quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

A Queda do Orgulho (parte I)

Nota do guia de Ogum: este será um trabalho cansativo que precisa de tempo, cuidado na análise, mas acima de tudo muita paciência. Recomenda-se cautela em sua divulgação, embora a mesma seja necessária tendo em vista as lições que esta lembrança ocasionará àqueles que se dispuserem a lê-la. Como sabeis, no mundo espiritual a comunicação é estabelecida por transmissões via pensamentos. Cabe a vós transcrever o que receber via inglês ou português. Não há o que temer aqui, é tudo um aprendizado, nada é por acaso e vossos conhecimentos serão instrumentos valiosos para esta pequena missão que vos foi incubida. Quando necessário, voltarei a dar meus avisos. 

"Meu nome é Cecília. Comunicar-me tem sido difícil nos últimos tempos porque por longos anos, transformados em décadas e séculos, fiquei naquilo que chameis de umbral. Foi como se houvesse sido apunhalada. Pensei que... Bem, vos direi o que pensei.

Acreditava, naquela época de outrora, em céu e inferno, temendo ora o destino deste ou a pendência no purgatório. Entretanto, para onde fui? Doar terras à Igreja e pedir para que rezassem tantas missas quanto o dinheiro que eu dei para este fim, de nada adiantou. Em vez disso, encontrei indivíduos à minha espera, amigos e inimigos lado a lado. Não sabia identificá-los, porém.

'Fostes muito orgulhosa, Cecília', me disseram. 

Eu prontamente retruquei:

'Como, se a tudo que fiz foi pela família, pelos amigos, por todos os que eu amei? Lutei contra aqueles que contra os que amei fizeram mal! Onde há pecado nisso? Segui a palavra de Cristo, fui à missa diariamente...'

Fui interrompida, contudo:

'Não falhastes como mãe, mas como ser humano. Onde havia caridade, plantastes orgulho; onde havia altruísmo, plantastes egoísmo. De fato, lutou pelos filhos, mas pensando em vós e não neles. Encarregou-se de educá-los conforme havia sido educada, embora nem nisto vossa mãe tenha embutido em vosso pensamento o que fizestes para com vossos filhos. Repreendeu a busca pela felicidade de vossa filha, alimentou as discórdias de vosso filho e não o guiou apropriadamente porque pensastes nas propriedades que pudésseis perder. Nem quando vosso outro filho desencarnara em face dos erros cometidos, aprendestes a lição. Gostaríeis que continuasse a ditar o que fizestes de errado?'

Calei-me porque reconheci razão, mas não a aceitei. Insisti, entretanto, em contra-argumentar:

'Fiz tudo o que esteve em meu alcance para ajudá-los, o senhor deve crer em minha palavra quando digo isso.'

Um suspiro saiu dos lábios do homem, pois sim, revestindo-se em corpo masculino aquele espírito de aparência firme e gentil não transparecia-se, porém, por completo. De forma que sequer poderia reconhecê-lo.

'Não, minha senhora, não fizestes o que estava em vosso alcance. De todo modo, parece-me demasiadamente decidida para acatar as lições a que vim tentativamente para vos abrir os olhos. Permaneceis orgulhosa, Cecília, e não deveis sair daqui até que encontreis, por vós, a paz de que procurais'.

O lugar a que me cercava não era de lamaçal como podeis pensar, minha cara, mas um dos castelos construídos muito antes de nascer. Na verdade, foi onde minha finada mãe me havia dado à luz. Diante daquele reconhecimento, meu coração suavizou e tantas lembranças infantis tomaram minha mente. Apesar disso, o bondoso homem que me acompanhava falou:

'Sabeis por que estais aqui?'

Quando tornei a olhar para ele, estávamos sós. O pânico encheu meus pulmões, pois a familiaridade dos rostos que o cercavam não estava mais lá. Eu, que esperava ser recebida nos braços de Cristo e reencontrar meu falecido marido e os filhos a que sucedi em vida, me via sozinha.

'Onde estão eles? Richard e...?'

'Não posso lhes dizer onde estão aqueles que amou', me disse este homem. 'Sabeis por que disso? Diga-me, Cecília.'

Olhei para minhas mãos, para o meu corpo [espiritual] e ainda que usasse vestes da época vivida, não me sentia como se estivesse viva. Do contrário, a morte parecia pesar sobre minha alma com um estupor que me sufocava. Minhas mãos permaneciam envelhecidas, mostrando a velhice que, naquele instante, não se perdera com o findar da vida. Entretanto, paradoxalmente, me sentia... jovem novamente. Mas a que custo? A que custo?

