Espanha, 1350.
Para os leitores que vêm acompanhando até aqui, eis minha despedida. Afinal, no decorrer deste ano, foi com leveza e muito amor com os quais recordei minhas encarnações na Terra, provocando reações diversas em vocês. Mas tudo, por breve que seja -ou não-, tem um fim. E comigo não seria exceção. Talvez, a palavra certa devesse ser 'ciclo', posto que fim sugere algo definitivo e não é assim que é a realidade para aqueles que habitam as moradas do Pai. Esta memória é curta, pois minha existência aqui foi abreviada por ser a última encarnação neste plano. Focarei, portanto, nos detalhes que importam.
Nasci em Madrid, no século XIV. Esta região fazia parte de uma Espanha completamente desunida, dividida entre os reinos de Castela, Leão e Aragão. Eventualmente, Castela anexaria Leão, tornando-se, assim, um reino só: Castela e Leão (em castelhano: Castilla y León). Eram tempos relativamente pacíficos, embora a guerra dos cem anos afetasse a maneira com a qual nosso governante se relacionava diplomaticamente com seus vizinhos e até mesmo como conduzia os assuntos internos. No entanto, o desencarne de Alfonso XI de Castela ocasionou novas tensões a partir da ascensão de seu único filho legítimo: Pedro. A história é impiedosa com este homem, mas não posso dizer que tenha sido injusta para com o rei que recebeu a alcunha de 'O Cruel'. Ainda hoje, sofre pelos pecados de outrora. O poder que herdou do pai foi usado para outros propósitos. (Nota de Amadeus: se pensam que Alfonso XI se safou desta, estão enganados, pois a justiça do Pai não falha nunca. Até ele reencarnar novamente, passou-se o equivalente a quatro séculos contados no planeta Terra. E quem foi seu pai na vida posterior? A esposa, Maria de Portugal. Podem imaginar o que esse reencontro ocasionou...).
A vingança tomava seus ares, motivando tantos seres brutos a optarem pela matéria aos "instintos" do espírito. Consequentemente, em seus últimos dias, espíritos temiam a morte... porque, naquele instante, guardavam algo em seu ser que os fizessem temer o plano espiritual. Alguns dizem que foi o que ocorreu com Pedro. De todo modo, este era o cenário em que deliberadamente optei por encarnar.
Minha família fazia parte de uma classe que demoraria alguns séculos para se consolidar, a burguesa, embora não no sentido moderno. Meu pai era um comerciante que almejava enriquecer e tornar-se o "novo rico", quem sabe obter uma posição na corte. Pedro era seu nome (um que estava em voga na época) e ele tinha um gosto particular por vinho e tecido, embora tais não se correlacionassem de maneira alguma. No entanto, era esperto e sabia como comercializar ambos. Viajava constantemente, o que entristecia minha mãe, ainda que nunca ouvíssemos um pio seu a este respeito. Magdalena, como era chamada, era muito piedosa e submissa. Encontrava tanto conforto na fé de Cristo quanto possível. Repreendia meu pai por sua avareza e detestava ostentação, o que gerava vários motivos de briga entre eles. (Nota de Amadeus: tanto Magdalena quanto Pedro eram espíritos que continuamente se reencontravam em diversas reencarnações para que pudessem superar as diferenças provocadas por uma existência ainda concebida em outro planeta.) Não é de surpreender que Pedro houvesse encontrado uma amante, pois vivia frustrado por não ter suas expectativas matrimoniais correspondidas adequadamente.
É bom situar o leitor sobre como funcionava esta sociedade fora da nobreza, mas que tampouco se adequava à pobreza. Os 'burgueses' eram nada mais que trabalhadores, porém ambiciosos e que cultivavam determinado apego ao material (não tão diferente do camponês insaciavelmente insatisfeito com sua pobreza ou do nobre infeliz, irritado com o excesso de riqueza que possuía). Os mais honestos cumpriam suas funções, suas missões na Terra, ainda que sem quaisquer louvores. Os menos honestos tendiam a ser mais facilmente comprados. Numa época de peste, porém, a riqueza desempenhava um papel ao lado da morte, embora não se pudesse corromper esta última oferecendo-lhe dinheiro. Se havia oportunidade de procurar refúgio, estes novos ricos não hesitariam em fazê-lo... como tampouco teriam escrúpulos para pagar padres para rezarem missas a fim de que suas almas não fossem enviadas ao inferno ou pendessem sobre o purgatório. Pobres criaturas. Quanto às mulheres, creio que os leitores possuem um mínimo de conhecimento a respeito da situação infeliz de desigualdade imposta a este sexo: ainda eram dominadas pelo masculino, o que gerava uma dificuldade social para que estas exercessem suas funções conforme determinadas por uma sociedade masculinizada. Neste sentido, àquelas que detinham conhecimentos fora da religião eram enquadradas em rótulos que se esforçavam por diminuí-las aos olhos da Igreja que, oh que ironia!, dizia defender as palavras de Cristo e responder por Ele. Dominadas, portanto, por este tipo de pensamento infeliz, mulheres poderosas e de pensamentos próprios que se recusavam a abaixar a cabeça eram objetos de escândalos e sofriam sansões das mais terríveis pela maioria destes espíritos infelizes.
