segunda-feira, 27 de julho de 2020

Contos Medievais, Romance I: Theobaldo e Helena.

Nota do guia de Ogum: "Estimados leitores, hoje daremos início a um novo ciclo de contos psicografados que, embora possa parecer simples para aqueles que desconhecem a espiritualidade ou mesmo aos que dela possam deter qualquer grau de conhecimento, se apresenta com propósito louvável. Estes contos serão divididos em três séries, assim qualificados: Romance, Tragédia e Guerras. Para cada um destes vivências das entidades que desejaram colaborar para o andamento da missão da médium, serão postas dentro destas categorias. Todas elas foram passadas em algum canto da longa Idade Média, que, em tese, cobriu os séculos V ao XV depois de Cristo. 
Sendo assim, hoje começaremos com os contos 'românticos' de Theobaldo e Helena, contado pelo espírito desta última. Quando for necessário, farei as usuais interferências a fim de explicar ao leitor determinado significado de palavra, evento, etc como de costume. Reforço ainda que a importância disto não está no nome, no lugar ou em que tempo a encarnação desta entidade ocorreu (ou das que virão psicografar a seguir), mas a mensagem que bondosamente se propuseram a trazer de tal experiência em Terra a fim de ensiná-los, se possível, a não repetir o mesmo erro. Nisto, chamo-os a atenção para não se aludirem a diferença de tempo e espaço porquanto o orgulho, a vaidade, a ira, a vaidade, dentre outras vicissitudes humanas, atravessam-nos até a vossa contemporaneidade.-George."

"Um dia atendi pelo nome de Helena, e neste foi quando optei por encarnar na França de Carlos Magno. Naquele tempo, era uma camponesa simples e de educação primária. Meu pai, outro camponês que devia obedecer à autoridade do suserano de nome Louis, era um vassalo que lutava contra as dificuldades de tais dias para que pudéssemos nutrir algum benefício em meio ao caos eterno da violência, da alta taxa de mortalidade, da fome, entre tantos outros fatores que infectavam e sangravam as terras francesas. 

Na realidade, devo ao leitor a explicação de que a França deste século não era como a França que pensa conhecer. Em verdade, era um conjunto de diversas terras que respondiam a duas autoridades. Sim, os "reis" costumavam ser irmãos que co-reinavam juntos sobre tantos súditos, camponeses e aristocratas. No entanto, o poder corrompe aqueles que não se preparam adequadamente para lidar com tal e não era de se surpreender, portanto, que tantos irmãos entrassem em disputa por ele e, no final, não faltassem com qualquer escrúpulo para mantê-lo. Em um passado não muito distante, que o futuro repetiria depois, isso havia sido o caso. Irmão matando irmão, um mero "empregado" matando seu "senhor" para que o poder caísse nas mãos daqueles que tinham em suas o sangue dos que o haviam ajudado em algum momento da vida. As leis eram somente eficazes segundo a vontade daqueles que a ditavam, embora fazer disto regra geral seria menosprezar aqueles de espírito avançado que se esforçavam por manter a ordem em tal lugar.

Quando Carlos Magno enfim se tornou rei, ele tomou para si o título de "senhor de todos os francos", pois era como nós éramos conhecidos. E, por um instante, todos se submeteram a sua régia autoridade. Mas ele não se contentou com os territórios herdados do pai e quis mais. Assim, passou a construir um império que levaria o nome de sua família e qual seria conhecido pela História da humanidade como "império carolíngio". Numa tentativa de trazer para sua época as ruínas perdidas do Império Romano, Carlos Magno foi feito Sacro Imperador Romano-Germânico. O primeiro a portar tal título e que reconhecia sua herança germânica, a mesma que, dizem os historiadores, foi responsável por derrubar o Império Romano nos tempos de Santo Agostinho.

Como imperador esfomeado por poder, Carlos Magno prontamente exerceu o poder de sua espada a qualquer custo. Em nome de nosso irmão Jesus e do Pai Maior, cometeu tantos crimes e encurtou várias vidas daqueles que, por "descuido", não compartilhavam de mesma fé. O amor de Cristo foi distorcido pelo amor à espada e assim foi que mais de 800 mil vidas conheceram o desencarne talvez antes do seu planejamento, embora isso seja especulação de minha parte: não existe imprevistos para a vida espiritual.

Voraz em seu comando, Carlos Magno colheu seus louros ao subjugar vizinhos e forçar a conversão a tantos outros. No entanto, chegou ao limite aos países nórdicos que souberam lhe resistir. Mas toda a Europa, e incluo os bretões que atendiam pelas tribos anglos e saxãs da Inglaterra, caiu em seu jugo. O sangue de inocentes, em nome de um só Deus, fazia queimar as terras, mas a consciência deste rei-imperador não se preocupava com isso. Ainda não, de todo modo.

Neste contexto, cresci. Apesar do poderio de Magno, ainda havia aqueles que se recusavam a abaixar a cabeça para sua autoridade e rebeliões, quando em quando, despontavam. Mas o rei-imperador designava os homens de sua confiança, tão cruéis quanto, para dar aos pobres camponeses o pior de si. Neste ínterim, meu pai tornava-se viúvo e contava três crianças para criar. Éramos pobres e a sobrevivência era uma luta que pedia por paciência, resignação, resiliência e fé. Mas tais fatores não nos isentava de ter medo. E como não ter diante das mortes avassaladoras que nos cercavam? Amigos próximos, vizinhos, nenhum deles ousava mais nos cumprimentar ou a qualquer um pelo que aconteceu a tantos outros de nós. O medo era o ar que respirávamos. E, por enquanto, não havia espaço para a esperança.

Mas agora vou falar de minha família. Minha mãe chamava-se Agnés e havia sido uma bela mulher em sua juventude, por mais que, ciente do que os homens da guarda do rei-imperador eram capazes de fazer diante de tal beleza, se esforçassem em se enfeiar. Seus pais, meus avós, eram também camponeses devotos, mas não em Cristo, porque nada compreendiam do latim das missas e sentiam-se, não sem razão, abandonados pelas autoridades clérigas. Rezavam ao deus do trovão, do rio, e asseguravam a sua única filha que tais deidades os visitavam e confortavam. (Nota de Ogum: os avós de Helena foram espíritos avançados moralmente para a época e de simplicidade de coração. As deidades que os visitavam eram guias e amigos espirituais que tomavam esta forma para facilitar a comunicação. Na verdade, os avós dela não compactuavam com a corrupção moral da Igreja e por isto "viraram as costas" para ela, embora prosseguissem no ensinamento cotidiano de Cristo. Em outras palavras, a fé deles nada mais foi do que a fé cristã, apenas maquiada sob outra forma e entendida segundo a época vivida. Mas foram tão "cristãos" quanto os próprios que se diziam ser e, na realidade como sabemos, não foram se não hipócritas que usavam o nome de nosso mestre e irmão para as crueldades praticadas no cotidiano). Com isso, mamãe trouxe este ensinamento à família quando desposou nosso vizinho, meu pai, chamado Clóvis. Tiveram uma união bastante feliz e amorosa, mesmo que papai enxergasse nas práticas de mamãe um resquício de feitiçaria que ele não compreendia. Mas tampouco julgava. Para os padrões da época, aquele respeito era raro, mas existia. 

Minha mãe não tinha uma boa saúde e, depois de dar ao pai três crianças (aqui nomearei meus dois irmãos mais velhos de Thorin e Odair), veio a falecer de complicações do parto. A dificuldade foi enorme. Papai encontrou na cerveja um conforto para a dor que a ausência da esposa querida lhe inculcou no coração. No início, ele me olhava com tristeza e quase me repudiava por lembrar a ele de mamãe. Mas foi Odair quem lhe trouxe à razão e disse que, mesmo sendo menina, não merecia menos que o amor de um pai. Odair era, assim como papai, cristão devoto e de coração sincero. Esforçava-se por converter Thorin, que, ao contrário, herdara de nossa mãe as religiosidades consideradas "pagãs". Apesar dos esforços diários que, por vezes, levava a perigosas divergências, o valor da família permanecia acima das diferenças e os dois irmãos esqueciam suas "rivalidades", unindo-se para me ajudar, ao pai, ou mesmo a eles dois.

No mais, por um tempo foi tudo de uma tranquilidade atípica. Papai passou a me dar mais atenção, contando-me de mamãe, pois guardava poucas lembranças dela em comparação aos irmãos mais velho, e instruindo-me nas artes domésticas, embora pouco conhecimento delas detivesse. Eventualmente, ele desposou nossa vizinha, uma senhora adorável chamada Adelaide, a quem me afeiçoei e que pôde me auxiliar no ensino feminino. Assim, fui ensinada a fiar, cozinhar, limpar a casa, tomar conta das poucas galinhas e alguns porcos que meus irmãos conseguiram obter. Foi Adelaide quem me levava ao mercado e me ensinava a verificar que fruta e legume eram próprios para comer. E ela também era  conhecida pelos comerciantes que, sabendo de sua simpatia e honestidade, muitas vezes se apeteciam de sua condição de pobre camponesa e faziam fiado até a carne que desfrutávamos.

Para mim, aquele cenário me inspirava tranquilidade e não aspirava nada mais que isso. Algumas das meninas do "bairro", porém, não se contentavam com o estado de pobreza e reclamavam cotidianamente de sua condição. Uma delas era minha melhor amiga chamada Samara. De origem judaica, seus cabelos eram negros como a noite e o rosto quase dourado à exposição do sol. Era bela e gentil, de bom coração. No entanto, desejava vestir-se com tecidos luxuosos e desfrutar de uma vida em que a morte não lhe bateria à porta toda a vez e onde poderia ver cavalheiros e até mesmo o rei-imperador, não obstante as crueldades que todos cochichavam constantemente.

"Querida amiga Helena", me disse ela uma vez em que papai me liberou dos meus afazeres para visitar Samara, que não morava muito longe de nós, "não aguento esta pobreza. É insuportavelmente difícil".

"A vida poderia ser ainda mais difícil", falei eu pensativa, "se não tivéssemos sequer o que comer."

Samara não tinha resposta para isso, mas, em vez disso, me encarou com seus grandes olhos escuros e prontificou-se a reclamar novamente:

"Meu pai era judeu, sabia? Mas foi deserdado da família por ter se casado por amor com uma não-judia, minha mãe."

"Que mal há nisso?", disse eu, um pouco chocada por aquela desaprovação. "Casar por amor é uma sorte que poucos de nós podemos usufruir."

"Amor não sustenta a casa", ela me lembrou com uma dura realidade.

"Mas é o pilar para a família", retruquei com um sorriso. "Afinal, nas dificuldades o esposo encontra apoio na sua consorte. Não é assim que dizem os votos quando se casam na Igreja? No amor e na saúde, na riqueza e na pobreza..."

"Na saúde e na doença", ela me corrigiu. "Nas alegrias e nas tristezas."

Sorri ainda mais diante do que ouvia.

"Veja só. Sabe mais do que aparenta. Desconfio de que também deseja ter o que seus pais têm."

Com o rosto enrubescido, ela respondeu:

"Sim, minha cara. Não nego que ser amada é um sonho de todos, mas, sabe, vejo os aristocratas usando belas roupas, alguns deles sendo carregados pelas liteiras, querendo de toda a sorte ter o que me foi impedido de ter."

(Nota de Ogum: eis aqui o exemplo de um espírito que não se conforma com sua escolha pré-reencarnacionista. Samara havia sido a rainha da Judéia em outros tempos, mas antes de encarnar, afinal, havia se comprometido a viver na pobreza para conhecer a humildade, o amor ao próximo, praticar a caridade, enfim, valores crísticos que nos movem sempre rumo à angelidade. Entretanto, sabemos todos que, na carne, sofremos outras tantas influências que podem nos afastar do planejamento inicial. Aqui, vemos Samara sentindo falta, inconscientemente, de uma existência anterior a qual se apegou, desejando ardentemente ter o que um dia possuíra e exercer o mesmo poder que, no passado, o fizera com crueldade. Como a sabedoria divina é prudente e bondosa, meus caros irmãos e irmãs!)

"Creio que nascemos pobres por alguma razão", contemplei. "Mas, como falei, podia ser pior. Por que não pensar no amor em vez das riquezas,  Samara? Do que adianta possuir terras e vestir as melhores roupas se o consorte a quem desposar diante de Deus a tratar mal, com indiferença e frieza? Dir-me-á, sem dúvida, que valerá a pena e aquiescerá perante seus deveres de esposa. Mas até quando isso a contentará? Ouço dizer que muitas das esposas, concubinas, seja lá qual nome respondem, do rei-imperador não podem criar seus próprios filhos. São as mais "pobres" que se encubem de ser a mãe daqueles que, pelas leis e costumes, são criados longes de suas genitoras."

Samara não me respondeu mais, mas pelo seu semblante, percebi que contemplava. Enfim, ela me sorriu como que timidamente e, tomando minhas mãos nas suas, disse:

"Concordo com o que disse, embora não esteja mais satisfeita do que antes com minha condição. Mas poderia ser pior, e devemos agradecer antes de tudo, certo?"

Sorri amplamente pela pequena modificação que consegui, pela graça de Deus, alterar em seu pensamento.

"De fato, Samara. Haveremos de ter esperança!"

Em seguida, passamos a conversar de amenidades. Mais tarde, me despedi de Samara e seus pais e rumei de volta à casa, que não era muito longe, mas precisava andar um pouco. Cumprimentei os vizinhos de costume, quando, de repente, notei dois homens de vestimenta mais rica que a de um camponês. Notando que dois cavalos negros enfeitados com uma cela de material rica e uma proteção que nenhum pobre teria condição de arcar, prontamente percebi que se tratavam de soldados do rei-imperador.

Arregalei os olhos quando os vi parados em frente à humilde casa onde habitava com minha família e, segurando na barra da saia do vestido marrom que usava, corri diante deles, rezando em meu íntimo--tanto para o Deus cristão quanto para aqueles a quem minha mãe e meus avós direcionavam suas preces sinceras--para que nada de ruim houvesse caído sobre aqueles a quem amava tanto.

"Senhores", eu falei mortificada, esbaforida, assim que cheguei. "A que devo a honra de recebê-los?"

Eles conversavam tão rápido entre si que pensei ter ouvido outro dialeto, mas ao meu ouvir falar com eles, um deles se virou para me responder. E foi neste instante que soube que minha vida mudaria drasticamente. 

Ele era mais alto do que os homens costumavam ser naqueles dias. Seu porte poderia ser confundido com o de alguém da realeza, os ombros jogados para trás e a coluna reta. Via-se claramente que era forte e, para minha própria consternação, me peguei imaginando se haveria incontáveis cicatrizes sob a malha negra que vestia e que cobria seu corpo. Seus cabelos eram louros como a luz e em seus olhos tão azuis quanto. O nariz era longo e as maçãs das bochechas eram altas. Os lábios eram finos e secos. Suas feições, pensei eu abobada como era, eram tão belas que o confundiriam com um príncipe. 

Também ele me fitou, segurando meu olhar com seriedade por tempo o suficiente para me fazer corar. Foi quando baixei meus olhos que o ouvi dizer:

"Sua Majestade Imperial recebeu reclamações de práticas pagãs nesta cidade", ele me informou, e me surpreendi por me responder não com frieza, embora tampouco amigavelmente. "Um dos bispos que atua em seu nome enviou-me para proceder se isto é verdade."

