País de Gales, 1066.
Eram tempos turbulentos estes em que nasci. Novamente, em meio ao caos encarnei, embora desta vez estivesse um pouco longe da verdadeira carnificina. No ano em que minha penúltima encarnação terrena ocorreu, já contava 15 anos, tendo nascido em 1051. Número poderoso, alguns diriam e os mais supersticiosos prenunciariam um grande evento com meu nascimento. Uma besteira, se quer saber minha opinião.
No condado de Pembroke, fui criada em uma família de nobres, se é que assim podemos chamá-los: não tínhamos qualquer sangue "azul", embora meus pais clamassem descender do grande rei galês Rhodri Mawr. A bem da verdade, éramos aristocratas rurais, detentores de uma quantidade razoável de terras que, em conformidade com as leis dos homens, nos qualificava acima de tantos outros. Submetidos à autoridade de cada príncipe regional, possuíamos, entretanto, nossa quota de poder para exercer sobre nossos irmãos. Os pobres camponeses sofriam sob as mãos agorentas de alguns dos príncipes galeses, mas imagino que saibam que, para toda a lei de ação, há uma que rege a reação. Cedo ou tarde, as consequências foram arcadas pelos sujeitos.
Gwenllwyfo ferch Gruffydd foi meu nome, e eu tinha três irmãos nesta época: Gruffydd era o primogênito da família, recebeu o nome do pai como era o costume destes tempos; Iouan seguiu-o em seguida e Rhys foi o terceiro filho de Gruffydd ap Rhys e Mewawyn ap Tewdr. Morávamos numa residência relativamente bem construída, ainda que não fosse um castelo de pedras segundo a arquitetura gótica que começava a entrar em voga naquele décimo e primeiro século. Tínhamos comida e bons aposentos, reservados a cada um de nós. A despeito desta riqueza de que desfrutávamos, não éramos inteiramente independentes como o leitor moderno poderia pensar: como chefe da família, meu pai respondia à autoridade de um dos vassalos do rei de Gwynedd e Powys. No entanto, detínhamos também poder sobre outros cuja posição social achava-se abaixo da nossa. Estávamos entre o meio termo de prestígio e honra, mas não o suficiente para pertencermos à família real galesa.
Tais questões nunca me afetaram particularmente e minha mãe tampouco pensava nisto, embora nosso pai se achava constantemente cercado de preocupações com este assunto, dado a importância que, cada vez mais, o casamento ganhava dentro da Igreja Católica. No século XI, as reformas cristãs estavam sendo elaboradas por um indivíduo peculiar para sua época chamado Gregório. Ao tornar-se papa, ele emprestaria seu nome para uma série de mudanças internas na tentativa de humanizar e aproximara a Igreja de Cristo aos fieis. Esta reforma, na verdade, duraria por mais alguns séculos, mas o importante aqui é pontuar que o sagrado matrimônio era reforçado e tornava-se tanto uma obrigação para os de alta estirpe como uma proibição para o clero.
Nesse sentido, meu pai, pressionado pela casta da qual fazia parte, passou a procurar um marido para mim. A urgência neste ponto era ressaltada pelo meu sexo: as mulheres aristocratas precisavam se casar o mais cedo possível, a partir da sua primeira menstruação (embora nada impedisse que elas se unissem aos seus noivos antes disso: uma idade limite de 14 anos seria imposta apenas no século XV por uma bula estipulada pelo papa Alexandre VI), pois precisava usufruir de sua fertilidade. Este pensamento enraizado e retrógrado era embasado pelo forte apego à matéria: o ato de fornicar era visto com muito rigor pelas sociedades medievais e as leis de amor que um dia Cristo, nosso Mestre, havia pregado, foram completamente deturpadas. Por isso a reforma cristã, embora seu efeito demorasse a ser sentido.
(Nota de Amadeus: por que homens casados, principalmente os nobres, procuravam 'amor' fora do casamento e aceitava-se que pudessem ter amantes? Porque acreditava-se ferrenhamente que o amor distrairia o homem de seu dever para com a esposa, para com a sociedade. Um homem apaixonado não seria constrangido a lutar pelo reino em caso de uma cruzada, ou mesmo a responder pelo seu "chefe", seja ele rei, príncipe, quem for. Nesse sentido, acreditava-se que amor era um sentimento tolo e que o dever viria sempre em primeiro lugar, isto é, a mente predominava sobre o corpo, o espírito sobre a carne, e com isso as paixões eram reprimidas. Em tese, tudo isto parecia louvável, pois o indivíduo que conseguisse dominar, refrear seus instintos, era recompensado com altas glórias. Vide o guerreiro que, embora despose uma bela mulher, não foge de suas obrigações e opta por sempre cumprir seus deveres. Mas havia limites para aquela perspectiva tão predominante no que vocês convenientemente chamam de Idade Média Central: no século posterior ao que vivi, nascia a era do amor, da corte do amor, dos trovadores. Por que isso? Essa rigidez que o século XI pregava com tanta intensidade refletiu, na verdade, a grande influência que a carne impôs ao espírito. Por isso, a materialidade foi tão forte nestes tempos, embora certamente demonstrasse uma admirável melhora da Antiguidade para lá. Ainda assim, foi preciso que a Humanidade conhecesse essa rigidez para que, cem anos mais tarde, pregasse o amor, por mais limitante que pudesse ser a concepção que conseguiram criar, se não retirar, dos ensinamentos do Mestre. Aqui, vemos este sentimento bondoso e de ensinamento puro sair como um escape desta rigidez moral (e hipócrita) que a sociedade medieval tanto se apegou. Não à toa, estes casamentos arranjados produziram infelicidades constantes que resultaram em karmas e tantas outras lições para que espíritos apegados ao corpo humano deste plano reencarnassem em posições tanto inferiores quanto superiores dentro da escala hierárquica neste planeta.)
Prosseguindo, conforme dizia, as convenções da época determinavam que fosse casada cedo, por isso a pressão para que meu pai encontrasse um marido adequado a mim. E vários fatores eram levados em consideração, acima de todos, entretanto, predominava o de posição, status e prestígio social. Com isso, ele foi direto à fonte: assim que atingi a idade dos 15 anos e, tomando conhecimento de que teria sangrado, foi à corte do rei Bleddyn ap Cynfyn pedir permissão para arranjar um noivo apropriado a mim.
Neste ínterim, cabe a mim recordar ao leitor alguns fatos que considero pertinente mencionar aqui: minha infância passou sem importância significativa, embora conforme crescesse, tivesse testemunhado eventos políticos que merecem ser comentados. Sabe-se que, desde a morte de Rhodri Mawr, o que acontecia na Inglaterra refletia-se em Gales. Com isso, não era surpresa alguma constatar elementos de dominação também naquele local onde nasci: no início daquele século, quando o rei Canute da Dinamarca conquistou a Inglaterra, pondo fim ao domínio de 500 anos das tribos anglos e saxões que resultaram na dinastia Anglo-Saxã (cuja casa mais conhecida foi a de Wessex, por ter produzido reis admiráveis como Alfred e seu filho Edward, além de Aethelstan, entre outros), logo de imediato seus homens de confiança passaram a exercer uma influência considerável sobre os soberanos de Gales. Na realidade, para o leitor que desconhece a história deste formidável país, havia, na Idade Média, vários reinos fragmentados como vimos na Inglaterra medieval. Portanto, Pembroke e seu condado (em inglês: Pembrokeshire) faziam parte de Gwynedd, reino tal que possuía seu próprio rei e legislação tal qual Powys e o restante do sul de Gales respondiam aos seus respectivos soberanos a partir de suas particulares leis. Aos poucos, porém, os conflitos emergiam e Powys foi anexado à Gwynedd. Diz a história que seu rei, Gruffydd, foi o primeiro grande soberano de toda a Gales, mas, se é relevante tratarmos de títulos para ilustrar sua importância para aquele reino, digo que isso coube ao já mencionado Rhodri Mawr e que muitos comparam ao seu contemporâneo inglês rei Alfred. Bem, quando Edward da Inglaterra (erroneamente associado como um santo, porque, se o conhecessem de fato, saberiam que foi mais um homem da sua época do que um espírito altamente iluminado) desencarnou, seu trono foi ocupado por Harald II, cunhado seu, e, com isso, conspirou para matar o rei Gruffydd.
Vale dizer que no ano de 1066, William da Normandia navegava rumo à Inglaterra para conquistar aquilo que acreditava ser seu por direito: seu primo, o finado Edward de Wessex, teria legado ao "bastardo" normando a coroa inglesa que, entretanto, havia sido usurpada por Harald. Muitos de vocês, presumo eu, devem conhecer a história da conquista inglesa por este personagem formidável. (Nota de Amadeus: por pouco não o conheci em pessoa, mas admito que, no plano espiritual, fomos apresentados. Está em sua encarnação atual na Terra, é o que posso dizer). De todo modo, estas mesquinhagens nada mais foram do que uma reação às ambições que mapeiam a história dos homens, como vemos acompanhando desde o início destas memórias que compartilho com vocês.
E enquanto tudo isso se desenrolava, minha mãe educava a única filha que dera à luz. Mewawyn fora criada num ambiente que ainda sofria as influências dos antepassados, mas que, no entanto, se mesclaram ao cristianismo medieval. Com isso, seu conhecimento sobre ervas medicinais, herbologia, astronomia e, claro, o próprio estudo catequista me foram transmitidos no limiar da infância para a juventude. Recordo-me de ter sido uma menina muito séria, de natureza introspectiva. Apreciava bastante o campo e, admito, adorava usar os longos vestidos de mangas compridas com cintos dourados que minha mãe trazia. Rejeitava, entretanto, as joias que me presenteava. Quando o fazia, normalmente era repreendida:
--És uma garota de boa estação. Por que ages assim?
--Porque isto pouca importância possui para mim, senhora mãe--falei, desculpando-me--Penso que não agradarei a Nosso Senhor se desenvolver gosto para tais futilidades.
Mewawyn era uma mulher bonita de longos cabelos escuros e pele rosada. Seus olhos eram claros como o céu, grandes e observadores; tinha uma tez larga e nariz comprido. Seu corpo, no entanto, estava relativamente acima do peso, consequência das três gravidezes e três abortos espontâneos. Tendo me concebido na tenra idade dos dezesseis anos, por vezes comportava-se mais como uma irmã mais velha do que mãe apropriadamente, afinal, esteve, desde o início da vida, cercada de personalidades masculinas. Ressentia-se disso, visto que sua própria mãe, minha avó naquela encarnação, faleceu ao dar-lhe à luz. Para o leitor observador, verá nisso uma rejeição de Mewawyn às condições que seu próprio espírito facultou em viver antes de reencarnar. Por isso a vida difícil: uma infância complicada, no qual sua madrasta, segunda esposa de seu pai, lhe destratava em favor dos filhos que a mulher deu ao marido, negligenciando-a, portanto. No casamento, de certa maneira tudo concorreu para que fosse uma fuga à infância infeliz, mas provou-se ser uma frustração porque não concordava com as restrições que seu gênero impunha-lhe. Como resultado deste rancor que o espírito, jovem em termos de reencarnação (para usar um vocabulário que os estudiosos que acompanham estas memórias versadas em contos possam compreender), alimentou, as doenças vinham se sucediam. Contudo, Deus, em sua infinita misericórdia, não lhe era surdo aos apelos que a fé sincera ela devotava a maior parte do tempo, e por isso Mewawyn encontrou felicidade na maternidade. Já havíamos nos "esbarrado" em vivências precedentes, contudo, era naquela que deveríamos ensinar e aprender uma com a outra. Em suma, era por isso que nos aproximamos bastante.
De todo modo, herdei dela os olhos e as altas bochechas, o que me dava uma aparência que se adequava aos moldes da aristocracia; do meu pai, recebi seus cabelos ruivos, o nariz um pouco largo e o sorriso retraído. Não era nem magra como tampouco acima do peso, e tinha as madeixas soltas porque gostava delas daquela maneira.
Ao contrário dos meus irmãos, não me incomodava passar tempo com minha mãe, pois observava o grande prazer que lhe dava passar a mim tudo que lhe havia sido ensinado. Quando constatou a naturalidade com a qual tratava as ervas e o discernimento que tinha sobre o assunto, foi quando reforçamos nosso laço. Assim, fui feliz, apesar do cenário de guerra que se instaurava. Meus irmãos, dois ou três anos mais velhos que eu, preferiam a companhia do pai. Certamente, o contexto os condicionava a procurar no chefe patriarca da família a figura daquilo que ambicionavam ser: guerreiros leais e sábios que protegeriam seus amados. Quase como os contos medievais costumam contar, em particular o modelo que o rei Arthur e seus cavaleiros exerciam sobre tantos homens que viveram nestes dias.
Tais histórias também me apeteciam consideravelmente e não obstante, ouvia de minha mãe, que sabia ler, as aventuras de Arthur, Lancelot e Guinevere. Doravante, reprovava a atitude de Guinevere para com Arthur, mas Mewawyn, presa em um casamento que não lhe trouxe os bons frutos pelos quais almejava, logo me repreendia, dizendo:
--Não cabe a nós julgarmos Guinevere por ter encontrado um refúgio em Lancelot, minha filha. Que culpa ela tem por ser amada quando seu marido a desprezava e preferia suas batalhas a dar-lhe alguma atenção?
Encarei-a, confusa.
--No entanto, senhora, não pensa que adultério seja uma atitude condenável?
Como a piedosa que era, minha mãe me inculcou um importante ensinamento:
--E quem somos nós para condenar alguém? Não foi Jesus quem disse para atirar a primeira pedra quem nunca pecou?
Assim, aquietei-me, pois enxerguei-lhe razão.
Admito que, quando as notícias da ascensão do novo rei em contraponto à morte de seu antecessor chegaram a minha família, recebi-as distantemente. Não tinha ideia o quanto aquilo impactaria nossas vidas e prossegui com minha rotina. Três vezes por semana, rezava junto à mãe na capela próxima de onde morávamos: no caminho, não era raro que nos deparássemos com os camponeses que trabalhavam ali perto. Gostava de cumprimentá-los porque, a meu ver, éramos iguais diante da visão de Cristo, todos filhos de Deus.
--Por que falar com essa gente?--indagou minha mãe, sem saber por que me misturava com o que ela acreditava serem pessoas de estirpe inferior, indignos de nossa presença.
Pacientemente, expliquei:
--Para o filho de Deus, Jesus Cristo, nosso amado mestre e salvador, somos todos filhos do Pai. Se assim somos irmãos, por que tratá-los mal?
Constrangida porque minha fala lhe afetou, minha mãe preferiu não responder, limitando-se a um suspiro e a um sacudir de cabeças. Na verdade, ela sabia que falava a verdade, mas o processo pelo qual foi educada não lhe permitia ver além do que conhecia. Entretanto, isso logo mudaria.
Era curioso estar entre as pessoas de diferentes status quando frequentávamos a capela: apesar de termos um lugar distanciado dos mais pobres, fazia questão de estar entre eles. Quando questionavam minha atitude, mesmo tão jovem retrucava:
--Somos filhos do mesmo Pai, por que nos distanciar dos irmãos mais pobres?
Ali, na verdade, entre aquele povo simples e de bom coração, me sentia mais confortável. Não gostava de pertencer a uma classe estamental vista como superior e que enquadrava uma minoria conforme seu nível de riqueza. Tampouco compreendia porque as terras e o que elas produziam poderiam indicar o nível de companhia adequado para determinados indivíduos. Acredito que me rebelava internamente diante daquele sistema injusto que, naturalmente, só poderia ter sido estabelecido pelos homens de mais baixo calão do plano terreno. No entanto, leitor, não pense que entre os ricos e poderosos não existiam pessoas de bom coração, mas isso será desenvolvido no próximo conto.
De toda maneira, senti uma forte conexão ser renovada naquela capela simples. Cercada de boa gente, rezava de coração, sempre agradecendo e apenas pedindo pela proteção. Minha clarividência ainda funcionava, e o tempo todo enxergava os mortos. Apesar disso, apenas os ajudava em sonho: não havia condições de fazê-lo em terra. Não somente porque vivia em um contexto perigoso, onde a ignorância, motivada pela superstição, levava a muitas mulheres como eu à fogueira, como também os próprios vivos precisavam de minha ajuda. Enfim, naquela capela, como ia dizendo, vi não somente meus guias espirituais se manifestarem como também os de tantos ali presentes. Aquilo muito me encantou.
E eis aqui a influência de uma vida passada se manifestando na presente, pois queria viver dentro de uma ordem cristã, em outras palavras: atuar na Igreja, tornando-me freira (em contraponto ao ser padre da última vez, como podem se recordar) e voltando-me para os pobres e praticando a caridade. No entanto, a reação da minha mãe quando contei isso não foi como havia planejado:
--Você enlouqueceu?--exclamou Mewawyn--Não vim educando-a para isso!
--Achei que fosse apreciar que Deus está chamando sua filha para...--dizia, magoada, antes de ser interrompida.
--Não! Não está, nada! Você se casará, é por isso que foi enviada à esta casa!--vociferou minha mãe--Seu pai precisa de aliados, e não cabe a você negá-lo isso a ele.