Diante do meu silêncio, o homem assim me explicou pacientemente:

'Porque precisa despir-se deste teu orgulho que corrompeu os valores ensinados a vós por vossa mãe; desta vaidade que fora somente incentivada por aqueles que fizeram mau uso da posição ocupada, e destes incluo vosso marido. Podeis protestar, se assim desejareis, mas em algum lugar em vós sabeis que falo nada mais que a verdade.'

[Nota de Ogum: aqui, meus caros leitores, vemos a cena que muitos de vocês já tiveram a oportunidade de estudar nos livros, na qual o guardião responsável por adentrar as energias densas do umbral (que, em outras palavras, foi o exú que vos acompanhou em vida como vossos guardiões) expõe criticamente a situação amoral que levou seu protegido àquele lugar. Percebam que, a despeito da paciência do guia, a senhora em questão persiste no erro. O umbral resulta não de um castigo de Deus, mas da consequência do livre-arbítrio daquele espírito. E ela aqui fora tão orgulhosa em vida, não tendo se despido de tais faltas precedentes naquela existência que foi necessário ter sido 'afastada' dos parentes que amou em sua última encarnação. É certo que a lei de Deus é justa, como também é fato de que para cada ação, há uma reação. Se hoje este espírito expõe sua memória com clareza, embora não sem dificuldades, é pela permissão divina e porque, afinal, passou por todo um processo espiritual assim que superou as energias umbralinas que lhe cercavam no momento de seu desencarne.]

Com isso, ouvi, mas não apropriadamente. Não gostava de implorar, e se o fiz em vida foi por motivos políticos. Tudo calculado, não nego, ainda que motivada pela afeição que nutria pelo esposo e filhos. Portanto, não vi necessidade de fazê-lo agora: enfrentei o olhar do homem e repliquei:

'Esta verdade não reconheço.'

'É este o veredicto final de que se agarra, Cecília? Não quereis repensar vossas palavras, vossos pensamentos?'

Ele me soava triste e eu me perguntava por quê. Não cometi, na minha pobre e limitada visão, nada de errado. Havia seguido em vida, ou assim acreditava, tudo de correto que a moral cristã havia me instruído na pessoa de minha mãe.

'Onde ela está?' eu me ouvi perguntar. 'Na verdade, por que estou aqui? Tenho muitas perguntas...'

'Aqui, não possuis autoridade para receber as respostas de que pensais precisar.' Ele me alertou com firmeza na voz, e eu, recusando seu olhar, não me atentei a indagar mais nada. Aquele era um estranho para mim, embora houvesse em sua pessoa algo de familiar e conforto que me incentivavam a buscar nele a paz que me faltava. Entretanto, optei pela dor e pelo orgulho novamente.

'Cecilia, nem tudo está perdido. Vossa mãe ora por vós, sabeis disso em vosso coração. Não desejeis vê-la? Ou vossos filhos?'

'Já fui prisioneira em vários momentos de minha vida', eu retruquei, magoada. 'Serei agora também na morte? É isto o que é? Tinha certeza de ter sido abençoada antes de dar o último respiro! Diga-me, homem, por que estou aqui! Tomei a extrema-unção, o bispo me abençoou! Como posso estar aqui e não nos Céus? Certifiquei-me de... de ter feito tudo... tudo em meu poder para estar ao lado do meu marido, pai dos meus filhos!'

E quando me dei conta, estava  em prantos aos pés daquele homem. Era como se o punhal me ferisse constantemente.

'Por favor!' Implorei como se o fizesse ao rei, como se o tivesse feito ao meu filho para que seu irmão não fosse morto. 'Escutais o que digo!'

'Entristece-me vossos pensamentos, Cecília. Achais que se acaso houvesse sido enterrada com um baú de moedas de ouro poderia comprar-me como fizestes com homens corruptos que, em vão, diziam defender a honra de Cristo? Por que achais que não estás onde desejais estar? Não refletistes por um segundo sobre vosso comportamento?'

Ignorando sua fala, carregada de espinhos que me atormentavam tal qual a coroa pesava na cabeça de Cristo, eu falei:

'Vós não compreendeis o que passei!'

