Nota do guia de Ogum: "Caros confrades, nós vos saludamos deste plano espiritual deste nossa última comunicação em trabalho feito conjunto com a médium que vos transmite, mais uma vez, minhas pequenas notas em alinhamento ao próprio exercício mediúnicoEs desta com os espíritos que vêm a vós. Desde novembro a dezembro, cabe nós explicarmos a vós o motivo desta ausência, ainda que haja pormenores que não posso deixar posto cá. Nos últimos trinta e cinco dias houve outros tipos de tarefas, a maior delas ligadas ao processo de expansão de consciência que vos aproximará de seres celestiais espiritual e moralmente mais avançados que também servem ao nosso Pai em conformidade com a atuação de todos os seres de luz ao redor de vossa orbe e outras tantas para além desta galáxia. Neste sentido, foi necessário, com permissão dos benfeitores que estão conosco a todo instante, adiar este projeto de contos que, independentemente de sua extensão e da sua forma, visam propor ensinamentos crísticos tanto da parte daquela que vos transmite quanto dos que os recebem. Diante disso, e da grande mudança pela qual vem passando a humanidade, optamos por dar início ao fim do ciclo dos contos medievais hoje, em data especial que, há mais de um milênio e meio, se celebra na Terra a encarnação de nosso mestre e senhor amado Jesus Cristo. Esperamos, nós todos, que não sejam olvidados por vós a fé de Maria, mãe Santíssima, que enfrentou tantas dificuldades em sua fuga para dar à luz em celeiro seu próprio filho. Amor de mãe, puro e equiparado ao que o Criador sente por nós todos os dias e momentos sem exceção, que nos ensina, nos ampara, nos resgata e nos incentiva ao caminho do Redentor, que não fecha os olhos para os irmãos que, encarnados ou não, anseiam pelo carinho do Pai. Recordai, amados amigos e irmãos e irmãs, neste dia especial, que o amor e a fé são unas na longa e infindável estrada que vos conduzirá a Ele. Se, em momento de dúvida, quederás ao chão, recordai-vos de Jesus, que, mesmo no pranto, não esqueceu do Pai, que jamais o abandonou. Somos, por fim, corajosos e completamente possíveis de carregar nossas cruzes... E ainda que a insegurança bata a nossa porta, será atendida por Jesus que não desamparará seu irmão no Pai. Tal é a esperança que aqui vos deixo antes de prosseguir na introdução que se prolongou mais do que pretendia.
Não me alongarei mais, mas, caros leitores, permitam-me mais um pequeno de vosso tempo para esclarecer do que se tratarão os três últimos contos deste ciclo medieval, todos eles expostos até antes o último dia deste ano de 2020. Denominei cá "guerras" porque são espíritos guerreiros, muitos deles falangeiros de São Jorge, Ogum, segundo as matrizes das religiões terrenas que atuam. Como o tempo está curto, e outras necessidades se apresentam urgentes, optamos por selecionar três entidades que se dispuseram voluntariamente para participar cá, deixando-os à vontade para expressar suas memórias segundo vos indicam as consciências próprias. Neste ponto, não deveis pensar que todos estes foram espíritos "atrasados", presos exclusivamente ao tempo medieval, como, creio eu, já ter sido explicitado anteriormente, mas mal nenhum faz reforçar. Dito isto, partiremos, portanto, para o início deste encerramento cíclico. Desde já, agradeço pela vossa paciência. ~George."
"Boa noite, caros senhores e nobres senhoras. Em primeiro lugar, agradeço ao nosso senhor Jesus por este dia que nos ensina tanto sobre perseverança, amor, mas acima de tudo, a fé que nos incentiva a derrubar obstáculos que, sem ela, é mais do que provável ter-nos-ía enfiar os pés nas covas por demasiado tempo. Ainda mais, sou grato ao Pai acima de tudo, pois sem Ele e suas justas divinas leis, não ter-me-ia sido possível reparar os erros pretéritos de antigas existências. Nosso aprimoramento moral e espiritual não se finda nem mesmo quando encerramos a necessidade de reencarnar. Todos são os dias em que buscamos superar os resquícios que ainda precisam ser talhados e melhorados.
Em segundo lugar, permitam-me que me apresente. William de Malsey é meu nome e uma de minhas últimas existências neste planeta foi nos tempos de Edward III, o grande rei inglês. Testemunhei tanto quanto lutei ao seu lado e ao de seu filho em longas batalhas que configuraram o que a historiografia terrestre comungou chamar de "Guerra dos Cem Anos". Admito que esta vida em particular me marcou dentre tantas outras pelo impacto de ter nascido perto da grande nobreza, embora minha família tenha sido desimportante o suficiente para que os cronistas tenham-nos registrados, e de ter feito parte da história inglesa. Podeis julgar-me como vaidoso, mas deveis saber por ora que viver a "história" não é tarefa fácil para os encarnados. Também eu vivi e sobrevivi às pragas, corrupções mundanas, testes de fé e ainda a dificílima prova da riqueza. Creio que em todos os contextos históricos há os lados positivos e negativos, e, dependendo da conduta moral do sujeito, pode-se mesmo a saborear momentos de felicidade ou, ao contrário, prender-se a infinitas infelicidades.
