Zhengzhou, China.
Ainda em tempos distantes marcados por guerras sem escrúpulos, violências que, pela ilusão da matéria, exerciam domínio sobre a mente do homem, nasci. Desta vez, regressaria sob a veste de uma mulher. Numa família de camponeses, recebi o nome de Xin Yung. Xin era o sobrenome dos ancestrais de meu pai, e Yung foi o nome que escolheram me dar.
Recordo-me de ter vivido longe do rio e próxima às florestas em um pequeno vilarejo. Era criada pela minha avó, uma senhora que surpreendentemente alcançou 60 anos numa época em que se esperava morrer aos 30. Seu nome era Xin Zhorae e ela havia sido a mãe de meu pai. Zhorae foi a matriarca da família, quem aconselhava minha mãe sobre a educação das crianças e compartilhava sua sabedoria com meu pai em outros tantos assuntos. Não era tão robusta quanto poderia se supor, mas minha mãe costumava dizer que sua saúde era forte como o ferro por manusear tão bem as ervas que tinha em seu alcance. Seus olhos pequenos eram escuros e atentos a qualquer movimentação em nossa humilde casa de madeira; suas bochechas, embora pouco flácidas, eram pálidas como a neve que caía no inverno; e os lábios pareciam estar sempre cerrados, pois raramente repuxavam-se em um sorriso. Normalmente, expressava-se pelo olhar e somente um tolo não perceberia isso. Vestia-se com o que podia e, ao lado de minha mãe, dominava a arte da costura. Aquela mulher seria muito importante para mim, embora deva admitir que, em existências precedentes, não costumávamos nos dar bem. Assim, optamos por vir no corpo feminino a fim de remendar as pendências de outrora.
Quanto ao meu pai, seu filho, não tenho qualquer recordação. Foi convocado para uma das guerras do reino do qual fazíamos parte e nunca mais voltou. Sendo assim, cresci como a única filha daquela família, acompanhada, porém, de um irmão mais velho, que herdaria as ocupações de nosso pai, vassalo de um senhor de terra que, por sua vez, respondia ao rei daquele território. No decorrer da minha infância, tudo foi passado com certa tranquilidade. Isso se explicava aos passos que dava rumo ao progresso espiritual que almejava. Não é absurdo confabular a respeito do avanço que dava quanto a escuridão que não mais me cegava. E, no entanto, não significava que aquilo seria a última vivência. Longe disso.
De rosto oval e semblante tranquilo, olhos pequenos e serenos, bochechas coradas e lábios finos, tal foi a minha aparência com pequenas mudanças na vida. Meus cabelos viviam presos em um coque, embora este hábito tenha se desenvolvido a partir da minha juventude, pois na infância viviam soltos. Minha mãe não era tão próxima quanto poderia se pensar, tendo se ausentado da minha educação, o que fez nascer em mim uma frieza voltada para autoproteção. Contudo, não se deve confundir este traço como orgulho. A ausência do amor materno, porém, refletiria nas faltas que ela enfrentaria posteriormente. Deste modo, Xin Zhorae me trouxe para si. Quando tinha seis anos, ela me confidenciou, bem humorada:
--Vossa mãe pensais que sois mui parecida comigo, portanto, a relegastes aos meus cuidados. Não que me importe com isso, sempre fui mais forte que ela.
--Creais que eu seja fraca, senhora vó?--não pude evitar perguntar.
--Creio que possuis um espírito demasiado forte, criança. Mas quero que venhais comigo, ensinarei o que me foi passado pela minha mãe.
Curiosa como era, por mais iletrada que fosse, eu falei:
--Como podeis saber tanto?
--Os deuses nos concederam meios para compensar as faltas que sofremos--explicou-me ela--Veja, nada posso ler, nenhum domínio sobre as letras possuo, e, no entanto, para contrabalancear esta situação que não nos favorece de forma alguma, meu conhecimento sobre as ervas, a água, a natureza e todo o mais é vasto.
Como era observadora, compreendi que, se fosse esperta, seguiria um destino similar e favorável. No entanto, ao crescer, tornava-se óbvio que as mulheres não esperavam algo melhor que constituição da família. Aquilo me inquietava. Aos doze anos, questionei:
--Por que havemos de nos submeter aos outros, senhora vó?
Zhorae apenas me encarou. Permitiu que meu espírito tão volúvel se rebelasse contra o corpo que tomara e, por conseguinte, a vida que tomava forma. Por mais que aceitasse algumas condições, tantas outras eu recusava. O orgulho ainda se manifestava, embora certamente em menor grau que anteriormente.
--Não pensaria assim--ela me respondeu, calmamente--Tendes a alma inquieta e irrefreável, Yung. Possuis um pensamento inquisidor e impaciente. Aprendeis rápido, é verdade, e se quiserdes seguir o caminho certo, tornar-vos-á uma sábia em vida. No entanto, também penso que isso se reflete pela forma com a qual vossa mãe vem lhe tratado.
--Ela prefere meu irmão--comentei, surpreendentemente serena--Não a culpo por isso. Ele ocupará o cargo de nosso pai e somente os deuses sabem como vai conduzir todas as questões domésticas. Vejo que há nele uma perseverança interessante, de fato, mas por que não poderia ser como ele?
