quinta-feira, 14 de abril de 2016

Anywhere But Home

Havia muito tempo, em uma era onde deuses antigos faziam da Terra seu lar, uma família se estabelecia em algum lugar na Grécia Antiga. Composta por cinco membros, seus antepassados vieram da região conhecida como Bohemia e carregavam o sobrenome Honson. Embora seus vizinhos os enxergassem como bárbaros, os Honsons eram respeitados, pelo menos a ponto do velho Honson carregar uma reputação de grande guerreiro, abençoado por Ares nas suas qualidades como um e na sabedoria pela Atena.
Seus dois filhos mais velhos eram gêmeos e se chamavam Adonis e Adrastos, que também colhiam seus próprios elogios, ainda que em campos diferentes: Adonis era admirado pela lábia e pela beleza, mas sua inteligência era a verdadeira causa para atrair tantos admiradores. Era alto e esbelto, possuía uma cabeleira negra como a noite e cheia de cachos que caíam até seus ombros; seus olhos eram de um verde penetrante, o nariz era fino e, talvez, um pouco grande, mas sempre em simetria com suas feições. Sua pele era morena e os músculos estavam bem trabalhados, raramente, contudo, estavam à mostra. Um de seus passatempos favoritos era a filosofia. Estava sempre envolvido com a matéria que mais lhe intrigava. Renunciou à guerra para focar nos estudos e assim permaneceu exercitando sua intelectualidade, mas desagradava a seu pai suas aventuras amorosas.
Enquanto isso, Adrastos, que o igualava em beleza e inteligência, destacava-se pelos talentos marciais herdados do senhor Honson. Era alto e possuía um físico idêntico a de Adonis, exceto por possuir belos olhos azuis. Desde menino, provou ser o favorito do patriarca da família ao desconsiderar seguir uma carreira acadêmica para atuar no campo militar. Diziam as más línguas que esse rapaz carregava outros deuses consigo para ser tão bem- ou mal?- favorecido. Conforme seu prestígio aumentava, a influência e as honras que trazia para a família cresciam a ponto de acabar se casando com a filha da prima da princesa de Creta. 
Em seguida, temos a única filha do senhor e da senhora Honson. Seu nome era Agafia, que, em grego, significava virtude e bondade. Educada por uma governanta de confiança de sua mãe, ela cresceria sabendo grego, filosofia, história e geometria. Matemática não seria aprofundada tal como foi com poesia, música e, até mesmo, a domesticidade e como a mesma funcionava na sociedade. Em outras palavras: seus estudos não eram diferentes de mulheres aristocráticas da sua época. Aos dezesseis anos, já sabia o que esperavam de si: que soubesse ser uma boa e obediente esposa, ciente de seus deveres tais como dar ao marido uma prole além de apoiá-lo em quaisquer assuntos; que ela pudesse passar a ele e a sua nova família o conhecimento adquirido até então. Atividades domésticas eram sempre frisadas neste ponto e Agafia não parecia desapontar a mãe e o pai. Aos dezoito anos, idade em que deveria já estar casada, ela estava no auge da beleza: sob uma coroa dourada, seus longos cabelos dourados escorriam pelas costas quase nuas, destacando-se na pela de leite. Os olhos azuis não traíam pensamento nenhum que passava em sua mente e os lábios vermelhos raramente fechavam o sorriso simpático que, muitas vezes, era obrigada a abrir para estranhos, não importasse quanto estava cansada ou irritada. E conforme a família ascendia socialmente, mais lhe era exigido, pois preocupava a seus pais como a beleza e a virtude de Agafia não haviam capturado interesse de homem nenhum na região que viviam.
O último elemento que fecha esse clã era a matriarca dos Honson, devota de Hera, conhecida pelo nome de Amalthea. Sua família era de origem relativamente pobre e sua mãe sempre fora religiosa, tal como o fora seu pai, um guerreiro de Esparta. Crescera com uma personalidade forte e uma beleza meio padrão para a época, com seus cabelos negros e os olhos claros, além de possuir uma pele corada. Casou-se com o senhor Honson quando ambos tinham 14 anos, mas não foi até atingir os 18 anos em que deu ao marido dois herdeiros de uma vez só, cativando, para sua surpresa, afeição dele. Após o nascimento de Adrastos e Adonis, o senhor Honson passou a ser presença constante na vida da mulher. Mesmo depois de Agafia, outros três bebês nasceram, mas nenhum deles sobreviveu à infância. Tanto o senhor quanto a senhora Honson compreenderam que era vontade de Hera que a família se estabelecesse assim. E não havia por que questionar a vontade divina se o marido era carinhoso com ela e já tinham dois filhos homens e uma graciosa menina. Amalthea estava bem satisfeita, principalmente com os rumos que via seus filhos tomarem à medida que os anos passavam. E assim que todos eles atingiram a idade adulta, ou, ao menos, chegaram à puberdade, passou a planejar seus matrimônios de acordo com suas ambições.
