domingo, 27 de dezembro de 2020

Contos Medievais, Guerra III: Vikings e Saxões.

Nota do guia de Ogum: "Boa tarde, caros confrades! Espero encontrá-los bem neste último domingo do ano de 2020. Este mês de dezembro, é verdade, tem sido bastante denso para todos os habitantes encarnados da Terra sem distinção. O joio, afinal, já está sendo distinguido do trigo. Dito isto, o conto de hoje, mais curto que os anteriores, vem para fechar, afinal, o ciclo de contos medievais que vêm sido trabalhados já há alguns meses. Como falei inicialmente, foram todos divididos em três sessões: romance, tragédia e guerras. Sendo assim, teremos hoje o último destes a ser transcrito com o propósito, como de costume, de ensiná-los a se conscientizarem nas leis que Cristo trouxe a nós diretamente do Pai há mais de mil anos atrás; de inspirá-los a seguirem na luz na confiança, no amor, na fé em nós mesmos e Naquele que nos criou. Se, de alguma maneira, nós cumprirmos algum destes propósitos, por menor que seja a semente plantada, ficaremos muito contentes. Nada é por acaso e para tudo, sem dúvida alguma, há um motivo. Neste ano tão denso espiritualmente, observamos entre tristeza e alegria vossas movimentações, por certo retirando aprendizados que, a que custo, tivestes de sofrer. E, entretanto, nenhuma batalha é perdida, meus caros. Na verdade, mesmo na História que vossa humanidade construiu aos longos dos séculos e milênios, houve momentos em que se foi necessário perder para ganhar. Nenhuma guerra é vencida colhendo louros durante todo o tempo, e é aqui em que devemos resgatar a coragem que as sombras desejam tolher. Ninguém aqui é covarde, e mesmo o medo pode nos levar a bravura em vencer os obstáculos que se apresentam em circunstâncias ou pessoas que, elas também, vieram nos testar, ensinar ou até mesmo aprender. Com isto, para finalizar esta longa mensagem, espero que podeis tirar destes contos valiosos lições que vos instruam rumo à reforma íntima. Deixo cá meus melhores votos a todos, sem distinção, para o novo ano que nasce. Agradeço a todos por chegarem aqui conosco.- George."

"Todos os anos que compuseram o longo século IX não foram fáceis de maneira alguma a serem vividos, principalmente para os que testemunharam de perto as grandes invasões vikings e, ainda que estas não houvessem existido, as guerras inter-reinos. Fui um saxão anônimo como tantos outros, um guerreiro, soldado, à serviço de nobres que respondiam pela autoridade do celebrado rei Alfred, o Grande. Em verdade, recebi o nome deste porque não eram poucos os cristãos que o admiravam. De fé irredutível e coragem louvável, este rei levou a palavra de Cristo e a praticou em meio a tanta corrupção e hipocrisia moral. Não tive a honra de conhecê-lo pessoalmente, é claro, mas em campo de batalha era como se todos, eu e meus confrades, estivéssemos familiarizados com sua liderança. Serei breve, pois minha vida também a foi.

Meu nome, como deixei explícito acima, era Alfred. À época, não existiam sobrenomes, não eram relevantes ter um. Normalmente, se quisesse ser diferenciado de um quanto do outro, era pelo lugar de nascença, não que isso auxiliassem em muito nisso. Quantos Alfreds não lutavam sob o estandarte de rei homônimo de Wessex? Quantos Alfreds não existiam por toda a Angla-Landa (Nota de Ogum: "Grafia anglo-saxã para Inglaterra") e quem muitas das vezes sequer sabiam que havia um soberano com este mesmo nome?

De todo modo, nasci pobre, camponês. Até aos dez anos conheci o trabalho na lavoura. Capinava para meu pai, um sujeito que passava muito do seu tempo bebendo quando não era violento para nós todos. Nossa mãe havia muito sido enterrada, e com ela alguns irmãos a acompanharam. Havia eu e mais alguns que ainda viviam. Nestes tempos, se a pestilência não o sepultasse antes da maturidade (que era dado a partir dos quinze anos para os homens, e, para as donzelas, aos doze), era um grande milagre do Senhor que o poupou para algo útil no futuro. Em decorrência disso, era o segundo mais velho: Arthur contava doze anos, e, depois de mim, vinham duas irmãs gêmeas chamadas Aelfina e Athelflaed. Cuidava das duas porque não confiava no pai com elas. E dependíamos muito da Igreja Cristã que, embora influente, ainda não era tão poderosa quanto nos séculos a frente, ao menos por aquelas regiões de Angla-Landa. 

Como dizia, éramos pobres e sem perspectiva. Não éramos, enquanto família, muito unidos, ainda que eu e meus irmãos nos protegêssemos uns aos outros do pai bêbado e amoral. Era uma verdadeira provação dado que, em outras existências, fomos, os quatro, detentores de terra que abusaram do poder em mãos para fazer mal (ou ausentar-se do bem) aos terceiros. Este pai, em termos espirituais, fora nosso perseguidor. Por isto ele nos detestava, e por isto o temíamos. Contudo, curiosamente, ninguém os detestava verdadeiramente.

Mas um dia os coletores de impostos, homens de fé, vieram nos cobrar. Foi um dia crucial porque como meu pai não havia com o que pagar, vendeu os filhos. Queria manter as gêmeas, mas foi neste dia que, se outrora tão quieto era, me dei a temperamento:

--Não! Se quer mesmo nos vender, que seja, mas não ficará com as gêmeas!--e eu implorei tanto aos padres que, graças a Deus, eles se apiedaram.

Na verdade, Deus se apiedou de nós de alguma forma e nos tirou dos braços de homem beberrão. Pobre ser, preso na teia da ignorância. Mas, na continuidade da história, me certifiquei de que todos ficariam bem. As gêmeas foram enviadas ao convento de Mércia, que era o reino, de certa forma acoplado a Wessex, governado pela filha de Alfred, Aethelflaed, e seu esposo. Lá elas ficariam, mas não mais teria notícias delas tanto porque desencarnei antes dos vinte anos quanto porque o convento era restrito ao contato do exterior. Quanto ao meu irmão Arthur, este se viu inclinado a seguir vida mais pacata e pediu que se tornasse padre agostiniano. Dali nos separamos brevemente. Lembro que um dos coletores se afeiçoou a mim e falou:

--Você, ao contrário dos irmãos, é forte e robusto. O que acha de lutar contra os pagãos, filho? Estamos precisando de guerreiros fiéis. 

E em tempos onde a mobilidade social era bastante restringida aos mais ricos (e mesmo assim, havia poucas opções de riqueza para uma moça aristocrática que não fossem casamentos arranjados com nobres poderosos de reinos diferentes, como foi o caso da filha do rei de Wessex que desposou o chefe tribal de Mércia a fim de produzir herdeiros e ser englobado eventualmente por Wessex, já que Alfred sonhava com uma só Angla-Landa, cristã e politicamente subjugada a sua autoridade régia), e nos quais as pestilências deixavam fortes marcas no pensamento social do anglo-saxão, era natural que qualquer perspectiva positiva aparente que fosse oferecida, prontamente era aceitada. 

--Mas é claro!--e mesmo eu não entendendo exatamente quem era o deus cristão ou os anjos e todos mais, aceitei porque, na verdade, sentia uma raiva crescente em mim a ponto de querer extravasar. Claro, queria obter ouro e derrotar aqueles vagabundos que invadiam nossas terras e matavam nossos irmãos, mas também sentia um peso em mim que não conseguia identificar o que era.

Embora não odiasse meu pai, era inevitável que não guardasse um rancor dele tanto pela questão espiritual a que expus previamente, quanto pelo fato de eu, enquanto espírito intermediário na escola evolutiva do Pai, me achar ignorante diante do perdão. Uma vez sentei-me com este padre, Sinfurd, que se afeiçoou a mim e eu a ele, e disse:

--Sinto-me burro. Não sei ler, escrever, e não entendo o que as missas dizem. Também não sei se Deus me perdoará por desprezar meu pai.

Sinfurd era um padre velho de acordo com os costumes da época, isto é, estava com trinta e três anos, a idade de Cristo, e seus cabelos, cor de palha, estavam tonsurados. Seus olhos castanhos, sofrendo de leve cegueira no esquerdo, eram simpáticos e seu rosto magro inspirava bondade. Era uma boa pessoa. Surpreendentemente, conservava todos os dentes e o corpo indicava robustez.

--Não há que se sentir assim. Se desejar, posso ensiná-lo tais artes. Mas vejo que quer se confessar. Por que acha que Deus não o perdoaria se Ele oferece perdão a todas as criaturas?

--Porque meu pai é pai por algum motivo, correto? Como podemos sentir isso com aquele que nos gerou? 

Ele sorriu.

--Você é esperto para as coisas, menino. E realmente, Deus, quando falou a Moisés, de fato instruiu o profeta a escrever os mandamentos, um dos quais se refere a respeitar os pais acima de todas as coisas, mas não o vejo desrespeitando o seu.

Inesperadamente, chorei.

--Ele nos tratava mal. E batia em todos nós, não consigo respeitá-lo. Serei enviado ao inferno.

Mas Sinfurd se compadeceu de mim e, paternalmente, me abraçou.

--Você é muito exigente consigo mesmo. Realmente, digo que o ódio não faz bem a ninguém e se não consegue livrar-se dele, coloque-o na espada em batalha, mas meu filho... seu pai está endemoniado, deve perdoá-lo. Jesus, na crucificação, olhou para os céus e disse: "Perdoai-vos, oh Pai, pois eles não sabem o que fazem". Os judeus achavam que Jesus era seu messias e, no entanto, lograram-no às mãos dos romanos, enviaram-no à morte. E, apesar disto, Jesus os perdoou. 

--Mas ninguém gosta dos judeus--eu comentei, confuso.

--A maioria não, realmente, embora vou lhe contar um segredo. O que o judeu de hoje tem com o judeu de ontem?--ele sussurrou--Não cabe a nós culpar o filho pelos pecados do pai, entende? E não acho que irá para o inferno porque seu pai foi malvado com você. Na verdade, é ele quem deveria ir por ter falhado em educá-lo. Pai e mãe devem se atentar para o dever divino que Deus lhos incumbiu, que é receber a criança e amá-la incondicionalmente sem, com isso, fechar os olhos para os defeitos que têm como obrigação consertar. Sabemos que a prática é diferente, mas o que é o pai terreno em comparação ao pai divino? 

"O Pai divino entende que somos falhos e miseráveis, mas Seu amor é tão incondicional quanto aquele por Jesus, que foi crucificado por nós. Ele não nos faltará, não lembra do que te falei: "o senhor é meu pastor e nada me faltará"? Ou mesmo: "ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam". Pois digo a você, filho, que bem-aventurados são os que, de bom coração, se entregam a Deus."

--Mas--eu contestei lentamente--eu não tenho bom coração se odeio meu pai.

--Não vejo ódio em você--retrucou o padre--Vejo ressentimento de quem sofreu nas mãos daquele que deveria te proteger, te guiar. Bom coração todos nós possuímos, mas qual estrada vamos seguir para cultivá-lo? Vivemos em dias obscuros e apocalípticos, meu jovem. Não vê que muitos questionam a própria fé para voltar a idolatria quando somos açoitados pelos pagãos? Isto remete muito aos dias em que Moisés levou quarenta dias e noites para chegar ao lugar que o Pai o havia indicado a levar os escravos que ele libertou. Em meio às dificuldades, aqueles se voltaram para adorar os falsos ídolos, o que provocou ira em santo homem. E sabe por que?

--Por que?--indaguei eu.

--Porque todos nós esperamos presentes e bênçãos do Senhor em momentos tranquilos. Na primeira tempestade, entretanto, olvidam da fé e apegam-se a qualquer coisa que lhes dê paz. Mas é mesmo paz quando se esquece que o Pai nunca nos deixou sós e desamparados? É como se você virasse as costas para mim e fosse cultuar estes seres absurdos que os pagãos chamam de "deuses". Ficaria triste por isso, é claro, mas não cessaria de rezar por sua alma e menos ainda desistira de você.

Aquilo me tocou. Sinfurd viu isso e me sorriu.

--Vê o que digo? O Senhor entende nossas dores mais do que pensamos, mas em cada batalha íntima que lutamos longe do olhar alheio, ele nos dispõe armas para fustigar as sombras que tantos que nos rodeiam jogam em torno de nós. Em vez de abraçar o ódio que seu pai terreno oferece, dê a ele a misericórdia que o Pai divino te ofereceria, se fosse você aquele perdido nas mais densas trevas.

Assenti, pensativo. Entendia, afinal, a palavra de Cristo e me fazia mais sentido as pregações dos padres. Olhei a ele, aquele bondoso homem que, na verdade, foi meu pai em incontáveis encarnações pretéritas e jamais havia desistido de mim. Abracei-o e disse:

--Obrigado por me salvar da danação eterna.

E Sinfurd chorou, pois, como ele diria mais tarde, ninguém o havia dito isso a ele. Sequer tampouco ouvira de outros como eu.

*                                                                                     *                                                                       *

Afinal, o que era a honra? Devemos demonstrar piedade e misericórdia para os inimigos que não cessam em atacar-nos? Naqueles dias, havia um distanciamento entre a pregação e a prática, talvez porque o medo falasse mais alto. Não julguemos, porque o instinto de sobrevivência foi nos colocado pelo Senhor e era natural que muitos, em anseio pela vida, fugissem e se escondessem. Ou partissem com raiva para batalha. 

