sido muito tempo. Não quis ajuda a princípio porque mereci a dor que eu causei. Fui despertando e evitando, quando possível, as ações do passado. Em algumas vidas não obtive o sucesso que almejava, mas em outras já via progresso. E para além do túmulo também eu quis ajudar os que prejudiquei. Ainda hoje este trabalho não terminou. Quando temos a oportunidade de nos educar, meus irmãos e minhas irmãs, por difícil que seja colocar em prática o que nos foi ensinado, não deixem de tentar. Ninguém deste lado deseja que sedes perfeitos, pois perfeição é um conceito inexistente para vós que habiteis a Terra. Somente Jesus e outros espíritos de sua pureza se aproximaram deste estágio. E digo aproximaram porque Deus é perfeito e somente Ele. Em sua eterna graça, porém, Ele se compadece de nós. Como falei, nenhuma reencarnação é castigo. Se o é para vós, se assim vos sentís, é porque algo há aí. Sabemos que a realidade terrena, seja ela em qual tempo for, é difícil, principalmente quando reconhecemos os caminhos obtusos que conscientemente escolhemos tomar. Mas existe perdição eterna para isto? Por Ele que nos ama, não! Não, irmãos e irmãs, ninguém está perdido. A esperança existe em cada tentativa que não nos passa despercebido. Não deixeis que uma tarefa doméstica vos impeça de fazer o bem ao outrem, não deixeis que o outro que vos magoou tenha poder de estragar vosso dia... E principalmente, 'não vos deixeis em cair em tentação, mas livrai-nos do mal'. Cá deixo, pois, este ponderamento. Aonde for útil, é que lá estarei segundo a vontade do Pai que me leva e guia. Credes em vós como credes no Pai, Todo Poderoso. Credes em vossa mudança, vossa reforma íntima, como credes no auxílio do Bem que jamais cessará reforço aos que o buscam de coração aberto e sincero. Credes que nas batalhas internas, prevalecerá a luz do senhor, nosso irmão Cristo Jesus. Credes na transmutação como me ensinou mestre Saint-Germain. Credes, meus amados, no amor que Rowena busca iluminar em toda orbe. Credes na sabedoria de Lanto. Credes em tudo o que é bom, que somente vem do Pai que vos criou. E lembrai-vos de que em meio a esta crença, podeis 'perdoar a quem nos tenha ofendido' como gostaríeis que fostes 'perdoados' as vossas ofensas.
Peço desculpas por longo, mas necessário texto. E agradeço, primeiramente, é claro, ao Pai por ter-me trazido aqui, pelo bem que pude exercer segundo Sua vontade fizesse valer. À médium, meu carinho e minha admiração por ter-me permitido usufruir de conhecimento que possuídes e que ajudou em muito na mensagem que vim transmitir. Grato, minha filha, por isso. E ao vosso guia que vem te acompanhando há tantos tempos. E, claro, ao vosso anjo de guarda e guias que a protegem e velam por vós. Deixo cá meus agradecimentos. Que Deus continue a abençoando.- Saewine."
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