Voz. Finalmente me concedem uma para que pudesse enfim ser ouvida depois de todo esse tempo. Na impaciência diante do desconhecido, aprendi a aguardar, a saber esperar. E aqui estou, pertinentemente nestes dia e espaço a contar, a compartilhar o que me foi ensinado. Algo a se pensar, decerto.
Me chamo Marie-Françoise e nasci em uma época diferente, recentemente contemplada com uma visão paradoxal pelos que vivem no presente. Suponho que o passado possa assim parecer para os que não o viveram. A França do século XVIII estava em ebulição e muitos de nós ignoravam isso por usufruir dos bens materiais. Versalhes era o centro do mundo em todo seu esplendor e todos queriam viver naquele palácio construído pelo grande rei Louis XIV. Quem não gostaria de conhecê-lo? Os que outrora criticavam aquela arquitetura grandiosa eram, na verdade, invejosos que não tiveram a chance de habitá-la. No entanto, em retrospecto, talvez não estivessem tão errados assim. Vejam, a ambição é um instrumento norteador que pode ser usado tanto para o bem quanto para o mal. À época, pendia muitas vezes para este último.
Eu não era exceção, Deus sabe muito bem o quanto errei, mas não me arrependo, porém: o que seria de nós sem nossos erros? Permitam-me, porém, que eu me expresse. Esperei por tanto tempo para que me dessem ouvidos e a oportunidade não pode ser desperdiçada. Especialmente no dia de hoje, da Paixão de Cristo. Essa estória não consta nos livros de História, nem nos documentos para ela forjados, pois nem mesmo esta poderia dar conta de contemplar todos os que viveram por trás dos panos dourados de Versalhes.
Mas, sim, eu vivi lá. Vim de uma família decadente, se assim poderia qualificá-la. Para os padrões da época, entretanto, era assim que enxergavam aqueles que não ocupavam um lugar significativo nos favores do rei. Qual era a diferença que restava entre os pobres e a nós? O desdém dos altos era evidente. E como se apegavam a isso, a essa mesquinhez absurda!
Apesar disso, descendia dos grandes nobres de outrora. Minha ancestralidade me levava às poderosas famílias medievais. Certamente, devem conhecer -ou ouvido falar- sobre a dinastia Valois. Seu fundador fora meu tataravô. Mas a dinastia naquele momento era outra, embora todos nós compartilhássemos de seu sangue. Os Bourbons eram orgulhosos de seu passado, presente e almejavam a alavancar um grande futuro. Mas um pessimista, se tivesse a ele sido dado o dom do futuro, preveria o grande desastre para aquela família que se iniciou a partir de uma tragédia. O que começava com sangue, terminaria com sangue.
Bem, eu não pensava em nada disso, é claro. Gostaria apenas de fazer parte do círculo dos aristocratas que viviam a vida intensamente em Versalhes. Fui educada para ser a esposa de alguém importante, e herdei da minha mãe o orgulho da família. Era bonita, tinha uma pele de porcelana, rosto oval com traços delicados: meus olhos eram de um azul esverdeado, minhas sobrancelhas eram bem-feitas e arqueadas, possuía um nariz longo e delicado e lábios levemente carnudos. Meus cabelos eram de cor palha e viviam presos em uma trança. Meu corpo era também esbelto: os vestidos de manga curta que me punham para usar destacavam minhas curvas, e o espartilho era dolorosamente delicioso de usar. Como era a única filha deste gênero--possuía um irmão mais velho e já casado--minha mãe queria que eu me casasse logo. Meu pai, à época vivo, planejou para que eu entrasse na corte de Versalhes. Com seus contatos, isso logo seria realizado. Assim, todas as esperanças para uma ascensão foram depositados na minha pessoa.
Haviam me alertado, porém, para os vícios de um lugar como aquele: fornicações, bebedeiras, desvios de conduta... Pecados que me condenariam se não soubesse me portar. Arrogante, eu me via acima de tais pecadores, e admirava minha religiosidade. Na verdade, era nada além de orgulhosa e vaidosa. Já havia muito me condenado a uma espécie de inferno e eu sequer sabia.
"O rei tolera aqueles comportamentos viciosos porque necessita daqueles irresponsáveis", disse-me o pai. "Não permita que eles a corrompam, Marie. Pelo amor que tem a sua família, sua reputação depende disso."