Na verdade, não havia como escapar do mundo em que vivia. Se ainda era necessário fazer uso da espada, que assim fosse. Era preciso defender a terra, os costumes que fomos criados, as vidas a serem poupadas da moléstia dos outros. Em outras palavras: para todo um ataque, sim, era preciso revidar. Tratava-se, parafraseando as palavras pronunciadas pelo apóstolo Paulo, de "estarmos no mundo", conquanto nós "não somos do mundo". Sim, levantei a espada porque era necessário, mas de outros vícios que eram tolerados e incentivados, não tomei parte.

Cresci entre missas e campos de batalha. Rezava e lutava. Por Wessex, por Angla-Landa! Apiedava-me dos inimigos que vinham em êxtase tentar nos derrotar, a fúria que brilhava naqueles olhos era monstruosa e lamentável. Achavam que era pela violência que obteriam tudo que quisessem. Tolerar os inimigos, a nós que tínhamos as terras queimadas e as donzelas violadas? Oh, não. Eles desconheciam, em sua maioria, esta palavra.

Muitos dos estudiosos de sua contemporaneidade gostam de pontuar, quando não romantizar como fazem a modernidade ascendente, o enfrentamento da morte como uma das causas de os vikings darem tudo de si na pilhagem e no quase sucesso de terem tomado tudo que lhes fizessem frente. Não era bem assim. Eles tinham medo da morte, mas o orgulho que bradiam em seus escudos os impedia de reconhecer isso. Medo era sinônimo de covardia, cautela, de imprudência. Os valores que cultivavam eram materialistas. E não falo isso como se os cristãos de meus dias fossem exemplos puros. Quantos homens não lutei ao lado terem proclamado "Por Jesus Cristo, nosso Senhor!" e, no instante seguido, caído em selvageria com seus semelhantes? Quantos não matavam em desonra? Não digo lutar em batalha para sobreviver, mas matar de maneira covarde. E as donzelas que foram violadas por aqueles que afirmavam defendê-las? Ora, a verdade é que as sombras imperavam sobre os domínios de ambos os lados. Se posso fazer jus aos "inimigos", é que neles afirmavam o que se propuseram a fazer, e os outros, mais esclarecidos, agiam como hipócritas em nome de nosso ilustríssimo mestre.

Para os garotos pobres como eu, a expectativa de vida era ínfima, principalmente naquele contexto. E sobreviver à juventude era realmente um milagre. Mas nada disso corria em meus pensamentos. Se negasse que não gostava da adrenalina e de ter um propósito pelo qual lutar, estaria mentindo a vocês. Como falei, vivia aquele tempo sem exatamente ser daquele tempo.

Peço desculpas em adiantamento por este conto ser curto, mas optei por ser sucinto diante dos ensinamentos que me foram passados e a experiência que com essa vida tive. Ademais, vivi por pouco tempo. Entre vikings e saxões, vivi em batalhas, internas e externas. De mero camponês com ressentimento do pai e da extrema pobreza que nos dominava a vida, cresci um soldado cristão. Não desembainhava a espada até o último segundo, e rezava pelo perdão divino a cada vida esvaída. Creio que, ainda que evitasse o sangue, teria sido pior se estivesse em ambiente doméstico que me propiciasse sentimentos de amargura. Quando uma criança sem prospectivas em tais tempos recebe esta oferta, ainda que fosse da Igreja, não se recusava. 

Mas não temia meus inimigos nem seus gritos de guerra. Lutava com as ferramentas que tinha, e se um dia ainda trajei a cota de malha foi porque Sinfurd conseguiu obter uma usada de algum nobre que ele conhecia. A ele fui e continuo sendo grato por tantos ensinamentos que me fizeram ser alguém um pouco melhor. Ninguém se torna "santo", se santifica em ações em apenas uma encarnação, mas podemos nos aprimorar a cada existência.

Quando nos deparamos diante da morte, é quando reconhecemos que nossa vida não nos pertence. Quando a pobreza se coloca sobre nós, é quando percebemos que o orgulho não é nada. Quando a raiva dos nossos rivais, e suas soberbas, nos atingem, é quando devemos nos firmar no amor de Cristo. Não viemos para oferecer a outra face, mas para nos tornarmos cristões além de templos e pregações. Se reconhecemos a hipocrisia e as atitudes em falso do outro, é porque em nós também reside a hipocrisia e atitudes desfalcadas. 

Antes de apontarmos o dedo para o próximo, devemos olhar para dentro de nós e vencer o dragão que nos habita o coração. Não odiei os vikings pelos seus cultos ou por serem belicosos, mas por quererem nos tirar a liberdade e a paz eu os lamentei. Não tirei suas vidas para mostrar-me senhor da vida e da morte, porque desta soberba posso garantir que não nutri. Fi-lo para que pudessem ver que tudo o que fazemos há um preço. 

Por isto, deixo meus pensamentos aqui registrados neste novo tipo de papel. Que minha voz seja lida, meus pensamentos sejam vistos, minha memória seja compartilhada. Para que não desistem das batalhas, dos inimigos que os assombram ao lado de fora. Para que sejam humildes nesta vida e não julguem o próximo. Para que vejam que nada nos pertence realmente, o mundo é fixo, mas nós não. Somos passageiros, cordeiros de Deus em busca de sua fazenda, seguindo eternamente seu pastor. Que possam os que aqui lerem entenderem o que digo. Não se trata, nunca se tratou, de gladiar contra a fé de quem quer que possuísse, mas do embate entre vícios e virtudes que, embora projetados sobre os outros, caracterizam a nós mesmos.

E lembrem-se, meus irmãos e minhas irmãs, que não é o ódio que responde às lutas do mundo, mas o amor. É o amor que revoluciona internamente e se expande para os outros. Sejam amor em um mundo frio e regido pelo orgulho. Ninguém sabe mais que ninguém. Antes de criticar, reflita se aquela crítica não vale por você também. Antes de bradar "sou cristão", pense, reflita, pondere se está sendo cristão em suas ações. A reza é bela, mas mecânica e inefetiva se brade as armas contra aquele que necessita do amor. Afirmar-se cristão torna-se valor ideológico ilusório se não ajuda os que precisam, se julga os que caem, se aponta o dedo em riste para o erro de terceiros, se se entra em discussões que refletem a disputa de ego. Afinal, atire a primeira pedra quem nunca cometeu um pecado. 

Com isto, deixo meus agradecimentos a todos que vieram cá ler e refletiram sobre as palavras que deixo de minha memória. Ao Pai, em primeiro lugar, por ter me oferecido incontáveis oportunidades de reforma intima. À médium e seus guias pela disponibilidade de tempo e energia, pelos bons corações e estímulos do Senhor que me trouxeram aqui. A todos, desejo o melhor, que o amor persevere e conquiste de verdade cada coração e alma, para que possamos encontrar e reencontrar Jesus diariamente e levarmos luz em todos os cantos a fim de repelir as sombras que ainda persistem em nós e outrem. Desejo, pois, um excelente ano porvir. - Alfred de Mércia.





sábado, 26 de dezembro de 2020

Contos Medievais, Guerras II: Avalon.

Nota do guia de Ogum: "Boa noite a todos, vós que vindes cá para mais um conto a ser lido. Este conto, por mítico que possa parecer em seus elementos primários e essenciais não o é. Creio que a grande introdução já fora necessária ser feita anteriormente, por isto hoje serei breve e, como de costume, somente tecerei comentários quando for relevante que o faça. Que assim seja segundo a vontade do Pai Criador que nos trouxe hoje neste sábado seguinte a celebração da encarnação nesta orbe de Nosso Senhor irmão e mestre Jesus Cristo.- George."

"Irmãos e irmãs encarnados, vos saludo deste plano espiritual de onde vos comunico através desta jovem médium. No dia de hoje, tão perto de findar outro ano deste século ascendente espiritualmente, me apresento para importante missão. Consciente sigo na tarefa de que nem todos acreditarão no que transporei em palavras, mas nem diante de tais dificuldades recuarei. Conversei muito com o bondoso mestre Saint-Germain, de quem obtive permissão em vir cá para expor, ainda que brevemente, deste período que, atualmente, muitos de vós enxergueis como lenda, mito cristianizado pela Igreja medieval a fim de despojar-se dos elementos pagãos que configuram a história do Rei Arthur. Mas, para além das aparências, a mensagem está cá para ser levada a todos, sem distinção de gênero, cor, raça, ideologias, crenças. É somente um espírito que fala para outro que desejar aprender a ser melhor. 

Acho relevante, de minha perspectiva, tecer um panorama que pode vir a satisfazer a curiosidade dos leitores, mas, mais que isso, vem a clarificar este período de encarnação. Por mil anos encarnei na Terra, e por mil anos permaneci no erro. Fui um auxiliar das primeiras dinastias do Egito que incorreu no perjúrio de tirar a vida do grande faraó; estive na Babilônia, testemunhei as arrogâncias dos que desejavam construir a Torre de Babel. Na realidade, minha alma foi muito marcada pelos mais diversos eventos que, segundo vossa concepção, periodizam tais tempos em "Idade Antiga". Também estive presente em Jerusalém quando nosso Senhor foi crucificado, mas mesmo enquanto camponês ignorante, de longe somente absorvi seus ideais, mas todos sabemos quão penosa é a estrada para os que se conservam em orgulho. Demoram muitas encarnações e tantas mais doutrinações no plano superior para que nós não persistamos nos pecados da vida. Ora sejamos como Pedra e negamos o que há em nosso interior, ora agimos como Judas ao trairmos nossos princípios em prol do materialismo. Dito isto, é quase beirando a obviedade o especular que a encarnação presente se desenrolou. Colhi o que plantei e, de certa maneira, soube disto. Pedi pelas provações mais duras, e se em algumas sucedi, outras me compliquei. Por isso, reencarnei mais algumas vezes, e, outra vez registro gratidão a Saint-Germain por seu auxílio eterno nesta minha caminhada. Depois desta vida que virei expor a todos vós, retornei à Terra por todo o medievo, quase sempre à Inglaterra: fui um dos ilegítimos de Carlos Magno na França, em seguida um camponês miserável em Yorkshire na Inglaterra, cheguei mesmo a ser um padre católico na região próxima da Alemanha, para então ser um dos condes dinamarqueses que fizeram parte da conquista de Canute, o Grande, em 1016. No século seguinte, fui mais uma vez padre e responsável com outros na propagação do culto de Thomas Beckett, de onde peregrinei descalço até Roma. E, finalmente, voltei como rei inglês cuja vida foi abreviada em meio ao caos da guerra civil. E por que digo isso tudo tranquilamente? Para mostrar que, quanto mais orgulhosos somos, mais humildes a lei do progresso demandará que nós nos tornemos. E se nossas vidas apresentam amenidades, que sejamos gratos pela misericórdia do Pai sobre nós. E ao contrário, também. Enfrentei vários tipos de morte e renascimento, passei pela fome, pestilência, guerra... componentes bíblicos do Apocalipse. Mas tudo há um propósito, meus caros e caras irmãos da Terra. Um dia eu permaneci no erro e que fiz comigo se não prolongar tortuoso caminho toda santa vez? É como diz nosso bom amigo Saint-Germain: nós somos os que complicamos a vida porque o Pai não deseja que nenhum de nós sejamos infelizes. Reencarnar não precisa ser um castigo, pois respirar o oxigênio e estar em meio às obras divinas não é punição nenhuma. O Pai ama a todos igualmente, sem distinção, sem favorecimento. Mas nós, em nossas limitações, percorremos os caminhos mais tortuosos. E não digo somente nos atos mais criminosos, mas nos do dia-a-dia: quando apontamos o dedo para o irmão e nos achamos superior por termos feito algo que ele não faria; quando julgamos a dor do próximo por não sentir da mesma forma como nós sentimos; quando comparamos, criticamos, desdenhamos; quando gritamos; quando recusamos ajudar o outro... Quando não levamos a palavra do Pai ao nosso rival em oportunidade que se abre. Quando não olhamos para nós mesmos e nos indagamos a razão que nos leva a tratar tão mal o nosso semelhante. Que moral possuímos nós em esperar o melhor do outro se nem praticamos os sermões dados gratuitamente àquele que, em nossa concepção, nos é inferior e incapaz de fazer algo de útil? Ações pequeninas, de fato, as quais muitas das vezes nos passam despercebidos. Que fique esta reflexão, logo de início, porque eu cometi tudo isso ao longo de minha existência na Terra, seja ela qual for. E desde o século XV, quando Cristo me ofereceu outras oportunidades de auxílio espiritual que não mais envolvessem o ciclo de encarnações, não hesitei em prontamente aceitar o trabalho que me levou aqui. Por isso, deixo esta reflexão não para fazer-vos sentir inferiores e limitados, mas, muito pelo contrário, para acender a luz que todos possuíres a fim que possais, como também eu pude e sigo ainda na lei do progresso que me envolve, dissipar as sombras que vós mesmos encucais em torno de vós.

Tendo dito isto, e penso que minha eloquência patrística ainda permanece forte em mim (por ventura, deixo registrado meu pedido de desculpas por ter-me prolongado), podemos dar início à memória desta existência particular convosco. Com isso, vou aqui apresentar-me segundo o nome que me foi dado nesta encarnação: Saewine. Nasci em 402 D.C na região que, em vosso português, escreve-se Jutlândia. Hoje em dia ela se situa entre a Dinamarca e a Alemanha, tendo sido, na verdade, por muito tempo subjugada a esta última, próxima particularmente da Saxônia, quando não considerada sua tribo um prolongamento dos saxões de outrora. Contudo, não deveis ler neste prolongamento como sinônimos, pois não era assim que funciona. Seria o mesmo que falar que vós e vosso primo são irmãos, quando, na realidade, gerações interpõem-se em aparentamento próximo.