'Ah, minha cara e estimada filha, eu compreendi mais do que podeis pensar. E, no entanto, toda a dor que sentistes foi nada mais do que o resultado de vossos empreendimentos', assim disse o homem. 'Não fostes tão caridosa como gosteis de pensar: por que não retomou contato com vossa mãe quando ela optou pela vida monástica? Porque pensastes ser um desperdício. Uma mulher como aquela, cuja linhagem e estirpe eram tão.. poderosas... desmanchavam-se no ar! Mas que importavas se, em seguida, desposava o amor de vossa vida? Devota fostes, isso não nego, e cumpristes com fervor as tarefas que vossa sociedade esperava que fossem cumpridas. Ao contrário do que pudessem dizer, amou, fostes fiel e dedicada. No entanto, usufruístes do orgulho que vossa posição lhe inculcou. Inflou vossa vaidade e como os poetas a laureavam com bonitas palavras, pintavam em vossa alma feiuras com as quais se agarrou. Dizeis que frequentastes as missas, mas praticastes o sermão que toda manhã ouvireis dos padres?'

Sem qualquer resposta, baixei a minha cabeça. A voz daquele sujeito continuava a martelar contra minha cabeça, porém, conforme enumerava meus pecados. Ao final, disse:

'Então?'

Sem conseguir encará-lo, e sequer possuindo coragem de respondê-lo, apenas sussurrei:

'Desejo ficar sozinha'.

O homem suspirou e o som que ouvi soou como um lamento. Eu o havia desapontado. E aquilo me feriu, embora não o reconhecesse.

'Desta maneira, a deixarei aqui. Quando estiveres pronta para a redenção, chamai-vos por mim.' E sem mesmo se apresentar ou esperar que o respondesse, ele se foi. E consigo, o acompanhava a chama da vida.

Tão abrupta havia sido sua partida que a frieza do castelo de.... me foi sentida com intensidade. Nos salões, nos corredores, não havia qualquer som. A cada passo dado, eu pranteava. Assombrada pela partida daqueles que amei, da perda de minha casa, me confrontava com os resquícios daquilo que, de fato, nunca possuí.

Em cada mesa, cada copo prateado, dourado, enfeitado com os dizeres da minha família, o passado corria atrás de sua presa tal qual um animal que insistia em fugir de seu predador, mas sabia que eventualmente perderia. Porque a vida é assim: permeada de vitórias e perdas como a roda da fortuna sempre nos instruiu a todos.

Pinturas de rostos desfigurados que enfeitavam as paredes de pedra me impediam que os reconhecesse. Às vezes, ouvia risadas, mas eram sons que ecoavam num longo eco e o desespero me fez gritar o nome deles. De todos eles.

'SENHORA MÃE.'

E então as lágrimas rasgavam meu interior e me via abandonada. Por que, eu questionava. E olhava para os céus, ou para o teto, e indagava ao meu criador por qual motivo ele me relegara àquela prisão. Ainda não cumpria com meus crimes. Ressalto que, hoje vejo com mais clareza, tirar a vida do próximo não é a única categoria de pecado como podeis pensar. Rivalidade tola, a vaidade interna, o orgulho que prontamente a tudo corrompe, nos fazem ser egoístas e enganar a nós próprios conquanto agimos para com o outro.

'SENHOR PAI'.

Se eu me sentia viva e a dor da morte me impedia de conhecer o fim daquilo que conhecia... era o apego, oh sim, o apego ao material. Sentir-me pobre e esquecida... Não era aquilo que temia? Ninguém vinha em meu resgate. Corria pelos longos corredores e via neles uma pobre iluminação. Ouvia a doce melodia que saía dos alaudes que um dia foram belamente tocadas pelos músicos que eu insistia em ter em minha corte. Porque, como mãe de reis, mulher que vinha de uma longa linhagens de orgulhosos soberanos, acreditava meu dever reproduzir tudo aquilo a que tive direito de usufruir na infância.

Cruel era Deus, pensava, por recordar-me de passos dançados na frente de minha senhora mãe e meu senhor pai de queixo erguido e usando os mais belos vestidos. Cada aplauso destoava e o sorriso de lady Joan fazia meus olhos brilharem e, procurando pelos do meu pai, tal se renovava diante de sua aprovação. A música continuava a ser tocada e eu me lembrava... Oh sim! Das palavras francesas pronunciadas por milady mãe, pelo inglês de milord pai, e das instruções, das severidades daquelas que me criaram para ser quem me tornaria.

E também me recordo de como capturei aquele olhar...

'ESPOSO. SENHOR ESPOSO'.

Ele não me ouvia. E como poderia? Não estava ali, como ninguém mais estaria. Mas tolamente e em vão procurava por aquele que amei. Desonrei sua memória nos tempos mais difíceis de minha vida, e admitir isso tornava a dor pior. Se eu estava morta, como explicar a sensação de tão vívida aflição?