Mas minha mãe me treinara bem para o papel que viria desempenhar. Concordei e prometi, tão dócil quanto submissa que era, a agir dentro dos nossos princípios. Contudo, cada dia a mais que se aproximava da minha partida, era difícil não sentir a excitação correr nas minhas veias e torcer para ser admirada e amada.
E eis que minha apresentação à corte chegou. Meus pais levaram-me em uma dessas carruagens à la Cinderella e conduziram-se escadas acima. Havíamos atravessado até então o interior de Versalhes, e via com animação os jardins e enormes lagos que, eu pensava, logo, logo passaria a caminhar ao seu redor. E agora, entre eles, subia rumo à entrada do palácio. Vários homens e mulheres em seus melhores trajes passavam por nós. Os cortesões mais acostumados à etiqueta miravam a todos nós com um misto de arrogância, prepotência e curiosidade. Alguns deles usavam uma peruca branca, mas as senhoras exibiam penteados estonteantes... Nada comparados, porém, ao que a futura rainha Marie Antoinette usaria.
"Você está linda." Minha mãe disse, sorridente, e eu corei. Ela raramente me dirigia elogios e quando o fazia, meu coração se derramava em puro deleite. Ainda que naqueles tempos as leis terrenas exercessem uma coerção fortíssima sobre as relações parentais --quando não sociais--, elas não impediam que a afetuosidade fosse demonstrada, por mais raro que fosse entre as grandes casas aristocráticas. "Será objeto de poetas, tenho certeza. Sua beleza será lembrada, contemplada e admirada. Logo arranjará um marido decente."
Eu sorri animadamente quanto a isso: acreditava piamente nas palavras de mamãe, pois ela as pronunciava como se fizesse uma anunciação. Logo, adentrava no Palácio de Versalhes e, naquele cenário, mal conseguia acreditar que finalmente estava ali!
Observei minha mãe cumprimentar um ou outro conhecido, meu pai também fazia o mesmo, mas não me escapou a atenção que éramos recebidos com pouco entusiasmo. Isso me deixou um pouco apreensiva, confesso, mas, de todo o modo, precisávamos nos apresentar ao rei e à rainha. E, logo, estávamos diante deles, sentados em seus tronos dourados e nos contemplando com frieza distanciada.
Surpreendentemente, foi uma bela moça chamada Madame de Pompadour que nos apresentou as Suas Majestades, os grandes soberanos da França. Louis XV me fitou com um leve interesse que levou minhas bochechas a ruborizar, e sua consorte, Marie da Polônia, parecia cansada demais para se importar com mais uma cortesã em sua corte.
"Bem-vinda, mademoiselle Marie-Françoise", proclamou o rei, antes de dispensar-me.
Agradeci e minha mãe, deixando meu pai a conversar seus assuntos com alguns dos nobres presentes, me conduziu pelo resto do salão, apresentando-me aqui e lá para rostos estranhos cujos nomes e sobrenomes não gravaria naquela noite. Em todo lugar, deparava-me com elegância, formalidades e orgulhos estampados em cada face, cada olhar... Não demorei a me deslumbrar com tudo aquilo. Em meu íntimo, fazia uma prece a Deus, acreditando que estava onde deveria estar. Mas a verdade é que a materialidade que aquele lugar me proporcionava... logo me cegaria, se já não estava me cegando. Na vida, nós temos caminhos oferecidos que podemos optar. Escolhi o mais fácil, o mais fútil, e logo pagaria por isso.
Apesar disso, devem saber que, mesmo hoje, nem tudo é no preto e no branco. Não se convive apenas com a escuridão se souber onde achar a luz. E mesmo aquele sendo o primeiro dia, posso arriscar a dizer que encontrei a minha. Quando nossos olhares se cruzaram, meu coração disparou, um arrepio percorreu minha espinha e eu soube, de alguma maneira, que era ele. Meu salvador. O amor de outras vidas. Um reencontro, de fato.