Magdalena, minha mãe, recebeu o nome da santa padroeira dos arrependidos. E seu comportamento era o de quem perdoava constantemente o marido que, num futuro não muito distante, viria exatamente a se arrepender de seu comportamento errôneo. Ela era bela para os padrões da época, embora para mim fosse bela de todos os jeitos possíveis: sua personalidade era cativante e sua religiosidade, ainda mais. Havia algo nela que capturava a atenção de todos os que passavam, e ninguém que lhe dirigisse o olhar, o fazia com malícia. Suas roupas eram simples: um vestido cinza dentro dos costumes sociais, ou de cores mais alegres como o amarelo e o azul, cujos tecidos eram os mais macios que se pudesse pensar em ter. Seus cabelos eram louros e viviam presos em um toucado dourado, também feito por ela, que amava costurar. Raras foram as ocasiões em que os deixava soltos, e nestas estavam sempre trançados. Seu rosto era oval e fino, dando-lhe um aspecto quase santo: os olhos eram azuis como o oceano e os lábios, finos; seu nariz era longo, tipicamente aristocrático para uma mulher que não se identificava como tal. Era magra em corpo por jejuar constantemente, o que resultava em reclamações de meu pai pela ausência de "carne", de uma corpulência que ele preferia em outras mulheres, mas que faltava em sua consorte. Se havia algo de rainha em sua aparência, leitores, é porque em outra existência havia sido uma. Mas não posso me adentrar nestes aspectos que não me cabem aqui explicar.
(Nota de Amadeus: muitos aqui podem se perguntar porque, ao contrário de minhas encarnações anteriores, tenho me prolongado em falar tanto dos meus pais. Os mais atentos perceberão uma conexão com estes espíritos, em particular com o de Magdalena, que precede a esta existência. Aos que, por alguma razão, não concebem isso, explico: nas últimas duas encarnações, vim à nascer em conjunto com estas entidades que, por tanto tempo, traçaram seus próprios caminhos em conjunto. E como esta veio a ser minha última vivência, seria necessário que desencarnasse no tempo estipulado por Deus de maneira que a questão, ou karma se preferirem, seja prontamente resolvido e não mais "adiado" para vivências futuras).
Magdalena desejava entrar no convento, mas seus pais foram contra seus desejos: a mãe, por questões de ambições, pretendia inserir a filha na corte conquanto que o pai precisava pagar as dívidas a um dos nobres, casando-a, desta maneira, a um homem da confiança deste. Aos dezesseis anos, casou-se e cumpriu com seus deveres maritais ao dar ao esposo três filhos, dois rapazes e uma menina, eu, a quem chamaram de María Leonor.
Meu pai, Pedro, viveu conforme o tempo: era ambicioso e frustrava-se por não estar entre os nobres. Suas conexões, resultado de esforços contínuos que o árduo labor lhe concedeu, o levariam à corte e isso poderia lhe trazer problemas em um futuro muito perto. Era relativamente belo se levarmos em conta a facilidade com a qual seduzia as mulheres que levava para cama, tomando algumas destas como amantes por um período curto ou longo, dependendo de seu humor. De estatura média, tinha cabelos alaranjados e olhos castanhos tão claros que, à luz do sol, passavam-se por um verde olivado. Vestia-se bem e a vaidade era um traço que constantemente o acompanhava: preocupava-se com a aparência, os luxos que o dinheiro poderia comprar e as amizades que o levariam ao "altar". Se tinha alguns escrúpulos, era muito. Frequentava a missa por insistência de minha mãe, e porque se não o fizesse, sabia que seria mau visto por aqueles que os cercavam: precisava ser benquisto e ter uma boa reputação era um dos grandes objetivos de sua vida.
