Por volta do ano de 467 A.C, em uma província próxima à pólis de Atenas, nascia o segundo menino de oito crianças de uma família de mercadores. O pai, um homem chamado Théos, preocupava-se com a quantidade de filhos que tinha, afinal, o que fazer com todos eles? Se dependesse dele, um casal de rebentos já seria o suficiente, mas seus deveres como esposo não impediram o nascimento de mais seis. O primogênito, Achilleus, já dava por todos: era inteligente, belo e sagaz. Estava ciente dos negócios que herdaria após a morte do patriarca, e, desde a tenra idade, detinha uma boa noção de aritmética, economia e lógica. Era um excelente rapaz e Theós arriscava-se a dizer que, se fossem mais aristocráticos, o menino poderia tentar um cargo de filósofo em Atenas. No entanto, não era assim que ditavam as vontades dos deuses.
Em 467, Achilleus tinha treze anos e passava muito tempo com o pai enquanto a mãe, Agalaia, e suas senhoras bordavam e educavam suas irmãs, ao menos até o nascimento de Ikarus. Quando ele nasceu, Agalaia exclamou:
--Por fim, mais um menino! Os deuses nos abençoaram!
Rapidamente, em dois pequenos templos dedicados às deusas Hera e Ártemis, puseram oferendas em agradecimento. A princípio, viram o nascimento de Ikarus como uma sorte lançada ao destino. No entanto, conforme crescia e casavam-se as irmãs, pairava a pergunta: o que fazer com ele?
Ikarus não tinha o mesmo desenvolvimento intelectual que seu irmão, Achilleus. Mesmo tendo sido agraciado com uma beleza bastante estonteante, recebendo, ainda na infância, diversas comparações com o deus Apolo, suas inclinações não o levariam, muito para a frustração de Théos e Agalaia, a uma carreira política. Ainda aos dez anos, Ikarus já era alto para a idade, saudável e belo; seus cabelos eram cacheados e dourados, a pele era morena e quase brilhava ao sol. Seus olhos, intensos e curiosos, eram quase bicolores: à luz do dia, o castanho mel virava verde. Tinha uma excelente lábia quando fazia leitura de poesia e sua personalidade extrovertida decerto chamava atenção. A popularidade do irmão caçula exercia uma inveja em Achilleus, cuja seriedade herdada do lado paterno não garantia carisma suficiente que o beneficiasse em relação aos negócios.
Théos, depois de muito ponderar a respeito do destino de Ikarus, resolveu fazer um teste e trouxe de Esparta alguns homens que, tendo servido bem ao rei Leônidas, foram pagos para treinar o menino.
--Não sei se ele possui qualquer aptidão para a coisa--confessou Theós--No entanto, Agalaia insistiu para que direcionasse esse acúmulo de energia para algum fim.
A ideia, na verdade, se deu a partir da sugestão feita por Achilleus, que estava ansioso em se livrar de um potencial rival, muito embora Ikarus fosse apenas um menino. Os dois espartanos, achando divertido por certo a missão que lhes havia sido dada, decidiram, portanto, ensinar as artes militares ao rapaz. E quão surpresos ficaram quando perceberam que encontraram ouro em palha!
Ikarus era veloz, forte e era muito inteligente. Se havia alguma distração que o levava ao chão, tal falha não era se não comum à idade, algo que poderia ser consertado. Ao contrário de todas as lições pelas quais os tutores do primogênito daquela família tinha incansavelmente tentado aplicar para dominar a personalidade forte de Ikarus, esta explodia e era bem recebida quando as armas chegavam às suas mãos. Ele era incansável! Corria, pulava corda, sabia manejar espadas de pau, era ágil e hábil. Um talento natural.
Quanto a Ikarus, a sensação era a de que havia encontrado sua vocação. Uma habilidade que não seria alvo de comparações com Achilleus. Uma destreza que este não possuiria jamais, disso tinha certeza. O que mais o preocupava, contudo, eram as expectativas que seu pai projetava em si. Será que algum dia o deixaria orgulhoso? Naquela tarde, esquivou-se para ouvir sobre o que os espartanos conversavam com seus pais e a perplexidade no tom de voz de Théos o deixou um pouco decepcionado:
--Mas... Mas tem certeza mesmo de que vêem isso tudo nele? Não há nada de prestigioso naquele menino!
