quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Velhas Memórias. Ciclo X.

Espanha, 1350.
Para os leitores que vêm acompanhando até aqui, eis minha despedida. Afinal, no decorrer deste ano, foi com leveza e muito amor com os quais recordei minhas encarnações na Terra, provocando reações diversas em vocês. Mas tudo, por breve que seja -ou não-, tem um fim. E comigo não seria exceção. Talvez, a palavra certa devesse ser 'ciclo', posto que fim sugere algo definitivo e não é assim que é a realidade para aqueles que habitam as moradas do Pai. Esta memória é curta, pois minha existência aqui foi abreviada por ser a última encarnação neste plano. Focarei, portanto, nos detalhes que importam.

Nasci em Madrid, no século XIV. Esta região fazia parte de uma Espanha completamente desunida, dividida entre os reinos de Castela, Leão e Aragão. Eventualmente, Castela anexaria Leão, tornando-se, assim, um reino só: Castela e Leão (em castelhano: Castilla y León). Eram tempos relativamente pacíficos, embora a guerra dos cem anos afetasse a maneira com a qual nosso governante se relacionava diplomaticamente com seus vizinhos e até mesmo como conduzia os assuntos internos. No entanto, o desencarne de Alfonso XI de Castela ocasionou novas tensões a partir da ascensão de seu único filho legítimo: Pedro. A história é impiedosa com este homem, mas não posso dizer que tenha sido injusta para com o rei que recebeu a alcunha de 'O Cruel'. Ainda hoje, sofre pelos pecados de outrora. O poder que herdou do pai foi usado para outros propósitos. (Nota de Amadeus: se pensam que Alfonso XI se safou desta, estão enganados, pois a justiça do Pai não falha nunca. Até ele reencarnar novamente, passou-se o equivalente a quatro séculos contados no planeta Terra. E quem foi seu pai na vida posterior? A esposa, Maria de Portugal. Podem imaginar o que esse reencontro ocasionou...).
A vingança tomava seus ares, motivando tantos seres brutos a optarem pela matéria aos "instintos" do espírito. Consequentemente, em seus últimos dias, espíritos temiam a morte... porque, naquele instante, guardavam algo em seu ser que os fizessem temer o plano espiritual. Alguns dizem que foi o que ocorreu com Pedro. De todo modo, este era o cenário em que deliberadamente optei por encarnar.
Minha família fazia parte de uma classe que demoraria alguns séculos para se consolidar, a burguesa, embora não no sentido moderno. Meu pai era um comerciante que almejava enriquecer e tornar-se o "novo rico", quem sabe obter uma posição na corte. Pedro era seu nome (um que estava em voga na época) e ele tinha um gosto particular por vinho e tecido, embora tais não se correlacionassem de maneira alguma. No entanto, era esperto e sabia como comercializar ambos. Viajava constantemente, o que entristecia minha mãe, ainda que nunca ouvíssemos um pio seu a este respeito. Magdalena, como era chamada, era muito piedosa e submissa. Encontrava tanto conforto na fé de Cristo quanto possível. Repreendia meu pai por sua avareza e detestava ostentação, o que gerava vários motivos de briga entre eles. (Nota de Amadeus: tanto Magdalena quanto Pedro eram espíritos que continuamente se reencontravam em diversas reencarnações para que pudessem superar as diferenças provocadas por uma existência ainda concebida em outro planeta.) Não é de surpreender que Pedro houvesse encontrado uma amante, pois vivia frustrado por não ter suas expectativas matrimoniais correspondidas adequadamente.
É bom situar o leitor sobre como funcionava esta sociedade fora da nobreza, mas que tampouco se adequava à pobreza. Os 'burgueses' eram nada mais que trabalhadores, porém ambiciosos e que cultivavam determinado apego ao material (não tão diferente do camponês insaciavelmente insatisfeito com sua pobreza ou do nobre infeliz, irritado com o excesso de riqueza que possuía). Os mais honestos cumpriam suas funções, suas missões na Terra, ainda que sem quaisquer louvores. Os menos honestos tendiam a ser mais facilmente comprados. Numa época de peste, porém, a riqueza desempenhava um papel ao lado da morte, embora não se pudesse corromper esta última oferecendo-lhe dinheiro. Se havia oportunidade de procurar refúgio, estes novos ricos não hesitariam em fazê-lo... como tampouco teriam escrúpulos para pagar padres para rezarem missas a fim de que suas almas não fossem enviadas ao inferno ou pendessem sobre o purgatório. Pobres criaturas. Quanto às mulheres, creio que os leitores possuem um mínimo de conhecimento a respeito da situação infeliz de desigualdade imposta a este sexo: ainda eram dominadas pelo masculino, o que gerava uma dificuldade social para que estas exercessem suas funções conforme determinadas por uma sociedade masculinizada. Neste sentido, àquelas que detinham conhecimentos fora da religião eram enquadradas em rótulos que se esforçavam por diminuí-las aos olhos da Igreja que, oh que ironia!, dizia defender as palavras de Cristo e responder por Ele. Dominadas, portanto, por este tipo de pensamento infeliz, mulheres poderosas e de pensamentos próprios que se recusavam a abaixar a cabeça eram objetos de escândalos e sofriam sansões das mais terríveis pela maioria destes espíritos infelizes.
Magdalena, minha mãe, recebeu o nome da santa padroeira dos arrependidos. E seu comportamento era o de quem perdoava constantemente o marido que, num futuro não muito distante, viria exatamente a se arrepender de seu comportamento errôneo. Ela era bela para os padrões da época, embora para mim fosse bela de todos os jeitos possíveis: sua personalidade era cativante e sua religiosidade, ainda mais. Havia algo nela que capturava a atenção de todos os que passavam, e ninguém que lhe dirigisse o olhar, o fazia com malícia. Suas roupas eram simples: um vestido cinza dentro dos costumes sociais, ou de cores mais alegres como o amarelo e o azul, cujos tecidos eram os mais macios que se pudesse pensar em ter. Seus cabelos eram louros e viviam presos em um toucado dourado, também feito por ela, que amava costurar. Raras foram as ocasiões em que os deixava soltos, e nestas estavam sempre trançados. Seu rosto era oval e fino, dando-lhe um aspecto quase santo: os olhos eram azuis como o oceano e os lábios, finos; seu nariz era longo, tipicamente aristocrático para uma mulher que não se identificava como tal. Era magra em corpo por jejuar constantemente, o que resultava em reclamações de meu pai pela ausência de "carne", de uma corpulência que ele preferia em outras mulheres, mas que faltava em sua consorte. Se havia algo de rainha em sua aparência, leitores, é porque em outra existência havia sido uma. Mas não posso me adentrar nestes aspectos que não me cabem aqui explicar.
(Nota de Amadeus: muitos aqui podem se perguntar porque, ao contrário de minhas encarnações anteriores, tenho me prolongado em falar tanto dos meus pais. Os mais atentos perceberão uma conexão com estes espíritos, em particular com o de Magdalena, que precede a esta existência. Aos que, por alguma razão, não concebem isso, explico: nas últimas duas encarnações, vim à nascer em conjunto com estas entidades que, por tanto tempo, traçaram seus próprios caminhos em conjunto. E como esta veio a ser minha última vivência, seria necessário que desencarnasse no tempo estipulado por Deus de maneira que a questão, ou karma se preferirem, seja prontamente resolvido e não mais "adiado" para vivências futuras).
Magdalena desejava entrar no convento, mas seus pais foram contra seus desejos: a mãe, por questões de ambições, pretendia inserir a filha na corte conquanto que o pai precisava pagar as dívidas a um dos nobres, casando-a, desta maneira, a um homem da confiança deste. Aos dezesseis anos, casou-se e cumpriu com seus deveres maritais ao dar ao esposo três filhos, dois rapazes e uma menina, eu, a quem chamaram de María Leonor.
Meu pai, Pedro, viveu conforme o tempo: era ambicioso e frustrava-se por não estar entre os nobres. Suas conexões, resultado de esforços contínuos que o árduo labor lhe concedeu, o levariam à corte e isso poderia lhe trazer problemas em um futuro muito perto. Era relativamente belo se levarmos em conta a facilidade com a qual seduzia as mulheres que levava para cama, tomando algumas destas como amantes por um período curto ou longo, dependendo de seu humor. De estatura média, tinha cabelos alaranjados e olhos castanhos tão claros que, à luz do sol, passavam-se por um verde olivado. Vestia-se bem e a vaidade era um traço que constantemente o acompanhava: preocupava-se com a aparência, os luxos que o dinheiro poderia comprar e as amizades que o levariam ao "altar". Se tinha alguns escrúpulos, era muito. Frequentava a missa por insistência de minha mãe, e porque se não o fizesse, sabia que seria mau visto por aqueles que os cercavam: precisava ser benquisto e ter uma boa reputação era um dos grandes objetivos de sua vida.
Como falei, foi um homem daquele século: hipócrita, certamente, manipulador e vicioso, mas que possuía boas qualidades. Curiosamente, foi um bom pai e forneceu aos seus filhos a educação adequada. Foi além do esperado ao permitir que um tutor de meus irmãos ensinasse-me a ler e a escrever, a dominar a língua latina e castelhana. Conforme crescia, pretendia que seguisse o mesmo destino que minha mãe: ignorava minha religiosidade, dado que a justificava como "coisa de mulher", e, portanto, minhas inclinações ao convento. Se minha mãe nunca apoiou em voz alta minha vontade de servir à Deus, foi porque a presença de meu pai impunha-nos sua vontade que impedia nossa resistência. Assim, logo quando completei quatro anos, quis ele procurar por um noivo para selar alguma aliança que tinha em mente.
*                                                                                 *                                                               *
Os ventos frios do ano seguinte traziam más notícias que, para muitos dos pobres camponeses, significavam prenúncios ruins. Leonor de Gusmão foi assassinada com o apoio da rainha viúva em ato orquestrado e demandado conjuntamente com o novo rei. Desta questão, surgiria uma guerra civil. Henrique de Trástamara (em castelhano: Enrique de Trastamara) levaria consigo a cena da morte de sua mãe e voltaria a se vingar. Não repousaria em bons sentimentos até que impusesse a morte ao meio-irmão. Mas 14 anos ainda se passariam e eu sequer viveria tempo o suficiente para testemunhar tais eventos.
Meu pai, porém, gostava de comentar pomposamente sobre os assuntos da corte. Recordo-me do dia que a senhora Leonor havia sido executada e como ele debateu a respeito da morte da dama em questão com minha mãe.
--A vadia morreu!--ele se rejubilou--O rei poderá governar em paz.
Mas minha mãe o censurou por isso:
--Homem algum detém o direito de tirar a vida de seus semelhantes.
Pedro franziu o cenho para a Magdalena, provavelmente porque pensava que ela compartilharia de sua opinião (tendo em vista que ele próprio teve suas amantes e acreditava que a irritava com isso):
--O rei pode fazer o que achar necessário.
--E Leonor teve alguma culpa por ter sido seduzida pelo rei anterior?--indagou Magdalena--Por que não se rebelaram contra o monarca por ter-se esquecido de seus deveres enquanto marido?
Meu pai enrubesceu-se porque se sentiu ofendido, sua consciência, por limitada que fosse, o havia alertado de que ele não era tão diferente de Alfonso XI assim...
--Cala-te, mulher--porque é mais fácil utilizar-se de violência quando a razão lhes falta e não há espaço para admitir o próprio erro--Não sabe o que fala e profana a memória de nossos reis.
Magdalena sabiamente se aquietou, e meu pai se incomodou ainda mais. Nunca gostou inteiramente desta submissão dela, preferia que ela gritasse como outras esposas faziam com seus maridos.

(Nota de Amadeus: ainda que esta memória nos remete à Baixa Idade Média espanhola, do século XIV, a questão espiritual permanece a mesma como nos dias contemporâneos dos que aqui nos acompanham. Já falei disso antes, mas acho importante reforçar: quando alguém, sem qualquer motivo, briga com outra pessoa é porque nele há um incômodo, um sentimento mal resolvido que o individuo com qual busca conflituar-se instiga-o. E por que isso? Cada ser humano vibra meritosamente conforme seu espírito. E se Pedro está ainda embrutecido é porque não se desprendeu dos instintos que acompanham seu espírito de vidas pregressas. Nesse sentido, a diferença de vibrações cabem aqui para a compreensão destas diferenças de um marido para com sua esposa. Da mesma maneira que, em pleno ano de 2019, há os que se incomodam profundamente com a divergência de opiniões e pontos de vista a ponto de se utilizar de violência para agredir o que "provocou" uma discordância. Que fique claro que nem sempre a violência que me refiro se estende à física, pois sabem que as agressões valem-se do psicológico, do emocional, entre outros casos. A explicação que aqui trouxe mantém-se.)