A Jutlândia era composta por diversas tribos, grande parte das quais viviam em brigas, embora compartilhassem alguns dialetos em comum, mas um sistema de crenças religiosas muito similar, para não afirmar que acreditavam em um panteão de mesmas deidades. Da Jutlândia do norte, porém, predominava o culto ao deus do trovão, Thor, conquanto mais ao sul, rezava-se mais para Odin e, pasmem podeis ficar, Loki. Se desconheceis estas divindades, vos explicarei: os povos nórdicos não eram diferentes dos gregos, romanos e indianos que, para explicar os fenômenos da natureza, nomeavam de acordo com o seu entendimento. Se vejo um trovão cair numa árvore que, por conseguinte, tira a vida de um companheiro meu, logo percebo que naquele trovão reside algo poderoso contra o qual mero humano não pode lutar. Houve, é verdade, idiotas (se me permitem usar este termo) que já mesmo declararam guerra ao deus do mar, Netuno. Mas isto foi lá para Roma Antiga. 

Os nórdicos simbolizavam seus deuses em dois grupos: os aesir e os vanir que, como falei, representavam mais o medo da natureza que outra coisa. Em termos espirituais, algumas dessas entidades seriam falangeiros (e a umbanda traz isso melhor, vejamos, por exemplo, o falangeiro de Iansã: não é um orixá que está atuando quando incorporado ou não, mas um espirito que trabalha sob seu 'círculo de atuação') destes "deuses". Não havia o Odin que as histórias indicavam, seria, se posso dizer, uma tentativa de explicar a presença de um espírito divino que desceu à Terra para ensinar aos povos primitivos (no sentido de conhecimento, sabedoria, cultura moral e espiritual) o desenvolvimento da consciência racional. Isso vos indicaria semelhança com outra presença encarnada? Pois sim, embora não sejam as mesmas entidades. Entretanto, como os espíritos que viviam nestes tempos (século IV, V e até mesmo à época dos Vikings) estavam presos fortemente à influência da matéria corpórea e os instintos dela que não sabiam controlar, era natural que projetassem sobre figuras divinas suas faltas. Claro que isso não isentava a apropriação de espíritos perdidos e maliciosos com os pobres sujeitos: de onde mais surgiriam os gigantes, lobisomens e Loki, responsável pelo Ragnarok? 

Os aesir, portanto, englobavam seres como Odin, Thor, Frigga, Baldin e alguns outros mais. Os vanir, por outro lado, chamados desdenhosamente de fazendeiros por alguns aí, eram compostos por Freyja, Frey, e assim por diante. É um panteão complexo e muito grande para me alongar mais do que o necessário. Como falei, cada um representava uma força da natureza, humana ou não. E pelas regiões da Alemanha, Suécia, Suiça e Dinamarca eram onde tais cultos, mesmo com o advento do Cristianismo, predominavam com força. Se foram parar na Inglaterra, por exemplo, isso se deu pelas ondas migratórias que ocorriam cada vez mais.

Contudo, a Inglaterra do século V não era nem sequer conhecida por este nome, mas um amontoado de reinos que guerreavam entre si, chefiados pelos últimos romanos que, orgulhosos, se recusavam a partir. O Império Romano, que caiu em torno dos anos 430 a 450, dominou um dia a ilha que, na verdade, era conhecida como Abion, ou, para vosso melhor entendimento, Avalon.  Povos celtas e outras tribos cujas identidades se perderam pela História tinham também seu próprio sistema social, costumando ser nômades e avessas a qualquer tipo de violência. Na vossa contemporaneidade, a herança mais forte da presença (até mesmo espiritual) destes indivíduos se encontra na Irlanda.

Bem, como dizia, os romanos dominaram Avalon por muitos e muitos anos, não sem dificuldade, é claro. Pois os celtas, para além de nômades, eram excelentes guerreiros e ofereceram resistência aos invasores. Um exemplo que vossos historiadores costumam resgatar para pintar cenário caótico é o de Boudica (ou Bodicéa, dependendo da grafia). De essência bélica, aquela foi uma entidade que veio passar por provações muito dificeis, e, embora seu desencarne não tenha sido pacífico, foi necessário para sua evolução espiritual. Com Boudica e outros líderes subjugados, os romanos fizeram prevalecer suas crenças e suas atuações. Londinum, por exemplo, já era capital importante naqueles dias, tanto em termos econômicos quanto políticos, ainda que fosse em Eorfic que residisse os nobres reminiscentes. 

Conforme o império se desmantelava, as tribos germânicas (e quando uso este nome não me restrinjo ao território que, pela vossa modernidade, conheceis como Alemanha, mas as mais diversas cidades e sub-cidades que ali compuseram em sua independência; e além destas, a Jutlândia, Kattegat, Copenhag, entre outras) cresciam em poder. Não à toa muitos de vossos estudiosos apontam como principal fator para a queda do poderio romano o aumento das invasões germânicas. Aqui, neste pequeno, mas relevante exemplo, vedes como a lei do retorno funciona: aqueles que os romanos chamavam de "bárbaros" foram por eles dominados de forma tão intensa que eles, naturalmente, revidaram o que receberam. Pois para tudo que dais, receberás. 

Nesta época, é verdade que Roma já era cristã. E os romanos relutavam e bastante em enviar missionários para os lados da Germânia porque acreditavam que, por serem "sujos e bárbaros", não mereciam receber a palavra de Cristo. É surpreendente que isto se tenha passado, mas, a elitização já dava por aí e a deturpação dos ensinamentos do mestre também. Contudo, os bispos de Roma acreditavam que se o império desmantelava, foi por terem falhado em seguir nosso Senhor. Dali renovaram a incontáveis tentativas de converter os mais diferentes povos. Apesar das dificuldades e dos martírios, não desistiriam nem mesmo no século XI, quando, no ano 1000 DC, ainda se achavam "resquícios" dos que reprovavam práticas tomadas como pagãs ainda entre suas ovelhas cristãs.

Mas, por enquanto, desconhecia eu e tantos outros da tribo que fazia parte a palavra e os ensinamentos de Jesus Cristo. Quando nasci, meu pai estava para se tornar o novo líder (não existia, até então, a lei da primogenitura, por isso tornava-se chefe aquele mais apto a liderar o povo e isso devia-se à força) e já era casado pela quinta vez. Não havia relação monogâmica tampouco, pois quanto mais crianças, tanto melhor, e viver nos anos 400 era quase um milagre: a higiene não era valorizada, a medicina era reflexo de "superstições" e, como consequência destes fatores aliados à ignorância dos sujeitos, a taxa de mortalidade era altíssima. A estimativa de vida para uma mulher era 20 anos e para um homem, 30. A mulher porque, uma vez que sangrasse a primeira vez, já estava apta a ter filhos e, desde os treze anos, já dava ao esposo crianças. Como falei antes, a medicina era muito limitada, por isso os partos provocavam doenças que ceifavam a vida da jovem. O homem tinha suas próprias batalhas a lidar: quando não morriam com uma lança atravessada no pescoço, seu último suspiro era resultado de doenças dos mais diversos tipos. Crianças, então, que dizer destes pobres inocentes?! Pelo tempo de meu nascimento, dez irmãos já haviam sido enterrados, duas irmãs foram casadas "precocemente", e as outras duas estavam sob a guarda da madrasta. Alguns outros irmãos, dez, quinze anos mais velhos que eu até, viviam como nômades. A conceituação de família era complexa e faltava a afeição para unir e apaziguar as desavenças que, não raro, surgiam entre seus membros.

Apesar disso tudo, era relativamente comum que houvesse homens e mulheres que vivessem para além da expectativa comum. Meu próprio pai, ao se tornar chefe tribal, contava quase cinquenta anos. Minha mãe, por outro lado, tinha vinte e dois quando me deu à luz. Como tenho ciência de que os nomes são muito difíceis de serem escritos, darei a vós somente os daqueles que têm mais "importância" para a história e de maneira que se familiarize convosco. Fui, portanto, nomeado Saewine e "batizado" (na verdade, embora o ritual seja similar ao da Igreja Católica com poucas diferenças, chamava-se isto "porta de entrada para os deuses", no qual a criança era reconhecida e abençoada pelas deidades) quase no mesmo instante. Minha mãe, uma moça loira de olhos claros e feições simples, abraçou-me contra o peito e falou:

--Bendita seja Frigga por tê-lo trazido em segurança, meu filho.

E assim me embalou ternamente. Mais tarde, minha mãe me diria com orgulho que fui tão bravo em vencer a gravidez porque Frigga havia me abençoado, e concomitantemente lamentaria o destino de meus irmãos que foram perdidos em abortos espontâneos. 

(Nota de Ogum: "Vê se aqui o que André Luis já demonstrou nas obras que Chico Xavier psicografou a respeito das gravidezes. Embora o espírito possua o livre arbítrio de permanecer ou não na preparação da encarnação, tudo isso é planejado. Quando a mãe de Saewine remete agradecimentos à deusa por isso, em verdade, o que ela quer dizer é que ela foi apresentada a Saewine no plano espiritual, onde concordou em receber a criança em seu ventre sabendo que essa gravidez prosseguiria sem tormentos pela missão que o menino deveria viver... a não ser que ele mudasse de ideia, como acontece com outros espíritos em momentos similares da gravidez. No entanto, estes irmãos de que fala a entidade que aqui está transcrevendo a memória, foram espíritos que, justamente como falei, tomados pelo medo, recusaram a vida. Entretanto, outros ainda constituiram em prova para a mãe terrena de Saewine, que tinha a expiar pelo passado não tão distante.")

Pois bem, recebi uma educação bélica, como era de se esperar. Conforme crescia, me adaptava a um mundo novo que me introduziam. O senhor meu pai derrotou o chefe da tribo da Jutlândia do norte, e a partir de então lidou com certa oposição que quase levou a um conflito civil. Mas havia sacerdotes, como toda crença possuía, fosse ela qual fosse, que representavam a ligação terrena com o divino. Alguns destes eram médiuns extensivos, outros, apenas charlatões. Curiosamente, era possível distinguir um do outro, e não era à toa que os anciões costumavam ser os responsáveis por eleger aqueles que tinham como missão trazer alento e alerta das divindades. Como a nossa tribo cultuava Odin, o sacerdote era encarregado de consultá-lo e, de quando em quando, fazer sacrifícios. Em essência, não éramos diferentes dos vikings de séculos mais tarde. Bom, foram alguns destes (em média, eram três; mas isto variava de tribo para tribo, que costumava ter somente um, o chamado "vidente") que impediram desperdício de sangue.

Uma vez consolidado o poder, o senhor meu pai passou a determinar missões para seus cinco filhos mais velhos, meus irmãos de quatro casamentos anteriores, enquanto cuidava dos que ficavam. Eram excursões no sentido militar do termo: cabia a cada um levar um amontoado de homens para dominar, saquear e, claro, tomar as esposas de terras vizinhas. O crescimento populacional estava ficando incômodo, por isso se viu na necessidade de expandir para o oeste. Afinal, que fazer com tanta gente e terra que, em invernos mais duros, propiciavam produção insuficiente? Não vos esqueceis, por surpreendente que possa isso vos parecer, que aqueles guerreiros que comandavam toda uma tribo eram fazendeiros. 

E a cada inverno mais rigoroso, o senhor pai ficava mais preocupado. De vez em quando, afundava-se na bebida, pois não gostava de lidar com problemas que não sabia ou sequer tinha como resolver. Dobraram os sacrifícios, e me lembro de quando era garoto duas donzelas terem se oferecido para serem sacrificadas. Donzelas no sentido como o termo literal explica: intocadas, virgens. Perdidos em ilusões que mascaravam a dureza da encarnação, pareceu-nos que isso resolveu nossos problemas. Em meio a tais tensões, recordo de estar à direita de meu pai em uma noite de festas. Fazia um frio dos sete infernos, e era eu o único jovem masculino da longa ninhada do chefe da tribo a não ter partido para as invasões. 

Vendo-me de cara fechada, ele soltou uma risada e falou:

--Saewine, por que está carrancudo? Que te faz assim, garoto?

Antes que respondesse, a senhora mãe o fez por mim com um tom que indicava divertimento:

--É do anseio deste filho seu seguir o caminho dos irmãos.

Naquele dia, ela usava um vestido tingido de vermelho com bordado em dourado e longas mangas que, no entanto, prendiam-se em torno do pulso. Os cabelos dourado estavam presos em longa trança, e em seu rosto havia sinais de robustez. Pela forma como a barriga salientava-se e os seios pareciam cheios, estava outra vez prenha. Meu pai, ao seu lado, já não era tão belo quanto antes: via-se ao centro de sua cabeça espaço que denotava ausência de cabelos. O restante dos fios que caíam às costas eram já grisalhos, e que desapareciam no dia seguinte, pois, impaciente, rasparia toda cabeleira que ainda havia. Uma barba longa e trançada com anéis de esmeralda caíam sobre o peito. O número de anéis na barba determinava quão poderoso era aquele que os portava. Usava roupas de couro e tudo em si reportava riqueza e poder. Mas um observador atento notaria as bolsas em torno dos olhos, as rugas que marcavam a pele, as feridas que não cicatrizavam ou mesmo aquelas que lhe marcavam. O nariz era torto, o sobrolho mais baixo que o outro, e o lábio, ressecado, parecia caído. Faltavam-lhe alguns dentes, e o hálito não era agradável. Em suma, era como se a morte deixara nele sua marca.