Pensei em meu irmão Thorin e foi quando voltei à realidade. Meu coração se acelerou e o medo empalideceu-me, mas me esforcei para ocultar daquele belo homem meus sentimentos mais íntimos. Afinal, precisei lembrar a mim mesma, estavam ali diante de mim os inimigos do povo, e, em breve, de minha família.

"Com todo o respeito, senhor, mas minha família é bastante respeitável e em tudo obedece às ordens de nosso soberano. A lei de Cristo governa nossa casa, asseguro-o disso", falei com firmeza.

O homem me encarou com relutância, mas seu companheiro arqueou as sobrancelhas e nos interrompeu dizendo:

"Se assim é, podemos verificar pessoalmente."

"Podem", afirmei com firmeza. "Se desejam esperar... Creio que meus irmãos e meu pai tenham se ausentado da casa."

"Por que motivo?" quis saber o companheiro daquele belo homem, um tanto quanto agressivamente.

Não consegui esconder o desdém quando falei:

"Ora, o senhor deve desconhecer as atividades de um camponês, certamente. Meu pai e meus irmãos, quando não estão em casa, trabalham para o duque de quem são seus vassalos. Hoje foi o dia da colheita e, portanto, como sustentam a mim e à senhora minha madrasta, foram cumprir com suas tarefas. Se assim porta alguma dúvida da alma daquele que sustenta nosso soberano, trarei aos senhores minha madrasta para dar testemunho de nossa vida devota ao Cristo."

Não houve resposta de ambos diante da firmeza com a qual me vi forçada a defender minha família. No mesmo instante, a porta se abriu e vi minha madrasta, Adelaide, nos observando com surpresa e, depois de entender o que se passava, horror. Prontamente, antes que tudo se desenvolvesse complicadamente, expliquei a ela o motivo da visitação daqueles senhores. Envergonhada, ela aquiesceu e confirmou tudo o que havia dito. Inspirada, quiçá por forças desconhecidas, abriu a porta e pediu que entrassem naquela casa simples.

"Perdoem-nos pela humildade com a qual os recebemos", disse-os ela, vestida em seus trajes de casa e com os cabelos arruivados presos sob uma touca. Em seus olhos claros observei uma força divina, e quase sorri diante disto. Gostava de pensar que mamãe a havia guiado para o nosso lar.

Desconfortáveis, os oficiais não viram outra opção a não ser aceitar o convite. Viram que era uma casa bem pequena, de fato, e não pude notar o desdém no segundo rapaz quando viu que os padrões de nossa vida eram insignificantes para aquele que deveria viver entre os nobres. Ainda assim, foi Adelaide quem o "quebrou" ao oferecer-lhe, gentilmente, um copo de cerveja:

"É tudo o que temos, mas garanto que a qualidade, embora longe de ser àquela que milorde tem o costume de bebericar, alivia em dias quentes como o de hoje."

Hesitantemente, porém, ele aquiesceu e eu ocultei um sorriso de meus lábios. Mais surpresa, porém, foi quando o vi ser inspirado divinamente a se levantar e oferecer qualquer ajuda à dona da casa. Apesar da relutância de Adelaide, diante da insistência deste ser, ela eventualmente aceitou. E agora estávamos eu e o belo homem à sós. Ruborizei.

"É uma bela casa", ele comentou. "Melhor das que eu já vi." 

Diante de tal comentário, optei por me abster de responder. Mas ele insistiu.

"A senhora vive aqui desde muito?"

Polidamente, o respondi:

"Desde que nasci, senhor."

Ele assentiu, pensativo. Movida pela vã curiosidade, embora muito mais pela atração inegável que me ligava a ele, falei:

"O senhor é desta região?"

Levantando seu olhar para encontrar o meu, respondeu-me ele com o que detectei ser um leve sorriso:

"Não. Venho de Paris."

"Ah."

"Mas lá ultimamente tem sido uma região impopular para o rei-imperador", me contou ele. Vendo a indagação em meus olhos, ele acrescentou: "Há muitas rebeliões ali, e algumas em nome de seus filhos."

"Oh", percebi, com a limitação que tinha do entendimento de política, o que aquilo poderia levar. "Não me parece bom."

"Não mesmo", ele concordou. "Mas que outra opção temos se não a obedecê-lo?"

Tal frase me pegou desprevenida. Percebi que havia muito mais nele que a beleza exterior poderia mascarar. Mordi meu lábio inferior e, hesitantemente, movimentei-me para ocupar um lugar ao lado dele.

"Sinto muito. Como poderia chamá-lo?"

Ele arqueou as sobrancelhas, mas não parecia surpreso com meu atrevimento. Em vez disso, respondeu:

"Theobaldo. Mas não sinta, senhora. Muitos de nós precisam fazer o que dispõem para sobreviver." E quando ele parecia indagar sobre o meu nome, seu companheiro regressou bastante satisfeito e de melhor humor.

Assim, ele se levantou e eu me vi desapontada quando, depois de breve trocas de olhares, o vi partir em conjunto com o rapaz. Observando minha reação, Adelaide se aproximou e, bondosamente, falou:

"Ele me pareceu um bom garoto, se quer saber a minha opinião. Forçado pelas circunstâncias a fazer o que, penso eu, em seu coração não faria. Afinal, os soberanos se mantém lá no alto porque usam, de acordo com sua razão, do poder que usufruem. Mas não é isto que vim lhe dizer. Ele a encantou, não foi?"

Incapaz de mentir, mas, envergonhada pela obviedade da resposta, baixei os olhos e nada falei. Adelaide riu e, acariciando meus cabelos, falou:

"Penso que ele gostou de você também, querida. Mas tome cuidado. Apesar de serem boas pessoas, ainda são criaturas que devem obediência a seres malévolos."

Entristecida com aquelas palavras, apenas assenti e prometi que me daria o respeito. Mas nada disso vale diante do poder do amor. No dia seguinte, também quando meu pai e meus irmãos se ausentaram para o trabalho, ele retornou, para minha surpresa--e meu contentamento.

"Senhor Theobaldo!", exclamei. "O que o traz aqui agora?"

Embora de sério semblante, Theobaldo corou. Limpou a garganta e disse:

"Creio que deveria investigar mais particularidades do caso e..."

Inspirada por um atrevimento que não me era natural, o sorri e falei:

"Acaso o senhor está inventando uma desculpa para saber meu nome?"

Diante do vermelho que pintava seu rosto empalidecido, ri e disse, alegre:

"Helena, senhor."

Desconcertado, Theobaldo assentiu com a cabeça. Naquele dia, vestia trajes mais leves e imaginei se ele não pretendia vir incógnito, como se desejasse se desassociar de sua obediência ao bispo braço-direito de Carlos Magno.

"Encantado", disse ele, sem emoção.

"Gostaria de algo para beber?", ofereci docemente. Quando nossos olhos se encontraram, soube de imediato que meu coração era dele. Oh, que sensação enebriante em encontrar aquele que espelhava sua alma!

"Seria rude de mim recusar", disse-me Theobaldo, adentrando enfim a casa.

Adelaide, que, na ocasião, varria a casa, não se surpreendeu com o regresso do oficial do bispo. Ocultou um risinho e, arranjando qualquer desculpa, nos permitiu ficarmos à sós na sala.

"E o que traz aqui, afinal?" perguntei, depois de lhe dar um copo de cerveja para beber.

"Para ser bem sincero, seu bom espírito me trouxe aqui", ele respondeu. "Conheci pouquíssimas moças como a senhora em toda a minha vida."

Não negarei ao leitor que diante deste "pouquíssimas moças", despontou em meu coração o terrível ciume. Mas prontamente o controlei: como poderia senti-lo, e com qual direito, se mal o conheci? Não era ele homem livre para conhecer damas segundo sua vontade? Contudo, tal pensamento me direcionou a outro tipo de reflexão. E se ele veio com a intenção de fazer-me amante sua? Sabia muito bem de nobres senhores que utilizavam-se de sua posição para desonrar donzelas na região. Igualmente estava ciente de que, no dia em que casarei com homem de escolha de meu pai, poderia passar a primeira noite com o duque. Por isso, me ouvi dizer:

"Se pensa que entregarei minha virtude ao senhor, está enganado. Sou virgem diante do Cristo e se não sou sua noiva foi porque o senhor meu pai guarda planos para mim."

Pela primeira vez, vi Theobaldo arregalar os olhos e, para minha grande surpresa, cair em gargalhadas.

"Mas ora", bufei em protesto, lutando para não rir tampouco, "que direito tem para rir de mim desta maneira?"

"Perdoe-me, senhora", disse-me Theobaldo com um sorriso que derreteu qualquer resquício de orgulho que pudesse ter sido ofendido com seus maneirismos. "Mas não pensava que a senhora teria pensado desta maneira. Não sou, por suposto, este tipo de homem."

Com vergonha, admito que fui orgulhosa quando retorqui:

"Palavras não me subornam, senhor Theobaldo."

"Os bardos teriam se sentido ofendidos com sua afirmação, senhora Helena."

E aquela frase fê-me sorrir tanto quanto ele.

"Admito que não esperava que o senhor tivesse qualquer senso de humor."

"E a senhora costuma julgar os que não conhece tão frequentemente?"

Corei diante daquela exposição de minhas faltas.

"Não nego que errei", falei então, "mas como pensar de outra maneira quando está associado a uma classe de guerreiros que a tudo obedece segundo diz sua senhoria?"

Com tristeza, lamentei pelo sorriso ter sido desvaído dos belos sorrisos daquele homem.

"Não temos outra opção. Dependemos dele", foi o que me respondeu. "Cresci numa aldeia miserável, senhora. Órfão desde tenra idade, fui tratado quase como um escravo por parentes próximos. Quando começaram a convocar homens para servir o rei, assim que tive idade, me alistei. Não recomendo isto a ninguém, é verdade, mas para mim... foi um meio de vida que me sustentou. Não é com soberba que afirmo que não sou mais pobre, porém, ainda sou dependente de meu senhor."

Franzi o sobreolho diante de sua história. Aquilo propôs uma alteração de perspectivas de tudo o que pensava saber dos velhos inimigos do povo. Constatei que não deveria julgar o que desconhecia. E me envergonhei de ter alimentado tal vício de caráter.

"Lamento por ouvir isso", falei. "Mas vale a pena? Não pensa que somente mudou um senhor para outro?"

Como se conformado pela vida que tinha, Theobaldo deu de ombros.

"Que outra opção teria? Permanecer maltratado e aguentar em silêncio as vicissitudes que a vida me impunha? Não seja maldosa comigo ao inspirar-me tal pensamento, senhora. Não sou um santo para me pretender tal santidade."

Sorri diante de sua frase e falei:

"Em nós todos habita o véu da santidade, embora poucos são os que levam a sério. Mas peço ao senhor minhas sinceras desculpas pela soberba com a qual julguei o senhor e sua decisão. Não foi minha intenção."

Theobaldo, como se movido por uma inspiração desconhecida, tomou minha mão na dele. Surpresa, porém, não a recusei. Apenas tornamos a nos entreolhar por uns minutos, como se nós nos reconhecêssemos afinal. Contudo, antes que retomássemos a palavra, a porta se abriu abruptamente, fazendo com que nós nos repelíssemos o toque e assim foi que apareceram meu pai e meus dois irmãos.

"Mas ora essa!", bradou meu pai. "Que está acontecendo aqui?"

Adelaide veio correndo em nossa direção e, quando pôs a explicar tudo o que aconteceu, a expressão de meu pai atenuou-se. Já um senhor de quarenta e dois anos, seu rosto estava marcado pelo sol e cicatrizes de trabalho eram vistas ao redor das bochechas em torno das mãos. Seus cabelos castanhos à luz do sol pareciam ruivos, mas envergonhado destes, costumava apará-los quando podia. Acompanhava-os, mais jovens, seus filhos e herdeiros. Thorin, o primogênito, era, como eu, portador de cabelos ruivos. De olhos castanhos e nariz torto (quebrou-o depois de ter se metido em uma briga qualquer na taverna da cidade), era belo mesmo com os lábios finos, herdados de nosso pai. Era forte e seu temperamento refletia o fogo das madeixas. Ao lado direito do pai, o mais novo, Odair. Católico fervoroso e franzino, preparava-se para entrar na ordem agostiniana. Cortou os cabelos, também ruivos--ainda que mais escuros--, embora mantivesse uma barba mal cultivada. De olhos claros, seu rosto era oval e inspirava bondade. Embora cândido, ainda havia traços de orgulhos que o levava a embates direto com Thorin, como já os informei antes. Conforme crescíamos, porém, as brigas diminuíam.

Theobaldo os recebeu bastante bem e foi cortês em maneiras e falas. Surpreendeu-os a todos, que esperavam de um oficial do reino um tratamento quase impuro e indigno da posição que nos foi designada desde o nascimento. Assim foi que a ligação entre nós todos se firmou prontamente. Mas quando ele partiu, Thorin veio ter comigo.

"Estimada irmã, devo conversar com você sobre um assunto delicado."

Eu ri. Sempre fui afeiçoada aos meus irmãos e talvez tenha herdado deles uma língua afiada, mas era tão próxima a eles que, mesmo na juventude, Thorin não era muito paciente com meus carinhos. Não obstante, éramos apegados uns aos outros.

"Já antevejo o assunto", disse eu.

Ele ignorou minha provocação.

"Theobaldo é um homem e como tal procura pelas donzelas para satisfazer-se as necessidades que marcam seu sexo", disse ele, direto como costumava ser. "Não permite que suas intenções, mascaradas tal qual um lobo sob a pele de cordeiro, as engane, minha irmã. Você tem seu valor e, logo mais, um marido adequado desfrutará segundo as leis do sagrado matrimônio."

Senti um desapontamento desconhecido diante disto. Deveria, todavia, me surpreender com aquilo? Não havia outro destino para mulheres como eu, principalmente camponesas. No entanto, por que sentia que meu lugar estava ao lado de Theobaldo? Ora, me repreendi mentalmente, mas que tolice sugerir outra coisa. Thorin era o mais mundano de todos, e como irmão meu, não diria inverdades. 

Vendo o desapontamento em meus olhos, Thorin suavizou e disse:

"Cara irmã, por que a tristeza em tão belos olhos? Acaso não pensou realmente que ele seria como o rei Arthur foi para sua rainha Guinevere?"

Sorri e, piscando os olhos, falei:

"Nunca pensei que o amor poderia ser adequado à gente como nós".

"Não", ele concordou. "Apenas devemos seguir com nossos deveres, e se deles surgir um amor tal qual aconteceu com nossos pais, os deuses nos abençoaram, de fato."

Tomada por uma intuição abrupta, isso fê-me recordar do propósito original que trouxe Theobaldo e o amigo à nossa casa.

"Quanto a isso, Thorin. Devo alertá-lo para ser mais cuidadoso com suas preces e sacrifícios. O bispo está ciente de suas ações, e sabemos como é Carlos Magno diante de qualquer manifestação religiosa que ele enquadra como não-cristã."

Thorin franziu o sobreolho diante de meu aviso e precipitava-se a reclamar quando, pensando melhor, calou-se. Diante da preocupação que estampava meu rosto, porém, ele tomou minhas mãos e assegurou-me de que tomaria cuidados. 