Na realidade, fui amigo do Príncipe Negro, cuja alcunha tenha surgido somente na posterioridade de sua desencarnação. Um dos vários que o acompanharam, na realidade. Acompanhei-o na Aquitânia, me estabeleci mesmo em uma das regiões deste principado (era um ducado que a duquesa Eleanor trouxe aos Plantagenetas quando de seu matrimônio com o rei Henry II) chamadas Angoulême. Lá desposei uma nobre francesa, constituí família, mas quando era necessário voltava à Londres, lutava na Escócia e, outra vez, retomava para mais batalhas na França meridional.
Na minha perspectiva, a vida, mesmo privilegiada, não foi tão adorável, embora tenha sido tão impactante que me afetou na encarnação posterior (desencarnei em fins do século XIV, mais precisamente em 1399 e reencarnei na Itália de fins do século XVII, mais precisamente em Florença no corpo de um pintor pobre e de corpo degenerado). De fato, para os estudiosos de vossa contemporaneidade, compreendo o fascínio que pode exercer o período que chamais de Idade Média. Mas, longe de ser uma época trevosa e ignorante (ainda que o domínio da Igreja Católica sobre a mentalidade de tantos configurasse em certo impedimento para maior avanço dos espíritos aqui encarnados), houve sim um "renascimento" da fé raciocinada que já era pregada nos tempos de Santo Agostinho. Contudo, se avançamos é porque a lei do progresso nos impele e de nada vale suspirar pelo que foi passado e vivido, por mais saudosista que tenha sido.
Mas vamos ao que interessa. Nasci em Windsor, no ano de 1330. Era o segundo filho de uma família aristocrata que, embora obscura, tinha seus laços com a corte dos Plantagenetas. Meu pai, de quem recebi o nome, gostava de contar, ao longo da minha infância, que eu era tataraneto do grande conquistador da Normandia, ocultando, por outro lado, seu lado "ilegítimo", já que William I, duque normando e rei inglês a partir do ano de 1066 até sua morte, era o herdeiro "natural" de seu pai. Detalhe, é claro, omisso por várias gerações e pela própria história. Recordo de aprender muito disto com ele, que dizia o seguinte:
--Sabe, filho meu, vejo em vós muito de mim. Vosso irmão mais velho, Edward, me parece menos robusto e me preocupo com ele, admito. Mas vós... forte que sois e com grande aptidão para a espada segundo me dizem, me demonstra diariamente que é merecedor de vosso nome. O grande conquistador também chamava-se William e dizem que não sofreu de saúde nem mesmo quando morreu! Ele é o elo que nos aproxima dos Plantagenetas.
À época, eu encarava confuso aquele sujeito de trinta anos, careca e de longa barba, olhos castanhos estreitos e orgulhosos, nariz arrebitado--porém torto em decorrência de alguma briga pela qual passou na juventude--e cujas roupas salientavam a barriga de excessiva indolência. Por um lado, apreciava ser seu favorito, mas não era algo que, admito, me fazia brilhar os olhos. Não minto quando digo que ter sua estima me alegrava, mas, ao contrário de outros rapazes que mais tarde viriam a ser meus bons companheiros, não alterava em nada meu comportamento.
--Como assim, meu pai?--indaguei.
Talvez meu pai gostasse da atenção que lhe dava. Sua segunda esposa, minha madrasta, não gostava de lhe ouvir sobre o passado: se está morto e feito, não podendo ser desfeito, por que revisitá-lo? Agnes tinha um comportamento muito púdico, embora fosse norteada pela vaidade característica das mulheres da época. Chegou mesmo a servir como dama de companhia da rainha por um período e isso elevou sua autoestima. Apesar destes defeitos, mascarados por uma falsa piedade, cumpria bem com os deveres que a sociedade de outrora impunha ao seu sexo: como a primeira esposa, minha mãe Sylvia, falecera em decorrência de uma febre puerperal (doença que derrotava grande parte das mulheres medievais em suas batalhas no parto), deixando para trás três crianças, ela via quão essencial estas requisitavam uma figura materna. Assim, educou Edward, a mim e Helena, minha irmã, como se fossem seus ao mesmo tempo em que produzia mais alguns herdeiros. Nasceriam, em breve: Philippa, George, Katherine, Henry e Mary. Adianto ao leitor o destino de alguns irmãos: Edward, como meu pai temia, viria a falecer na juventude em decorrência de pobre saúde dos ossos. Helena viveria um bocado para se casar com um primo distante de lady Joan de Kent, Philippa seguiria carreira eclesiásticas no convento de Norfolk. George também foi enviado para o sacerdócio, embora Henry fosse mantido ao lado do pai. Seria outro guerreiro em seu devido tempo. Katherine casou-se com um nobre senhor nas terras do norte, vassalo de ninguém menos que do duque de Northumberland. Mary também casaria com algum primo distante da realeza, para grande júbilo do meu pai.
Mas, de volta à narrativa, estou nessa época com cerca de seis ou sete anos--os detalhes me escapam, leitor, ainda que tenha precisão de retomar as memórias desta existência com facilidade--e aprendia sobre linhagens, além de negócios que os herdeiros e não-herdeiros deveriam saber. Na verdade, reitero o que falei, pois não era comum que o segundo filho fosse preparado para uma educação de senhor nobre, a menos que o primeiro falecesse. Era provável que o instinto paternal de meu pai o motivasse a ouvi-lo e me educasse segundo este caminho, ainda que eu viesse a passar parte de minha vida em Angoulême, como já falei antes.