--Claro que é--ele rugiu, e os outros companheiros que o respeitavam e desejavam ter de sua estima, riram--Esse daí é melhor que Thoryn, minha cara. Ele sabe como portar uma espada.

E, virando-se a mim, falou:

--Tenha paciência, garoto. Sua hora vai chegar. 

--E quando é?--não consegui segurar a língua.

Em vez de me dar um tapa pela indolência, ele sorriu. Encarou-me por um momento, fitando os olhos azuis e a cabeleira loura que havia herdado de minha mãe, mas a ferocidade e temperamento que obtive dele, certamente. 

--Os deuses dirão no devido tempo.

Algo em mim fê-me pensar que deveria treinar a paciência. Não sei dizer muito bem o que foi, mas, retornando às memórias com mais finco, vejo que era a mediunidade a aflorar. No meu entendimento pérfido ainda, entendia que os deuses falavam conosco, por mais que em meu íntimo houvesse aquela intuição de algo maior que essas divindades. Nunca ousei expressar tais questionamentos, primeiro porque o ambiente não era propício para tais questionamentos e segundo que poderia ser morto por isso. Muitos de vós afirmam que a heresia foi inventada pela Igreja Católica a fim de queimar os que contra seus dogmas pensassem ou criticassem. Digo-vos que isso existia muito antes. Na verdade, havia já no século seguinte exemplos de "heresia" como com os visigodos que aceitaram a fé ariana em vez da genuinamente cristã, mas não me cabe dizer mais que isso. O ponto que venho dizer, meus amigos, é que o homem quando tem poder em suas mãos e falta a ele o discernimento da alma para fazer bom uso do que recebeu do Pai, entrega-se facilmente a corrupção moral.

De toda a forma, como vinha dizendo, uma intuição se abria em mim e me dizia que deveria observar mais, ouvir mais e falar menos. E foi o que passei a fazer. Meus irmãos mais velhos debochariam de mim, alegando, inclusive, que era filho da traquinagem de Loki, mas nem mesmo nosso pai permitiria tamanha ofensa. Isso resultou em briga feia que, lamento dizer, teve como consequência a morte daquele que foi mencionado sob o nome de Thoryn. 

Sofria com a rejeição dos irmãos mais velhos que almejava ser como eles, e isso levou-me a solidão. Talvez alguns de vós recordarão de Ivar, o sem ossos, e o paralelo pode ser traçado, embora não tivesse nascido com nenhuma deficiência porque meus desafios eram outros, psicológicos, por assim dizer. Contudo, cabe citar a velha máxima de que os quietos costumam ser os piores. Valeu para mim como valeu para Ivar dois ou três séculos seguintes ao meu.

Treinei com ferocidade e não fiz amigos. Carregava em mim uma solidão que, na verdade, era mais mágoa, ressentimento de irmãos que deixaram-me para trás e jamais realmente me aceitaram entre eles. Isso me fez mais forte, paradoxalmente. Conforme nosso pai envelhecia, ele mantinha os olhos sobre mim. Lembro-me de Gyda, irmã de quem fui próximo, já casada com um nobre menor de tribo vizinha, ter-me visitado aos dezoito anos.

--Meu marido regressou recentemente e me pediu para lhe trazer notícias.

Arqueei as sobrancelhas para ela. Como ela não sabia escrever ou ler, não nos comunicávamos havia alguns tempos. Por isso, as notícias que desejava que eu recebesse ela enviava por aqueles que confiava. O esposo dela era ninguém menos que o irmão do avô de Cerdic, o futuro rei de Wessex.

--E que notícias são essas?--indaguei. Havia regressado de uma pilhagem com colegas seletivos que, no curso da vida, se tornariam meus amigos. Foram eles: Ragnar, Regynald, Lotair, Otyr e Bald. 

--Confirmaram que há terras à oeste. O império caiu e os outros estão tomando conta dos territórios deixados por eles.--ela me sorriu. Embora fosse, segundo os padrões da época, uma esposa exemplar, Gyda não me enganava. Era uma escudeira e lutava tão bem quanto a lendária Lagertha.

--Os romanos ainda ocupam tais territórios--lembrei-a. Não me interessava, à princípio, o que havia em Avalon, terra mística que, no entanto, havia sido abandonada pelos deuses e caiu nas mãos de estrangeiros. Queria ir para o extremo norte e subjugar um rei importante para provar meu valor. Era assim que um rapaz de cultura bélica como a germana, que, sem dúvida algum, disto absorveu dos romanos, era educado. E não vos esqueceis que o meio onde habitamos nos influencia bastante moralmente.

--São poucos os que persistem--ela me informou, ansiosa--Há um general chamado Aurelinus Ambrosius que está reunindo as tropas para derrotar um falso rei chamado Vortigern. Alguns dos anglos e dos saxões estão partindo para esta oportunidade. Na guerra civil, sussurram, ascende-se novo poder.

Arrepiei-me com aquelas palavras, pois senti que os deuses falavam através dela.

--O que quer dizer com isso? Odin fala por você?

Gyda deu um sorriso afetado.

--Talvez tenha falado através de meu marido, que me enviou aqui.

Ri sem humor. Como eu era desconfiado!

--Ah, valha-me os deuses! Ele não gosta de mim este seu marido, creio que deve preparar-me para alguma armadilha! Sem dúvida aliou-se ao nosso irmão para me derrubar porque, na ilusão dele, crê que sou o filho favorito de nosso pai.

Gyda riu alto e eu, não nego, me assombrei com seu senso de humor. 

--Por que rir, mulher?

--Porque você é um tolo--e, dizendo isso, esbofetou-me as faces--Pare com este orgulho bobo, que o impede de seguir adiante para novos horizontes. O que importa se é favorecido ou desfavorecido pelo pai? Por que é tão relevante demonstrar quem é diante de nossos irmãos, que agem como hienas entre si? Há oportunidade em Avalon, escute-me, irmão, por favor. Convoque os homens que tem e...

--Pois que homens tenho se nenhum me segue?--falei, movido pelo temperamento.

--Nenhum o segue porque preferiu se esconder no conforto das saias da mãe!--ela me acusou de covardia e não nego que considerei levantar a mão, mas algo me impediu. Mais calma, Gyda disse--Seja corajoso. Há um destino lá para você, não viria aqui se não acreditasse que não houvesse, irmão. Saiba que meu esposo possui por você fraterna afeição. Eis a oportunidade por que tanto sonhou. Não é Kattegat ou outro estado que lhe proverá riquezas e títulos, pois aquelas terras ao norte são vazias e improdutivas. Sua ascensão reside à oeste. E irei com você.

Pensei em rosnar debochadamente, dizer que ela não poderia ir comigo de forma alguma. Mas, por mais embrutecido que um homem possa ser, o amor, seja qual ele for, quando sincero é capaz de operar mudanças. Aquietou-me, pois, o temperamento e fê-me aquiescer a cabeça e dizer:

--Tudo bem. Vou chamar Regynald. 

*                                                                             *                                                                              *

Vertigern havia se quedado morto quando depositamos os pés na ilha de Avalon no porto que hoje em dia reside o condado de Devon. Mas os anglos e os saxões, inimigos de longa data e que haviam se juntado por ouro, traíram-no ao fim da expedição e contribuíram para sua queda. Contudo, não era tão fácil quanto se poderia prever. Havia ainda romanos que resistiam e muito bem. Ambrosius era um deles. Pai de Uther Pendragon, ele se responsabilizou em unir os últimos romanos e cavalgou contra os anglos e saxões pelo norte de Avalon. Lutou bravamente. Não perdeu uma guerra sequer. As perspectivas não eram otimistas.

--E, no entanto, há uma fraqueza--eu falei, contemplativo--Deve haver, ninguém é invencível. Se os deuses morrem, os humanos também os seguirão ao túmulo.

Dover era, à época, vazia e mal guardada. Havia residências de pedra, pequenas e insignificantes, que eram somente montadas à guarda por espíritos pretorianos que não admitiam ter perdido suas posses para seus inimigos. Na ocasião, o castelo que era mais uma fortaleza já estava a cair aos pedaços, mas servia, por ora, aos nossos propósitos. Mal iluminada, escondia-nos bem. E o vilarejo a que aquela fortaleza deveria proteger de invasores ficava não mais que três quilômetros e meio. Pelo menos foi o que supomos.

Sentados ao redor de uma fogueira, contava, comigo incluso, cerca de quinhentos homens. Esperávamos que os irmãos do esposo de Gyda trouxessem mais, segundo ele, estavam a caminho, o que aumentaria consideravelmente nossa vantagem.

--Precisamos, primeiro, mapear o território--indaguei, sem esperava comentários dos outros. Sentia-me incrivelmente inspirado naquela noite em particular, embora pouca experiência contasse, de fato, para liderar aquela expedição.--Do contrário, falharemos miseravelmente. Ouvi dizer que há ainda celtas por aí. 

--Povos da floresta que vivem e esperam pelo momento da vingança--contemplou Gyda--Poderiam ser aliados.

--Não--falei, peremptoriamente--Eles nos trairiam na primeira oportunidade. Poderiam estar nos observando enquanto falamos. Dos relatos que chegaram aos meus ouvidos na Jutlândia, eles atacam enquanto os inimigos dormem. Não podemos confiar em gente assim... E como perderam as terras que lhes pertenciam, por que entregariam a nós? Não há lógica neste raciocínio.

--Mas estamos em desvantagem, Seawine--lembrou-me Lothair--Conhecer tudo isso é pedir para ser atacado. Não acha que Ambrosius já não tem conhecimento de nossa chegada?

--É provável, mas ele está ocupado com os anglos e os saxões ao norte. Estamos ao sul--falei--Até agora não provamos ser ameaçadores, ou algo assim. E precisamos ter certeza de que não teremos rivais que nos equiparem ao que viemos fazer. Precisamos observar antes de atacar, ou seremos destruídos. Precisamos, meus caros, nos antecipar aos nossos inimigos se desejamos conquistá-los. Portanto, discrição nos próximos doze meses. 

--Doze meses?!--exclamou o esposo de Gyda.

Sorri a ele.

--Sim. Poderíamos, é verdade, usar da surpresa como fator para conquistar os próximos povoados, mas o alarme sem dúvida se espalharia e pode ser que Ambrosius envie generais competentes para nos subjugar. Se conhecermos o que ele pensa, como age e que tipo de pessoa é ao conviver com aqueles que, certamente, compartilham alguma coisa com este homem... Teremos como fazer da conquista algo completo.

O plano, sem dúvida, parecia perfeito quando foi traçado em concórdia com todos os presentes. E, de fato, funcionou por muito tempo. Contudo, seja na juventude ou na maturidade, a vaidade é veneno terrível! E eu não fui exceção. O excesso de confiança me cegou, fazendo-me crer ser melhor que todos aqueles que me cercavam. Em vossa linguagem moderna, poderíeis me qualificar como um "babaca".

*                                                                                     *                                                                       *

Aurelius Ambrosius desencarnou mais cedo que pensávamos e no auge de sua "reunião" dos reminiscentes romanos de Avalon. A causa que o levara de volta à pátria espiritual foi enfermidade. Aquele era um homem honesto e bondoso, cristão nas ações (pois, leitores, não penseis que somente os convertidos e seguidores de Cristo viviam em batinas ou em templos; nem todo espírito que viveu fora destas conformidades era menos crístico em sua formação espiritual e moral. Vide Platão, por exemplo) e que tentou o que pôde refrear a leva de espíritos "atrasados" àquela terra que um dia mesmo abarcou o misticismo em sua forma mais pura. Mas quem de nós haverá de lutar contra a vontade do Pai? A verdade, para o bem ou para o mal, era que tudo aquilo era para acontecer. Se não pela via pacífica, pela outra via de acordo com os espíritos encarnados nestes tempos, infelizmente.

Contudo, seu filho, Uther Pendragon foi eleito rei à ocasião da morte de seu pai. Para os leitores modernos, explico: no século V depois de Cristo, Avalon era o nome dado para a região que acoplava sete diferentes reinos que vinham se formando desde a partida dos romanos. No entanto, cada reino, embora elegesse um chefe tribal sob o epíteto em latim "Rex" que significa rei, devia responder a uma autoridade maior que era visto como o Grande Rei. Esta figura aparecia em Vertigern, por exemplo, a quem reinos menores deviam obediência, e que foi perdida em rebelião que trouxe os anglos e saxões, ocasiando, afinal, em sua morte. Ambrosius, humilde que era, recusou o título de Grande Rei por não crer ser merecedor de portar tal título já que ele acreditava ter falhado em reunir toda a Avalon (que incluía o País de Gales e partes da Escócia). 

No entanto, Uther era mais ambicioso que o pai e prontamente demandou que fosse reconhecido como o Grande Rei. Houve uma grande cerimônia situada em Londinum (atual Londres), e de lá observamos quão astuto era este soberano. Apesar da pompa, não de uma coroação, mas do conjunto de figuras aristocráticas e clericais (podendo estas variar entre o cristianismo e o não-cristianismo) em reconhecimento simbólico de seu poder, eu e meus companheiros notamos que o silêncio das tribos que um dia derrubaram Vertigern havia sido comprado com ouro e terras férteis.  