*                                                                                    *                                                                      *
Theobaldo me visitou por mais uma semana antes de partir para a Lombardia. E mesmo quando podia, escrevia-me cartas. Naquela época, não era comum que moçoilas fossem instruídas na arte da leitura. Todavia, como meu irmão Odarin havia recentemente entrado para a Igreja, ele, quando podia, me ensinava a ler. Assim é que, à época da primeira carta recebida, a li com muito afeto. No entanto, não ousei responder, pensando que esta seria uma união que o rei-imperador não aprovaria.

Mas Theobaldo regressou e, para meu grande contentamento, veio a mim. Seu amigo, cujo nome tomarei como Johann, passou a acobertar nossos encontros. Assim foi que, em meio a tudo isso, o amor floresceu externamente. Neste dia, com a permissão dada por meu pai, que nutria esperanças para um casamento e a oportunidade de ver sua estimada filha sair da pobreza, fomos caminhar pelos arredores dos jardins que levavam ao bosque. 

Ali, à sós, ele tomou minhas mãos nas suas e professou seu amor:

"Minha senhora, nestes tempos em que estive fora, doeu-me não receber qualquer resposta sua e que agora compreendo quando me deu sua justificativa. Mas feriu-me mais ainda sua ausência. Não poder contemplar a forma como sorri com seus olhos castanhos, nem sentir o perfume de seus cabelos, tocar as madeixas e sentir o fogo delas escorrer pelos meus dedos. Estar longe da senhora impediu-me de dormir, e a preocupação que me afligia todas as noites em ignorar seu bem estar foi como um soco no estômago. Ouso dizer que desconhecer a reciprocidade que possa haver entre nós dois doeu-me mais que a queda de cavalo em guerra ou pior que receber o golpe de uma espada, incapaz de apará-la. A que custo é não saber que se passa com a senhora, Helena. Diga-me de uma só vez se alimento ilusões e, caso sim, que as desfaça prontamente."

Com que ardor ele pronunciou tais palavras ao mirar-me nos olhos! Com que paixão abriu seu coração para mim com intensidade por mim desconhecida! Meu impulso era beijá-lo nos lábios, mas tamanha era sua ansiedade que refreei-me e, com lágrimas vertendo de meus olhos, falei-o da seguinte maneira:

"Oh, Theobaldo que ao meu coração é tão caro! Como pode confabular em impossibilidades quando pertenço a você desde o primeiro dia em que repousou seu olhar sobre mim? Como pôde cogitar que estivesse imaginando coisas quando eu sinto o mesmo que você? Durante todas essas vezes em que me veio visitar, acaso ignorou a forma como o observava? Ou como sorria debilmente a qualquer palavra sua? Nunca tomou nota da felicidade que enchia meu peito e resplandecia em meu sorriso ao vê-lo feliz e rir? Sequer percebeu o rubor que queimava minhas faces diante de todo e qualquer elogio que me dispensava? Ao contrário, devido a minha posição social, penso eu ser indigna de suas atenções e longe de ser merecedora de amor tão puro! Como posso eu respondê-lo à altura? Devota que sou, porém, garanto ao senhor que homem algum o substituirá em minhas ternas afeições. Ouso mais, se me permite dizer, que sonho em ser a mãe de seus filhos e amá-lo com todo o meu ser!"

"Helena, minha amada!"

"Theobaldo, amor meu!"

E para calar os tambores de nossos corações, enfim selamos nosso destino com o mais apaixonado dos beijos. Não passou pelas nossas mentes do atrevimento deste gesto porque como resistir ao impulso de amor verdadeiro que liga duas almas em uma só? Como não ignorar as convenções somente porque tal gesto possa ser mal interpretado? Que tolo nunca amou, eu pergunto? O amor sincero, e não o carnal, a tudo desafia e sobrepuja. E conosco, não obstante o que vivíamos, demonstrava-se em tal felicidade nunca antes almejada.

"Sê-me esposa minha", ouvi-o dizer e diante disto verti lágrimas de felicidade. "Helena, por que prantear? Não penso em mais nada que não você, em acordar ao seu lado e fazer de minha senhora e dona de tudo o que possuo!"

"Que assim seja, meu senhor", respondi-o alegremente. "No entanto, não se engane! Pranteio por felicidade, não por tristeza. Saber que sou correspondida é como se Deus bondosamente permitisse ter uma visão do próprio Céu!"

Assim estávamos. Noivos, comprometidos. Que Deus e seus deuses testemunhassem aquela cena, tal reencontro de almas. No entanto, o mundo em que havíamos encarnado não estava preparado para aquela felicidade, sendo ela passageira e sujeita a tantos seres maliciosos e infelizes. A dificuldade, lamento dizer, viria como tempestade depois de breve calmaria.

*                                                                                    *                                                                     *
Para consternação de todos, o bispo não cedeu permissão para a realização do casamento. Segundo Theobaldo, que um servidor do rei e valoroso guerreiro desposasse uma camponesa qualquer... estava para além das leis de Deus.

"Que a tome como amante, eu pouco me importo", lhe havia dito o homem. "Conquanto não se esqueça dos deveres que tem para com seu rei-imperador!"

Theobaldo, não obstante, tentou outra vez mais com o próprio soberano na oportunidade que tivera. Como resposta, foi enviado às longínquas terras do oriente para cumprir três anos de pena. Embora persistente no amor, ele cumpriu com seus deveres e instruiu-se em tantas outras tarefas. Conheceu o budismo, que teve nele uma impressionante influência. No entanto, por maior esclarecimento que pudesse ter sobre as realizações no pós-vida, nada o impediu de regressar.

No meio tempo, recusei todas as vontades de meu pai de casar-me com alguém da sua escolha. Embora tivesse perdido sua paciência, eventualmente nós nos reconciliamos e ele concordou esperar até que ele voltasse. Quando Theobaldo voltou, não obstante as negativas obtidas, consumamos nosso amor. E naquele mesma noite, concebi nosso primeiro filho.

As tensões estavam aparentes, e, segundo diziam por aí, Carlos Magno estava morrendo. Mas a realidade para nós, camponeses, era deveras outra. Havia seca, pragas, mortes, guerras, doenças... Tudo o mais para ocupar nossa mente. Todo cuidado era pouco. E quando me descobri grávida, meu pai novamente esbravejou e, desta vez, Theobaldo esteve presente para ouvir.

"Filha minha não será mãe de bastardo nenhum! Que se dane o bispo, ou despose ela agora, ou terá sido responsável por arruinar a reputação de bela moça!"

Embora temeroso de desagradar o bispo, Theobaldo não era covarde. Ele não pensou duas vezes e, com ouro o suficiente no bolso, contratou um padre adequado para o testemunho do casamento. Foi um cenário feliz que apaziguou, por ora, as tensões. Ali foi que casada, eu me mudaria para a residência de Theobaldo, à oeste de Paris. No entanto, uma tragédia acabaria por adiar tudo isso.

Thorin foi descuidado em suas práticas de fé e, para grande deleite do bispo da cidade, foi enfim preso e acusado de heresia. Theobaldo tentou argumentar a seu favor, mas o bispo o ameaçou de acusá-lo de auxiliá-lo se não se afastasse. Como estava a ser pai de uma criança que poderia ser seu herdeiro, e temendo ter suas propriedades confiscadas pela Igreja, ele aquiesceu. Foram dias desesperadores, e o estigma social teria marcado a nós todos. 

No entanto, a sentença foi computada e trocada para servidor cristão porque... Carlos Magno, o poderoso rei-imperador da França e de domínios afora... enfim faleceu. E, a despeito dos esforços do bispo, havia amigos de Theobaldo na Igreja que, favorecidos pelo herdeiro de Carlos Magno, impediram a morte de meu irmão. Todavia, Thorin foi obrigado a converter-se efetivamente e, para a agonia de nosso pai, entrou na Igreja como padre. Agora atendia pelo nome de Paulo. Enviado às fronteiras da França com o que na sua contemporaneidade é a Alemanha, demorariam vários anos até ouvi-lo outra vez. 

Mas nosso pai foi poupado das dores da falta de um herdeiro porque, logo, dei à luz ao um menino. Chamamo-no de Saulo. A felicidade doméstica parecia, enfim, perfeita. Não éramos incomodados pela Igreja, e nesse ínterim, vivíamos com meu velho pai. Concebi novamente, mas as nuvens da tempestade chegaram desavisadas.

Uma guerra civil manchou a França novamente, opondo dois irmãos em busca da sagrada coroa de imperador romano-germânico. Quem era verdadeiramente o herdeiro de Carlos Magno? Mais importante, a quem a Igreja apoiaria e coroaria? Hesitante, ela, a princípio, não se meteu. E meu esposo, amado meu, foi chamado para servir. Eu nunca mais o veria outra vez.

"Theobaldo", chamei por ele. Era madrugada e eu despertei angustiada. Havia tido um sonho, uma premonição, sobre sua morte. Via seu cadáver ensanguentado, e isso muito me custou o coração. "Acorde, acorde."

Ele abriu os olhos e me encarou, assustado diante da minha aflição.

"O que houve?"

"Não vá à guerra, eu imploro", falei, não compreendendo, em verdade, a mensagem do sonho. "Por favor."

Theobaldo me acolheu em seus braços e, depositando um beijo afetuoso sobre minha fronte, disse:

"Infelizmente, amada minha, não escolho meu destino. Sabe disso, e que se pudesse, desafiaria o mundo para ficar ao seu lado e ver nossa família crescer..."

"Não diga uma coisa dessas", retruquei, ríspida. "Se é assim que vai ser, volte para mim, meu amor. Por favor."

Estávamos desolados porque ambos sentíamos a mesma coisa. O fim de nós estava a vir e não havia nada que pudéssemos fazer para impedir. A calamidade ocorreria em breve. Assim, abraçamo-nos e beijamo-nos, amamo-nos como se não houvesse amanhã. Mas o amanhã chegou e ele se tornou o presente temido.

"Não se esqueça de que o amo", falei com lágrimas nos olhos.

Como se impelido por força maior, Theobaldo, também ele piscando lágrimas dos seus, veio a mim e beijou-me terna e intensamente. 

"Eu a amo mais que tudo, senhora. Voltei, Helena. Voltarei para os seus braços."

Mas quando ele partiu, meu coração o seguiu. 

*                                                                                 *                                                                         *
Enquanto Theobaldo preparava-se para seu desencarne, também eu me preparava para o porvir. As dores do parto vieram antes do previsto, e aquele seria um longo e difícil, ao contrário do anterior. Para nosso desespero, havia poucas mulheres na cidade dispostas a ajudar. Mas, para minha surpresa, Samara veio ao meu socorro. Foi então que ao lado de Adelaide, prontificaram-se a tentar a trazer a criança a este mundo.

A dor, meus caros, era insuportável. Não havia conforto, somente dor. A cama, outrora meu lar, não mais me refugiava. Suor pingava da testa, e o desespero aumentava para tirar a criança do meu corpo. Que ela viesse viva, eu rezava desesperadamente. Pelo amor de Deus!

"Puxe, Helena!" Me estimularam as mulheres, em suas vozes a preocupação. A indicação que algo estava errado.

No entanto, fiz o esforço. Mas sentia-me fracassar e isso fê-me chorar. O desespero aumentava, eu desejava tê-lo aqui perto. Onde estava Theobaldo? Podia ouvi-lo chamar meu nome, incentivar-me. E meu coração se partia, porque eu pressentia... pressentia que ele não mais vivia.

Então, gritei. 

E quando tive a visão do sonho realizando-se, gritei de novo.

Gritei por Deus. Por Theobaldo. Pensei em Saulo, e tentei evitar outro grito para não assustá-lo, mas as batalhas das mulheres eram lutadas no parto. E conforme ele se aproximava, uma luz invadiu o quarto. Luz que ninguém mais via.

Uma bela moça em trajes púrpuras vinha, iluminada, ao meu lado. Trazia com ela, Theobaldo. Quando constatei o que se passava, minha mãe e meu esposo, chorei copiosamente.

"Filha, acalmai-se", disse minha genitora, falando tranquilamente. "Tenha fé, seja perseverante. O reencontro ocorrerá em breve, mas não se entregue ao desespero. Sê humilde, agradeça ao Pai e entregue a Ele toda sua dor, que logo findará. Nenhuma aflição é eterna. Pense em nosso irmão, Jesus, na cruz, que suportou a transição na fé"

"Mamãe..." murmurei. "Perdoe os erros desta filha sua. Esforço-me, mas não é o suficiente. Socorre-me..."

Enfraquecia-me e sentia o fim. Mas minha querida mãe me sussurrava palavras de conforto, e Theobaldo ajoelhou-se ao meu lado e disse:

"Nós conseguimos passar a todas estas provações juntos, meu amor. Um instante mais e estará em meus braços novamente."

Chorei. Ele continuou, tão doce quanto em vida havia sido:

"A criança nascerá e viverá bem, e por ela quanto ao seu irmão velaremos todos os dias."

"Eu te amo", falei, exausta.

"Também a amo, bela Helena."

Deitava-me novamente no travesseiro, ensopada de suor. Ouvia palavras de estímulo ao distante, mas tentava me concentrar nas preces que fazia. Se Cristo suportou a cruz na fé, também eu poderia atravessar a dor do parto. Abracei a aflição, em meio ao desespero, e enfim a criança saiu de mim. Um berro, um choro a plenos pulmões e eu cumpri minha missão.

No entanto, não poderia ir. Não agora. Embora me congratulassem pela criança saudável, o semblante de preocupação indicavam que a situação não era boa. Não obstante, recusei que chamassem outros conhecidos da saúde pela região, e pedi para segurar minha bebê. Era uma menina.

"Chamarei-te Mariam", murmurei, fraca. "Em honra da mãe de Jesus, Todo Poderoso. Mamãe te ama, minha filha. E seguirei a amando mesmo que não esteja mais aqui para protegê-la deste mundo cruel. Mas tenha fé e seja humilde, encontre em Cristo a força de que precisa para as batalhas que lutará".

Choravam Adelaide e Samara, prometendo a mim que cuidariam de Mariam e Saulo. Trouxeram-me ele e meu pai afinal, e, mesmo chorando a despedida, inspirada por minha mãe falei:

"A separação é breve, meus amados. Não pensem que isto é o fim. Logo mais, nosso Pai nos reunirá outra vez."

"Descanse, Helena", sussurrou a voz de Theobaldo. "Venha descansar em meus braços, minha bela."

E foi assim que em complexa exaustão, adormeci..."