Bem, meu pai olhou para mim e disse:
--William era um duque de uma região chamada Normandia. Ela se situa na França, e foi muito poderosa ao longo dos séculos. Ainda hoje o é e nos pertence como direito nosso--ele acrescentou, orgulhoso--Foi palco de vikings, e que Sylvia nem me escute dizendo tais coisas, pois ela os abomina em nome do Senhor--ele desdenhou da esposa e sua piedade cristã--Bem, como descendente de vikings, é claro que ele não se contentaria com suas próprias terras. Portanto, meu filho, desbravou os mares para cá estabelecer-se. Teve vários filhos, é claro. O mais velho, no entanto, foi deserdado e ficou com a porção que lhe cabia como herança devida: tornou-se duque normando ainda em tempos de vida do pai, mas isto é história para mais tarde. O segundo filho sucederia William, tendo ele também recebido este nome e foi coroado como William II. Alguns dizem que seu irmão mais jovem, Henry, contribuiu para que morresse antes do tempo para que se tornasse rei. Qualquer que seja a verdade, meu caro menino, Henry se tornou o primeiro de seu nome a reinar sobre a Inglaterra. É dele que vieram nossos ancestrais.
--Isso quer dizer que sou parente do rei?--perguntei, entre admirado e confuso.
--De fato!--respondeu o pai, serelepe--E é por isso que vamos à corte. Não você, é claro, pois ainda é novo demais para estas coisas, mas com a idade certa fará companhia ao duque da Cornualha.
--Quem é esse?--quis saber, curioso.
O pai me encarou com um sorriso nos lábios e disse:
--Ora, ninguém menos que o príncipe de Gales, Edward, filho do rei Edward III, meu jovem!
E ali nossos destinos foram traçados.
* * *
Edward tinha amigos mais próximos, naturalmente, alguns dos quais os cronistas não pensaram em registrar pela pouca importância que lhe cederam. Mas eu vos pergunto: que nobre se equiparia ao formidável príncipe inglês e futuro rei da Inglaterra? Creio que ter sua amizade era mais importante do que conquistar a atenção dos que eram os olhos e ouvidos do rei e da rainha.
Não pretendo me alongar em demasia neste curto período, mas como escapar a isto quando nossa primeira grande batalha ocorreria no ano de 1346? Permita-me, pois, rebobinar ao ano de 1345. Nesse período as tensões entre a França e a Inglaterra haviam eclodido em conflito físico. No entanto, o rei Philippe VI, da casa Valois, recusava a ceder território para o rei inglês, que, por sua vez, afirmava ser o verdadeiro soberano daquelas terras do continente por ser neto de Philippe IV.
(Vamos lá, deixe-me explicar-vos, caros leitores: a Guerra dos Cem Anos se dividiu em várias partes e se prolongou para além dos cem anos, terminando, em essência, para depois do casamento de Henry VI e Margaret de Anjou. Mas na década de 40 deste século XIV, vemos que, na França, três reis, todos homens e filhos do temível Philippe IV da dinastia capetíngea, faleceram sem deixar herdeiros legítimos do sexo masculino, pois a Lei Sálica impedia que as mulheres se tornassem rainhas por direito ou por casamento também. Com isso, dos filhos de Philippe IV, apenas uma, Isabella, deixou herdeiro, Edward, que, na verdade, já era senhor dos ingleses. E os franceses não queriam ser governados pelos ingleses, naturalmente. A questão é que Edward III decidiu fazer tal reivindicação porque acreditava que ele tinha mais direito de reinar do que seu primo, Philippe, que vinha da casa do primeiro duque de Valois. Quaisquer que sejam vossos julgamentos diante disto, não há como alterar a percepção de que as lutas, neste primeiro estágio, eram reflexos de disputa territoriais entre dois reis sobre um reino completamente fragmentado. A França era, politicamente falando, não como vos conheceis hoje em dia no século XXI. Ela era pequena e forçada a lidar com entidades políticas independentes. Ducados como a Borgonha, por exemplo, contemplava territórios que chegavam à Flandres! Podeis imaginar como um rei francês sentia-se diante disto? Claro que, se pensarmos com a mentalidade do século XXI, é absurdo pintar em nossas mentes a ideia de que uma cidade francesa pouco conhecia possa ter abarcado a região do que hoje em dia se localiza a Bélgica, mas a geografia política medieval era organizada de outras maneiras. E por que digo que foram vários estágios de uma longa guerra? Porque as motivações foram mudando, transformando-se, afinal, em luta de egos, em disputas que, antes do reinado de Richard II, já não se tratavam do domínio sobre a França, mas configuraram em perda política para a Inglaterra. Não vos enganem, porém: no século XV, os conflitos anglo-franceses se sucederam e parcialmente findaram com Richard III. Mas isto é outro assunto.)
Ah, falar destes assuntos me incitam grande animosidade, é verdade. Peço-vos perdão desde já por ter-me prolongado mais do que devia a respeito. Mas é porque me envolvi inevitavelmente nestes assuntos, ainda que pouco espaço ocupei neste palco de disputas supérfluas. Ao mesmo tempo que tudo isto acontecia, ganhou força a cultura cavalheiresca. Acompanhei bastante o grande Henry de Lancaster, conde de Derby e, posteriormente, duque de Lancaster, em várias de suas jornadas por todo o reino. Este era um homem que inspirou, se não motivou, a criação da Ordem da Jarreteira (em inglês: Order of the Garter, cujo lema pode-se transcrever desta maneira: ai daquele que pensar mal disto!). Seguia à risca o que Lancelot e o rei Arthur ensinavam em seus contos literários: o quanto devemos defender os pobres, ser bondosos com as senhoras, não permitir que suas virtudes sofram qualquer ofensa, lutar contra os impiedosos e infiéis, enfim, ser cristão. Em Lancaster, ser cristão não era somente rezar e abjurar-se de comer carne em dias santos ou de xingar; era mais que isso. Ser cortês, honesto e bom; ser justo e honrado. Ah, a boa e velha honra! Não se é honrado apenas com os amigos, mas inimigos também. E se caso seja invitado à luta, que o faça! Declinar a provocação seria como recusar dar a cara à tapa, seria agir como Judas. Não existia espaço para a covardia.