[Nota de Ogum: o apego ao material não se traduz, conforme esta senhora vem explicando, apenas aos bens propriamente em si, aos livros, às joias, enfim, o que quer que possam ser. A materialidade não se resume ao que é consumado pelo Homem em sua encarnação, mas ao apego que não desfrutará em outra vida. Ideologias, por exemplo, apontam para este 'apego' de que falamos, pois não somente ela limita a perspectiva do ser humano como igualmente retarda seu avanço espiritual. A vida é mais do que obter ganhos neste plano terrícola, quaisquer que estes possam significar para o leitor. Tem-se observado em diferentes fases da Humanidade este tipo de apego. No caso desta entidade, ela se mostrou no egoísmo, no orgulho, na crença de si mesma como aquela que deteria toda razão sobre qualquer assunto; não obstante, a vaidade de alguém de sua posição demonstrou o quanto precisaria apurar seu espírito. Não se tratava apenas de ouro, de vestidos de seda, de posição, mas daquilo que trouxe ao lado de "cá": as faltas cometidas em Terra que, embora cega não pudesse reconhecer ainda, causaram tamanha censura em sua consciência que dificultou o próprio trabalho de seu guardião. Em outras palavras: por mais que sua vida em Terra não houvesse sido tão fácil quanto, a princípio, poderia se supor, em todas as circunstâncias de aprimoramento a que sua encarnação terrícola lhe ofertou, negou em sua maioria a chance de melhorar, avançar. Consequentemente, eis seu sofrimento no outro lado: no castelo onde residiu em vida, não haveria nada a que pudesse desfrutar, nenhum familiar que lhe ofertasse conforto nem um membro da Igreja que apaziguasse sua consciência. Entretanto, relembraria de tudo para que tivesse a chance de melhorar. Esta era a misericórdia de Deus: se dona Cecília assim reconhecesse seus erros através de lembranças passadas, coletando de sua vontade uma força renovada para se aprimorar, a cura viria. Mas isso demoraria algum tempo, como podeis perceber.]

[Nota de Ogum: ressalto aqui, para aqueles que se indagam a respeito da ausência de determinados nomes de locais e indivíduos, que nada se é feito sem a permissão divina. Se a entidade não está dizendo nada que podeis pensar de "suma importância" é em decorrência do seu melhoramento e, igualmente como foi falado, porque Deus a tudo vê, a tudo sabe, e a tudo concede Vosso consentimento.]

Foram dias realmente trevosos, nos quais estive nebulosa por pensamentos obscuros. Constatei que não deixaria de ser prisioneira. Observava através de vidros sujos e abandonados um jardim vivo e verde que um dia caminhei em companhia de irmãos e irmãs a que havia sobrevivido naquele tempestuoso século.

E por mais quente e luminoso que estivesse do lado de fora, o frio e a escuridão me impediam de sair de dentro. Havia momentos que eu tentava quebrar a porta, o vidro, tudo. Gritava de desespero e solidão. E mesmo quando me certifiquei de recompor-me, percebi que não havia ninguém por que fazer isso.

Finalmente, digo-vos, caminhei por aqueles corredores novamente e, como se desistisse, decidi entrar por um dos outros aposentos que um dia haviam sido ocupados pela minha família. O lustre parecia iluminar toda a poeira e o abandono que marcavam cada mesa e cadeira como se estivessem intocados. E me recordei, outra vez, do passado.

'Oh, Cecily, dance! Dance!'

E os risinhos de minhas irmãs mais velhas me compeliam a dançar. Desejava mostrar-me tão bela e boa quanto elas haviam sido. E o riso daquela mulher de cabelos dourados, presos sob um capelo novo e enorme, feito de tecido holandês...., ainda ecoava naquelas paredes.

'Não se exceda, filha!'

E eu assentia porque dançar demais seria inculcar-me na vaidade e negligenciar-me das virtudes cristãs que eu pretendia seguia à risca. Ali, me observando bailar ao som doce dos aludes com o cabelo levemente ruivo cair solto pelas costas, em meu melhor vestido, apenas sorri e aquiesci. Pensava ser obediente, mas não o era. Foi quando relembrei meus pensamentos, e como acreditava que não deveria haver nenhum pecado em dançar tanto. Mas é porque gostava de me exibir e ouvir que aquela bisneta de reis era sobrinha do grande leão que devorava coroas.

A vergonha subitamente fê-me virar o rosto. E optei por deixar aquele salão. A luz atrás de mim se apagou. Meu corpo parecia leve, mas a sensação de eterno envelhecimento era como convite a seguir o ritmo da morte. E no outro salão, já era mais velha. E observava com fervor admiração o homem que meu finado pai optara por me casar.