*                                                                               *                                                                              *
Nota de Helena: quando despertei no mundo espiritual, o foi sem quaisquer problemas de ligação com o corpo deixado em Terra. No entanto, foi preciso todo um processo para me limpar das energias terrícolas tanto pelas questões emocionais quanto espirituais, tendo em vista que havia escolhido aquele modo de "morrer" para me regenerar de pecados pretéritos cometidos. O Pai em sua infinita bondade me concedeu a presença daqueles que mais amei, minha mãe, embora a tivesse conhecido pouco em vida, fomos bastante próximas em outra; e meu amado Theobaldo. Quando fui esclarecida, ou melhor, me lembrei das instruções em torno da espiritualidade, me senti muito tocada por isso. Reunir-me com os amados é um presente que devemos ser gratos. As diferenças, principalmente quando em Terra, existirão, mas não para opor uns aos outros e sim aproximar ainda mais. Cada um com sua individualidade, voltando-se para o bem. Tendo isso em vista, eu e Theobaldo, almas afins, procuramos mais uma encarnação para findar os débitos reminiscentes. Optamos por sempre nos reencontrar como casal, pois em jornada dura, os frutos colhidos são doces. E o Alto, com a graça divina, concedeu-nos tal permissão. Assim foi que nós encarnamos pela última vez na Itália na época da 2ª Guerra Mundial. Desde o findar daquela existência, temos trabalhado espiritualmente pela Terra. Recusamos, por este motivo, o conhecer de outros planos, mas isso não é definitivo. O importante agora é semear o bem, a caridade, a compaixão, a humildade e, acima de tudo, o amor. O amor paciente, o amor humilde, o amor sem posse, o amor empático, o amor puro. O amor que compreende. Nada é impossível, tenham fé. E foi por isso que vim escrever esta memória que me é tão querida e me ensinou tanto. Meus agradecimentos ao Pai que permitiu que esta missão se realizasse sem complicações, e à Médium e ao seu Guia, seu Mentor que fizeram possível transmitir esta mensagem. Que Deus os acompanhe, meus amigos e irmãos, nesta longa empreitada. Com muita certeza, seguirei os acompanhando. Com amor, Helena e Theobaldo.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Bahia de Todos os Santos

"A história que contarei aqui é breve, embora carregue tantos aprendizados que trago comigo até os dias de hoje. É uma memória que penso, humildemente, ser relevante transpor. Não me aprofundarei nos pormenores do dia-a-dia, nem me alongarei por toda a encarnação vivida, me atendo mais ao que creio ser importante contar aos que se dispuserem a ler e, ainda mais importante, a aprender. Desde já deixo aqui meus agradecimentos por esta transmissão, pelo carinho que tenho com a médium e com toda a paciência que o Pai assim designou para que tudo isto aqui pudesse ser levado à frente.  
Maria Caterina do Congo."

"Quando vim a nascer, os dias eram outros e muito diferentes destes que demarcam a contemporaneidade deste século ainda nascente. Brasil não existia enquanto entidade política e sua existência era eclipsada pelo poderio de Portugal, cujo império capturou e desbravou em nome do Senhor as terras virgens e já outrora ocupadas pelos nossos irmãos vermelhos. Na precisão de uma lupa, esclareço-os: nasci em 1785 na ascendente Bahia quando nosso país ainda era colônia e cuja economia movimentava nossos dominadores da época. 

Não me compete julgar o comportamento de nossos irmãos daqueles tempos, por mais tristes que muitos deles possam ter sido movidos. Mas quem nunca errou, que atire sua primeira pedra. Em termos da espiritualidade, Deus não erra de endereço, meus filhos. Como os dizia, encarnei em tempos obscuros, marcados pela grande influência da matéria, onde, em nome de Jesus, nosso irmão, cometiam-se as piores atrocidades. 

A escravidão era vigente e, sob suas correntes, vivi. Não deve surpreender a nenhum conhecedor desta época que vim de um pai senhor de terras que pensou amar, se não possuir, a pobre sinhá por ele escravizada e tratada como objeto segundo valia sua vontade. Apesar disto, sua esposa, cujo nome darei por Isabel, me adotou como filha em face do falecimento prematuro de minha genitora: não suportando os algores desta encarnação, perdeu a vontade de viver assim que nasci. Embora de classe social mais "alta" que a minha, seu coração era humilde. Era verdadeira cristã e procurava diariamente dissuadir seu esposo de manter em nossas terras irmãos em Cristo que por suas mãos foram tomados como escravos. Ainda que como resposta recebesse ofensas verbais e físicas, ela não desistia e rezava diariamente. Antes do nascimento de seus filhos, fui criada por ela com gentileza e tomei-a como mãe. Nomeou-me Ana Maria em homenagem às santas que, na verdade, lhes abençoou no plano espiritual antes mesmo de sua encarnação.

"Vejo em você", me contava ela quando eu ainda tinha cinco anos, "a sabedoria de Santa Ana e a doçura de Santa Maria. Que essas suas características não se percam neste mundo cruel, minha querida filha."

De um laço que vinha de outras vidas, inclinei-me quietamente àquela mulher de doce temperamento. Ainda me recordo de sua aparência: sua estatura era média e seu corpo, franzino, não reportava grandes sinais de saúde robusta. Embora frágil, conservava uma beleza singular: seu rosto era oval, seus cabelos louros eram cacheados e os olhos eram do castanho mais escuro em que havia posto o olhar. Seu rosto, pálido como a luz do luar, esquivava-se da maquiagem importada das cortes europeias e tal falta de vaidade irritava o marido, que acreditava fazer da beleza de sua consorte objeto de exibição de sua própria soberba diante de uma sociedade afeita às aparências.

Sinhá Isabel era amada por todos nós. Tratava todos os irmãos de pele escura com o mesmo amor que a mim me devotava, ganhando, assim, seu devotamento. Mesmo o mais rebelde deles acatava os pedidos desta nobre mulher. Quando eu alcancei a idade dos sete anos, me recordo de ter testemunhado uma cena terrível aos olhos de qualquer ser humano de coração enternecido: este senhor "rebelde" chamado Zé, que, em verdade, não aceitava sua situação, quase perdera a vida depois de ter sido cruelmente chibatado pelo sinhô da casa. Se sua vida não findou-se ali foi pela intercessão de Isabel, sua esposa, que foi cuidá-lo ali mesmo, ante o horror do esposo que não mergulhou nas densas trevas da cólera por intermédio espiritual.

"Perdoe-me, senhor Zé", era assim que nobilíssimo espírito se dirigia a homem que, não obstante sua injusta condição, descontava em suas companheiras a raiva de tal forma que não irei a fundo. "Perdoe-me por não ter impedido meu esposo agir desta maneira para com sua pessoa. Somos todos irmãos em Cristo, e sinto que deveria advogar mais pela sua causa e a de seus irmãos. Compreendo o sentimento que nutre por nós todos, mas ainda venho implorar-te o perdão pelas faltas cometidas por nós."

Lembro-me dos olhos de Zé se arregalarem entre a vergonha e a compaixão, as lágrimas sinceras velando seu olhar.

"Sinhá Isabel, suas palavras e bom coração me comovem. Sei que se esforça no que é possível para nos libertar, e, apesar de pensar que seu Cristo em nada tem feito para nos auxiliar desta miséria imposta, agradeço que o único conforto deste ser a quem reza tenha-me trazido a senhora. Não nego que ódio nutro por seu esposo, mas a senhora deixo aqui meu perdão e todo o amor que por você nutro."

"Agradeço comovidamente por suas palavras, irmão Zé, mas não desejo ser dirigida como "sinhá", pois este título engrandece o que não posso e nem ouso engrandecer. Ao contrário, o que nos separa aqui é a posição que todos os dias luto para alterar. Ainda que meu pobre esposo esteja acorrentado às vicissitudes que nosso Cristo nos estimula a combater pelo amor que nosso Pai carrega por todos seus filhos, peço-lhe ainda assim perdão para que o ódio, embora justificadas sejam suas razões para senti-lo,  não atormente sua alma."

Tendo o cuidado ali mesmo, na praça diante de testemunhas perplexas, respondeu Zé:

"Ora, senhora, já não sou atormentado? A senhora, por bondosa que seja, não sente o que sinto. Vejo em seus olhos empatia e compaixão, mas que podem eles com um homem aprisionado por seu semelhante? Como perdoar quem me causa dores no dia-a-dia? Isabel, não é objeto de meu rancor, asseguro-a, sim. Mas não posso conceder perdão a este homem."

Isabel suspirou e pranteou em silêncio, tendo nada mais respondido enquanto cuidava das feridas de Zé. Afinal, o que mais dizer para um espírito amargurado, fixo em sua decisão? Não obstante o peso das palavras daquele homem, Isabel tornou a cuidar dele... mesmo que, à noite, todos nós escutássemos seus gritos quando cruel consorte abria a porta de seus aposentos.

Em meio ao calor da batalha travada entre a escuridão e a luz, fui criada dentro dos dogmas cristãos daquela casa. Era invisível aos olhos do patrão e assim era melhor. Isabel, que a cada dia enfraquecia mais, se esforçava para dar continuidade aos seus deveres crísticos. Sendo assim, mesmo a cada gravidez, não olvidava sua missão comigo. Ensinava-me a cozinhar, a cozer e, também, na sabedoria feminina. 

"Minha mãe", ela me confidenciou quando eu já contava onze anos, "era conhecedora de ervas e da medicina que, a contragosto, cabe aos homens de letras. Confidencio isso a você, Ana, porque sei que é minha filha de coração e de alma. E o conhecimento, lembre-se disto, deve ser sempre passado à frente."

Embora tivesse uma vida amorosa ao seu lado, temia aquela casa. Quando possível, fugia junto aos meus irmãos de cor, apesar de desconfiança que imperava dos mais rancorosos. Uma vez, ouvi da mãe de uma amiga:

"Quando o chicote bate, onde você está, Ana Maria? Rezando a um Deus branco para esquecer de suas origens, sua pele, a fim de que se torne branca?"

Palavras eram como facas e flechas: uma vez atingidas o alvo, faziam-no sangrar. No primeiro momento, chorava, mas foi a filha desta mulher, quem nomearei Rita, que disse:

"Sê forte, Ana. Não somos recompensados pela nossa dor?"

"Como pode dizer uma coisa dessas?", murmurei incompreensivelmente. Não escapei à infantilidade da época, embora lamentasse por ter dito aquilo. Por isso, prontamente me corrigi: "Que quero dizer é, você não pensa o mesmo que todos eles?"

Rita tinha os olhos mais escuros que havia visto e sua pele de bronze parecia reluzir ao luar. Gostava de trançar os cabelos e sorria em meio às dificuldades da vida. Sábia, pôs-se a dizer:

"Não digo que me alegro com a nossa condição, mas eles se esquecem de que você também luta para sobreviver tanto quanto nós outros. Ninguém deveria julgar. Cultuamos nossos orixás quando os senhores brancos adormecem, e deles recebemos os mais humildes valores que poderíamos apreender."

Lembrava-me destes cultos, mas não tinha a oportunidade de me apresentar a eles porque os filhos de sinhá Isabel necessitavam de minha atenção e, a despeito da bondade desta senhora, seu esposo demandava que os assistisse de perto. Por isso, ausentava-me. Por isso, era interpretada daquela maneira pelos que faltavam compreensão.

"Conte-me mais, por favor", pedi.

Sorrindo porque estava ciente do que se passava, contou-me Rita:

"Ontem à noite desceu até nós Oxalá, filho de Zambi. Emocionou-nos a todos com seu aviso, pois disse ele assim: 'filhos meus, não são esquecidos por este que vem aqui confortar o peso que habita e afunda seus bondosos corações; crê em mim quando digo que estou com vocês em suas lutas diárias, auxiliando-os e inspirando-os a resistir estas provações diárias. No entanto, o que mais o amordaçam: as correntes que envolvem seu corpo ou aquelas que prendem suas almas? A resistência não vem na resposta do ódio sobre o ódio, na violência sobre a violência, mas no amor que a tudo perdoa e dissolve. As terras de seus ancestrais sangram diariamente, algumas pelas mãos de seus próprios irmãos, e a eles também não perdoaram? Não amaram? O que difere do agora? Creiam quando digo que pranteio por cada um de vocês, que não desisto como o Pai não desistiu. Vejo o rancor, a amargura, a dor que cambia em cólera, mas, meus irmãos, não se trata disso. A fé que os faz olhar para nós de cima não pode ser a mesma que os faz olhar com ira para aqueles que os crucificam. Peço-os apenas que os perdoam, meus irmãos e minhas irmãs. Perdoam seus algozes, pois eles não sabem o que fazem'."

Ao fim daquela mensagem, pranteei copiosamente. Senti que necessitava fazer algo a mais, mas Rita apenas tomou minhas mãos nas suas e falou:

"Não se exija, minha irmã. Todos nós carregamos o mesmo fardo, em pesos desiguais porque a cada um segundo suas obras, não é mesmo? O que você faz a cada dia é mais do que eu ou minha mãe ou qualquer um de nós poderíamos fazer. Não se diminua, mas guarde o hoje para que amanhã possa coletar bons frutos."

"Que Oxalá a abençoe", eu falei, abraçando-a fervorosamente.

Rita sorriu e, tendo retornado o gesto amigavelmente, falou:

"A você também, querida Ana. Lembre-se que Nanã tudo faz vagarosamente, mas com sabedoria porque nada lhe escapa os olhos, seja o passado, o presente ou o futuro. As sementes precisam ser semeadas apropriadamente para que resultam em belas árvores a fim de colhermos nós os seus frutos."

"Que assim seja", eu disse, pensativa.

Mas a dificuldade não me escaparia, é claro. Na verdade, em meu íntimo a aguardava. Isabel cumpriu com sua missão em meio a tantos obstáculos, mas o Pai a chamou segundo se fez Sua vontade. No entanto, o sinhô, seu esposo, ele também escravo, mas de forças obscuras, dominou todo o ambiente de forma infeliz. Tomou como amante a mãe de Rita, minha amiga, espírito que com ele possuía bastante afinidades. A revolta na senzala explodiu eventualmente e, conforme crescia, tornei-me o centro da raiva de ambos.

No entanto, por tristeza que sentisse mais ainda de sofrer retaliações físicas da irmã de cor, compreendi suas limitações. Rita a tudo tentou para amenizar a situação, mas logo ela atraiu os instintos embrutecidos de sua genitora. Foi uma juventude conturbada para nós duas, mas que soubemos enfrentar de frente. Quando podia, passei a frequentar os cultos aos orixás sem com isso me escusar das missas que me encantavam.

Neste meio tempo, cresciam a um ambiente doméstico obscuro os filhos de Isabel que um dia ajudei a criar e tomei mesmo como irmãos meus, apesar das injúrias raciais que receberia de alguns deles e do pai de ambos--que, ora, não era meu genitor também? Nomearei-os Clara, Josefina, Enrico e Teobaldo. Como primogênito, Teobaldo foi criado para herdar as propriedades do pai e, em sua juventude, foi até mesmo enviado à Lisboa para cursar advocacia em uma de suas universidades. Retornaria com o orgulho e a vaidade aos extremos. Enrico, enciumado da atenção dada ao irmão mais velho, se esforçaria para ser o favorito do pai. Na realidade, era ele quem o refletiria em todos os atos, pobre ser. Clara e Josefina, porém, eram mais bondosas e as verdadeiras herdeiras da luz de Isabel. Nós três éramos vistas constantemente juntas tal qual espíritos afins e mui amigos se reencontram depois de tanto tempo separados.

Apresentei-as à Rita e, logo, viramos um quarteto. Mesmo em meio aos dias ruins, encontrávamos refúgio umas às outras. Até o dia em que decidimos assistir o culto dos orixás, pois desejava, eu mesma, aproximar todos a uma só carne, a um só espírito, e que as desavenças impostas entre nós pela cor era nada se não a requisite da crueldade de um pobre homem que merecia nossas preces. Neste dia, celebrávamos o dia de São Sebastião. Na Bahia, seu equivalente era nosso Ogum. Com isso, mesmo para os desconfiados párocos que frequentavam a residência da família de Isabel, não fazíamos nada de errado se não rezar para os santos católicos. 