--E o que gostaríeis de ser?
--Uma guerreira--falei, sem pensar.
Zhorae riu.
--Guerreira?--ela repetiu--E por acaso conheceis uma mulher que tenha tomado a espada ao lado de homens? Não seja tola, criança. Seu irmão tampouco o é. Esta é uma ocupação para outros.
--E, entretanto, nosso pai foi à guerra, não?--eu retruquei, instintivamente procurando por conflito.
--Falais como se ir à guerra fosse divertimento--repreendeu-me a avó, pacientemente--Desejais perder vossa vida em prol de objetivos que não são nossas responsabilidades? Delegar vossas funções a membros de família incapazes de cumpri-las por não terem sido previamente preparados para elas? Acreditais que casar é levar uma vida mais tranquila e ansiais por um amor em meio ao caos de interesses que não respondem pelos nossos?
Diante do meu silêncio, Zhorae prosseguiu:
--Desejais agradar e ser agradada, não é isso, criança? Não nutrais pela vossa mãe um sentimento de rancor, mas a ferida clama por uma cicatrização. A guerra não é um escape, não é um modelo de vida que devemos almejar. Ela destrói e nunca beneficia ao povo, mas aqueles que o governam. Venhais, está na hora de direcionar estes desejos para outro lugar.
Mas, enquanto me levava para o lado de fora, próximo ao bosque, não consegui evitar dar vazão a este inquietamento que me sacudia a alma.
--Mas a honra não está em defender e obedecer, senhora vó?
Ela parou e me fitou nos olhos antes de dizer:
--Para aqueles que a possuem, sim. Mas por que ela se apresentaria apenas em tais combates sangrentos?
--Porque--eu me aproximei em dizer--não há nada mais honroso que ajudar a defender nosso reino de invasores. Manter-nos a salvo é uma ação benfeitora aos olhos dos deuses, principalmente se feito sem grandes ambições.
--Sem dúvida que sim--concordou Zhorae--mas acreditais que os homens compartilham do mesmo pensamento? Que as guerras não são movidas por outras finalidades? Muitas vezes, filha, eles colhem o que plantam. Observe.--e, com a mão, fez um gesto para que me sentasse próximo a uma plantação de mandioca. Ela tomou a terra fértil nas mãos e, me encarando, disse--Com o passar do tempo, o povo que aqui vivia tomou nota de como se alimentar, ensinando uns aos outros a sobreviver. Isso pedia paciência e sabedoria, ambos os quais demoraram a se enraizar em nossos ancestrais. Até conhecerem o que deveriam plantar, erraram e, arrisco a dizer, morreram para que outros não repetissem isso.
"Disso sabendo, o que pensarias de mim se, acaso, optasse por remover toda a plantação de mandioca, arasse a terra e criasse um tipo de arroz em seu lugar? Isto aqui, este solo que escorre de minhas mãos, eu conheço. Sei o tipo ideal de semente, de comida, enfim, para ajudar-nos uns aos outros a não sofrer fome. O que pensais que colheria neste cenário, filha?"
--Nada--falei, apreendendo a noção do que faz o homem com aquilo que tem; que para tudo o que plantarmos, há uma colheita--É provável que deliberadamente causásseis uma escassez que afetasse todos os outros que da terra dependem.
--Muito bem. E creias, no fundo do seu coração, que seu pai morreu por isso? Que ele optou por seguir este destino? Falais das mulheres que baixam a cabeça e não escolhem, e dos homens que têm medo da morte?
--São covardes--respondi, como que em desafio.
--Seriam mesmo? Escutai-me, filha, em vez de ser tão impaciente e orgulhosa--pediu-me a avó--A cada passo dado, nos será ofertado uma escolha. Qual será a vossa? A de julgar homens pelas realidades que não vos competis viver? Para cada terra que os deuses vos conceder, pensais antes sobre o que pretendeis semear. Pois o que podeis colher, decerto afetarás não somente vós, mas tantos outros que conheceis.
Se havia me desapontado, era porque aquele conselho de sábia avó me nocauteara no âmago do que vinha sendo meu questionamento. Ainda que a cada amanhecer, eu pudesse caminhar pelo campo verde, admirar as árvores e contemplar o céu azul do novo dia que surgia; ainda que me desafiasse a melhorar na tecelagem e apreciasse a companhia dos animais mais do que a da minha família, eu me sentia incompleta.
Um dia, novamente agitada, fui atrás de minha avó. Ao lado de outras senhoras, ela mexia com ervas. Em silêncio, porém, a observei mexer naquelas folhas diferentes e sem nenhum comentário fazer, trabalhar seus dedos finos por cima delas. Ela estava produzindo o que, muito mais tarde, receberia o nome de chá.
--Venhais cá--ela me chamou assim que me viu. Depositara água sobre pedaços de folhas que eu desconhecia e falou--Bebais.
Sem que eu pudesse contestar, me foi empurrado o pequeno balde e assim bebi. O gosto não era dos melhores, mas não ousaria afirmar que era ruim quando não o era.
--É... bom--eu disse, entregando o objeto de volta às mãos que me entregara.
--Só isso? Bom?--resmungou a velha--Não estais nunca satisfeita, não é mesmo? Sentai aqui. Ensinarei a manipular esses couves e folhas de bambu.