Assim, temos nos próximos anos um enfoque por parte da senhora Honson em se inserir ainda mais na aristocracia para arrumar bons partidos para cada um de seus filhos. Contudo, sua atenção se desviou para os gêmeos, os ela dizia com orgulho que foram abençoados pelos Deuses, particularmente por Apolo e Ártemis. E, enquanto isso se provava de certa forma verdade, pois os irmãos seguiam conquistando seus méritos, Agafia se via abandonada pela mãe. Poucos sabiam de sua existência, seu próprio pai mal a mencionava em seu círculo social. Apesar da beleza e sua boa índole, Agafia passou sua adolescência na obscuridade. Via seus irmãos, de quem não era próxima, tornarem-se cada vez mais populares e nada da mesma proporção acontecer consigo. 
Por isso, passou a ir com certa frequência aos templos de seus dois deuses favoritos: Poseidon e Ártemis. Orava sempre para ambos, ainda que desconhecesse o motivo para especificamente rezar a eles. E as criadas, aquelas que faziam-lhe companhia, questionavam-na por sua escolha. 
--Pois não é mais donzela para ser abençoada por Ártemis e tampouco é uma pescadora para receber um favor de Poseidon--haviam-lhe repreendido--Peça a Hera um bom casamento, criança. Talvez a benção de Afrodite para que esse bom partido traga-lhe um verdadeiro amor como nos contos para a senhorita.
A elas, Agafia nada respondia. Escutava-as, sempre seguindo seu bom senso, guardando suas opiniões para si por mais difícil que fosse. Em uma tarde, quis caminhar pelo rio, aproveitando o sol e a ausência de nuvens. Usava um vestido branco, florido, e calçava sandálias douradas. Seus cabelos estavam soltos, mas não se importava com isso. Desceu as escadas, optando sair pelas portas do fundos. Estar na presença de sua gloriosa família diminuía-lhe o espírito e ela vinha tentando evitar isso.
Estranhamente, porém, o que ela não sabia era que Agafia Honson estava entrando no círculo de favoritos dos deuses. No Olimpo, não passou despercebido a Hera como uma bela jovem de dezoito anos encontrava-se solteira e desprezada pela família; à Afrodite, chocava-lhe ver que tal beleza não capturava amor algum. E a Ártemis, surpreendia-lhe que uma moça assim mantinha a inocência de dias passados e sua devoção por ela a fazia questionar sobre seus conceitos da própria juventude. Em segredo, combinaram com Poseidon e Apolo. Aquela família pagaria por isso? Não, mas logo começaram a arquitetar um plano para a donzela da família Honson. 
*                                                                          *                                                               *           
Seu nome era Amarus e o sobrenome ele pouco divulgava. A principio, parecia ser mais um misterioso viajante que cativava estranhos com suas histórias nos lugares por onde passava. Era, sem dúvida, abordado a respeito delas ou de sua própria origem. Amarus era sedutor, sabia convencer quando queria. A história de seu nome, todavia, denunciava um pouco quem era. Sua mãe era conhecida em seu meio por cultuar fervorosamente Afrodite: na juventude, chegou a considerar tornar-se sua sacerdotisa quando conheceu um caçador charmoso por quem se apaixonou. Alexandra Ambrosia então casou-se com o príncipe Androgeus, um dos filhos do rei Minos, e, devido a esse feliz encontro, prometeu à deusa do amor que nomearia seu primogênito ou primogênita de acordo com seu desejo. Amarus significava amor eterno e a histórica já era conhecida por toda a Grécia antes mesmo do belo menino ter completado dois anos.