Como falei, foi um homem daquele século: hipócrita, certamente, manipulador e vicioso, mas que possuía boas qualidades. Curiosamente, foi um bom pai e forneceu aos seus filhos a educação adequada. Foi além do esperado ao permitir que um tutor de meus irmãos ensinasse-me a ler e a escrever, a dominar a língua latina e castelhana. Conforme crescia, pretendia que seguisse o mesmo destino que minha mãe: ignorava minha religiosidade, dado que a justificava como "coisa de mulher", e, portanto, minhas inclinações ao convento. Se minha mãe nunca apoiou em voz alta minha vontade de servir à Deus, foi porque a presença de meu pai impunha-nos sua vontade que impedia nossa resistência. Assim, logo quando completei quatro anos, quis ele procurar por um noivo para selar alguma aliança que tinha em mente.
* * *
Os ventos frios do ano seguinte traziam más notícias que, para muitos dos pobres camponeses, significavam prenúncios ruins. Leonor de Gusmão foi assassinada com o apoio da rainha viúva em ato orquestrado e demandado conjuntamente com o novo rei. Desta questão, surgiria uma guerra civil. Henrique de Trástamara (em castelhano: Enrique de Trastamara) levaria consigo a cena da morte de sua mãe e voltaria a se vingar. Não repousaria em bons sentimentos até que impusesse a morte ao meio-irmão. Mas 14 anos ainda se passariam e eu sequer viveria tempo o suficiente para testemunhar tais eventos.
Meu pai, porém, gostava de comentar pomposamente sobre os assuntos da corte. Recordo-me do dia que a senhora Leonor havia sido executada e como ele debateu a respeito da morte da dama em questão com minha mãe.
--A vadia morreu!--ele se rejubilou--O rei poderá governar em paz.
Mas minha mãe o censurou por isso:
Minha família fazia parte de uma classe que demoraria alguns séculos para se consolidar, a burguesa, embora não no sentido moderno. Meu pai era um comerciante que almejava enriquecer e tornar-se o "novo rico", quem sabe obter uma posição na corte. Pedro era seu nome (um que estava em voga na época) e ele tinha um gosto particular por vinho e tecido, embora tais não se correlacionassem de maneira alguma. No entanto, era esperto e sabia como comercializar ambos. Viajava constantemente, o que entristecia minha mãe, ainda que nunca ouvíssemos um pio seu a este respeito. Magdalena, como era chamada, era muito piedosa e submissa. Encontrava tanto conforto na fé de Cristo quanto possível. Repreendia meu pai por sua avareza e detestava ostentação, o que gerava vários motivos de briga entre eles. (Nota de Amadeus: tanto Magdalena quanto Pedro eram espíritos que continuamente se reencontravam em diversas reencarnações para que pudessem superar as diferenças provocadas por uma existência ainda concebida em outro planeta.) Não é de surpreender que Pedro houvesse encontrado uma amante, pois vivia frustrado por não ter suas expectativas matrimoniais correspondidas adequadamente.
É bom situar o leitor sobre como funcionava esta sociedade fora da nobreza, mas que tampouco se adequava à pobreza. Os 'burgueses' eram nada mais que trabalhadores, porém ambiciosos e que cultivavam determinado apego ao material (não tão diferente do camponês insaciavelmente insatisfeito com sua pobreza ou do nobre infeliz, irritado com o excesso de riqueza que possuía). Os mais honestos cumpriam suas funções, suas missões na Terra, ainda que sem quaisquer louvores. Os menos honestos tendiam a ser mais facilmente comprados. Numa época de peste, porém, a riqueza desempenhava um papel ao lado da morte, embora não se pudesse corromper esta última oferecendo-lhe dinheiro. Se havia oportunidade de procurar refúgio, estes novos ricos não hesitariam em fazê-lo... como tampouco teriam escrúpulos para pagar padres para rezarem missas a fim de que suas almas não fossem enviadas ao inferno ou pendessem sobre o purgatório. Pobres criaturas. Quanto às mulheres, creio que os leitores possuem um mínimo de conhecimento a respeito da situação infeliz de desigualdade imposta a este sexo: ainda eram dominadas pelo masculino, o que gerava uma dificuldade social para que estas exercessem suas funções conforme determinadas por uma sociedade masculinizada. Neste sentido, àquelas que detinham conhecimentos fora da religião eram enquadradas em rótulos que se esforçavam por diminuí-las aos olhos da Igreja que, oh que ironia!, dizia defender as palavras de Cristo e responder por Ele. Dominadas, portanto, por este tipo de pensamento infeliz, mulheres poderosas e de pensamentos próprios que se recusavam a abaixar a cabeça eram objetos de escândalos e sofriam sansões das mais terríveis pela maioria destes espíritos infelizes.