Pedro tinha suas lutas internas, e se não cedeu a algumas delas foi graças à intercessão de seus mentores espirituais. Apesar disso, as preces de Magdalena ao esposo não cessaram. E eu acompanhava nela incansavelmente.
--Filha--uma vez ela me disse--é tao pequena, e, entretanto, cá está ao meu lado, participando dos jejuns e das preces. Deus me abençoou com filha tão devota.
Apeguei-me a minha mãe e respondi, em minha voz infantil:
--Se Deus a abençoastes, senhora, é porque mereceis.
Essa frase a emocionou e ela repetiria isso por algum tempo, embora eu não me recordasse do que havia falado. Em retrospecto, digo que foi uma mensagem de seu mentor espiritual através de mim que ela interpretou como sinal do Pai Maior.
Conforme crescia, porém, meu corpo não acompanhava seu desenvolvimento e eu voltei a ter as mesmas visões que tive na minha primeira encarnação, embora agora muito mais desenvolvidas e sobre a qual possuía um domínio maior. Em silêncio, via as santas Catarina de Alexandria e Laura de Córdoba. Usavam branco em seus trajes e eram acompanhadas de uma luz muito forte. Ao lado delas, meus mentores espirituais, Rafael e Gabriel. Não somente eles como também a senhora negra que havia sido minha bisavó, também na minha primeira encarnação; ela me aparecia sob a roupagem de 'preta velha'. Tantas e tantas entidades se apresentavam ali, e eu compreendi de imediato que era hora da minha partida.
Recordo-me de meu pai reclamar, às vezes, da minha quietude excessiva. Uma vez meu irmão mais velho, também chamado Pedro, defendeu-me e disse:
--Se ela é assim é porque o senhor não a permite falar.
Meu pai o encarou com um misto de raiva e surpresa, e retrucou:
--Com que autoridade se dirige a mim?
--Como o filho humilde que me criou para tomar conta da família assim que herdar as terras que possui.
O mal estar foi de imediato e minha mãe intercedeu:
--Perdoe-o, marido, ele fala assim porque se preocupa com a irmã. María não está se sentindo bem.
--Claro que não! A senhora impôs a ela esta dieta ridícula! Como acha que ela não está bem se a força jejuar contigo?--vociferou ele.
A maternidade sempre foi valorizada pela minha mãe, pois era seu único modo de viver e exercitar seus valores sem preocupar-se com outros (vide o esposo). Era tão devota dos filhos que sentiu-se ofendida, magoada (e não sem razão) diante daquele ataque. Por isso surpreendeu a todos nós quando ela, que constantemente agia com distante perante as explosões do pai, caiu em prantos. Lembro-me bem da maneira com a qual Pedro arregalou os olhos, pois nem ele esperava por isso. Viu com aperto no coração os filhos socorrerem a mãe como ela fizera com eles por tanto tempo de sua vida.
Foi quando... ele se arrependeu. O arrependimento tarda, é certo, mas não falha. Algo o tocou, mas disso não posso falar por ele. Pedro ficou em choque, e eu vi como lamentava por ter causado aquilo. Por isso, me desviei do abraço à minha mãe e corri para os braços dele. Foi um gesto que o trouxe às lágrimas também. No final do dia, Jesus tocou aquela família.
*                                                                                *                                                                           *
Eu não atingi os dez anos de idade, sequer mesmo completei o nono ano de vida. Ao contrário, no auge dos oito eu parti deste mundo. Afinal, foi quando Pedro e Magdalena genuinamente se reconciliaram um com o outro e estreitaram os laços familiares para com todos os filhos que eu completei minha missão. Surpreenderá alguns que o amor tenha sido o motivo pelo qual deliberei vir. E é menor por isso? Não se trata de grandiosidade, mas de amenizar as dores que as encarnações imputam aos espíritos que à Terra vêm. Dores que resultam de vossas ações, presentes ou passadas. Há os que escolhem enfrentá-las de frente, o que é louvável; e há os que negam até o fim, prolongando suas aflições, do que resulta um despendimento doloroso. Não cabe julgar, por pior que seja a ação do indivíduo, porque a redenção é possível de surgir quando optamos pela luz. E Pedro escolheu por ela. E Deus acreditou que seria conveniente que eu ajudasse a ambos. Porque Magdalena, ainda que fosse evoluída, precisava resolver de vez seus últimos laços. E ela o fez. Superou seus problemas.
Notaram a ausência de meu amado que me acompanhou por várias vidas? Poderia, como ele, não encarnar mais neste planeta e ir adiante, não à Marte, mas à Júpiter, por onde ele iniciou seu último ciclo encarnatório de fato. Contudo, recusei esta oportunidade porque havia ainda àqueles a ajudar. E continuei velando por ambos no decorrer daquela encarnação. Magdalena engravidaria novamente e a família aumentaria por mais dois filhos. Pedro tornou-se humilde, mas não podia recusar o auge de servir ao rei Pedro. Contudo, na guerra civil que Henrique de Trastámara causou para vingar sua mãe, ele viria morrer a defender o último monarca da casa da Borgonha. Não obstante, porém, seus filhos, meus irmãos, ascenderiam no regime posterior. Um de seus descendentes serviria lealmente a conhecida e formidável rainha Isabel de Castela.
Adiei, confesso, algumas existências em Júpiter para ajudar tantos nesta era medieval e no início da idade moderna (ou do que vocês julgam ser a 'idade moderna' no âmbito historiográfico) e por mais que tenha reencarnado duas vezes por lá, volto acá para a missão de acompanhar a humanidade. Através de determinados médiuns, passo mensagens que julgo convenientes. Os que de vocês pretenderem se comunicar comigo, de boa vontade me prontifico a ajudar. Não para satisfazer curiosidades vãs, que de nada servem para a causa sua, mas para estimular os valores que o Mestre nos ensinou: amar o próximo, humildade, caridade sem ver a quem e honestidade de bom coração. 
Com isso, despeço-me por ora, mas quem sabe um dia não volto para contar mais das vidas humanas fora deste planeta? Naturalmente que isso depende mais da vontade de Pai, à qual submito-me voluntariamente.
Agradeço aos que vêm acompanhando esta jornada de contos, esperando ser útil nelas; à médium que dispôs-se de seu tempo e boa vontade em pôr em palavras tão naturalmente quanto lhe foi possível minhas memórias. Aos guias dela que deram esta abertura para ensiná-la e ajudá-la com esta missão que virá a desempenhar. Com a fé no Pai, meus irmãos, digo-lhes que tudo é possível para aqueles que, com fé e determinação, desejam alcançar. Sigam no caminho da fé, da bondade, da luz, e enfrentam com persistência os obstáculos da vida. Nada é para o vosso mal, mas para vosso crescimento. Que assim seja, com a vontade do Pai Maior,
de vosso amigo e mentor,
Amadeus.


















quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Velhas Memórias. Ciclo IX.

País de Gales, 1066.
Eram tempos turbulentos estes em que nasci. Novamente, em meio ao caos encarnei, embora desta vez estivesse um pouco longe da verdadeira carnificina. No ano em que minha penúltima encarnação terrena ocorreu, já contava 15 anos, tendo nascido em 1051. Número poderoso, alguns diriam e os mais supersticiosos prenunciariam um grande evento com meu nascimento. Uma besteira, se quer saber minha opinião.
No condado de Pembroke, fui criada em uma família de nobres, se é que assim podemos chamá-los: não tínhamos qualquer sangue "azul", embora meus pais clamassem descender do grande rei galês Rhodri Mawr. A bem da verdade, éramos aristocratas rurais, detentores de uma quantidade razoável de terras que, em conformidade com as leis dos homens, nos qualificava acima de tantos outros. Submetidos à autoridade de cada príncipe regional, possuíamos, entretanto, nossa quota de poder para exercer sobre nossos irmãos. Os pobres camponeses sofriam sob as mãos agorentas de alguns dos príncipes galeses, mas imagino que saibam que, para toda a lei de ação, há uma que rege a reação. Cedo ou tarde, as consequências foram arcadas pelos sujeitos.
Gwenllwyfo ferch Gruffydd foi meu nome, e eu tinha três irmãos nesta época: Gruffydd era o primogênito da família, recebeu o nome do pai como era o costume destes tempos; Iouan seguiu-o em seguida e Rhys foi o terceiro filho de Gruffydd ap Rhys e Mewawyn ap Tewdr. Morávamos numa residência relativamente bem construída, ainda que não fosse um castelo de pedras segundo a arquitetura gótica que começava a entrar em voga naquele décimo e primeiro século. Tínhamos comida e bons aposentos, reservados a cada um de nós. A despeito desta riqueza de que desfrutávamos, não éramos inteiramente independentes como o leitor moderno poderia pensar: como chefe da família, meu pai respondia à autoridade de um dos vassalos do rei de Gwynedd e Powys. No entanto, detínhamos também poder sobre outros cuja posição social achava-se abaixo da nossa. Estávamos entre o meio termo de prestígio e honra, mas não o suficiente para pertencermos à família real galesa.
Tais questões nunca me afetaram particularmente e minha mãe tampouco pensava nisto, embora nosso pai se achava constantemente cercado de preocupações com este assunto, dado a importância que, cada vez mais, o casamento ganhava dentro da Igreja Católica. No século XI, as reformas cristãs estavam sendo elaboradas por um indivíduo peculiar para sua época chamado Gregório. Ao tornar-se papa, ele emprestaria seu nome para uma série de mudanças internas na tentativa de humanizar e aproximara a Igreja de Cristo aos fieis. Esta reforma, na verdade, duraria por mais alguns séculos, mas o importante aqui é pontuar que o sagrado matrimônio era reforçado e tornava-se tanto uma obrigação para os de alta estirpe como uma proibição para o clero.
Nesse sentido, meu pai, pressionado pela casta da qual fazia parte, passou a procurar um marido para mim. A urgência neste ponto era ressaltada pelo meu sexo: as mulheres aristocratas precisavam se casar o mais cedo possível, a partir da sua primeira menstruação (embora nada impedisse que elas se unissem aos seus noivos antes disso: uma idade limite de 14 anos seria imposta apenas no século XV por uma bula estipulada pelo papa Alexandre VI), pois precisava usufruir de sua fertilidade. Este pensamento enraizado e retrógrado era embasado pelo forte apego à matéria: o ato de fornicar era visto com muito rigor pelas sociedades medievais e as leis de amor que um dia Cristo, nosso Mestre, havia pregado, foram completamente deturpadas. Por isso a reforma cristã, embora seu efeito demorasse a ser sentido. 
(Nota de Amadeus: por que homens casados, principalmente os nobres, procuravam 'amor' fora do casamento e aceitava-se que pudessem ter amantes? Porque acreditava-se ferrenhamente que o amor distrairia o homem de seu dever para com a esposa, para com a sociedade. Um homem apaixonado não seria constrangido a lutar pelo reino em caso de uma cruzada, ou mesmo a responder pelo seu "chefe", seja ele rei, príncipe, quem for. Nesse sentido, acreditava-se que amor era um sentimento tolo e que o dever viria sempre em primeiro lugar, isto é, a mente predominava sobre o corpo, o espírito sobre a carne, e com isso as paixões eram reprimidas. Em tese, tudo isto parecia louvável, pois o indivíduo que conseguisse dominar, refrear seus instintos, era recompensado com altas glórias. Vide o guerreiro que, embora despose uma bela mulher, não foge de suas obrigações e opta por sempre cumprir seus deveres. Mas havia limites para aquela perspectiva tão predominante no que vocês convenientemente chamam de Idade Média Central: no século posterior ao que vivi, nascia a era do amor, da corte do amor, dos trovadores. Por que isso? Essa rigidez que o século XI pregava com tanta intensidade refletiu, na verdade, a grande influência que a carne impôs ao espírito. Por isso, a materialidade foi tão forte nestes tempos, embora certamente demonstrasse uma admirável melhora da Antiguidade para lá. Ainda assim, foi preciso que a Humanidade conhecesse essa rigidez para que, cem anos mais tarde, pregasse o amor, por mais limitante que pudesse ser a concepção que conseguiram criar, se não retirar, dos ensinamentos do Mestre. Aqui, vemos este sentimento bondoso e de ensinamento puro sair como um escape desta rigidez moral (e hipócrita) que a sociedade medieval tanto se apegou. Não à toa, estes casamentos arranjados produziram infelicidades constantes que resultaram em karmas e tantas outras lições para que espíritos apegados ao corpo humano deste plano reencarnassem em posições tanto inferiores quanto superiores dentro da escala hierárquica neste planeta.)
Prosseguindo, conforme dizia, as convenções da época determinavam que fosse casada cedo, por isso a pressão para que meu pai encontrasse um marido adequado a mim. E vários fatores eram levados em consideração, acima de todos, entretanto, predominava o de posição, status e prestígio social. Com isso, ele foi direto à fonte: assim que atingi a idade dos 15 anos e, tomando conhecimento de que teria sangrado, foi à corte do rei Bleddyn ap Cynfyn pedir permissão para arranjar um noivo apropriado a mim.
Neste ínterim, cabe a mim recordar ao leitor alguns fatos que considero pertinente mencionar aqui: minha infância passou sem importância significativa, embora conforme crescesse, tivesse testemunhado eventos políticos que merecem ser comentados. Sabe-se que, desde a morte de Rhodri Mawr, o que acontecia na Inglaterra refletia-se em Gales. Com isso, não era surpresa alguma constatar elementos de dominação também naquele local onde nasci: no início daquele século, quando o rei Canute da Dinamarca conquistou a Inglaterra, pondo fim ao domínio de 500 anos das tribos anglos e saxões que resultaram na dinastia Anglo-Saxã (cuja casa mais conhecida foi a de Wessex, por ter produzido reis admiráveis como Alfred e seu filho Edward, além de Aethelstan, entre outros), logo de imediato seus homens de confiança passaram a exercer uma influência considerável sobre os soberanos de Gales. Na realidade, para o leitor que desconhece a história deste formidável país, havia, na Idade Média, vários reinos fragmentados como vimos na Inglaterra medieval. Portanto, Pembroke e seu condado (em inglês: Pembrokeshire) faziam parte de Gwynedd, reino tal que possuía seu próprio rei e legislação tal qual Powys e o restante do sul de Gales respondiam aos seus respectivos soberanos a partir de suas particulares leis. Aos poucos, porém, os conflitos emergiam e Powys foi anexado à Gwynedd. Diz a história que seu rei, Gruffydd, foi o primeiro grande soberano de toda a Gales, mas, se é relevante tratarmos de títulos para ilustrar sua importância para aquele reino, digo que isso coube ao já mencionado Rhodri Mawr e que muitos comparam ao seu contemporâneo inglês rei Alfred. Bem, quando Edward da Inglaterra (erroneamente associado como um santo, porque, se o conhecessem de fato, saberiam que foi mais um homem da sua época do que um espírito altamente iluminado) desencarnou, seu trono foi ocupado por Harald II, cunhado seu, e, com isso, conspirou para matar o rei Gruffydd.
Vale dizer que no ano de 1066, William da Normandia navegava rumo à Inglaterra para conquistar aquilo que acreditava ser seu por direito: seu primo, o finado Edward de Wessex, teria legado ao "bastardo" normando a coroa inglesa que, entretanto, havia sido usurpada por Harald. Muitos de vocês, presumo eu, devem conhecer a história da conquista inglesa por este personagem formidável. (Nota de Amadeus: por pouco não o conheci em pessoa, mas admito que, no plano espiritual, fomos apresentados. Está em sua encarnação atual na Terra, é o que posso dizer). De todo modo, estas mesquinhagens nada mais foram do que uma reação às ambições que mapeiam a história dos homens, como vemos acompanhando desde o início destas memórias que compartilho com vocês. 
E enquanto tudo isso se desenrolava, minha mãe educava a única filha que dera à luz. Mewawyn fora criada num ambiente que ainda sofria as influências dos antepassados, mas que, no entanto, se mesclaram ao cristianismo medieval. Com isso, seu conhecimento sobre ervas medicinais, herbologia, astronomia e, claro, o próprio estudo catequista me foram transmitidos no limiar da infância para a juventude. Recordo-me de ter sido uma menina muito séria, de natureza introspectiva. Apreciava bastante o campo e, admito, adorava usar os longos vestidos de mangas compridas com cintos dourados que minha mãe trazia. Rejeitava, entretanto, as joias que me presenteava. Quando o fazia, normalmente era repreendida:
--És uma garota de boa estação. Por que ages assim?
--Porque isto pouca importância possui para mim, senhora mãe--falei, desculpando-me--Penso que não agradarei a Nosso Senhor se desenvolver gosto para tais futilidades.
Mewawyn era uma mulher bonita de longos cabelos escuros e pele rosada. Seus olhos eram claros como o céu, grandes e observadores; tinha uma tez larga e nariz comprido. Seu corpo, no entanto, estava relativamente acima do peso, consequência das três gravidezes e três abortos espontâneos. Tendo me concebido na tenra idade dos dezesseis anos, por vezes comportava-se mais como uma irmã mais velha do que mãe apropriadamente, afinal, esteve, desde o início da vida, cercada de personalidades masculinas. Ressentia-se disso, visto que sua própria mãe, minha avó naquela encarnação, faleceu ao dar-lhe à luz. Para o leitor observador, verá nisso uma rejeição de Mewawyn às condições que seu próprio espírito facultou em viver antes de reencarnar. Por isso a vida difícil: uma infância complicada, no qual sua madrasta, segunda esposa de seu pai, lhe destratava em favor dos filhos que a mulher deu ao marido, negligenciando-a, portanto. No casamento, de certa maneira tudo concorreu para que fosse uma fuga à infância infeliz, mas provou-se ser uma frustração porque não concordava com as restrições que seu gênero impunha-lhe. Como resultado deste rancor que o espírito, jovem em termos de reencarnação (para usar um vocabulário que os estudiosos que acompanham estas memórias versadas em contos possam compreender), alimentou, as doenças vinham se sucediam. Contudo, Deus, em sua infinita misericórdia, não lhe era surdo aos apelos que a fé sincera ela devotava a maior parte do tempo, e por isso Mewawyn encontrou felicidade na maternidade. Já havíamos nos "esbarrado" em vivências precedentes, contudo, era naquela que deveríamos ensinar e aprender uma com a outra. Em suma, era por isso que nos aproximamos bastante.
De todo modo, herdei dela os olhos e as altas bochechas, o que me dava uma aparência que se adequava aos moldes da aristocracia; do meu pai, recebi seus cabelos ruivos, o nariz um pouco largo e o sorriso retraído. Não era nem magra como tampouco acima do peso, e tinha as madeixas soltas porque gostava delas daquela maneira. 
Ao contrário dos meus irmãos, não me incomodava passar tempo com minha mãe, pois observava o grande prazer que lhe dava passar a mim tudo que lhe havia sido ensinado. Quando constatou a naturalidade com a qual tratava as ervas e o discernimento que tinha sobre o assunto, foi quando reforçamos nosso laço. Assim, fui feliz, apesar do cenário de guerra que se instaurava. Meus irmãos, dois ou três anos mais velhos que eu, preferiam a companhia do pai. Certamente, o contexto os condicionava a procurar no chefe patriarca da família a figura daquilo que ambicionavam ser: guerreiros leais e sábios que protegeriam seus amados. Quase como os contos medievais costumam contar, em particular o modelo que o rei Arthur e seus cavaleiros exerciam sobre tantos homens que viveram nestes dias.
Tais histórias também me apeteciam consideravelmente e não obstante, ouvia de minha mãe, que sabia ler, as aventuras de Arthur, Lancelot e Guinevere. Doravante, reprovava a atitude de Guinevere para com Arthur, mas Mewawyn, presa em um casamento que não lhe trouxe os bons frutos pelos quais almejava, logo me repreendia, dizendo:
--Não cabe a nós julgarmos Guinevere por ter encontrado um refúgio em Lancelot, minha filha. Que culpa ela tem por ser amada quando seu marido a desprezava e preferia suas batalhas a dar-lhe alguma atenção?
Encarei-a, confusa.
--No entanto, senhora, não pensa que adultério seja uma atitude condenável?
Como a piedosa que era, minha mãe me inculcou um importante ensinamento:
--E quem somos nós para condenar alguém? Não foi Jesus quem disse para atirar a primeira pedra quem nunca pecou?
Assim, aquietei-me, pois enxerguei-lhe razão.