Em um irmão nosso apresentou-se o guerreiro Ogum. Disse-nos ele:

"Em tempos obscuros nos quais a ignorância motiva o desdobrar da violência, através da qual o homem branco, tão irmão de vocês quanto nós daqui, crê deter poder sobre seu semelhante, é imprescindível a resistência de sua parte. Vieram cá para lutar, irmãos e irmãs, para que reforçar a nobreza de seus ancestrais, de suas almas, da coragem que os permeia. Se plantam lágrimas agora, amanhã colherão a glória. Enfrentei batalhas e guerras árduas como a de vocês. Mas como fazê-lo pela vingança? Não cultivem este tipo de sentimento, eu os peço. A coragem é pura e merecedora daquele que empunhar a espada por motivo descabido do "eu". Estão todos juntos aqui por um motivo, e sabem cada um de vocês qual é. Urjo a cada um aqui presente para que a coragem que os norteia a viver cada dia enfestado pelas densas trevas deste ambiente infeliz, seja feita e renovada no amor. Se Oxalá é o rei do mundo foi Zambi quem o coroou. Se estou aqui, foi porque Ele mandou. E continuo defendendo-os meus irmãos. Ogum não os abandona, nunca os relegou ao esquecimento. Não pensem nisso. Quando caem, caio com vocês. Quando choram, choro com vocês. Quando o chicote bate contra a pele negra de vocês, também bate contra este Ogum aqui."

Fez-se uma pausa para nos encarar com olhar firme. Não havia uma pessoa que não pranteasse diante de palavras tão comovedoras.

"Não alimentem o medo, meus confrades", a entidade continuou. "O medo leva à raiva, e em sua pior manifestação... Não quebrará suas correntes, não as afrouxará, muito pelo contrário. Por difícil que seja, uma batalha perdida não significa guerra desperdiçada. Enquanto houver forças, resistam e lutem. Por vocês, por seus irmãos. A prece é a espada de que necessitam. E ninguém derruba Ogum, crianças minhas. Lembrem-se disso. É preciso coragem para enfrentar o inimigo, e quando olharem para ele, lamentem pela infelicidade que este ser se cerca... Pois quem de amor se alimenta e vive não precisa utilizar do mal para com seu semelhante. Amor, fé e bravura, todos vocês possuem de sobra. Que a paz esteja com vocês, meus irmãos."

Apesar destes estímulos, era difícil para muitos de nossos irmãos despertar encorajado na manhã seguinte. Onde encontrar a força de Ogum e a sabedoria de Oxalá em meio ao ambiente recheado de preconceitos, no qual homens brancos ou nem tão brancos assim acreditavam ser superiores aos seus irmãos? Que outra raça escravizaria seus semelhantes para objetivo nenhum que exacerbar sua vaidade, seu egoísmo? No entanto, devemos reconhecer que a lei do Pai é infalível: se hoje somos dominados, foi porque ontem dominamos.

Ainda assim, procurei estimular em meus irmãos diariamente as palavras que Oxalá transmitiu a mim através de Rita e incentivar a coragem que Ogum nos passou naquele dia. Contudo, tudo o mais viria a piorar porque entre nós pairava uma traidora. A mãe de nobre amiga nos espionava e quando disse ao seu amante sobre nós e o que fazíamos de fato na noite anterior... Coube-lhe nenhum remorso ao entregar a própria filha nas mãos do algoz. Ao seu lado, recebi chicotadas. Mas se naquele dia nossas vidas foram poupadas, foi pelo intermédio do plano espiritual. Afinal, por mais difícil que fosse nossa caminhada, precisávamos cumprir nossas missões.

Assim foi que comecei a atuar como parteira logo em seguida a esta ocasião. Irmãs minhas engravidavam do sinhô e, embora algumas  delas não desejassem manter a pobre criança no ventre, procurei estimulá-las a agir contrariamente. Que outro amor mais puro se não do filho? Não possuía culpa do pai que tinha e eu mesma era fruto disso. Mas nem todas as crianças viviam, algumas das quais porque suas missões eram breves, outras porque não suportavam a rejeição maternal tão forte. Mesmo quando a mãe de Rita engravidou e o sinhô me convocou, também estive lá. Ignorava seus insultos, por mais que doessem meu coração ouvir tamanha ingratidão. No entanto, em meio ao medo, encontrei a coragem de Ogum.

Ainda hoje me recordo do sonho que recebi da entidade que trabalha sob a luz deste orixá. Estava eu em um lugar desconhecido, onde a noite e o dia pareciam disputar o domínio sobre o ambiente. Entre os dois, repousava eu. Armado todo em azul e vermelho, me apareceu nobre homem de pele dourada e olhos escuros montado sobre um cavalo branco.

"Ana Maria" ele me direcionou a palavra, "que faz sentada aí?"

Como se o reconhecesse, falei:

"Repouso um pouco, senhor."

"Não sou senhor de ninguém, minha cara irmã", disse-me ele suavemente. "Levante-se, brava Ana. Ou deixará as trevas dominarem o campo de batalha?"

Assim que o fiz, pranteei.

"Temo perder, caro Ogum. Não anseio reclamar da minha vida quando meus irmãos padecem pior. O que me angustia, ao contrário, é não poder lhes fazer nada."

Pacientemente, respondeu-me Ogum:

"Espera que de tão longa batalha se vença pronto a guerra?"

"Como não?"

Ele sorriu e respondeu:

"Sabe por que muitas guerras demoram anos a serem vencidas? Porque há inúmeras batalhas perdidas. Não obstante, a vitória não está lá?"

Humildemente, abaixei a cabeça e repliquei:

"Mas a vitória é para quem, senhor Ogum?"

"Não sou senhor, sou seu irmão", ele me corrigiu delicadamente. "Mesmo para o perdedor, é também uma vitória. Quando se tira um ensinamento da tragédia e a partir dela se modifica seu caráter, não é isso uma vitória, irmã?"

"Perdoe-me, irmão Ogum, mas me falta visão disso nas pessoas com quem convivo."

Ele riu e disse:

"Primeiro, levante estes olhos, Ana." E quando o fiz, ele prosseguiu. "Segundo, me diga uma coisa, apenas isto: o que o meio em que nasceu te ensinou até agora?"

Não precisei de dois segundos para dizer:

"A valorizar a vida a que Zambi me deu. A perdoar setenta vezes sete vezes senta os carrascos. A amar o próximo e ter coragem para superar os obstáculos". No entanto, chorei depois de dizer isso.

Compreensivo, falou-me Ogum.

"Não se sinta envergonhada por chorar suas cicatrizes e pelos outros. Isso te engrandece aos olhos do Pai. Há muito que nossos irmãos encarnados necessitam aprender, e foi por isso que você, minha irmã, optou por descer entre eles nesta roupagem. Em meio à dor, independentemente do grau que ela se manifeste, ensinou às mulheres a amarem seus filhos, a ensinarem a superar as circunstâncias, a terem coragem de enfrentar os inimigos. Em meio à tristeza, educou suas irmãs para a aflição que diariamente aquele que chama de "sinhô" impõe aos nossos irmãos da África. Em meio ao desespero, agarrou-se a sua fé, ao seu conhecimento e procurou ser útil em tudo o que fizesse. Não obstante tudo isso que disse, resigna-se a sua humildade. Mas pensa que está só?"
"Não sou merecedora de sua companhia, irmão Ogum", falei cabisbaixa. "Fiz pouco quando podia ter feito mais."

"Não permita que a vaidade sonde espírito tão puro, Ana Maria", ele me repreendeu amigavelmente. "Ignora por ventura minha presença aqui? E quanto a sua missão?"

"Perdoe-me, mas não entendo", admiti envergonhada.

Ogum sorriu e tornou a explicar:

"A missão de cada encarnado é diferente segundo a individualidade do espírito que desce à Terra. Não se compare com outros, afinal, cada um de acordo com suas obras. Sendo assim, a dor de um não vai ser a mesma que a de outro. Abandonará por ventura aquele envolto em densas trevas?"

Sentindo-me encorajada, falei:

"Não. Desejo amparar os necessitados, custe o que custar."

"Mesmo que a estrada seja feita de percalços?"

Assenti com a cabeça, firme em minha decisão. Com um sorriso, Ogum falou:

"Que a luz a ampare, Ana Maria. As santas a rodeiam... E sua mãe também."

"Isabel?", exclamei de alegria.

"Ela mesma." 

E assim, a noite se dissipou para dar vazão à luz do dia. Quando despertei, sem com isso lembrar do sonho, guardava em meu íntimo renovadora coragem. Percebi que meu propósito de vida não era vir a ser amada, mas amar. Não era ser consolada, mas consolar. Não era encontrar paz, mas dar aos outros a paz que buscam. Não era sobre mim, mas os outros que necessitavam. Onde houvesse medo, que eu levasse a esperança. Onde houvesse ódio e rancor, que eu pudesse levar amor e perdão. 

Mais tarde, naquele mesmo dia, fui designada pelo patrão para acompanhar Clara ao mercado na cidade. Mais um escravo e um padre de confiança do homem nos seguiriam de perto. Já nessa época, a família real de Portugal havia transferido sua corte para o Brasil, elevando a colônia ao status de Reino Unido de Portugal. A fim de evitar serem submetidos à tirania de Napoleão Bonaparte, Dom João, então príncipe regente, decidiu aceitar a ajuda oferecida pela Grã-Bretanha e enfim aportaram na cidade. No entanto, já havia muito se estabelecido no Rio de Janeiro na ocasião em que visitava o centro de Bahia.

Foi um dia colorido e as perspectivas pareciam ser bastante promissas com a chega da família real portuguesa aos nossos domínios. Recordo-me das constantes celebrações de faces sorridentes, independentemente da cor que estampava seus corpos. Negros e brancos comungavam juntos por um ideal que, encarnados, não sabiam, mas desencarnados reconheceriam: a breve nascença do Brasil enquanto país ocorreria logo. Afortunados eram aqueles designados pelo Pai para encarnar diante de tal marco histórico.

No entanto, adianto ao leitor que, infelizmente, não vivi o suficiente para testemunhar essa separação idealizada. Na realidade, vivi dias relativamente tranquilos antes do desencarne. Não me alongarei muito mais, meus amados. Quando Teobaldo regressou ao país, veio todo cheio de pompa, como já havia os avisado antes. Esquecendo-se de que eu um dia lhe prestei amparos fraternos tal qual uma irmã se dirigiria a um irmão, pobre rapaz, embevecido, tentou fazer-me sua concubina. 

Com a coragem reunida em mim, foi a única vez que ousei levantar a voz. Assim lhe disse:

"Como pode tentar algo assim, Teobaldo? Não se recorda de que nossa amada mãe nos criou para sermos irmãos, como o somos, pois seu pai também meu é?"

Teobaldo me encarou repugnado e, para poupar os olhos sensíveis do leitor, direi apenas que me insultou de todas as maneiras possíveis. Teria ocorrido algo pior se seu irmão não houvesse interferido. Para minha surpresa, Enrico provou ser diferente do pai. Não contei aqui, leitores, porque não cabe a mim adentrar na história deste espírito querido, mas Isabel, do plano espiritual, obteve mais sucesso na mudança deste filho do que no outro. Quando despertado, Enrico procurou o capelão de seu pai, homem mais justo de coração e dali considerou entrar no sacerdócio, sentindo um chamado sincero. A contragosto, o pai concordou, mas, infelizmente, não seria para ser.

Enrico, antes de defender a minha honra, pediu-me o perdão. Embora surpresa, e com um mal pressentimento crescendo em mim, concedi. O próximo cenário me pegou assombrada. Afinal, Teobaldo, em seu impulso embrutecido, foi tomado de cólera e prontamente desembainhou a espada somente para ceifar a vida de Enrico.

Não sei avaliar se foi um erro ou não, mas meu pranto chamou a atenção de todos. E tudo se desenrolou como haveria de ser. O patrão não culpou a morte de filho que decrescia em seu afeto, não se lamentando pela perda. Mas viu neste acesso um motivo para me castigar. Rita implorou para ir em meu lugar, mas eu lhe neguei.

"Precisa permanecer, irmã", falei com coragem, sentindo que meu próprio fim estava próximo. "Nossos irmãos necessitarão de seu amparo e sua fé. Não os esqueça em suas preces e no esclarecimento que precisarão para a guerra por vir. Nossa luta não se findou."

Em prantos silenciosos, Rita aquiesceu. Sorri a ela uma vez mais e, antes de ser arrastada por dois companheiros que o sinhô designou, falei:

"Não pranteie por mim. Como Oxalá disse uma vez: perdoai nossos algozes, Rita, pois eles não sabem o que fazem!"

Amarrando-me ao tronco, olhei para aquele homem uma última vez. Sinto que agora posso descrevê-lo bem. De estatura média e pele descuidada pelo sol, seus olhos eram castanhos claros e o nariz longo, tipicamente de quem possuía ascendência italiana. Os lábios estavam cobertos por extensa barba e as roupas indicavam seu status social. Olhei-o dentro dos olhos e disse:

"Eu o perdoo por crucificar-me, sinhô. Na ignorância que as trevas o rodeiam, não reconhece seus pecados. Que Deus, Nosso Senhor, o perdoe e o conserve em boa saúde para que se redima antes do tempo passar."

"Cale-se!" E gritou mais um enxurrada de ofensas, que não mais feriram meu coração.

Com tristeza, porém, vi tantos queridos e queridas prantearem a cada chibatada que feria minhas costas. No entanto, amparada por Nanã e pela Virgem Maria, nada temi. Ogum me cercava a fim de que pudesse me inspirar coragem para a última batalha, pois o desencarne se aproximava e era próximo o momento em que declararia vencida a guerra. E conforme me cansava, veio seu Ogum velar meus olhos e inspirar-me o sono. Assim, adormeci e não senti mais dor. Quando tornei a abrir os olhos, cercava-me de amigos e familiares. Enrico, mais esclarecido, estava entre eles e me regozijei quanto a isto. Agora era esperar por Rita, Clara e Josefina, as irmãs que "deixei" para trás. No momento oportuno, porém, regressaria para auxiliá-las em seus momentos mais difíceis. 

Desde então, tenho atuado n esclarecimento, no auxílio, no amparo naqueles que necessitam, estejam eles nos planos espiritual ou físico. Como mostrei neste fragmento de memória da última encarnação em Terra, o amor anda de mãos dadas com a coragem. Juntando os dois, é possível vencer os obstáculos que nos aparecem, sejam eles qual for. Quando nosso irmão encarnado nos ofende, o responderemos com amor. Quando outro nos insulta, lhe daremos amor. Quando nos deparamos com injúria e todo tipo de afrontamento, silenciamos nosso coração e ofereçamos ao necessitado o amor que precisa. Seres infelizes que não têm consciência esclarecida sobre seus feitos machucam o próximo porque ainda se atém às vicissitudes da carne (como a soberba, a ira, a arrogância, dentre outros). Todos erramos, por isso não devemos julgar nem condenar nosso algoz. Que sejamos amor. Volto a dizer, meus amigos, que o amor a tudo vence. É no amor que encontramos as virtudes em Cristo, em nosso Pai Maior, seja qual for a crença que o norteia nesta encarnação. 
Que Ele os acompanhe. Com amor, vó Maria Caterina do Congo."