Seu nome era Johann Louis Philippe. Era um conde, mas não foi o título que me impressionou e sim, sua aparência. Era alto, esbelto e elegante. Suas feições indicavam traços incomumente franceses, o que me levou a indagar se era francês de alguma maneira. Descobriria que não, era alemão. Usava uniforme de militar, o que indicava o cargo que ocupava no exército. Seus olhos eram acinzentados como uma tempestade, o nariz era longo e longe de ser delicado e os lábios eram vermelhos. As bochechas eram coradas, eu também observei. E muitas o admiravam, aquele homem de cabelos negros e curtos. Mas ele vinha em minha direção.
"Senhoras." Ele cumprimentou a minha mãe e, em seguida, a mim, embora seu olhar não houvesse se desgrudado do meu. "Vejo que são novas aqui."
"Decerto somos, senhor...?"
"Johann Louis, mas podem me chamar pelo primeiro nome." Assim determinou o conde germânico com seu sorriso polido e maneiras afetuosas. Minha mãe também gostou dele e pôs a me apresentar àquele homem:
"Monsieur Johann, esta é minha filha mais nova, minha única menina: Marie-Françoise. Foi recém apresentada as Suas Majestades, que tão bondosamente concederam que ela aqui permanecesse."
Ele me fitou longamente e eu senti o sangue correr para minhas bochechas. Pouco me importava que ruborizava, mas senti um desejo... não exatamente de quê, mas de tê-lo comigo. A atração era forte demais para ser negada.
"Fico feliz em saber, madame. Posso ter a honra em conduzi-la para um passeio pelos jardins? Senhora, asseguro-lhe de que nenhum mal acontecerá. Há muitos lá fora."
Suas palavras soavam tão honrosas e promissoras. Conquistou-me tão fácil quanto havia conquistado minha mãe que, ansiosa em arranjar um pretendente para mim, logo concedeu. E, assim, demos início a um passeio longe dos olhares curiosos da corte.
Quando tomei uma mão ao redor de seu braço, mal poderia acreditar na sorte que tinha. A felicidade me deixava radiante e isso não escapou aos olhos dele, tão atentos, tão doces..
"É muito bonita, mademoiselle, se me permite dizer." Ele começou."Explica por que não a vira antes. Escondia essa beleza de mim?"
Eu ri. Não sabia flertar, era tudo tão diferente daquilo que conhecia pelos livros de romance que lia escondido da mãe.
"Creio que esperava pelo momento certo para que nos conhecêssemos, senhor." Foi o que eu disse, e senti que mesmo tendo escolhido cuidadosamente as palavras, soavam verdadeiras, como se sopradas de um espírito para o outro. Como se já eram esperadas, e um dia houvessem sido pronunciadas em variados (re)encontros.
O conde me sorriu. Ele sentia o mesmo que eu, via pelo seu semblante.
"Não está errada em sua assunção", disse ele. "Estou aqui há alguns meses e a corte vem me entendiando desde então."
"Oh." Não conseguia conceber a ideia de Versalhes entendiar alguém. "Por que?"
Estudando minha expressão, ele riu e explicou:
"Sei que deve tomar-me como louco. Mas isso que vê, Marie, é feito de aparências. A riqueza é exibida com excessiva ostentação para cobrir os defeitos da carne. Rostos com os quais um dia me familiarizei desapareceram e foram substituídos por novos, e sabe por que? Quando a riqueza não é gasta e transformada em dívidas irrecuperáveis, a podridão deixa a transparecer."
Tola como era, não compreendi aviso que ele me dava. Na verdade, achava suas palavras exageradas. Talvez, ele estivesse falando daquela forma por ser Protestante.
"Bom, é querer demais encontrar perfeição em um lugar como esse", disse eu. "Mas não dá para negar que é um lugar demasiado belo. Ouvi dizer que o rei inglês está construindo um palácio também, na tentativa de ficar à altura de Versalhes."
Como era infantil, eu logo pensei quando vi que minhas palavras não haviam atingido o Conde da maneira que esperava. Possuía, à época, não mais que 15 anos. Aquele comportamento meu não diferia muito das moças de minha idade, não que isso de forma alguma justifique meus erros, mas... Para uma maturidade ser atingida, é preciso passar pela infantilidade.
"De todo o modo", eu me apressei a investir mais na conversa, visto que seu silêncio introspectivo me incomodava. Precisava arrumar um marido e temia que minha mãe me repreendesse caso falhasse na tarefa."Como o senhor veio parar aqui? Seu sotaque é um indicativo de que não é francês."