Admito que, quando as notícias da ascensão do novo rei em contraponto à morte de seu antecessor chegaram a minha família, recebi-as distantemente. Não tinha ideia o quanto aquilo impactaria nossas vidas e prossegui com minha rotina. Três vezes por semana, rezava junto à mãe na capela próxima de onde morávamos: no caminho, não era raro que nos deparássemos com os camponeses que trabalhavam ali perto. Gostava de cumprimentá-los porque, a meu ver, éramos iguais diante da visão de Cristo, todos filhos de Deus.
--Por que falar com essa gente?--indagou minha mãe, sem saber por que me misturava com o que ela acreditava serem pessoas de estirpe inferior, indignos de nossa presença.
Pacientemente, expliquei:
--Para o filho de Deus, Jesus Cristo, nosso amado mestre e salvador, somos todos filhos do Pai. Se assim somos irmãos, por que tratá-los mal?
Constrangida porque minha fala lhe afetou, minha mãe preferiu não responder, limitando-se a um suspiro e a um sacudir de cabeças. Na verdade, ela sabia que falava a verdade, mas o processo pelo qual foi educada não lhe permitia ver além do que conhecia. Entretanto, isso logo mudaria.
Era curioso estar entre as pessoas de diferentes status quando frequentávamos a capela: apesar de termos um lugar distanciado dos mais pobres, fazia questão de estar entre eles. Quando questionavam minha atitude, mesmo tão jovem retrucava:
--Somos filhos do mesmo Pai, por que nos distanciar dos irmãos mais pobres?
Ali, na verdade, entre aquele povo simples e de bom coração, me sentia mais confortável. Não gostava de pertencer a uma classe estamental vista como superior e que enquadrava uma minoria conforme seu nível de riqueza. Tampouco compreendia porque as terras e o que elas produziam poderiam indicar o nível de companhia adequado para determinados indivíduos. Acredito que me rebelava internamente diante daquele sistema injusto que, naturalmente, só poderia ter sido estabelecido pelos homens de mais baixo calão do plano terreno. No entanto, leitor, não pense que entre os ricos e poderosos não existiam pessoas de bom coração, mas isso será desenvolvido no próximo conto.
De toda maneira, senti uma forte conexão ser renovada naquela capela simples. Cercada de boa gente, rezava de coração, sempre agradecendo e apenas pedindo pela proteção. Minha clarividência ainda funcionava, e o tempo todo enxergava os mortos. Apesar disso, apenas os ajudava em sonho: não havia condições de fazê-lo em terra. Não somente porque vivia em um contexto perigoso, onde a ignorância, motivada pela superstição, levava a muitas mulheres como eu à fogueira, como também os próprios vivos precisavam de minha ajuda. Enfim, naquela capela, como ia dizendo, vi não somente meus guias espirituais se manifestarem como também os de tantos ali presentes. Aquilo muito me encantou.
E eis aqui a influência de uma vida passada se manifestando na presente, pois queria viver dentro de uma ordem cristã, em outras palavras: atuar na Igreja, tornando-me freira (em contraponto ao ser padre da última vez, como podem se recordar) e voltando-me para os pobres e praticando a caridade. No entanto, a reação da minha mãe quando contei isso não foi como havia planejado:
--Você enlouqueceu?--exclamou Mewawyn--Não vim educando-a para isso!
--Achei que fosse apreciar que Deus está chamando sua filha para...--dizia, magoada, antes de ser interrompida.
--Não! Não está, nada! Você se casará, é por isso que foi enviada à esta casa!--vociferou minha mãe--Seu pai precisa de aliados, e não cabe a você negá-lo isso a ele.
Pensei em discutir, mas um pressentimento (enviado a mim pelo meu anjo protetor) me preveniu de fazê-lo. Em vez disso, a despeito da tristeza que me abatia, concordei com a decisão dela. Mas nossa relação mudou, afetando a frequência com a qual íamos à Igreja. Contudo, para fugir da infelicidade que a situação me infligia, fazia minhas preces constantemente.
Naquele ano de 1066, enquanto os normanos invadiam a Inglaterra, nosso rei convocava seus vassalos. O propósito daquilo consistia em resistir àqueles estrangeiros que, como sabíamos, não demorariam para tentar subjugar nosso povo também. As notícias não eram boas: na costa do sul inglês, vinham os dinamarqueses e do norte, os normanos. O rei Harald II conseguiu derrotar seu inimigo no sul, mas ao rumar à Hastings, não voltaria com vida. O homem desencarnou depois de sucessivos encontros de espadas contra William, o ilegítimo duque da Normandia. Devo comentar que não foi um processo pacífico: seu espírito, apegado bastante às ambições materiais, se recusava a aceitar que não estava mais entre os vivos e que havia sido derrotado. O que me é permitido dizer é que demorou um tempo considerável até que aceitasse a ajuda divina e se "encontrasse". No momento, prepara-se para sua reencarnação neste plano.
Pois bem. Enquanto William tornava-se rei dos ingleses, o primeiro do seu nome, estabelecendo, com isso, a substituição da casa de Wessex pela da Normandia, os galeses preparavam-se para resistir ao seu poderio. Nosso rei havia apoiado Harald, mas falhou nesta tarefa. A confusão era eminente e corria boatos de que o sul estaria entregue às mãos dos homens de confiança de William I. O conquistador, como seria conhecido até à modernidade, não hesitaria em englobar estes reinos fragmentados a sua jurisdição.
Nesse sentido, percebi qual seria o papel da minha família nesta história. É verdade que não somos lembrados por qualquer documento histórico, mas tantos outros aristocratas não deixaram sua marca nele. O que dizer, além disso, das vidas dos camponeses que foram perdidas nestes embates sangrentos movidos pelas ambições dos homens? A História, meus caros, pode ser injusta e parcial.
Como dizia, aceitei que meu casamento era, como minha mãe havia me instruído, importante para que se arranjasse aliança com outras famílias aristocráticas. E como o rei estava na berlinda e as tensões com os nobres aumentavam, meu pai considerou me enviar à Powys, casar-me com o irmão do príncipe de lá. No entanto, o homem havia morrido e as opções eram cada vez mais escassas.
--Não sei o que fazer--lamentava ele--Talvez seja melhor enviar a menina a um convento. Pouparia-me despesas.
--Não diga isso!--sibilou sua esposa, minha mãe--Já falei que esta não pode ser uma possibilidade a ser considerada. O rei precisa de você, e nossa filha será importante nesta questão.
Um observador de fora poderia pensar que Mewawyn teria mais compaixão com a única filha em decorrimento do que ela própria passou, mas a noção de empatia não estava em voga no século XI. De todo modo, não podemos culpar aquele espírito que prontamente sofria a influência carnal e estava em constante luta contra ela porque recusava aquela encarnação como já se discutiu. Quanto a mim, em nada pensava, não julgava minha mãe por ser como uma mãe daquela época costumeiramente agiria. Rezava, no entanto, para que pudesse viver uma vida casta e religiosa, mesmo intuindo que este não seria meu destino.
Eventualmente, porém, meu pai encontrou meu noivo e selou com ele o arranjo de casamento que, em tese, beneficiaria nossa família. Na verdade, provaria ser um acordo vantajoso já que eu me casaria com Rhys ap Gruffydd (sim, eram nomes bastante comuns em Gales do século XI) e meu irmão mais velho desposaria a irmã de meu noivo, Cewyn. Com a aprovação do rei, o casamento duplo logo seria realizado, a princípio no fim daquele ano de 1066.
--Você precisará de uma dama de companhia--minha mãe me instruía ansiosamente, quando a decisão de Sua Graça nos foi comunicada pelo meu pai--Creio que podemos legá-la a nossa cozinheira, ela é de confiança e...
--Mãe, pare de falar dos outros como se fossem objetos--reclamei--Não é justo tratá-los desta maneira somente porque são camponeses.
Por um instante, pensei ter visto fúria naqueles olhos azuis: como se o mar que houvesse neles estivesse pronto a se levantar e arrebatar a todos nós com ondas violentas. Mas apenas foi substituída por um cansaço, uma frustração e eu me arrependi de ter elevado meu tom de voz. Por isso, sem pensar duas vezes, me apressei em dizer:
--Perdoe-me, senhora mãe. Não quis insultá-la.
E a abracei. Foi um gesto que a pegou de surpresa, e percebi o quanto precisava daquilo. Como já mencionei antes, afeição não era um sentimento estimulado na Idade Média, principalmente entre famílias nobres.
--Não insultou--ela enfim me respondeu, soando aliviada--Só me preocupo, filha. Nem todos têm boas intenções como você. Sabe, eu gostaria de ser menos... menos dura com você--ela se desculpou--Mas preciso cumprir meu papel como mãe. Um dia, você entenderá.
Aquilo me tocou profundamente porque em todas as minhas encarnações, não conseguia cumprir o papel de mãe. Seja por qual motivo, morria no parto, sofria aborto ou nem conceber era capaz. Por isso me sensibilizei: porque atingiu um desejo que, do fundo da minha alma, almejava concretizar. Entretanto,ainda que não tivesse qualquer experiência com a maternidade, nada me impedia de me sensibilizar com as dificuldades pelas quais Mewawyn passava além de todas as outras já explicadas aqui.
--Espero que sim, mãe--eu disse, e de repente fui tocada por um anseio de cumprir com o papel que esperavam incumbir em mim--Que Deus tenha guiado nosso pai quando ele escolheu aquele que será, espero, o mais adequado para ser meu esposo e que eu possa dá-lo vários filhos.
Posso dizer que foi ali que reconciliamos e quando minha mãe viu que eu abracei suas vontades não somente para agradá-la, mas porque as reconheci como minhas também, ela se regozijou. Foi como se houvesse ganhado um propósito outra vez. A filha rebelde havia sido domada! Ou assim, pensava. Tomei nota que todas as noites, Mewawyn rezava para Santa Mônica e eu, discretamente, observava a própria santa acompanhando-a. Senti uma alegria inexplicável e a paz preencheu, enfim, o ambiente doméstico.
Não se podia dizer o mesmo do sul de Gales, que eclodiu em guerras. Ainda que não afetasse o norte diretamente, as apreensões permeavam as relações em Pembroke e, não tão distante assim, em seu condado também. Todavia, como o rei Bleddyn e seus irmãos resistiam ao conquistador nas terras ocidentais da Inglaterra, a atenção interna se redobrava. No entanto, o monarca não era tolo e ele logo retrocedeu à Gwynedd porque rei nenhum abandonava seus súditos. E como ele era relativamente próximo de meu pai, fez questão de estar presente em meu casamento.
Assim, quando o grande dia chegou, já estávamos hospedados em um dos castelos erguidos em pedra (porém, leitor, não cabe aqui confundir com o grande castelo de Pembroke que servia principalmente como fortaleza, o qual foi somente construído em fins daquele século) que servia como uma das várias residências reais. Ali, a corte se apresentava com músicos, poetas e outros artistas que encantavam os cortesões que buscavam o favor de Sua Graça.
Minha família e eu estranhamos aquele clima de festividades que usualmente marca ambientes onde aristocratas e nobres têm o costume de frequentar. Mulheres e homens vestidos extravagantes, exibiam suas riquezas como que para ressaltar sua posição social. Confesso que temi desposar um desses rapazes que mais se importam em expor suas posses do que com a verdade nas palavras de Cristo, mas me esforçava por pensar que não era melhor que eles se fugisse das minhas obrigações. Havia uma missão a ser cumprida e eu me ateria a ela.
Apesar disso, a melodia dos instrumentos musicais medievais era doce, bela e tranquila (algo que eu, admito, sinto falta de vez em quando); inspirava paz e parecia conter as energias intensas e materiais que figuravam naquele centro da corte. Em meio aquilo tudo, me perdia na música e não me atentava aos meus irmãos conversando animadamente entre si, flertando com garotas aleatórias (mesmo que um deles fosse se casar em breve) e desejando se inserir em círculos elitistas. Meu pai, por outro lado, estava próximo do rei, cuja aparência pouca atenção me despertou. O que lembro de Bleddyn ap Cynfyn era de ter visto sua aura bondosa: seu sorriso era gentil e genuíno, e tudo o agradava. Não era tão apegado às riquezas como poderia se pensar de alguém de sua posição. Além disso, era relativamente bonito: faltavam-lhe cabelos em torno de sua cabeça, mas suas feições eram admiráveis. Alguns diriam que sua aura influenciava na beleza que se mostrava em seus olhos castanhos esverdeados e lábios cheios, e talvez estivessem razão. Era uma alma boa, eu pressenti, embora com tanto ainda a aprender e depurar. (Ainda que Bleddyn estivesse envolvido em uma série de questões políticas que não me cabe aqui aprofundar, ele precisava passar por tantas provações para se desapegar de determinados vícios comportamentais adquiridos em existências anteriores. Lembrando, também, que ser uma pessoa de bem, em qualquer época que pudesse ser, não significa ser desprovida de defeitos e ações ruins).
Sentado em seu trono de madeira (simples, se comparado às construções de tronos régios nos séculos posteriores), o rei Bleddyn me pediu que aproximasse dele. Sem temê-lo, obedeci-o: ajoelhei-me, fiz uma mesura e aguardei que me dirigisse a palavra.
--Bela menina me parece ser, dama Gwenllwyfo. Recebeu este nome por conta da santa padroeira de Pembroke?
Admirei-me quanto a esta menção e exclamei:
--Oh, Vossa Graça! Não sabia que era padroeira de Pembroke!
O rei riu.
--Sim, ela era, porém, foi esquecida pelo tempo. Ainda celebramo-na, entretanto, e a guardo em minhas preces. Conheço poucas moças que compartilham seu nome.
Sorri.
--De fato, a senhora minha mãe me nomeou em honra desta santa.
Ele assentiu, em aprovação.
--Fico feliz de saber disso, senhorita. Pois bem, vamos direto aos assuntos. Estás ciente de que será desposada por Rhys ap Gruffydd?
--Sim, meu senhor, estou.
--E concede sua mão à ele?
A bem da verdade, fiquei surpresa que havia a possibilidade de negar aquele casamento. Contudo, ignorei-a e prossegui:
--Sim, Vossa Graça.
--Excelente, portanto!--ele exclamou, feliz, e, virando-se para meu pai, disse--Poderíamos introduzir os dois agora, senhor?
Nunca havia visto meu pai ruborizar de tanta felicidade por ter sido consultado pelo rei. Outros que acompanhava o soberano viam com inveja a cena se desenrolar, mas, graças aos bons anjos que nos faziam presença, sequer notamos esta situação infeliz.
--Mas, é claro!
Prontamente, o rei e seu amigo próximo articularam para trazer meu futuro marido. Se por fora demonstrava ter controle da situação, aguardando pacientemente conforme as regras da sociedade de corte, por dentro, implodia o exato oposto. Perguntava-me se seria uma esposa adequada, se ele gostaria de mim. Rezava em meu íntimo para que não ficasse presa em um casamento infeliz.
Preocupações tolas, na verdade. Todo aquele anseio que eu sentia era, ao contrário, uma reação à aproximação de almas que, em todas as existências precedentes de que contei até então, viveram e se reencontraram. E quando Rhys apareceu, soube que Deus se apiedara de mim e me concedeu um momento de felicidade terrena que certamente desfrutaria.
Rhys era alto e em sua face as características de um guerreiro eram evidentes: talvez fosse a mandíbula firme, o olhar confiante ou o franzir do cenho de alguém que vivia em constante desconfiança. O que quer que fosse não diminuía sua beleza: admirei prontamente seus cabelos sedosos marrons que escorriam em seus ombros, os olhos azuis que miravam os meus e o sorriso que crescia em seus lábios quando, no momento em que nossos olhares se cruzaram, prontamente nossas almas se reconheceram.
--Dama Gwenllwyfo--ele disse, sem esperar que os homens presentes se adiantassem em nos apresentar. Ousadamente, ignorou o rei e meu pai e veio rumo aonde me achava--Ouvi muito bem de vossa senhoria. Permita-me que me apresenta: Sir Rhys ap Gruffydd, dono das terras à oeste de Gwynedd.
Fiz uma mesura e baixei os olhos aos meus pés como ditava o costume, mas um rubor intenso subiu pelo pescoço e queimou minhas bochechas pálidas. Queria olhá-lo nos olhos, mas não saberia, nem poderia, ser tão intensa. Havia um protocolo até mesmo para conduzir os cortejos, o que talvez possa arrancar risos dos leitores. Isso se explica pela necessidade do homem de controlar absolutamente tudo, por isso as regras comportamentais.
--Gwenllwyfo, filha de Sir Gruffydd, cavalheiro enobrecido pela bondade de Sua Graça--me apresentei, suavizando meu tom de voz.
--É um prazer estar em sua presença, minha senhora. Poderia me dar a honra de conduzi-la em uma dança?
Assenti com a cabeça. O rei, tendo ouvido nossa pequena conversa, instruiu que seus músicos tocassem seus alaudes e determinou que seus cortesões dançassem também. Lancei um olhar cauteloso aos meus pais, mas, naquele instante, ninguém prestava atenção em mim: rodeado por aqueles que buscavam favor do monarca, outros homens se aglomeravam atrás de meu pai, pensando que, através dele, pudessem conquistar seu principal objetivo. O enriquecimento era, afinal, o  motivo pelo qual aquelas relações se estabeleciam configurando no que chamariam de "politicagem".
De todo modo, não me importei com isso. Era o que meu pai queria e eu sabia, pelo que minha mãe contava, que ele era muito astucioso; portanto, era capaz de lidar com aquela gente. Contudo, o que me importava era estar com meu noivo. Quando levantei o olhar para encontrar o dele, quase perdi o ar: a familiaridade era tão presente que, antes mesmo que pudesse expressar meus pensamentos, Rhys o fez primeiro:
--Parece que já nos conhecemos--ele comentou, não como uma pergunta, mas com certeza inquestionável.
Enrubesci.
--Creio que deva ter me confundido com alguém, senhor--respondi, embora em minha mente, pensasse o mesmo.
--Não costumo me confundir--disse Rhys, sem qualquer resquício de arrogância que suas palavras pudessem enganar à primeira vista--Mas fico feliz que será a senhora quem desposarei.
--Oh?--exclamei, feliz--Mas sabe que minha mãe uma vez comentou que não era apropriada para casar porque pensei em me juntar ao convento?
Enquanto trocávamos palavras, subentendidas pelo flerte, preparávamos para dançar. Não se engane, porém: o salão não era grande nem tão ricamente decorado como muitos filmes modernos gostam de passar. Demonstrava poder e posição social, de fato, porém não como possam imaginar. Construído de pedras, era possível sentir a frieza e, por quê não, dos fantasmas que um dia viveram ali. As janelas eram pequenas e a iluminação, limitada pela tecnologia medieval.
E quando o musicista tocava seu instrumento, era tão doce o som que dali saía que fazia-me arrepiar e encantar toda! A melodia aprazia a todos os que ouviam e, quase como inconscientemente, instigava aos presentes a dançar. A música, quando toca nossa alma, refaz-nos como indivíduos melhores, embora, claro, isso se deva mais à intenção do músico. Ela é também um remédio que cura males, (re)aproxima os espíritos, é uma dádiva de Deus.
Quando eu e Rhys dançamos, era como se a luz houvesse entrado pela janela e atingindo a todos nós. Acredito que esta sensação tenha sido sentida pelos outros convidados também, porque, de repente, a música lenta deu margem para surgir uma mais agitada e mais tipicamente galesa. Pela primeira vez em muito tempo, senti-me livre. Até mesmo leve. Desprendi-me da timidez que era, verdade seja dita, uma reação espiritual a uma autodefesa que projetei em mim mesma (provavelmente por conta das últimas encarnações e como elas terminaram). E ele, o tempo todo, foi o responsável por essa guinada.
No final da música, ele pediu permissão ao meu pai para que pudéssemos caminhar pelos jardins. Prontamente ele concedeu, desde que uma dama de escolha do rei nos acompanhasse de uma distância considerável. A esposa do rei indicou uma de suas damas íntimas e assim fomos rumo aos jardins, à natureza. Ali, poderíamos ser nós mesmos sem o rigor de desagradar às pessoas régias e seus protocolos.
--Ah, finalmente!--exclamou Rhys, possuidor de uma personalidade cativante, alegre e tão única para o meio em que nos achávamos--Amo dançar, mas preferia ter este momento aqui, com vossa senhoria.
Ri.
--Não seja tolo, senhor, nós seremos casados em breve.
--Ainda assim--ele insistiu--gostaria de conhecê-la melhor.
E foi assim que meu espírito, relativamente solto dos pré-conceitos da carne, disse:
--Já não afirmou ter me conhecido antes?
Rhys me lançou um longo olhar, cheio de ternura e significado.
--Sim. E afirmo outra vez se desejar, mas gostaria de ouvi-la falar. Será mesmo tão tímida assim?
--O que o faz pensar que eu não seja?--eu ri novamente.
--Os seus olhos, as suas maneiras discretas que também são energéticas--ele explicou.
--E tudo isso o senhor interpretou de uma dança?--arqueei uma sobrancelha, gostando do desafio que impunha nele.
--Provavelmente sim, mas por que isso deveria surpreendê-la?--e seu espírito copiou o movimento do meu ao dizer--Já me conhece!
--Em tese, sim.
Afinal, paramos sob uma palmeira e ali fitamos as variedades de rosas, árvores, lírios, flores e outros frutos que enfeitavam aquele ambiente. Ao centro, muros verdes eram erguidos, estilosamente recortados e cuidados por um jardineiro que respondia à autoridade de alguém escolhido pela rainha. Era um lugar muito bonito. A dama que vinha nos acompanhando optou por adentrar aquele labirinto, fingindo ter-se perdido de nós.
--Gosto muito disso--falei, após um momento de silêncio tranquilo, no qual aproveitamos a natureza em contato com a humanidade e o resultado disso--Confesso que não há outro lugar que eu não gostaria de estar. Mesmo onde moro, não há esse tipo de jardim. É maravilhoso!
Rhys sorriu e foi como se estivesse face-a-face com o sol. Corei.
--Onde iremos morar, haverá um jardim assim, se não mais esplêndido, esperando por nós--ele prometeu--Apesar de vivermos em tempos sombrios, há espaço para a luz.
Meu sorriso se espalhou pelo meu rosto diante daquelas palavras. Como sua presença me iluminava! E na certeza de que o amava, tomei suas mãos imprudentemente nas minhas e disse:
--Obrigada por ser tão gentil, senhor. Espero que seja assim sempre--e eu sabia que seria.
Ele levou uma de minhas mãos aos seus lábios, depositando numa um beijo doce e terno.
--A senhora merece toda a bondade que oferece ao mundo. Garanto que terá uma boa vida.
E em vez de nos conhecermos melhor (como se houvesse necessidade disso), passamos o restante da tarde caminhando aos redores do jardim traçando planos. A vida, em sua primavera, é doce e promissiva no verão. Sem dúvida, nada nos preparava para o outono e, pior ainda, o inverno...