Pensei em discutir, mas um pressentimento (enviado a mim pelo meu anjo protetor) me preveniu de fazê-lo. Em vez disso, a despeito da tristeza que me abatia, concordei com a decisão dela. Mas nossa relação mudou, afetando a frequência com a qual íamos à Igreja. Contudo, para fugir da infelicidade que a situação me infligia, fazia minhas preces constantemente.
Naquele ano de 1066, enquanto os normanos invadiam a Inglaterra, nosso rei convocava seus vassalos. O propósito daquilo consistia em resistir àqueles estrangeiros que, como sabíamos, não demorariam para tentar subjugar nosso povo também. As notícias não eram boas: na costa do sul inglês, vinham os dinamarqueses e do norte, os normanos. O rei Harald II conseguiu derrotar seu inimigo no sul, mas ao rumar à Hastings, não voltaria com vida. O homem desencarnou depois de sucessivos encontros de espadas contra William, o ilegítimo duque da Normandia. Devo comentar que não foi um processo pacífico: seu espírito, apegado bastante às ambições materiais, se recusava a aceitar que não estava mais entre os vivos e que havia sido derrotado. O que me é permitido dizer é que demorou um tempo considerável até que aceitasse a ajuda divina e se "encontrasse". No momento, prepara-se para sua reencarnação neste plano.
Pois bem. Enquanto William tornava-se rei dos ingleses, o primeiro do seu nome, estabelecendo, com isso, a substituição da casa de Wessex pela da Normandia, os galeses preparavam-se para resistir ao seu poderio. Nosso rei havia apoiado Harald, mas falhou nesta tarefa. A confusão era eminente e corria boatos de que o sul estaria entregue às mãos dos homens de confiança de William I. O conquistador, como seria conhecido até à modernidade, não hesitaria em englobar estes reinos fragmentados a sua jurisdição.
Nesse sentido, percebi qual seria o papel da minha família nesta história. É verdade que não somos lembrados por qualquer documento histórico, mas tantos outros aristocratas não deixaram sua marca nele. O que dizer, além disso, das vidas dos camponeses que foram perdidas nestes embates sangrentos movidos pelas ambições dos homens? A História, meus caros, pode ser injusta e parcial.
Como dizia, aceitei que meu casamento era, como minha mãe havia me instruído, importante para que se arranjasse aliança com outras famílias aristocráticas. E como o rei estava na berlinda e as tensões com os nobres aumentavam, meu pai considerou me enviar à Powys, casar-me com o irmão do príncipe de lá. No entanto, o homem havia morrido e as opções eram cada vez mais escassas.
--Não sei o que fazer--lamentava ele--Talvez seja melhor enviar a menina a um convento. Pouparia-me despesas.
--Não diga isso!--sibilou sua esposa, minha mãe--Já falei que esta não pode ser uma possibilidade a ser considerada. O rei precisa de você, e nossa filha será importante nesta questão.
Um observador de fora poderia pensar que Mewawyn teria mais compaixão com a única filha em decorrimento do que ela própria passou, mas a noção de empatia não estava em voga no século XI. De todo modo, não podemos culpar aquele espírito que prontamente sofria a influência carnal e estava em constante luta contra ela porque recusava aquela encarnação como já se discutiu. Quanto a mim, em nada pensava, não julgava minha mãe por ser como uma mãe daquela época costumeiramente agiria. Rezava, no entanto, para que pudesse viver uma vida casta e religiosa, mesmo intuindo que este não seria meu destino.
Eventualmente, porém, meu pai encontrou meu noivo e selou com ele o arranjo de casamento que, em tese, beneficiaria nossa família. Na verdade, provaria ser um acordo vantajoso já que eu me casaria com Rhys ap Gruffydd (sim, eram nomes bastante comuns em Gales do século XI) e meu irmão mais velho desposaria a irmã de meu noivo, Cewyn. Com a aprovação do rei, o casamento duplo logo seria realizado, a princípio no fim daquele ano de 1066.
--Você precisará de uma dama de companhia--minha mãe me instruía ansiosamente, quando a decisão de Sua Graça nos foi comunicada pelo meu pai--Creio que podemos legá-la a nossa cozinheira, ela é de confiança e...
--Mãe, pare de falar dos outros como se fossem objetos--reclamei--Não é justo tratá-los desta maneira somente porque são camponeses.
Por um instante, pensei ter visto fúria naqueles olhos azuis: como se o mar que houvesse neles estivesse pronto a se levantar e arrebatar a todos nós com ondas violentas. Mas apenas foi substituída por um cansaço, uma frustração e eu me arrependi de ter elevado meu tom de voz. Por isso, sem pensar duas vezes, me apressei em dizer:
--Perdoe-me, senhora mãe. Não quis insultá-la.
E a abracei. Foi um gesto que a pegou de surpresa, e percebi o quanto precisava daquilo. Como já mencionei antes, afeição não era um sentimento estimulado na Idade Média, principalmente entre famílias nobres.
--Não insultou--ela enfim me respondeu, soando aliviada--Só me preocupo, filha. Nem todos têm boas intenções como você. Sabe, eu gostaria de ser menos... menos dura com você--ela se desculpou--Mas preciso cumprir meu papel como mãe. Um dia, você entenderá.
Aquilo me tocou profundamente porque em todas as minhas encarnações, não conseguia cumprir o papel de mãe. Seja por qual motivo, morria no parto, sofria aborto ou nem conceber era capaz. Por isso me sensibilizei: porque atingiu um desejo que, do fundo da minha alma, almejava concretizar. Entretanto,ainda que não tivesse qualquer experiência com a maternidade, nada me impedia de me sensibilizar com as dificuldades pelas quais Mewawyn passava além de todas as outras já explicadas aqui.
--Espero que sim, mãe--eu disse, e de repente fui tocada por um anseio de cumprir com o papel que esperavam incumbir em mim--Que Deus tenha guiado nosso pai quando ele escolheu aquele que será, espero, o mais adequado para ser meu esposo e que eu possa dá-lo vários filhos.
Posso dizer que foi ali que reconciliamos e quando minha mãe viu que eu abracei suas vontades não somente para agradá-la, mas porque as reconheci como minhas também, ela se regozijou. Foi como se houvesse ganhado um propósito outra vez. A filha rebelde havia sido domada! Ou assim, pensava. Tomei nota que todas as noites, Mewawyn rezava para Santa Mônica e eu, discretamente, observava a própria santa acompanhando-a. Senti uma alegria inexplicável e a paz preencheu, enfim, o ambiente doméstico.
Não se podia dizer o mesmo do sul de Gales, que eclodiu em guerras. Ainda que não afetasse o norte diretamente, as apreensões permeavam as relações em Pembroke e, não tão distante assim, em seu condado também. Todavia, como o rei Bleddyn e seus irmãos resistiam ao conquistador nas terras ocidentais da Inglaterra, a atenção interna se redobrava. No entanto, o monarca não era tolo e ele logo retrocedeu à Gwynedd porque rei nenhum abandonava seus súditos. E como ele era relativamente próximo de meu pai, fez questão de estar presente em meu casamento.
Assim, quando o grande dia chegou, já estávamos hospedados em um dos castelos erguidos em pedra (porém, leitor, não cabe aqui confundir com o grande castelo de Pembroke que servia principalmente como fortaleza, o qual foi somente construído em fins daquele século) que servia como uma das várias residências reais. Ali, a corte se apresentava com músicos, poetas e outros artistas que encantavam os cortesões que buscavam o favor de Sua Graça.
Minha família e eu estranhamos aquele clima de festividades que usualmente marca ambientes onde aristocratas e nobres têm o costume de frequentar. Mulheres e homens vestidos extravagantes, exibiam suas riquezas como que para ressaltar sua posição social. Confesso que temi desposar um desses rapazes que mais se importam em expor suas posses do que com a verdade nas palavras de Cristo, mas me esforçava por pensar que não era melhor que eles se fugisse das minhas obrigações. Havia uma missão a ser cumprida e eu me ateria a ela.
Apesar disso, a melodia dos instrumentos musicais medievais era doce, bela e tranquila (algo que eu, admito, sinto falta de vez em quando); inspirava paz e parecia conter as energias intensas e materiais que figuravam naquele centro da corte. Em meio aquilo tudo, me perdia na música e não me atentava aos meus irmãos conversando animadamente entre si, flertando com garotas aleatórias (mesmo que um deles fosse se casar em breve) e desejando se inserir em círculos elitistas. Meu pai, por outro lado, estava próximo do rei, cuja aparência pouca atenção me despertou. O que lembro de Bleddyn ap Cynfyn era de ter visto sua aura bondosa: seu sorriso era gentil e genuíno, e tudo o agradava. Não era tão apegado às riquezas como poderia se pensar de alguém de sua posição. Além disso, era relativamente bonito: faltavam-lhe cabelos em torno de sua cabeça, mas suas feições eram admiráveis. Alguns diriam que sua aura influenciava na beleza que se mostrava em seus olhos castanhos esverdeados e lábios cheios, e talvez estivessem razão. Era uma alma boa, eu pressenti, embora com tanto ainda a aprender e depurar. (Ainda que Bleddyn estivesse envolvido em uma série de questões políticas que não me cabe aqui aprofundar, ele precisava passar por tantas provações para se desapegar de determinados vícios comportamentais adquiridos em existências anteriores. Lembrando, também, que ser uma pessoa de bem, em qualquer época que pudesse ser, não significa ser desprovida de defeitos e ações ruins).
Sentado em seu trono de madeira (simples, se comparado às construções de tronos régios nos séculos posteriores), o rei Bleddyn me pediu que aproximasse dele. Sem temê-lo, obedeci-o: ajoelhei-me, fiz uma mesura e aguardei que me dirigisse a palavra.
--Bela menina me parece ser, dama Gwenllwyfo. Recebeu este nome por conta da santa padroeira de Pembroke?
Admirei-me quanto a esta menção e exclamei:
--Oh, Vossa Graça! Não sabia que era padroeira de Pembroke!
O rei riu.
--Sim, ela era, porém, foi esquecida pelo tempo. Ainda celebramo-na, entretanto, e a guardo em minhas preces. Conheço poucas moças que compartilham seu nome.
Sorri.
--De fato, a senhora minha mãe me nomeou em honra desta santa.
Ele assentiu, em aprovação.
--Fico feliz de saber disso, senhorita. Pois bem, vamos direto aos assuntos. Estás ciente de que será desposada por Rhys ap Gruffydd?
--Sim, meu senhor, estou.
--E concede sua mão à ele?
A bem da verdade, fiquei surpresa que havia a possibilidade de negar aquele casamento. Contudo, ignorei-a e prossegui:
--Sim, Vossa Graça.
--Excelente, portanto!--ele exclamou, feliz, e, virando-se para meu pai, disse--Poderíamos introduzir os dois agora, senhor?
Nunca havia visto meu pai ruborizar de tanta felicidade por ter sido consultado pelo rei. Outros que acompanhava o soberano viam com inveja a cena se desenrolar, mas, graças aos bons anjos que nos faziam presença, sequer notamos esta situação infeliz.
--Mas, é claro!
Prontamente, o rei e seu amigo próximo articularam para trazer meu futuro marido. Se por fora demonstrava ter controle da situação, aguardando pacientemente conforme as regras da sociedade de corte, por dentro, implodia o exato oposto. Perguntava-me se seria uma esposa adequada, se ele gostaria de mim. Rezava em meu íntimo para que não ficasse presa em um casamento infeliz.
Preocupações tolas, na verdade. Todo aquele anseio que eu sentia era, ao contrário, uma reação à aproximação de almas que, em todas as existências precedentes de que contei até então, viveram e se reencontraram. E quando Rhys apareceu, soube que Deus se apiedara de mim e me concedeu um momento de felicidade terrena que certamente desfrutaria.
Rhys era alto e em sua face as características de um guerreiro eram evidentes: talvez fosse a mandíbula firme, o olhar confiante ou o franzir do cenho de alguém que vivia em constante desconfiança. O que quer que fosse não diminuía sua beleza: admirei prontamente seus cabelos sedosos marrons que escorriam em seus ombros, os olhos azuis que miravam os meus e o sorriso que crescia em seus lábios quando, no momento em que nossos olhares se cruzaram, prontamente nossas almas se reconheceram.
--Dama Gwenllwyfo--ele disse, sem esperar que os homens presentes se adiantassem em nos apresentar. Ousadamente, ignorou o rei e meu pai e veio rumo aonde me achava--Ouvi muito bem de vossa senhoria. Permita-me que me apresenta: Sir Rhys ap Gruffydd, dono das terras à oeste de Gwynedd.
Fiz uma mesura e baixei os olhos aos meus pés como ditava o costume, mas um rubor intenso subiu pelo pescoço e queimou minhas bochechas pálidas. Queria olhá-lo nos olhos, mas não saberia, nem poderia, ser tão intensa. Havia um protocolo até mesmo para conduzir os cortejos, o que talvez possa arrancar risos dos leitores. Isso se explica pela necessidade do homem de controlar absolutamente tudo, por isso as regras comportamentais.
--Gwenllwyfo, filha de Sir Gruffydd, cavalheiro enobrecido pela bondade de Sua Graça--me apresentei, suavizando meu tom de voz.
--É um prazer estar em sua presença, minha senhora. Poderia me dar a honra de conduzi-la em uma dança?
Assenti com a cabeça. O rei, tendo ouvido nossa pequena conversa, instruiu que seus músicos tocassem seus alaudes e determinou que seus cortesões dançassem também. Lancei um olhar cauteloso aos meus pais, mas, naquele instante, ninguém prestava atenção em mim: rodeado por aqueles que buscavam favor do monarca, outros homens se aglomeravam atrás de meu pai, pensando que, através dele, pudessem conquistar seu principal objetivo. O enriquecimento era, afinal, o motivo pelo qual aquelas relações se estabeleciam configurando no que chamariam de "politicagem".
De todo modo, não me importei com isso. Era o que meu pai queria e eu sabia, pelo que minha mãe contava, que ele era muito astucioso; portanto, era capaz de lidar com aquela gente. Contudo, o que me importava era estar com meu noivo. Quando levantei o olhar para encontrar o dele, quase perdi o ar: a familiaridade era tão presente que, antes mesmo que pudesse expressar meus pensamentos, Rhys o fez primeiro:
--Parece que já nos conhecemos--ele comentou, não como uma pergunta, mas com certeza inquestionável.
Enrubesci.
--Creio que deva ter me confundido com alguém, senhor--respondi, embora em minha mente, pensasse o mesmo.
--Não costumo me confundir--disse Rhys, sem qualquer resquício de arrogância que suas palavras pudessem enganar à primeira vista--Mas fico feliz que será a senhora quem desposarei.
--Oh?--exclamei, feliz--Mas sabe que minha mãe uma vez comentou que não era apropriada para casar porque pensei em me juntar ao convento?
Enquanto trocávamos palavras, subentendidas pelo flerte, preparávamos para dançar. Não se engane, porém: o salão não era grande nem tão ricamente decorado como muitos filmes modernos gostam de passar. Demonstrava poder e posição social, de fato, porém não como possam imaginar. Construído de pedras, era possível sentir a frieza e, por quê não, dos fantasmas que um dia viveram ali. As janelas eram pequenas e a iluminação, limitada pela tecnologia medieval.
E quando o musicista tocava seu instrumento, era tão doce o som que dali saía que fazia-me arrepiar e encantar toda! A melodia aprazia a todos os que ouviam e, quase como inconscientemente, instigava aos presentes a dançar. A música, quando toca nossa alma, refaz-nos como indivíduos melhores, embora, claro, isso se deva mais à intenção do músico. Ela é também um remédio que cura males, (re)aproxima os espíritos, é uma dádiva de Deus.
Quando eu e Rhys dançamos, era como se a luz houvesse entrado pela janela e atingindo a todos nós. Acredito que esta sensação tenha sido sentida pelos outros convidados também, porque, de repente, a música lenta deu margem para surgir uma mais agitada e mais tipicamente galesa. Pela primeira vez em muito tempo, senti-me livre. Até mesmo leve. Desprendi-me da timidez que era, verdade seja dita, uma reação espiritual a uma autodefesa que projetei em mim mesma (provavelmente por conta das últimas encarnações e como elas terminaram). E ele, o tempo todo, foi o responsável por essa guinada.
No final da música, ele pediu permissão ao meu pai para que pudéssemos caminhar pelos jardins. Prontamente ele concedeu, desde que uma dama de escolha do rei nos acompanhasse de uma distância considerável. A esposa do rei indicou uma de suas damas íntimas e assim fomos rumo aos jardins, à natureza. Ali, poderíamos ser nós mesmos sem o rigor de desagradar às pessoas régias e seus protocolos.
--Ah, finalmente!--exclamou Rhys, possuidor de uma personalidade cativante, alegre e tão única para o meio em que nos achávamos--Amo dançar, mas preferia ter este momento aqui, com vossa senhoria.
Ri.
--Não seja tolo, senhor, nós seremos casados em breve.
--Ainda assim--ele insistiu--gostaria de conhecê-la melhor.
E foi assim que meu espírito, relativamente solto dos pré-conceitos da carne, disse:
--Já não afirmou ter me conhecido antes?
Rhys me lançou um longo olhar, cheio de ternura e significado.
--Sim. E afirmo outra vez se desejar, mas gostaria de ouvi-la falar. Será mesmo tão tímida assim?
--O que o faz pensar que eu não seja?--eu ri novamente.