Ele riu. E parecia mais confortável com minha presença. Seus olhos refletiam o riso e eu gostei de como eles me fitavam, por isso sorri tão alegremente quanto podia.
"Vim de uma região do Palatinado da Germânia." Explicou-me. "Por motivos políticos, fui enviado à corte francesa e aqui estou desde então. Soube que o herdeiro desposará uma das filhas da Imperatriz Maria Theresa?"
Desconhecia a política, e nunca me importei realmente com ela, mas o fato de presenciar aquele momento histórico me deixava ansiosa. E deslumbrada.
"Céus, não sabia. E o senhor se encarregará de tomar conta dela?"
Ele sacudiu a cabeça, limitando-se a explicar seus deveres eram outros. Continuamos a caminhar, e sua presença era tão estonteante que esqueci-me de Marie Antoinette, o Dalphim Louis, e todos os outros da realeza e nobreza. Preocupava-me mais com ele, e suas atenções a mim dirigidas. Enfim, entramos de volta ao grande salão de Versalhes.
"A senhorita dança?" Perguntou-me o conde com um sorriso encantador.
"Danço." Respondi com o mesmo sorriso.
Ele tomou-me a mão e, de repente, estávamos dançando. Bailávamos elegante e graciosamente diante de todos os olhares. Éramos o centro das atenções de muitos cortesões e cortesãs. Rejubilava-me saber disso. A atenção, a admiração... Será que a profecia da minha mãe se concretizaria? Mas, mais ainda, era como o germânico nobre me olhava. Vi algo a mais que desejo, mas não saberia dizer o que era, exceto que fazia o meu coração pular.
O cortejo funcionava de uma forma mais delicada, devo dizer. Havia uma série de regras que tolhiam o comportamento dos pares, embora fosse mais coercivo sobre as damas do que os cavalheiros. Apesar disso, conforme os dias passavam e eu me acostumava com a rotina de Versalhes, mais eu me inseria entre os cortesões. Aprendi a flertar e comecei a desfrutar de uma liberdade que, antes, não tinha.
Sim, admito que flertava com outros, mas meu coração pertencia a apenas uma pessoa. Desde aquele primeiro momento, eu era dele. E ele era meu. Todavia, só perceberia tarde demais que não estávamos destinados a ficar juntos.
"Partirei da França em breve", contou-me Johann. "O Palatinado precisa de mim. Creio que minhas funções aqui se cumpriram, minha missão terminou."
Admito que havia me acostumado, até então, a ter tudo o que eu queria. Já colecionava admiradores, era musa de alguns poetas, e celebrava a vida sem, contudo, compreender seu verdadeiro significado. A verdade era dura: eu havia sido corrompida. Talvez fosse por isso que ele partia. Mas estava cega ainda pela vaidade que, como um véu, mascarava meus olhos para a realidade.
"Por que?" E eu, tão descuidada como era com ações quanto com palavras, soltei a língua: "Achei que fôssemos nos casar."
Ele riu uma risada sem humor, mas que, por outro lado, me machucou. Suas palavras logo removeriam aquele véu dos meus olhos, mas a que custo?
"Não poderia desposá-la mesmo que quisesse. Acha que sou um brinquedo em suas mãos, Marie? A princípio, considerei levá-la comigo, mas veja seu comportamento."
O orgulho, como veneno, atua sobre nós de tal maneira que nos impede de reconhecer suas falhas. Ou, pior, de admiti-las. Contestei-o.
"Não sou tão diferente das outras daqui."
Em seus olhos havia uma tristeza tão perceptível que logo tomei consciência do que havia dito. Pior, do que havia feito.
"Perdoe-me." Falei. A vida me curvava, me cobrava e não havia nada que pudesse fazer. A contragosto, aceitava a queda. "Não tive a intenção de ser orgulhosa, de ser maldosa. Fui egoísta, cínica... Tornei-me aquilo que detestava e..."
Ele me interrompeu.