'Fico feliz de que tenha nutrido sinceras afeições pelo jovem R....', assim dissera minha mãe. 'Não quero atrelá-la apenas ao... por questões de título como vosso pai pretendia. Mas se estais contente, filha, também estou.'

Seu rosto estava cansado e marcado pela idade, e às vezes me ocorria pensar em como minha mãe havia vivido tão... adequadamente... sua vida. Acusam-me de ter sido orgulhosa, mas ela igualmente fora. E aquele a quem amei não era diferente, contudo penso que talvez tivesse sido corrompido pelas circunstâncias.

Naquela época, porém, éramos jovens que cumpriam com seus deveres. E vê-lo seu sorriso fê-me cair no chão duro e sujo, as lágrimas tomando conta de meus olhos diante do que via. Na juventude desprovida de preocupações reais, bailávamos e amávamos. Ainda posso ouvi-lo dizer:

'A Deus cabe o tempo de semear o que venho plantado'. E R.... sorria inocentemente ao pronunciar aquelas doces palavras. 'Não vos preocupeis com isso, senhora.'

E eu sorri porque pensei ter sido grata por ter desposado um homem que não cobraria de sua esposa deveres matrimoniais que custavam a dignidade de tantas outras de minha posição quando se viam atreladas a rapazes que lhe dispensavam tratamento adequado. Rezei naquela noite de coração. E ao meu lado, estava minha mãe.

Sua memória ainda me afetava... porque, pela primeira vez, reconhecia a razão daquelas palavras ditas duramente pelo homem que não vira mais desde então. Não detinha conhecimento do tempo, mas em retrospecto, creio que quando comecei a perceber o estado errôneo a que estive, havia passado cerca de 200 anos.

Percebi que havia desconsiderado sua vontade religiosa genuína de tornar melhor as vidas de seus filhos. Apesar dos apesares, cumpriu com suas tarefas. Por vezes, me recordava de ouvi-la murmurar a falta de sua própria mãe, a quem havia se apegado, ao nosso capelão. E naquele momento, constatei o quanto sentia sua própria ausência.

Pus-me de pé, portanto, e em vez de adentrar outro salão, caminhei de pés sujos e sem me importar com o estado das velhas joias que enfeitavam um corpo que se perdia ou de um vestido cujo tecido não mais sentia deslizar pelos meus dedos, fui rumo à capela. Adentrei-a e me ajoelhei ante à imagem de Cristo. Ao lado D'Ele, havia a Santa Maria e, por que não, a de São Jorge. O grande padroeiro da Inglaterra.

Pranteei. Não rezei. Pus minha dor para fora, expus meu lamento através de lágrimas. Foi quando ouvi a voz daquele homem cuja ausência me fora sentida pelo que computei ser tanto tempo.

'Não teria sido mais fácil se houvestes chegado a esta conclusão antes? Foi preciso uma boa quantia de tempo para que repensásseis vossas faltas, para que a dor vos consumisse. Deus vos foi misericordioso ao permitir que revisitasse vossas memórias, Cecília.'

Quando o encarei pela primeira vez e concentrei-me em seu rosto, a capela outrora apagada, fria e abandonada iluminou-se e aqueceu-se. Os olhos que me fitavam não eram desprovidos de emoção, e a cor que havia em suas íris era próximo de um roxo, violeta talvez; sua tez era larga, e o nariz longo. Os lábios eram finos e o rosto ainda mais delicado, dando a impressão de ser um padre. Mas suas vestes, embora pretas, apresentavam nenhuma cruz. Com cuidado, observei não a cor preta, mas roxa e em detalhes havia algo escrito nas robes que não pude identificar.

De todo modo, ali estávamos e eu sorri timidamente porque pensei ter encontrado a redenção. No entanto, nem tudo era como achava ser.

'Pedis-vos por auxílio. Desejais ser auxiliada?'

Sua voz era como mármore para os meus ouvidos, e não sabia que resposta dar. O homem continuava a me fitar, mas, ao contrário do que ocorrera no último encontro, ele me recomendou um lugar a sentar na capela. Obedeci.

'O que pensais de tudo isso?' Sua voz agora era mais suave e isso me encorajou a falar.

'Sinto-me estranhamente viva. Jovem em alguns aspectos, velha nos outros.' Hesitei, mas ele não me julgava como temia. Ao contrário: me ouvia e incentivava a falar mais. 'Não entendi muito, confesso. Fiquei...'