O casamento foi realizado em duas semanas e mesmo minha mãe foi surpreendida por quão apaixonados um pelo outro estavam os noivos. Nem meu pai esperava que esse arranjo foi um sucesso. No entanto, o mesmo não poderia se dizer de Cewyn e Gruffydd, cujos temperamentos bastante diferentes deveriam ter sido levado em conta antes das ambições dos chefes das respectivas famílias. Nesse sentido, outra vez mais a felicidade de dois jovens foi preterida por determinação de outros. Tal era a regra que atuava sobre a aristocracia e nobreza medievais.
Pois bem, deixei o condado de Pembroke para viver na região de Powys. Tivemos uma "lua-de-mel" bastante romântica: ao contrário das encarnações anteriores, não encontramos obstáculos para nos encontrar, nem tampouco passamos por tantas dificuldades para nos amar. Tudo parecia ser significantemente... feliz. Não digo perfeito, mas quase isso, dentro da escala de felicidade terrena. (Nota de Amadeus: o que podemos aprender com isso? Que as dificuldades kármicas pelas quais passamos eu e o bondoso espírito que sempre me acompanhou nas encarnações, foram superadas. De modo qual não significava tampouco que não havia mais nada a ser aprendido: sempre há. Contudo, podemos ver aqui que nossas existências neste plano chegavam ao fim, não à toa inspirei a médium a colocar esta memória dentro do nono ciclo, visto que vivi dez vidas na Terra. Pois bem, acrescento também algo que vejo muitos de vocês falarem sobre 'almas gêmeas': é certo que os espíritos encontram avenças e desavenças no decorrer de suas vivências milenares, e por um motivo que somente Deus conhece, de todos aqueles com quem se relacionam, prevalece "o" parceiro como no meu caso. Sim, aquele com quem continuo me relacionando no plano espiritual poderia ter escolhido encarnar como meu pai, meu irmão, mesmo minha mãe. Isso não diminuiria em nada o amor que temos um pelo outro. Contudo, nossas lições kármicas pediam outro relacionamento que tanto eu como ele decidimos, através das vivências em gêneros diferentes, viver romanticamente. Uma vez que os impedimentos de outras vidas foram vencidas, a felicidade pôde ser almejada. Claro, como falei e reforço outra vez: dentro dos limites da Terra, já que a verdadeira felicidade consta nos planos superiores, onde o peso que a carne causa ao espírito não é mais sentida; um livramento de uma prisão, se assim podemos chamar. Em suma, a alma gêmea costuma (porque nada é rígido nas leis de Deus, conforme Kardec já havia alertado pelos espíritos superiores que o guiavam/aconselhavam em seus trabalhos) ser este parceiro que sempre o encontrará, ainda que o objetivo daquela expiação/missão não se limite a este reencontro. Com isso, posso dizer que o conceito de alma gêmea é, para vocês da Terra, construído romanticamente conquanto, na realidade, diz mais respeito à afinidade que um espírito exerça sobre o outro e vice-versa numa relação completamente recíproca. Um irmão, um grupo de amigos leais podem, desta maneira, constituir 'almas gêmeas', pois seguem um propósito quase similar e são almas afins que vêm reencarnando em conjunto. A verdade, meus caros, é que Deus não permitiria que Seus filhos viessem à Terra sozinhos ou padecessem em suas missões sem um vislumbre da alegria em um meio que inspira o contrário muitas das vezes. Ele é, afinal, o Pai, o Amor, e disso não podemos duvidar.)
Para nossa surpresa, antes de completarmos um ano de casado, descobri-me grávida. Embora a constatação me surpreendesse positivamente (pois era um desejo meu de outras encarnações, tornar-me, ser mãe), acendeu o medo (que também ressoava de outras vidas pelo mesmo motivo) que, em meu íntimo, parecia ser um velho conhecido. Era, na verdade, uma ferida que pedia para ser cicatrizada.
--Achei que estivesse feliz por engravidar, meu amor--disse-me Rhys depois que contei as notícias: normalmente, se esperava até as três fases da lua (vulgo três meses) para que se tivesse certeza da concepção--Por que está aflita?
Hesitei antes de contar a verdade, ou, ao menos, parte dela; lembrando que ainda era uma mulher inserida no contexto medieval. Não tinha as respostas para meus problemas, uma vez que, mesmo médium à época, meus mentores não me iluminavam as soluções porque precisava buscá-las eu mesma, por intuição e meu intermédio. Do outro modo, o aprendizado necessário para superar esse "nó passado" não teria qualquer importância.
--Porque temo morrer no parto--enfim disse, depois de ponderar como expressar minhas angústias que, por sua vez, eram traduzidas de outra maneira. Ali, não havia mais espaço para o orgulho e eu podia dizer com algum grau de felicidade que o havia domado finalmente--Temo não ser uma mãe adequada e falhar com os deveres que esperam de mim. Como também penso na infelicidade da minha mãe e eu não quero, com todo o respeito que a devo enquanto filha, repetir seus erros.
Rhys assentiu, refletindo em silêncio o que eu lhe disse. Estávamos em pé, de frente à lareira que aquecia nossos aposentos. Logo, ele tomou minha mão na sua e me levou para sentar ao pé da cama. Foi quando disse, afinal:
--Compreendo seus medos. Dizem que as batalhas travadas pelas mulheres estão nos quartos, e quem sou eu para julgar isso? Obrigado por confiar em mim, Gwen, eu sou muito grato por isso. Iremos passar por isso juntos e rezarei todos os meus dias para que nada disso se realize. Sei que Deus nos juntou para um propósito, e será apenas uma questão de tempo até descobrirmos qual será esse.
Dito isso, me envolveu em um abraço apertado e ali fiquei, confortada pelo amor da minha vida (ou seria amor espiritual?). Apesar disso, fui inundada com uma sensação forte de fé tanto por ele quanto dos mentores que me acompanhavam: tão de repente, veio a certeza de que seria mãe, sim. Cumpriria com o papel que, de certa maneira, vinha fugindo porque outras questões mais emergentes necessitavam serem resolvidas.
E a maternidade neste ponto foi como um pilar para o casamento feliz que eu e Rhys passávamos. Não enfrentávamos problemas absurdos no ambiente doméstico. Amava-o mesmo contra as indicações dos médicos da época, que recomendavam distância física do parceiro (se conseguem entender o que quero com isso dizer...) e repouso absoluto, uma vez que a taxa de mortalidade infantil nestes dias era muito alta e todo cuidado era pouco. Tudo era resolvido (se havia alguma disputa de terras, por exemplo) pelo diálogo e esforçávamo-nos em impedir que a famosa vendetta (que é quando a família da vítima de um assassinato, por exemplo, possa se vingar e cometer o mesmo ato naquele que tirou a vida de um parente seu; este ato permaneceu em voga principalmente na Itália até o século XVII, embora estes atos tenham sido perpetuados pelos espíritos que cometiam tais atos mesmo quando encarnaram em "gângsters") fosse realizada.
No entanto, veio o outono e com ele, as preocupações. Afinal, a guerra no vizinho assustava e as notícias não eram boas. Quem seria esse William da Normandia que se achava no direito de ser chamado de conquistador por crer tomar o que era seu por direito? Meu marido, que estava a par de tudo, uma vez me explicou:
--Já estive na companhia do rei Harald II, cuja irmã, Edith, havia sido esposa do rei Edward, o Confessor. Dizem que este rei era santo, mas também o conheci e ele me pareceu arrogante. Bem, como dizia, Edith, quem ele repudiou duas vezes (na primeira, por ser estéril; na segunda, por querer viver uma vida santa), foi sua rainha consorte e no momento da morte do esposo, dizem que foi seu cunhado quem ele reconheceu como herdeiro.
"Era o que Harald clamava, afinal, e ninguém contestaria este homem. Afinal, os Godwinson costumavam ser muito poderosos e nem sequer o rei Canute os repudiu quando conquistou a Inglaterra antes de nós dois pensarmos sequer em nascer. No entanto, quando Canute governava os ingleses, Edward estava na Normandia: alguns diziam que foi exilado, outros, que sua mãe havia o enviado lá com seu irmão. De qualquer maneira, esteve em contato com William. Se este, mesmo ilegítimo como clamam, conquistou a afeição do pai e herdou o ducado da Normandia, como que ele não faria o mesmo com Edward? Para mim, se quer saber minha opinião, William sempre fora o rei direito da Inglaterra."
--Mas por que apoiar o rei Harald?--eu indaguei, minha mente dando voltas com todos aqueles nomes e aquelas políticas.
--Porque--disse meu marido--ele era poderoso e vinha de uma família poderosa. Não fosse por William, ele teria governado inquestionavelmente. Ninguém poderia adivinhar que ele seria derrotado em Hastings! Veja, Harald derrotou o rei dinamarquês viking, um sobrinho distante de Canute, que pensou em reclamar o trono inglês para si. Todos achávamos que os vikings da Normandia seguiriam o mesmo destino.
--Compreendo--refleti, quase silenciosamente. Mas Rhys continuou a tagarelar, por estar ansioso com os eventos que ameaçavam, a qualquer momento, eclodir:
--Nós, galeses, precisamos nos unir contra William, mas não vejo muita esperança. O pobre coitado do rei Bleddyn está sofrendo com ameaças do nobre que, desconfio, tem recebido apoio de William.
--Contanto que você não se envolva nisso, Rhys--falei, soando quase desesperançosa: estava ciente de que ele era um dos nobres mais poderosos de Powys e, portanto, vassalo da autoridade local que respondia ao próprio rei de Gwynedd. Logo, era apenas natural que, em caso de guerra, ele fosse convocado. Apesar disso, esforcei-me em manter calma e sob controle os meus nervos, pois precisava ser sensata. Guardava a intuição de que nenhuma preocupação era necessária, porém...
--Evito conflitos como sempre evitei--ele me assegurou, inclinando-se para depositar um beijo na minha testa.--Contudo, não fugirei se chegarem a mim.
Ciente de sua teimosia, ou braveza, não discuti. Naquela noite, rezei para que o ambiente que minha criança viesse nascer, fosse o mais pacífico possível. No entanto, nem eu mesma confiava na instabilidade que a ambição descomedida dos homens era responsável por criar.