"Você não se tornou aquilo que detestava, madame. Apenas permitiu aquilo que já era parte de si. Vejo que não soube interpretar as minhas palavras desde o início. Quando falei da riqueza, da podridão da carne... Falei em parábolas quanto literais. Eu a admirei porque via a luz que emanava quando estávamos juntos, porém... Com qual frequência você escolhe a escuridão para ser algo que não é? Perdoe-me se soo austero demais ou Protestante demais para você." Johann deu de ombros, e cada palavra sua doía-me ouvir... porque ele estava correto em tais observações. "A conduta diz mais do caráter do que palavras. Não posso ter uma esposa assim. E dou graças a Deus por não ser importante o suficiente para ter a necessidade de fazer alianças. Espero que fique bem, de verdade."
E, como um último ato de carinho, levantou-me o queixo e disse, olhando dentro dos meus olhos:
"Eu sei que me ama tanto quanto a amo, mas precisamos seguir caminhos diferentes por ora. Espero que saia de onde entrou, você é mais que isso."
Senti-me como se estivesse abandonada, relegada a escuridão. No crepúsculo do amor, fui deixada, e percebi o quanto submergi aos vícios, quão longe fui corrompida para me ofuscar em um eclipse atípico.
Era adorada entre alguns cortesões aqui e acolá, estava a fazer parte do círculo intimo da futura rainha da França, mas nada disso me arrancava suspiros à noite. Eu tinha tudo, era verdade: possuía riquezas, atraía pretendentes, elevei minha família do cargo da obscuridade para os favores régios. Mas o eclipse permanecia.
E eu não aceitava. Permaneci vivendo intensamente, correndo pelas bordas dos lagos, dançando sob a luz do luar, bebericando do champagne servido, embebendo-me de vinho e servindo-me de doces. Flertava descaradamente e quase cedia por completo às tentações da carne. Ocultei crimes de adultério, protegi minhas amigas de coisas até piores. Mas tudo isso só me levava a devassidão que cobria falsamente o vazio por dentro.
Os anos se passavam, o Dauphim e a Dauphina tornaram-se os novos soberanos da França. Foram recebidos entusiasticamente, é verdade, mas as aparências nunca duram. Eu aprendia isso a duras contas. Até que um dia a rainha Marie me encontrou aos prantos, logo após o final da missa.
"O que aconteceu com você, bela Françoise?"
Rapidamente, procurei me conter e me adequar ao protocolo, mas ela era tão bondosa que me impediu que o materialismo da situação atrapalhasse a nós.
"Não, por favor. Apenas converse comigo. Você está sozinha, eu sinto isso." Disse-me ela em seu francês desajeitado.
E eu contei absolutamente tudo. A verdade era que o remorso vinha me impedindo de avançar na vida porque não perdoava a mim mesma pelos erros cometidos. Maculei meus princípios, desnorteei-me do propósito real pelo qual vim à corte, e colecionava mais arrependimentos do que poderia contar.
"Não soube lidar com as consequências das minhas ações", eu via com clareza e precisava ouvir a mim mesma dizer. "Enterrei-me em energias que não me pertencem. Permiti ser eclipsada porque o deixei ir."
E admiti que havia perdido quem eu há tanto tempo amei. A rainha se compadeceu da minha dor e pediu que eu me confessasse, porque tinha a certeza de que Deus já havia me perdoado.
"Você precisa perdoar a si mesma." Ela havia me ensinado, e aquela mulher era possuidora de tanta sabedoria... Quão injusto é saber do que fizeram com ela, mas há provações, por mais duras que possam ser, que visam sempre ao nosso melhoramento."Dessa forma, aprenderá com os erros. Poderá seguir em frente ou permanecer presa a isso. A escolha é sua."
E quando comecei a trabalhar isso, por mais devagar que fosse, a vida me presentou com a vinda dele. Acompanhando o irmão da rainha em uma visita não-oficial, Johann me visitou. E havia algo de surpresa em seus olhos ao me fitarem que, como tanto tempo antes, me deixaram ruborizada.
"Você mudou." Ele constatou na primeira oportunidade que tivemos à sós.
"O eclipse se foi." Eu disse, incerta quanto a veracidade daquelas palavras. Mas o primeiro passo foi dado, eu disso sabia. E me preparava cada vez mais para a lei do retorno que seria aplicada a mim com o intuito de melhorar-me mais ainda.
"Percebo isso. Sempre soube que um dia a luz se sobressairia a escuridão, trazendo-a de novo para o equilíbrio." Disse-me ele, acariciando meu rosto. "Nunca desisti de você."
De alguma forma, meu coração soube disso e eu me inclinei para perto dele.