Observando as lágrimas se formarem em meus olhos, ele disse:

'Leve o tempo que precisar, Cecília'.

Aquiesci. Funguei, e chorei outra vez. Mas ele aguardou... e eu me submeti.

'Eu me arrependo dos erros cometidos. Não entendi por que vim aqui, mas compreendi o que me levou aqui. Não fui diferente dos fariseus no tempo de Cristo.' Solucei. 'Fui soberba. Ainda me recordo do dia que chamei meu filho, meu primogênito, de bastardo, manchando a honra do homem que amei! E para quê? Por qual motivo fiz isso?'

Baixei a cabeça, envergonhada. Havia silêncio entre nós, mas o estranho, que,  na verdade, era tão familiar quanto poderia supôr, não me julgava. Apenas ouvia. Quando me recompus, continuei a falar como se me confessasse a um padre:

'Fui invejosa. Não suportava que houvesse outras mulheres mais belas que eu e ocupassem posições acimas da minha! Não aceitei a morte de meu marido, desprezei minha neta e seu esposo, e o conforto que pudessem me conceder... Ah, não, senhor, recusei sua benevolência em face de um passado que me assombrava em vida e, veja, seguiu-me na morte.'

Novamente, solucei.

'Detestei e instiguei meus irmãos uns contra os outros, fui mesquinha e fraca, dei a cara à tapa, mas igualmente dei o tapa na cara dos que me ofereceram a mão. Causei dor a tantos, e não orientei meus filhos. Se não falhei como esposa, e mesmo assim errei aqui, não se pode dizer o mesmo da prole que não soube orientar.'

E, de novo, chorei.

'Instiguei o orgulho em minha filha. Não há, digo, como conciliar o orgulho e a humildade na religiosidade, meu senhor.' E, apesar de inicial relutância, disse. 'Se plantei discórdia e orgulho, permita-me colher o resultado destas.'

O homem esperou pelo que supus ser um longo, longo e interminável silêncio. Talvez aguardasse mais confissões minhas, não saberia dizer. Enfim, ele se pronunciou:

'Creio ser pertinente dizer que estive com vós não somente nesta existência como nas pretéritas, Cecília. O orgulho e a vaidade não brotaram nesta vivência aqui, mas naquela em que fostes abadessa de Cluny, ou quando guerreou em passado ainda mais distante e levou tantos de seus companheiros de armas à morte desnecessária. Rivais estes que regressaram nesta vossa recente encarnação para também causar-vos o que causastes previamente.'

Sem citar nomes, ele aprofundou-se na explicação a respeito da [doutrina da] encarnação, as múltiplas existências, o 'contrato' que fazemos antes de vir expiar as nossas faltas neste planeta a que chamamos de Terra. Apesar da confusão inicial, não houve problemas de minha parte em logo associar aquela explicação racional à minha situação atual. Na verdade, havia sido mais fácil do que pensei aceitar tudo aquilo.

Assim, meu guardião, como ele assim nominou, prosseguiu sua explicação:

'Fico contente de perceber que estais usando de vossa inteligência para perceber e reconhecer vosso presente estado.'

'Dancei com meus fantasmas', falei sem emoção. 'Sequei minhas lágrimas.'

'O resquício do orgulho ainda aí está', ele comentou como se lamentasse.

Senti uma pontada de dor em mim e por um instante, pensei ter visto a escuridão pairar na capela outra vez.

'O senhor não vai me deixar aqui sozinha... vai?'

E, pela primeira vez desde que nos reencontramos, ele sorriu:

'Creio que estamos avançando. Não poderei acompanhá-la sempre, mas posso ficar até ser chamado.'

Não compreendi de imediato o que aquilo dizia, mas assenti.

'Não estou preparada para pedir perdão', eu admiti, envergonhada. 'Não quero vê-los outra vez.'

Os rivais a que falava eram....  [Nota de Ogum: sem permissão para citar nomes, ainda.], bom, ocupavam posições significantemente relevantes e eu temia que, tal qual aconteceu com minhas lembranças de outrora, pudessem me assombrar.

'Leve o tempo que precisar. O primeiro passo, já deu', disse ele, aprovando.

Assenti com a cabeça, mas lancei a ele um olhar ansioso:

'E o que devo fazer agora? Poderia encontrar meus filhos?'

'Não'. Ele disse, simplesmente. 'E sabeis por que, Cecília?'

Hesitei. Sentia a sombra do orgulho pairar sobre mim: como em vida, na morte não desejava reconhecer que, enquanto tracei um caminho permeado por materialidades desnecessárias, meus filhos não foram longe.