E o jovem herdeiro cresceu com saúde de ferro e foi agraciado com uma beleza incomparável. Sua pele era morena, pois expunha-se ao sol com frequência dado seu amor à pescaria e, também, a longas viagens pelo mar; seus cabelos castanhos eram curtos, pois a vaidade não lhe permitia deixá-los crescer, porém, na puberdade deixou a barba marcar-lhe o rosto, raramente a aparando, mas nunca deixando que se estendesse além do queixo ou que se excedesse em volume. Seu sorriso era caloroso e ele não gostava de escondê-lo: muitas vezes, usava-o como uma arma, pois quem resistiria a tamanha simpatia? Os olhos eram cinzas, tais como a de uma tempestade, e rapidamente quebravam barreiras em um simples olhar.
A túnica que usava enquanto caminhava naquele dia deixava à mostra os músculos torneados, escondendo bem indesejáveis cicatrizas de cujas histórias ele não tinha vergonha em contar, mas não era orgulhoso em dividi-las com pessoas que não confiava. Amarus era o favorito de seu pais: parecia ser a encarnação do herói das lendas de que tantos falavam. Não temia as batalhas, mas era sábio em evitá-las quando necessário. Ousou em sair da Grécia; conheceu a ilha de Lesbos, foi além e interagiu com os bárbaros, porém, tinha que retornar a sua casa. Aos trinta anos, ele sentia agora a necessidade de construir sua família, sabendo que um dia poderia ser rei. Ou não. Seu avô ainda estava vivo e, se quisesse, poderia muito bem mudar a linha de sucessão. Ainda que tal fato lhe parecesse impossível, ele havia conhecido a liberdade e estava ciente do peso que era carregar a coroa, sabendo bem que seu tio, o verdadeiro herdeiro e irmão mais velho de seu pai, ainda não tinha filhos e sua saúde não estava muito boa.
Não era de fugir de assuntos que o preocupavam, mas Amarus era um homem indomável. Ou assim era como se via nos últimos quinze anos. Em suas memórias, momentos inesquecíveis eram lembradas com ternura. Sorria ao pensar nas noites que passara com mulheres, nos piratas contra quem batalhara, nas riquezas conquistadas e nos povos que conhecera. Vivera bastante e sentira que não envelhecera, embora estivesse ignorante à nova realidade que era sentir seu corpo não mais responder a impulsos outrora excitantes e por ele bem sabidos. Havia algo de errado, e isso era exatamente sobre o que refletia quando ele se esbarrou em uma jovem ao sair da floresta por onde caminhava fazia algumas horas.
--Santo Zeus!--ele exclamou, rapidamente ajoelhando-se para amparar a moça que havia caído devido ao encontrão--Perdoe-me, senhorita. Eu estava distraído! Espero que esteja bem, como posso assisti-la?
Agafia riu, as bochechas levemente coradas.
--Não se preocupe comigo, meu senhor. Acredito que eu deveria ser aquela a se desculpar, afinal, não estava apenas no meio do seu caminho como  também não deveria estar por aqui--ela tocou a mão do estranho e se levantou, ignorando a leve dor que sentia em seu joelho esquerdo.
Amarus arqueou uma sobrancelha, curioso.
--E por que, pergunto eu, a senhorita não deveria estar aqui? Os campos estão seguros, assim eu soube. 
--Oh sim, não contesto isso, ainda que ladrões e escravos fugitivos possam estar em todo o lugar--ela lhe sorriu--Mas uma dama deve estar sempre em seus aposentos, a lamentar por seu destino, não? 
--Estou detectando sarcasmo?
--Sim, meu senhor. É a única defesa que eu possuo contra alguém que não conheço--ela não ousou encarar o estranho. Sabia que havia encontrado um possível filho de Afrodite ou Apolo e não queria que ele lesse a admiração escancarada em seus olhos, principalmente sabendo que sua opinião de homens bonitos havia se formado baseado na convivência que teve com a pobre visão de vida que algumas amigas amarguradas de sua senhora mãe tinham, se ela se lembrasse bem dos primeiros anos de sua adolescência. 
--Pela primeira vez, não tenho argumentos para rebater o que acabou de dizer--ele admitiu, a contragosto. Sentia o rosto ferver: não estava acostumado a ser rejeitado ou questionado. Em geral, as mulheres se jogavam nele, independentemente da situação que estava--Imagino que sua precaução seja justificável, mas não correta. Um desconhecido poderia ser violento e não lidar bem com o sarcasmo, senhorita. Estaria, portanto, se colocando em perigo. Mas, afinal, como chegamos a este assunto? Eu só queria saber se você está bem.