"Eu o amo, Johann. Sempre o amei."
E foi assim que tudo pareceu se acertar. Um beijo que selava velhas promessas, que mudava destinos... ou apenas acertasse-os para o caminho que deveríamos seguir. Juntos. Um beijo que levava a outro, e enfim... A proposta.
Aos vinte e cinco anos, casei. Tornei-me condessa, enfim. Versalhes celebrou a união, embora discretamente porque pedi a rainha que não tivesse tantas pompas. Deixei seu serviço, mas em breve retornaria por outros motivos.
No Palatinado, criei outra vida. Conheci a verdadeira felicidade, longe da materialidade inútil, da futilidade e dos vícios corruptíveis. Ao lado de Johann, amei com a verdadeira intensidade do meu ser. Ele me ensinou a me perdoar, um exercício difícil de amor próprio.
"Nem sempre nossas condutas serão louváveis", ele me dissera uma vez. "Mas tudo leva a um aprendizado. Espere e veja. E se perdoe, porque os erros nos levam a sabedoria."
Amor próprio era difícil, de fato. Aprender que seus defeitos são necessários para o aprimoramento das qualidades em um contexto em que isso sequer era pensado ou valorizado. O comportamento piedoso estava maculado com hipocrisias toleradas pela corrupção, motivada pelo apego material. Mas desprender-me disso veio não apenas com o amor, com as lições, mas com as perdas também.
Sofri três abortos, um dos quais quase pôs minha vida em risco. Dei à luz a gêmeos, mas eles nasceram mortos. Por fim, dei a luz a uma menina, Henrietta, que veio com uma deficiência nos olhos. Mas, com toda a paciência, amei-a e eduquei-a bem ao lado de Johann. Um herdeiro veio em seguida, Joseph foi seu nome. E, no entanto, nenhum dos dois sobreviveria à infância. Tive de me perdoar por isso também.
Johann, em sua sabedoria, sofreu menos pela fé que tinha de reencontrá-los. Tudo era um aprendizado, ele dizia, e tinha razão como viria a descobrir mais tarde. Mas ele também veio a falecer. E foi um golpe. Pois me achava sozinha e não sabia o que fazer. Foi um teste absolutamente difícil e pensei ter perdido minha fé.
Por quarenta dias e quarenta noites, negligenciei-me. Que a morte me levasse, bradava em minha solidão. Não havia esperança para que me limpasse dos meus pecados por maiores que fossem meus esforços. No entanto, encontrei-me na paz de Cristo. Ironicamente, quando voltei a Versalhes. As missas voltaram a ter sentido para mim, e a minha maneira fui leal aos meus soberanos, distanciando-me, porém, das festividades.
Pensei, eventualmente, em tornar-me freira e fazer algo útil. Mas, quando essa ideia me veio a tona, quando pensei ter aprendido e sucedido-me a tais tragédias, a Revolução explodiu. E, em meio a tudo isso, fui silenciada. Esquecida. Não porque esperava alguma recompensação, mas porque não havia espaço para mim. Acusações fizeram história e macularam reputações de pessoas que eram apenas seres humanos. Falíveis, de fato; imperfeitas, certamente, mas não eram nada do que pintaram delas.
O falso mundo desabou e não poderia ter sido feito de outra forma. Aparências e essências diferem, mas enquanto a última permanece, a outra desmorona quando persistimos no erro. A violência, talvez nunca a tivesse aceitado realmente, me impediu de falar. De contar, de ensinar. No entanto, veio para me ensinar. E é através dessas palavras que volto a falar, a proferir, a cantar com elas. A jubilar-me na ressurreição de Cristo.
A morte não é o fim. É o caminho para a paz, se assim desejar, como também o instrumento que nos limpa de todos os pecados. Ser o cordeiro não o isenta de perder-se entre os lobos, mas a verdade é que eventualmente encontramo-nos enfim. Somos guiados, jamais sozinhos. Sofremos, jamais sozinhos. Alegramo-nos, jamais sozinhos.
É nessa Paixão que refiro-me a todo o aprendizado, pois cabe aqui palavras a serem escritas e aprendidas. Se hoje estou com a família novamente, é pela fé, pela esperança que me trouxe. Afinal, não é verdade quando dizemos que o amor de Cristo nos uniu?
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