Muitos de nós, jovens e tolos, almejavam sangrar a espada virgem pela primeira vez por conta disto. Queríamos provar o valor. E que valor é este? Ora, sabeis que a sociedade terrestre, de tempos em tempos, tem as cobranças para cima dos jovens. Se em vossa contemporaneidade se trata de esperar de um rapaz que seja gentil e trabalhador, nos meus dias, era que se ganhasse uma guerra e derrubasse o oponente nas justas que contavam com a presença do rei. Por debaixo de toda esta festividade, porém, não me passou despercebido que não era raro detectar nada além da vaidade dos exibicionistas. Os valores eram bons, sem dúvidas, e, em essência, refletiam o ensinamento de Cristo, ainda que de maneira belicosa. Mas qual sociedade não o era em tais tempos? Bem, o ponto que gostaria de fazer é deixar claro que havia os apegados à carne que distorciam tais valores segundo seu entendimento. Quando penso nisso, vejo que era difícil esperar que houvesse alguém da realeza que, de fato, fosse humilde. Por mais que admirasse o príncipe, lhe faltava este entendimento. Era uma pena que me faltou a coragem de Lancaster quanto ao devido tempo em lhe aconselhar sobre suas faltas, pois este duque que mencionei não tolerava a mentira. É verdade que a infidelidade foi um de seus defeitos tal qual a luxúria, mas no mais... asseguro de que testemunhei a sinceridade em seus atos. Não posso, portanto, convocá-lo à acusação de hipocrisia. Mas não penseis que faço julgamento de valor, caros leitores, pois é uma reflexão particular minha que faço tranquilamente sem me colocar como melhor ou pior que tais personas. Na realidade, hoje em dia, estou mais próximo do príncipe, cujo testamento encontra-se ainda neste blog.
Demos prosseguimento, portanto, à história. Eu e meus caros companheiros envolvemo-nos em várias justas, competindo ora em Eltham diante da multidão de cortesões, ora em Woodstock, perante o rei e à rainha. Havia, ademais, outras ocasiões em que o público comparecia. A nobreza fornecia entretenimento para os camponeses que não se abalavam às dificuldades para ver bons cavaleiros em justas uns contra os outros. Apesar da peste bubônica dar seus indícios de aparecimento, ainda não era uma epidemia que assustasse tantos. O clima de pessimismo não pesava na mentalidade do povo ou dos nobres. Ao contrário, a perspectiva da guerra contra a França estimulava um senso de identidade que se projetava na figura cavalheiresca do rei e, consequentemente, seu filho, o príncipe.
De todo modo, contava dezesseis verões quando o rei anunciou formalmente que iríamos à guerra. Homens a partir dos doze anos deveriam ser convocados, estendendo o limite aos sessenta. Esperava-se que os duques, condes e todos aqueles que deviam autoridade ao soberano inglês convocassem seus vassalos para o conflito. Ainda neste contexto, meu irmão mais velho já havia retornado à pátria espiritual. Fora uma perda recente para a família, a qual fizera meu pai ser mais cauteloso comigo. É verdade que tínhamos um laço (em outra vida, fui o pai dele) especial, mas assegurei-o, provavelmente temperado pelo fogo da juventude, de que era meu dever não somente com os príncipes, mas com Jesus nosso Senhor e Maria, mãe Santíssima. Na realidade, o motivo para que muitas batalhas marcassem esses dias medievos residia, ironicamente, na crença em nosso amado mestre Jesus. É curioso refletir a respeito, pois Jesus nunca precisou de armas para dissuadir um camponês de fazer mal ao outro ou de trazer a seu lado os que estavam perdidos nas trevas. Amar o próximo nunca pareceu difícil como tantos séculos após sua crucificação. (Vejo igualmente na contemporaneidade vossa o quanto as batalhas, hoje mais ideológicas e no campo das línguas do que das espadas, seguem de maneira similar. Ninguém ama o parente "diferente", mas julga-o por não ser segundo aquele que crê ser a forma mais correta de agir, pensar e sentir. Ninguém olha para dentro e procura a reforma íntima. A diferença de hoje para aquela época reside na ação dos instintos animalescos que ainda prevalecia sobre o uso da razão divina que o Pai nos cedeu a partir de nossa criação. E mesmo hoje em dia, não é a língua mais afiada que a espada?)
Sendo assim, o pai aquiesceu. Estava orgulhoso porque via que eu não me abstinha do cumprimento dos deveres e, mesmo risonho de quando em quando, nunca me esquivei destes. Edward costumava me acusar de ser muito sério, mais tarde, mas zombei dele ao afirmar que guardava o senso de humor para a esposa. Garanto que isso o fez rir por toda a tarde. Ah, bons tempos!
Mas chega de delongas! Fui designado, como era companheiro de Edward desde sua infância (e tínhamos a mesma idade também), a seguir seu esquadrão. A diferença militar daquela batalha para tantas outras residia de que agora lutaríamos à pé. A cavalaria estava sob comando de outros homens, um deles o próprio Lancaster, que salvaria a vida do príncipe em batalha mais tarde.