O guardião me encarou, e eu disse, afinal:

'Eles também precisam dançar com seus fantasmas.'

'Como soou poeta.' Ele disse com um sorriso ameno. 'Poderíeis ter sido uma se assim desejasse, mas agora aqui estais, colhendo os frutos do que plantou.'

'A roda da fortuna é cruel', eu lamentei.

'Ela é? Ou apenas um objeto para explicar os vícios e virtudes dentro de cada perspectiva?' Indagou o guardião que acompanhava.

Enrubesci, ou o mais próximo disso, dado que suas palavras soavam como espada afiada.

'Ela explicava muito...'

'Talvez fosse um instrumento que aplacasse vossas vontades, uma metáfora para a lei de Deus, a lei do retorno, dentro da visão limitada de vós e vossos contemporâneos detinham acerca da religiosidade.'

Recusei encará-lo, mas deveria saber que ele poderia interpretar meus gestos e pensamentos com facilidade. Aquele era o homem que me conhecia por mais de uma vida e vinha me protegendo ou, pior, se esforçando em aconselhar a mulher orgulhosa que, tal como Lúcifer, sofria com sua queda. Pobre sujeito, pensei sinceramente.

'Pensais na dureza de minhas palavras e a comparais com a força de uma espada bem aparada, hum? Cecília, não estagneis agora.' Ele me repreendeu e levantei o olhar. 'Estais em dor porque vossa consciência a censurou e continuas fazendo porque reconheceis todo o mal que praticastes.'

'De fato', concordei de má vontade, 'onde pratiquei caridade, o fiz pensando no lugar que almejaria o Céu. Onde poderia ter interferido, optei pelo orgulho, pela falsa crença em minha religiosidade. Se rezei, não foi pelo coração. Se fui piedosa, não foi pela alma.'

'E como gostaríeis de reparar isso?'

Por um longo instante, aquilo me surpreendeu. Perdida em meus tormentos, não pensei nos outros a que afetei, nas ações feitas por si só. Não considerei...., em meu juízo imperfeito, que as faltas deveriam ser reparadas.

'Reencarnar...' Eu murmurei, porém sem devidamente acreditar nisso.

'Não podemos ir tão rápido assim', ele me censurou. 'Como expliqueis, a reencarnação não é um ciclo no qual opteis por adentrar quando e como quiserdes. Há um processo para isso. Por mais louvável que seja vosso reconhecimento em voltar a uma existência para que possa limpar de vossas faltas pretéritas e, assim, avançar na espiritualidade, é preciso que sejais sincera convosco e busque melhorias.'

'Que melhorias?' Indaguei, sem compreender.

'Que o perdão a que pretendeis pedir não somente ao Pai Uno, e a vós, mas aos outros com quem errou.'

[Nota de Ogum: em breves palavras, explicarei do que se trata a doutrina de reencarnação. Embora este seja um conceito muito bem conceituado por Allan Kardec e que certamente grande parte dos espiritualistas, umbandistas e candomblecistas admitem em suas crenças, é de bom senso recordar que ele, conforme pontuou muitíssimo bem o exú da entidade em questão, não funciona de acordo com as peremptoriedades dos espíritos que anseiam por melhorar em si mesmos. Há hospitais, colônias espirituais e tantos outros locais de semelhança atuação cujos propósitos se tratam tanto de doutrinar aquela entidade quanto para prepará-la para a missão a que vêm ter seja neste plano terráqueo ou em outros onde a encarnação é um importante meio de trabalho.
Vejamos um exemplo mais prático: uma pessoa, tal como a entidade Cecília que vem relembrando seu trajeto espiritual aqui, que fez mau uso de seu posicionamento político na sociedade, quando desencarna, muita das vezes (é claro que, deve-se ser ressaltado, tudo depende do avançamento moral do espírito) não reconhece sua morte. Há uma equipe, ou no caso, determinadas entidades, voltada para este tipo de doutrinação: esclarecer o espírito do sujeito sobre as circunstâncias da morte, explicar a questão de estar ali e não, como se poderia pensar, entre seus entes queridos, e assim por diante. Supondo que ele aceite, ele será encaminhado a uma colônia (ou, dependendo da causa de seu desencarne, a um hospital) para que a espiritualidade atue sobre ele de forma a elucidar todo o contexto que o levou até ali. Quando este espírito, depois de depurar sobre os erros feitos na última encarnação, enfim aceita ser auxiliado e disciplinado para o seu melhoramento futuro, a ele é oferecido o tipo de trabalho (pois que se sabe que os espíritos não "descansam", nem, usando a expressão recorrente, "ficam à toa") onde poderá aperfeiçoar suas qualidades concomitantemente pratique a caridade, o amor ao próximo, enfim os valores que Cristo nos educou quando veio à Terra. Nesse sentido, caso opte pela encarnação, ele é preparado por espíritos que, normalmente, já não precisam mais deste estágio para o encaminhamento espiritual de terceiros, podendo mesmo atuar de outros planos espirituais. E mesmo aí, devo vos dizer, há uma série de "tratados" com outros colegas espíritos: o reencontro de almas afins, ou não-afins, que desejam avançar juntos e apagar resquícios errôneos de existências precedentes, antes de selar um acordo que, não obstante, pode ser alterado dependendo do avanço moral do sujeito.
Em resumo, esta foi a explicação que vos trago e que, numa linguagem mais simbólica e provavelmente mais complicada de traduzir, foi dada do guardião de dona Cecília à esta entidade.]