--Não fale assim de Ikarus, Théos--ralhou a esposa, sem medo de ser repreendida--Sempre soube que Ikarus era diferente. O que meu marido tentou dizer é que esperávamos uma vida menos turbulenta para nosso filho já que Achilleus não pode ser filósofo.
--Senhora, com todo o respeito--o espartano chamado Dionísio aproximou-se para falar--Há vida mais gloriosa que aquela nas batalhas? Ikarus não nasceu para a prática do intelecto. Ah, se ele houvesse nascido em Esparta! Nosso rei o aceitaria de bom grado.
Théos encarou aquele moreno alto, musculoso e de feições pouco atraentes, com desconfiança. Por se considerar mais ateniense que outra coisa, não confiava nos espartanos. Mas era a vontade dos deuses, e ele não pôde deixar de se perguntar se Ikarus era o escolhido de Ares.
--Se é assim... Confio-o em suas mãos?
--Em segurança, senhor, sim. Não há mãos melhores que poderia confiar seu filho a nós.
--É Ares chamando-o, senhor Theós, e não devemos negar seu chamado--acrescentou o segundo espartano de nome Damastor.
No dia da despedida, a mãe não pôde se não chorar, como era esperado que as mulheres de sua estação o fizessem. Contudo, Agalaia havia se apegado ao filho alegre que tanto buscava lhe agradar. Como viver sem ele agora?
--Senhora mãe, serei o melhor dos melhores--disse Ikarus, batendo no peito, depois de ter se despedido do pai e do irmão--Não haverá outra razão se não o orgulho para que pranteie minha ida. Isso, à senhora prometo. Louros chegarão a vós, pois sou um instrumento dos deuses e usufruirei disso para trazer a esta família a glória concedida.
As palavras, ditas por um menino de dez anos, emocionaram os presentes, embora aprofundasse o ressentimento e a inveja em Achilleus. Afinal, se ele era perfeito, a glória não estava com ele? O sucesso não estava com ele? Infelizmente, caros leitores, a cobiça fecha os olhos dos portadores de dons, cegando-os para o presente a eles dados.
Com isso, Ikarus partiu e Theós, mais tarde, carregaria o peso da consciência em ter desprezado um menino que tanta alegria trazia à casa. A estrada era longa, mas Ikarus não se importava. Tagarelava com aqueles estranhos tutores como se fossem amigos de longa data, o que divertia o menos sério de ambos, Damastor, que rapidamente se afeiçoou a ele.
A chegada à Esparta não decepcionou as expectativas de Ikarus com relação àquela pólis. A beleza das construções das casas, da arquitetura grega, o deixava boquiaberto. Locais voltados para o lazer, parques e bibliotecas, embora estas últimas fossem mais escassas que as de Atenas, atraíam a curiosidade de Ikarus, que rapidamente se identificou com a cultura espartana. Não demorou muito para que chegassem ao local onde os soldados espartanos costumavam se encontrar. Era um ponto de compromisso, como Damastor o havia explicado, ladeado por homens de diversas idades e status sociais para o treinamento.
--E é aqui, meu caro, que você vai passar o resto da sua vida. Não apenas servirá ao nosso rei, mas se realmente for tão bom como vimos no treinamento, será um excelente soldado e participará das missões militares a nós encarregadas. Guerras, conquistas, seja o que for... Uma vez dentro daqui, não poderá sair. Será, a partir do ritual que se seguirá, um espartano e seu compromisso é com Esparta de agora em diante. Compreende?
--Compreendo, senhor--Ikarus não hesitou em jurar. Estava pronto para as dificuldades, para as perdas e vitórias. Era quase como se tivesse se preparado para isso. No entanto, aqui deve ser acrescentado, a mente infantil é muito bem capaz de se desvirtuar nas fantasias que comumente demarcam essa idade e talvez tudo o que Ikarus desejasse era o reconhecimento a ele negado pelo pai até então.
Mas esse reconhecimento configurava como um objetivo distante que apenas mais tarde ele reconheceria, pois muito em breve dificuldades piores se prestariam a uma criança como ele. Como, por exemplo, a contrariedade dos colegas em aceitar alguém de origem ateniense entre eles. Para Ikarus, era como estar cercado de cem Achilleus em suas piores versões.