Recordo do aviso que o rei, uma vez, nos deu:
--Senhores, sois jovens hoje, mas amanhã, no crepúsculo da vida, terão olhado para este dia com louvor rugindo em vossos corações. A experiência é o que comanda o homem na eterna guerra da vida, e hoje não seria diferente. Sedes corajosos, rapazes, pois o louro será colhido, disto repousa a certeza que Nosso Senhor nos inculcou a partir do dia em que fê-me vosso soberano. A cada um, segundo suas obras, portanto, fazeis o que foram treinados a fazer. Não permiteis que o inimigo veja vosso medo, pois, do contrário, fará disto o instrumento para ceifar vossa vida. É valoroso ter medo, de fato, conquanto não o fazeis cagar em vossas próprias calças. Hoje, derrotaremos os franceses. Lembrei-vos disto, de que fazeis história--e, virando-se para o filho, pôs a mão sobre o ombro dele e acrescentou--Vá, lidere estes homens e prove seu valor.
O silêncio, naquele instante, foi ensurdecedor.
* * *
26 de agosto de 1346.
Quando o orgulho imperava sobre a razão dos homens, mascarava-se sentimentos inferiores que julgavam ser culpa do ser mais bestial de todos. Entretanto, se os mesmos os liderassem à vitória, cabia responsabilizar Deus por isto. Bem, não nego que não fui exceção a esta percepção. Mas que outro jovem teria esta percepção? É verdade o que disse o rei: a experiência forma a maturidade, embora tivesse falado isso com outras palavras. Seja qual fosse o resultado de desembainhar a espada e gritar por São Jorge, e pela Inglaterra, carregaria em mim o efeito daquilo tudo. Jovens normalmente só se dão conta do resultado de suas ações na maturidade, quando contemplam os caminhos que poderiam ter sido feitos de forma diferente, ou os sentimentos que os motivaram a fazer determinadas coisas... É diante da morte que o homem se depara com suas ações e o possível resultado delas. É a morte que obrigava-o a ser humilde, a reconhecer, embora ninguém ousasse admitir isso em voz alta, que a qualquer instante Deus, ou, na pior das maneiras segundo a mentalidade em voga na época, o diabo os chamariam para onde suas almas iriam.
Céu ou inferno, para onde irei?
E pairava assim o silêncio sobre os corações mais estrondosos. Observar o rei em sua calmaria, cavalgando em sua soberba enquanto tantos os acompanhavam naquela empreitada, era inspiração para uns quanto insegurança para outros. Recordo de um sujeito chamado Roger que vomitou à bordo da embarcação que nos levava ao continente. Ouvi-o murmurar para si mesmo:
--Que Deus nos abençoe, pois não sei se terei sucesso nesta missão.
A masculinidade em voga era resultado de uma cegueira tão obstinada que não se dava espaço para o medo. A teoria era muito bonita para aqueles que a proclamavam e era mais estimada pelos altos nobres que não deviam obediência a tantos outros. Mas um camponês que confessasse medo ao seu senhor ou a outros companheiros sofria de zombeteiras quando não coisas piores. Tal era o orgulho que não permitia que o ser humano fosse humano. Pergunto a vós que acompanham estas reflexões até aqui: julgaríeis vosso próximo por ser sensível e lidar de forma diferente às adversidades da vida, esperando que fosse espelho de vossas próprias faltas, ou tentaríeis compreender esta forma de expressão de emoções? Se a tendência para a primeira questão perdura é porque ainda hoje o orgulho perpetua em como se lida com emoções profundas. E não há nada de errado em temer o desconhecido conquanto não seja dominado por este temor.
Naturalmente, estas questões só viriam à mente tantos anos depois. Quando se tem 15, 16 anos, o mais importante é provar o valor, como já mostrei antes. Lembro da conversa que o príncipe Edward teve com seus companheiros.
--Estão ansiosos para estraçalhar os franceses? O pai me contou que o rei deles não somente contratou alguns mercenários para auxiliar a grande nobreza que foi convocada para nos derrotar.
Um dos rapazes presentes arqueou a sobrancelha esquerda e indagou:
--O que está dizendo, senhor? O rei Philippe enviará parte de sua própria nobreza à guerra?
Edward, o príncipe, encarou-o com serenidade. Era alto e possuía uma tez amorenada, longo nariz e olhos um tanto escuros, mas intensos e ferozes. A barba crescia, denotando já entrada para a vida adulta, e havia músculos que, mais tarde, seriam reforçados. Era forte e robusto, nada nele indicava interrupção de longa vida, pois derrotou as enfermidades na infância. Sobreviveu, até então, às expectativas e estava claro para todos os que cercavam-no que ali se apresentava o próximo rei da Inglaterra, o quarto a se chamar Edward. Assim, era o que pensávamos.
Sobre seu caráter, deixarei ponderamentos a serem conjecturados. Convivi com ele, é certo, e fui seu amigo, mas ninguém pode afirmar realmente o que se passava na mente de outra pessoa. Edward herdara do pai a prepotência, o temperamento e a arrogância. Faltava-lhe o tempero da doçura da mãe e a religiosidade genuína desta. E, no entanto, era bondoso e leal para os que fossem com ele na mesma medida. Muitos o comparavam, em verdade, ao temperamental e soberbo rei Edward I, também conhecido como "pernas longas" e "martelo dos escoceses", tanto por ser alto quanto por subjugar os vizinhos do extremo norte.