--Os seus olhos, as suas maneiras discretas que também são energéticas--ele explicou.
--E tudo isso o senhor interpretou de uma dança?--arqueei uma sobrancelha, gostando do desafio que impunha nele.
--Provavelmente sim, mas por que isso deveria surpreendê-la?--e seu espírito copiou o movimento do meu ao dizer--Já me conhece!
--Em tese, sim.
Afinal, paramos sob uma palmeira e ali fitamos as variedades de rosas, árvores, lírios, flores e outros frutos que enfeitavam aquele ambiente. Ao centro, muros verdes eram erguidos, estilosamente recortados e cuidados por um jardineiro que respondia à autoridade de alguém escolhido pela rainha. Era um lugar muito bonito. A dama que vinha nos acompanhando optou por adentrar aquele labirinto, fingindo ter-se perdido de nós.
--Gosto muito disso--falei, após um momento de silêncio tranquilo, no qual aproveitamos a natureza em contato com a humanidade e o resultado disso--Confesso que não há outro lugar que eu não gostaria de estar. Mesmo onde moro, não há esse tipo de jardim. É maravilhoso!
Rhys sorriu e foi como se estivesse face-a-face com o sol. Corei.
--Onde iremos morar, haverá um jardim assim, se não mais esplêndido, esperando por nós--ele prometeu--Apesar de vivermos em tempos sombrios, há espaço para a luz.
Meu sorriso se espalhou pelo meu rosto diante daquelas palavras. Como sua presença me iluminava! E na certeza de que o amava, tomei suas mãos imprudentemente nas minhas e disse:
--Obrigada por ser tão gentil, senhor. Espero que seja assim sempre--e eu sabia que seria.
Ele levou uma de minhas mãos aos seus lábios, depositando numa um beijo doce e terno.
--A senhora merece toda a bondade que oferece ao mundo. Garanto que terá uma boa vida.
E em vez de nos conhecermos melhor (como se houvesse necessidade disso), passamos o restante da tarde caminhando aos redores do jardim traçando planos. A vida, em sua primavera, é doce e promissiva no verão. Sem dúvida, nada nos preparava para o outono e, pior ainda, o inverno...
O casamento foi realizado em duas semanas e mesmo minha mãe foi surpreendida por quão apaixonados um pelo outro estavam os noivos. Nem meu pai esperava que esse arranjo foi um sucesso. No entanto, o mesmo não poderia se dizer de Cewyn e Gruffydd, cujos temperamentos bastante diferentes deveriam ter sido levado em conta antes das ambições dos chefes das respectivas famílias. Nesse sentido, outra vez mais a felicidade de dois jovens foi preterida por determinação de outros. Tal era a regra que atuava sobre a aristocracia e nobreza medievais.
Pois bem, deixei o condado de Pembroke para viver na região de Powys. Tivemos uma "lua-de-mel" bastante romântica: ao contrário das encarnações anteriores, não encontramos obstáculos para nos encontrar, nem tampouco passamos por tantas dificuldades para nos amar. Tudo parecia ser significantemente... feliz. Não digo perfeito, mas quase isso, dentro da escala de felicidade terrena. (Nota de Amadeus: o que podemos aprender com isso? Que as dificuldades kármicas pelas quais passamos eu e o bondoso espírito que sempre me acompanhou nas encarnações, foram superadas. De modo qual não significava tampouco que não havia mais nada a ser aprendido: sempre há. Contudo, podemos ver aqui que nossas existências neste plano chegavam ao fim, não à toa inspirei a médium a colocar esta memória dentro do nono ciclo, visto que vivi dez vidas na Terra. Pois bem, acrescento também algo que vejo muitos de vocês falarem sobre 'almas gêmeas': é certo que os espíritos encontram avenças e desavenças no decorrer de suas vivências milenares, e por um motivo que somente Deus conhece, de todos aqueles com quem se relacionam, prevalece "o" parceiro como no meu caso. Sim, aquele com quem continuo me relacionando no plano espiritual poderia ter escolhido encarnar como meu pai, meu irmão, mesmo minha mãe. Isso não diminuiria em nada o amor que temos um pelo outro. Contudo, nossas lições kármicas pediam outro relacionamento que tanto eu como ele decidimos, através das vivências em gêneros diferentes, viver romanticamente. Uma vez que os impedimentos de outras vidas foram vencidas, a felicidade pôde ser almejada. Claro, como falei e reforço outra vez: dentro dos limites da Terra, já que a verdadeira felicidade consta nos planos superiores, onde o peso que a carne causa ao espírito não é mais sentida; um livramento de uma prisão, se assim podemos chamar. Em suma, a alma gêmea costuma (porque nada é rígido nas leis de Deus, conforme Kardec já havia alertado pelos espíritos superiores que o guiavam/aconselhavam em seus trabalhos) ser este parceiro que sempre o encontrará, ainda que o objetivo daquela expiação/missão não se limite a este reencontro. Com isso, posso dizer que o conceito de alma gêmea é, para vocês da Terra, construído romanticamente conquanto, na realidade, diz mais respeito à afinidade que um espírito exerça sobre o outro e vice-versa numa relação completamente recíproca. Um irmão, um grupo de amigos leais podem, desta maneira, constituir 'almas gêmeas', pois seguem um propósito quase similar e são almas afins que vêm reencarnando em conjunto. A verdade, meus caros, é que Deus não permitiria que Seus filhos viessem à Terra sozinhos ou padecessem em suas missões sem um vislumbre da alegria em um meio que inspira o contrário muitas das vezes. Ele é, afinal, o Pai, o Amor, e disso não podemos duvidar.)
Para nossa surpresa, antes de completarmos um ano de casado, descobri-me grávida. Embora a constatação me surpreendesse positivamente (pois era um desejo meu de outras encarnações, tornar-me, ser mãe), acendeu o medo (que também ressoava de outras vidas pelo mesmo motivo) que, em meu íntimo, parecia ser um velho conhecido. Era, na verdade, uma ferida que pedia para ser cicatrizada.
--Achei que estivesse feliz por engravidar, meu amor--disse-me Rhys depois que contei as notícias: normalmente, se esperava até as três fases da lua (vulgo três meses) para que se tivesse certeza da concepção--Por que está aflita?
Hesitei antes de contar a verdade, ou, ao menos, parte dela; lembrando que ainda era uma mulher inserida no contexto medieval. Não tinha as respostas para meus problemas, uma vez que, mesmo médium à época, meus mentores não me iluminavam as soluções porque precisava buscá-las eu mesma, por intuição e meu intermédio. Do outro modo, o aprendizado necessário para superar esse "nó passado" não teria qualquer importância.
--Porque temo morrer no parto--enfim disse, depois de ponderar como expressar minhas angústias que, por sua vez, eram traduzidas de outra maneira. Ali, não havia mais espaço para o orgulho e eu podia dizer com algum grau de felicidade que o havia domado finalmente--Temo não ser uma mãe adequada e falhar com os deveres que esperam de mim. Como também penso na infelicidade da minha mãe e eu não quero, com todo o respeito que a devo enquanto filha, repetir seus erros.
Rhys assentiu, refletindo em silêncio o que eu lhe disse. Estávamos em pé, de frente à lareira que aquecia nossos aposentos. Logo, ele tomou minha mão na sua e me levou para sentar ao pé da cama. Foi quando disse, afinal:
--Compreendo seus medos. Dizem que as batalhas travadas pelas mulheres estão nos quartos, e quem sou eu para julgar isso? Obrigado por confiar em mim, Gwen, eu sou muito grato por isso. Iremos passar por isso juntos e rezarei todos os meus dias para que nada disso se realize. Sei que Deus nos juntou para um propósito, e será apenas uma questão de tempo até descobrirmos qual será esse.
Dito isso, me envolveu em um abraço apertado e ali fiquei, confortada pelo amor da minha vida (ou seria amor espiritual?). Apesar disso, fui inundada com uma sensação forte de fé tanto por ele quanto dos mentores que me acompanhavam: tão de repente, veio a certeza de que seria mãe, sim. Cumpriria com o papel que, de certa maneira, vinha fugindo porque outras questões mais emergentes necessitavam serem resolvidas.
E a maternidade neste ponto foi como um pilar para o casamento feliz que eu e Rhys passávamos. Não enfrentávamos problemas absurdos no ambiente doméstico. Amava-o mesmo contra as indicações dos médicos da época, que recomendavam distância física do parceiro (se conseguem entender o que quero com isso dizer...) e repouso absoluto, uma vez que a taxa de mortalidade infantil nestes dias era muito alta e todo cuidado era pouco. Tudo era resolvido (se havia alguma disputa de terras, por exemplo) pelo diálogo e esforçávamo-nos em impedir que a famosa vendetta (que é quando a família da vítima de um assassinato, por exemplo, possa se vingar e cometer o mesmo ato naquele que tirou a vida de um parente seu; este ato permaneceu em voga principalmente na Itália até o século XVII, embora estes atos tenham sido perpetuados pelos espíritos que cometiam tais atos mesmo quando encarnaram em "gângsters") fosse realizada.
No entanto, veio o outono e com ele, as preocupações. Afinal, a guerra no vizinho assustava e as notícias não eram boas. Quem seria esse William da Normandia que se achava no direito de ser chamado de conquistador por crer tomar o que era seu por direito? Meu marido, que estava a par de tudo, uma vez me explicou:
--Já estive na companhia do rei Harald II, cuja irmã, Edith, havia sido esposa do rei Edward, o Confessor. Dizem que este rei era santo, mas também o conheci e ele me pareceu arrogante. Bem, como dizia, Edith, quem ele repudiou duas vezes (na primeira, por ser estéril; na segunda, por querer viver uma vida santa), foi sua rainha consorte e no momento da morte do esposo, dizem que foi seu cunhado quem ele reconheceu como herdeiro.
"Era o que Harald clamava, afinal, e ninguém contestaria este homem. Afinal, os Godwinson costumavam ser muito poderosos e nem sequer o rei Canute os repudiu quando conquistou a Inglaterra antes de nós dois pensarmos sequer em nascer. No entanto, quando Canute governava os ingleses, Edward estava na Normandia: alguns diziam que foi exilado, outros, que sua mãe havia o enviado lá com seu irmão. De qualquer maneira, esteve em contato com William. Se este, mesmo ilegítimo como clamam, conquistou a afeição do pai e herdou o ducado da Normandia, como que ele não faria o mesmo com Edward? Para mim, se quer saber minha opinião, William sempre fora o rei direito da Inglaterra."
--Mas por que apoiar o rei Harald?--eu indaguei, minha mente dando voltas com todos aqueles nomes e aquelas políticas.
--Porque--disse meu marido--ele era poderoso e vinha de uma família poderosa. Não fosse por William, ele teria governado inquestionavelmente. Ninguém poderia adivinhar que ele seria derrotado em Hastings! Veja, Harald derrotou o rei dinamarquês viking, um sobrinho distante de Canute, que pensou em reclamar o trono inglês para si. Todos achávamos que os vikings da Normandia seguiriam o mesmo destino.
--Compreendo--refleti, quase silenciosamente. Mas Rhys continuou a tagarelar, por estar ansioso com os eventos que ameaçavam, a qualquer momento, eclodir:
--Nós, galeses, precisamos nos unir contra William, mas não vejo muita esperança. O pobre coitado do rei Bleddyn está sofrendo com ameaças do nobre que, desconfio, tem recebido apoio de William.
--Contanto que você não se envolva nisso, Rhys--falei, soando quase desesperançosa: estava ciente de que ele era um dos nobres mais poderosos de Powys e, portanto, vassalo da autoridade local que respondia ao próprio rei de Gwynedd. Logo, era apenas natural que, em caso de guerra, ele fosse convocado. Apesar disso, esforcei-me em manter calma e sob controle os meus nervos, pois precisava ser sensata. Guardava a intuição de que nenhuma preocupação era necessária, porém...
--Evito conflitos como sempre evitei--ele me assegurou, inclinando-se para depositar um beijo na minha testa.--Contudo, não fugirei se chegarem a mim.
Ciente de sua teimosia, ou braveza, não discuti. Naquela noite, rezei para que o ambiente que minha criança viesse nascer, fosse o mais pacífico possível. No entanto, nem eu mesma confiava na instabilidade que a ambição descomedida dos homens era responsável por criar.
Quando o inverno chegou, entrei em trabalho de parto. Foi minha guerra particular, como Rhys salientou na noite em que contei do bebê que carregava em meu ventre. Era ali que daria ao espírito que vinha dos céus o corpo para viver e aprender com sua encarnação. Não me recordava então, mas sonhei na véspera com um espírito de um jovem que vinha acompanhado de dois mentores meus. Um deles, chamado Rafael, falou:
--Entrego a ti esta criança que virá auxiliar em sua missão como mãe. Pediste tanto ao Pai que Ele enfim concedeu à tua vontade de conceber como Maria e criar, como Nossa Mãe, seu próprio filho.
--Agradeço--falei, humilde e emocionada.
--Não será muito fácil, visto os tempos em que pediste para reencarnar--alertou ele--E terás de se preparar, pois a guerra chegará à Gales, eventualmente.
--E ele fará parte disso?--eu exclamei, sem conter meu choque.
O espírito do filho que nasceria disse:
--Não te atormentes com a escolha que fiz. Não me conheceis antes porque somente agora Nosso Senhor pensou fazer-me bem ser teu filho. Em verdade, digo que optei por este caminho porque preciso me redimir do que fiz no passado.
Assenti, compreensiva, mas ainda assim, indaguei:
--Que fizeste no passado?
O espírito encarou a Rafael, mas ele lhe concedeu permissão para contar:
--Fui um rei tirano e injusto, que muito tirou das pessoas por orgulho e vaidade. Justifiquei todos os crimes cometidos em nome de Jesus, Nosso Senhor. Na última vivência, porém, consegui resgatar algo desta vida ao vir pobre e mendicante, contudo, preciso reparar ainda ao me inserir no seio de sua família.
Compadecida, disse:
--É hora de deixar para trás o passado e acolher o presente que Deus lhe deu. As reencarnações são um ciclo necessário para depurarmos de nossos pecados. Está pronto para isso? Está ciente do que pode enfrentar?
Inabalável, assim respondeu aquele que nasceria de meu ventre:
--Estou.
Rafael, por sua vez, disse, satisfeito:
--Que o Pai os abençoe na missão que, juntos, terão de cumprir.
Mas, de alguma maneira, surpreendi-me quando embalei em meus braços uma menina. Sim, nasceu uma menina! (Nota de Amadeus: aposto que muitos de vocês acreditaram que viria um menino, não é mesmo? Aguardem o desenrolar da história...) E a recebi em meus braços com a emoção de quem vibrava para que isso acontecesse.
--É uma menininha saudável, vossa senhoria--disse-me uma das parteiras depois de tê-la me entregado--Como a chamará?
--Ainda não sei--confessei, sem fôlego: o parto foi longo e trabalhoso, exigiu de mim tantas energias que me sentia completamente fraca.
--Posso comunicar as notícias ao vosso marido?--indagou a outra mulher, assim que se certificou de que eu estava bem. Naquela época, o esposo não ficava no mesmo aposento que sua consorte.
--Pode--permiti, exausta, porém, feliz ao embalá-la contra o meu peito. Aproveitei a situação para alimentá-la, ignorando as regras (outra vez, feita por homens materialistas!) do "bom senso" de que uma ama de leite era a responsável pelos recém-nascidos até a mãe se recuperar.
Quando Rhys, afinal, entrou nos aposentos, seu rosto se iluminava de deleite e foi quando percebi que Deus havia me abençoado! Uma família, enfim! Nada me alegrava mais do que poder constituir uma família minha.
--Venceu!--ele exclamou, referindo-se à "batalha" contra a morte que eu enfrentei no trabalho de parto--Oh, não creio! Deus foi bom conosco, Gwen!
--De fato, foi! Por favor, reze por nós!--instruí-o a seguir o costume medieval que, antes da Reforma, predominava fortemente sobre a aristocracia e a nobreza: pagar à Igreja Católica pelas missas em honra de si mesmos ou de seus entes queridos, uma vez que o medo da morte era tão impactante entre o povo europeu daquela época que eles se voltavam para vários meios que encurtassem sua estadia no que passou a se denominar de "purgatório".
--Farei isso--ele prometeu, e eu o vi tomar a criança em seus braços e a embalar com emoção. Aquela cena fê-me chorar, emocionada, e aquilo o assustou--O que houve?
--Eu só estou comovida--disse, assegurando-o de que tudo estava bem--Deus ouviu nossas preces.
Rhys sorriu.
--Creio que deveríamos nomear este bebê em honra de algum santo.
--Glawdys--decidi, tão de repente inspirada.--Houve uma santa com esse nome, porém, não me recordo agora de onde... O que eu lembro é que ela era pacífica e dizem que afastou o marido da violência.
--Quase como Santa Mônica afastou Santo Agostinho da violência--refletiu Rhys.
Encarei-o surpresa. Ele, sem saber o que se passava, também me encarou de volta com perplexidade. Afinal, o que havia acabado de acontecer?