E assim que ela levantou os olhos para respondê-lo, pareceu que um choque percorreu no corpo de ambos. Um silêncio se instaurou por longos minutos. Mas Agafia não perderia sua compostura--seu orgulho a lembraria disso.
--Perdoe-me se fui rude, meu senhor--ela inclinou a cabeça em respeito--Eu aprecio sua preocupação. Ultimamente, conhecer pessoas tem sido uma atividade impraticável para mim.
--Penso ter conhecido uma donzela bastante intrigante--disse Amarus, ousadamente, ao sorrir para Agafia--Não há nada para ser perdoado, visto que a culpa foi minha por ter me deixado afundar em meus pensamentos e fechar os olhos para a realidade a que me cerco. Porém, está me dizendo que não conhece pessoas com frequência? Oras, eu gostaria de saber como uma senhorita tão bonita como você não tem seu próprio círculo social. Suas roupas denunciam sua classe social. 
Agafia corou. Era tão óbvio assim? Como ele poderia lê-la facilmente? Achava que era um livro de difícil compreensão. Murmurou uma rápida resposta, contando aquele estranho sobre como era tratada por seus pais. Era ignorante quanto ao motivo de depositar naquele homem tal confiança, mas tinha um bom pressentimento sobre ele e não questionaria de um sinal divino. Quase sorriu com tal ideia.
Amarus, por sua vez, se encantou com ela. Os minutos iniciais que passaram conversando próximos à floresta rapidamente viraram horas. Eram agora duas horas da tarde e as apresentações só seriam feitas quando cada um se recordou dos compromissos que teriam naquela tarde.
Logo, Amarus e Agafia seguiram caminhos diferentes. Mas o destino queria que eles voltassem a se encontrar. Na festa de casamento do irmão de Agafia, Adonis, outra vez se viram, ainda que as oportunidades teimavam em não permitir que um momento a sós pudessem ter. A senhora Honson notou a amizade que a filha estava desenvolvendo com aquele estranho e ponderou se seria hora de acabá-la... ou talvez, se intrometesse e forjasse a ser algo a mais. Quais, ela se perguntou, seriam os planos dos deuses?
*                                                                            *                                                                            *
Os deuses a favoreciam, mas eles não poderiam contornar o que as Parcas determinavam. Destino, dizia-lhes o próprio Zeus, era imutável e os humanos assim sabiam. Ao menos, alguns pareciam crer nisso. Ninguém ousou questionar-lhe e o Olimpo, então, caiu em profundo silêncio.
*                                                                            *                                                                            *
Agafia tinha vinte anos e Amarus, trinta e dois. Dois anos haviam se passado desde que tornaram-se amigos, ainda que amizade não fosse uma palavra apropriada para descrever o sentimento que ligou os dois. O senhor Honson optou pela ignorância quando sua filha entrava em casa carregando uma correspondência com brilho nos olhos. Sabia que dali nada surgiria, mas, desde que os gêmeos se casaram, percebeu que ali estava o ovo de ouro que por tanto tempo ignorou. Deveria casá-la. Uma união, meus Deuses! Uma união deve ser feita. Como pude absurdamente ficar cego às glórias que meus filhos trouxeram para esta casa e esquecer o que Agafia foi arduamente treinada para fazer? 
Para o senhor Honson, os filhos casaram-se cedo demais. Agafia era aquela que deveria ter-lhe trazido honras primeiro, devido ao sexo que lhe foi concebida pelos Deus. Havia, porém, a possibilidade de nessa idade ser uma solteirona e infértil. O que fazer? Conversou com sua esposa e os dois concluíram que a amizade entre Agafia e esse tal de Amarus deveria ser posta a um fim diplomático. Apesar de desconhecer as intenções ou origens do rapaz, tampouco o cauteloso patriarca poderia arriscar sua dignidade. Justamente pelas razões citadas, as mesmas poderiam se virar contra ele e, assim, uma vez descoberta sua história, a casa Honson sairia perdendo.
Políticas, então, eram discutidas com uma urgência nunca vista antes, mas nada preocupava Agafia mais que em ver seu Amarus outra vez. Descobria-se apaixonada pelas promessas feitas, navegava nas palavras doces escritas e se imaginava sempre a seu lado, ainda que sua natureza a repreendesse se seu desejo entrasse em aflito contra o senso de dever que aprendera durante todos esses anos no seio da família.