--Sim. Ele confia que, por estar em vantagem numérica, poderá nos derrotar--afirmou o príncipe, categoricamente--E é verdade, estamos em desvantagem.
Vi os rapazes trocando olhares, percebi um flash de insegurança, e, no entanto, Edward de Gales permanecia calmo. Foi quando o príncipe me percebeu mirando-o com atenção que o fez dirigir-se a mim, com meio sorriso.
--Por que estás a me observar, William? Tendes algo a compartilhar conosco?
Ruborizei, porque detestava estar no centro das atenções. Mas venci a timidez típica juvenil e falei:
--Não, milorde. Estava pensando nessa informação que vós nos disseste.
--Creio que há algo em vossa mente, titubeando para ser dito--ele insistiu.
Dei de ombros, inalterado, embora percebesse que os rapazes a nossa volta esperassem que uma tensão explodisse. Naturalmente, havia os que desgostassem de mim e que aguardavam minha queda, mas não é preciso dizer que eles partiram antes de mim, não é mesmo? Pois que seja lembrado que os semeiam a discórdia, plantam o desfavor, a desunião.
--Não, senhor, garanto à vossa senhoria que não há nada a ser falado. Mas já que insistíeis, confesso que estou curioso quanto a sua tranquilidade. Longe de presumir algo, mas confiais que possamos derrotar os franceses?
Vi que a minha pergunta o desafiou, e o príncipe gostava de desafios. Ele cedeu meio sorriso antes de responder, um tanto quanto arrogantemente:
--Mas é claro, meu caro! Aonde mais isso se sucederia? Somos ingleses. Henry II não subjugou metade da França antes de nós?
Uma rodada de aplausos rugiu ao nosso redor, é claro, mas não me abalei. Ao contrário, sorri.
--Números são números, é verdade, mas muitos deles definem o resultado de uma batalha--insisti.
--Olha só, ele estudou história--alguém comentou desdenhosamente, arrancando risinhos de uma plateia atenta.
--Concordo--prosseguiu Edward, ignorando o sujeito--mas boto fé no nosso sucesso. Nossa cavalaria tem homens bastante competentes. A infantaria, embora reduzida, é igualmente potente. Lutaremos à pé.
--À pé?!--ouviu-se assombros.
Novamente, Edward não se abalou. Ele falou:
--Cavalos, por vantajosos que possam ser, atrasam-nos. Além do mais, a ação requere o uso da adaga em contraposição à longa espada, por isso precisamos fazer a ação decorrer à pé.
O debate se deu por encerrado naquele instante. Nem mesmo eu saí imune dele. Afinal, era minha primeira batalha e a perspectiva de lutar de igual para igual com o inimigo me assombrava. Mais tarde, quando me retirei para dormir, fiz minhas preces. Foi quando, assombrado, fui tomado de assalto por um padre. Ele se sentou ao meu lado e falou:
--Estamos todos preocupados com o príncipe.
Confesso que passou pela minha cabeça por que um padre desabafaria com um garoto como eu, mas, é claro, percebi que sua presença deveria ser um sinal de Deus. Por isso, me virei e falei:
--Deus está no comando, eminência. Tendes certeza disto.
O padre não era tão velho quanto às pobres chamadas de velas mal iluminadas poderiam aludir. Era careca, ou parcialmente, e suas vestes marrons indicavam a qual ordem pertencia. Era franciscano. Do pescoço, pendia uma cruz ricamente produzida. Quase sorri quando pensei que os franciscanos tinham o costume de fazer votos de pobrezas, mas achei melhor calar minha impertinência quanto ao assunto.
--Com certeza, meu jovem, disto não temos dúvidas--ele sorriu--Mas é a primeira batalha dele, e é o herdeiro da coroa.
Por um instante, me peguei pensando: este padre não se preocupa com o restante de nossas almas, mas somente a do príncipe. Imaginava se, para aquele homem, minha possível morte o preocuparia. Embora nobre, não era o suficiente para ocupar sua atenção. Mas, é claro, não resisti à tentação de reproduzir a arrogância daquela classe da qual fazia parte quando retruquei:
--Espera-se que ele enfrente tantas batalhas deste dia em diante, eminência. Não podemos pedir para que fique e reze. Nem mesmo o senhor nosso rei faria isto. Do contrário, os franceses nos dominariam.
Ele riu seco, mas senti tristeza naquele som. Examinei minha consciência e, para minha surpresa, percebi que não deveria ter sido tão rude com aquele homem de Deus. Para minha sorte, o padre não viu que enrubesci.
--É verdade--ele concordou--Precisamos de um rei guerreiro, mas poucos pensam nos valores cristãos a que se propõe ser.
--O que quer dizer com isso, padre?
O homem de vestes escuras deu de ombros, mas respondeu:
--Nada, garoto. Mas veja, as guerras são mesmo necessárias? Tanta matança para quê?
Incomodei-me com aquilo, como uma pessoa ficaria incomodada diante de verdades que muitos evitam ouvir. Mas, em análise mais profunda, aquele padre apareceu a mim para tirar de meus olhos as vestes da cegueira.
--Não há como fugir, senhor, do contrário seremos tachados de covardes--me ouvi murmurar em resposta, sentindo-me mais como garoto do que jovem homem de dezesseis anos.