Nessa época, infiltramo-nos entre tantos outros, vivendo no interior onde nem a Igreja mal estabelecida ou o poder político de reis menores nos alcançariam. Muitos de meus colegas se casaram, se é que posso usar este termo, já que eram, como os vikings depois deles, fora da tendência monoteísta. Isto, devo ressaltar, não nega que havia, sim, casamentos monogâmicos. Mas a poligamia, neste século, não era incomum.

--Está na hora--eu falei. Havia se passado quase dois anos, de pouco em pouco fomos pilhando, mas não matamos os vilões (homens e mulheres que viviam em vilarejos) porque queríamos que se espalhasse o boato de invasão. A ideia era que isso se mostrasse um descuido dos reis menores e, consequentemente, da incompetência do Grande Rei em proteger seus súditos.

Não me orgulho de minhas ações, Deus sabe em meu coração que viver em trevas é como cair eternamente em ignorância, como se vivesse em um loop infinito. Mas, de certa maneira, fui instrumento para que, do mal que fiz, propagasse o bem. Vereis o que digo a seguir.

Foram meses plantando a discórdia, incitando rebeliões aqui e lá. Confesso que, quando não bebia, a culpa remoía meu coração. Quando somos infelizes, projetamos nossas amarguras nos outros. Comecei a identificar defeitos nos amigos mais leais, embora não verbalizasse os pensamentos que, sem dúvida alguma, sintonizavam-se com outros desencarnados que queriam se vingar de mim. Como falei, foram tempos terríveis. Como ser feliz diante de tantas atrocidades?

As piores guerras, digo-vos, são as internas. Quando somos forçados pelas circunstâncias a olhar para dentro, a reconhecer que o outro de quem falávamos mal era um espelho de nossas próprias faltas. E vos deixo a pergunta: será mesmo possível fugir de nossa consciência pela eternidade?

Bem, eventualmente o Grande Rei de fato sofreu com as rebeliões que incitei. Foi na batalha de Iorvic que nossas espadas se encontraram. Espadas, lanças... Que seja! Era aço contra aço, força contra força. Homens gritavam, bradavam nomes, causas pelas quais lutavam. A verdade é que uma das causas do fracasso de Pendragon foi manter-se, em termos militares, em táticas há muito atrasadas. Hoje em dia, seria o equivalente a lutar usando um canhão contra uma bomba atômica.

E quando ele caiu, tornei-me eu o Grande Rei. E o dragão em breve não demoraria a ser derrotado.

*                                                                                    *                                                                      *

Se pela tirania concorre o homem para alcançar seus fins, será pela tirania que os meios o tomaram pelo seu fim. A lei do retorno não é falível e ela, como a morte, não distingue o pobre do rico, o rei do camponês. Para tudo o que fizeres, há um retorno. E quanto mais insistirmos na cegueira, na recusa, no orgulho, pior será para nós. 

Não governei sabiamente. Como poderia ser diferente? Aqueles que fazem da espada seu instrumento de controle, por ela serão controlados. A razão será subjugada pela emoção descabida. E é aí que reside a falta que nos faz cair.

Lamento, de fato, por tudo isso, pelo que fui naquela vida, mas aceito o passado porque ele concorre para sermos melhores no futuro. Se não aprendemos pelo amor, aprenderemos pela dor. Não fui exceção a este fato que nada mais é que reflexo, consequência da lei do progresso ao qual estamos todos submetidos.

Não vou me prolongar aqui mais do que já me prolonguei. Afinal, o que há de bom em rememorar os fatos de ser rei? Títulos são criações daí da Terra, a fim de distinguir soberbamente quem é sábio e quem não é, feitos para o exercício de uma dominação que não vos compete. Um dia, rezo eu, acordareis todos para isto. Uma governança justa não impõe medidas tirânicas, não segrega, não rotula, não categoriza. Não se faz escravo de outrem. E que governança falo eu? Da espada? Ou de nós sobre nossos resquícios sombrios que se perpetuam a cada existência até que não damos um basta em tais manifestações?

Arturo Pendragon ensinou-me isto. Foi um ser boníssimo e justo, e lembro das palavras que me açoitou quando nos encontramos em batalha. Assim disse ele:

--O senhor optou por esta tragicidade. Suas ações o trouxeram aqui. Um diálogo, um acordo teria sido o suficiente para que puséssemos fim ao ciclo tirânico. Não precisava ser assim.

--Fui educado pela espada--retruquei--Que melhor meio há que não esta para governar?

Ele me sorriu.

--Meu caro amigo! Nem os deuses são tão cruéis em fazê-lo crer que tudo se resolve nas guerras. Minerva foi sábia em evitar traçar batalhas que ela, em sua infinita sabedoria, reconhecia não atingir objetivo nenhum! Acha mesmo que Marte seria impetuoso em fugir ao diálogo?  Há sensatez, razão, discernimento e prudência em guerras que não são lutadas. Somos um só povo, poderíamos compartilhar ensinamentos com os ignorantes que nos enxergam como seus pais. Se os deuses nos colocaram aqui foi por motivo. E, no entanto, por que quer brigar? Por que insistir nisto?

Ri eu, desdenhado. E a vergonha disto, leitor? Não nego que ainda hoje faz-me corar pálidas faces.

--No retumbar do trovão, a vergonha não há de me submeter ao seu domínio, romano! 

--Não sou romano ou bárbaro. Sou apenas filho de meu pai e neto de meu avô eleito para reinar sobre pobres criaturas que se veem vitimadas pelo açoite de sua perdição.

--Não estou perdido!--berrei--Não olha para você mesmo e procura em você as faltas que em mim me expõem? Onde estava você e seus deuses quando pilhei e queimei, roubei e governei sobre todos? Quando exerci minha autoridade? Acaso ignora que sei mais que você sobre a terra que do seu pai tomei?

Arturo, sereno, sorria.

--Não ignoro nada que citou. E os deuses me trouxeram aqui, pois se pela razão não escuta, está na hora de partir. Em outra existência, talvez seja retirado dos seus olhos a venda que também atormenta seu coração.

E desembainhou a espada, desmontou de seu cavalo contra os protestos de seus valorosos amigos porque lutaria de igual para igual comigo. Com assombro, observei que mesmo naquele dia frio, ele mantinha-se confidente. Eu sabia do meu fim, mas recusei até o último instante a ceder. 

--Perdoe-me, irmão. Não gostaria que isso se findasse desta maneira.

Como o ignorante que era, e assustado também, respondi sua gentileza com agressividade. A luta não demorou mais que duas horas. Vi tristeza sincera nos olhos de grande homem quando sua espada trespassou a cota de malha que me protegia. Senti liquido quente subir-me a garganta e, de olhos arregalados, todo um flash de uma vida passou. O ressentimento dos meus irmãos, a mágoa de meu pai, o sentimento de insegurança e prepotência, as pilhagens, o mal que eu fiz. E chorei, pela primeira vez em toda a existência.

Arturo me colocou no chão, também ele pranteando. Ouvi-o dizer:

--Vá em paz, irmão. Perdoo-o por tudo feito.

E as sombras, afinal, me levaram deste mundo infeliz do qual fiz parte.

*                                                                                *                                                                       *

Nota de Saewine: "A memória, encurtada para reforçar o propósito do ensinamento que, espero eu, tê-los trazido aqui, mostra várias questões que podem ser encontradas tanto no mito que se criou em torno de Arthur quanto nas sociedades medievais, mas igual forma no espiritismo. Contei a vós que vivi em erradicidade por muito tempo. Poderia ter mesmo compartilhado outros momentos de guerra de vidas passadas e até mesmo em algumas depois que me vi forçado a lutar, a reviver este lado bélico meu, mas escolhi essa porque foi aqui que ocorreu meu despertar. Como? Entendendo o que era certo e o que era errado. Quando fui parar nas sombras umbralinas depois disto, chorei em dor pelo que acredito ter sido muito tempo. Não quis ajuda a princípio porque mereci a dor que eu causei. Fui despertando e evitando, quando possível, as ações do passado. Em algumas vidas não obtive o sucesso que almejava, mas em outras já via progresso. E para além do túmulo também eu quis ajudar os que prejudiquei. Ainda hoje este trabalho não terminou. Quando temos a oportunidade de nos educar, meus irmãos e minhas irmãs, por difícil que seja colocar em prática o que nos foi ensinado, não deixem de tentar. Ninguém deste lado deseja que sedes perfeitos, pois perfeição é um conceito inexistente para vós que habiteis a Terra. Somente Jesus e outros espíritos de sua pureza se aproximaram deste estágio. E digo aproximaram porque Deus é perfeito e somente Ele. Em sua eterna graça, porém, Ele se compadece de nós. Como falei, nenhuma reencarnação é castigo. Se o é para vós, se assim vos sentís, é porque algo há aí. Sabemos que a realidade terrena, seja ela em qual tempo for, é difícil, principalmente quando reconhecemos os caminhos obtusos que conscientemente escolhemos tomar. Mas existe perdição eterna para isto? Por Ele que nos ama, não! Não, irmãos e irmãs, ninguém está perdido. A esperança existe em cada tentativa que não nos passa despercebido. Não deixeis que uma tarefa doméstica vos impeça de fazer o bem ao outrem, não deixeis que o outro que vos magoou tenha poder de estragar vosso dia... E principalmente, 'não vos deixeis em cair em tentação, mas livrai-nos do mal'. Cá deixo, pois, este ponderamento. Aonde for útil, é que lá estarei segundo a vontade do Pai que me leva e guia. Credes em vós como credes no Pai, Todo Poderoso. Credes em vossa mudança, vossa reforma íntima, como credes no auxílio do Bem que jamais cessará reforço aos que o buscam de coração aberto e sincero. Credes que nas batalhas internas, prevalecerá a luz do senhor, nosso irmão Cristo Jesus. Credes na transmutação como me ensinou mestre Saint-Germain. Credes, meus amados, no amor que Rowena busca iluminar em toda orbe. Credes na sabedoria de Lanto. Credes em tudo o que é bom, que somente vem do Pai que vos criou. E lembrai-vos de que em meio a esta crença, podeis 'perdoar a quem nos tenha ofendido' como gostaríeis que fostes 'perdoados' as vossas ofensas. 

Peço desculpas por longo, mas necessário texto. E agradeço, primeiramente, é claro, ao Pai por ter-me trazido aqui, pelo bem que pude exercer segundo Sua vontade fizesse valer. À médium, meu carinho e minha admiração por ter-me permitido usufruir de conhecimento que possuídes e que ajudou em muito na mensagem que vim transmitir. Grato, minha filha, por isso. E ao vosso guia que vem te acompanhando há tantos tempos. E, claro, ao vosso anjo de guarda e guias que a protegem e velam por vós. Deixo cá meus agradecimentos. Que Deus continue a abençoando.- Saewine."

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Contos Medievais, Guerras I: A Batalha de Crécy

Nota do guia de Ogum: "Caros confrades, nós vos saludamos deste plano espiritual deste nossa última comunicação em trabalho feito conjunto com a médium que vos transmite, mais uma vez, minhas pequenas notas em alinhamento ao próprio exercício mediúnicoEs desta com os espíritos que vêm a vós. Desde novembro a dezembro, cabe nós explicarmos a vós o motivo desta ausência, ainda que haja pormenores que não posso deixar posto cá. Nos últimos trinta e cinco dias houve outros tipos de tarefas, a maior delas ligadas ao processo de expansão de consciência que vos aproximará de seres celestiais espiritual e moralmente mais avançados que também servem ao nosso Pai em conformidade com a atuação de todos os seres de luz ao redor de vossa orbe e outras tantas para além desta galáxia. Neste sentido, foi necessário, com permissão dos benfeitores que estão conosco a todo instante, adiar este projeto de contos que, independentemente de sua extensão e da sua forma, visam propor ensinamentos crísticos tanto da parte daquela que vos transmite quanto dos que os recebem. Diante disso, e da grande mudança pela qual vem passando a humanidade, optamos por dar início ao fim do ciclo dos contos medievais hoje, em data especial que, há mais de um milênio e meio, se celebra na Terra a encarnação de nosso mestre e senhor amado Jesus Cristo. Esperamos, nós todos, que não sejam olvidados por vós a fé de Maria, mãe Santíssima, que enfrentou tantas dificuldades em sua fuga para dar à luz em celeiro seu próprio filho. Amor de mãe, puro e equiparado ao que o Criador sente por nós todos os dias e momentos sem exceção, que nos ensina, nos ampara, nos resgata e nos incentiva ao caminho do Redentor, que não fecha os olhos para os irmãos que, encarnados ou não, anseiam pelo carinho do Pai. Recordai, amados amigos e irmãos e irmãs, neste dia especial, que o amor e a fé são unas na longa e infindável estrada que vos conduzirá a Ele. Se, em momento de dúvida, quederás ao chão, recordai-vos de Jesus, que, mesmo no pranto, não esqueceu do Pai, que jamais o abandonou. Somos, por fim, corajosos e completamente possíveis de carregar nossas cruzes... E ainda que a insegurança bata a nossa porta, será atendida por Jesus que não desamparará seu irmão no Pai. Tal é a esperança que aqui vos deixo antes de prosseguir na introdução que se prolongou mais do que pretendia. 
Não me alongarei mais, mas, caros leitores, permitam-me mais um pequeno de vosso tempo para esclarecer do que se tratarão os três últimos contos deste ciclo medieval, todos eles expostos até antes o último dia deste ano de 2020. Denominei cá "guerras" porque são espíritos guerreiros, muitos deles falangeiros de São Jorge, Ogum, segundo as matrizes das religiões terrenas que atuam. Como o tempo está curto, e outras necessidades se apresentam urgentes, optamos por selecionar três entidades que se dispuseram voluntariamente para participar cá, deixando-os à vontade para expressar suas memórias segundo vos indicam as consciências próprias. Neste ponto, não deveis pensar que todos estes foram espíritos "atrasados", presos exclusivamente ao tempo medieval, como, creio eu, já ter sido explicitado anteriormente, mas mal nenhum faz reforçar. Dito isto, partiremos, portanto, para o início deste encerramento cíclico. Desde já, agradeço pela vossa paciência. ~George."