A ansiedade, neste caso, era de mão dupla. O sentimento era, afinal, recíproco: Amarus não se cansava de lembrar dos olhos que sorriam, dos lábios que seduziam, da inocência que ali pendia... Quando recebia as cartas, permitia-se sonhar, voltar a juventude. Agafia não era um desafio, por mais que as circunstâncias assim a fizesse parecer como se fosse uma. Ela era a mulher que ele queria ter ao seu lado. Não desistiria de nada, nem por um segundo. Por ser um homem adulto, decididamente desconsiderou falar com o rei. 
Cavalgou até a região onde Agafia morava ainda com os pais e lá apresentou-se a eles. Ousadamente, contou sobre sua história de vida. Não mais temia ser descoberto. Não mais hesitava em se abrir a estranhos. Ele queria ser aceito. Ele queria viver e ter a família que ele teve durante toda sua vida. Soube, mais tarde, que a esposa de seu tio deu à luz um menino saudável então, finalmente, não mais precisaria se preocupar com questões relativas a coroa.
Tanto o senhor quanto a senhroa Honson escutaram o que aquele homem lhes dissera, um tanto quanto estupefatos. Por outro lado, nada pendia contra o senhor Amarus, principe de Creta. Como negar à filha a um homem que se devotava a ela completamente? Agafia foi então chamada. Apareceu, vestida em branco e dourado, os cabelos agora presos em uma longa trança. Como a felicidade ficou tão exposta em sua face, tornando seu semblante até mesmo mais vistoso quando seu pai contou-lhe do motivo de Amarus estar ali e da sua benção!
Durante um longo, porém prazeroso, mês, o príncipe ficou na residência dos Honson. Conheceu melhor seus futuros cunhados e os sogros, enquanto a carta explicando sua situação era enviada ao rei de Creta, Considerando quão próximos já eram devido ao casamento do irmão de Agáfia com a prima de uma filha, o rei então consentiu que o matrimônio se realizasse.
Parecia tudo perfeito e Agafia nunca foi tão feliz.

Mas a felicidade veio com um preço. As festividades ocorreram, o rei em pessoa estava lá. Agradecimentos foram feitos e Agafia sentia-se segura, amada, finalmente. 
--Não pensei que os Deuses fossem me favorecer--disse ela, na noite de núpcias.
--Afrodite de fato nos favoreceu e muito bem--ele replicou, fazendo um pouco de alusão a sua própria história,
Ela sorriu, deixando que ele a tocasse, mal contendo um suspiro quando a pele já despida arrepiava-se com o toque tão desejado daquelas mãos suaves.
--Que assim seja, graças aos Deuses--murmurou Agafia, beijando-lhe os lábios.
Ele nada mais respondeu, sorrindo em resposta enquanto a envolvia em seus braços. Sentia seu coração diminuir as batidas e isso, por um momento, o assustou. Mas o beijo o salvava, sempre tinha sido assim. Ele, então, a colocou gentilmente na cama, onde a aqueceria por toda a noite.
Nos dias seguintes, entretanto, a dor aumentava em seu peito. Acordava suando frio nas madrugadas quentes, o corpo tremendo em um frio atípico. Nem mesmo o calor de sua esposa afugentava essa tortura. Agafia não desconfiava, mas a sombra do destino pairava sobre eles.
Mesmo assim, o sofrimento não acabaria tão logo, não obstante ele sentisse que era breve e imprevisível seu último arfar, recusando a perder aquela luta. Mas ninguém via, ninguém percebia....

--Meu amor, tenho algo a contar-lhe!--correu, em uma certa manhã nublosa, Agafia. Ela havia se esquecido de suas maneiras, mas não se importava com isso. Sentia-se livre de todos os impedimentos sociais quando encontrava-se com seu marido na intimidade. Seus cabelos estavam soltos e levemente bagunçados, o sorriso estampado em seus lábios e o brilho em seus olhos traía-lhe a discrição, assim como o vestido desarrumado.
--Sim?--ele percebeu, a excitação perpassando por seu semblante. Levantou-se rapidamente de sua mesa, dispensando os empregados para que ficasse à sós com a esposa--O que foi? Por que sorri tanto?
Ela colocou as mãos ao redor do pescoço dele, encarando-o com uma expressão de alegria. Uma alegria que jamais pensou ser possível experimentar, um sentimento que ela agradecia aos deuses por terem enviado Amarus a ela.