(Nota de Amadeus: a santidade é um processo mais mundano do que espiritual em si, embora possa-se dizer que, na sua complexidade, muitos santos foram, de fato, espíritos puros que fizeram o bem e deixaram marcas em sua encarnação. Seus feitios foram tais que denominou-se, para a raridade do cumprimento de alguns, milagres. Por isso, o fenômeno dos santos. No entanto, cabe ressaltar que houve cultos na Baixa Antiguidade que confundiam santos com deuses. Por exemplo: se em determinado lugar, uma santa ou um santo fez "milagres" poderosos, cultuam-o de tal forma que o igualam ao Pai. Se não respondem a uma prece, ousam ainda em "bater" na imagem. Essa prática infeliz tornou a acontecer na Idade Média também. Mas não se enganem. Na Rússia, uma princesa teve seu marido assassinado e, portanto, decidiu se vingar dele: planejou deliberadamente acolher seus inimigos para forjar um perdão. Contudo, o resultado não poderia ter sido diferente: os homens em questão foram assassinados. Na posterioridade, esta princesa se tornou santa. E por quê? Ela se converteu ao cristianismo. Garanto-lhe que um espírito superior não cometeria atos desta maneira. Que ela, de fato, veio a pedir perdão no plano espiritual e, nas encarnações posteriores, se esforçou para se limpar disso, pode-se de fato ser exemplo de penitência, mas não de santidade. Por isso, vos digo que nem todo santo foi um espírito louvável (e não deveria surpreender, uma vez que houve "deuses" de comportamento similar que, entretanto, continuaram sendo centros de fé para muita gente ignorante) e há a necessidade de refletir sobre isso. Mas, sobre a questão de minha vida acima, digo que não fugi (e nem teria como) das questões sociais de minha época. O culto mariano (isto é, à Virgem Maria) não havia surgido com precisão ainda, especialmente naquelas regiões onde minha memória versada em conto lhes mostra, mas isso não diminui o significado da religiosidade daqueles com quem convivi. Em suma: tanto fossem nobres ou não, o costume de dar o nome de um santo ao filho era marcante e tinha sua importância. Por isso, fiz o mesmo com a minha filha. E digo-lhes por quê: a encarnação dela seria marcante, difícil, e aquele nome... bem, é provável que pudesse ajudá-la. Não tenho a permissão de contar mais do que devo, mas podem imaginar o que quis dizer.)
Glawdys nasceu robusta, com as bochechas vermelhas. Seu choro foi tão estrondoso ao sair de mim que nem as parteiras tiveram dúvidas de que era saudável. Uma delas, inclusive, comentou:
--Nossa, que pulmões essa criança possui!
Seu batismo ocorreu assim que havia sido limpa e vestida apropriadamente. Os amigos próximos e nossas respectivas famílias estiveram presentes em uma cerimônia íntima que celebrava o nascimento desta filha, embora não me passasse despercebido o lamento de alguns quanto ao sexo do bebê. No entanto, nem eu ou Rhys nos importávamos com isso: o mais importante era que Glawdys crescesse saudável.
O ambiente domiciliar tendia à prosperidade e os primeiros anos foram relativamente tranquilos: longe do tumulto político que acontecia em Pembroke e outras regiões de Gwynedd, éramos muito pouco afetados pelas tensões que emergiam ao redor do gentil rei Bleddyn ap Cynfyn. Entretanto, conforme Glawdys crescia, percebíamos que se tornaria uma mulher de difícil personalidade dado que, mesmo pequena, já demonstrava ser cheia de vontades.
--Ela é indomável--uma vez admiti ao meu esposo. Havia recusado que minhas damas de companhia atuassem como governantas porque queria exercer este papel, o que, para muitos, era algo escandaloso de minha parte. No entanto, isso se provava mais complicado do que pensava, portanto, desanimava com frequência--Não sei o que fazer.
--Paciência é a chave--disse-me Rhys, pensativo--De fato, ela é temperamental. Acha-se constantemente no centro de nossas atenções e detém confiança sobre seus desejos, sabendo que responderemos às suas vontades.
--É preciso que haja uma companhia--refleti--Não podemos mimá-la, embora todos ao nosso redor deem pouca importância para isso. Lady Sybil me disse que este tipo de comportamento é normal e que eu não deveria me preocupar!
Que eu estivesse muito aflita, era evidente, mas igualmente manifestava um desespero que refletia a inexperiência espiritual da maternidade. Aquela era uma grande prova para mim, e eu não queria falhar nela.
--Não vamos nos antecipar em afligir-nos sem necessidade--alertou-me Rhys, tão mais sábio e paciente que eu--Venha, vamos fazer uma prece para nossa menina.
Assim, aquiesci e, ali mesmo, no chão dos nossos aposentos, ajoelhamo-nos e direcionamos nossas preces mais sinceras e genuínas ao Todo Poderoso. Enquanto isso, Glawdys continuava agitada, recusando a aceitar sua encarnação... justamente porque havia se acostumado a viver em um corpo masculino. Quando completou cinco anos, ela virou-se para mim e perguntou, em um galês esganiçado e confuso:
--Por que, senhora mãe, não posso brincar de espadas?
Pacientemente, expliquei:
--Porque são instrumentos perigosos que somente os rapazes podem usar.
--Por quê?
--Porque são eles quem irão nos proteger.
--E por que não posso protegê-la, mamãe?
Encarei aqueles olhos azuis tão questionadores e sinceros, e por um minuto me senti emocionada por aquela pergunta. Senti nela o amor sincero e puro que não somente vinha de sua infantilidade, mas de seu espírito. Sorri-lhe e, mantendo a paciência, expliquei:
--Nós mulheres temos um jeito próprio de nos defender. Quem sabe quando for mais velha eu possa ensiná-la o que meu pai ensinou?--e lhe dei uma piscadela que pareceu acalmar sua curiosidade.
Nesta mesma época, percebi que, ao conversar e satisfazer suas questões, seu temperamento oscilava entre a intensidade que a (re)descoberta do mundo lhe proporcionava e a calmaria que vinha controlando este ímpeto. Com muito alívio diante disso, redobrei minhas preces, mas também foi quando engravidei novamente. E Glawdys não gostou muito quando compartilhei a novidade com ela.
--Você esquecerá de mim!--seu temperamento retornou com uma fúria que nunca antes havia conhecido, não naquela manifestação. Encarei-a, horrorizada--Serei substituída! Como fui antes!
--Você nunca foi substituída, minha filha!--protestei, esforçando-me em vão em acalmar seus nervos--Por que diz isso?
(Nota de Amadeus: é sabido que as crianças possuem uma mediunidade bastante aflorada nesta tenra idade e algumas delas não somente podem exercê-la naturalmente como também são capazes de ter acesso às memórias de vidas regressas caso Nosso Senhor permita. Glawdys foi um destes exemplos: na sua encarnação mais marcante como rei, ela havia sido preterida pela mãe daquela vida, o que ocasionou em uma vivência bastante conturbada. O fato de ter um possível irmão e enxergar a felicidade estampada no rosto de sua "nova" mãe, no caso eu, a fez recordar deste trauma... e que foi necessário tê-lo revivido a fim de que pudesse curá-lo naquela mesma existência).
--Porque sim!--ela exclamou, magoada--Se me amasse, não teria outros bebês.
Rhys prontificou-se a intrometer-se naquela ocasião, mas eu sabia que precisava resolver aquilo eu mesma. Por isso, impedi-o de influenciar aquele momento, embora Glawdys o encarasse como se pedisse por ajuda.
--Mas ter outros bebês não a fará ser menos amada--disse eu, engolindo minha angústia maternal para que pudesse, ao contrário, fazê-la crer naquilo que dizia--Eu juro que continuará sendo a primogênita. Além do que, se lembra de quando conversamos sobre protegermos umas as outras?
Desconfiada, Glawdys assentiu e seus cachos dourados caíram em seu rosto. Prontifiquei-me a ajeitar o arco ao redor deles antes de dizer:
--Você poderá ser a irmã mais velha que cumprirá o dever diante de seu irmão ou sua irmã mais nova. Como se sente com isso? É uma grande responsabilidade.
Glawdys não respondeu, e, apesar da ansiedade que me abalava internamente, prossegui:
--Você será o exemplo para esta criança não nascida. Será você que a introduzirá aos conhecimentos que tão logo eu lhe passei. Ela vai precisar de você, de ser defendida em tempos árduos como vivemos agora. Não gostaria disso? Eu sempre fui próxima dos meus irmãos, e eles me ensinaram muito.
Aos poucos convencida, ela cedeu. Mas ainda insistia em fazer biquinho quando disse, uma última vez:
--Não vai me abandonar, então? Promete?
Abracei-a e respirei mais acalmada, satisfeita por ter resolvido aquela situação. Uma vez que a assegurei de que continuaria a amando e educando-a, fiz questão de colocá-la para dormir. Logo mais, fui deitar-me ao lado de Rhys.
--Você é uma excelente mãe--ele disse, todo sorrisos, ao receber-me em sua cama--Pensei que precisasse interferir outra vez, mas vejo que não há mais necessidade disso.
Soltei um risinho e enquanto aproveitávamos a nossa intimidade, a porta dos aposentos foi aberta escancaradamente: o perigo do mundo exterior, por tanto tempo esquecido, chegou finalmente até nós.
--Céus!--exclamou Rhys, seu rosto ruborizado diante da visão de seu pajem, que entrava ofegante e tão constrangido quanto nós por ter adentrado sem boas maneiras--O que quer, filho? Diga!
Sem levantar os olhos, o pobre Cerfynn disse, aos tropeços:
--Trago péssimas notícias que não poderiam ser retardadas, senhor--e, sem esperar que Rhys o comandasse a falar logo do que se tratava, o jovem disse--Estamos em guerra. O rei de Gwynedd está morto.
--Morto?!--minha voz saiu mais esganiçada do que pretendia, o pânico tomando conta dos meus nervos--Como assim, morto?
Em minha mente, recordava da bondade de Bledynn ap Cynfyn e em como havia sido tão gentil comigo, com meu esposo, com toda a minha família. Não me recordava de que pudesse ter sido um péssimo governante, embora desconfiasse de que os nobres invejosos de quem nunca me simpatizei (sim, leitor, os mesmos que procuravam favores do meu pai e o detestavam por sua proximidade com o rei) tivessem parte nisso. Indagava-me se tudo isso tinha relação com a conquista dos normandos na vizinha Inglaterra, mas o que Cerfynn disse foi pior do que temia:
--Os nobres que o cercavam o traíram. Gwynedd está em guerra civil. O rei sulista Rhys ab Owain o matou e agora ocupa o cargo de rei de Gwynedd também.
Um silêncio constrangedor caiu sobre os presentes e eu me vi forçada a manter a calma e dizer:
--Teria notícias de meu pai, senhor?
Cerfynn hesitou e eu imediatamente soube; entretanto, precisava ouvi-lo.
--Por favor, apenas fale.
--Ele seguiu Vossa Graça ao túmulo, minha senhoria. Minhas condolências.
--Agradeço--respondi, quase solenemente.
Fechei os olhos, sequer prestando atenção ao diálogo que se passava entre meu esposo e seu pajem, portador de tristes notícias. Se o rei estava morto, minha família havia caído em desgraça. Pus-me a rezar fervorosamente, mas mesmo consciente de que meu pai e meus irmãos estivessem em um lugar melhor... as lágrimas vieram.
E Rhys se deu conta de que sua esposa sofria o luto. Por isso, deixou de lado as questões que pediam-lhe urgência, orientando Cerfynn a pedir comida e ale na cozinha e que ordenasse em seu nome a alimentar as lareiras, e veio me consolar.
--Suba à cama, mulher. Sua condição requer repouso--ele disse em um sussurro tão doce que eu não havia como negar obediência. Colocando-me em seu leito, Rhys abraçou-me e continuou--Tudo será resolvido, Deus conhece nossos corações e sabe o que se passa neles. Não vamos temer antecipadamente. Pedirei a Cerfynn pelas notícias de sua mãe, e trazê-la aqui.
--É claro--eu concordei, distante, tendo-me esquecido do que aquilo tudo poderia significar para Mewawyn--Obrigada, esposo. Preciso pensar em nosso filho e...
Mas ele silenciou minhas inquietações ao depositar em meus lábios o mais doce dos beijos, afagando meu cabelo e amando-me suavemente.
--Durma, meu amor. Amanhã, será um novo dia.
E, sem forças para contestá-lo, adormeci em seus braços.
Aquele foi um ano difícil e a tendência era piorar. Logo mais em 1074, havia dado à luz a um menino, a quem chamei de Dafydd (ou David, se preferirem, mas manterei a grafia galesa). Para minha surpresa, Glawdys adorou-o e se esforçou em melhorar seu comportamento sempre que estava por perto, já que desejava ser um exemplo para o irmão mais novo. Essa ideia lhe fixou tal que definitivamente abrandaria seu temperamento no decorrer da infância, embora isso não signifique que tenha posto um fim em seus humores oscilantes.
Mewawyn, minha mãe, acompanhou o parto de seu neto e não saberia dizer, após o ocorrido que afetou gravemente nossa família, como ela se sentia. Embora acompanhar meus filhos a alegrasse, ela se sentia vazia e procurou conforto num convento ao extremo norte de Gales, longe das politicagens, mas também dos reminiscentes da família que deixou para trás. Não me senti particularmente ferida com isso, embora negar que havia me entristecido com sua partida seria hipocrisia da minha parte. Afinal, que filha não sentiria falta da mãe? No entanto, reconhecia que aquilo lhe era necessário, libertar-se de uma vida que nunca quis. (Nota de Amadeus: de fato, soube no plano espiritual, quando nos reencontramos, que ela se encontrou enquanto abadessa, mas pediu perdão pela falta cometida enquanto mãe. Contudo, apesar desta reaproximação entre nós, não encarnaríamos mais juntos).
Dafydd crescia saudável como sua irmã, herdando muito mais aspectos físicos do pai do que meus, embora tivesse meus olhos azuis. Seu sorriso era encantador e havia em seu semblante uma serenidade que encantava a nós todos. Apegou-se rapidamente ao pai, e deixo aos leitores perguntarem-se o motivo por trás desta ligação especial.
Mas a paz não estava destinada a reinar sobre nós já que seríamos, outra vez, afetados pela guerra dos homens. Rhys havia sido convocado a prestar lealdade ao novo rei se desejasse ser desassociado ao estigma de traição. Como seu vassalo, não havia como relutar em responder à missiva que obrigava-o apresentar-se à corte. Entretanto, diante das próprias lutas que este novo rei enfrentava (o que ocasionaria em sua própria morte não muito tempo depois), sua presença foi postergada e eventualmente esquecida.
--Por que falar com essa gente?--indagou minha mãe, sem saber por que me misturava com o que ela acreditava serem pessoas de estirpe inferior, indignos de nossa presença.
Pacientemente, expliquei:
--Para o filho de Deus, Jesus Cristo, nosso amado mestre e salvador, somos todos filhos do Pai. Se assim somos irmãos, por que tratá-los mal?
Constrangida porque minha fala lhe afetou, minha mãe preferiu não responder, limitando-se a um suspiro e a um sacudir de cabeças. Na verdade, ela sabia que falava a verdade, mas o processo pelo qual foi educada não lhe permitia ver além do que conhecia. Entretanto, isso logo mudaria.
Era curioso estar entre as pessoas de diferentes status quando frequentávamos a capela: apesar de termos um lugar distanciado dos mais pobres, fazia questão de estar entre eles. Quando questionavam minha atitude, mesmo tão jovem retrucava:
--Somos filhos do mesmo Pai, por que nos distanciar dos irmãos mais pobres?
Ali, na verdade, entre aquele povo simples e de bom coração, me sentia mais confortável. Não gostava de pertencer a uma classe estamental vista como superior e que enquadrava uma minoria conforme seu nível de riqueza. Tampouco compreendia porque as terras e o que elas produziam poderiam indicar o nível de companhia adequado para determinados indivíduos. Acredito que me rebelava internamente diante daquele sistema injusto que, naturalmente, só poderia ter sido estabelecido pelos homens de mais baixo calão do plano terreno. No entanto, leitor, não pense que entre os ricos e poderosos não existiam pessoas de bom coração, mas isso será desenvolvido no próximo conto.
De toda maneira, senti uma forte conexão ser renovada naquela capela simples. Cercada de boa gente, rezava de coração, sempre agradecendo e apenas pedindo pela proteção. Minha clarividência ainda funcionava, e o tempo todo enxergava os mortos. Apesar disso, apenas os ajudava em sonho: não havia condições de fazê-lo em terra. Não somente porque vivia em um contexto perigoso, onde a ignorância, motivada pela superstição, levava a muitas mulheres como eu à fogueira, como também os próprios vivos precisavam de minha ajuda. Enfim, naquela capela, como ia dizendo, vi não somente meus guias espirituais se manifestarem como também os de tantos ali presentes. Aquilo muito me encantou.
E eis aqui a influência de uma vida passada se manifestando na presente, pois queria viver dentro de uma ordem cristã, em outras palavras: atuar na Igreja, tornando-me freira (em contraponto ao ser padre da última vez, como podem se recordar) e voltando-me para os pobres e praticando a caridade. No entanto, a reação da minha mãe quando contei isso não foi como havia planejado:
--Você enlouqueceu?--exclamou Mewawyn--Não vim educando-a para isso!
--Achei que fosse apreciar que Deus está chamando sua filha para...--dizia, magoada, antes de ser interrompida.