Quando o inverno chegou, entrei em trabalho de parto. Foi minha guerra particular, como Rhys salientou na noite em que contei do bebê que carregava em meu ventre. Era ali que daria ao espírito que vinha dos céus o corpo para viver e aprender com sua encarnação. Não me recordava então, mas sonhei na véspera com um espírito de um jovem que vinha acompanhado de dois mentores meus. Um deles, chamado Rafael, falou:
--Entrego a ti esta criança que virá auxiliar em sua missão como mãe. Pediste tanto ao Pai que Ele enfim concedeu à tua vontade de conceber como Maria e criar, como Nossa Mãe, seu próprio filho.
--Agradeço--falei, humilde e emocionada.
--Não será muito fácil, visto os tempos em que pediste para reencarnar--alertou ele--E terás de se preparar, pois a guerra chegará à Gales, eventualmente.
--E ele fará parte disso?--eu exclamei, sem conter meu choque.
O espírito do filho que nasceria disse:
--Não te atormentes com a escolha que fiz. Não me conheceis antes porque somente agora Nosso Senhor pensou fazer-me bem ser teu filho. Em verdade, digo que optei por este caminho porque preciso me redimir do que fiz no passado.
Assenti, compreensiva, mas ainda assim, indaguei:
--Que fizeste no passado?
O espírito encarou a Rafael, mas ele lhe concedeu permissão para contar:
--Fui um rei tirano e injusto, que muito tirou das pessoas por orgulho e vaidade. Justifiquei todos os crimes cometidos em nome de Jesus, Nosso Senhor. Na última vivência, porém, consegui resgatar algo desta vida ao vir pobre e mendicante, contudo, preciso reparar ainda ao me inserir no seio de sua família.
Compadecida, disse:
--É hora de deixar para trás o passado e acolher o presente que Deus lhe deu. As reencarnações são um ciclo necessário para depurarmos de nossos pecados. Está pronto para isso? Está ciente do que pode enfrentar?
Inabalável, assim respondeu aquele que nasceria de meu ventre:
--Estou.
Rafael, por sua vez, disse, satisfeito:
--Que o Pai os abençoe na missão que, juntos, terão de cumprir.

Mas, de alguma maneira, surpreendi-me quando embalei em meus braços uma menina. Sim, nasceu uma menina! (Nota de Amadeus: aposto que muitos de vocês acreditaram que viria um menino, não é mesmo? Aguardem o desenrolar da história...) E a recebi em meus braços com a emoção de quem vibrava para que isso acontecesse.
--É uma menininha saudável, vossa senhoria--disse-me uma das parteiras depois de tê-la me entregado--Como a chamará?
--Ainda não sei--confessei, sem fôlego: o parto foi longo e trabalhoso, exigiu de mim tantas energias que me sentia completamente fraca.
--Posso comunicar as notícias ao vosso marido?--indagou a outra mulher, assim que se certificou de que eu estava bem. Naquela época, o esposo não ficava no mesmo aposento que sua consorte.
--Pode--permiti, exausta, porém, feliz ao embalá-la contra o meu peito. Aproveitei a situação para alimentá-la, ignorando as regras (outra vez, feita por homens materialistas!) do "bom senso" de que uma ama de leite era a responsável pelos recém-nascidos até a mãe se recuperar.
Quando Rhys, afinal, entrou nos aposentos, seu rosto se iluminava de deleite e foi quando percebi que Deus havia me abençoado! Uma família, enfim! Nada me alegrava mais do que poder constituir uma família minha.
--Venceu!--ele exclamou, referindo-se à "batalha" contra a morte que eu enfrentei no trabalho de parto--Oh, não creio! Deus foi bom conosco, Gwen!
--De fato, foi! Por favor, reze por nós!--instruí-o a seguir o costume medieval que, antes da Reforma, predominava fortemente sobre a aristocracia e a nobreza: pagar à Igreja Católica pelas missas em honra de si mesmos ou de seus entes queridos, uma vez que o medo da morte era tão impactante entre o povo europeu daquela época que eles se voltavam para vários meios que encurtassem sua estadia no que passou a se denominar de "purgatório".
--Farei isso--ele prometeu, e eu o vi tomar a criança em seus braços e a embalar com emoção. Aquela cena fê-me chorar, emocionada, e aquilo o assustou--O que houve?
--Eu só estou comovida--disse, assegurando-o de que tudo estava bem--Deus ouviu nossas preces.
Rhys sorriu.
--Creio que deveríamos nomear este bebê em honra de algum santo.
--Glawdys--decidi, tão de repente inspirada.--Houve uma santa com esse nome, porém, não me recordo agora de onde... O que eu lembro é que ela era pacífica e dizem que afastou o marido da violência.
--Quase como Santa Mônica afastou Santo Agostinho da violência--refletiu Rhys.
Encarei-o surpresa. Ele, sem saber o que se passava, também me encarou de volta com perplexidade. Afinal, o que havia acabado de acontecer?

(Nota de Amadeus: a santidade é um processo mais mundano do que espiritual em si, embora possa-se dizer que, na sua complexidade, muitos santos foram, de fato, espíritos puros que fizeram o bem e deixaram marcas em sua encarnação. Seus feitios foram tais que denominou-se, para a raridade do cumprimento de alguns, milagres. Por isso, o fenômeno dos santos. No entanto, cabe ressaltar que houve cultos na Baixa Antiguidade que confundiam santos com deuses. Por exemplo: se em determinado lugar, uma santa ou um santo fez "milagres" poderosos, cultuam-o de tal forma que o igualam ao Pai. Se não respondem a uma prece, ousam ainda em "bater" na imagem. Essa prática infeliz tornou a acontecer na Idade Média também. Mas não se enganem. Na Rússia, uma princesa teve seu marido assassinado e, portanto, decidiu se vingar dele: planejou deliberadamente acolher seus inimigos para forjar um perdão. Contudo, o resultado não poderia ter sido diferente: os homens em questão foram assassinados. Na posterioridade, esta princesa se tornou santa. E por quê? Ela se converteu ao cristianismo. Garanto-lhe que um espírito superior não cometeria atos desta maneira. Que ela, de fato, veio a pedir perdão no plano espiritual e, nas encarnações posteriores, se esforçou para se limpar disso, pode-se de fato ser exemplo de penitência, mas não de santidade. Por isso, vos digo que nem todo santo foi um espírito louvável (e não deveria surpreender, uma vez que houve "deuses" de comportamento similar que, entretanto, continuaram sendo centros de fé para muita gente ignorante) e há a necessidade de refletir sobre isso. Mas, sobre a questão de minha vida acima, digo que não fugi (e nem teria como) das questões sociais de minha época. O culto mariano (isto é, à Virgem Maria) não havia surgido com precisão ainda, especialmente naquelas regiões onde minha memória versada em conto lhes mostra, mas isso não diminui o significado da religiosidade daqueles com quem convivi. Em suma: tanto fossem nobres ou não, o costume de dar o nome de um santo ao filho era marcante e tinha sua importância. Por isso, fiz o mesmo com a minha filha. E digo-lhes por quê: a encarnação dela seria marcante, difícil, e aquele nome... bem, é provável que pudesse ajudá-la. Não tenho a permissão de contar mais do que devo, mas podem imaginar o que quis dizer.)