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Crepúsculo dos Deuses

"Helena era a mais bela dama de toda a Frankia. Nascida na mais alta classe da aristocracia, foi a segunda de três crianças de Charles e Bertha. Esta, por sua vez, era a irmã de um rei chamado Louis. Portanto, Helena fazia parte da realeza e seu tio régio guardava planos grandiosos para esta princesa de seu sangue.
Desconhecendo o futuro que lhe aguardava, porém, Helena seguia uma rotina bastante estrita imposta pela mãe: cedo, às 7h da manhã, ela despertava e às 8h ela assistia a missa junto aos pais, os dois irmãos e, ocasionalmente, na presença do rei e da rainha. Em seguida, quebrava o desjejum e logo dava início às lições apropriadas a de uma moça de sua posição. Costura, instrução nas artes religiosas (curiosamente, a mãe de Helena convenceu seu pai de que ela deveria saber ler para que pudesse exercer esta faculdade teológica), em particular das sagradas escrituras, dança, música e, claro, línguas. Sob a supervisão de sua atenta mãe, Helena era educada por três tutores: o responsável pela sua educação religiosa cabia a um monge chamado Johanne; aquele pela música e dança era um cortesão segundo a escolha do rei e uma dama de companhia da mãe foi escolhida para instruir Helena nas artes domésticas.
Apesar deste cenário agradável, Helena, embora impecavelmente obediente e cristã em todas as suas atitudes e pensamentos, sentia-se inexplicavelmente presa e com tal anseio pela liberdade que acreditava ser incapaz de expressá-lo em voz alta. E ainda que o fizesse, seria incompreendida.
Havia dias nos quais a melancolia tomava conta de seu espírito. Como sua mãe não a permitia sair sem sua companhia, Helena passava muitas das horas livres dentro do castelo, ora na biblioteca, pra em seus aposentos privados tocando o alaúde. Para os que desconheciam sua frustração interna, a vontade de conhecer o exterior, o cenário de uma natureza livre e destemida que se apresentava ao lado de fora, Helena era pura e quase uma santa. Uma vez o pai mesmo sugeriu colocá-la no convento. E foi a única vez em que surpreendeu os pais ao protestar veemente sua vontade.
--Não! Não irei ao convento, não serei enclausurada mais uma vez.
--Mas o que é isso, filha? Servir a Cristo não é prender-se ao vazio--contestou-a o pai, estarrecido por aquela reação e prontificado a dar-lhe um sermão quando a esposa o interrompeu, capturando a essência dos pensamentos da filha.
--Creio que ela tenha querido dizer que seu dever descansa no tradicional papel a que venho educando-a, marido. Para que seja a esposa devota de um consorte merecedor.
Fingindo ser esta a questão, Helena, com um meneio de cabeça, concordou prontamente. O pai muito se aliviou e trouxe à mesa com peculiar animação os possíveis nomes dos pretendentes de sua única filha. Embora sair do domínio dos pais fosse um sonho para a adorável princesa, ela reconhecia que o casamento só representava a liberdade no campo das ideias. Afinal, sua mãe nunca cessava de agarrar uma oportunidade para lembrá-la de obedecer, aquiescer e ser humilde àquele que a esposará perante Deus.
Sendo assim, poderia ela ser livre um dia ou permaneceria como um mero peão segundo a vontade parental? Apesar desta frustração interna sem quaisquer motivações aparentes, Helena reconhecia que sua vida não era de todo ruim e que havia privilégios dos quais poderia desfrutar. Um deles era poder dançar na corte de seu tio quando o rei convidava a família de sua nobre irmã para uma visita. Uma vez em Paris, Helena acompanhou suas primas em vários passeios pelos longos jardins que enfeitavam a residência régia.
E mesmo dentro do longo castelo de pedras onde morava, havia músicos que, para seu deleite, habilidosamente dedilhavam os alaúdes para alegrar seu espírito quaisquer que fossem as circunstâncias. Com suas duas damas de companhia, Clothilde e Adèle, amigas de infância que permaneceram ocupando esta posição mesmo depois do acordo feito pelas mães destas com lady Bertha, mãe de Helena, não havia motivo para tristeza.
Assim foi a maior parte de sua vida. Agora, contudo, havia Helena atingido a idade adulta aos 16 anos, quando veio a sangrar pela primeira vez. Na ocasião, a senhora Bertha veio aos seus aposentos e, enquanto penteava os cabelos dourados da bela filha, disse:
--Seu tio, o rei Louis, pediu que fôssemos à corte e certificou-se de que soubéssemos de que pretende desposá-la com alguém de sua escolha. Não se esqueça de que agora já é uma mulher, Helena. Suas responsabilidades, portanto, são outras.
Helena bondosamente aquiesceu e viu, através do reflexo do espelho que pairava sobre a escrivaninha que ocupava uma pequena parte de seus aposentos, o orgulho brilhar nos olhos de sua mãe. Por algum motivo que não lhe coube descobrir, aquilo partiu seu coração, mas conformou-se como costumava fazê-lo. Murmurou um agradecimento e, tão logo seus cabelos foram trançados por lady Bertha, ela se achou só novamente.
Caminhou até as janelas de forma a fitar os campos verdes e o lago azul ao fundo no belo cenário que raríssimas foram as vezes em que o explorou. Invejou os camponeses que, sob seu atento olhar, caminhavam com uma alegria incomum a sua posição. Podia ouvi-los cantar e ela se indagou por que o faziam. Detectou a inveja corroer seu coração e, identificando-o como um pecado nocivo, decidiu que deveria rezar três vezes mais como penitência.
Na manhã seguinte, lady Bertha e seu esposo, acompanhados de Charles, Louis e Helena, junto a uma pequena comitiva, viajaram para a residência do rei Louis. Uma vez lá foram recebidos bem, ignorantes quanto a uma invasão dinamarquesa que operava ao mesmo tempo em que punham os pés no castelo do soberano dos francos. Neste meio tempo, saqueadores vikings sob a liderança de Reginald adentraram Paris no que não seria nem a primeira ou a última vez que isto ocorreria. Mas a população, como de costume, sofreria com seus atos, a maior parte da qual teve suas vidas ceifadas pelo aço da espada quando não foram findadas pelo machado que carregavam tais homens.
Se fogo e sangue manchavam Paris, no castelo de pedras que o rei piedoso fez questão de inaugurar, músicas alegres animavam o ambiente e os cortesões desfrutavam de seus privilégios a fim de exibirem suas riquezas, traduzidas em vestimentas cujos tecidos vinham de lugares como a Itália ou tão longe quanto o Mediterrâneo. Em seu traje azul veludo que lhe cobria as mangas, Helena se recusou a adornar-se mais do que exigia sua posição. Entretanto, adorava suas madeixas douradas, as quais deixou cair soltas pelas costas, certa de que assim a embelezava ainda mais. Nas orelhas, via-se brincos discretos de esmeralda e nas mãos, alguns dos anéis que adorava usar.
Ao entrar no grande salão do rei Louis, Helena, como seus pais esperavam, capturou a atenção de todos, posto que o azul veludo refletia a cor de seus olhos. Isto, no entanto, a assustou, desacostumada que estava com este tipo de bajulação. Na verdade, a sermos sinceros, ela não gostou nem um pouco disso. Contudo, como seus pais eram orgulhosos, pouco importava como a filha se sentia e, assim, prontificaram a pavonear a pobre Helena para atingir seus próprios fins.
Infeliz, Helena, há muito acostumada a jogar o jogo de lady Bertha e sir Charles, aquiesceu segundo as vontades de seus pais e forçou um sorriso a estampar seus belos lábios rosados para qualquer pretendente que fosse do agrado dos pais ou do rei. Dançou com cada um dos filhos dos nobres senhores presentes, embora desfrutasse pouca afeição ou quase nenhuma por aqueles seus parceiros. Eles tampouco inspiravam qualquer insígnia de respeito, a arrogância deixando claro que era apenas sua beleza que os importava. Mas Deus guarda os mais estranhos momentos para escrever certo em linhas tortas.
Assim sendo, em meio às felizes circunstâncias (se do ponto de vista do rei e de tantos outros presentes), o piedoso rei Louis foi interrompido pela chegada de um mensageiro esbaforido que o alertava sobre o avanço cruel dos dinamarqueses. Caiu-se um silêncio constrangedor e amedrontador sobre todos os convidados, e de repente sir Charles percebeu a desvantagem de ter uma filha tão bela como a pobre princesa Helena naquele castelo. Que Deus fosse misericordioso, ele rezava.
Mas Louis decidiu que era melhor incentivar manter as aparências do que dar espaço para o pânico roubar as atenções de todos. Assim, ele ordenou que os músicos tocassem e, ansioso, instigou que os cortesões dançassem, pois não havia nada a temer. Ao mesmo tempo, porém, ordenava que seus melhores soldados guardassem o castelo e enviou toda sua guarnição para impedir que os vikings atacassem.
Helena, embora ciente dos fatos, limitou-se a lamentar por ter pais tão descuidados. Não expressou seu descontentamento, já mestra nos fingimentos. Mas foi surpreendida pelos próprios pensamentos, imaginando se a morte lhe seria bem-vinda acaso os inimigos invadissem a todos. Talvez fosse melhor o martírio do que ser um coquete sob a vontade dos pais.
--Está muito quieta, Helena—pela primeira vez a mãe pareceu notar que sua filha era um ser humano possuidor de sentimentos e capacidade de raciocinar—O que a aflige?
--Nada—mentiu Helena, tão doce quanto seu coração.
Mas lady Bertha não se convenceu. Na realidade, pela primeira vez em muito tempo, se deu conta de que, por mais exemplar fosse o comportamento de sua amada filha, ela nunca lhe pareceu contente com a vida que tinha nem com as tramoias planejadas. Aquilo amaciou seu duro coração, mas que outra opção teria para ela? Princesas não tinham vozes, e lady Bertha disso sabia por experiência própria. Contudo, aquele não era o cenário mais favorável para dar abertura a uma mais sincera relação entre mãe e filha, dada a tensão que, como véu, recaía sobre os presentes.
--Não creio—rebateu a filha de outrora grande rei franco—Mas conversaremos sobre isto mais tarde. Seu tio não gostaria de vê-lhe tão apática.
Palavras inúteis, observou a mãe, pois, embora Helena lhe fosse obediente em tudo, em seu coração retumbava o silêncio e aquilo passou a lhe atormentar. Mas logo a menina se distraiu na companhia de suas damas e o assunto, por ora, foi esquecido.
No restante da noite, tudo pareceu estar ocorrendo bem, apesar dos fingimentos no geral. Até que, no dia seguinte, chegou a todos uma decisão que o rei Louis tomou e que passou a alimentar em seu íntimo até o findar desta história.
--Receberemos aqui—ele anunciou após a primeira missa da manhã, quando todos os convidados se reuniam no grande salão—Reginald de Skanderborg vem acompanhado de dois irmãos seus de Kattegat, além de alguns outros que o seguiram em empreitadas... não muito louváveis para o padrão cristão, é claro.
Louis limpou a garganta, e, como suspeitava, não obteve uma aprovação dos nobres presentes de que estariam em companhia dos vikings saqueadores.
--Eles vieram por ouro e terras—prosseguiu o rei, mais como ator do que como governante—Por isso os darei de bom grado. Em breve, chegarão aqui.
Mas foi em questão de duas horas que os vikings enfim chegaram à corte. Helena observou o líder deles, o homem que vinha a frente de um pequeno grupo, aproximar-se com confiança e sem temer o julgamento dos que depositavam seu olhar rígido e cristão sobre tais pagãos. Reginald, ela notou, era alto e forte. Seus cabelos, curtos e raspados ao lado, eram tão louros que se confundiam com o prateado. Os olhos eram azuis como o céu, e ela se surpreendeu ao admirar-se quão profundos pareciam ser. Apesar das cicatrizes de batalha que marcavam o rosto, no qual também se via uma crescente barba loura-prateada, Reginald era belo.
Suas vestes indicavam que não era tão pobre quanto se poderia assumir. De porte de uma cota de malha, suas vestes negras cobriam-se de detalhes em ouro. Duas espadas embainhavam-se os lados, embora uma fosse mais longa e a outra menor. Nas costas, pendia-se um escudo redondo de cores coloridas e formato circular. Helena constatou que uma trança malfeita descia do alto da cabeça, dando-lhe aparência de selvagem. Apesar das reprovações gerais, ela, ao contrário, sentiu contra a própria vontade uma inexplicável atração.
Não obstante a censura da mãe por manter o olhar naquela figura estranha, Helena sentiu os ventos da rebelião despertarem em seu espírito passivo. Continuou a fixar o olhar em Reginald, singular bela criatura que de imediato cativou seu coração. Mas Reginald sentia-se observado e quando tornou a olhar para trás para ver que vinha da bela e recatada princesa de cabelos dourados, teria arriscado um sorriso desdenhoso se ela, pelo choque que sua reação provocou, não houvesse desviado o olhar.
Enquanto isso, o rei cristão dava relutantemente as boas-vindas aos convidados estrangeiros, fingindo confiança e despreocupação a fim de tranquilizar a corte ansiosa. Era preciso atuar bem, e ocupar o mais alto cargo do reino requisitava ser excelente ator. Louis reconhecia isso e fazia com tamanha convicção que, conforme conversava com Reginald despretensiosamente, aos poucos os nobres retomavam suas posições na corte. Entretanto, pairava silenciosamente sobre cada um deles a pergunta que ninguém ousava verbalizar: que seria deles? Que seria dos dinamarqueses?
--Fique conosco, Helena—ordenou sir Charles—Não deveríamos ter vindo.
Sempre altiva, lady Bertha retrucou:
--E como saberíamos disto? Não houve nenhum ataque destas criaturas deste outrora no governo de meu pai, e sabemos todos que ele os expulsou com maestria.
Helena, por outro lado, estava ignorante às discussões trocadas pelos pais. Ouvia, ao contrário, os comentários trocados pelas damas de companhia que diziam:
--Se não fossem selvagens e embrutecidos, os tomaria como belos e ousaria mesmo que fosse por eles cortejada.
Quis a princesa rir, mas isto chegou aos ouvidos de sua mãe que lançou um duro olhar à Adèle, que, tendo percebido, prontamente se aquietou. Mas a jovem continuou a fitar o belo Reginald de longe e dentro de si algo a fazia se perguntar se eram realmente feras aqueles dinamarqueses. Discretamente, repousava seu olhar a cada movimento que Reginald fazia, seu coração desejoso de poder ouvir mais o que ele dizia tão animadamente com seu régio tio.
Clothilde, tomando nota do interesse de sua senhora, aproximou-se e discretamente sussurrou-lhe o ouvido:
--Senhora, não posso crer que um homem como aquele, de todos os que porventura tomou como parceiro de dança até então, foi o que capturou seu coração.
Helena ruborizou e, desviando o olhar, retrucou em protesto:
--Claro que não, Clothilde! Mas que besteira fazer tal assumpção de mim.
No entanto, Clothilde era a mais próxima de si em personalidade e pensamento, embora fosse mais livre do que Helena por questões sociais, já que enquanto uma era princesa de sangue a outra era apenas descendente ilegítima de Carlos Magno. Não obstante, eram almas afins e se entendiam mutuamente. Por isso, Clothilde tomou a liberdade de insistir no assunto:
--Se o faço é porque a conheço deveras bem, senhora. Conheço-a o suficiente para fazer tal suposição. Acaso aquele homem não a ofereceria uma passagem para a liberdade que sonha? Uma possibilidade que nem seus pais nem outros senhores com quem dançou puderam ofertar?
Helena mordeu o lábio e entrelaçou os dedos das mãos a fim de posar-se de régia e distante para ocultar a tempestade que recaía sobre o espírito que despertava.
--Sou assim tão óbvia? —lamentou-se.
Clothilde sorriu compreensiva.