--Não! Não está, nada! Você se casará, é por isso que foi enviada à esta casa!--vociferou minha mãe--Seu pai precisa de aliados, e não cabe a você negá-lo isso a ele.
Pensei em discutir, mas um pressentimento (enviado a mim pelo meu anjo protetor) me preveniu de fazê-lo. Em vez disso, a despeito da tristeza que me abatia, concordei com a decisão dela. Mas nossa relação mudou, afetando a frequência com a qual íamos à Igreja. Contudo, para fugir da infelicidade que a situação me infligia, fazia minhas preces constantemente.
Naquele ano de 1066, enquanto os normanos invadiam a Inglaterra, nosso rei convocava seus vassalos. O propósito daquilo consistia em resistir àqueles estrangeiros que, como sabíamos, não demorariam para tentar subjugar nosso povo também. As notícias não eram boas: na costa do sul inglês, vinham os dinamarqueses e do norte, os normanos. O rei Harald II conseguiu derrotar seu inimigo no sul, mas ao rumar à Hastings, não voltaria com vida. O homem desencarnou depois de sucessivos encontros de espadas contra William, o ilegítimo duque da Normandia. Devo comentar que não foi um processo pacífico: seu espírito, apegado bastante às ambições materiais, se recusava a aceitar que não estava mais entre os vivos e que havia sido derrotado. O que me é permitido dizer é que demorou um tempo considerável até que aceitasse a ajuda divina e se "encontrasse". No momento, prepara-se para sua reencarnação neste plano.
Pois bem. Enquanto William tornava-se rei dos ingleses, o primeiro do seu nome, estabelecendo, com isso, a substituição da casa de Wessex pela da Normandia, os galeses preparavam-se para resistir ao seu poderio. Nosso rei havia apoiado Harald, mas falhou nesta tarefa. A confusão era eminente e corria boatos de que o sul estaria entregue às mãos dos homens de confiança de William I. O conquistador, como seria conhecido até à modernidade, não hesitaria em englobar estes reinos fragmentados a sua jurisdição.
Nesse sentido, percebi qual seria o papel da minha família nesta história. É verdade que não somos lembrados por qualquer documento histórico, mas tantos outros aristocratas não deixaram sua marca nele. O que dizer, além disso, das vidas dos camponeses que foram perdidas nestes embates sangrentos movidos pelas ambições dos homens? A História, meus caros, pode ser injusta e parcial.
Como dizia, aceitei que meu casamento era, como minha mãe havia me instruído, importante para que se arranjasse aliança com outras famílias aristocráticas. E como o rei estava na berlinda e as tensões com os nobres aumentavam, meu pai considerou me enviar à Powys, casar-me com o irmão do príncipe de lá. No entanto, o homem havia morrido e as opções eram cada vez mais escassas.
--Não sei o que fazer--lamentava ele--Talvez seja melhor enviar a menina a um convento. Pouparia-me despesas.
--Não diga isso!--sibilou sua esposa, minha mãe--Já falei que esta não pode ser uma possibilidade a ser considerada. O rei precisa de você, e nossa filha será importante nesta questão.
Um observador de fora poderia pensar que Mewawyn teria mais compaixão com a única filha em decorrimento do que ela própria passou, mas a noção de empatia não estava em voga no século XI. De todo modo, não podemos culpar aquele espírito que prontamente sofria a influência carnal e estava em constante luta contra ela porque recusava aquela encarnação como já se discutiu. Quanto a mim, em nada pensava, não julgava minha mãe por ser como uma mãe daquela época costumeiramente agiria. Rezava, no entanto, para que pudesse viver uma vida casta e religiosa, mesmo intuindo que este não seria meu destino.
Eventualmente, porém, meu pai encontrou meu noivo e selou com ele o arranjo de casamento que, em tese, beneficiaria nossa família. Na verdade, provaria ser um acordo vantajoso já que eu me casaria com Rhys ap Gruffydd (sim, eram nomes bastante comuns em Gales do século XI) e meu irmão mais velho desposaria a irmã de meu noivo, Cewyn. Com a aprovação do rei, o casamento duplo logo seria realizado, a princípio no fim daquele ano de 1066.
--Você precisará de uma dama de companhia--minha mãe me instruía ansiosamente, quando a decisão de Sua Graça nos foi comunicada pelo meu pai--Creio que podemos legá-la a nossa cozinheira, ela é de confiança e...
--Mãe, pare de falar dos outros como se fossem objetos--reclamei--Não é justo tratá-los desta maneira somente porque são camponeses.
Por um instante, pensei ter visto fúria naqueles olhos azuis: como se o mar que houvesse neles estivesse pronto a se levantar e arrebatar a todos nós com ondas violentas. Mas apenas foi substituída por um cansaço, uma frustração e eu me arrependi de ter elevado meu tom de voz. Por isso, sem pensar duas vezes, me apressei em dizer:
--Perdoe-me, senhora mãe. Não quis insultá-la.
E a abracei. Foi um gesto que a pegou de surpresa, e percebi o quanto precisava daquilo. Como já mencionei antes, afeição não era um sentimento estimulado na Idade Média, principalmente entre famílias nobres.
--Não insultou--ela enfim me respondeu, soando aliviada--Só me preocupo, filha. Nem todos têm boas intenções como você. Sabe, eu gostaria de ser menos... menos dura com você--ela se desculpou--Mas preciso cumprir meu papel como mãe. Um dia, você entenderá.
Aquilo me tocou profundamente porque em todas as minhas encarnações, não conseguia cumprir o papel de mãe. Seja por qual motivo, morria no parto, sofria aborto ou nem conceber era capaz. Por isso me sensibilizei: porque atingiu um desejo que, do fundo da minha alma, almejava concretizar. Entretanto,ainda que não tivesse qualquer experiência com a maternidade, nada me impedia de me sensibilizar com as dificuldades pelas quais Mewawyn passava além de todas as outras já explicadas aqui.
--Espero que sim, mãe--eu disse, e de repente fui tocada por um anseio de cumprir com o papel que esperavam incumbir em mim--Que Deus tenha guiado nosso pai quando ele escolheu aquele que será, espero, o mais adequado para ser meu esposo e que eu possa dá-lo vários filhos.
Posso dizer que foi ali que reconciliamos e quando minha mãe viu que eu abracei suas vontades não somente para agradá-la, mas porque as reconheci como minhas também, ela se regozijou. Foi como se houvesse ganhado um propósito outra vez. A filha rebelde havia sido domada! Ou assim, pensava. Tomei nota que todas as noites, Mewawyn rezava para Santa Mônica e eu, discretamente, observava a própria santa acompanhando-a. Senti uma alegria inexplicável e a paz preencheu, enfim, o ambiente doméstico.
Não se podia dizer o mesmo do sul de Gales, que eclodiu em guerras. Ainda que não afetasse o norte diretamente, as apreensões permeavam as relações em Pembroke e, não tão distante assim, em seu condado também. Todavia, como o rei Bleddyn e seus irmãos resistiam ao conquistador nas terras ocidentais da Inglaterra, a atenção interna se redobrava. No entanto, o monarca não era tolo e ele logo retrocedeu à Gwynedd porque rei nenhum abandonava seus súditos. E como ele era relativamente próximo de meu pai, fez questão de estar presente em meu casamento.
Assim, quando o grande dia chegou, já estávamos hospedados em um dos castelos erguidos em pedra (porém, leitor, não cabe aqui confundir com o grande castelo de Pembroke que servia principalmente como fortaleza, o qual foi somente construído em fins daquele século) que servia como uma das várias residências reais. Ali, a corte se apresentava com músicos, poetas e outros artistas que encantavam os cortesões que buscavam o favor de Sua Graça.
Minha família e eu estranhamos aquele clima de festividades que usualmente marca ambientes onde aristocratas e nobres têm o costume de frequentar. Mulheres e homens vestidos extravagantes, exibiam suas riquezas como que para ressaltar sua posição social. Confesso que temi desposar um desses rapazes que mais se importam em expor suas posses do que com a verdade nas palavras de Cristo, mas me esforçava por pensar que não era melhor que eles se fugisse das minhas obrigações. Havia uma missão a ser cumprida e eu me ateria a ela.
Apesar disso, a melodia dos instrumentos musicais medievais era doce, bela e tranquila (algo que eu, admito, sinto falta de vez em quando); inspirava paz e parecia conter as energias intensas e materiais que figuravam naquele centro da corte. Em meio aquilo tudo, me perdia na música e não me atentava aos meus irmãos conversando animadamente entre si, flertando com garotas aleatórias (mesmo que um deles fosse se casar em breve) e desejando se inserir em círculos elitistas. Meu pai, por outro lado, estava próximo do rei, cuja aparência pouca atenção me despertou. O que lembro de Bleddyn ap Cynfyn era de ter visto sua aura bondosa: seu sorriso era gentil e genuíno, e tudo o agradava. Não era tão apegado às riquezas como poderia se pensar de alguém de sua posição. Além disso, era relativamente bonito: faltavam-lhe cabelos em torno de sua cabeça, mas suas feições eram admiráveis. Alguns diriam que sua aura influenciava na beleza que se mostrava em seus olhos castanhos esverdeados e lábios cheios, e talvez estivessem razão. Era uma alma boa, eu pressenti, embora com tanto ainda a aprender e depurar. (Ainda que Bleddyn estivesse envolvido em uma série de questões políticas que não me cabe aqui aprofundar, ele precisava passar por tantas provações para se desapegar de determinados vícios comportamentais adquiridos em existências anteriores. Lembrando, também, que ser uma pessoa de bem, em qualquer época que pudesse ser, não significa ser desprovida de defeitos e ações ruins).
Sentado em seu trono de madeira (simples, se comparado às construções de tronos régios nos séculos posteriores), o rei Bleddyn me pediu que aproximasse dele. Sem temê-lo, obedeci-o: ajoelhei-me, fiz uma mesura e aguardei que me dirigisse a palavra.
--Bela menina me parece ser, dama Gwenllwyfo. Recebeu este nome por conta da santa padroeira de Pembroke?
Admirei-me quanto a esta menção e exclamei:
--Oh, Vossa Graça! Não sabia que era padroeira de Pembroke!
O rei riu.
--Sim, ela era, porém, foi esquecida pelo tempo. Ainda celebramo-na, entretanto, e a guardo em minhas preces. Conheço poucas moças que compartilham seu nome.
Sorri.
--De fato, a senhora minha mãe me nomeou em honra desta santa.
Ele assentiu, em aprovação.
--Fico feliz de saber disso, senhorita. Pois bem, vamos direto aos assuntos. Estás ciente de que será desposada por Rhys ap Gruffydd?
--Sim, meu senhor, estou.
--E concede sua mão à ele?
A bem da verdade, fiquei surpresa que havia a possibilidade de negar aquele casamento. Contudo, ignorei-a e prossegui:
--Sim, Vossa Graça.
--Excelente, portanto!--ele exclamou, feliz, e, virando-se para meu pai, disse--Poderíamos introduzir os dois agora, senhor?
Nunca havia visto meu pai ruborizar de tanta felicidade por ter sido consultado pelo rei. Outros que acompanhava o soberano viam com inveja a cena se desenrolar, mas, graças aos bons anjos que nos faziam presença, sequer notamos esta situação infeliz.
--Mas, é claro!
Prontamente, o rei e seu amigo próximo articularam para trazer meu futuro marido. Se por fora demonstrava ter controle da situação, aguardando pacientemente conforme as regras da sociedade de corte, por dentro, implodia o exato oposto. Perguntava-me se seria uma esposa adequada, se ele gostaria de mim. Rezava em meu íntimo para que não ficasse presa em um casamento infeliz.
Preocupações tolas, na verdade. Todo aquele anseio que eu sentia era, ao contrário, uma reação à aproximação de almas que, em todas as existências precedentes de que contei até então, viveram e se reencontraram. E quando Rhys apareceu, soube que Deus se apiedara de mim e me concedeu um momento de felicidade terrena que certamente desfrutaria.
Rhys era alto e em sua face as características de um guerreiro eram evidentes: talvez fosse a mandíbula firme, o olhar confiante ou o franzir do cenho de alguém que vivia em constante desconfiança. O que quer que fosse não diminuía sua beleza: admirei prontamente seus cabelos sedosos marrons que escorriam em seus ombros, os olhos azuis que miravam os meus e o sorriso que crescia em seus lábios quando, no momento em que nossos olhares se cruzaram, prontamente nossas almas se reconheceram.
--Dama Gwenllwyfo--ele disse, sem esperar que os homens presentes se adiantassem em nos apresentar. Ousadamente, ignorou o rei e meu pai e veio rumo aonde me achava--Ouvi muito bem de vossa senhoria. Permita-me que me apresenta: Sir Rhys ap Gruffydd, dono das terras à oeste de Gwynedd.
Fiz uma mesura e baixei os olhos aos meus pés como ditava o costume, mas um rubor intenso subiu pelo pescoço e queimou minhas bochechas pálidas. Queria olhá-lo nos olhos, mas não saberia, nem poderia, ser tão intensa. Havia um protocolo até mesmo para conduzir os cortejos, o que talvez possa arrancar risos dos leitores. Isso se explica pela necessidade do homem de controlar absolutamente tudo, por isso as regras comportamentais.
--Gwenllwyfo, filha de Sir Gruffydd, cavalheiro enobrecido pela bondade de Sua Graça--me apresentei, suavizando meu tom de voz.
--É um prazer estar em sua presença, minha senhora. Poderia me dar a honra de conduzi-la em uma dança?
Assenti com a cabeça. O rei, tendo ouvido nossa pequena conversa, instruiu que seus músicos tocassem seus alaudes e determinou que seus cortesões dançassem também. Lancei um olhar cauteloso aos meus pais, mas, naquele instante, ninguém prestava atenção em mim: rodeado por aqueles que buscavam favor do monarca, outros homens se aglomeravam atrás de meu pai, pensando que, através dele, pudessem conquistar seu principal objetivo. O enriquecimento era, afinal, o motivo pelo qual aquelas relações se estabeleciam configurando no que chamariam de "politicagem".
De todo modo, não me importei com isso. Era o que meu pai queria e eu sabia, pelo que minha mãe contava, que ele era muito astucioso; portanto, era capaz de lidar com aquela gente. Contudo, o que me importava era estar com meu noivo. Quando levantei o olhar para encontrar o dele, quase perdi o ar: a familiaridade era tão presente que, antes mesmo que pudesse expressar meus pensamentos, Rhys o fez primeiro:
--Parece que já nos conhecemos--ele comentou, não como uma pergunta, mas com certeza inquestionável.
Enrubesci.
--Creio que deva ter me confundido com alguém, senhor--respondi, embora em minha mente, pensasse o mesmo.
--Não costumo me confundir--disse Rhys, sem qualquer resquício de arrogância que suas palavras pudessem enganar à primeira vista--Mas fico feliz que será a senhora quem desposarei.
--Oh?--exclamei, feliz--Mas sabe que minha mãe uma vez comentou que não era apropriada para casar porque pensei em me juntar ao convento?
Enquanto trocávamos palavras, subentendidas pelo flerte, preparávamos para dançar. Não se engane, porém: o salão não era grande nem tão ricamente decorado como muitos filmes modernos gostam de passar. Demonstrava poder e posição social, de fato, porém não como possam imaginar. Construído de pedras, era possível sentir a frieza e, por quê não, dos fantasmas que um dia viveram ali. As janelas eram pequenas e a iluminação, limitada pela tecnologia medieval.
E quando o musicista tocava seu instrumento, era tão doce o som que dali saía que fazia-me arrepiar e encantar toda! A melodia aprazia a todos os que ouviam e, quase como inconscientemente, instigava aos presentes a dançar. A música, quando toca nossa alma, refaz-nos como indivíduos melhores, embora, claro, isso se deva mais à intenção do músico. Ela é também um remédio que cura males, (re)aproxima os espíritos, é uma dádiva de Deus.
Quando eu e Rhys dançamos, era como se a luz houvesse entrado pela janela e atingindo a todos nós. Acredito que esta sensação tenha sido sentida pelos outros convidados também, porque, de repente, a música lenta deu margem para surgir uma mais agitada e mais tipicamente galesa. Pela primeira vez em muito tempo, senti-me livre. Até mesmo leve. Desprendi-me da timidez que era, verdade seja dita, uma reação espiritual a uma autodefesa que projetei em mim mesma (provavelmente por conta das últimas encarnações e como elas terminaram). E ele, o tempo todo, foi o responsável por essa guinada.
No final da música, ele pediu permissão ao meu pai para que pudéssemos caminhar pelos jardins. Prontamente ele concedeu, desde que uma dama de escolha do rei nos acompanhasse de uma distância considerável. A esposa do rei indicou uma de suas damas íntimas e assim fomos rumo aos jardins, à natureza. Ali, poderíamos ser nós mesmos sem o rigor de desagradar às pessoas régias e seus protocolos.
--Ah, finalmente!--exclamou Rhys, possuidor de uma personalidade cativante, alegre e tão única para o meio em que nos achávamos--Amo dançar, mas preferia ter este momento aqui, com vossa senhoria.
Ri.
--Não seja tolo, senhor, nós seremos casados em breve.
--Ainda assim--ele insistiu--gostaria de conhecê-la melhor.
E foi assim que meu espírito, relativamente solto dos pré-conceitos da carne, disse:
--Já não afirmou ter me conhecido antes?