"Boa noite, caros senhores e nobres senhoras. Em primeiro lugar, agradeço ao nosso senhor Jesus por este dia que nos ensina tanto sobre perseverança, amor, mas acima de tudo, a fé que nos incentiva a derrubar obstáculos que, sem ela, é mais do que provável ter-nos-ía enfiar os pés nas covas por demasiado tempo. Ainda mais, sou grato ao Pai acima de tudo, pois sem Ele e suas justas divinas leis, não ter-me-ia sido possível reparar os erros pretéritos de antigas existências. Nosso aprimoramento moral e espiritual não se finda nem mesmo quando encerramos a necessidade de reencarnar. Todos são os dias em que buscamos superar os resquícios que ainda precisam ser talhados e melhorados. 

Em segundo lugar, permitam-me que me apresente. William de Malsey é meu nome e uma de minhas últimas existências neste planeta foi nos tempos de Edward III, o grande rei inglês. Testemunhei tanto quanto lutei ao seu lado e ao de seu filho em longas batalhas que configuraram o que a historiografia terrestre comungou chamar de "Guerra dos Cem Anos". Admito que esta vida em particular me marcou dentre tantas outras pelo impacto de ter nascido perto da grande nobreza, embora minha família tenha sido desimportante o suficiente para que os cronistas tenham-nos registrados, e de ter feito parte da história inglesa. Podeis julgar-me como vaidoso, mas deveis saber por ora que viver a "história" não é tarefa fácil para os encarnados. Também eu vivi e sobrevivi às pragas, corrupções mundanas, testes de fé e ainda a dificílima prova da riqueza. Creio que em todos os contextos históricos há os lados positivos e negativos, e, dependendo da conduta moral do sujeito, pode-se mesmo a saborear momentos de felicidade ou, ao contrário, prender-se a infinitas infelicidades.

Na realidade, fui amigo do Príncipe Negro, cuja alcunha tenha surgido somente na posterioridade de sua desencarnação. Um dos vários que o acompanharam, na realidade. Acompanhei-o na Aquitânia, me estabeleci mesmo em uma das regiões deste principado (era um ducado que a duquesa Eleanor trouxe aos Plantagenetas quando de seu matrimônio com o rei Henry II) chamadas Angoulême. Lá desposei uma nobre francesa, constituí família, mas quando era necessário voltava à Londres, lutava na Escócia e, outra vez, retomava para mais batalhas na França meridional.

Na minha perspectiva, a vida, mesmo privilegiada, não foi tão adorável, embora tenha sido tão impactante que me afetou na encarnação posterior (desencarnei em fins do século XIV, mais precisamente em 1399 e reencarnei na Itália de fins do século XVII, mais precisamente em Florença no corpo de um pintor pobre e de corpo degenerado). De fato, para os estudiosos de vossa contemporaneidade, compreendo o fascínio que pode exercer o período que chamais de Idade Média. Mas, longe de ser uma época trevosa e ignorante (ainda que o domínio da Igreja Católica sobre a mentalidade de tantos configurasse em certo impedimento para maior avanço dos espíritos aqui encarnados), houve sim um "renascimento" da fé raciocinada que já era pregada nos tempos de Santo Agostinho. Contudo, se avançamos é porque a lei do progresso nos impele e de nada vale suspirar pelo que foi passado e vivido, por mais saudosista que tenha sido.

Mas vamos ao que interessa. Nasci em Windsor, no ano de 1330. Era o segundo filho de uma família aristocrata que, embora obscura, tinha seus laços com a corte dos Plantagenetas. Meu pai, de quem recebi o nome, gostava de contar, ao longo da minha infância, que eu era tataraneto do grande conquistador da Normandia, ocultando, por outro lado, seu lado "ilegítimo", já que William I, duque normando e rei inglês a partir do ano de 1066 até sua morte, era o herdeiro "natural" de seu pai. Detalhe, é claro, omisso por várias gerações e pela própria história. Recordo de aprender muito disto com ele, que dizia o seguinte:

--Sabe, filho meu, vejo em vós muito de mim. Vosso irmão mais velho, Edward, me parece menos robusto e me preocupo com ele, admito. Mas vós... forte que sois e com grande aptidão para a espada segundo me dizem, me demonstra diariamente que é merecedor de vosso nome. O grande conquistador também chamava-se William e dizem que não sofreu de saúde nem mesmo quando morreu! Ele é o elo que nos aproxima dos Plantagenetas.

À época, eu encarava confuso aquele sujeito de trinta anos, careca e de longa barba, olhos castanhos estreitos e orgulhosos, nariz arrebitado--porém torto em decorrência de alguma briga pela qual passou na juventude--e cujas roupas salientavam a barriga de excessiva indolência. Por um lado, apreciava ser seu favorito, mas não era algo que, admito, me fazia brilhar os olhos. Não minto quando digo que ter sua estima me alegrava, mas, ao contrário de outros rapazes que mais tarde viriam a ser meus bons companheiros, não alterava em nada meu comportamento. 

--Como assim, meu pai?--indaguei.

Talvez meu pai gostasse da atenção que lhe dava. Sua segunda esposa, minha madrasta, não gostava de lhe ouvir sobre o passado: se está morto e feito, não podendo ser desfeito, por que revisitá-lo? Agnes tinha um comportamento muito púdico, embora fosse norteada pela vaidade característica das mulheres da época. Chegou mesmo a servir como dama de companhia da rainha por um período e isso elevou sua autoestima. Apesar destes defeitos, mascarados por uma falsa piedade, cumpria bem com os deveres que a sociedade de outrora impunha ao seu sexo: como a primeira esposa, minha mãe Sylvia, falecera em decorrência de uma febre puerperal (doença que derrotava grande parte das mulheres medievais em suas batalhas no parto), deixando para trás três crianças, ela via quão essencial estas requisitavam uma figura materna. Assim, educou Edward, a mim e Helena, minha irmã, como se fossem seus ao mesmo tempo em que produzia mais alguns herdeiros. Nasceriam, em breve: Philippa, George, Katherine, Henry e Mary. Adianto ao leitor o destino de alguns irmãos: Edward, como meu pai temia, viria a falecer na juventude em decorrência de pobre saúde dos ossos. Helena viveria um bocado para se casar com um primo distante de lady Joan de Kent, Philippa seguiria carreira eclesiásticas no convento de Norfolk. George também foi enviado para o sacerdócio, embora Henry fosse mantido ao lado do pai. Seria outro guerreiro em seu devido tempo. Katherine casou-se com um nobre senhor nas terras do norte, vassalo de ninguém menos que do duque de Northumberland. Mary também casaria com algum primo distante da realeza, para grande júbilo do meu pai.

Mas, de volta à narrativa, estou nessa época com cerca de seis ou sete anos--os detalhes me escapam, leitor, ainda que tenha precisão de retomar as memórias desta existência com facilidade--e aprendia sobre linhagens, além de negócios que os herdeiros e não-herdeiros deveriam saber. Na verdade, reitero o que falei, pois não era comum que o segundo filho fosse preparado para uma educação de senhor nobre, a menos que o primeiro falecesse. Era provável que o instinto paternal de meu pai o motivasse a ouvi-lo e me educasse segundo este caminho, ainda que eu viesse a passar parte de minha vida em Angoulême, como já falei antes.

Bem, meu pai olhou para mim e disse:

--William era um duque de uma região chamada Normandia. Ela se situa na França, e foi muito poderosa ao longo dos séculos. Ainda hoje o é e nos pertence como direito nosso--ele acrescentou, orgulhoso--Foi palco de vikings, e que Sylvia nem me escute dizendo tais coisas, pois ela os abomina em nome do Senhor--ele desdenhou da esposa e sua piedade cristã--Bem, como descendente de vikings, é claro que ele não se contentaria com suas próprias terras. Portanto, meu filho, desbravou os mares para cá estabelecer-se. Teve vários filhos, é claro. O mais velho, no entanto, foi deserdado e ficou com a porção que lhe cabia como herança devida: tornou-se duque normando ainda em tempos de vida do pai, mas isto é história para mais tarde. O segundo filho sucederia William, tendo ele também recebido este nome e foi coroado como William II. Alguns dizem que seu irmão mais jovem, Henry, contribuiu para que morresse antes do tempo para que se tornasse rei. Qualquer que seja a verdade, meu caro menino, Henry se tornou o primeiro de seu nome a reinar sobre a Inglaterra. É dele que vieram nossos ancestrais. 

--Isso quer dizer que sou parente do rei?--perguntei, entre admirado e confuso.

--De fato!--respondeu o pai, serelepe--E é por isso que vamos à corte. Não  você, é claro, pois ainda é novo demais para estas coisas, mas com a idade certa fará companhia ao duque da Cornualha. 

--Quem é esse?--quis saber, curioso.

O pai me encarou com um sorriso nos lábios e disse:

--Ora, ninguém menos que o príncipe de Gales, Edward, filho do rei Edward III, meu jovem!

E ali nossos destinos foram traçados.
*                                                                                *                                                                       *

Edward tinha amigos mais próximos, naturalmente, alguns dos quais os cronistas não pensaram em registrar pela pouca importância que lhe cederam. Mas eu vos pergunto: que nobre se equiparia ao formidável príncipe inglês e futuro rei da Inglaterra? Creio que ter sua amizade era mais importante do que conquistar a atenção dos que eram os olhos e ouvidos do rei e da rainha.

Não pretendo me alongar em demasia neste curto período, mas como escapar a isto quando nossa primeira grande batalha ocorreria no ano de 1346? Permita-me, pois, rebobinar ao ano de 1345. Nesse período as tensões entre a França e a Inglaterra haviam eclodido em conflito físico. No entanto, o rei Philippe VI, da casa Valois, recusava a ceder território para o rei inglês, que, por sua vez, afirmava ser o verdadeiro soberano daquelas terras do continente por ser neto de Philippe IV. 

(Vamos lá, deixe-me explicar-vos, caros leitores: a Guerra dos Cem Anos se dividiu em várias partes e se prolongou para além dos cem anos, terminando, em essência, para depois do casamento de Henry VI e Margaret de Anjou. Mas na década de 40 deste século XIV, vemos que, na França, três reis, todos homens e filhos do temível Philippe IV da dinastia capetíngea, faleceram sem deixar herdeiros legítimos do sexo masculino, pois a Lei Sálica impedia que as mulheres se tornassem rainhas por direito ou por casamento também. Com isso, dos filhos de Philippe IV, apenas uma, Isabella, deixou herdeiro, Edward, que, na verdade, já era senhor dos ingleses. E os franceses não queriam ser governados pelos ingleses, naturalmente. A questão é que Edward III decidiu fazer tal reivindicação porque acreditava que ele tinha mais direito de reinar do que seu primo, Philippe, que vinha da casa do primeiro duque de Valois. Quaisquer que sejam vossos julgamentos diante disto, não há como alterar a percepção de que as lutas, neste primeiro estágio, eram reflexos de disputa territoriais entre dois reis sobre um reino completamente fragmentado. A França era, politicamente falando, não como vos conheceis hoje em dia no século XXI. Ela era pequena e forçada a lidar com entidades políticas independentes. Ducados como a Borgonha, por exemplo, contemplava territórios que chegavam à Flandres! Podeis imaginar como um rei francês sentia-se diante disto? Claro que, se pensarmos com a mentalidade do século XXI, é absurdo pintar em nossas mentes a ideia de que uma cidade francesa pouco conhecia possa ter abarcado a região do que hoje em dia se localiza a Bélgica, mas a geografia política medieval era organizada de outras maneiras. E por que digo que foram vários estágios de uma longa guerra? Porque as motivações foram mudando, transformando-se, afinal, em luta de egos, em disputas que, antes do reinado de Richard II, já não se tratavam do domínio sobre a França, mas configuraram em perda política para a Inglaterra. Não vos enganem, porém: no século XV, os conflitos anglo-franceses se sucederam e parcialmente findaram com Richard III. Mas isto é outro assunto.)

Ah, falar destes assuntos me incitam grande animosidade, é verdade. Peço-vos perdão desde já por ter-me prolongado mais do que devia a respeito. Mas é porque me envolvi inevitavelmente nestes assuntos, ainda que pouco espaço ocupei neste palco de disputas supérfluas. Ao mesmo tempo que tudo isto acontecia, ganhou força a cultura cavalheiresca. Acompanhei bastante o grande Henry de Lancaster, conde de Derby e, posteriormente, duque de Lancaster, em várias de suas jornadas por todo o reino. Este era um homem que inspirou, se não motivou, a criação da Ordem da Jarreteira (em inglês: Order of the Garter, cujo lema pode-se transcrever desta maneira: ai daquele que pensar mal disto!). Seguia à risca o que Lancelot e o rei Arthur ensinavam em seus contos literários: o quanto devemos defender os pobres, ser bondosos com as senhoras, não permitir que suas virtudes sofram qualquer ofensa, lutar contra os impiedosos e infiéis, enfim, ser cristão. Em Lancaster, ser cristão não era somente rezar e abjurar-se de comer carne em dias santos ou de xingar; era mais que isso. Ser cortês, honesto e bom; ser justo e honrado. Ah, a boa e velha honra! Não se é honrado apenas com os amigos, mas inimigos também. E se caso seja invitado à luta, que o faça! Declinar a provocação seria como recusar dar a cara à tapa, seria agir como Judas. Não existia espaço para a covardia.