Era verdade que aquela cena despertava em mim uma intuição de identificar algumas folhas, para quais objetivos deveria usá-las. Aquilo surpreendeu minha avó, que exclamou:
--Ah! Olhais, olhais! Como sois natural para isso, Yung! Mas como? Não a ensinei isto, oh não, não isto.
Referindo-se às plantas medicinais, eu apenas dei de ombros e falei:
--Creio que foi por instinto.
Mas a religiosidade da minha avó era alta demais para aceitar minha ignorância como resposta tática e inquestionável.
--Ao contrário, não foi. Venhais, há muito o que fazer.
Assim, se estabeleceu uma das atividades que não somente apaziguaria toda a agitação inerente ao espírito, principalmente pelas características que, não tendo sido desenvolvidas naquela vivência, precisavam ser domesticadas, como também estimulariam uma das qualidades que vó Zhorae diria ser importantes para as mulheres de casa. E tão logo fiz disso um escape ao ambiente doméstico frio que minha mãe estimulava, não demoraria para que conhecesse aquilo que me foi recusado:o amor em si mesmo.
Como se pressentisse este acaso, que por si só não o era, minha avó veio a mim em uma noite de primavera. Já contava quatorze anos e fazia muito que melhorara meu temperamento, embora faltasse mais a expiar. Meu corpo já adquiria contornos de maturidade, o que logo me expôs a conversas sobre casamentos. Conhecendo-me bem, Zhorae tomou a liberdade de me levar a uma pequena volta no crepúsculo. Andando a passos longe da vista de outros camponeses, muitos dos quais era ela quem se tornou familiar a eles, ela me situou em frente a um lago e pediu para que me sentasse ali mesmo, sobre a grama selvagem. Obedeci, e em meu silêncio, lancei a ela um olhar curioso.
--O desconforto que antes se fazia em sarcasmo transformou-se em silêncio--comentou Zhorae, como se ponderasse consigo mesma--Nunca cessais em me surpreender, filha. Ainda me pergunto se o desejo de ir à guerra mantêm-se, porém.
--Está adormecido--respondi, o que era verdade. Aquela vontade jamais se cessaria e, levando em conta as histórias precedentemente contadas, presumo que os leitores compreenderão o que aqui se passava.--Creio que ter-me direcionado para o conhecimento da herbologia me favoreceu nesse sentido.
--Mas não o suficiente--insistiu Zhorae, encarando-me com tal intensidade que fê-me desviar o olhar--Não. Há algo dentro de si que muito me parece cansado, triste, desalentador. Vossa mãe certamente não ajudais, e é por isso que devo concordar com seu irmão, querida. Há de se casar.
Levantei o olhar. Uma sensação de pânico veio a encher meus pulmões e foi preciso que ela se manifestasse para que eu não verbalizasse a tormenta que vinha de meu peito.
--Casamento também é dever. É honra. Tanto para vossa família quanto para nossos ancestrais. A linhagem se perpetua e é assim que tem de ser.
Aquiesci e não respondi. Lamentar não mudaria as circunstâncias e apesar da aflição que uma união sem meu consentimento me causava, negar o dever seria negar todo o ideal que vinha construindo nos últimos anos.
--Achais que sou cega ao vosso sofrimento, Yung? Sois difícil em lidar, mas persisto no que venho vos dizendo. Meu marido, vosso avô, não era fácil tampouco, mas ele nunca me faltou com o respeito. Sendo quem somos, isto se faz significativo.
O matrimônio era valoroso para aquela cultura e se manteria assim nos próximos séculos, mas, para quem não conviveu com isso, aquilo era diferente. Aceitá-lo, na verdade, tornar-se-ia uma prova sobre meu orgulho e minha vaidade. Não mais necessitava viver em solidão, pois era um chamado para volver à sociedade de muitas formas.
--Farei o que me pedis--enfim concordei--já que é importante para vós.
Pela primeira vez em muitos anos, vi Zhorae sorrir. E foi uma cena acalentadora porque aquele ato, insignificante para mim, significou muito para ela. Descobri que, ao fazê-la feliz, pouco valia meus sacrifícios pessoais, pois a tinha em grande estima.
--Que os deuses sejam louvados! Comunicarei imediatamente ao vosso irmão.
Por conviver muito mais com minha avó do que com o restante da minha família, os via com indiferença. Quando, ainda naquele mês, aquela que foi minha genitora partiu para o plano acima, sua ausência pouco me afetou. Não houve tempo a prantear porque, em nossas condições, o luto era um luxo que não poderíamos nos dar.
Meu irmão, Xiu Tsun, era quase dez anos mais velho que eu. Possuía uma constituição mais forte do que a minha por estar constantemente fazendo trabalhos braçais. Em decorrência de sua saúde robusta, quase foi chamado a fazer parte do exército do rei, mas o senhor das terras sob cuja proteção vivemos interpelou em seu favor. Como não havia ameaça iminente de guerras, ele permaneceu em sua ocupação. E como agradecimento, foi permitido que desposasse uma prima distante. Com isso, podemos concluir que era capaz de usar sua ambição a seu favor. Ele era belo, porém faltava-lhe a inteligência e a mente afiada. Estava preso a instintos materiais, e tais eram as que motivavam seu ofício. Por isso, éramos diferentes em personalidade e não me interessava aproximar-me dele. Na verdade, conhecendo seu caráter, mesmo agora, afirmo que ter-me sob seu teto causava-lhe preocupações de sustento, não bastando acrescentar nossa avó a isso. No final das contas, casar-me não seria uma ideia tão ruim assim. E pela estima em que tinha Zhorae, permitiu que ela escolhesse meu marido. Encontrou-o em um sobrinho de uma amiga, outro camponês, mas que morava fora daquele vilarejo, embora na mesma região de Zhengzhou.