Rhys me lançou um longo olhar, cheio de ternura e significado.
--Sim. E afirmo outra vez se desejar, mas gostaria de ouvi-la falar. Será mesmo tão tímida assim?
--O que o faz pensar que eu não seja?--eu ri novamente.
--Os seus olhos, as suas maneiras discretas que também são energéticas--ele explicou.
--E tudo isso o senhor interpretou de uma dança?--arqueei uma sobrancelha, gostando do desafio que impunha nele.
--Provavelmente sim, mas por que isso deveria surpreendê-la?--e seu espírito copiou o movimento do meu ao dizer--Já me conhece!
--Em tese, sim.
Afinal, paramos sob uma palmeira e ali fitamos as variedades de rosas, árvores, lírios, flores e outros frutos que enfeitavam aquele ambiente. Ao centro, muros verdes eram erguidos, estilosamente recortados e cuidados por um jardineiro que respondia à autoridade de alguém escolhido pela rainha. Era um lugar muito bonito. A dama que vinha nos acompanhando optou por adentrar aquele labirinto, fingindo ter-se perdido de nós.
--Gosto muito disso--falei, após um momento de silêncio tranquilo, no qual aproveitamos a natureza em contato com a humanidade e o resultado disso--Confesso que não há outro lugar que eu não gostaria de estar. Mesmo onde moro, não há esse tipo de jardim. É maravilhoso!
Rhys sorriu e foi como se estivesse face-a-face com o sol. Corei.
--Onde iremos morar, haverá um jardim assim, se não mais esplêndido, esperando por nós--ele prometeu--Apesar de vivermos em tempos sombrios, há espaço para a luz.
Meu sorriso se espalhou pelo meu rosto diante daquelas palavras. Como sua presença me iluminava! E na certeza de que o amava, tomei suas mãos imprudentemente nas minhas e disse:
--Obrigada por ser tão gentil, senhor. Espero que seja assim sempre--e eu sabia que seria.
Ele levou uma de minhas mãos aos seus lábios, depositando numa um beijo doce e terno.
--A senhora merece toda a bondade que oferece ao mundo. Garanto que terá uma boa vida.
E em vez de nos conhecermos melhor (como se houvesse necessidade disso), passamos o restante da tarde caminhando aos redores do jardim traçando planos. A vida, em sua primavera, é doce e promissiva no verão. Sem dúvida, nada nos preparava para o outono e, pior ainda, o inverno...
O casamento foi realizado em duas semanas e mesmo minha mãe foi surpreendida por quão apaixonados um pelo outro estavam os noivos. Nem meu pai esperava que esse arranjo foi um sucesso. No entanto, o mesmo não poderia se dizer de Cewyn e Gruffydd, cujos temperamentos bastante diferentes deveriam ter sido levado em conta antes das ambições dos chefes das respectivas famílias. Nesse sentido, outra vez mais a felicidade de dois jovens foi preterida por determinação de outros. Tal era a regra que atuava sobre a aristocracia e nobreza medievais.
Pois bem, deixei o condado de Pembroke para viver na região de Powys. Tivemos uma "lua-de-mel" bastante romântica: ao contrário das encarnações anteriores, não encontramos obstáculos para nos encontrar, nem tampouco passamos por tantas dificuldades para nos amar. Tudo parecia ser significantemente... feliz. Não digo perfeito, mas quase isso, dentro da escala de felicidade terrena. (Nota de Amadeus: o que podemos aprender com isso? Que as dificuldades kármicas pelas quais passamos eu e o bondoso espírito que sempre me acompanhou nas encarnações, foram superadas. De modo qual não significava tampouco que não havia mais nada a ser aprendido: sempre há. Contudo, podemos ver aqui que nossas existências neste plano chegavam ao fim, não à toa inspirei a médium a colocar esta memória dentro do nono ciclo, visto que vivi dez vidas na Terra. Pois bem, acrescento também algo que vejo muitos de vocês falarem sobre 'almas gêmeas': é certo que os espíritos encontram avenças e desavenças no decorrer de suas vivências milenares, e por um motivo que somente Deus conhece, de todos aqueles com quem se relacionam, prevalece "o" parceiro como no meu caso. Sim, aquele com quem continuo me relacionando no plano espiritual poderia ter escolhido encarnar como meu pai, meu irmão, mesmo minha mãe. Isso não diminuiria em nada o amor que temos um pelo outro. Contudo, nossas lições kármicas pediam outro relacionamento que tanto eu como ele decidimos, através das vivências em gêneros diferentes, viver romanticamente. Uma vez que os impedimentos de outras vidas foram vencidas, a felicidade pôde ser almejada. Claro, como falei e reforço outra vez: dentro dos limites da Terra, já que a verdadeira felicidade consta nos planos superiores, onde o peso que a carne causa ao espírito não é mais sentida; um livramento de uma prisão, se assim podemos chamar. Em suma, a alma gêmea costuma (porque nada é rígido nas leis de Deus, conforme Kardec já havia alertado pelos espíritos superiores que o guiavam/aconselhavam em seus trabalhos) ser este parceiro que sempre o encontrará, ainda que o objetivo daquela expiação/missão não se limite a este reencontro. Com isso, posso dizer que o conceito de alma gêmea é, para vocês da Terra, construído romanticamente conquanto, na realidade, diz mais respeito à afinidade que um espírito exerça sobre o outro e vice-versa numa relação completamente recíproca. Um irmão, um grupo de amigos leais podem, desta maneira, constituir 'almas gêmeas', pois seguem um propósito quase similar e são almas afins que vêm reencarnando em conjunto. A verdade, meus caros, é que Deus não permitiria que Seus filhos viessem à Terra sozinhos ou padecessem em suas missões sem um vislumbre da alegria em um meio que inspira o contrário muitas das vezes. Ele é, afinal, o Pai, o Amor, e disso não podemos duvidar.)
Para nossa surpresa, antes de completarmos um ano de casado, descobri-me grávida. Embora a constatação me surpreendesse positivamente (pois era um desejo meu de outras encarnações, tornar-me, ser mãe), acendeu o medo (que também ressoava de outras vidas pelo mesmo motivo) que, em meu íntimo, parecia ser um velho conhecido. Era, na verdade, uma ferida que pedia para ser cicatrizada.
--Achei que estivesse feliz por engravidar, meu amor--disse-me Rhys depois que contei as notícias: normalmente, se esperava até as três fases da lua (vulgo três meses) para que se tivesse certeza da concepção--Por que está aflita?
Hesitei antes de contar a verdade, ou, ao menos, parte dela; lembrando que ainda era uma mulher inserida no contexto medieval. Não tinha as respostas para meus problemas, uma vez que, mesmo médium à época, meus mentores não me iluminavam as soluções porque precisava buscá-las eu mesma, por intuição e meu intermédio. Do outro modo, o aprendizado necessário para superar esse "nó passado" não teria qualquer importância.
--Porque temo morrer no parto--enfim disse, depois de ponderar como expressar minhas angústias que, por sua vez, eram traduzidas de outra maneira. Ali, não havia mais espaço para o orgulho e eu podia dizer com algum grau de felicidade que o havia domado finalmente--Temo não ser uma mãe adequada e falhar com os deveres que esperam de mim. Como também penso na infelicidade da minha mãe e eu não quero, com todo o respeito que a devo enquanto filha, repetir seus erros.
Rhys assentiu, refletindo em silêncio o que eu lhe disse. Estávamos em pé, de frente à lareira que aquecia nossos aposentos. Logo, ele tomou minha mão na sua e me levou para sentar ao pé da cama. Foi quando disse, afinal:
--Compreendo seus medos. Dizem que as batalhas travadas pelas mulheres estão nos quartos, e quem sou eu para julgar isso? Obrigado por confiar em mim, Gwen, eu sou muito grato por isso. Iremos passar por isso juntos e rezarei todos os meus dias para que nada disso se realize. Sei que Deus nos juntou para um propósito, e será apenas uma questão de tempo até descobrirmos qual será esse.
Dito isso, me envolveu em um abraço apertado e ali fiquei, confortada pelo amor da minha vida (ou seria amor espiritual?). Apesar disso, fui inundada com uma sensação forte de fé tanto por ele quanto dos mentores que me acompanhavam: tão de repente, veio a certeza de que seria mãe, sim. Cumpriria com o papel que, de certa maneira, vinha fugindo porque outras questões mais emergentes necessitavam serem resolvidas.
E a maternidade neste ponto foi como um pilar para o casamento feliz que eu e Rhys passávamos. Não enfrentávamos problemas absurdos no ambiente doméstico. Amava-o mesmo contra as indicações dos médicos da época, que recomendavam distância física do parceiro (se conseguem entender o que quero com isso dizer...) e repouso absoluto, uma vez que a taxa de mortalidade infantil nestes dias era muito alta e todo cuidado era pouco. Tudo era resolvido (se havia alguma disputa de terras, por exemplo) pelo diálogo e esforçávamo-nos em impedir que a famosa vendetta (que é quando a família da vítima de um assassinato, por exemplo, possa se vingar e cometer o mesmo ato naquele que tirou a vida de um parente seu; este ato permaneceu em voga principalmente na Itália até o século XVII, embora estes atos tenham sido perpetuados pelos espíritos que cometiam tais atos mesmo quando encarnaram em "gângsters") fosse realizada.
No entanto, veio o outono e com ele, as preocupações. Afinal, a guerra no vizinho assustava e as notícias não eram boas. Quem seria esse William da Normandia que se achava no direito de ser chamado de conquistador por crer tomar o que era seu por direito? Meu marido, que estava a par de tudo, uma vez me explicou:
--Já estive na companhia do rei Harald II, cuja irmã, Edith, havia sido esposa do rei Edward, o Confessor. Dizem que este rei era santo, mas também o conheci e ele me pareceu arrogante. Bem, como dizia, Edith, quem ele repudiou duas vezes (na primeira, por ser estéril; na segunda, por querer viver uma vida santa), foi sua rainha consorte e no momento da morte do esposo, dizem que foi seu cunhado quem ele reconheceu como herdeiro.
"Era o que Harald clamava, afinal, e ninguém contestaria este homem. Afinal, os Godwinson costumavam ser muito poderosos e nem sequer o rei Canute os repudiu quando conquistou a Inglaterra antes de nós dois pensarmos sequer em nascer. No entanto, quando Canute governava os ingleses, Edward estava na Normandia: alguns diziam que foi exilado, outros, que sua mãe havia o enviado lá com seu irmão. De qualquer maneira, esteve em contato com William. Se este, mesmo ilegítimo como clamam, conquistou a afeição do pai e herdou o ducado da Normandia, como que ele não faria o mesmo com Edward? Para mim, se quer saber minha opinião, William sempre fora o rei direito da Inglaterra."
--Mas por que apoiar o rei Harald?--eu indaguei, minha mente dando voltas com todos aqueles nomes e aquelas políticas.
--Porque--disse meu marido--ele era poderoso e vinha de uma família poderosa. Não fosse por William, ele teria governado inquestionavelmente. Ninguém poderia adivinhar que ele seria derrotado em Hastings! Veja, Harald derrotou o rei dinamarquês viking, um sobrinho distante de Canute, que pensou em reclamar o trono inglês para si. Todos achávamos que os vikings da Normandia seguiriam o mesmo destino.
--Compreendo--refleti, quase silenciosamente. Mas Rhys continuou a tagarelar, por estar ansioso com os eventos que ameaçavam, a qualquer momento, eclodir:
--Nós, galeses, precisamos nos unir contra William, mas não vejo muita esperança. O pobre coitado do rei Bleddyn está sofrendo com ameaças do nobre que, desconfio, tem recebido apoio de William.
--Contanto que você não se envolva nisso, Rhys--falei, soando quase desesperançosa: estava ciente de que ele era um dos nobres mais poderosos de Powys e, portanto, vassalo da autoridade local que respondia ao próprio rei de Gwynedd. Logo, era apenas natural que, em caso de guerra, ele fosse convocado. Apesar disso, esforcei-me em manter calma e sob controle os meus nervos, pois precisava ser sensata. Guardava a intuição de que nenhuma preocupação era necessária, porém...
--Evito conflitos como sempre evitei--ele me assegurou, inclinando-se para depositar um beijo na minha testa.--Contudo, não fugirei se chegarem a mim.
Ciente de sua teimosia, ou braveza, não discuti. Naquela noite, rezei para que o ambiente que minha criança viesse nascer, fosse o mais pacífico possível. No entanto, nem eu mesma confiava na instabilidade que a ambição descomedida dos homens era responsável por criar.
Quando o inverno chegou, entrei em trabalho de parto. Foi minha guerra particular, como Rhys salientou na noite em que contei do bebê que carregava em meu ventre. Era ali que daria ao espírito que vinha dos céus o corpo para viver e aprender com sua encarnação. Não me recordava então, mas sonhei na véspera com um espírito de um jovem que vinha acompanhado de dois mentores meus. Um deles, chamado Rafael, falou:
--Entrego a ti esta criança que virá auxiliar em sua missão como mãe. Pediste tanto ao Pai que Ele enfim concedeu à tua vontade de conceber como Maria e criar, como Nossa Mãe, seu próprio filho.
--Agradeço--falei, humilde e emocionada.
--Não será muito fácil, visto os tempos em que pediste para reencarnar--alertou ele--E terás de se preparar, pois a guerra chegará à Gales, eventualmente.
--E ele fará parte disso?--eu exclamei, sem conter meu choque.
O espírito do filho que nasceria disse:
--Não te atormentes com a escolha que fiz. Não me conheceis antes porque somente agora Nosso Senhor pensou fazer-me bem ser teu filho. Em verdade, digo que optei por este caminho porque preciso me redimir do que fiz no passado.
Assenti, compreensiva, mas ainda assim, indaguei:
--Que fizeste no passado?
O espírito encarou a Rafael, mas ele lhe concedeu permissão para contar:
--Fui um rei tirano e injusto, que muito tirou das pessoas por orgulho e vaidade. Justifiquei todos os crimes cometidos em nome de Jesus, Nosso Senhor. Na última vivência, porém, consegui resgatar algo desta vida ao vir pobre e mendicante, contudo, preciso reparar ainda ao me inserir no seio de sua família.
Compadecida, disse:
--É hora de deixar para trás o passado e acolher o presente que Deus lhe deu. As reencarnações são um ciclo necessário para depurarmos de nossos pecados. Está pronto para isso? Está ciente do que pode enfrentar?
Inabalável, assim respondeu aquele que nasceria de meu ventre:
--Estou.
Rafael, por sua vez, disse, satisfeito:
--Que o Pai os abençoe na missão que, juntos, terão de cumprir.
Mas, de alguma maneira, surpreendi-me quando embalei em meus braços uma menina. Sim, nasceu uma menina! (Nota de Amadeus: aposto que muitos de vocês acreditaram que viria um menino, não é mesmo? Aguardem o desenrolar da história...) E a recebi em meus braços com a emoção de quem vibrava para que isso acontecesse.
--É uma menininha saudável, vossa senhoria--disse-me uma das parteiras depois de tê-la me entregado--Como a chamará?
--Ainda não sei--confessei, sem fôlego: o parto foi longo e trabalhoso, exigiu de mim tantas energias que me sentia completamente fraca.
--Posso comunicar as notícias ao vosso marido?--indagou a outra mulher, assim que se certificou de que eu estava bem. Naquela época, o esposo não ficava no mesmo aposento que sua consorte.
--Pode--permiti, exausta, porém, feliz ao embalá-la contra o meu peito. Aproveitei a situação para alimentá-la, ignorando as regras (outra vez, feita por homens materialistas!) do "bom senso" de que uma ama de leite era a responsável pelos recém-nascidos até a mãe se recuperar.
Quando Rhys, afinal, entrou nos aposentos, seu rosto se iluminava de deleite e foi quando percebi que Deus havia me abençoado! Uma família, enfim! Nada me alegrava mais do que poder constituir uma família minha.
--Venceu!--ele exclamou, referindo-se à "batalha" contra a morte que eu enfrentei no trabalho de parto--Oh, não creio! Deus foi bom conosco, Gwen!
--De fato, foi! Por favor, reze por nós!--instruí-o a seguir o costume medieval que, antes da Reforma, predominava fortemente sobre a aristocracia e a nobreza: pagar à Igreja Católica pelas missas em honra de si mesmos ou de seus entes queridos, uma vez que o medo da morte era tão impactante entre o povo europeu daquela época que eles se voltavam para vários meios que encurtassem sua estadia no que passou a se denominar de "purgatório".
--Farei isso--ele prometeu, e eu o vi tomar a criança em seus braços e a embalar com emoção. Aquela cena fê-me chorar, emocionada, e aquilo o assustou--O que houve?
--Eu só estou comovida--disse, assegurando-o de que tudo estava bem--Deus ouviu nossas preces.
Rhys sorriu.
--Creio que deveríamos nomear este bebê em honra de algum santo.
--Glawdys--decidi, tão de repente inspirada.--Houve uma santa com esse nome, porém, não me recordo agora de onde... O que eu lembro é que ela era pacífica e dizem que afastou o marido da violência.
--Quase como Santa Mônica afastou Santo Agostinho da violência--refletiu Rhys.
Encarei-o surpresa. Ele, sem saber o que se passava, também me encarou de volta com perplexidade. Afinal, o que havia acabado de acontecer?