Magdalena, minha mãe, recebeu o nome da santa padroeira dos arrependidos. E seu comportamento era o de quem perdoava constantemente o marido que, num futuro não muito distante, viria exatamente a se arrepender de seu comportamento errôneo. Ela era bela para os padrões da época, embora para mim fosse bela de todos os jeitos possíveis: sua personalidade era cativante e sua religiosidade, ainda mais. Havia algo nela que capturava a atenção de todos os que passavam, e ninguém que lhe dirigisse o olhar, o fazia com malícia. Suas roupas eram simples: um vestido cinza dentro dos costumes sociais, ou de cores mais alegres como o amarelo e o azul, cujos tecidos eram os mais macios que se pudesse pensar em ter. Seus cabelos eram louros e viviam presos em um toucado dourado, também feito por ela, que amava costurar. Raras foram as ocasiões em que os deixava soltos, e nestas estavam sempre trançados. Seu rosto era oval e fino, dando-lhe um aspecto quase santo: os olhos eram azuis como o oceano e os lábios, finos; seu nariz era longo, tipicamente aristocrático para uma mulher que não se identificava como tal. Era magra em corpo por jejuar constantemente, o que resultava em reclamações de meu pai pela ausência de "carne", de uma corpulência que ele preferia em outras mulheres, mas que faltava em sua consorte. Se havia algo de rainha em sua aparência, leitores, é porque em outra existência havia sido uma. Mas não posso me adentrar nestes aspectos que não me cabem aqui explicar.
(Nota de Amadeus: muitos aqui podem se perguntar porque, ao contrário de minhas encarnações anteriores, tenho me prolongado em falar tanto dos meus pais. Os mais atentos perceberão uma conexão com estes espíritos, em particular com o de Magdalena, que precede a esta existência. Aos que, por alguma razão, não concebem isso, explico: nas últimas duas encarnações, vim à nascer em conjunto com estas entidades que, por tanto tempo, traçaram seus próprios caminhos em conjunto. E como esta veio a ser minha última vivência, seria necessário que desencarnasse no tempo estipulado por Deus de maneira que a questão, ou karma se preferirem, seja prontamente resolvido e não mais "adiado" para vivências futuras).
Magdalena desejava entrar no convento, mas seus pais foram contra seus desejos: a mãe, por questões de ambições, pretendia inserir a filha na corte conquanto que o pai precisava pagar as dívidas a um dos nobres, casando-a, desta maneira, a um homem da confiança deste. Aos dezesseis anos, casou-se e cumpriu com seus deveres maritais ao dar ao esposo três filhos, dois rapazes e uma menina, eu, a quem chamaram de María Leonor.
Meu pai, Pedro, viveu conforme o tempo: era ambicioso e frustrava-se por não estar entre os nobres. Suas conexões, resultado de esforços contínuos que o árduo labor lhe concedeu, o levariam à corte e isso poderia lhe trazer problemas em um futuro muito perto. Era relativamente belo se levarmos em conta a facilidade com a qual seduzia as mulheres que levava para cama, tomando algumas destas como amantes por um período curto ou longo, dependendo de seu humor. De estatura média, tinha cabelos alaranjados e olhos castanhos tão claros que, à luz do sol, passavam-se por um verde olivado. Vestia-se bem e a vaidade era um traço que constantemente o acompanhava: preocupava-se com a aparência, os luxos que o dinheiro poderia comprar e as amizades que o levariam ao "altar". Se tinha alguns escrúpulos, era muito. Frequentava a missa por insistência de minha mãe, e porque se não o fizesse, sabia que seria mau visto por aqueles que os cercavam: precisava ser benquisto e ter uma boa reputação era um dos grandes objetivos de sua vida.
Como falei, foi um homem daquele século: hipócrita, certamente, manipulador e vicioso, mas que possuía boas qualidades. Curiosamente, foi um bom pai e forneceu aos seus filhos a educação adequada. Foi além do esperado ao permitir que um tutor de meus irmãos ensinasse-me a ler e a escrever, a dominar a língua latina e castelhana. Conforme crescia, pretendia que seguisse o mesmo destino que minha mãe: ignorava minha religiosidade, dado que a justificava como "coisa de mulher", e, portanto, minhas inclinações ao convento. Se minha mãe nunca apoiou em voz alta minha vontade de servir à Deus, foi porque a presença de meu pai impunha-nos sua vontade que impedia nossa resistência. Assim, logo quando completei quatro anos, quis ele procurar por um noivo para selar alguma aliança que tinha em mente.
* * *
Os ventos frios do ano seguinte traziam más notícias que, para muitos dos pobres camponeses, significavam prenúncios ruins. Leonor de Gusmão foi assassinada com o apoio da rainha viúva em ato orquestrado e demandado conjuntamente com o novo rei. Desta questão, surgiria uma guerra civil. Henrique de Trástamara (em castelhano: Enrique de Trastamara) levaria consigo a cena da morte de sua mãe e voltaria a se vingar. Não repousaria em bons sentimentos até que impusesse a morte ao meio-irmão. Mas 14 anos ainda se passariam e eu sequer viveria tempo o suficiente para testemunhar tais eventos.