--Vais gostar dele--contou-me Zhorae, e havia uma empolgação em suas palavras que fê meu coração acelerar--É soldado do rei, contou-me Huan, alto, possui boa complexão e é bom de caráter. Que os deuses sejam louvados!
--Que os deuses sejam louvados--repeti, ainda que sem animação--Quando devo conhecê-lo?
--A proposta foi oferecida hoje--disse-me a avó--e deve ser por isso que os deuses me pouparam. Ver minha querida neta casada e assim descansarei em suas moradas.
A isso, revirei os olhos, por mais que o conceito de morte não me assustasse. Por enxergá-la como distante, e conservar em mim o instinto de breve separação pela carne e não pelo espírito, não acreditei de imediato que estivesse falando a verdade. A despeito de nossas diferenças arraigadas na infância, tornamo-nos inseparáveis e apegadas de maneira tal que, se houve alguma rivalidade no passado, ela não se fazia no presente.
--Sejais prudente, minha vó--falei, com a doçura que meu caráter permitia. Ainda era, em essência, um pouco embrutecida e o meio em que estava inserida não pedia outra modificação--Teria a tia dele consentido nesta união?
--De fato que o sim. Acalmais vossas preocupações, Yung, que tudo será resolvido conforme a vontade divina.
E com tal resignação, fui inspirada a silenciar meus temores. Procurei não me concentrar neste casamento, no desconhecido que seria obrigada a chamar de marido, e foquei em ocupar-me com as plantações de arroz, de cenoura, enfim, no manuseamento da terra fértil. Enquanto não recebia a resposta do meu noivo, era obrigada a lidar com assuntos domésticos... piores.
A esposa de meu irmão, a prima distante do senhor das terras para quem labutávamos, se chamava Jan Lin Chun e era, apesar de dócil em disposição, egoísta em caráter. Não lhe apetecia dividir o teto comigo e nossa avó, ainda que, à primeira vista, nos tratasse bem. Reclamava de viver em meio aos camponeses quando sentia falta de um suposto luxo que seu primo distante lhe concedera. Não obstante, instigava Tsun a ir além às condições que naquele momento imputavam sobre ele. Em suma, alimentava suas ambições para direcioná-lo à dominação das sombras das mesmas. Não era de se espantar que eu me achasse em isolamento, mas me preocupava com o que seria de minha avó se deixasse o lar prontamente. Uma vez, conversei a respeito disso com ela.
--Minha hora está chegando, tenho a consciência disso--disse-me ela, apresentando-me, um certo dia, a uma erva bem doce. Preparávamos uma bebida em meio ao fogo da lareira--Todo o propósito há de conhecer o fim, minha filha. Do contrário, para quê construí-lo?
--Vó, não seja assim... --falei, sentindo a impotência na voz--Vós poderíeis morar comigo e o esposo. Não hesitaria em brigar com ele se fosse necessário para que dividisse um teto conosco.
Mas a velha riu de minhas ilusões e, tomando minha mão na sua, retrucou:
--Já falei para que não vos preocupais comigo, criança. Não temo o futuro, nem aquela cobrazinha que será a responsável por dar continuidade a nossa linhagem. Acredite, sua bisavó era pior.
Eu ri, e pus-me a imaginar como, dentre aqueles indivíduos tão frios, vim a conhecer uma avó amorosa e protetora. Sentia no meu coração que suas palavras eram verdadeiras e ainda que a morte se projetasse sobre nós, reconhecia que isso não colocaria fim em nossas relações. Contudo, eu ainda teria alguns anos a mais a lidar com problemas que, à época, não tinha confiança em resolver sem seus sábios conselhos.
--Quero que venha comigo, vó--insisti--Por favor.
--Não, filha. Não posso.
Com isso, encerrou-se a discussão e não insisti mais. Como a jovem que era, fiquei entristecida pelo resto da tarde e no anoitecer. Na manhã seguinte, porém, seria forçada a lidar com pesadelos piores.
--Preciso que cozinhe hoje--disse minha cunhada, enquanto me vestia para o trabalho na colheita daquele dia--Estou carregando uma criança e não posso dispensar esforços.
Não respondi. Seu tom de voz não me agradou e havia uma leve ameaça pairando no ar. Apenas fiz minha prece em silêncio, pedindo para que os deuses se compadecessem de mim.
--Ouvistes o que disse?--ela resmungou em voz alta, aproximando-se perigosamente de mim. Colocou uma mão ao redor de meu braço e me puxou para que a encarasse.--Sois muda? Estou falando com vós.