A conversa havia sido longa e penso que vosso mentor já explicou o cerne da questão que muito me abalou quando o guardião assim me expôs. Em suma, posso admitir que demorei ainda mais para buscar aqueles que tanto me fizeram mal quanto eu mesma o fiz. Foi quando, tão de repente, o cenário em que estive se modificou. Já não estava presa em um castelo de pedras e abandonado, frio e escuro, mas nos jardins floridos, onde o sol queimava e tudo era mais alegre.

Curiosamente, porém, observei que, onde havia mansões e outras tantas residências ocupadas pela nobreza e aristocracia de meu tempo, casas simples e bem feitas situavam em seu lugar, todas elas de cor branca.

'Onde estou?' Indaguei ao meu guardião chamado João.

'Estamos em uma colônia', ele me disse. 'Creio que podeis reencontrar pessoas que lhe foram caras em vida. Uma delas, em particular, foi responsável por sua chegada aqui tamanha fora o poder de suas preces.'

A isso, pressenti algo bom, é verdade. Uma emoção que eu não saberia descrever tomou conta de mim, e ela saiu de meus olhos assim que a vi de braços abertos, pronta para me receber. Como uma garotinha, e não uma senhora de 82 anos, corri à minha mãe.

'Obrigada, Pai. Obrigada, meu Deus.' Eu murmurei, sem saber, ou me importar, de que estava sendo observada pelo senhor João e outros dois homens que o seguiam. 'Oh, mãe. Como senti vossa ausência! Perdoe-me, eu peço que me perdoe por tudo o que fizera em vida.'

Minha mãe, lady Joan, a nada respondeu, embora emocionada estivesse por me ter em vossos braços outra vez. Foi um reencontro belo, e não queria soltar-me dela. Seu perfume de rosas inebriou-me e fê-me sorrir tal qual uma criança quando reencontra seus pais. Entretanto, o desenlace precisava ser feito e aqueles que nos guiavam permitiram que pudéssemos desfrutar de nossa privacidade.

'Filha, querida. Nada me agrada mais do que vê-la aqui. Imagino que tenhais tantas perguntas, não é mesmo?'

Assenti, sentindo-me tola como a jovem que um dia fui.

'Com o tempo certo, elas serão respondidas. Tudo depende da vontade de Nosso Senhor.' Sua característica piedade aqui tão naturalmente floresceu que me fez sorri impetuosamente. 'Senhor João vos explicou o que deveis fazer?'

Ainda que a vergonha ainda manchasse minha alma, eu estava preocupada em me desfazer do resquício de orgulho que me maculava. Portanto, aquiesci.

'Muito bem', aprovou minha mãe séria. 'Concluo que tenhais refletido seriamente, minha criança, porque o que farais daqui a frente não será tarefa fácil'.

A isto ponderei, e muito que seriamente. Entretanto, depois de quase 350 anos presa no umbral, eu decidi que meu arrependimento era genuíno e a inércia não era algo que me apetecia. Desejava aprimorar-me dos erros passados e por isso estava ciente de que reencontraria meus piores inimigos por ali. Rezei sinceramente por seus perdões naquela meditação inspirada pela presença de minha mãe, e, embora não quisesse deixar para trás os belos jardins de Raby, era imprescindível que o fizesse.

No entanto, conforme era levada para uma das casas em branco, nada me esperava para a primeira de uma série de reencontros que me abalariam e, provavelmente, causariam uma abrupta mudança interna. No momento em que a porta se abriu, me deparei com aquele que, muito por minha causa, encontrou a morte antes do seu tempo pela falta de orientação de minha parte: era um dos meus filhos, George.


(continua...)




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...