Glawdys nasceu robusta, com as bochechas vermelhas. Seu choro foi tão estrondoso ao sair de mim que nem as parteiras tiveram dúvidas de que era saudável. Uma delas, inclusive, comentou:
--Nossa, que pulmões essa criança possui!
Seu batismo ocorreu assim que havia sido limpa e vestida apropriadamente. Os amigos próximos e nossas respectivas famílias estiveram presentes em uma cerimônia íntima que celebrava o nascimento desta filha, embora não me passasse despercebido o lamento de alguns quanto ao sexo do bebê. No entanto, nem eu ou Rhys nos importávamos com isso: o mais importante era que Glawdys crescesse saudável.
O ambiente domiciliar tendia à prosperidade e os primeiros anos foram relativamente tranquilos: longe do tumulto político que acontecia em Pembroke e outras regiões de Gwynedd, éramos muito pouco afetados pelas tensões que emergiam ao redor do gentil rei Bleddyn ap Cynfyn. Entretanto, conforme Glawdys crescia, percebíamos que se tornaria uma mulher de difícil personalidade dado que, mesmo pequena, já demonstrava ser cheia de vontades.
--Ela é indomável--uma vez admiti ao meu esposo. Havia recusado que minhas damas de companhia atuassem como governantas porque queria exercer este papel, o que, para muitos, era algo escandaloso de minha parte. No entanto, isso se provava mais complicado do que pensava, portanto, desanimava com frequência--Não sei o que fazer.
--Paciência é a chave--disse-me Rhys, pensativo--De fato, ela é temperamental. Acha-se constantemente no centro de nossas atenções e detém confiança sobre seus desejos, sabendo que responderemos às suas vontades.
--É preciso que haja uma companhia--refleti--Não podemos mimá-la, embora todos ao nosso redor deem pouca importância para isso. Lady Sybil me disse que este tipo de comportamento é normal e que eu não deveria me preocupar!
Que eu estivesse muito aflita, era evidente, mas igualmente manifestava um desespero que refletia a inexperiência espiritual da maternidade. Aquela era uma grande prova para mim, e eu não queria falhar nela.
--Não vamos nos antecipar em afligir-nos sem necessidade--alertou-me Rhys, tão mais sábio e paciente que eu--Venha, vamos fazer uma prece para nossa menina.
Assim, aquiesci e, ali mesmo, no chão dos nossos aposentos, ajoelhamo-nos e direcionamos nossas preces mais sinceras e genuínas ao Todo Poderoso. Enquanto isso, Glawdys continuava agitada, recusando a aceitar sua encarnação... justamente porque havia se acostumado a viver em um corpo masculino. Quando completou cinco anos, ela virou-se para mim e perguntou, em um galês esganiçado e confuso:
--Por que, senhora mãe, não posso brincar de espadas?
Pacientemente, expliquei:
--Porque são instrumentos perigosos que somente os rapazes podem usar.
--Por quê?
--Porque são eles quem irão nos proteger.
--E por que não posso protegê-la, mamãe?
Encarei aqueles olhos azuis tão questionadores e sinceros, e por um minuto me senti emocionada por aquela pergunta. Senti nela o amor sincero e puro que não somente vinha de sua infantilidade, mas de seu espírito. Sorri-lhe e, mantendo a paciência, expliquei:
--Nós mulheres temos um jeito próprio de nos defender. Quem sabe quando for mais velha eu possa ensiná-la o que meu pai ensinou?--e lhe dei uma piscadela que pareceu acalmar sua curiosidade.
Nesta mesma época, percebi que, ao conversar e satisfazer suas questões, seu temperamento oscilava entre a intensidade que a (re)descoberta do mundo lhe proporcionava e a calmaria que vinha controlando este ímpeto. Com muito alívio diante disso, redobrei minhas preces, mas também foi quando engravidei novamente. E Glawdys não gostou muito quando compartilhei a novidade com ela.
--Você esquecerá de mim!--seu temperamento retornou com uma fúria que nunca antes havia conhecido, não naquela manifestação. Encarei-a, horrorizada--Serei substituída! Como fui antes!
--Você nunca foi substituída, minha filha!--protestei, esforçando-me em vão em acalmar seus nervos--Por que diz isso?
(Nota de Amadeus: é sabido que as crianças possuem uma mediunidade bastante aflorada nesta tenra idade e algumas delas não somente podem exercê-la naturalmente como também são capazes de ter acesso às memórias de vidas regressas caso Nosso Senhor permita. Glawdys foi um destes exemplos: na sua encarnação mais marcante como rei, ela havia sido preterida pela mãe daquela vida, o que ocasionou em uma vivência bastante conturbada. O fato de ter um possível irmão e enxergar a felicidade estampada no rosto de sua "nova" mãe, no caso eu, a fez recordar deste trauma... e que foi necessário tê-lo revivido a fim de que pudesse curá-lo naquela mesma existência).
--Porque sim!--ela exclamou, magoada--Se me amasse, não teria outros bebês.
Rhys prontificou-se a intrometer-se naquela ocasião, mas eu sabia que precisava resolver aquilo eu mesma. Por isso, impedi-o de influenciar aquele momento, embora Glawdys o encarasse como se pedisse por ajuda.
--Mas ter outros bebês não a fará ser menos amada--disse eu, engolindo minha angústia maternal para que pudesse, ao contrário, fazê-la crer naquilo que dizia--Eu juro que continuará sendo a primogênita. Além do que, se lembra de quando conversamos sobre protegermos umas as outras?
Desconfiada, Glawdys assentiu e seus cachos dourados caíram em seu rosto. Prontifiquei-me a ajeitar o arco ao redor deles antes de dizer:
--Você poderá ser a irmã mais velha que cumprirá o dever diante de seu irmão ou sua irmã mais nova. Como se sente com isso? É uma grande responsabilidade.
Glawdys não respondeu, e, apesar da ansiedade que me abalava internamente, prossegui:
--Você será o exemplo para esta criança não nascida. Será você que a introduzirá aos conhecimentos que tão logo eu lhe passei. Ela vai precisar de você, de ser defendida em tempos árduos como vivemos agora. Não gostaria disso? Eu sempre fui próxima dos meus irmãos, e eles me ensinaram muito.
Aos poucos convencida, ela cedeu. Mas ainda insistia em fazer biquinho quando disse, uma última vez:
--Não vai me abandonar, então? Promete?
Abracei-a e respirei mais acalmada, satisfeita por ter resolvido aquela situação. Uma vez que a assegurei de que continuaria a amando e educando-a, fiz questão de colocá-la para dormir. Logo mais, fui deitar-me ao lado de Rhys.
--Você é uma excelente mãe--ele disse, todo sorrisos, ao receber-me em sua cama--Pensei que precisasse interferir outra vez, mas vejo que não há mais necessidade disso.
Soltei um risinho e enquanto aproveitávamos a nossa intimidade, a porta dos aposentos foi aberta escancaradamente: o perigo do mundo exterior, por tanto tempo esquecido, chegou finalmente até nós.
--Céus!--exclamou Rhys, seu rosto ruborizado diante da visão de seu pajem, que entrava ofegante e tão constrangido quanto nós por ter adentrado sem boas maneiras--O que quer, filho? Diga!
Sem levantar os olhos, o pobre Cerfynn disse, aos tropeços:
--Trago péssimas notícias que não poderiam ser retardadas, senhor--e, sem esperar que Rhys o comandasse a falar logo do que se tratava, o jovem disse--Estamos em guerra. O rei de Gwynedd está morto.
--Morto?!--minha voz saiu mais esganiçada do que pretendia, o pânico tomando conta dos meus nervos--Como assim, morto?
Em minha mente, recordava da bondade de Bledynn ap Cynfyn e em como havia sido tão gentil comigo, com meu esposo, com toda a minha família. Não me recordava de que pudesse ter sido um péssimo governante, embora desconfiasse de que os nobres invejosos de quem nunca me simpatizei (sim, leitor, os mesmos que procuravam favores do meu pai e o detestavam por sua proximidade com o rei) tivessem parte nisso. Indagava-me se tudo isso tinha relação com a conquista dos normandos na vizinha Inglaterra, mas o que Cerfynn disse foi pior do que temia:
--Os nobres que o cercavam o traíram. Gwynedd está em guerra civil. O rei sulista Rhys ab Owain o matou e agora ocupa o cargo de rei de Gwynedd também.
Um silêncio constrangedor caiu sobre os presentes e eu me vi forçada a manter a calma e dizer:
--Teria notícias de meu pai, senhor?
Cerfynn hesitou e eu imediatamente soube; entretanto, precisava ouvi-lo.
--Por favor, apenas fale.
--Ele seguiu Vossa Graça ao túmulo, minha senhoria. Minhas condolências.
--Agradeço--respondi, quase solenemente.
Fechei os olhos, sequer prestando atenção ao diálogo que se passava entre meu esposo e seu pajem, portador de tristes notícias. Se o rei estava morto, minha família havia caído em desgraça. Pus-me a rezar fervorosamente, mas mesmo consciente de que meu pai e meus irmãos estivessem em um lugar melhor... as lágrimas vieram.
E Rhys se deu conta de que sua esposa sofria o luto. Por isso, deixou de lado as questões que pediam-lhe urgência, orientando Cerfynn a pedir comida e ale na cozinha e que ordenasse em seu nome a alimentar as lareiras, e veio me consolar.
--Suba à cama, mulher. Sua condição requer repouso--ele disse em um sussurro tão doce que eu não havia como negar obediência. Colocando-me em seu leito, Rhys abraçou-me e continuou--Tudo será resolvido, Deus conhece nossos corações e sabe o que se passa neles. Não vamos temer antecipadamente. Pedirei a Cerfynn pelas notícias de sua mãe, e trazê-la aqui.
--É claro--eu concordei, distante, tendo-me esquecido do que aquilo tudo poderia significar para Mewawyn--Obrigada, esposo. Preciso pensar em nosso filho e...
Mas ele silenciou minhas inquietações ao depositar em meus lábios o mais doce dos beijos, afagando meu cabelo e amando-me suavemente.
--Durma, meu amor. Amanhã, será um novo dia.
E, sem forças para contestá-lo, adormeci em seus braços.

Aquele foi um ano difícil e a tendência era piorar. Logo mais em 1074, havia dado à luz a um menino, a quem chamei de Dafydd (ou David, se preferirem, mas manterei a grafia galesa). Para minha surpresa, Glawdys adorou-o e se esforçou em melhorar seu comportamento sempre que estava por perto, já que desejava ser um exemplo para o irmão mais novo. Essa ideia lhe fixou tal que definitivamente abrandaria seu temperamento no decorrer da infância, embora isso não signifique que tenha posto um fim em seus humores oscilantes.
Mewawyn, minha mãe, acompanhou o parto de seu neto e não saberia dizer, após o ocorrido que afetou gravemente nossa família, como ela se sentia. Embora acompanhar meus filhos a alegrasse, ela se sentia vazia e procurou conforto num convento ao extremo norte de Gales, longe das politicagens, mas também dos reminiscentes da família que deixou para trás. Não me senti particularmente ferida com isso, embora negar que havia me entristecido com sua partida seria hipocrisia da minha parte. Afinal, que filha não sentiria falta da mãe? No entanto, reconhecia que aquilo lhe era necessário, libertar-se de uma vida que nunca quis. (Nota de Amadeus: de fato, soube no plano espiritual, quando nos reencontramos, que ela se encontrou enquanto abadessa, mas pediu perdão pela falta cometida enquanto mãe. Contudo, apesar desta reaproximação entre nós, não encarnaríamos mais juntos).
Dafydd crescia saudável como sua irmã, herdando muito mais aspectos físicos do pai do que meus, embora tivesse meus olhos azuis. Seu sorriso era encantador e havia em seu semblante uma serenidade que encantava a nós todos. Apegou-se rapidamente ao pai, e deixo aos leitores perguntarem-se o motivo por trás desta ligação especial.
Mas a paz não estava destinada a reinar sobre nós já que seríamos, outra vez, afetados pela guerra dos homens. Rhys havia sido convocado a prestar lealdade ao novo rei se desejasse ser desassociado ao estigma de traição. Como seu vassalo, não havia como relutar em responder à missiva que obrigava-o apresentar-se à corte. Entretanto, diante das próprias lutas que este novo rei enfrentava (o que ocasionaria em sua própria morte não muito tempo depois), sua presença foi postergada e eventualmente esquecida. 
Contudo, o ano de 1081 chegou e, com ele, vinha o conquistador normando avançar com suas tropas sobre toda a Gales. O sul havia se submetido a ele, e o espectro de seu poderio rondava sobre o norte independente. Mesmo o novo rei de Gwynedd e Powys parecia sensatamente temê-lo. No ano anterior, os condes lealistas ao rei William haviam submetido alguns dos súditos galeses ao seu poder ao expandir o domínio sobre suas terras. No entanto, que o próprio bastardo coroado rei de todos os ingleses viesse em pessoa exercer esta dominação... pintava sobre minha família uma realidade mais assustadora que brigas entre galeses.
--Fui convocado a levar os homens à guerra--comunicou-me Rhys, infeliz, no dia em que, outra vez, seu pajem fora o portador de notícias ruins... ainda que em um momento mais adequado--A resistência aos saxões e seus normandos deve ser feita e o rei precisará de toda a resistência possível.
Senti um aperto no coração e imediatamente tomei como um alerta de Deus para que impedisse sua partida... ou, como mais tarde se provou corretamente, um pressentimento de que algo ruim estava para acontecer.
--Não vá--falei, prontamente--Por favor, Rhys, esta guerra não é sua.
--Não--ele concordou e seu semblante estava repleta de miséria, a ponto que me afetou também. Seríamos separados novamente, eu sentia isso--Não é, de fato, mas meu dever urge-me a cumpri-lo.
Ainda que compreendesse, meus olhos se recusaram a ceder e expressaram a dor que apunhalava meu coração.
--Não me deixe só neste mundo--sussurrei.
Com um sorriso triste em seus lábios, Rhys disse:
--Nunca estará sozinha, meu amor. Não permitirei isso.
E, assim, pela última vez naquele dia--e naquela encarnação--Rhys beijou-me nos lábios e tomou-me em seus braços para amar.