Meu pai, porém, gostava de comentar pomposamente sobre os assuntos da corte. Recordo-me do dia que a senhora Leonor havia sido executada e como ele debateu a respeito da morte da dama em questão com minha mãe.
--A vadia morreu!--ele se rejubilou--O rei poderá governar em paz.
Mas minha mãe o censurou por isso:
--Homem algum detém o direito de tirar a vida de seus semelhantes.
Pedro franziu o cenho para a Magdalena, provavelmente porque pensava que ela compartilharia de sua opinião (tendo em vista que ele próprio teve suas amantes e acreditava que a irritava com isso):
--O rei pode fazer o que achar necessário.
--E Leonor teve alguma culpa por ter sido seduzida pelo rei anterior?--indagou Magdalena--Por que não se rebelaram contra o monarca por ter-se esquecido de seus deveres enquanto marido?
Meu pai enrubesceu-se porque se sentiu ofendido, sua consciência, por limitada que fosse, o havia alertado de que ele não era tão diferente de Alfonso XI assim...
--Cala-te, mulher--porque é mais fácil utilizar-se de violência quando a razão lhes falta e não há espaço para admitir o próprio erro--Não sabe o que fala e profana a memória de nossos reis.
Magdalena sabiamente se aquietou, e meu pai se incomodou ainda mais. Nunca gostou inteiramente desta submissão dela, preferia que ela gritasse como outras esposas faziam com seus maridos.
(Nota de Amadeus: ainda que esta memória nos remete à Baixa Idade Média espanhola, do século XIV, a questão espiritual permanece a mesma como nos dias contemporâneos dos que aqui nos acompanham. Já falei disso antes, mas acho importante reforçar: quando alguém, sem qualquer motivo, briga com outra pessoa é porque nele há um incômodo, um sentimento mal resolvido que o individuo com qual busca conflituar-se instiga-o. E por que isso? Cada ser humano vibra meritosamente conforme seu espírito. E se Pedro está ainda embrutecido é porque não se desprendeu dos instintos que acompanham seu espírito de vidas pregressas. Nesse sentido, a diferença de vibrações cabem aqui para a compreensão destas diferenças de um marido para com sua esposa. Da mesma maneira que, em pleno ano de 2019, há os que se incomodam profundamente com a divergência de opiniões e pontos de vista a ponto de se utilizar de violência para agredir o que "provocou" uma discordância. Que fique claro que nem sempre a violência que me refiro se estende à física, pois sabem que as agressões valem-se do psicológico, do emocional, entre outros casos. A explicação que aqui trouxe mantém-se.)
Pedro tinha suas lutas internas, e se não cedeu a algumas delas foi graças à intercessão de seus mentores espirituais. Apesar disso, as preces de Magdalena ao esposo não cessaram. E eu acompanhava nela incansavelmente.
--Filha--uma vez ela me disse--é tao pequena, e, entretanto, cá está ao meu lado, participando dos jejuns e das preces. Deus me abençoou com filha tão devota.
Apeguei-me a minha mãe e respondi, em minha voz infantil:
--Se Deus a abençoastes, senhora, é porque mereceis.
Essa frase a emocionou e ela repetiria isso por algum tempo, embora eu não me recordasse do que havia falado. Em retrospecto, digo que foi uma mensagem de seu mentor espiritual através de mim que ela interpretou como sinal do Pai Maior.
Conforme crescia, porém, meu corpo não acompanhava seu desenvolvimento e eu voltei a ter as mesmas visões que tive na minha primeira encarnação, embora agora muito mais desenvolvidas e sobre a qual possuía um domínio maior. Em silêncio, via as santas Catarina de Alexandria e Laura de Córdoba. Usavam branco em seus trajes e eram acompanhadas de uma luz muito forte. Ao lado delas, meus mentores espirituais, Rafael e Gabriel. Não somente eles como também a senhora negra que havia sido minha bisavó, também na minha primeira encarnação; ela me aparecia sob a roupagem de 'preta velha'. Tantas e tantas entidades se apresentavam ali, e eu compreendi de imediato que era hora da minha partida.
Recordo-me de meu pai reclamar, às vezes, da minha quietude excessiva. Uma vez meu irmão mais velho, também chamado Pedro, defendeu-me e disse:
--Se ela é assim é porque o senhor não a permite falar.
Meu pai o encarou com um misto de raiva e surpresa, e retrucou:
--Com que autoridade se dirige a mim?
--Como o filho humilde que me criou para tomar conta da família assim que herdar as terras que possui.