--Você há de se defender--dizia seu instrutor, Damastor--Ou será comido na cova dos leões. E é isso o que quer, Ikarus?
A imprudência viria depois. Entre gargalhadas, chacotas e quedas, não importasse quantas vezes a violência xenofóbica o maltratasse, Ikarus não desistiria. Ele viveria para aquilo. Ele seria o melhor, como prometera a sua mãe. Mas, durante a adolescência, seu temperamento volátil o levava a violações. Se provocado, respondia na agressão, e perdia a razão com o castigo justamente punido.
--Você não é mais criança e eu não poderei lhe proteger sempre!--gritou Damastor--Quando vai aprender, Ikarus? E pare de se enfiar em confusões, ou desperdiçará seu potencial!
Era dura a lição, e mais dura ainda a queda do orgulho, mas o obstante e constante Ikarus aprendeu, mesmo com sua desenfreada ambição. Tinha um bom caráter, porém, o trauma infantil ainda o perseguia. Provaria seu valor, e seria lembrado por seu pai, celebrado pela mãe e aceito pelo irmão. Todavia, ficava a pergunta: a que custo a vitória chegaria?
Nem tudo era permeado por trovões, porém. Já aos dezesseis anos, tinha um círculo de amigos e era visto como espartano. O passado pouco importava. Sua lábia infantil amadurecia e todos gostavam dele. Era carismático e belo. O deus Apolo renascido.
--Ou talvez Dionísio--provocou uma das espartanas chamada Mirina. Ela era esbelta, possuía belas feições e um sorriso sedutor. Seus cabelos eram negros como a noite e caíam-lhe na cintura, mas viviam presos. Nomeada em honra à rainha das amazonas, Mirina era tão brava quanto esta. Usava braceletes dourados em ambos os braços e era excelente com a espada, mas não fazia parte da guarda oficial. Lutava, porém, com a guarda menor. Desde o momento em que pusera seus olhos em Ikarus, Mirina sentiu-se inexplicavelmente atraída a ele. Amor, meus caros, não é sempre explicável--Já que vinho é sua maior fraqueza.
Baqueteavam em honra de Ares naquela noite de verão e Mirina era a única de seu sexo sentada entre os homens. Não se importava, mas entre os rapazes era aceita... Respeitada por ser descendente de Ares através das amazonas, e pela força demonstrada nos treinos, além de ser membro de uma família aristocrática.
--Se vinho e poesia são vistas como fraquezas, em seu lugar temeria a fúria daqueles que a mim concederam tais dádivas--rebateu Ikarus.
--Oh, Ikarus, viajará alto próximo ao céu? --alguém proclamou.
--Se me dizem que sou Apolo renascido, o sol não seria o limite, não é mesmo? --ele respondeu, provocando gargalhadas. Era agora o líder de seu próprio grupo, que a cada dia aumentava.
--Você é louco--murmurou Mirina--E arrogante. Cuidado com essa destrutiva mistura.
--Loucura e arrogância? Olha, mas sou Apolo que dá a Dionísio suas bênçãos--disse Ikarus com um sorriso que fez a respeitada guerreira corar.
--Pare de ser bobo--ela pediu.
O flerte foi interrompido quando à mesa foi o espartano que Ikarus lembrava como o mais sério, Dionísio. Ele os convocava à mesa real. Seria naquele dia que seriam apresentados ao rei Leôndias e à rainha Gorgo. Ikarus sentiu o coração pulsar de ansiedade, mas o encontro foi adiado uma vez que uma tempestade caiu forte naquele dia e os soberanos tinham assuntos mais urgentes a tratar. Apesar da decepção, Ikarus sentia que uma hora a reunião se realizaria.
--Você é incapaz de esconder seus sentimentos--Mirina observou enquanto todos se retiravam aos respectivos aposentos. De alguma maneira, ela conseguia andar um pouco mais devagar que os outros para ficar com seu...amigo.
--Não sei por que você se importa--disse Ikarus em resposta, dando de ombros. Permitiu que sua mão escorregasse na de Mirina, e assim os dedos se entrelaçassem.