(Nota de Amadeus: a santidade é um processo mais mundano do que espiritual em si, embora possa-se dizer que, na sua complexidade, muitos santos foram, de fato, espíritos puros que fizeram o bem e deixaram marcas em sua encarnação. Seus feitios foram tais que denominou-se, para a raridade do cumprimento de alguns, milagres. Por isso, o fenômeno dos santos. No entanto, cabe ressaltar que houve cultos na Baixa Antiguidade que confundiam santos com deuses. Por exemplo: se em determinado lugar, uma santa ou um santo fez "milagres" poderosos, cultuam-o de tal forma que o igualam ao Pai. Se não respondem a uma prece, ousam ainda em "bater" na imagem. Essa prática infeliz tornou a acontecer na Idade Média também. Mas não se enganem. Na Rússia, uma princesa teve seu marido assassinado e, portanto, decidiu se vingar dele: planejou deliberadamente acolher seus inimigos para forjar um perdão. Contudo, o resultado não poderia ter sido diferente: os homens em questão foram assassinados. Na posterioridade, esta princesa se tornou santa. E por quê? Ela se converteu ao cristianismo. Garanto-lhe que um espírito superior não cometeria atos desta maneira. Que ela, de fato, veio a pedir perdão no plano espiritual e, nas encarnações posteriores, se esforçou para se limpar disso, pode-se de fato ser exemplo de penitência, mas não de santidade. Por isso, vos digo que nem todo santo foi um espírito louvável (e não deveria surpreender, uma vez que houve "deuses" de comportamento similar que, entretanto, continuaram sendo centros de fé para muita gente ignorante) e há a necessidade de refletir sobre isso. Mas, sobre a questão de minha vida acima, digo que não fugi (e nem teria como) das questões sociais de minha época. O culto mariano (isto é, à Virgem Maria) não havia surgido com precisão ainda, especialmente naquelas regiões onde minha memória versada em conto lhes mostra, mas isso não diminui o significado da religiosidade daqueles com quem convivi. Em suma: tanto fossem nobres ou não, o costume de dar o nome de um santo ao filho era marcante e tinha sua importância. Por isso, fiz o mesmo com a minha filha. E digo-lhes por quê: a encarnação dela seria marcante, difícil, e aquele nome... bem, é provável que pudesse ajudá-la. Não tenho a permissão de contar mais do que devo, mas podem imaginar o que quis dizer.)
Glawdys nasceu robusta, com as bochechas vermelhas. Seu choro foi tão estrondoso ao sair de mim que nem as parteiras tiveram dúvidas de que era saudável. Uma delas, inclusive, comentou:
--Nossa, que pulmões essa criança possui!
Seu batismo ocorreu assim que havia sido limpa e vestida apropriadamente. Os amigos próximos e nossas respectivas famílias estiveram presentes em uma cerimônia íntima que celebrava o nascimento desta filha, embora não me passasse despercebido o lamento de alguns quanto ao sexo do bebê. No entanto, nem eu ou Rhys nos importávamos com isso: o mais importante era que Glawdys crescesse saudável.
O ambiente domiciliar tendia à prosperidade e os primeiros anos foram relativamente tranquilos: longe do tumulto político que acontecia em Pembroke e outras regiões de Gwynedd, éramos muito pouco afetados pelas tensões que emergiam ao redor do gentil rei Bleddyn ap Cynfyn. Entretanto, conforme Glawdys crescia, percebíamos que se tornaria uma mulher de difícil personalidade dado que, mesmo pequena, já demonstrava ser cheia de vontades.
--Ela é indomável--uma vez admiti ao meu esposo. Havia recusado que minhas damas de companhia atuassem como governantas porque queria exercer este papel, o que, para muitos, era algo escandaloso de minha parte. No entanto, isso se provava mais complicado do que pensava, portanto, desanimava com frequência--Não sei o que fazer.
--Paciência é a chave--disse-me Rhys, pensativo--De fato, ela é temperamental. Acha-se constantemente no centro de nossas atenções e detém confiança sobre seus desejos, sabendo que responderemos às suas vontades.
--É preciso que haja uma companhia--refleti--Não podemos mimá-la, embora todos ao nosso redor deem pouca importância para isso. Lady Sybil me disse que este tipo de comportamento é normal e que eu não deveria me preocupar!
Que eu estivesse muito aflita, era evidente, mas igualmente manifestava um desespero que refletia a inexperiência espiritual da maternidade. Aquela era uma grande prova para mim, e eu não queria falhar nela.
--Não vamos nos antecipar em afligir-nos sem necessidade--alertou-me Rhys, tão mais sábio e paciente que eu--Venha, vamos fazer uma prece para nossa menina.
Assim, aquiesci e, ali mesmo, no chão dos nossos aposentos, ajoelhamo-nos e direcionamos nossas preces mais sinceras e genuínas ao Todo Poderoso. Enquanto isso, Glawdys continuava agitada, recusando a aceitar sua encarnação... justamente porque havia se acostumado a viver em um corpo masculino. Quando completou cinco anos, ela virou-se para mim e perguntou, em um galês esganiçado e confuso:
--Por que, senhora mãe, não posso brincar de espadas?
Pacientemente, expliquei:
--Porque são instrumentos perigosos que somente os rapazes podem usar.
--Por quê?
--Porque são eles quem irão nos proteger.
--E por que não posso protegê-la, mamãe?
Encarei aqueles olhos azuis tão questionadores e sinceros, e por um minuto me senti emocionada por aquela pergunta. Senti nela o amor sincero e puro que não somente vinha de sua infantilidade, mas de seu espírito. Sorri-lhe e, mantendo a paciência, expliquei:
--Nós mulheres temos um jeito próprio de nos defender. Quem sabe quando for mais velha eu possa ensiná-la o que meu pai ensinou?--e lhe dei uma piscadela que pareceu acalmar sua curiosidade.
Nesta mesma época, percebi que, ao conversar e satisfazer suas questões, seu temperamento oscilava entre a intensidade que a (re)descoberta do mundo lhe proporcionava e a calmaria que vinha controlando este ímpeto. Com muito alívio diante disso, redobrei minhas preces, mas também foi quando engravidei novamente. E Glawdys não gostou muito quando compartilhei a novidade com ela.
--Você esquecerá de mim!--seu temperamento retornou com uma fúria que nunca antes havia conhecido, não naquela manifestação. Encarei-a, horrorizada--Serei substituída! Como fui antes!
--Você nunca foi substituída, minha filha!--protestei, esforçando-me em vão em acalmar seus nervos--Por que diz isso?
(Nota de Amadeus: é sabido que as crianças possuem uma mediunidade bastante aflorada nesta tenra idade e algumas delas não somente podem exercê-la naturalmente como também são capazes de ter acesso às memórias de vidas regressas caso Nosso Senhor permita. Glawdys foi um destes exemplos: na sua encarnação mais marcante como rei, ela havia sido preterida pela mãe daquela vida, o que ocasionou em uma vivência bastante conturbada. O fato de ter um possível irmão e enxergar a felicidade estampada no rosto de sua "nova" mãe, no caso eu, a fez recordar deste trauma... e que foi necessário tê-lo revivido a fim de que pudesse curá-lo naquela mesma existência).
--Porque sim!--ela exclamou, magoada--Se me amasse, não teria outros bebês.
Rhys prontificou-se a intrometer-se naquela ocasião, mas eu sabia que precisava resolver aquilo eu mesma. Por isso, impedi-o de influenciar aquele momento, embora Glawdys o encarasse como se pedisse por ajuda.
--Mas ter outros bebês não a fará ser menos amada--disse eu, engolindo minha angústia maternal para que pudesse, ao contrário, fazê-la crer naquilo que dizia--Eu juro que continuará sendo a primogênita. Além do que, se lembra de quando conversamos sobre protegermos umas as outras?
Desconfiada, Glawdys assentiu e seus cachos dourados caíram em seu rosto. Prontifiquei-me a ajeitar o arco ao redor deles antes de dizer:
--Você poderá ser a irmã mais velha que cumprirá o dever diante de seu irmão ou sua irmã mais nova. Como se sente com isso? É uma grande responsabilidade.
Glawdys não respondeu, e, apesar da ansiedade que me abalava internamente, prossegui:
--Você será o exemplo para esta criança não nascida. Será você que a introduzirá aos conhecimentos que tão logo eu lhe passei. Ela vai precisar de você, de ser defendida em tempos árduos como vivemos agora. Não gostaria disso? Eu sempre fui próxima dos meus irmãos, e eles me ensinaram muito.
Aos poucos convencida, ela cedeu. Mas ainda insistia em fazer biquinho quando disse, uma última vez:
--Não vai me abandonar, então? Promete?
Abracei-a e respirei mais acalmada, satisfeita por ter resolvido aquela situação. Uma vez que a assegurei de que continuaria a amando e educando-a, fiz questão de colocá-la para dormir. Logo mais, fui deitar-me ao lado de Rhys.
--Você é uma excelente mãe--ele disse, todo sorrisos, ao receber-me em sua cama--Pensei que precisasse interferir outra vez, mas vejo que não há mais necessidade disso.
Soltei um risinho e enquanto aproveitávamos a nossa intimidade, a porta dos aposentos foi aberta escancaradamente: o perigo do mundo exterior, por tanto tempo esquecido, chegou finalmente até nós.
--Céus!--exclamou Rhys, seu rosto ruborizado diante da visão de seu pajem, que entrava ofegante e tão constrangido quanto nós por ter adentrado sem boas maneiras--O que quer, filho? Diga!
Sem levantar os olhos, o pobre Cerfynn disse, aos tropeços:
--Trago péssimas notícias que não poderiam ser retardadas, senhor--e, sem esperar que Rhys o comandasse a falar logo do que se tratava, o jovem disse--Estamos em guerra. O rei de Gwynedd está morto.
--Morto?!--minha voz saiu mais esganiçada do que pretendia, o pânico tomando conta dos meus nervos--Como assim, morto?
Em minha mente, recordava da bondade de Bledynn ap Cynfyn e em como havia sido tão gentil comigo, com meu esposo, com toda a minha família. Não me recordava de que pudesse ter sido um péssimo governante, embora desconfiasse de que os nobres invejosos de quem nunca me simpatizei (sim, leitor, os mesmos que procuravam favores do meu pai e o detestavam por sua proximidade com o rei) tivessem parte nisso. Indagava-me se tudo isso tinha relação com a conquista dos normandos na vizinha Inglaterra, mas o que Cerfynn disse foi pior do que temia:
--Os nobres que o cercavam o traíram. Gwynedd está em guerra civil. O rei sulista Rhys ab Owain o matou e agora ocupa o cargo de rei de Gwynedd também.
Um silêncio constrangedor caiu sobre os presentes e eu me vi forçada a manter a calma e dizer:
--Teria notícias de meu pai, senhor?
Cerfynn hesitou e eu imediatamente soube; entretanto, precisava ouvi-lo.
--Por favor, apenas fale.
--Ele seguiu Vossa Graça ao túmulo, minha senhoria. Minhas condolências.
--Agradeço--respondi, quase solenemente.
Fechei os olhos, sequer prestando atenção ao diálogo que se passava entre meu esposo e seu pajem, portador de tristes notícias. Se o rei estava morto, minha família havia caído em desgraça. Pus-me a rezar fervorosamente, mas mesmo consciente de que meu pai e meus irmãos estivessem em um lugar melhor... as lágrimas vieram.
E Rhys se deu conta de que sua esposa sofria o luto. Por isso, deixou de lado as questões que pediam-lhe urgência, orientando Cerfynn a pedir comida e ale na cozinha e que ordenasse em seu nome a alimentar as lareiras, e veio me consolar.
--Suba à cama, mulher. Sua condição requer repouso--ele disse em um sussurro tão doce que eu não havia como negar obediência. Colocando-me em seu leito, Rhys abraçou-me e continuou--Tudo será resolvido, Deus conhece nossos corações e sabe o que se passa neles. Não vamos temer antecipadamente. Pedirei a Cerfynn pelas notícias de sua mãe, e trazê-la aqui.
--É claro--eu concordei, distante, tendo-me esquecido do que aquilo tudo poderia significar para Mewawyn--Obrigada, esposo. Preciso pensar em nosso filho e...
Mas ele silenciou minhas inquietações ao depositar em meus lábios o mais doce dos beijos, afagando meu cabelo e amando-me suavemente.
--Durma, meu amor. Amanhã, será um novo dia.
E, sem forças para contestá-lo, adormeci em seus braços.
Aquele foi um ano difícil e a tendência era piorar. Logo mais em 1074, havia dado à luz a um menino, a quem chamei de Dafydd (ou David, se preferirem, mas manterei a grafia galesa). Para minha surpresa, Glawdys adorou-o e se esforçou em melhorar seu comportamento sempre que estava por perto, já que desejava ser um exemplo para o irmão mais novo. Essa ideia lhe fixou tal que definitivamente abrandaria seu temperamento no decorrer da infância, embora isso não signifique que tenha posto um fim em seus humores oscilantes.
Mewawyn, minha mãe, acompanhou o parto de seu neto e não saberia dizer, após o ocorrido que afetou gravemente nossa família, como ela se sentia. Embora acompanhar meus filhos a alegrasse, ela se sentia vazia e procurou conforto num convento ao extremo norte de Gales, longe das politicagens, mas também dos reminiscentes da família que deixou para trás. Não me senti particularmente ferida com isso, embora negar que havia me entristecido com sua partida seria hipocrisia da minha parte. Afinal, que filha não sentiria falta da mãe? No entanto, reconhecia que aquilo lhe era necessário, libertar-se de uma vida que nunca quis. (Nota de Amadeus: de fato, soube no plano espiritual, quando nos reencontramos, que ela se encontrou enquanto abadessa, mas pediu perdão pela falta cometida enquanto mãe. Contudo, apesar desta reaproximação entre nós, não encarnaríamos mais juntos).
Dafydd crescia saudável como sua irmã, herdando muito mais aspectos físicos do pai do que meus, embora tivesse meus olhos azuis. Seu sorriso era encantador e havia em seu semblante uma serenidade que encantava a nós todos. Apegou-se rapidamente ao pai, e deixo aos leitores perguntarem-se o motivo por trás desta ligação especial.
Mas a paz não estava destinada a reinar sobre nós já que seríamos, outra vez, afetados pela guerra dos homens. Rhys havia sido convocado a prestar lealdade ao novo rei se desejasse ser desassociado ao estigma de traição. Como seu vassalo, não havia como relutar em responder à missiva que obrigava-o apresentar-se à corte. Entretanto, diante das próprias lutas que este novo rei enfrentava (o que ocasionaria em sua própria morte não muito tempo depois), sua presença foi postergada e eventualmente esquecida.
Contudo, o ano de 1081 chegou e, com ele, vinha o conquistador normando avançar com suas tropas sobre toda a Gales. O sul havia se submetido a ele, e o espectro de seu poderio rondava sobre o norte independente. Mesmo o novo rei de Gwynedd e Powys parecia sensatamente temê-lo. No ano anterior, os condes lealistas ao rei William haviam submetido alguns dos súditos galeses ao seu poder ao expandir o domínio sobre suas terras. No entanto, que o próprio bastardo coroado rei de todos os ingleses viesse em pessoa exercer esta dominação... pintava sobre minha família uma realidade mais assustadora que brigas entre galeses.
--Fui convocado a levar os homens à guerra--comunicou-me Rhys, infeliz, no dia em que, outra vez, seu pajem fora o portador de notícias ruins... ainda que em um momento mais adequado--A resistência aos saxões e seus normandos deve ser feita e o rei precisará de toda a resistência possível.
Senti um aperto no coração e imediatamente tomei como um alerta de Deus para que impedisse sua partida... ou, como mais tarde se provou corretamente, um pressentimento de que algo ruim estava para acontecer.
--Não vá--falei, prontamente--Por favor, Rhys, esta guerra não é sua.
--Não--ele concordou e seu semblante estava repleta de miséria, a ponto que me afetou também. Seríamos separados novamente, eu sentia isso--Não é, de fato, mas meu dever urge-me a cumpri-lo.
Ainda que compreendesse, meus olhos se recusaram a ceder e expressaram a dor que apunhalava meu coração.
--Não me deixe só neste mundo--sussurrei.
Com um sorriso triste em seus lábios, Rhys disse:
--Nunca estará sozinha, meu amor. Não permitirei isso.
E, assim, pela última vez naquele dia--e naquela encarnação--Rhys beijou-me nos lábios e tomou-me em seus braços para amar.
Criar duas crianças enviuvadas não foi fácil, e dizer isso é como constatar o óbvio, apontar para o céu e dizer a um semi-cego a cor azul que não mudava se não pela presença de nuvens passageiras. Não tinha mais damas comigo, pois cada uma delas precisava cumprir seus deveres e não poderia culpá-las por retornar cada uma delas as suas famílias. Os empregados, no entanto, me ajudaram a passar por este período tão turbulento.
--A senhora não deve se contentar com esta infelicidade--disse-me a cozinheira cujo nome era algo parecido com Lyn--As crianças precisam da sua força.
Reconhecendo Deus naquela pessoa, eu logo percebi que não adiantava internalizar a tristeza, chorar quando ninguém via e deixar meus filhos aos cuidados daqueles pobres coitados que, além de cumprirem com seus trabalhos, os educavam. Glawdys estava sendo difícil e mesmo Dafydd, costumeiramente tranquilo, chorava incessantemente.