O mal estar foi de imediato e minha mãe intercedeu:
--Perdoe-o, marido, ele fala assim porque se preocupa com a irmã. María não está se sentindo bem.
--Claro que não! A senhora impôs a ela esta dieta ridícula! Como acha que ela não está bem se a força jejuar contigo?--vociferou ele.
A maternidade sempre foi valorizada pela minha mãe, pois era seu único modo de viver e exercitar seus valores sem preocupar-se com outros (vide o esposo). Era tão devota dos filhos que sentiu-se ofendida, magoada (e não sem razão) diante daquele ataque. Por isso surpreendeu a todos nós quando ela, que constantemente agia com distante perante as explosões do pai, caiu em prantos. Lembro-me bem da maneira com a qual Pedro arregalou os olhos, pois nem ele esperava por isso. Viu com aperto no coração os filhos socorrerem a mãe como ela fizera com eles por tanto tempo de sua vida.
Foi quando... ele se arrependeu. O arrependimento tarda, é certo, mas não falha. Algo o tocou, mas disso não posso falar por ele. Pedro ficou em choque, e eu vi como lamentava por ter causado aquilo. Por isso, me desviei do abraço à minha mãe e corri para os braços dele. Foi um gesto que o trouxe às lágrimas também. No final do dia, Jesus tocou aquela família.
* * *
Eu não atingi os dez anos de idade, sequer mesmo completei o nono ano de vida. Ao contrário, no auge dos oito eu parti deste mundo. Afinal, foi quando Pedro e Magdalena genuinamente se reconciliaram um com o outro e estreitaram os laços familiares para com todos os filhos que eu completei minha missão. Surpreenderá alguns que o amor tenha sido o motivo pelo qual deliberei vir. E é menor por isso? Não se trata de grandiosidade, mas de amenizar as dores que as encarnações imputam aos espíritos que à Terra vêm. Dores que resultam de vossas ações, presentes ou passadas. Há os que escolhem enfrentá-las de frente, o que é louvável; e há os que negam até o fim, prolongando suas aflições, do que resulta um despendimento doloroso. Não cabe julgar, por pior que seja a ação do indivíduo, porque a redenção é possível de surgir quando optamos pela luz. E Pedro escolheu por ela. E Deus acreditou que seria conveniente que eu ajudasse a ambos. Porque Magdalena, ainda que fosse evoluída, precisava resolver de vez seus últimos laços. E ela o fez. Superou seus problemas.
Notaram a ausência de meu amado que me acompanhou por várias vidas? Poderia, como ele, não encarnar mais neste planeta e ir adiante, não à Marte, mas à Júpiter, por onde ele iniciou seu último ciclo encarnatório de fato. Contudo, recusei esta oportunidade porque havia ainda àqueles a ajudar. E continuei velando por ambos no decorrer daquela encarnação. Magdalena engravidaria novamente e a família aumentaria por mais dois filhos. Pedro tornou-se humilde, mas não podia recusar o auge de servir ao rei Pedro. Contudo, na guerra civil que Henrique de Trastámara causou para vingar sua mãe, ele viria morrer a defender o último monarca da casa da Borgonha. Não obstante, porém, seus filhos, meus irmãos, ascenderiam no regime posterior. Um de seus descendentes serviria lealmente a conhecida e formidável rainha Isabel de Castela.
Adiei, confesso, algumas existências em Júpiter para ajudar tantos nesta era medieval e no início da idade moderna (ou do que vocês julgam ser a 'idade moderna' no âmbito historiográfico) e por mais que tenha reencarnado duas vezes por lá, volto acá para a missão de acompanhar a humanidade. Através de determinados médiuns, passo mensagens que julgo convenientes. Os que de vocês pretenderem se comunicar comigo, de boa vontade me prontifico a ajudar. Não para satisfazer curiosidades vãs, que de nada servem para a causa sua, mas para estimular os valores que o Mestre nos ensinou: amar o próximo, humildade, caridade sem ver a quem e honestidade de bom coração.
Com isso, despeço-me por ora, mas quem sabe um dia não volto para contar mais das vidas humanas fora deste planeta? Naturalmente que isso depende mais da vontade de Pai, à qual submito-me voluntariamente.
Agradeço aos que vêm acompanhando esta jornada de contos, esperando ser útil nelas; à médium que dispôs-se de seu tempo e boa vontade em pôr em palavras tão naturalmente quanto lhe foi possível minhas memórias. Aos guias dela que deram esta abertura para ensiná-la e ajudá-la com esta missão que virá a desempenhar. Com a fé no Pai, meus irmãos, digo-lhes que tudo é possível para aqueles que, com fé e determinação, desejam alcançar. Sigam no caminho da fé, da bondade, da luz, e enfrentam com persistência os obstáculos da vida. Nada é para o vosso mal, mas para vosso crescimento. Que assim seja, com a vontade do Pai Maior,
de vosso amigo e mentor,
Amadeus.