Criar duas crianças enviuvadas não foi fácil, e dizer isso é como constatar o óbvio, apontar para o céu e dizer a um semi-cego a cor azul que não mudava se não pela presença de nuvens passageiras. Não tinha mais damas comigo, pois cada uma delas precisava cumprir seus deveres e não poderia culpá-las por retornar cada uma delas as suas famílias. Os empregados, no entanto, me ajudaram a passar por este período tão turbulento.
--A senhora não deve se contentar com esta infelicidade--disse-me a cozinheira cujo nome era algo parecido com Lyn--As crianças precisam da sua força.
Reconhecendo Deus naquela pessoa, eu logo percebi que não adiantava internalizar a tristeza, chorar quando ninguém via e deixar meus filhos aos cuidados daqueles pobres coitados que, além de cumprirem com seus trabalhos, os educavam. Glawdys estava sendo difícil e mesmo Dafydd, costumeiramente tranquilo, chorava incessantemente.
Entretanto, precisavam de sua mãe e eu não poderia me abalar. Que o luto fosse sentido, era claro; mas era tempo de superá-lo. Por isso, sem dormir, fiz a vigília na capela situada no interior do castelo, alheia às presenças espirituais que me acompanhavam. Cercada por velas e uma escuridão que ameaçava apagar a luz, acostumei-me ao silêncio quando ouvi uma voz:
--Já passou por tantas coisas piores, senhora. Será derrotada desta vez?
Para minha surpresa, diante de mim, via a santa cujo nome batizei minha filha. Gwladys era seu nome e ela havia sido uma rainha de um antigo reino galês, sendo, segundo diziam as histórias, conselheira do rei Arthur. Foi santificada não somente pela pureza do seu coração e seu devotamento à Igreja cristã, mas por seguir fielmente os passos de Cristo e, consequentemente, ter atuado bondosamente sobre o esposo, responsável por convertê-lo a uma vida mais amorosa e menos violenta. Curiosamente, porém, esta santa aparecia vestida nos costumes galeses do século XI e não do tempo em que havia vivido. (Nota de Amadeus: os espíritos bondosos, de luz, preocupam-se em facilitar a transmissão da mensagem para seu médium, ou para aquele diante de quem se apresentarão, tomando, portanto, um aspecto que lhe seja mais familiarizado em termos de estudos, conhecimentos, hábitos, costumes, etc.)
Boquiaberta, sequer consegui responder. Ao seu lado, via o espírito iluminado de meu finado marido e ele transparecia uma paz que aquietou prontamente os gritos surdos de meu coração. Apesar disso, meus olhos choravam. Mas ele sorria, ainda que nada dissesse. A santa pôs-se a prosseguir, porém:
--Sê forte, que o tempo chega. Nada é fácil, mas isso já sabe. Donde repousa seu bravor inquietante?
--Em meus filhos, em meu marido, no amor que nutro por eles--respondi, sem saber, decerto, o que dizia.
Santa Gwladys arqueou as sobrancelhas e disse:
--Já tem a resposta para suas preces. O mundo lá fora é cruel, ensurdece os bons. Não veio acá para se aquietar e contentar com o fácil e o tranquilo. Sabe bem que seu espírito não pediu por isso. Se quer sobrepor sua dor, procure pelo caminho árduo tal qual Maria fez quando depois que Jesus, seu filho, partiu.--e acrescentou--Não quero que sofra, filha, sabe que nem eu, nem aqueles que a protegem se contentam com seu sofrimento. Mas não veio aqui para se esconder, não é mesmo? Levante a cabeça e sê brava. Ou aquele que dizem ser o conquistador a domará para sempre.
Nesse esplendor misterioso, a mensagem foi dada e eu fui relembrada da minha missão. Era hora de resistir, de fato, e sair do conforto da minha posição.

Na verdade, deixando de lado as frases de efeito, o que fiz foi bem simples: eduquei meus filhos. Aliei-me aos vizinhos e exercitei o poder que me cabia enquanto viúva de um poderoso nobre em Powys. Os camponeses se lembravam de minha bondade e tomaram meu lado, e mesmo os aristocratas que um dia desejavam colocar suas filhas ao meu serviço também. Conforme restaurava a coragem que me foi tirada quando os galeses foram derrotados no ano de 1081, exercitava, não sem dificuldade, porém, aquilo que vim a cumprir: a religiosidade, a paciência e, acima de tudo, a penitência.
Afligi-me incontáveis vezes quando o temperamento de Glawdys surgiu descontroladamente em situações complicadas, que não cabem discorrer. E, no entanto, foi pela diplomacia que a fiz ver razão. Dafydd, cuja missão pacífica era similar a minha, a cumpria mais rapidamente que eu. Logo, não havia mais necessidade de prolongar sua encarnação aqui. Assim, sua saúde deteriorava. Como mãe, porém, procurei esforçar-me em cumprir os deveres. Casei-o com a filha de uma amiga a fim de que pudesse assegurar aquelas terras que possuíamos, e logo fiz o mesmo com Glawdys.
Os anos se prolongavam e a derrota galesa era cada vez mais iminente. No ano de 1091, a dominação de William era efetiva. Nunca nos encontramos porque sua preocupação concentrava-se nos campos de batalha e não em lidar burocraticamente com senhoras viúvas.
--Preocupo-me com a senhora--uma vez disse-me minha filha, no ano seguinte. Glawdys surpreendentemente se deu bem com aquele que seria seu primeiro marido, e ambos apreciavam minha companhia. Tal qual Dafydd e sua esposa, vinham me visitar constantemente--Está adoecida e os homens contam que não sai mais de casa.
Quando olhava para Glawdys, sentia tanta alegria por vê-la bem que meus olhos quase lacrimejavam. Havia enfrentado tantos obstáculos em sua infância, o esforço pelo qual passei para que pudesse dar uma educação adequada e cristã a ela... Agora colhia os frutos! Sua natureza indomável suavizou, ela não mais se interessava por espadas, mas pela palavra de Deus. Não era vaidosa, mas simples, e apreciava a companhia dos de bom coração, cercando-se de camponeses e aqueles que conquistava sua presença. Respondia à grosseria dos nobres com simpatia e doçura, mas sabia ser grossa e afiada quando necessário. Sua inteligência a fazia-me lembrar constantemente do pai. A verdade era que meu dever fora cumprido e não havia mais nada ali para mim.
--Não há por que sair--falei, cansada--Tenho tudo o que preciso aqui.
--A senhora amava ver o pôr do sol, caminhar pelos jardins--disse Glawdys, e eu pressenti a ansiedade em sua voz. Embora raramente chorasse, havia outras formas quais se expressavam suas emoções--O que mudou?
--Nada mudou, apenas... prefiro o conforto de minha cama. De um bom vinho. Da capela que tanto me conforta.
Ela sorriu, mas seus lábios tremeluziam.
--A senhora sempre foi simples de espírito--ela comentou, quase como se pensasse consigo mesma.
--E isso é ruim?--eu indaguei, esforçando-me para sorrir.
Notei que Dafydd havia entrado pela porta dos aposentos que um dia foram ocupados pela presença charmosa de Rhys. Pensar nele ainda doía meu coração.
--Não--disse meu filho, e minha mente tão vagarosa se perguntava há quanto tempo ele estava ali--A senhora é como uma santa.
--Eu não mereço tal título--retruquei, embora houvesse divertimento ainda nos meus olhos. Deitada em minha cama, meu corpo parecia pesar.
--A comparação é justa--insistiu Dafydd, tão sereno--Curou tantos doentes, praticou a caridade que Cristo nos ensinou e amou a todos nós--ele fungou, e eu soube que algo estava acontecendo, e foi quando tomei consciência de que eu.... estava morrendo.
--Por que se entristece, meu filho?--ouvi-me perguntar, e já não sentia o peso do meu corpo, mas um incômodo que me dificultava a fala. (Nota de Amadeus: meu perispírito se desprendia com facildiade e aqui o leitor pode notar que, pela primeira vez em muitas encarnações, não sofria um desencarnar violento ou abrupto. Vale acrescentar também que o desapego da carne auxiliou nesse desprendimento, conforme os ensinou Kardec em seus livros dentro da perspectiva espírita).
--A senhora parte, embora sei que a um lugar melhor.
--Não estará sozinho, meu querido--falei, os olhos fechando--Nem você, minha amada filha.
E, como se estivéssemos revivendo uma conversa antiga, ouvi-a dizer:
--Promete que não me abandonará?
--Jamais, Glawdys. Mamãe a amará como sempre a amou por todo o sempre.















sábado, 2 de novembro de 2019

Velhas Memórias. Ciclo VIII.