Com muito esforço, engoli em seco. Ainda que minha genitora houvesse deliberadamente me ignorado ou dispensado tratamentos a mim, não conhecera, até então, traços de agressão. Tão logo me aquietei, e a esposa de meu irmão rapidamente preencheu este vácuo. Um beliscão não arrancou de mim uma resposta, nem sequer um arranhão. Sem paciência, ela me esbofetou com força, fazendo-me cair no chão.
--Não quero vê-la fora de casa--disse, antes de deixar-me só.
Apesar desta pequena resistência, a dor infligida a mim fê-me chorar. A ausência de qualquer defesa ou reclamação não significava a falta de reações da minha parte. Prantear as pequenas gotas de sangue que saíam de minha pele ou da humilhação sofrida era como pensava me defender. Pois, se o fizesse na frente de Lin Chun, seria como se consentisse que me fizesse objeto de suas agressões. Da mesma forma que se a respondesse seria ceder às suas provocações.
No entanto, não me demorei ali: havia deveres esperando a serem cumpridos e eu aguardava ansiosamente sair da terrível esfera que era viver sob aquele teto. Persistia, era verdade, mas nada apaziguava o clamor de minha alma em libertar-me daqueles tormentos infligidos a mim. Duvidava de minha força para enfrentá-la, e por isso me achava em busca de um livramento. Mas meus pensamentos se enfraqueceram diante de minha avó, quando fui encontrá-la em sua própria casinha: não estava tão bem quanto antes e precisava de cuidados. Com isso, vendo em mim sinais de agressão que ela supunha vir do meu irmão, exigiu que eu ficasse ao seu lado.
--Vosso marido virá buscá-la--contava-me, animada.
Já não contava mais quatorze anos quando ela me disse isso, e eu não sabia mais se deveria acreditar em suas palavras. Seriam os deuses cruéis a ponto de me trancarem com pessoas que me renegavam? Ou seria a tola que via em um casamento a perspectiva de liberdade quando meu marido poderia, também, ser como meu irmão ou a cunhada?
Defronte àqueles questionamentos para os quais não encontrava resposta, eu me resignei. Concentrei minhas forças a cuidar de minha avó. Meu irmão, ciente do que se passara, naturalmente optou pelo lado da esposa, mas em respeito à avó, permitiu que ficasse ao lado dela. Foram dias bastante tensos. Nada que eu pudesse fazer atenuava o sofrimento da velha.
--Sempre soube que éreis talentosa com essas ervas, criança. Este dom não deve ser desperdiçado, Yung.
Tomei sua mão na minha e disse:
--Prometo que não será, vó. Mas se eu fosse boa como a senhora diz, a teria curado.
--Besteira. Não temos a cura para tudo. Somente os deuses a possuem--retrucou Zhorae.
Quanto a isso não respondi. No dia seguinte, ela ainda lutava pela vida e percebi o quanto era egoísta pedir que permanecesse comigo.
--Liberte-se, vó. A dor não lhe faz bem--eu disse.
Mas ela teimou:
--Já vos disse, Yung. E direi-vos outra vez: terminarei meu propósito apenas quando ele vier.
Para os leitores mais céticos, foi uma coincidência, mas os que creem em minhas palavras, sabem que tal não existe. Meu noivo, afinal, chegou à região procurando pela minha família. Na verdade, a tia dele o trouxe diretamente a nós, perante meu irmão e sua esposa que abandonaram seus afazeres para ver o motivo pelo qual alguns estranhos se aconchegavam na casinha de minha avó.
Foi uma sensação bastante peculiar. Aquele rapaz, dentro das características que a velha havia me dito antes, me remetia a uma familiaridade desconhecida! Seu rosto era sereno, seus olhos transmitiam sabedoria e seu corpo, forte, denotava uma saúde robusta. Quase de imediato corri a seu lugar para agradecê-lo por ser meu salvador. Talvez mais que isso: algo em sua presença emanava luz em meu coração. Uma paixão arrebatadora, traduzida para a linguagem moderna.
Zhorae, que mesmo naquela situação nada lhe escapava, prontamente exclamou:
--Que a cerimônia seja realizada! Não partirei sem ver minha neta casada!
--Acalme-se, vó--eu a interrompi--Precisamos ser cautelosos e sua saúde é a prioridade.
Mas era claro que a velha teimaria em reinar sobre todos nós, mesmo tão perto do fim.
--Nada disso. Por favor, tragam o nosso senhor! Somente ele poderá dar a bênção.
Tentei dissuadi-la do acaso, mas Huan, a tia de meu futuro marido, correu ao lado de quem presumi ser seus parentes atrás do senhor de terras em questão. Nesse meio termo, meu noivo, cujo nome descobriria ser Chang Yan, aproximou-se de mim e disse:
--Poderia ter a honra de conversar com a senhora antes de nos casarmos?
Tornei a olhar para minha avó, que subitamente pareceu melhorar e energeticamente exclamou:
--Vais! Vais conhecer vosso esposo, Yung! O que vos espera?
Pela primeira vez em quinze anos, senti um rubor subir às faces. Soltei meus cabelos, lisos como a água, e, vestida como uma donzela camponesa se vestiria em minha posição, assenti e ofereci a Yan meu braço direito. Atravessamos os curiosos que nos acompanhavam com os olhos e seguimos por um passeio ao redor do vilarejo.