Pedro franziu o cenho para a Magdalena, provavelmente porque pensava que ela compartilharia de sua opinião (tendo em vista que ele próprio teve suas amantes e acreditava que a irritava com isso):
--O rei pode fazer o que achar necessário.
--E Leonor teve alguma culpa por ter sido seduzida pelo rei anterior?--indagou Magdalena--Por que não se rebelaram contra o monarca por ter-se esquecido de seus deveres enquanto marido?
Meu pai enrubesceu-se porque se sentiu ofendido, sua consciência, por limitada que fosse, o havia alertado de que ele não era tão diferente de Alfonso XI assim...
--Cala-te, mulher--porque é mais fácil utilizar-se de violência quando a razão lhes falta e não há espaço para admitir o próprio erro--Não sabe o que fala e profana a memória de nossos reis.
Magdalena sabiamente se aquietou, e meu pai se incomodou ainda mais. Nunca gostou inteiramente desta submissão dela, preferia que ela gritasse como outras esposas faziam com seus maridos.
(Nota de Amadeus: ainda que esta memória nos remete à Baixa Idade Média espanhola, do século XIV, a questão espiritual permanece a mesma como nos dias contemporâneos dos que aqui nos acompanham. Já falei disso antes, mas acho importante reforçar: quando alguém, sem qualquer motivo, briga com outra pessoa é porque nele há um incômodo, um sentimento mal resolvido que o individuo com qual busca conflituar-se instiga-o. E por que isso? Cada ser humano vibra meritosamente conforme seu espírito. E se Pedro está ainda embrutecido é porque não se desprendeu dos instintos que acompanham seu espírito de vidas pregressas. Nesse sentido, a diferença de vibrações cabem aqui para a compreensão destas diferenças de um marido para com sua esposa. Da mesma maneira que, em pleno ano de 2019, há os que se incomodam profundamente com a divergência de opiniões e pontos de vista a ponto de se utilizar de violência para agredir o que "provocou" uma discordância. Que fique claro que nem sempre a violência que me refiro se estende à física, pois sabem que as agressões valem-se do psicológico, do emocional, entre outros casos. A explicação que aqui trouxe mantém-se.)
Pedro tinha suas lutas internas, e se não cedeu a algumas delas foi graças à intercessão de seus mentores espirituais. Apesar disso, as preces de Magdalena ao esposo não cessaram. E eu acompanhava nela incansavelmente.
--Filha--uma vez ela me disse--é tao pequena, e, entretanto, cá está ao meu lado, participando dos jejuns e das preces. Deus me abençoou com filha tão devota.
Apeguei-me a minha mãe e respondi, em minha voz infantil:
--Se Deus a abençoastes, senhora, é porque mereceis.
Essa frase a emocionou e ela repetiria isso por algum tempo, embora eu não me recordasse do que havia falado. Em retrospecto, digo que foi uma mensagem de seu mentor espiritual através de mim que ela interpretou como sinal do Pai Maior.
Conforme crescia, porém, meu corpo não acompanhava seu desenvolvimento e eu voltei a ter as mesmas visões que tive na minha primeira encarnação, embora agora muito mais desenvolvidas e sobre a qual possuía um domínio maior. Em silêncio, via as santas Catarina de Alexandria e Laura de Córdoba. Usavam branco em seus trajes e eram acompanhadas de uma luz muito forte. Ao lado delas, meus mentores espirituais, Rafael e Gabriel. Não somente eles como também a senhora negra que havia sido minha bisavó, também na minha primeira encarnação; ela me aparecia sob a roupagem de 'preta velha'. Tantas e tantas entidades se apresentavam ali, e eu compreendi de imediato que era hora da minha partida.
Recordo-me de meu pai reclamar, às vezes, da minha quietude excessiva. Uma vez meu irmão mais velho, também chamado Pedro, defendeu-me e disse:
--Se ela é assim é porque o senhor não a permite falar.
Meu pai o encarou com um misto de raiva e surpresa, e retrucou:
--Com que autoridade se dirige a mim?
--Como o filho humilde que me criou para tomar conta da família assim que herdar as terras que possui.
O mal estar foi de imediato e minha mãe intercedeu:
--Perdoe-o, marido, ele fala assim porque se preocupa com a irmã. María não está se sentindo bem.
--Claro que não! A senhora impôs a ela esta dieta ridícula! Como acha que ela não está bem se a força jejuar contigo?--vociferou ele.