--Eu estou grávida. Não sangro tem mais de dois meses. Agora posso ter a...--ela contava, animada, quando uma sombra pareceu cair de repente no quarto.
Amarus recebia a notícia com demasiada felicidade, mas a angústia havia chegado a seu ápice. Ele não conseguia mais pleitear: arquejou e caiu de joelhos, de repente tudo ao seu redor desaparecia, sugando-o para as trevas que mal conhecia. Agafia, em estado de choque, só conseguiu gritar para que trouxessem os médicos enquanto ela se ajoelhava também, pedindo aos Deuses que não, não o levassem agora. Não podia... Ela não podia.... Não agora.
--Amarus...--ela murmurou, cega pela torrente de lágrimas que caíam em sua bochecha--Amarus...
Mas nenhuma palavra foi dita. Seus olhos abertos estavam sem vida, a boca escancarada deixando escapar o resquício de seu hálito, como se ele quisesse falar algo. Mas era só o silêncio que acompanhava Agafia, que não conseguia entender o que estava acontecendo, tamanha era sua perplexidade.
Ela não lutou contra as damas de companhia que a levantavam do chão e colocaram em sua cama. Não sentia os pés caminharem, tocarem o chão frio, antes tão quente devido ao calor daquele verão, que agora mais parecia um inverno precipitado.
--Eu não vi isso... Não... Não--ela engasgou-se com as lágrimas, antes de ser envolvida por braços que ela não mais reconhecia.
Não mais conseguia seguir em frente, pois perdeu o poder sobre si mesma. Sentiu seu corpo gelar, o vento invadir seus aposentos, a cama onde antes dividia com o marido... O marido que Hades agora acolhia em seu mundo.
--Senhora? Uma carta foi encaminhada a sua mãe. Acredito que seria prudente se retornasse ao lar de...
Quem quer que estivesse falando, Agafia tampava os ouvidos, recusando-se a ouvir. Não sairia de seu lar por nada neste mundo. Desafiaria os deuses se necessário, afirmou. Sentia seu coração se despedaçar, e aliviada ficou quando a noite chegou, levando todas aquelas pessoas embora.
Ela estava sentada na cama quando sentiu a mudança do vento. Não estava mais frio, tampouco fazia calor. Mesmo que estivesse insensível a outros acontecimentos, de alguma forma Agafia percebeu essa pouco nítida mudança. 
--Tenho medo--sussurrou para si mesma, observando a dança das sombras nas paredes de seu quarto--Sozinha estou--ela sentiu a garganta ficar seca, sufocando-a com a tristeza que a invadiu intensamente, tão de repente. 
Abraçando seus joelhos e encarando o vazio que estava a sua frente, mal procurou contemplar que as portas das janelas de seu quarto abriram-se sozinhas. A ausência do vento ficou, subitamente, insuportável. Procurou por duas velas, arrependendo-se de ter pedido que apagassem outras seis. Aquele breu não era um amigo ou companheiro, jamais o havia sido... e seu protetor agora havia sido levado por toda a eternidade.
Ao tornar a pegar a vela que estava próxima de sua cama, assustou-se ao sentir-se insustentavelmente quente. Estava abafado. Onde estava o vento? Estava ocupado em levar seu amado para longe? Agafia sentiu o pânico correr em seu corpo. Sentia-se desfavorecida, sozinha e abandonada. Carregava uma criança em seu ventre, sua única companhia. Não fosse por ela, teria atentado contra sua vida.

"Besteira."

Ela tornou a encarar as sombras que tomavam parte de seu quarto. Um arrepio percorreu sua espinha: teria sido...? Não, não teria. Porque a morte não permitiria isso. Agafia não ousaria ser tola. Lembrou-se, de repente, daquele encontro, o primeiro, que teve com Amarus: como ele brincou ao encontrá-la, clamando, através de palavras tão bem polidas, de como pensamentos cheios o impediram de ver o que estava se passando a seu redor. Agora era Agafia quem se via imune ao que estava acontecendo ali, em seu quarto. Afundava-se na mais profunda agonia e permitia que lhe fosse tomada toda a luz do mundo. 
Preciso ser racional, ela pensou. Deve ser um sinal divino.

Mas o vento continuava a não soprar. Agafia tentou caminhar de novo, mas os dedos dos pés estavam dormentes, as pernas não podendo se mover. 

"Seja forte."