--Todos esses homens que conhecem riqueza determinam valores incompatíveis com as do Senhor. Eles não podem oferecer o amor eterno e paz que tantos buscam--ponderou o padre--E, entretanto, importa mais agradar em busca de ouro do que viver na serenidade. A aprovação alheia tornou-se rito de passagem, quando deveríamos buscar a aprovação do Senhor. Dali terminaria o sofrimento que tantos procuram de boa vontade.
Quase ri, pois, infantil, não compreendia o que me dizia.
--E quem procura são os franceses, que nunca nos dominaram completamente--e, como quem quisesse mudar de assunto, falei--O senhor já ouviu falar de Henry II?
* * *
Embora muitos de vós acrediteis que nós, os espíritos, ignoram o que se passa na Terra, principalmente neste século nascente, a verdade é que o avanço tecnológico e tantas outras mudanças sociais capturam nossa atenção por uma série de razões que não me cabe expor aqui e agora. O ponto é que muitos romantizam as batalhas, vibram com olhos esbugalhados segundo a imagem movimentada que intenta pobremente trazer as guerras de outrora. No entanto, poucos foram de fato capazes em ser realistas naquilo que se propunham a trazer.
Ninguém vê, por exemplo, o medo que estampa, sem distinções, as faces dos homens que foram convocados para atender às mesquinhices de seus soberanos. O camponês que traja apenas consigo um papelão como armadura e um machado como arma lutará em termos "iguais" com o inimigo mais bem apessoado. O pobre homem que se contentava em plantar, colher, ir à Igreja, beber uma cerveja nas tavernas e ser um pai, um marido, era forçado a, sabe-se-lá por qual razão, lutar sem propósito contra um inimigo que jamais conhecerá o nome.
De igual maneira, o nobre compartilha deste sentimento. Um movimento em falso e sua espada escapará de suas mãos e a vida lhe fugirá, roubando-lhe momentos ricos que lhes trariam glórias para com a família que deixa para trás. Mas ambos, apesar do medo, reconhecem naquele instante a força do Criador. Poucos são os que, arrogantemente e movidos pela soberba, atiram-se imprudentemente contra o outro. Contudo, posso dizer que a maioria vê que a vida, embora dependa de seus golpes para sobreviver, reside no "favor" que o Pai lhe conceda. Na limitação de seus pensamentos, ajoelham-se, metaforicamente ou não, diante de Deus e imploram por uma vitória.
É, no mínimo, instigador perceber o nascer de Jesus em determinadas pessoas. Lembro de um companheiro de armas comentar comigo o seguinte:
--Conheceis a história de São Jorge?
--Estou familiarizado com ela, mas admito que ela se confunde um pouco com a de Lancelot.
O rapaz em questão riu.
--Mas não houve nenhuma rainha que conquistasse o coração dele--vendo que eu não incentivava a este tipo de especulação, ele prosseguiu:--Ele não tinha medo porque sabia que uma batalha não significava guerra. Uma derrota não determinava fim. Não é isso que nos define, mas a coragem que motiva em lutar diariamente com as serpentes que nos cercam.
Ponderei sobre o que queria dizer. Surpreendentemente, caro leitor, mesmo com minha mente juvenil, entendi sua intenção.
--É possível ser um bom guerreiro? Ser justo quando o outro é injusto?--ouvi-me perguntar--Perdoar quando, em um deslize, não somos oferecidos o perdão?
--São Jorge era um bom guerreiro, e sabia que havia lutas que não mereciam ser travadas--fui respondido--E ainda que o inimigo insistisse, ele perdoava. E é nisto, nestas escolhas que há a coragem. Quando as serpentes tentam, meu caro, cabe a nós bradar a espada ou recolhê-la e deixá-las para trás. Não foi por isto que o Senhor nos deu o livre arbítrio?
Sorri, sentindo-me repentinamente uma coragem que, por descuido, me escapara.
--Por São Jorge--falei, tocando-lhe o ombro.
--Por São Jorge--ele respondeu.
Infelizmente, não o veria mais depois daquele dia.
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Foi uma batalha sangrenta como era de se esperar, embora para os iniciantes o choque e a perplexidade fossem inevitáveis. Mesmo o príncipe fora derrubado. O desespero era terrível, e ouso dizer que o mais assustador não era a troca de sangues, a retirada da vida para defender-se, mas o clima que pairava no ar. Cheirava-se não a morte, mas o desespero. Que dava vazão ao temor, à raiva, ao ódio, ao rancor. Sentimentos, naturalmente, negativos.
Poucos admitirão isto, mas é no campo de batalha onde o homem se faz emocional. Se é lugar de canalizar o que, em sociedade, é reprimido, não posso afirmar, mas o caos atua exatamente sobre as emoções do sujeito. Alguns bebiam para extravasar, acreditando que o álcool daria-lhes coragem para superar o medo, mas isso somente acarretaria em traumas que marcariam toda aquela existência do indivíduo.
Podeis ouvir o barulho de espadas sendo trocadas, aço contra aço, gritos de almas perdidas em si ou já fora de si. Tudo acontece em segundos, muitas vezes duas horas parecem ocupar todo o dia. Bem, por que me delongar em tantos detalhes desnecessários, não é mesmo? O que quero dizer com isto é: no final, fomos vencedores. A batalha de Crécy trouxe vitória aos ingleses. A glória era nossa, mas muitos se esqueciam que uma vitória não determinava o curso da guerra. E, penso agora, talvez tenha sido isso que culminou na perda da Guerra dos Cem Anos daquela geração.