Entretanto, precisavam de sua mãe e eu não poderia me abalar. Que o luto fosse sentido, era claro; mas era tempo de superá-lo. Por isso, sem dormir, fiz a vigília na capela situada no interior do castelo, alheia às presenças espirituais que me acompanhavam. Cercada por velas e uma escuridão que ameaçava apagar a luz, acostumei-me ao silêncio quando ouvi uma voz:
--Já passou por tantas coisas piores, senhora. Será derrotada desta vez?
Para minha surpresa, diante de mim, via a santa cujo nome batizei minha filha. Gwladys era seu nome e ela havia sido uma rainha de um antigo reino galês, sendo, segundo diziam as histórias, conselheira do rei Arthur. Foi santificada não somente pela pureza do seu coração e seu devotamento à Igreja cristã, mas por seguir fielmente os passos de Cristo e, consequentemente, ter atuado bondosamente sobre o esposo, responsável por convertê-lo a uma vida mais amorosa e menos violenta. Curiosamente, porém, esta santa aparecia vestida nos costumes galeses do século XI e não do tempo em que havia vivido. (Nota de Amadeus: os espíritos bondosos, de luz, preocupam-se em facilitar a transmissão da mensagem para seu médium, ou para aquele diante de quem se apresentarão, tomando, portanto, um aspecto que lhe seja mais familiarizado em termos de estudos, conhecimentos, hábitos, costumes, etc.)
Boquiaberta, sequer consegui responder. Ao seu lado, via o espírito iluminado de meu finado marido e ele transparecia uma paz que aquietou prontamente os gritos surdos de meu coração. Apesar disso, meus olhos choravam. Mas ele sorria, ainda que nada dissesse. A santa pôs-se a prosseguir, porém:
--Sê forte, que o tempo chega. Nada é fácil, mas isso já sabe. Donde repousa seu bravor inquietante?
--Em meus filhos, em meu marido, no amor que nutro por eles--respondi, sem saber, decerto, o que dizia.
Santa Gwladys arqueou as sobrancelhas e disse:
--Já tem a resposta para suas preces. O mundo lá fora é cruel, ensurdece os bons. Não veio acá para se aquietar e contentar com o fácil e o tranquilo. Sabe bem que seu espírito não pediu por isso. Se quer sobrepor sua dor, procure pelo caminho árduo tal qual Maria fez quando depois que Jesus, seu filho, partiu.--e acrescentou--Não quero que sofra, filha, sabe que nem eu, nem aqueles que a protegem se contentam com seu sofrimento. Mas não veio aqui para se esconder, não é mesmo? Levante a cabeça e sê brava. Ou aquele que dizem ser o conquistador a domará para sempre.
Nesse esplendor misterioso, a mensagem foi dada e eu fui relembrada da minha missão. Era hora de resistir, de fato, e sair do conforto da minha posição.
Na verdade, deixando de lado as frases de efeito, o que fiz foi bem simples: eduquei meus filhos. Aliei-me aos vizinhos e exercitei o poder que me cabia enquanto viúva de um poderoso nobre em Powys. Os camponeses se lembravam de minha bondade e tomaram meu lado, e mesmo os aristocratas que um dia desejavam colocar suas filhas ao meu serviço também. Conforme restaurava a coragem que me foi tirada quando os galeses foram derrotados no ano de 1081, exercitava, não sem dificuldade, porém, aquilo que vim a cumprir: a religiosidade, a paciência e, acima de tudo, a penitência.
Afligi-me incontáveis vezes quando o temperamento de Glawdys surgiu descontroladamente em situações complicadas, que não cabem discorrer. E, no entanto, foi pela diplomacia que a fiz ver razão. Dafydd, cuja missão pacífica era similar a minha, a cumpria mais rapidamente que eu. Logo, não havia mais necessidade de prolongar sua encarnação aqui. Assim, sua saúde deteriorava. Como mãe, porém, procurei esforçar-me em cumprir os deveres. Casei-o com a filha de uma amiga a fim de que pudesse assegurar aquelas terras que possuíamos, e logo fiz o mesmo com Glawdys.
Os anos se prolongavam e a derrota galesa era cada vez mais iminente. No ano de 1091, a dominação de William era efetiva. Nunca nos encontramos porque sua preocupação concentrava-se nos campos de batalha e não em lidar burocraticamente com senhoras viúvas.
--Preocupo-me com a senhora--uma vez disse-me minha filha, no ano seguinte. Glawdys surpreendentemente se deu bem com aquele que seria seu primeiro marido, e ambos apreciavam minha companhia. Tal qual Dafydd e sua esposa, vinham me visitar constantemente--Está adoecida e os homens contam que não sai mais de casa.
Quando olhava para Glawdys, sentia tanta alegria por vê-la bem que meus olhos quase lacrimejavam. Havia enfrentado tantos obstáculos em sua infância, o esforço pelo qual passei para que pudesse dar uma educação adequada e cristã a ela... Agora colhia os frutos! Sua natureza indomável suavizou, ela não mais se interessava por espadas, mas pela palavra de Deus. Não era vaidosa, mas simples, e apreciava a companhia dos de bom coração, cercando-se de camponeses e aqueles que conquistava sua presença. Respondia à grosseria dos nobres com simpatia e doçura, mas sabia ser grossa e afiada quando necessário. Sua inteligência a fazia-me lembrar constantemente do pai. A verdade era que meu dever fora cumprido e não havia mais nada ali para mim.
--Não há por que sair--falei, cansada--Tenho tudo o que preciso aqui.
--A senhora amava ver o pôr do sol, caminhar pelos jardins--disse Glawdys, e eu pressenti a ansiedade em sua voz. Embora raramente chorasse, havia outras formas quais se expressavam suas emoções--O que mudou?
--Nada mudou, apenas... prefiro o conforto de minha cama. De um bom vinho. Da capela que tanto me conforta.
Ela sorriu, mas seus lábios tremeluziam.
--A senhora sempre foi simples de espírito--ela comentou, quase como se pensasse consigo mesma.
--E isso é ruim?--eu indaguei, esforçando-me para sorrir.
Notei que Dafydd havia entrado pela porta dos aposentos que um dia foram ocupados pela presença charmosa de Rhys. Pensar nele ainda doía meu coração.
--Não--disse meu filho, e minha mente tão vagarosa se perguntava há quanto tempo ele estava ali--A senhora é como uma santa.
--Eu não mereço tal título--retruquei, embora houvesse divertimento ainda nos meus olhos. Deitada em minha cama, meu corpo parecia pesar.
--A comparação é justa--insistiu Dafydd, tão sereno--Curou tantos doentes, praticou a caridade que Cristo nos ensinou e amou a todos nós--ele fungou, e eu soube que algo estava acontecendo, e foi quando tomei consciência de que eu.... estava morrendo.
--Por que se entristece, meu filho?--ouvi-me perguntar, e já não sentia o peso do meu corpo, mas um incômodo que me dificultava a fala. (Nota de Amadeus: meu perispírito se desprendia com facildiade e aqui o leitor pode notar que, pela primeira vez em muitas encarnações, não sofria um desencarnar violento ou abrupto. Vale acrescentar também que o desapego da carne auxiliou nesse desprendimento, conforme os ensinou Kardec em seus livros dentro da perspectiva espírita).
--A senhora parte, embora sei que a um lugar melhor.
--Não estará sozinho, meu querido--falei, os olhos fechando--Nem você, minha amada filha.
E, como se estivéssemos revivendo uma conversa antiga, ouvi-a dizer:
--Promete que não me abandonará?
--Jamais, Glawdys. Mamãe a amará como sempre a amou por todo o sempre.
--Fui convocado a levar os homens à guerra--comunicou-me Rhys, infeliz, no dia em que, outra vez, seu pajem fora o portador de notícias ruins... ainda que em um momento mais adequado--A resistência aos saxões e seus normandos deve ser feita e o rei precisará de toda a resistência possível.
Senti um aperto no coração e imediatamente tomei como um alerta de Deus para que impedisse sua partida... ou, como mais tarde se provou corretamente, um pressentimento de que algo ruim estava para acontecer.
--Não vá--falei, prontamente--Por favor, Rhys, esta guerra não é sua.
--Não--ele concordou e seu semblante estava repleta de miséria, a ponto que me afetou também. Seríamos separados novamente, eu sentia isso--Não é, de fato, mas meu dever urge-me a cumpri-lo.
Ainda que compreendesse, meus olhos se recusaram a ceder e expressaram a dor que apunhalava meu coração.
--Não me deixe só neste mundo--sussurrei.
Com um sorriso triste em seus lábios, Rhys disse:
--Nunca estará sozinha, meu amor. Não permitirei isso.
E, assim, pela última vez naquele dia--e naquela encarnação--Rhys beijou-me nos lábios e tomou-me em seus braços para amar.
Criar duas crianças enviuvadas não foi fácil, e dizer isso é como constatar o óbvio, apontar para o céu e dizer a um semi-cego a cor azul que não mudava se não pela presença de nuvens passageiras. Não tinha mais damas comigo, pois cada uma delas precisava cumprir seus deveres e não poderia culpá-las por retornar cada uma delas as suas famílias. Os empregados, no entanto, me ajudaram a passar por este período tão turbulento.
--A senhora não deve se contentar com esta infelicidade--disse-me a cozinheira cujo nome era algo parecido com Lyn--As crianças precisam da sua força.
Reconhecendo Deus naquela pessoa, eu logo percebi que não adiantava internalizar a tristeza, chorar quando ninguém via e deixar meus filhos aos cuidados daqueles pobres coitados que, além de cumprirem com seus trabalhos, os educavam. Glawdys estava sendo difícil e mesmo Dafydd, costumeiramente tranquilo, chorava incessantemente.
Entretanto, precisavam de sua mãe e eu não poderia me abalar. Que o luto fosse sentido, era claro; mas era tempo de superá-lo. Por isso, sem dormir, fiz a vigília na capela situada no interior do castelo, alheia às presenças espirituais que me acompanhavam. Cercada por velas e uma escuridão que ameaçava apagar a luz, acostumei-me ao silêncio quando ouvi uma voz:
--Já passou por tantas coisas piores, senhora. Será derrotada desta vez?
Para minha surpresa, diante de mim, via a santa cujo nome batizei minha filha. Gwladys era seu nome e ela havia sido uma rainha de um antigo reino galês, sendo, segundo diziam as histórias, conselheira do rei Arthur. Foi santificada não somente pela pureza do seu coração e seu devotamento à Igreja cristã, mas por seguir fielmente os passos de Cristo e, consequentemente, ter atuado bondosamente sobre o esposo, responsável por convertê-lo a uma vida mais amorosa e menos violenta. Curiosamente, porém, esta santa aparecia vestida nos costumes galeses do século XI e não do tempo em que havia vivido. (Nota de Amadeus: os espíritos bondosos, de luz, preocupam-se em facilitar a transmissão da mensagem para seu médium, ou para aquele diante de quem se apresentarão, tomando, portanto, um aspecto que lhe seja mais familiarizado em termos de estudos, conhecimentos, hábitos, costumes, etc.)
Boquiaberta, sequer consegui responder. Ao seu lado, via o espírito iluminado de meu finado marido e ele transparecia uma paz que aquietou prontamente os gritos surdos de meu coração. Apesar disso, meus olhos choravam. Mas ele sorria, ainda que nada dissesse. A santa pôs-se a prosseguir, porém:
--Sê forte, que o tempo chega. Nada é fácil, mas isso já sabe. Donde repousa seu bravor inquietante?
--Em meus filhos, em meu marido, no amor que nutro por eles--respondi, sem saber, decerto, o que dizia.
Santa Gwladys arqueou as sobrancelhas e disse:
--Já tem a resposta para suas preces. O mundo lá fora é cruel, ensurdece os bons. Não veio acá para se aquietar e contentar com o fácil e o tranquilo. Sabe bem que seu espírito não pediu por isso. Se quer sobrepor sua dor, procure pelo caminho árduo tal qual Maria fez quando depois que Jesus, seu filho, partiu.--e acrescentou--Não quero que sofra, filha, sabe que nem eu, nem aqueles que a protegem se contentam com seu sofrimento. Mas não veio aqui para se esconder, não é mesmo? Levante a cabeça e sê brava. Ou aquele que dizem ser o conquistador a domará para sempre.
Nesse esplendor misterioso, a mensagem foi dada e eu fui relembrada da minha missão. Era hora de resistir, de fato, e sair do conforto da minha posição.
Na verdade, deixando de lado as frases de efeito, o que fiz foi bem simples: eduquei meus filhos. Aliei-me aos vizinhos e exercitei o poder que me cabia enquanto viúva de um poderoso nobre em Powys. Os camponeses se lembravam de minha bondade e tomaram meu lado, e mesmo os aristocratas que um dia desejavam colocar suas filhas ao meu serviço também. Conforme restaurava a coragem que me foi tirada quando os galeses foram derrotados no ano de 1081, exercitava, não sem dificuldade, porém, aquilo que vim a cumprir: a religiosidade, a paciência e, acima de tudo, a penitência.
Afligi-me incontáveis vezes quando o temperamento de Glawdys surgiu descontroladamente em situações complicadas, que não cabem discorrer. E, no entanto, foi pela diplomacia que a fiz ver razão. Dafydd, cuja missão pacífica era similar a minha, a cumpria mais rapidamente que eu. Logo, não havia mais necessidade de prolongar sua encarnação aqui. Assim, sua saúde deteriorava. Como mãe, porém, procurei esforçar-me em cumprir os deveres. Casei-o com a filha de uma amiga a fim de que pudesse assegurar aquelas terras que possuíamos, e logo fiz o mesmo com Glawdys.
Os anos se prolongavam e a derrota galesa era cada vez mais iminente. No ano de 1091, a dominação de William era efetiva. Nunca nos encontramos porque sua preocupação concentrava-se nos campos de batalha e não em lidar burocraticamente com senhoras viúvas.
--Preocupo-me com a senhora--uma vez disse-me minha filha, no ano seguinte. Glawdys surpreendentemente se deu bem com aquele que seria seu primeiro marido, e ambos apreciavam minha companhia. Tal qual Dafydd e sua esposa, vinham me visitar constantemente--Está adoecida e os homens contam que não sai mais de casa.
Quando olhava para Glawdys, sentia tanta alegria por vê-la bem que meus olhos quase lacrimejavam. Havia enfrentado tantos obstáculos em sua infância, o esforço pelo qual passei para que pudesse dar uma educação adequada e cristã a ela... Agora colhia os frutos! Sua natureza indomável suavizou, ela não mais se interessava por espadas, mas pela palavra de Deus. Não era vaidosa, mas simples, e apreciava a companhia dos de bom coração, cercando-se de camponeses e aqueles que conquistava sua presença. Respondia à grosseria dos nobres com simpatia e doçura, mas sabia ser grossa e afiada quando necessário. Sua inteligência a fazia-me lembrar constantemente do pai. A verdade era que meu dever fora cumprido e não havia mais nada ali para mim.
--Não há por que sair--falei, cansada--Tenho tudo o que preciso aqui.
--A senhora amava ver o pôr do sol, caminhar pelos jardins--disse Glawdys, e eu pressenti a ansiedade em sua voz. Embora raramente chorasse, havia outras formas quais se expressavam suas emoções--O que mudou?
--Nada mudou, apenas... prefiro o conforto de minha cama. De um bom vinho. Da capela que tanto me conforta.
Ela sorriu, mas seus lábios tremeluziam.
--A senhora sempre foi simples de espírito--ela comentou, quase como se pensasse consigo mesma.
--E isso é ruim?--eu indaguei, esforçando-me para sorrir.
Notei que Dafydd havia entrado pela porta dos aposentos que um dia foram ocupados pela presença charmosa de Rhys. Pensar nele ainda doía meu coração.
--Não--disse meu filho, e minha mente tão vagarosa se perguntava há quanto tempo ele estava ali--A senhora é como uma santa.
--Eu não mereço tal título--retruquei, embora houvesse divertimento ainda nos meus olhos. Deitada em minha cama, meu corpo parecia pesar.
--A comparação é justa--insistiu Dafydd, tão sereno--Curou tantos doentes, praticou a caridade que Cristo nos ensinou e amou a todos nós--ele fungou, e eu soube que algo estava acontecendo, e foi quando tomei consciência de que eu.... estava morrendo.
--Por que se entristece, meu filho?--ouvi-me perguntar, e já não sentia o peso do meu corpo, mas um incômodo que me dificultava a fala. (Nota de Amadeus: meu perispírito se desprendia com facildiade e aqui o leitor pode notar que, pela primeira vez em muitas encarnações, não sofria um desencarnar violento ou abrupto. Vale acrescentar também que o desapego da carne auxiliou nesse desprendimento, conforme os ensinou Kardec em seus livros dentro da perspectiva espírita).
--A senhora parte, embora sei que a um lugar melhor.
--Não estará sozinho, meu querido--falei, os olhos fechando--Nem você, minha amada filha.
E, como se estivéssemos revivendo uma conversa antiga, ouvi-a dizer:
--Promete que não me abandonará?
--Jamais, Glawdys. Mamãe a amará como sempre a amou por todo o sempre.
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