Era a voz dele, brandindo confiança. Como se a morte não lhe tivesse roubado subitamente, como se tudo aquilo não fosse uma maldita conspiração das Parcas para que sua vida mergulhasse em uma interminável tristeza. Mais lágrimas queimavam seu rosto. Quando conseguiu mover-se, já não diferenciava mais as trevas da luz. Não sabia que direção seguia, que dia era aquele, que horas eram. Era ignorante a tudo, submetida estava às emoções que a prendiam para algo que não compreendia.

--Agafia.

E então ela o viu. Ele estava saudável, robusto outra vez. Não sorria com os olhos, como costumava fazer, ainda que houvesse paz neles. Paz. Isso a acalmou, mas havia tristeza também e isso a devastou. Sentiu os joelhos enfraquecerem mais uma vez, caindo no chão com a vela em suas mãos. Ele rapidamente veio em seu encontro.
--Agafia, por favor. Não chore, meu bem. Não chore.
E quanto mais a voz dele ficava nítida, mais ela se entregava ao desespero. Já não era um dia, mas semanas. Talvez Hades tenha sido bondoso em permitir que isso acontecesse? Ela não mais sabia. Não queria raciocinar, preferindo a loucura, achando-a confortável.
--Agafia--ele a chamou e ela levantou os olhos--Meu amor. Não faça isso consigo própria. Não.... Eu... --Ele próprio engoliu as lágrimas, afinal, tinha de ser forte por ela--Perdoe-me. Eu não pretendi deixá-la. Não quero vê-la assim. 
Ela apenas conseguiu assentir, envergonhada quando conseguiu domar seus sentimentos, sendo lúcida novamente. Sentiu os braços deles contornarem sua cintura como antes fazia, seu hálito quente queimando-lhe a nuca, os lábios causando excitação ao rasparem levemente contra sua pele... Parecia real. Amarus a conhecia como ninguém, ele a acalmava. Mas ele havia ido. E, mais uma vez, ela chorava.
--Deve resistir, minha amada. Por mim, por nós, pela criança que carrega em seu ventre--ele sussurrava--Prometo estar sempre com você, mas deve seguir sua vida... Sem mim. Deve se casar outra vez, viver de novo. Ainda é jovem...
--Não--ela disse firmemente, feliz por encontrar suas forças, afinal--Não vou me casar outra vez. Meu coração é seu e sempre será.
Assim, tornou a beijar seus lábios e o vento retornou. Mas ele não a abandonaria tão fácil. Por mais que ela estivesse voltando a viver seus dias, seguindo conforme era esperado de uma princesa viúva, o bebê começou a sugar suas forças. Amarus se preocupou. Ela tinha de viver.
Meses haviam se passado até, porém, ser tarde demais para Agafia recuperar seu espirito. O deleite que antes brilhava em seus olhos há muito se apagara. E o sofrimento foi imensurável quando soube que seu filho, fruto de um amor que a alimentava como as chamas se agarravam às madeiras para que não se apagassem, morrera. O parto havia sido difícil o suficiente e ela já não aguentava. Mesmo então, os deuses se apiedaram dela. Nem mesmo Hades ousou interferir naquele momento.
Enquanto os olhos dela se fechavam, depois de tanta luta contra o que haviam sido cinco longos e difíceis meses, colocando fim a uma vida que mais dependia da graça de deuses que da própria existência, escutou-se um choro. Pois aparentemente ela carregava gêmeos e um deles sobreviveu, para alívio da avó que ali estava, testemunhando tudo com o coração pesado.
--Que seu nome seja Agafia Alexandra--determinou a senhora Honson, sem nem mesmo pensar ou suspirar.
Assim foi feito. E Agafia, com um sorriso nos lábios, finalmente encontrou a paz que tanto seu espirito clamava. Seu marido a esperava e, junto com eles, o menino que faria companhia a Agafia Alexandra.
--Que os Deuses a acompanhem, filha. Pois eu também a seguirei--prometeu, antes de desaparecer, por fim, a um mundo que os aguardava, cercada pelo marido que amava e o filho que queriam tanto ter.
--Uma nova vida nos aguarda--murmurou Amarus.
E pelo resto da eternidade, os dois puderam acompanhar a longa linhagem que sua querida Agafia Alexandra deixou para o mundo, perpetuando-se através dos anos, séculos e milênios. De fato, um presente dado pelos deuses à mais simples das mulheres




































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