--Muito pelo contrário, senhora. Apenas para aqueles que ousam conhecer seu espírito como eu e Adèle, pelo que somos muito gratas.
Helena desejava abraçar sua querida amiga naquele instante, mas não pôde. A corte seguia rígidos protocolos, que, na opinião dela, eram desprovidos de qualquer significância. Mas seu pensamento não se demorou muito em tais questões porque, outra vez, seu olhar foi atraído para a imponente figura de Reginald.
Havia um tablado maior onde uma longa mesa retangular estava posta. Comida e vinho eram servidos enquanto o rei, um homem alto e franzino de olhos azuis penetrantes, tomava seu lugar de costume ao lado do dinamarquês. Ao lado esquerdo do rei, com expressões não muito agradáveis ao rosto, estava a esposa e o herdeiro do trono, seu filho. Quanto aos companheiros de Reginald, eles surpreendiam a corte por se portarem bem. Acoplaram-se em um canto e não incomodaram ninguém. Assim, com a permissão do rei, que sussurrava ao lado do viking, os músicos voltaram a exercer sua função e a doce melodia que saía em animado ritmo de seus talentosos dedos tirou do estupor os cortesões perplexos.
Readequando-se com este novo ritmo que a corte ditava, lady Bertha recobrou o orgulho e, decidida a fingir que o viking não era perigoso como tampouco estava presente, instigou a filha a retomar a dança com um dos filhos de um senhor da Frankia oriental. Mas Helena só tinha olhos para Reginald que, quando ela se distraía, também a havia notado. E provavelmente era dela de que falava com o rei, que começou a perceber que se entregasse uma princesa de sangue junto com terras ao norte para aquele homem... Nem tudo estaria perdido!
Ignorante quanto aos planos tecidos pelo destino, Helena murmurou finalmente sua frustração com as damas que mais confiava, as irmãs que Deus lhe concedera, já que seus irmãos eram rapazes ocupados demais para lhe prestar atenção.
--Não desejo fazer parte deste jogo. Cansei!
--Imagino que seja frustrante, senhora—disse Adèle, compreensiva—Mas veja, ao menos este que vem falar parece ter modos.
As três não puderam evitar trocar risinhos, ao que foram silenciadas com o olhar duro direcionado a elas por lady Bertha. Controlando seu mal humor, Helena novamente entrou no papel a que por muito tempo se acostumou a interpretar: a de submissa obediente filha.
Arqueou os ombros, levantou a cabeça e mirou seu olhar naquele que vinha arrogantemente pedir para ter-lhe uma dança. Seu nome era Philippe e ele vinha de uma região chamada Artois. Era alto—embora, segundo a comparação de Helena, fosse mais baixo que Reginald—e vestia-se adequadamente para a posição de filho de um senhor ducal. Não era particularmente belo aos seus olhos, que já se encantaram pela beleza exótica do dinamarquês. Mas que se cessassem as comparações, ela determinou a si mesma. Precisava cumprir com seu dever.
Assim, ela cedeu a mão ao homem que a levou para o centro da corte. No entanto, conforme a música deu início, sem que outros observadores pudessem tomar nota, foi aqui que a princesa encontrou a ousadia de levantar o olhar para prender o daquele que ela ansiava fazer sua vítima.
Seu coração batia descompassadamente enquanto o encarava como se o desafiasse em silêncio. Foram poucos segundos de fato, mas o suficiente para provocar admiração em Reginald. Este, por sua vez, havia se acostumado com mulheres livres, orgulhosas e teimosas, mas nenhuma delas evocava tal fascínio de Freyja como aquela cujo nome logo soube ser Helena.
Reginald sentiu sua alma estremecer, deixando-o assombrado por desconhecer a causa disto tudo. Ora, sabia que em parte havia luxúria, pois como não perceber a volúpia do corpo que bailava sob aquele vestido azul veludo? Mas havia outra...Era como se sua alma houvesse descoberto a metade que lhe faltava.
Louis, como o astuto que era, quase sorriu consigo mesmo. Pouco importava o que de fato se passava entre sua sobrinha e o dinamarquês ao seu lado, mas a cena lhe aprouve. Por isso, disse:
--Ah, vejo que se encantou com aquela dama. O que pensa dela?
Reginald tornou a olhar para o rei e, sem esconder a empolgação em seus olhos, o respondeu:
--Que ela é a mais bela de todas as criaturas que vi em minha existência. Que pode me dizer sobre ela?
O dinamarquês sabia por cada olhar que suas almas se comunicavam. Ela me chama para dançar, me desafia a fazê-lo. Talvez deveria.
--Seu nome é Helena—disse o rei—Ela é minha sobrinha, uma princesa de sangue deste reino. Vejo que ela se interessou por você.
--Tenho a permissão de cortejá-la?—ouviu-se o viking indagar, já que nunca antes fizera isto. Usualmente, um olhar e ele já levava a mulher desejada para a cama. Mas agora... Tudo, abruptamente, havia mudado.
--Concedo-a desde que ouça minha proposta—disse o rei ambicioso.
Reginald arqueou uma sobrancelha em questionamento. Louis prosseguiu:
--Se eu a oferecer em casamento junto a um punhado de terras ao norte de meu reino, nos deixará em paz e nos defenderá contra seu povo?
O viking coçou a barba por um pequeno instante, o suficiente para preocupar o rei. Que ele não fosse tolo de repensar tal proposta!
--Qual é a quantia de ouro que me oferece?
Uma vez exposto o valor, as duas partes acordaram secretamente o que deveria se valer a partir do dia seguinte. Mas, por ora, Reginald não pensava em casamento ou terras, apenas em dançar com aquela dama. Para o espanto de todos, ele se levantou da mesa e foi na direção de Helena. Os sussurros eram evidentes e a mãe desta, Bertha, prontificou-se a protestar ao lado do esposo, mas um aviso silencioso do rei os impediu de tomarem a filha para si.
--Senhora—ele se aproximou de Helena, afinal—cá estou.
O grande salão foi silenciado por breves segundos. Em outras circunstâncias, Helena teria detestado aquela atenção, os olhos de pessoas arrogantes e vãs sobre si como se a julgassem pelo que não fizera. Mas nada disso importava porquanto estava, diante de si, Reginald e seus penetrantes olhos azuis. A princesa mal conseguia respirar, pois pairava sobre ambos um magnetismo muito forte que, suspeitava-se, nem mesmo Deus poderia separar.
Reginald lhe deu um meio sorriso e falou:
--Não me convidou para a dança? Não me desafiou a fazê-lo?
Ele gostou quando Helena ruborizou, embora não desviasse o olhar.
--Ora, o senhor é mais esperto do que pensei—ela fingiu hesitar em entregar-lhe a mão—Acaso um selvagem como o senhor saberia dançar?
O dinamarquês riu.
--Vamos brincar de orgulho agora?
Nem quando o rei, impaciente, bateu as palmas e deu suas ordens para que os músicos tocassem seus instrumentos, eles cessaram a intensa troca de olhares.
--Sua presença evoca soberba, senhor. Não pode me censurar por fazer o mesmo.
--Não nego sua percepção, como filho de Odin, preciso sê-lo—disse ele, divertido.
--Filho de Odin—repetiu Helena, intrigada—Por que seu pai não está aqui?
--Ele é o pai de Todos—explicou o viking—Está aonde quer que esteja. É o deus que cultuamos. Não é como o seu deus crucificado—acrescentou, desdenhoso—Morreu pela sabedoria e cumpre punir aqueles que não a utilizam adequadamente. Mas nos salva quando morremos corajosamente na batalha.
Helena sequer notou que dançava com ele em perfeito ritmo quando respondeu:
--Ah, compreendo por que o chamam de pagão. Mas—e aqui ela arqueou as sobrancelhas—nosso deus crucificado prega a humildade e o amor ao próximo, a caridade e o perdão. Ama a todos sem distinção e sem esperar nada em troca. Não é belo?
--Estou intrigado com essa concepção—admitiu Reginald—mas por que amar a todos sem esperar nada em troca? E como perdoar seus algozes? É ridículo.
--Poderia perdoá-lo por tentar assaltar meu povo—disse Helena, docemente, o que o fez sorrir e ela decidiu que gostava de seu sorriso—E de que adianta amar alguém esperando algo em retorno? Não é este o propósito do amor.
--Creio que temos concepções diferentes do amor—retrucou Reginald—De todo modo, não vim assaltar seu povo.
--Não? E por que inspira medo aonde quer que vá? —e ela acrescentou—Não é melhor ser amado que temido?
--A senhora me coloca demasiadas questões para pensar—o dinamarquês fingiu reclamar—Isso a faz intrigante.
O rosto de Helena se iluminou diante deste elogio. Ouvia constantemente que era bela, e seu nome rendia incontáveis comparações com Helena de Tróia, mas saber que era intrigante e inteligente era muito mais do que um dia sonhou ouvir. E isto deixou Reginald bastante satisfeito. Imaginou-se passando toda uma vida com aquela jovem sorrindo alegremente e isso inundou sua alma de incontáveis felicidades até então desconhecidas.
--Obrigada—disse, afinal—O senhor também me inspira crer que possui um coração bom. Há salvação mesmo para os pagãos.
Ele riu.
--Vindo da senhora, tomo como elogio a balsama para meu coração.
Mas a conversa foi interrompida no instante em que a música cessou e os pais vieram tirar-lhe da presença de tal bruto homem. Reginald observou a tristeza apagar a luz de Helena, e constatou com irritação que ela aceitava facilmente ser dominada pelos pais sem esquivar-se de tamanha dureza. Um de seus amigos, um homem chamado Rollo, disse:
--Por que não a resgata para si?
--Não há necessidade disso, meu caro. Amanhã a desposarei. O rei me deu sua palavra—e dizer isto em voz alta o reconfortou.
Como prometido, o rei anunciou no dia seguinte que, a fim de estabelecer a paz com os dinamarqueses, cederia Lille para os mesmos, dando a Reginald o título de conde. A isto, acrescentou que era de sua vontade reforçar os laços com este povo a fim de defender seu reino contra os vikings. Para tal, ofereceu a mão de sua bela sobrinha, a princesa Helena, no intuito de solidificar a aliança entre os povos.
Naturalmente, desta decisão resultou protestos da parte dos pais dela... e dos pretendentes que se achavam muito mais superiores do que aquele sujeito para ser esposo da mais formosa dama do reino. Mas nada mudaria a ideia do rei e Helena rezou fervorosamente para que Deus estivesse ao seu lado. Afinal, sempre cumpriu com os deveres familiares sem pestanejar, mas que, ainda que Reginald fosse pagão, acreditava no bem que existia nele e cabia a ela transformá-lo por completo. Ademais, rezava a princesa, sentia que o amava como nunca poderia amar aqueles que seus pais desejavam arranjar para que fosse desposada.
O Pai Maior pareceu ouvir suas preces e em menos de três dias desde o anúncio do rei, Reginald se converteu à fé cristã e tomou como esposa a princesa Helena. As celebrações, para a infelicidade da família desta, ocorreram ostentosamente e ficou decidido que a consumação se realizaria antes que o novo casal partisse para suas terras.
--Como está se sentindo, senhora condessa?—indagou Adèle, empolgada. Estavam nos aposentos designados pelo rei para o casal e, enquanto o marido não chegava, as damas se certificavam de cuidar da princesa sob o atento olhar da desapontada mãe. Helena usava um camisolão de linho e seus cabelos dourados repousavam soltos, caindo na cintura. Um sorriso brincava em seus lábios.
--Não poderia estar mais feliz, Adèle—e, virando-se para a mãe, disse—Por favor, mamãe, não se entristeça. Ele é um bom homem.
--Só saberá disso convivendo com ele—resmungou lady Bertha, rancorosa—Mas se você está contente... Ah, filha! Como neta de grandes reis do passado, merecia um posto maior. De rainha, quem sabe!
Helena se aproximou da mãe, tomou as mãos nas dela e disse:
--Mamãe, que importam títulos diante da felicidade? Se não fosse a vontade de Deus, creio que nossas preocupações teriam fundamento. Mas não é o caso. Crê em mim quando digo que estou feliz e serei tão devota quanto me ensinou.
Emocionada genuinamente por aquelas palavras, lady Bertha enfim aquiesceu. Depositou dois beijos nas faces de Helena e, quando a porta se abriu para que seu genro entrasse, ela suspirou e disse:
--Que Deus a proteja, filha.
--Amém, senhora mãe.
E dito isso, lady Bertha saiu acompanhada das risonhas Adèle e Clothilde. Foram, porém, substituídas por um padre em trajes ricos—indicando ser, na verdade, um arcebispo—e o rei, que veio em pessoa dar bênção ao novo casal. Independentemente das motivações por trás daquela decisão, Helena lhe era profundamente grata.
Enfim, virou-se para o marido que a espreitava. Um rubor queimou seu rosto ao vê-lo utilizando um camisolão relativamente mais curto que o dela, e que logo ele fez questão de remover, deixando o corpo forte e com estranhas tatuagens à mostra.
--Senhora—ele a cumprimentou feliz, deitando-se na cama—Venha—pediu, gentilmente.
Tímida diante daquelas testemunhas, Helena não o respondeu de imediato. Assentiu e sentou-se ao lado dele. O padre fez uma oração e jogou em ambos água benta antes de fechar as cortinas em torno da cama de ambos. Afinal à sós, Reginald, ciente de que sua esposa estava intocada, perguntou gentilmente:
--Creio que a senhora se guardou para este momento?
Helena assentiu, envergonhada. Reginald disse:
--Compreendo. Não há necessidade de se assustar, garanto que não a forçarei a nada que não queira. Podemos só...—sem saber o que dizer, deixou as palavras se evaporarem no ar.
Para a surpresa de ambos, Helena se aproximou ainda mais dele e colocou uma mão ao redor do rosto dele, fazendo com que ele a encarasse nos olhos. O momento parecia magnetizar-se ainda mais, como um reencontro de almas.
--Eu confio em você, Reginald. E desejo consumar nosso casamento hoje. Apenas peço paciência ao tratar comigo.
Reginald sorriu e respondeu com um leve beijo sobre lábios tão doces quanto o mel. Sua presença o inspirava uma paz que por muitos anos buscou e, por estranho que fosse, apenas recentemente encontrou. Talvez devesse agradecer a este novo deus crucificado, mas seu coração o repelia, relembrando-o da bondosa deusa Freyja ao invés disto.
De todo modo, nenhum pensamento colocava-se entre ambos mais quando o suave beijo se aprofundou. Reginald era paciente e sempre o seria com ela, o amor de seu coração. E como se dois fossem um, ele adivinhou seus próximos movimentos, suas sensações e se antecipou. Ajudou-a remover o camisolão, justificando que ansiava em vê-la como é e sem medo algum, Helena despiu-se também de seus medos infundados.
Naquela noite, entregou-se uma, duas, incontáveis vezes. Amaram como duas almas predestinadas se amariam. Não se tratava apenas da combustão da carne, mas do amor além de concepções vazias e limitadas. Não era somente a luxúria, era o reflexo de um sentimento transcendental.
--Espero ter concebido hoje—confidenciou-o Helena ao final do ato. O sol começava a nascer, mas ela se sentia tão desperta quanto antes.
Reginald a puxou para si, beijando-as faces e sentindo um deleite que lhe era desconhecido até então. Dias curtos que porventura pareciam séculos tal era o reencontro destas almas gêmeas.
--Tenho certeza de que será uma excelente mãe para a prole que teremos—ele nunca havia imaginado ser pai, mas uma nova realidade despontava no horizonte que o fez considerar aposentar a espada.
Helena riu. Era uma liberdade estranha, embora para tantas de sua posição tal percepção não se encaixasse na ideia de casamento. Mas aquela noite seria a primeira de várias e ela tinha certeza de que, com ele, seria livre.
--E você, um pai admirável.... Desde que não o nomeie em honra aos velhos deuses.
Embora a princesa possuísse uma mente menos preconceituosa em comparação aos seus contemporâneos, nem por isso deixaria de ser um produto de seu tempo. Mas Reginald não lhe deu importância. Riu em vez de dar uma resposta pronta e aninhou contra si. Não pretendia pensar no dia seguinte tão cedo. E assim, o casal adormeceu.