--Você sabe por que--ralhou ela--Não me venha bancar o orgulhoso agora. É a glória que ocupa sua cabeça, Ikarus? Não prestou atenção em nada nas histórias que a nós são contadas? Tudo o que importa é você?
Ikarus ficou em silêncio perante tais acusações e Mirina reconheceu o perigo aí. Ela o conhecia suficientemente bem para prever um ataque de fúria que costumava levá-lo a imprudência.
--Peço perdão pela imprudência com a qual escolhi minhas palavras--disse ela--Mas eu me preocupo, sabe?
Ele, então, se virou para ela, descansando em sua cintura duas mãos para que a puxasse a perto de si. Não estavam sendo vigiados, portanto, o perigo de serem punidos por um ato que não seguia as regras era menor.
--Estou ciente de sua preocupação, Mirina, e agradeço por ela. No entanto, há desafios pelos quais devemos passar para derrotar demônios que nos cercam.
--Eu bem sei disso--ela retrucou, com um doce sorriso que derreteu qualquer resistência emocional de Ikarus--porém, também o conheço desde o dia que pôs os pés aqui. De todas as mulheres aqui, escolheu a mim, e por isso tenho o dever de acompanhá-lo nessas jornadas.
--Não, senhora--contestou Ikarus com uma risada doce--Preciso protegê-la, ou já se esqueceu?
--Acredito que você esqueceu com quem está falando--rebateu ela, sarcasticamente, antes de depositar um beijo nos lábios dele a fim de calar qualquer assunto que poderia reviver uma discussão mais calorosa.
Se Ikarus era um espírito de fogo, ele era tão apaixonante e intenso quanto o era desajuizado e irracional na mesma medida. Naquela noite chuvosa, descuidadosamente largada à sorte dos deuses, parecia que Ares e Afrodite encarnavam naqueles jovens que, escondidos, consumaram o amor que, por uma ligação conhecida apenas pelos deuses, os ligava tão forte. Era uma devoção que queimava a carne e irradiava um reencontro de almas.
Os dias se passavam, e as estações também. Em breve, Ikarus já não tinha mais dezesseis anos, mas sim dezessete e, tão logo, dezoito. Pequenas missões militares participou, algumas em conflitos rápidos contra Creta, e, indiretamente, com Atenas também. No entanto, nada disso foi em vão, pois o uso de duas espadas tão brilhantemente articulada por suas mãos configurava finalmente no reconhecimento que almejava. Era, definitivamente, abençoado por Ares com toda sua destreza militar e coragem que o levaria a patamares maiores.
Com isso, Ikarus subia de posição e conforme o perigo persa pairava no ar, ele foi inserido no grupo dos homens que iam à guerra. Não temia a morte, pois não a via como qualquer possibilidade de esta acontecer. Tornou-se descompromissado com tudo, menos com as guerras. E, talvez, Mirina. Ainda se viam às escuras, mas seus avisos eram como palavras ao vento: ele não as escutava.
--Cuidado com o que procura--Mirina um dia o disse. No dia de seu vigésimo e terceiro aniversário, foi aceita na guarda pessoal da rainha Gorgo... com a condição de que se casasse. E o pai de Mirina recusou a corte de Ikarus.--Há um preço para isso.
--Por que não dá seus conselhos ao seu marido?--retrucou Ikarus, impaciente. Havia bebido um pouco de vinho, cujo teor alcoólico sempre ressaltava seus sentimentos mais íntimos... e obscuros--É a ele que quer.
--Você sabe que o amo!--protestou Mirina--Sabe que não possuo voz para tais assuntos. Nem mesmo a rainha quer se meter nisso.
--Poderíamos fugir--ele sugeriu.
--Não ousaria--ela retrucou, embora seus olhos demonstrassem a mágoa que nascia com aquela separação--Sabe que não ousaríamos fazê-lo. Você busca a glória e eu sou devota ao dever que me espera como guerreira e mulher.
A raiva o deixou descontrolado, mas somente porque Ikarus via razão em tais palavras. Procurou se afastar, respirar fundo. A verdade é que havia feridas que o tempo apaziguou, e a cura costuma ser mais demorada do que se pensa para aqueles indispostos a esquecê-la. Conforme a energia de Ikarus se tornava expansiva e o guerreiro interior tomava conta, percebia que o preço pela glória era alta demais. E não estava preparado para pagá-la, pois Ikarus tinha medo. E o medo era como correntes, algo contra o qual buscou lutar desde o início. Aquele era um espírito bom, porém indomável e com grandes tendências ao exagero. Contudo, só viria a reconhecer isso quando fosse um pouco tarde demais.