--Minha tia transmitiu a mim os mais sinceros desejos de ver-me unido à neta de uma amiga que ela valoriza--ele me contou e sua voz soava tão doce aos meus ouvidos que fê-me sorrir, ainda que timidamente--Confesso que a ideia só me agradou quando ouvi mais precisamente sobre você. Minha mãe já deu sua bênção, pois ela quer netos para mimar, veja só. Mas não foi até seu nome sair dos lábios de tia Huan que soube que era quem deveria tomar como esposa.
Ruborizei ainda mais. Inexperiente como era quando se tratava de rapazes ou relacionamentos daquela natureza, baixei o olhar. Contudo, meu coração se acelerava e em meu íntimo ansiava por mais. Reconhecia-o sem tê-lo conhecido, como isso seria possível? Tais eram os pensamentos que moviam-se em minha mente.
--Perdoe-me por soar atrevido, senhora. É uma sensação que não cabe muitas explicações--disse ele, quase como se estivesse se desculpando.
Instintivamente tomei suas mãos nas minhas e repliquei:
--Por favor, fale mais! Gostaria de ouvi-lo. Receio admitir ter sentido o mesmo, embora pouco tenha ouvido sobre o senhor da minha avó. Temia perder as esperanças de desposá-lo, pois, de alguma forma, era você quem deveria ser meu esposo e mais ninguém.
Yan me abriu um sorriso caloroso que, novamente, provocou um rubor em minhas faces.
--Os deuses foram bons conosco, senhora. Creio ter sonhado com vós em uma das noites mais recentes, quando fiz a inspeção pelas bordas a comando do general Xiu. Foi como se...--ele pareceu dizer algo, mas se calou--De toda forma, espero fazê-la feliz.
Um pequeno encontro de cinco minutos mais parecia como um reencontro de uma vida inteira. E era assim que foi, de fato.
--Contaria-me, senhor, sobre sua vida?--inquiri, ansiando pelo desconhecido.
--Nada mais me alegria em fazê-lo--disse-me ele, alegremente.
Percebi que Yan gostava de falar. Sua voz era serena, paciente e doce de se ouvir: nenhum detalhe lhe escapava, assim soube que a casa em que morava era relativamente maior que a minha pelo fato de atuar tão próximo ao rei, e não meramente a um senhor de terras. Ainda que estivéssemos em um tempo curto de paz, como descobriríamos em breve, ele cumpria algumas pequenas missões designadas ao grupo do qual fazia parte pelo general. E os treinamentos eram rígidos, pois disciplinavam a mente sobre o corpo de maneira qual que não houvesse espaço para paixões.
Logo mais, contou-me que sustenta duas irmãs, uma das quais está prometido a outro companheiro de armas, e a outra não pretende se casar de forma alguma, o que explica alguns conflitos que têm com a velha mãe. Instintivamente, flagrei-me pensando a respeito da situação desta irmã, chamada Chang Annchi. Algo me dizia que sua condição não era boa, e que não detinha uma saúde tão boa quanto a dos irmãos. E se eu conseguisse curá-la? Mas não ousei transmitir meus pensamentos em palavras para aquele bondoso homem. Ainda não. Com isso, cultivei a paciência.
A conversa não se demorou muito mais porque o senhor das terras, cuja parente se tornara minha cunhada, finalmente chegou. Com reserva, cumprimentou a todos nós, embora se mostrasse surpreso ao ver Yan. Como viria a saber mais tarde, os dois homens se conheceram há cinco anos atrás quando os vizinhos quase invadiram o reino.
De todo o modo, na presença de minha avó, deixava minha família para tornar-me membro de outra. O culto aos ancestrais ainda tinha alguns resquícios e, para minha surpresa (o que não deve ser para o leitor que acompanha estas histórias), via os espectros tanto da minha quanto da família de meu esposo. Havia sorriso e prazer em suas expressões e todos eles transmitiam uma paz que refletiu-se em meu interior. Como só eu parecia vê-los, entretanto, achei por bem guardar aquela visão a mim.
Uma vez que a cerimônia, ou o que se pode chamar de tal, veio a fim, Zhorae desfaleceu, para horror de todos. Colocamo-na em sua cama e, se até então estava tomada pela felicidade, achava-me em grande estresse. Procurei pelos frascos de ervas sobre os móveis de madeira, na esperança de detectar aquele que levasse-a à cura. Enquanto isso, ouvi Tsun exclamar:
--Mas ela estava bem agora mesmo! Como pode? Como pode, meus deuses?
Foi quando, quase que por um instinto, ocorreu-me algo que ela falou: somente os deuses detinham a cura de tudo. E perceber que era hora de deixá-la ir foi, para mim, uma dor. Não tão profunda quanto possam imaginar, mas ainda assim... dor. Meu marido veio a mim, procurando me consolar, mas levantei-me e disse, mirando em seus olhos:
--Preciso libertá-la. É hora de partir.
Tão serena quanto possível, aproximei-me ante à multidão de vizinhos que se aglomerava, horrorizada, à visão da querida Zhorae. Fiz, portanto, um pequeno pronunciamento ao tomar sua mão na minha:
--Querida vó, fostes como uma mãe para mim. Educastes-me para o papel de esposa que virei a desempenhar, para a mulher que me tornei. Transmitistes vosso conhecimento a mim e não duvidais de que farei o mesmo. Que os deuses vos receba na grande morada, cercada pelos nossos ancestrais que estão em paz. Não serais jamais esquecida, vó Zhorae. Agradecemos vossa presença, vosso espírito, vossa sabedoria. Que os deuses vos acompanhe.