A maternidade sempre foi valorizada pela minha mãe, pois era seu único modo de viver e exercitar seus valores sem preocupar-se com outros (vide o esposo). Era tão devota dos filhos que sentiu-se ofendida, magoada (e não sem razão) diante daquele ataque. Por isso surpreendeu a todos nós quando ela, que constantemente agia com distante perante as explosões do pai, caiu em prantos. Lembro-me bem da maneira com a qual Pedro arregalou os olhos, pois nem ele esperava por isso. Viu com aperto no coração os filhos socorrerem a mãe como ela fizera com eles por tanto tempo de sua vida.
Foi quando... ele se arrependeu. O arrependimento tarda, é certo, mas não falha. Algo o tocou, mas disso não posso falar por ele. Pedro ficou em choque, e eu vi como lamentava por ter causado aquilo. Por isso, me desviei do abraço à minha mãe e corri para os braços dele. Foi um gesto que o trouxe às lágrimas também. No final do dia, Jesus tocou aquela família.
* * *
Eu não atingi os dez anos de idade, sequer mesmo completei o nono ano de vida. Ao contrário, no auge dos oito eu parti deste mundo. Afinal, foi quando Pedro e Magdalena genuinamente se reconciliaram um com o outro e estreitaram os laços familiares para com todos os filhos que eu completei minha missão. Surpreenderá alguns que o amor tenha sido o motivo pelo qual deliberei vir. E é menor por isso? Não se trata de grandiosidade, mas de amenizar as dores que as encarnações imputam aos espíritos que à Terra vêm. Dores que resultam de vossas ações, presentes ou passadas. Há os que escolhem enfrentá-las de frente, o que é louvável; e há os que negam até o fim, prolongando suas aflições, do que resulta um despendimento doloroso. Não cabe julgar, por pior que seja a ação do indivíduo, porque a redenção é possível de surgir quando optamos pela luz. E Pedro escolheu por ela. E Deus acreditou que seria conveniente que eu ajudasse a ambos. Porque Magdalena, ainda que fosse evoluída, precisava resolver de vez seus últimos laços. E ela o fez. Superou seus problemas.
Notaram a ausência de meu amado que me acompanhou por várias vidas? Poderia, como ele, não encarnar mais neste planeta e ir adiante, não à Marte, mas à Júpiter, por onde ele iniciou seu último ciclo encarnatório de fato. Contudo, recusei esta oportunidade porque havia ainda àqueles a ajudar. E continuei velando por ambos no decorrer daquela encarnação. Magdalena engravidaria novamente e a família aumentaria por mais dois filhos. Pedro tornou-se humilde, mas não podia recusar o auge de servir ao rei Pedro. Contudo, na guerra civil que Henrique de Trastámara causou para vingar sua mãe, ele viria morrer a defender o último monarca da casa da Borgonha. Não obstante, porém, seus filhos, meus irmãos, ascenderiam no regime posterior. Um de seus descendentes serviria lealmente a conhecida e formidável rainha Isabel de Castela.
Adiei, confesso, algumas existências em Júpiter para ajudar tantos nesta era medieval e no início da idade moderna (ou do que vocês julgam ser a 'idade moderna' no âmbito historiográfico) e por mais que tenha reencarnado duas vezes por lá, volto acá para a missão de acompanhar a humanidade. Através de determinados médiuns, passo mensagens que julgo convenientes. Os que de vocês pretenderem se comunicar comigo, de boa vontade me prontifico a ajudar. Não para satisfazer curiosidades vãs, que de nada servem para a causa sua, mas para estimular os valores que o Mestre nos ensinou: amar o próximo, humildade, caridade sem ver a quem e honestidade de bom coração.
Com isso, despeço-me por ora, mas quem sabe um dia não volto para contar mais das vidas humanas fora deste planeta? Naturalmente que isso depende mais da vontade de Pai, à qual submito-me voluntariamente.
Agradeço aos que vêm acompanhando esta jornada de contos, esperando ser útil nelas; à médium que dispôs-se de seu tempo e boa vontade em pôr em palavras tão naturalmente quanto lhe foi possível minhas memórias. Aos guias dela que deram esta abertura para ensiná-la e ajudá-la com esta missão que virá a desempenhar. Com a fé no Pai, meus irmãos, digo-lhes que tudo é possível para aqueles que, com fé e determinação, desejam alcançar. Sigam no caminho da fé, da bondade, da luz, e enfrentam com persistência os obstáculos da vida. Nada é para o vosso mal, mas para vosso crescimento. Que assim seja, com a vontade do Pai Maior,
de vosso amigo e mentor,
Amadeus.
Nenhum comentário:
Postar um comentário