Muitos de nós, jovens e tolos, almejavam sangrar a espada virgem pela primeira vez por conta disto. Queríamos provar o valor. E que valor é este? Ora, sabeis que a sociedade terrestre, de tempos em tempos, tem as cobranças para cima dos jovens. Se em vossa contemporaneidade se trata de esperar de um rapaz que seja gentil e trabalhador, nos meus dias, era que se ganhasse uma guerra e derrubasse o oponente nas justas que contavam com a presença do rei. Por debaixo de toda esta festividade, porém, não me passou despercebido que não era raro detectar nada além da vaidade dos exibicionistas. Os valores eram bons, sem dúvidas, e, em essência, refletiam o ensinamento de Cristo, ainda que de maneira belicosa. Mas qual sociedade não o era em tais tempos? Bem, o ponto que gostaria de fazer é deixar claro que havia os apegados à carne que distorciam tais valores segundo seu entendimento. Quando penso nisso, vejo que era difícil esperar que houvesse alguém da realeza que, de fato, fosse humilde. Por mais que admirasse o príncipe, lhe faltava este entendimento. Era uma pena que me faltou a coragem de Lancaster quanto ao devido tempo em lhe aconselhar sobre suas faltas, pois este duque que mencionei não tolerava a mentira. É verdade que a infidelidade foi um de seus defeitos tal qual a luxúria, mas no mais... asseguro de que testemunhei a sinceridade em seus atos. Não posso, portanto, convocá-lo à acusação de hipocrisia. Mas não penseis que faço julgamento de valor, caros leitores, pois é uma reflexão particular minha que faço tranquilamente sem me colocar como melhor ou pior que tais personas. Na realidade, hoje em dia, estou mais próximo do príncipe, cujo testamento encontra-se ainda neste blog. 

Demos prosseguimento, portanto, à história. Eu e meus caros companheiros envolvemo-nos em várias justas, competindo ora em Eltham diante da multidão de cortesões, ora em Woodstock, perante o rei e à rainha. Havia, ademais, outras ocasiões em que o público comparecia. A nobreza fornecia entretenimento para os camponeses que não se abalavam às dificuldades para ver bons cavaleiros em justas uns contra os outros. Apesar da peste bubônica dar seus indícios de aparecimento, ainda não era uma epidemia que assustasse tantos. O clima de pessimismo não pesava na mentalidade do povo ou dos nobres. Ao contrário, a perspectiva da guerra contra a França estimulava um senso de identidade que se projetava na figura cavalheiresca do rei e, consequentemente, seu filho, o príncipe.

De todo modo, contava dezesseis verões quando o rei anunciou formalmente que iríamos à guerra. Homens a partir dos doze anos deveriam ser convocados, estendendo o limite aos sessenta. Esperava-se que os duques, condes e todos aqueles que deviam autoridade ao soberano inglês convocassem seus vassalos para o conflito. Ainda neste contexto, meu irmão mais velho já havia retornado à pátria espiritual. Fora uma perda recente para a família, a qual fizera meu pai ser mais cauteloso comigo. É verdade que tínhamos um laço (em outra vida, fui o pai dele) especial, mas assegurei-o, provavelmente temperado pelo fogo da juventude, de que era meu dever não somente com os príncipes, mas com Jesus nosso Senhor e Maria, mãe Santíssima. Na realidade, o motivo para que muitas batalhas marcassem esses dias medievos residia, ironicamente, na crença em nosso amado mestre Jesus. É curioso refletir a respeito, pois Jesus nunca precisou de armas para dissuadir um camponês de fazer mal ao outro ou de trazer a seu lado os que estavam perdidos nas trevas. Amar o próximo nunca pareceu difícil como tantos séculos após sua crucificação. (Vejo igualmente na contemporaneidade vossa o quanto as batalhas, hoje mais ideológicas e no campo das línguas do que das espadas, seguem de maneira similar. Ninguém ama o parente "diferente", mas julga-o por não ser segundo aquele que crê ser a forma mais correta de agir, pensar e sentir. Ninguém olha para dentro e procura a reforma íntima. A diferença de hoje para aquela época reside na ação dos instintos animalescos que ainda prevalecia sobre o uso da razão divina que o Pai nos cedeu a partir de nossa criação. E mesmo hoje em dia, não é a língua mais afiada que a espada?)

Sendo assim, o pai aquiesceu. Estava orgulhoso porque via que eu não me abstinha do cumprimento dos deveres e, mesmo risonho de quando em quando, nunca me esquivei destes. Edward costumava me acusar de ser muito sério, mais tarde, mas zombei dele ao afirmar que guardava o senso de humor para a esposa. Garanto que isso o fez rir por toda a tarde. Ah, bons tempos!

Mas chega de delongas! Fui designado, como era companheiro de Edward desde sua infância (e tínhamos a mesma idade também), a seguir seu esquadrão. A diferença militar daquela batalha para tantas outras residia de que agora lutaríamos à pé. A cavalaria estava sob comando de outros homens, um deles o próprio Lancaster, que salvaria a vida do príncipe em batalha mais tarde. 

Recordo do aviso que o rei, uma vez, nos deu:

--Senhores, sois jovens hoje, mas amanhã, no crepúsculo da vida, terão olhado para este dia com louvor rugindo em vossos corações. A experiência é o que comanda o homem na eterna guerra da vida, e hoje não seria diferente. Sedes corajosos, rapazes, pois o louro será colhido, disto repousa a certeza que Nosso Senhor nos inculcou a partir do dia em que fê-me vosso soberano. A cada um, segundo suas obras, portanto, fazeis o que foram treinados a fazer. Não permiteis que o inimigo veja vosso medo, pois, do contrário, fará disto o instrumento para ceifar vossa vida. É valoroso ter medo, de fato, conquanto não o fazeis cagar em vossas próprias calças. Hoje, derrotaremos os franceses. Lembrei-vos disto, de que fazeis história--e, virando-se para o filho, pôs a mão sobre o ombro dele e acrescentou--Vá, lidere estes homens e prove seu valor.

O silêncio, naquele instante, foi ensurdecedor. 
*                                                                             *                                                                                   *
26 de agosto de 1346. 

Quando o orgulho imperava sobre a razão dos homens, mascarava-se sentimentos inferiores que julgavam ser culpa do ser mais bestial de todos. Entretanto, se os mesmos os liderassem à vitória, cabia responsabilizar Deus por isto. Bem, não nego que não fui exceção a esta percepção. Mas que outro jovem teria esta percepção? É verdade o que disse o rei: a experiência forma a maturidade, embora tivesse falado isso com outras palavras. Seja qual fosse o resultado de desembainhar a espada e gritar por São Jorge, e pela Inglaterra, carregaria em mim o efeito daquilo tudo. Jovens normalmente só se dão conta do resultado de suas ações na maturidade, quando contemplam os caminhos que poderiam ter sido feitos de forma diferente, ou os sentimentos que os motivaram a fazer determinadas coisas... É diante da morte que o homem se depara com suas ações e o possível resultado delas. É a morte que obrigava-o a ser humilde, a reconhecer, embora ninguém ousasse admitir isso em voz alta, que a qualquer instante Deus, ou, na pior das maneiras segundo a mentalidade em voga na época, o diabo os chamariam para onde suas almas iriam.  

Céu ou inferno, para onde irei? 

E pairava assim o silêncio sobre os corações mais estrondosos. Observar o rei em sua calmaria, cavalgando em sua soberba enquanto tantos os acompanhavam naquela empreitada, era inspiração para uns quanto insegurança para outros. Recordo de um sujeito chamado Roger que vomitou à bordo da embarcação que nos levava ao continente. Ouvi-o murmurar para si mesmo:

--Que Deus nos abençoe, pois não sei se terei sucesso nesta missão.

A masculinidade em voga era resultado de uma cegueira tão obstinada que não se dava espaço para o medo. A teoria era muito bonita para aqueles que a proclamavam e era mais estimada pelos altos nobres que não deviam obediência a tantos outros. Mas um camponês que confessasse medo ao seu senhor ou a outros companheiros sofria de zombeteiras quando não coisas piores. Tal era o orgulho que não permitia que o ser humano fosse humano. Pergunto a vós que acompanham estas reflexões até aqui: julgaríeis vosso próximo por ser sensível e lidar de forma diferente às adversidades da vida, esperando que fosse espelho de vossas próprias faltas, ou tentaríeis compreender esta forma de expressão de emoções? Se a tendência para a primeira questão perdura é porque ainda hoje o orgulho perpetua em como se lida com emoções profundas. E não há nada de errado em temer o desconhecido conquanto não seja dominado por este temor.

Naturalmente, estas questões só viriam à mente tantos anos depois. Quando se tem 15, 16 anos, o mais importante é provar o valor, como já mostrei antes. Lembro da conversa que o príncipe Edward teve com seus companheiros.

--Estão ansiosos para estraçalhar os franceses? O pai me contou que o rei deles não somente contratou alguns mercenários para auxiliar a grande nobreza que foi convocada para nos derrotar. 

Um dos rapazes presentes arqueou a sobrancelha esquerda e indagou:

--O que está dizendo, senhor? O rei Philippe enviará parte de sua própria nobreza à guerra?

Edward, o príncipe, encarou-o com serenidade. Era alto e possuía uma tez amorenada, longo nariz e olhos um tanto escuros, mas intensos e ferozes. A barba crescia, denotando já entrada para a vida adulta, e havia músculos que, mais tarde, seriam reforçados. Era forte e robusto, nada nele indicava interrupção de longa vida, pois derrotou as enfermidades na infância. Sobreviveu, até então, às expectativas e estava claro para todos os que cercavam-no que ali se apresentava o próximo rei da Inglaterra, o quarto a se chamar Edward. Assim, era o que pensávamos.

Sobre seu caráter, deixarei ponderamentos a serem conjecturados. Convivi com ele, é certo, e fui seu amigo, mas ninguém pode afirmar realmente o que se passava na mente de outra pessoa. Edward herdara do pai a prepotência, o temperamento e a arrogância. Faltava-lhe o tempero da doçura da mãe e a religiosidade genuína desta. E, no entanto, era bondoso e leal para os que fossem com ele na mesma medida. Muitos o comparavam, em verdade, ao temperamental e soberbo rei Edward I, também conhecido como "pernas longas" e "martelo dos escoceses", tanto por ser alto quanto por subjugar os vizinhos do extremo norte.

--Sim. Ele confia que, por estar em vantagem numérica, poderá nos derrotar--afirmou o príncipe, categoricamente--E é verdade, estamos em desvantagem.

Vi os rapazes trocando olhares, percebi um flash de insegurança, e, no entanto, Edward de Gales permanecia calmo. Foi quando o príncipe me percebeu mirando-o com atenção que o fez dirigir-se a mim, com meio sorriso.

--Por que estás a me observar, William? Tendes algo a compartilhar conosco?

Ruborizei, porque detestava estar no centro das atenções. Mas venci a timidez típica juvenil e falei:

--Não, milorde. Estava pensando nessa informação que vós nos disseste. 

--Creio que há algo em vossa mente, titubeando para ser dito--ele insistiu.

Dei de ombros, inalterado, embora percebesse que os rapazes a nossa volta esperassem que uma tensão explodisse. Naturalmente, havia os que desgostassem de mim e que aguardavam minha queda, mas não é preciso dizer que eles partiram antes de mim, não é mesmo? Pois que seja lembrado que os semeiam a discórdia, plantam o desfavor, a desunião.

--Não, senhor, garanto à vossa senhoria que não há nada a ser falado. Mas já que insistíeis, confesso que estou curioso quanto a sua tranquilidade. Longe de presumir algo, mas confiais que possamos derrotar os franceses? 

Vi que a minha pergunta o desafiou, e o príncipe gostava de desafios. Ele cedeu meio sorriso antes de responder, um tanto quanto arrogantemente:

--Mas é claro, meu caro! Aonde mais isso se sucederia? Somos ingleses. Henry II não subjugou metade da França antes de nós?

Uma rodada de aplausos rugiu ao nosso redor, é claro, mas não me abalei. Ao contrário, sorri.

--Números são números, é verdade, mas muitos deles definem o resultado de uma batalha--insisti.

--Olha só, ele estudou história--alguém comentou desdenhosamente, arrancando risinhos de uma plateia atenta.

--Concordo--prosseguiu Edward, ignorando o sujeito--mas boto fé no nosso sucesso. Nossa cavalaria tem homens bastante competentes. A infantaria, embora reduzida, é igualmente potente. Lutaremos à pé. 

--À pé?!--ouviu-se assombros.

Novamente, Edward não se abalou. Ele falou:

--Cavalos, por vantajosos que possam ser, atrasam-nos. Além do mais, a ação requere o uso da adaga em contraposição à longa espada, por isso precisamos fazer a ação decorrer à pé.

O debate se deu por encerrado naquele instante. Nem mesmo eu saí imune dele. Afinal, era minha primeira batalha e a perspectiva de lutar de igual para igual com o inimigo me assombrava. Mais tarde, quando me retirei para dormir, fiz minhas preces. Foi quando, assombrado, fui tomado de assalto por um padre. Ele se sentou ao meu lado e falou:

--Estamos todos preocupados com o príncipe.