A vida em Lille para o conde e a condessa seria tranquila por um breve período de tempo. A princesa, é claro, rapidamente se adequou à tarefa de esposa que lhe era esperado. Reginald não cessava em ser surpreendido pela infinita bondade com o qual era tratado, mesmo quando, em seus dias ruins, exagerava na bebida ou se por descuido não era gentil em palavras. Embora fosse possível entrever o temperamento que Helena também tinha, prevalecia ainda mais a bondade de seu coração e o amor que um sentia pelo outro.
Ainda assim, a realidade longe de ser uma marionete dos pais provava ser a liberdade sonhada por Helena que ela ainda não acreditava ter obtido. Em uma das noites passadas nos aposentos do casal, ela confessou a Reginald que a vida junto ao esposo lhe parecia uma doce ilusão.
--Mas por que? —quis saber o dinamarquês, curioso, enquanto alimentava a lareira para que dormissem aquecidos naquela noite fria de inverno.
--Porque me acostumei a ter minha vida ser conduzida nas mãos de outras pessoas—disse ela—Amo meus pais, e a eles sou muito grata, mas sentia que se não agisse segundo suas vontades, os desagradaria e, bem, não é isso que eu gostaria.
Aquele assunto suscitava inseguranças que Helena fingia não ver, despertando sensibilidades que ela se envergonhava possuir. Mas Reginald a conhecia bem, e mesmo com pouco tempo de convivência, reconhecia todos seus humores. Ele se colocou ao lado dela, abraçou-a contra o peito e disse:
--Sei que isto é difícil. Tivemos criações diferentes, vejo agora. De onde vim, somos mais soltos, acreditamos que o destino está solto e entregamos às vontades dos deuses. Escrevemos nossos caminhos, de fato, mas há algo maior que nos rege. E não há nada de errado com a sua educação, em como foi instruída para a vida. Ao contrário, é o que a faz ser quem é.
Helena olhou para o rosto do marido, cujo olhar se derramou no seu. Uma lágrima descia do azul de suas írises, mas de felicidade que a movia. Ela sorriu.
--Amo-o, esposo.
Reginald sorriu para aquela que a tinha em seus braços.
--Amo-a, esposa.
E foi nesta noite que conceberam seu primeiro filho.

A paz a que conheceram por dois anos, porém, não duraria muito mais tempo. Era do temperamento de Reginald deslocar-se sem fixar residência, combatendo inimigos, saqueando desconhecidos e enriquecendo-se segundo a vontade divina. Embora a felicidade doméstica o acalmasse, infelizmente ainda prevalecia nele os instintos primitivos. Admirava na esposa a fé em seu Deus, o comportamento benevolente e até mesmo os rompantes de raiva que surgiam quando as diferenças de personalidade resultavam em discussões. Como de costume, todavia, prevalecia o amor.
Do aborto espontâneo que se sucedeu à concepção do primeiro infante, sucederam, porém, três crianças sadias a quem chamaram: Helga, Clóvis e Hugh. No entanto, Clóvis partiu da vida para o plano espiritual com idade tenra de dois anos, desolando a bondosa princesa. O marido, por sua vez, não sabendo lidar com a perda, preferiu partir em expedição.
--Por favor, volte—ela o pediu, impelida por um pressentimento que não saberia explicar.—Não sei se fiz algo para desagradá-lo, e desde já peço perdão por...
--Não diga mais nada—Reginald a interrompeu, sem pretender ser grosseiro—Não é culpa sua, esposa amada. Prometo que regressarei a casa, é só que...
--A vida aqui é tranquila demais para você—compreendeu ela com um sorriso triste de partir o coração—Mas voltará?
Reginald sentia-se culpado, tomado por remorso por deixá-la assim. Beijou-a apaixonadamente, e no crepúsculo deste dia fizeram amor. Mas precisava de um tempo para si. Assim, ele partiu.
Mas voltaria com o tempo depois de fazer parte dos vikings que assolaram Dublin e outras partes mais da Irlanda. É verdade que muitas das vezes foi tentado por várias mulheres, mas ele só conseguia ter pensamento para a bela Helena. No verão seguinte, esteve de volta a Lille e foi recebido com tanto amor pela esposa que, outra vez, o remorso o culpou por deixá-la só.
Helena, apesar da melancolia que crescia em seu peito como resultado da insegurança que a assombrava de vez em quando, encontrou conforto na tarefa da maternidade e mesmo que Hugh tenha sido muito temperamento, conseguiu educá-lo seguindo os princípios cristãos. Foi com os filhos que ela se dedicou, tendo observado poucos eventos sociais desde que Reginald havia ido à Irlanda. De suas damas leais, apenas Clothilde optou por acompanhá-la e, mesmo tendo recusado se casar para servir a sua senhora e amiga, eventualmente se apaixonou por um dos homens de Reginald. Com a bênção de ambos, estabeleceram família por perto da residência real de Helena e Reginald mesmo com os protestos da condessa de que poderiam residir em conjunto no enorme castelo de pedra.
Mas agora Reginald estava em casa e nada mais importava para a nobre Helena.
--Perdoe-me pela minha ausência.
--Não há o que perdoar, meu marido. Você voltou, está aqui, é o que importa.
Para sua surpresa, o esposo se mostrou comovido.
--Não mereço seu amor e sua piedade, minha senhora.
--Meu coração e minha alma são suas, amado meu. Nada mais importa.
E como se para provar o que dizia, beijou-o nos lábios com ternura. Naquela noite, consumaram mais uma vez o amor que os reunia e a paz doméstica se fixou por um tempo. Apesar das inquietações que o afligia, resultados de uma vida passada em devassidão antes do casamento, Reginald esforçou-se em pôr fim nelas. Devotou-se à Helena e aos filhos, alegrando-se ao ver o nascimento de outro menino a quem chamaram de Louis em homenagem ao rei, que foi padrinho de batismo da criança.
No entanto, um pressentimento ruim tomou conta de Reginald. Em uma de suas últimas noites naquele plano, ele teve um alerta da deusa Freyja, que vinha-o protegendo. Assim ela o havia informado:
--Nobre senhor, venho o observado e protegido nestes anos de sua vida. Apesar dos excessos, tem se esforçado para limpar-se das feridas da alma por você mesmo causadas. E por melhores que tenham suas intenções, está na hora de voltar a Valhalla. Ou, se assim o desejar, a vir comigo em meus salões.
--Nobilíssima deusa—disse o muito chocado dinamarquês—não sou merecedor de sua presença ilustre, e por isto agradeço. Mas que quer dizer com isto? Temo não compreender sua mensagem.
A bela mulher envolta em luz prateada sorriu e disse:
--No momento certo, recordará do que disse e tudo estará bem.
Mas no dia seguinte, quando despertou antes do nascer do sol, observou sua esposa dormir aninhada contra seus braços e lágrimas verteram de seus olhos. Entendeu de imediato que não a veria novamente. Sentiu que falhara com aquela bondosa alma, mas como se redimir? Acariciou gentilmente seu rosto, sentindo maciez de pele contra a rigidez de sua mão. Observou seu corpo, notando sinais de gravidez e seu coração somente se partia. Deveria ir antes que ela acordasse, sabendo ele que a morte se aproximava. Mas faltou coragem a este viking.
--Amo-a, cara esposa. Helena, amo-a com todo meu ser.
E, dizendo isso, beijou-a na testa. Fechou os olhos e, abraçando-a protetoramente, voltou a dormir.

Vikings da Noruega tentaram engraçar-se com os francos, mas, na graça de Deus, falharam. Quando Reginald preparava-se para a batalha, porém, mesmo Helena soube que aquela seria a última vez que o veria.
--Reze por mim como tem rezado—ele pediu.
Helena engoliu as lágrimas.
--Minhas preces são para você, meu amado marido. Volte a mim, é o que peço.
--Voltarei com a graça de Odin e seu Deus crucificado—ele ficou feliz de tê-la feito sorrir em meio a despedida.
--Não se esqueça de que o amo—ela implorou, falando com tal intensidade como se temesse perdê-lo—Não vá, por favor. Deixe que seus homens cuidem disto. Não precisa ir, meu senhor.
--Ah, minha cara senhora! Mas eles precisam de alguém que os lidere frente a inimigos de nossa terra passada—disse Reginald, resignado com o destino. Já montado em seu cavalo, havia se despedido dos filhos e, a muito custo, agora se separava de devota esposa—Não posso faltar com meu dever. Garanto que voltarei no crepúsculo deste mesmo dia. Guarda em seu coração meu amor e minha estima.
--E o senhor, não esqueça de que há uma dama de que o espera!—exclamou Helena.
Assim, os dois se separaram para nunca mais se verem em vida. A vitória para os francos custou caro a vida de Reginald e a pobre Helena não se recuperaria desta notícia.

Em meio aos salões de pedra do castelo de Lille, Helena brincava com os filhos quando surgiram dois dos homens de Reginald. Diante da expressão que pesava seus rostos, ela dispensou as crianças para o cuidado de Clothilde, amiga antiga que, pressentindo a pesada nuvem que em breve pairaria sobre tão leal e nobre mulher, havia chegado apenas no dia anterior.
--Diga-me—pediu Helena, a voz tremendo a cada passo que dava para receber aqueles homens.
Naquele salão, ela cultivava uma pequena corte. Havia músicos e padres, e até mesmo bardos eram recebidos por ela. Mas nada disso importava quando Rollo a informou a respeito da morte heroica de Reginald.
O mundo pareceu ter congelado diante de tais notícias. Helena sentiu um arrepio percorrer o corpo, os olhos vertendo de lágrimas antes de ouvir o que seu coração já sabia, que sua alma pressentia. O lugar ficou frio de imediato e a cor da vida se esvaneceu de Helena.
Empalideceu-se, e os homens pensou que fosse enfraquejar-se. De fato, perdeu as forças dos joelhos e eles a socorreram antes que tocasse o chão. Alguns dos presentes, mesmo os empregados, vinham socorrê-la e não foi se não quando gritou de dor. De desespero. Mais uma vez, mais uma vida separava-se de seu amado, daquele que Deus designou ser gêmea de sua alma.
Acudiam-na, os padres tentavam trazê-la de volta à razão, mas ela sucumbia ao tormento das emoções que Reginald um dia equilibrou. E, para desespero dele que tudo sentia do outro lado, nada podia fazer para acalmá-la. Ela precisava passar por isso, foi o que lhe disseram.
Helena pranteava de tal maneira que seu corpo tremia. Memórias de tantos momentos passados juntos a impediam de se recompor. Talvez nem mesmo quisesse. Como viver longe daquele que amava tanto? O cenário lhe era devastador, um futuro sem perspectivas. Foi preciso que se escrevesse a mãe. A única que lhe competiu recordá-la das tarefas que requisitavam de sua atenção.
--Seus filhos precisam da mãe. Guarde o luto com você, em seus momentos privados.
--Estou cansada de jogar conforme estas malditas regras que a nobreza criou!—gritou Helena, em terrível manifestação de coração partido—Por que cabe a mim resguardar-me depois que amado meu se foi? Por que Deus pensa ter sido justo tê-lo tirado de mim? Não tenho pretensões em viver. Oh, não! Não sem Reginald!
Ele também chorava ao vê-la daquela maneira. Mas, à noite, enquanto repousava o corpo, visitou o espírito.
--Minha amada Helena. Por que entregar-se a dor desta maneira?—ele acariciava suas longas madeixas—Por que? Ela agora a apreende ao corpo e não podemos nos reencontrar. Está tudo bem, crê em mim que tinha sido necessário o que se foi. Sei que me ama, mas precisa me deixar partir. Nós nos veremos de novo conforme seja a vontade de Deus.
No dia seguinte, como se inspirada por atuação de Deus, Helena recobrou o juízo antes que fosse tarde demais. A mãe se alegrou ao ver que não havia mais necessidade de interferir em questões domésticas, mas o luto para sempre afetaria a pobre princesa.
Embora fosse uma mãe presente e devota, uma presença constante na educação dos filhos e em suas vidas, ela não se casaria mais. Alimentou uma vida reclusa e, de vez em quando, pranteava antes de dormir. Rezava pelo amado que perdeu. Mas havia libertado Reginald de seus laços pendentes, apesar da erraticidade que ele permaneceria como resultado de seus atos na Terra.
No entanto, não era mais a mesma. Veria Hugh crescer na nobreza e despontar na riqueza, tecendo casamentos apropriados para sua riqueza. Concomitantemente, Helga também se casou por amor e de seus descendentes conta-se estar a celebrada rainha Eleanor d’Aquitaine."


Nota de Ogum: "Embora seja um conto demasiadamente longo, ele fora ditado previamente com o propósito de esclarecimento para a médium, levando-se em conta que aqui está presente um resgate para as duas partes. A princípio, foi recomendado, por este motivo, para que não lhe fosse divulgado até que disto uma lição fosse apreendida. Uma vez que assim se deu, o Pai Maior concedeu que tal fosse exposto a público, pois aqui também, como nas memórias psicografas previamente, cabem lições valorosas para os leitores dedicados a extraí-las e refleti-las. Por isso deixo esta nota ao final, e não como de costume no começo, pois desejo estimular em vós o exercício crítico da questão que esta entidade vos trouxe. Optei por não colocar aqui a mensagem que este bondoso espírito, encaminhado para a equipe de regeneração do "Nosso Lar", passou à médium pelas particularidades que envolve os dois. No mais, deixo cá meus agradecimentos aos leitores e aos trabalhos da parte do psicografado e daquela que o psicografou."




Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...