Assim, tão rápido quanto o pôr do sol, a pele de minha avó perdeu o calor e sua respiração cessou. Ela já não estava mais entre nós. E eu chorei.
* * *
--Conte-me das cicatrizes que carregais--pediu-me Yan, observando a luz do amanhecer entrar pela janela e queimar sobre minha pele exposta. Ele se referia aos cortes em minhas mãos, à cicatriz próxima à bochecha e outra menor em meu braço, estas últimas causadas pela minha cunhada. Nas costas, uns arranhões podiam ser vistos próximos à lombar por conta do trabalho árduo que fazia. Mas nunca dei a estes importância.
--Seria preciso revisitar o passado que desejaria esquecer--eu respondi, escondendo meu rosto contra seu pescoço e conhecendo a paz em seus braços.
--E teríeis vergonha dele?
Levantei o olhar para encontrar o dele, tão pacífico, tão sincero, que era difícil não amá-lo. Dois anos haviam se passado desde o dia em que nos casamos, desde que deixei para trás uma vida que só era florida pela presença de Zhorae. A presente em que vivia não era mais fácil, ao contrário, desdobrava-me em aprofundar-me nos conhecimentos de ervas para ajudar na saúde da irmã de Yan, Annchi, e também na de sua mãe, que já não era mais jovem. Aquelas mulheres me aceitaram como suas e a elas me tornei muito próxima. Ajudá-las não era um sacrifício para mim. Contudo, era inegável que aquela nova família da qual fazia parte me inspirava mais amor, paz e resignação do que a outra.
Por isso, refleti antes de respondê-lo. Yan ainda me fitava com seus olhos castanhos que, à luz do sol, pareciam esverdear-se. Ele sabia como ler minha alma e a compreendia bem. Não julgava, e nós nos completávamos tanto por isso quanto por outros motivos.
--Não--enfim falei--Fico triste não pelo que eu passei, mas por quem foram as pessoas com quem convivi. Não consigo chamar Tsun de irmão, embora ele assim seja. Ou considerar sua esposa minha irmã. Eles me causaram muita infelicidade, Yan. Perdoar, é claro que eu perdoo, mas tem sendo um exercício diário.
--As dificuldades pelas quais passamos costumam nos abrir os olhos para dois caminhos que podemos escolher--ponderou ele--Um, para o perdão sincero. O outro, para o perdão supérfluo. No entanto, apenas um deles satisfaz a vontade dos deuses.
--Sim--concordei--E não quero nada supérfluo. Sou mais do que isso.
Ele me abraçou forte e, depositando beijos em minha face, disse:
--Sabeis mais do que admite, minha querida.
Eu ri disso, mas não respondi. Provavelmente fosse verdade. Assim ficamos juntos no desenrolar daquela manhã, sem pressa nenhuma para viver o decorrer do dia. Entretanto, não era do nosso feitio escapar aos deveres que nos clamavam. Sendo assim, prossegui nas plantações e nos cuidados domésticos como de costume, sempre dividindo meu tempo entre tais obrigações.
Apesar da paz que pareceu ser concedida a minha vida, caro leitor, não se engane. A felicidade precisa ser duramente conquistada e não é pelas vias materiais. É bem verdade que fui feliz ao lado do amor que me acompanha há quatro existências (e continuará acompanhando, como verão no futuro), mas isso só não basta. Havia provações que pediam para expiar faltas precedentes.
Uma delas foi a dificuldade de conceber. De fato, engravidei em quatro luas cheias, mas as perdi a cada lua crescente. Quando contei vinte e dois anos, a preocupação tornou-me mais religiosa do que o comum. Pedia, fazia os sacrifícios que alguns deuses necessitavam... Mas de nada adiantava. Não engravidava como perdi as duas mulheres que mais se importaram comigo depois de minha finada vó. A mãe e a irmã de meu esposo faleceram em cinco meses de diferença.
Na ocasião do enterro da irmã, desabei. E Yan se assustou porque não era de ser levada pelas emoções.
--Perdoe-me--eu implorei, de joelhos--Falhei com vós como esposa e mãe. Falhei com elas como curandeira. Perdoe-me, esposo.
Yan, que detinha um controle maior sobre seus sentimentos do que eu, gentilmente levantou-me para envolver-me em seus braços. Assim, disse ele:
--Não há o que perdoar, amor meu. Desde o primeiro dia, fostes solícita para com elas. Tratou-as como a família que recebera, desenvolveram todas as três laços de afeição que eu, para ser sincero, não vira isso em outras situações. Os deuses são implacáveis, mas devemos permanecer como um só quando enviam a nós suas vontades inquestionáveis. Somos fortes e venceremos isso juntos. Quanto aos deveres que uma esposa deve cumprir, ouso dizer que a concepção não é apenas uma delas. E ainda que fosse, não fostes uma mãe para a minha, uma conselheira e irmã para Annchi? Não há nada que perdoar. Amo-a e a amaria mesmo se nada fizestes.