Confesso que passou pela minha cabeça por que um padre desabafaria com um garoto como eu, mas, é claro, percebi que sua presença deveria ser um sinal de Deus. Por isso, me virei e falei:

--Deus está no comando, eminência. Tendes certeza disto.

O padre não era tão velho quanto às pobres chamadas de velas mal iluminadas poderiam aludir. Era careca, ou parcialmente, e suas vestes marrons indicavam a qual ordem pertencia. Era franciscano. Do pescoço, pendia uma cruz ricamente produzida. Quase sorri quando pensei que os franciscanos tinham o costume de fazer votos de pobrezas, mas achei melhor calar minha impertinência quanto ao assunto.

--Com certeza, meu jovem, disto não temos dúvidas--ele sorriu--Mas é a primeira batalha dele, e é o herdeiro da coroa.

Por um instante, me peguei pensando: este padre não se preocupa com o restante de nossas almas, mas somente a do príncipe. Imaginava se, para aquele homem, minha possível morte o preocuparia. Embora nobre, não era o suficiente para ocupar sua atenção. Mas, é claro, não resisti à tentação de reproduzir a arrogância daquela classe da qual fazia parte quando retruquei:

--Espera-se que ele enfrente tantas batalhas deste dia em diante, eminência. Não podemos pedir para que fique e reze. Nem mesmo o senhor nosso rei faria isto. Do contrário, os franceses nos dominariam.

Ele riu seco, mas senti tristeza naquele som. Examinei minha consciência e, para minha surpresa, percebi que não deveria ter sido tão rude com aquele homem de Deus. Para minha sorte, o padre não viu que enrubesci.

--É verdade--ele concordou--Precisamos de um rei guerreiro, mas poucos pensam nos valores cristãos a que se propõe ser.

--O que quer dizer com isso, padre?

O homem de vestes escuras deu de ombros, mas respondeu:

--Nada, garoto. Mas veja, as guerras são mesmo necessárias? Tanta matança para quê?

Incomodei-me com aquilo, como uma pessoa ficaria incomodada diante de verdades que muitos evitam ouvir. Mas, em análise mais profunda, aquele padre apareceu a mim para tirar de meus olhos as vestes da cegueira.

--Não há como fugir, senhor, do contrário seremos tachados de covardes--me ouvi murmurar em resposta, sentindo-me mais como garoto do que jovem homem de dezesseis anos.

--Todos esses homens que conhecem riqueza determinam valores incompatíveis com as do Senhor. Eles não podem oferecer o amor eterno e paz que tantos buscam--ponderou o padre--E, entretanto, importa mais agradar em busca de ouro do que viver na serenidade. A aprovação alheia tornou-se rito de passagem, quando deveríamos buscar a aprovação do Senhor. Dali terminaria o sofrimento que tantos procuram de boa vontade.

Quase ri, pois, infantil, não compreendia o que me dizia.

--E quem procura são os franceses, que nunca nos dominaram completamente--e, como quem quisesse mudar de assunto, falei--O senhor já ouviu falar de Henry II?
*                                                                                 *                                                                           *
Embora muitos de vós acrediteis que nós, os espíritos, ignoram o que se passa na Terra, principalmente neste século nascente, a verdade é que o avanço tecnológico e tantas outras mudanças sociais capturam nossa atenção por uma série de razões que não me cabe expor aqui e agora. O ponto é que muitos romantizam as batalhas, vibram com olhos esbugalhados segundo a imagem movimentada que intenta pobremente trazer as guerras de outrora. No entanto, poucos foram de fato capazes em ser realistas naquilo que se propunham a trazer. 

Ninguém vê, por exemplo, o medo que estampa, sem distinções, as faces dos homens que foram convocados para atender às mesquinhices de seus soberanos. O camponês que traja apenas consigo um papelão como armadura e um machado como arma lutará em termos "iguais" com o inimigo mais bem apessoado. O pobre homem que se contentava em plantar, colher, ir à Igreja, beber uma cerveja nas tavernas e ser um pai, um marido, era forçado a, sabe-se-lá por qual razão, lutar sem propósito contra um inimigo que jamais conhecerá o nome. 

De igual maneira, o nobre compartilha deste sentimento. Um movimento em falso e sua espada escapará de suas mãos e a vida lhe fugirá, roubando-lhe momentos ricos que lhes trariam glórias para com a família que deixa para trás. Mas ambos, apesar do medo, reconhecem naquele instante a força do Criador. Poucos são os que, arrogantemente e movidos pela soberba, atiram-se imprudentemente contra o outro. Contudo, posso dizer que a maioria vê que a vida, embora dependa de seus golpes para sobreviver, reside no "favor" que o Pai lhe conceda. Na limitação de seus pensamentos, ajoelham-se, metaforicamente ou não, diante de Deus e imploram por uma vitória.

É, no mínimo, instigador perceber o nascer de Jesus em determinadas pessoas. Lembro de um companheiro de armas comentar comigo o seguinte:

--Conheceis a história de São Jorge?

--Estou familiarizado com ela, mas admito que ela se confunde um pouco com a de Lancelot.

O rapaz em questão riu.

--Mas não houve nenhuma rainha que conquistasse o coração dele--vendo que eu não incentivava a este tipo de especulação, ele prosseguiu:--Ele não tinha medo porque sabia que uma batalha não significava guerra. Uma derrota não determinava fim. Não é isso que nos define, mas a coragem que motiva em lutar diariamente com as serpentes que nos cercam.

Ponderei sobre o que queria dizer. Surpreendentemente, caro leitor, mesmo com minha mente juvenil, entendi sua intenção.

--É possível ser um bom guerreiro? Ser justo quando o outro é injusto?--ouvi-me perguntar--Perdoar quando, em um deslize, não somos oferecidos o perdão?

--São Jorge era um bom guerreiro, e sabia que havia lutas que não mereciam ser travadas--fui respondido--E ainda que o inimigo insistisse, ele perdoava. E é nisto, nestas escolhas que há a coragem. Quando as serpentes tentam, meu caro, cabe a nós bradar a espada ou recolhê-la e deixá-las para trás. Não foi por isto que o Senhor nos deu o livre arbítrio?

Sorri, sentindo-me repentinamente uma coragem que, por descuido, me escapara. 

--Por São Jorge--falei, tocando-lhe o ombro.

--Por São Jorge--ele respondeu.

Infelizmente, não o veria mais depois daquele dia.
*                                                                             *                                                                        *
Foi uma batalha sangrenta como era de se esperar, embora para os iniciantes o choque e a perplexidade fossem inevitáveis. Mesmo o príncipe fora derrubado. O desespero era terrível, e ouso dizer que o mais assustador não era a troca de sangues, a retirada da vida para defender-se, mas o clima que pairava no ar. Cheirava-se não a morte, mas o desespero. Que dava vazão ao temor, à raiva, ao ódio, ao rancor. Sentimentos, naturalmente, negativos. 

Poucos admitirão isto, mas é no campo de batalha onde o homem se faz emocional. Se é lugar de canalizar o que, em sociedade, é reprimido, não posso afirmar, mas o caos atua exatamente sobre as emoções do sujeito. Alguns bebiam para extravasar, acreditando que o álcool daria-lhes coragem para superar o medo, mas isso somente acarretaria em traumas que marcariam toda aquela existência do indivíduo.

Podeis ouvir o barulho de espadas sendo trocadas, aço contra aço, gritos de almas perdidas em si ou já fora de si. Tudo acontece em segundos, muitas vezes duas horas parecem ocupar todo o dia. Bem, por que me delongar em tantos detalhes desnecessários, não é mesmo? O que quero dizer com isto é: no final, fomos vencedores. A batalha de Crécy trouxe vitória aos ingleses. A glória era nossa, mas muitos se esqueciam que uma vitória não determinava o curso da guerra. E, penso agora, talvez tenha sido isso que culminou na perda da Guerra dos Cem Anos daquela geração.
*                                                                                  *                                                                        *

É, de fato, lamentável perceber, em retrospectiva, quanto se confundiam os valores crísticos com os da sociedade. Edward, príncipe de Gales, provou ser tudo o que os ingleses medievais esperavam do herdeiro do grande rei Edward III: era habilidoso com a espada, diplomático, belo, charmoso e, claro, cristão. Na aparência, tudo clamava à perfeição. Mas esqueciam-se que ser excelente guerreiro não significava ser bom governante. Daí a confusão: queriam um rei agressivo, mas que exercesse as qualidades de Cristo em Terra, pois não tinha sido por Ele escolhido a governar sobre todos? Contudo, em uma crise de enfermidades, tudo isso seria olvidado, naturalmente. 

Quando príncipe da Aquitânia, o povo de lá conheceu a decepção, viu no elevado e lendário príncipe sua face mais feia. O grande guerreiro demonstrou ser tirânico, déspota e cruel. Enquanto o povo passava fome, ele cobrava altos impostos para fazer valer suas festas. À primeira vista, poder-se-ia julgá-lo incapaz do verdadeiro amor. Mas quando vamos entender que o espírito que encarna aqui não é feito de uma só nuance, mas várias? Edward era perfeitamente capaz de amar, e era devoto da senhora Joan de igual forma que ela era a ele. Teriam mais filhos se a Providência permitisse, mas logo mais ele partiria.

Quando casei, minha nobre esposa, Jeanne, me falou uma vez sobre um dos vários sermões agostinianos que ela gostava de ouvir do confessor. Foi algo que me fez pensar:

--A verdadeira guerra não é contra os outros, mas conosco e com tudo o mais que dos outros existem em nós. Poderemos, pergunto, conduzir nossa alma à eterna felicidade? Acredito, pois respondo, marido, que sim, conquanto nos desapegarmos de tudo que nos faça mal.

E foi isso que, na perspectiva do príncipe, tornou-me tão sério. Mas é verdade, e eu não quis deixar somente para o último instante a batalha contra os vícios que ainda me atormentavam. Com isso, passei a residir por lá até o momento em que tive de regressar. E testemunhei um reinado que, sendo sincero, não seria diferente do pai daquele governante, o amigo que conheci. Mas tudo o que damos, nós recebemos. 

Por isso não me surpreendi quando, em 1399, Richard II foi destronado pelo primo. Recordo mesmo que nem mesmo o pai deste ter-se-ia surpreendido se houvesse vivido o suficiente para isto. Mas suas palavras ainda ecoam em minha mente:

--Pelos pecados vivemos, pelos pecados morremos. Neste ínterim, esquecemo-nos de Deus, de Maria, mãe Santíssima. Esquecemos dos verdadeiros valores de Cristo. E é por isto que surgem os déspotas e tiranos, William. São cegos que foram guiados por cegos--ele se lamentou, admitindo sua culpa na educação do rei. Mas este é outro assunto.

Em meu desencarne, caros colegas leitores, vivi na obscuridade. Procurei seguir naquilo que acreditava. Não havia como não ser do mundo que participava, mas evitei ir de contra minha consciência quanto podia. Não fui um grande Henry de Lancaster, embora, ao menos, fui fiel à esposa e creio ter passado bons valores aos meus filhos, mas aprendi muito com essa vida. A dar aos pobres, a ser honesto, a ser agradecido, a ser humilde na medida do possível, a vencer, talvez, as batalhas que ainda rugiam em meu coração. 

Nobre ou não nobre, todos nós pagamos nossas devidas contas diante de Cristo. Ele nos perdoa, mas somos nós capazes de nos perdoar pelo que foi feito ou não feito? 

Deixo aqui meus agradecimentos ao Pai, mais uma vez, por esta oportunidade. Se os leitores esperavam mais uma narrativa sobre a batalha, peço desculpas por causar-lhe desapontamento, mas a verdade é que gostaria de usufruir desta oportunidade de revisitar meu passado para tentar inculcar qualquer ensinamento crístico que vos possa ser absorvido. Não se trata de ter sido guerreiro ou amigo de personalidades históricas, pois que importância há o título quando o espírito retorna à pátria espiritual? Trata-se do que fizemos com as ferramentas que o Pai nos deu. Toda oportunidade encarnar é válida e deve ser bem aproveitada. Que possamos nós todos nos redimir, reparar e aprimorar pelo que foi feito--ou não feito, como falei acima. Que possamos abraçar, neste Natal, os valores que Cristo nos trouxe com seu ensinamento e que Maria Santíssima nos reforçou. Que com amor, fé e perseverança vençamos nós os obstáculos internos. Abracemos nossas sombras com a luz que Deus, através de Cristo, nos iluminou com Seu amor. Cuidemos de nossas línguas, que hoje substituem as espadas de antes. Cuidemos de nossas mentes, para que não produzam maçãs estragadas a fim de não atrair serpentes indesejadas. Cuidemos de nós para que possamos também cuidar dos outros. Se esta mensagem tocar verdadeiramente a alguém, ficarei feliz. Como o guia desta moça já lhos falou, estou trabalhando pela falange espiritual de São Jorge e, na umbanda, de Ogum. Aonde for necessário, estarei lá. E mesmo não sendo, também. Que a força de Deus nos ampare neste momento, meus irmãos e irmãs. Seja feita Sua vontade assim na Terra como no Céu. Agradeço, novamente, por esta oportunidade, e obrigado deixo à médium pela paciência e entendimento. Foi excelente reencontro, querida amiga e companheira. Que Deus e os bons espíritos continuem te amparando nesta vossa missão. - William. 










Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...