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É, de fato, lamentável perceber, em retrospectiva, quanto se confundiam os valores crísticos com os da sociedade. Edward, príncipe de Gales, provou ser tudo o que os ingleses medievais esperavam do herdeiro do grande rei Edward III: era habilidoso com a espada, diplomático, belo, charmoso e, claro, cristão. Na aparência, tudo clamava à perfeição. Mas esqueciam-se que ser excelente guerreiro não significava ser bom governante. Daí a confusão: queriam um rei agressivo, mas que exercesse as qualidades de Cristo em Terra, pois não tinha sido por Ele escolhido a governar sobre todos? Contudo, em uma crise de enfermidades, tudo isso seria olvidado, naturalmente.
Quando príncipe da Aquitânia, o povo de lá conheceu a decepção, viu no elevado e lendário príncipe sua face mais feia. O grande guerreiro demonstrou ser tirânico, déspota e cruel. Enquanto o povo passava fome, ele cobrava altos impostos para fazer valer suas festas. À primeira vista, poder-se-ia julgá-lo incapaz do verdadeiro amor. Mas quando vamos entender que o espírito que encarna aqui não é feito de uma só nuance, mas várias? Edward era perfeitamente capaz de amar, e era devoto da senhora Joan de igual forma que ela era a ele. Teriam mais filhos se a Providência permitisse, mas logo mais ele partiria.
Quando casei, minha nobre esposa, Jeanne, me falou uma vez sobre um dos vários sermões agostinianos que ela gostava de ouvir do confessor. Foi algo que me fez pensar:
--A verdadeira guerra não é contra os outros, mas conosco e com tudo o mais que dos outros existem em nós. Poderemos, pergunto, conduzir nossa alma à eterna felicidade? Acredito, pois respondo, marido, que sim, conquanto nos desapegarmos de tudo que nos faça mal.
E foi isso que, na perspectiva do príncipe, tornou-me tão sério. Mas é verdade, e eu não quis deixar somente para o último instante a batalha contra os vícios que ainda me atormentavam. Com isso, passei a residir por lá até o momento em que tive de regressar. E testemunhei um reinado que, sendo sincero, não seria diferente do pai daquele governante, o amigo que conheci. Mas tudo o que damos, nós recebemos.
Por isso não me surpreendi quando, em 1399, Richard II foi destronado pelo primo. Recordo mesmo que nem mesmo o pai deste ter-se-ia surpreendido se houvesse vivido o suficiente para isto. Mas suas palavras ainda ecoam em minha mente:
--Pelos pecados vivemos, pelos pecados morremos. Neste ínterim, esquecemo-nos de Deus, de Maria, mãe Santíssima. Esquecemos dos verdadeiros valores de Cristo. E é por isto que surgem os déspotas e tiranos, William. São cegos que foram guiados por cegos--ele se lamentou, admitindo sua culpa na educação do rei. Mas este é outro assunto.
Em meu desencarne, caros colegas leitores, vivi na obscuridade. Procurei seguir naquilo que acreditava. Não havia como não ser do mundo que participava, mas evitei ir de contra minha consciência quanto podia. Não fui um grande Henry de Lancaster, embora, ao menos, fui fiel à esposa e creio ter passado bons valores aos meus filhos, mas aprendi muito com essa vida. A dar aos pobres, a ser honesto, a ser agradecido, a ser humilde na medida do possível, a vencer, talvez, as batalhas que ainda rugiam em meu coração.
Nobre ou não nobre, todos nós pagamos nossas devidas contas diante de Cristo. Ele nos perdoa, mas somos nós capazes de nos perdoar pelo que foi feito ou não feito?
Deixo aqui meus agradecimentos ao Pai, mais uma vez, por esta oportunidade. Se os leitores esperavam mais uma narrativa sobre a batalha, peço desculpas por causar-lhe desapontamento, mas a verdade é que gostaria de usufruir desta oportunidade de revisitar meu passado para tentar inculcar qualquer ensinamento crístico que vos possa ser absorvido. Não se trata de ter sido guerreiro ou amigo de personalidades históricas, pois que importância há o título quando o espírito retorna à pátria espiritual? Trata-se do que fizemos com as ferramentas que o Pai nos deu. Toda oportunidade encarnar é válida e deve ser bem aproveitada. Que possamos nós todos nos redimir, reparar e aprimorar pelo que foi feito--ou não feito, como falei acima. Que possamos abraçar, neste Natal, os valores que Cristo nos trouxe com seu ensinamento e que Maria Santíssima nos reforçou. Que com amor, fé e perseverança vençamos nós os obstáculos internos. Abracemos nossas sombras com a luz que Deus, através de Cristo, nos iluminou com Seu amor. Cuidemos de nossas línguas, que hoje substituem as espadas de antes. Cuidemos de nossas mentes, para que não produzam maçãs estragadas a fim de não atrair serpentes indesejadas. Cuidemos de nós para que possamos também cuidar dos outros. Se esta mensagem tocar verdadeiramente a alguém, ficarei feliz. Como o guia desta moça já lhos falou, estou trabalhando pela falange espiritual de São Jorge e, na umbanda, de Ogum. Aonde for necessário, estarei lá. E mesmo não sendo, também. Que a força de Deus nos ampare neste momento, meus irmãos e irmãs. Seja feita Sua vontade assim na Terra como no Céu. Agradeço, novamente, por esta oportunidade, e obrigado deixo à médium pela paciência e entendimento. Foi excelente reencontro, querida amiga e companheira. Que Deus e os bons espíritos continuem te amparando nesta vossa missão. - William.