--Eu te amo--disse Ikarus, por fim--Não quero perdê-la.
Compreensivamente, Mirina encostou sua testa na dele antes de enlaçar as mãos em um aperto forte.
--E não vai. Jamais. Não sabemos o dia de amanhã, e é por isso que temo por você. Há bondade sua aí dentro, Ikarus, mas tem sido afogada pela tempestade que o circunda--ela murmurou e ele sentiu a preocupação genuína em sua voz.
--Um guerreiro não pode ser clemente ao seguir ordens, Mirina--disse ele, um pouco firme na sua convicção, embora por dentro já não estivesse tanto assim.
--Sabe do que falo--insistiu ela--Cá estamos com vinte e três anos e sua imprudência, se por um lado o melhorou como guerreiro, por outro o cega para certas faltas. Só não falam isso a você porque a preocupação deixam para mulheres.
--Acho que você suavizou seu coração um pouco demais--ele provocou, antes de envolvê-la em um abraço apertado.--Prometo não ser irresponsável, desde que fique segura.
Trocaram um longo olhar como se soubessem que aquele fosse o último. Quantos anos haviam se passado, e, no entanto, a juventude não parecia durar mais que os atos de amor e as trocas de promessas vazias que não dependiam deles? Era ali que Ikarus temia a verdadeira guerra e a sombra que se projetava, pois não se tratava mais dele apenas e de sua busca por algo que não concretizaria jamais.
Mas não podiam contar com a irracionalidade da idade, embora a coragem apenas fosse natural. Um resquício desta, alguns diriam, porém necessária para enfrentar a tempestade que, ao fundo, Ikarus vinha fugindo. Era hora de ir ao encontro ao sol, ele que era abençoado por Apolo, Dionísio e Ares.
Envolveu a amada em seus braços e, às vésperas de invasão persa, a tomou para si. Regras mundanas não eram páreas para o amor que trespassava a limitação terrena. E, portanto, se amaram até o raiar do dia, que foi quando o jovem Ikarus saiu para voar em direção ao que sempre sonhou.
A impetuosidade de Ikarus poderia ter sido aparada se tivesse dado ouvidos ao instrutor que muito se preocupava com o fato de desdenhar do uso de escudos por confiar em demasiado em suas habilidades guerreiras. E, entretanto, lá estava, ao lado de guerreiros sob a liderança do rei de Esparta para combater a invasão persa de Xerxes. Pouco importava a maquinação política de qualquer dos lados, embora se preocupasse em defender as terras helênicas contra o perigo da dominação do oriente. Que os Deuses o protegessem.
No perigo da morte, a recusa em reconhecer sua presença muitas vezes impulsiona a fúria interior. E era como se Ikarus soubesse o tempo todo o que estava lhe esperando. A ferida agora sangrava, mas ante o sagramento, não vem a cura depois? Soube Ikarus perdoar a si próprio, mas jamais se arrepender pelo destino que ele optou seguir. Bravamente, foi à guerra. A fúria era sua guia, mas sua áurea era o medo e a inexperiência. A juventude outrora afrontosa, o retraía. O desespero de se ver cercados dos inimigos, contudo, não tirou de seus lábios o formoso sorriso que mesmo ali, no campo da escuridão, usava como lanterna. Era ao sol que ia, era á luz que se entregava. Pensou ver vitória, mas esta era se não uma ilusão da esperança. Pensou achar ter sido salvo, mas quem garante estar salvo em corpo e não em alma? Pois Ikarus tão intensamente lutou para conquistar uma vitória, decerto, que não foi a que pensara. Ele se libertou de suas mágoas e só alcançou a paz depois que uma lança cravou em seu estômago. Lágrimas ainda saíram de seus olhos, não pela dor que desprendia sua alma do corpo que o levava à morte, ou pela derrota de seu orgulho e de todo ideal que defendia, mas pela imagem da mulher que amou Mirina. E mal sabia ele que ela carregava em seu ventre o filho que jamais viria conhecer.
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