Com isso, fortalecemos nossos laços e vencemos dificuldades. Ao que tudo indicava, envelheceríamos juntos e cumpriríamos nossa missão juntos. Contudo, por algum motivo, minha jornada estava destinada a ser solitária. Pelo menos, no início. Pois quando tudo parecia ter melhorado, as guerras eclodem novamente.
Procurei ajudar no que podia com os soldados feridos, mas nem todos aceitavam que uma mulher fosse a curandeira dos homens do rei. Ainda assim, esforcei-me em ajudar tanto quanto podia. Considerei mesmo a me disfarçar como um deles para ajudá-los, no entanto, fui impedida de fazê-lo por meu marido.
--São tempos perigosos, querida. Não vos arrisqueis, por favor.
Seu pedido ressoava como um pedido de socorro aos meus ouvidos, pois compreendia que havia perdido muitos do que amava para a vida. Não segui, portanto, meu instinto e, como esposa obediente, aquiesci.
--Apenas volteis para casa seguro, por favor--implorei.
A velha sensação da sombra da morte como um eclipse pairava novamente sobre nós. Compreendi, com um aperto no coração, que ele não voltaria para casa. E ele parecia sentir o mesmo, pois me apertou contra o peito e disse:
--Sigo sob os desígnios dos deuses, não é sábio questioná-los. Não chore, Yung. Sê forte. Sê forte por nós.
Engolindo as lágrimas, assenti e depositei um beijo contra seus lábios. Aquela seria a última vez que o veria em vida.
* * *
A vida como viúva não foi fácil. Alguns dos companheiros de meu marido propuseram-me casamento, mas prontamente recusei e, diante da insistência, ameacei suicídio. Não o faria jamais, mas tal amedrontamento funcionaria com indivíduos miseráveis e apegados à carne. Por mais vinte anos, eu, por outro lado, resistiria com todas as forças a isto. Recusei-me a casar outra vez, pois não amaria ninguém como o amei. Mas amaria as crianças camponesas que, tendo piedade da velha viúva que vivia sozinha, vinham fazê-la companhia.
A cada uma delas, cercava-me pacientemente. Não contava apenas histórias, mas transmitia o conhecimento que minha avó lhes passava. E as amei, como os filhos que nunca teria. Este era, na verdade, o único amargor que trazia comigo. No final, porém, com muita felicidade completei o ciclo do conhecimento. Dominava todas as ervas, sabia identificar as próprias para o uso medicinal e alimentação, e as venenosas. Apeguei-me a cada criança, lamentei a partida daquelas que deixavam cedo este mundo, mas não pranteei. Há vinte anos não pranteava.
Era verão e eu pressentia que o final dos meus dias se aproximava. Contava quarenta e três anos e tantas vivências, tantos dissabores. Sobre isso refletia quando uma figura gritou meu nome, atraindo-me a atenção. Para minha grande surpresa, parado à porta da casa estava meu irmão, Tsun.
--Tsun--eu falei, perplexa--Que fazeis aqui?
--Vim vê-la--ele respondeu, seco, embora seu rosto traísse sua expressão--Não a vejo desde o dia que partistes, ainda moça. Onde...?--Tsun deixou a pergunta no ar ao notar quão silenciosa estava a casa.
--Ele morreu--disse, cansada--Levado embora pela guerra. Que quereis? Não é para me ver, certamente. Tantos anos e nada, penseis que tivestes morrido.
Tsun soltou uma risada amarga e se sentou em qualquer lugar.
--É o que desejais?
--Não--falei, encarando-o naqueles olhos que lembravam os meus--Não desejaria a morte de ninguém. Menos ainda daqueles sangue do meu sangue.
Tsun pareceu lacrimejar, e eu me compadeci. Via o arrependimento nele.
--O que houve?--suavizei ao me dirigir a ele--Onde está...?
--Morta--disse ele, prontamente, ainda evitando meu olhar--Morreu logo depois que partistes, dando à luz a dois iguais, olha só! Tomei a liberdade de chamar a menina de Yung.
Aquilo me comoveu.
--Tsun...
Ele levantou o olhar e disse:
--Vim perdir vosso perdão. Nossos ancestrais me impeliram a fazê-lo. Não posso aceitar meu destino sem isso. Fui cruel, fui... estúpido, fi-me cego ante as suas dores.
Tsun chorava e eu nunca o vira chorar. Nem quando nossa mãe, de quem ele era tão próximo, viera a falecer. Condoída, levantei-me do meu lugar e pedi para que ele se levantasse. Levei-o para o lado de fora.
--Todos nós erramos--disse, reflexiva--mas cabe a cada um aprender com os erros. Fui orgulhosa, irmão. Negligenciei o bem, os mandados dos deuses, quando eles me tiraram meu bem precioso. Fui egoísta ao olhar só para mim. E, no entanto, estamos cá. Errei contigo também, mas éramos jovens e a juventude é tão impetuosa. Não à toa a sabedoria chega mais tarde.
Ele sorriu para mim e foi quando senti todas as minhas dores se curarem. Emocionada, o abracei.
--Ficará comigo hoje?
--Hoje e sempre, irmã.
E de fato ficamos. Como meus sobrinhos já tinham vida feita, Tsun mudou-se para a minha propriedade. Ali moramos até desencarnamos juntos, no solstício de verão.
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