Leste da antiga França, 817.
Nestes tempos tão turbulentos, vim à Terra novamente. Como devem ter observado, o espaço entre encarnações aumentou consideravelmente, pois meus trabalhos no plano espiritual expandiram-se rigorosamente. De todo modo, apesar de ter selado alguns carmas desenvolvidos nas existências precedentes, havia missões que precisavam ser cumpridas. Uma delas me levou à Frankia, que hoje em dia atende pelo nome de França. (Nota de Amadeus: Por motivos de compreensão pública, opto por orientar a médium a manter o nome do país pelo qual é conhecido atualmente).
Assim como na Inglaterra de 400 anos antes, a França do século IX era nada se não um amontoado de reinos e sub-reinos sem uma autoridade central, o que resultava em constantes guerras contra si mesmos pelos motivos mais banais que se poderia pensar. Apesar disso, não se deve menosprezar o reinado de Carlos Magno, personagem que muitos dos nossos leitores devem reconhecer.
Este renomado guerreiro não era, porém, um exímio espírito de inalcançável inteligência e possuidor de qualidades louváveis. No entanto, foi quem foi a partir do contexto sócio-histórico que o criou, o que tampouco justifica a crueldade com a qual subjugou tantos povos em nome do grande Mestre. Uma vez que se torna possível identificar cristãos genuínos em meio ao caos e violência geradas pelo apego material, podemos concluir que a sociedade era o reflexo de um conjunto de espíritos e não o contrário. Dando prosseguimento ao que dizia, Carlos Magno foi importante para o desenvolvimento da França, embora em seus findos dias sua consciência ainda estivesse tão presa à matéria que dificultaria sua transição para plano espiritual. Para uma época medieval que clamava e moldava costumes guerreiros como resultados seculares de domínios tribais (não podemos esquecer que nos dias do Império Romano, os ditos bárbaros provenientes da Germânia dominaram todo o território francês, responsabilizando-se parcialmente pelo declínio daquele poderoso império de antigamente), é fácil entender o motivo pelo qual este rei alavancou a dinastia que levaria seu nome (carolingea) a um patamar que seus ancestrais e antecessores falharam em fazer.
Entretanto, mesmo os grandes guerreiros não viviam para a sempre e a instabilidade ainda estava bastante enraizada para que os problemas de sucessão e autoridade régia cessassem com todo o poderio exercido pelo primeiro Imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Com isso, portanto, Carlos Magno veio a falecer em 814. Três anos mais tarde, quando se dá início a esta memória minha, a política fraca de Louis, O Piedoso colocaria a perder tudo aquilo que seu pai se esforçou em manter. A verdade é que conquistas, por sangrentas que fossem, nunca se perpetuavam. Para toda uma ação, há uma reação. Em seu íntimo, Carlos Magno sabia disso. É na proximidade da morte que os "instintos" espirituais se aguçam, pois que reconhecem a partida de um plano para o outro, do desprendimento da carne para a liberdade espiritual.
O reinado deste rei é, ainda mais para as interpretações atuais com diferenças de tantos séculos entre estes tempos e os dos leitores que aqui nos acompanham, complexo de ser compreendido. A alcunha de "o piedoso" nos faz pensar nele como uma figura que, a despeito de todo o esplendor que sua posição poderia lhe conceder, manteve-se humilde e realizou processos cristãos que contribuíram para elevá-lo a este patamar de opiniões públicas. Por outro lado, muitos culpabilizam seu "excesso de religiosidade" pelas guerras civis causadas em seu governo. A verdade é que ele não foi como seu pai, por isso tantas expectativas ao seu redor foram frustradas. Mas ele, assim como qualquer ser humano, era mais complexo do que sendo apenas "religioso" ou "fraco". Suas intenções eram boas, mas nem sempre elas são suficientes. De todo modo, posso dizer que, independentemente disso, suas encarnações posteriores foram melhores.
Este é, meus caros, o contexto em que nasci. Como falei no conto anterior, encerrei minhas vivências enquanto homem, por isso vim mulher. Meus pais terrenos deram-me o nome de Agnés, e éramos  simples camponeses que, entretanto, seriam afetados pelas guerras civis provocadas, ou não, pela falta de tato de Louis e seus companheiros aristocratas. Apesar de ter feito questão em ressaltar este contexto, não voltarei a mencioná-los no decorrer da história se não quando for extremamente necessário.
Ao sul do leste da França governada por Louis, minha mãe, uma senhora de bondoso espírito e resignação que já havia parido 15 filhos dos quais apenas 3 sobreviveram à infância, me deu à luz depois de bastante sacrifício. Faltava-lhe motivação em fazê-lo, por maior que fosse sua fé. Não há como culpar a pobre mulher: viu doze crianças morrerem sem ter qualquer poder para impedir tal desgraça. Entretanto, cultivava em seu íntimo uma esperança que não conseguia explicar: a de que os reencontraria novamente. A fé estável, consequência da elevação de seu espírito, moldou e preparou seu caráter para as dificuldades da vida. Aquela seria última encarnação na vida terrena. Tendo enfrentado todas as provações com certo sucesso, logo seu tempo cessaria e, no instante em que me deu à vida carnal, não sobreviveria a outro parto doloroso. Apesar disso, antes de partir para o outro lado, como os jovens de hoje em dia gostam de pontuar, nós desfrutamos de um breve reencontro: esta mulher foi tanto irmão quanto irmã de outras vidas, tendo sido antes disso mãe minha nas encarnações de contos que já escrevi (e que os mais atentos vão logo saber de quem me refiro). Não chorei tanto quanto uma criança normal e isso despertou a preocupação das parteiras, mas foi aquela que me concebeu quem prontamente recebeu atenção delas.
O pobre coitado do meu pai já era idoso para aqueles tempos, contando 35 verões. Ele estava devastado e não pude culpá-lo pela pronta rejeição com a qual ele me recebeu: não pensem que isso tenha a ver com desavenças anteriores, sendo este aqui um espírito novo. (Nota para os que estudam o assunto do espiritismo: ainda que seja muito comum espíritos reencarnarem em ciclos familiares, etc, por questões de afinidade e pendências precedentes que requerem uma resolução por motivos que somente Deus sabe, nada impede que Ele, em sua sabedoria infinita, interfira e coloque alguém que nós possamos ensinar e, claro, receber ensinamentos. Toda relação é uma via dupla, mas não é regra fixa que toda família tenha vindo dos mesmos ciclos e processos reencarnatórios). Pois bem, este meu progenitor achou por bem enviar-me à Igreja... mas foi persuadido em retardar isso pelo que ele diria mais tarde ter sido um "estranho aviso de Deus" (é claro que foi um de seus mentores espirituais que o preveniu de tê-lo feito besteira: o convento mais próximo que ele pretendia me enviar em aparência era humilde, mas por dentro, corroído por uma notória corrupção moral). Sendo assim, ele se viu forçado a aceitar a filha que matou sua amada esposa.
--Mais uma boca para alimentar--ele diria isso no decorrer de meu crescimento--E inútil, pois sendo mulher teria de me preocupar em arranjar marido, pedir permissão, se não implorar, para que o senhor das terras a deflore antes de passá-la ao seu esposo. Céus, o que vou fazer com você, menina?
Contava quase cinco anos quando percebi o verdadeiro significado de suas palavras: não o que elas denotavam em seu real pronunciamento, mas o tom de voz pode expor bastante a intenção da pessoa e eu logo percebi que não era bem-vinda. Meus irmãos, reencarnações das irmãs e companheiras de vidas preexistentes, logo tomaram meu lado e me protegiam do que prefiro chamar de frustrações acumuladas de nosso pai. No entanto, com a morte do primogênito, essa proteção não se manteria apesar dos esforços de Magnus. Assim, quando completei sete anos fui enviada para bem longe: ao convento situado em Paris. Por cruel que isso possa parecer ao leitor moderno, pois meu pai esperava que eu morresse no caminho, a perspectiva de um camponês nesta época era muito infeliz: era uma classe de pessoas pobres que dependiam de senhores não raramente abusivos na forma com a qual costumavam exercer seu poder. Para quem desconhece este período, quando meu pai disse que esperava, e não sem razão com desgosto, que o senhor a quem devíamos tudo (comida, teto e, principalmente, o resultado da colheita) me deflorasse antes que meu esposo o fizesse era porque este era um costume muito conhecido chamado de "noite do senhor", onde, em palavras simples, o rico detinha o direito de dormir com a esposa do trabalhador. Não preciso dizer o quão insatisfeitos este costume gerava nestes pobres coitados, chefes de família que viam com rancor tudo que lhes pertencia ser tirado deles e, não obstante, a filha que amavam ser violada sem qualquer pretexto (não que, tampouco, precisasse-se de um). Mas não havia qualquer esperança de lutarem contra isso pelo medo do que uma rebelião poderia lhes acarretar. Contudo, este hábito doentio logo desapareceria.
Pois bem, de volta ao conto. Acompanhava-me à estrada um pobre homem velho, mas muito velho mesmo, de aparência desgastada em razão dos anos dolorosos que o labor obrigatório (ou servidão, se lhes apetecem a palavra) lhe inculcou na saúde: era cego de um olho, não possuía dentes, e seus cabelos grisalhos estavam quase ralos. Sua pele sequer parecia caucasiana em decorrência da exposição excessiva ao sol, e havia bolhas em lugares não muito agradáveis de se olhar (ele teria o que se chamaria na posterioridade de câncer de pele) e as costas guardavam feridas que eu jamais sonharia em perguntar. Apesar disso, Clodovech, como gostava de ser chamado, não me parecia assustador de forma alguma. Ele era gentil e seu bom humor era contagiante. Adorava ouvi-lo cantar canções "pagãs" e contar histórias do povo germânico de quem orgulhosamente clamava descender:
--Dizem que o imperador não gosta dessas coisas, pequenina--ele me confidenciou, gostando da minha curiosidade insaciável infantil--Que ele abomina tanto a herança de seu próprio povo que mandou destruir tudo o que seu pai lutou para conservar.
--Não é sábio falar do imperador, homem--repreendeu-o a mulher que me acompanhava, sua esposa Geraldine. Assim como o marido, sua aparência não era bonita de se apreciar, mas que importava? Era discreta e muito piedosa, genuinamente cristã, o que explicava sua aversão à tendência "pagã" do consorte. Apesar disso, o estimava bastante e na sua ignorância era onde sua inteligência florescia.--Muito menos, contar destas besteiras suas para a menina que estamos encarregados de levar ao convento de Paris.
E seus olhos aqui brilharam de expectativa, porém, antes de começar a divagar sobre um dos conventos mais conhecidos do reino do Imperador francês (este título nada mais era que uma formalidade para Louis, cuja ambição descomedida o fez tentar ser como o pai, Imperador do Sacro Império Romano Germânico), Clodovech a interrompeu:
--Cale-se, mulher. Sabe muito bem que nossa entrada será proibida lá.
Avançávamos numa carroça com o pouco que tínhamos: comida, palha para aquecer-nos às noites frias, e roupas velhas. Mas isso nunca me incomodou realmente, pois eu me alimentava daquelas conversas tão sábias e que, mesmo no futuro, não olvidaria.
--Por que?--indaguei, interrompendo meu silêncio pela primeira vez. O velho tornou a olhar para mim e com um sorriso bondoso, explicou:
--É um convento que só aceita mulheres pobres ou ricas, dependendo de como for, mas, acima de tudo, que sejam viúvas, solteiras, órfãs.
--Eu não sou rica--comentei, sem qualquer ressentimento.
--Não--ele concordou e, como homem da plebe que era, não restringiu sua língua solta ao comentar--E realmente não sei por que diabos você está indo para lá! Eles não vão aceitá-la, pois não possui qualquer dote!
--Clodovech!--protestou sua esposa, que acreditava, em sua pureza de alma, que lugares devotos exclusivamente ao Deus Uno não sofriam corrupções morais--Não fale tal heresia para a menina!
--Mas é verdade--retrucou o velho, indiferente--Francamente, não sei o que será dela, nem de nós! Será uma longa, longa jornada. Mas sabe, se estivéssemos nos tempos de meus avós, tudo seria melhor e diferente. Os deuses que eles cultuavam se importavam c'a gente do povo.
--Ignore estas blasfêmias, querida--aconselhou a bondosa senhora.
Mas Clodovech era homem de ferro e impassível em suas crenças, portanto, continuou a divagar sobre um passado não vivido, embora certamente experimentado por sua alma. Ele tinha todo esse apego porque seu espírito se recusava a aceitar àquela encarnação, ou ao menos, grandes aspectos dela. Era isso que dificultava sua vida, este apego a uma vida anterior que não poderia adequar àquele presente. Clodovech havia sido um soldado germânico, ainda da época de Santo Agostinho, e cuja tribo foi uma das responsáveis pela invasão às terras francesas. Todo este porte militar ele havia herdado desta experiência, e este resquício ainda demoraria a se esvair por algumas outras encarnações, pobre homem. Ele tinha um coração bondoso e sua fé, apesar dessa tendência politeísta (sobre a qual já discorri antes), era firme e genuína, por isso muitas das dificuldades e dos obstáculos que viveu e viveria posteriormente seriam apaziguadas em conjunto aos guias que o protegiam. Clodovech era o exemplo de bondade que conservei naquela encarnação, pois mostrava que, às vezes, aqueles que não rezam estavam muito mais próximos de Deus do que os outros que justificavam suas ações (muitas das quais eram terríveis, como no caso de Louis e os demais) em Seu nome. A boca que reza pode expressar mais inverdades do que aquele que produz somente com o coração.
Apesar de ser fervorosa, como haveria de ser tanto por intuição quanto pelo contexto em que estava inserida, não era, porém, intolerante como a época "exigia" do indivíduo. Afinal, o próprio soberano abominava práticas e heranças pagãs. Por isso, gostava de ouvi-lo contar sobre Thor, a vinda de Odin (muitas vezes confundido com Jesus) à Terra, o medo de morrer em vão (preferia, argumentava o velho, falecer com uma espada na mão como ditava o bom conselho, o que deixava a pobre Geraldine estarrecida), abominando a velhice... Mas também era sentimental. Lembro de ter me surpreendido quando Clodovech contou dos filhos que perderam para o labor: eram dois meninos, assim disse Clodovech, mas nenhum páreo para a vida dura que ele e a esposa haviam se acostumado. Com isso, lamentou profundamente o fim da linhagem e isso cortava-lhe o orgulho. Para ele, a única esperança de redenção estava numa curiosa mistura de crenças: morrer com a espada em mãos, mas encontrar o Salvador à espera dele.
Sorria disso porque reconhecia sua pureza, tal qual a da esposa, e todas as noites, quando eles dormiam, agradecia pela companhia deles. Esquecia-me do maus tratos infligidos pelo pai, pois considerava, ao contrário, filha daqueles que abandonaram seu conforto, seu lar, para me levar rumo ao desconhecido. Ainda que desconhecesse as doenças e as guerras, não era ignorante e conservava um instinto quanto a tais perigos. Por vezes, pedia desculpas por causar tantos incômodos, mas eles sequer se incomodavam.
A viagem duraria dois anos e foram tempos bons para todos nós. De repente, tinha sete anos, havia crescido e, apesar de suja, mantinha uma aparência agradável aos olhos de Geraldine: quando nos hospedávamos em tavernas, ela se esforçava em preservar a minha inocência (afinal, nestes lugares, havia muitas prostitutas também e as condições não eram boas, mas era onde podíamos pagar para hospedar) e gostava de pentear meus cabelos piolhentos e sujos. Toda noite, costurava vestidos com pedaços de tecidos diferentes que ela arranjava destas mulheres "impuras". Este preconceito com as moças da vida logo se dissiparia pois, como a vida é!, elas nos acolheriam quando uma tempestade nos atrasou para o nosso destino. Nosso cavalo, pobre bicho, foi vitima da natureza (se é que é justo para o animal colocar nestes termos), e foram essas moças que nos proveram tudo: comida e roupas frescas, mas também lar.
Recordo-me, inclusive, de uma moça (que viria a atuar, mais tarde, na linha das chamadas pombas-giras) chamada Crespine. Ela era dez anos mais velha que eu e possuía uma beleza quase iluminada: seu rosto era oval e alegre, os cabelos longos eram quase da mesma cor que a palha e todos as manhas acordava para pegar sol nas faces pálidas, beliscando as bochechas para que pudesse ruborizar e ser atraente aos clientes. Seu corpo era bonito para a época: o vestido que usava enaltecia os seios fartos e a cintura saliente. À primeira vista, um julgador a chamaria de prostituta barata (como certa vez aconteceu da parte de um cliente bêbado), mas ela era mais que isso. Crespine era pura em suas maneiras e muito cristã, diga-se de passagem. Uma vez, levando-me para um passeio, sentamos próximas de um lago e ouvi-a dizer:
--Deus é bom, Deus é tudo isso. Ele é onipotente e conhece nossos corações, sabia?
Fiz que sim com a cabeça e Crespine sorriu seus dentes amarelos.
--Por isso, esforço-me todos os dias em limpar meu coração. Sei que é desonesto dar meu corpo deste jeito para homens desconhecidos e ridículos, pois a luxúria é um pecado grave. No entanto--e aqui, ela parecia divagar mais para si mesma, esquecendo-se de que dirigia a palavra a uma criança de sete anos--não sinto nada disso, nem prazer, nem nada. E sabe por que?
--Por que?--eu perguntei, curiosa.
--Porque Deus está comigo, e só Ele importa.
--Não deveria estar em um convento?--eu indaguei, sem me conter--Afinal, me parece que ama Deus acima de todas as coisas como qualquer criatura deveria, mas de uma maneira parecida com uma freira. Eu quero ser uma, inclusive!
Ela riu, não de mim, mas como falei aquelas palavras. Um espírito se reconhecia no outro. Crespine, contudo, disse:
--Você é sábia para além da sua idade, pequena. Gosto de você por isso, mas nem todas nós podemos ter o bom fortuno de ser acolhidas pelos conventos. E não reclamo da vida que tenho, creio que não teria outro destino.
--Por que?
--Você gosta de perguntar--ela riu novamente--Oh não, por favor, não se acanhe. Eu gosto de falar disso, sabe? É uma camponesa cheia de sonhos, eu vejo isso. E eles vão se concretizar, tenho certeza, pois Deus fala com você.
--Como sabe?--eu exclamei, escandalizada.
--Porque Ele fala comigo também, mesmo sendo prostituta--ela me confidenciou aos sussurros--Mas não pode contar para ninguém.
--Por quê?
Mas Crespine se limitou a sorrir. Permita-me ilustrá-los, leitores, com o verdadeiro significado das palavras desta moça bela e de bom coração: ela era, tal como esta por cujas mãos escrevo esta memória minha, médium, embora esta designação fosse "criada" apenas no século XIX pelo Kardec. No entanto, para a Igreja Católica, muito controversa como bem sabemos, mulheres que recebiam comunicações do céu eram, ao contrário, vítimas do que chamavam de "diabo", "anti-Cristo", entre tantos nomes chulos que não me compete repetir. Com isso, precisavam ser "limpas" do pecado de Eva. Ou seja: eram vistas e tratadas como feiticeiras. Crespire era esperta o suficiente para saber que não seria bem recebida pelos padres da região ou quem quer que fosse se acaso soltasse essa sua confissão a mim para tais pessoas. Embora a religião cristã sempre pregasse a proximidade do crente ao Cristo, Nosso Senhor, o fazia com ressalvas (como a leitura da Bíblia ser limitada ao clero e, mesmo assim, a pouquíssimos membros deste; a interpretação das sagradas escrituras caber apenas às autoridades da Igreja, que, com toda a certeza, as manipulavam para exercer domínio mental e espiritual dos pobres ignorantes, entre outras coisas) para beneficiar não àqueles que, segundo suas palavras, a Igreja deveria proteger, mas a si próprios e seus egos encardidos pelo apego podre à matéria.
Para evitar ser queimada à fogueira, Crespine, que a tudo sempre observou e refletiu consigo mesma, manteve segredo. E eu, como que pela conexão que se estabeleceu entre nós, assenti, compreendendo de imediato o que se passava. Curioso como a mediunidade se manifestava nas pessoas de classes e posições sociais diferentes. Na verdade, Crespine não precisava mais encarnar, mas ela veio para acompanhar a missão de alguém que amava (não me compete abordar mais do que o necessário), por isso a sorte de tê-la, ainda que brevemente, em minha vida.
--É hora de voltarmos--ela decidiu--Vocês não devem ficar mais aqui por muito tempo, pois sua hora chega. Posso pedir um favor, pequena Agnés?
--Pode--eu falei, soando mais triste do que pretendia.
--Reze por mim, e pela minha alma. Um dia nos reencontraremos--disse Crespine, tranquilamente.
Abraçamo-nos forte e, assim, de mãos dadas voltamos à taverna em silêncio.

*                                                                              *                                                              *
Foi no verão que havíamos chegado à vila próxima de Paris, onde o convento que recebia o apoio financeiro de Louis o Piedoso se localizava. Suas ruínas foram destruídas em consequência das Guerras Religiosas que assolariam a França no século XVI, mas ainda é tempo de recordar sua construção, erguida em pedras de uma maneira simples que, por outro lado, também sabia impressionar quem quer que passasse por ali. Inspirava respeito e, apesar de bem cuidado, demonstrava sua imponência material. Contudo, não pressenti nada ruim, ao contrário, uma energia boa. Era ali que deveria estar.
--Que lindo este lugar!--exclamou Geraldine, emocionada.
--Vamos logo com isso, mulher--resmungou Clodovech.
Na verdade, o velho veio mais quieto do que o usual desde que deixamos a taverna para trás. Ele havia se acostumado com aquele ambiente, ajudando no que podia com o trabalho manual e mesmo produzindo cervejas para a clientela, com quem se enturmava fazendo os vários homens e mulheres rirem de suas histórias (que, mesmo o mais hipócrita dos cristãos, eram consideradas falsas). Era um pai para as moças locais, e tratava-as como filhas juntamente à Geraldine. Não somente isso, como nós três nos afeiçoamos bastante. Não obstante, Clodovech falava em alto e bom som que ali seria um ótimo lugar para constituir família.
Sim, ele me adotou como sua filha e eu o adotei como pai. Os laços espirituais nossos eram muito fortes, e mesmo hoje ainda me recordo deste tempo com carinho. De vez em quando ainda o visito, mas não posso me prolongar sobre isso. Pois bem, mesmo de tenra idade, pressentia a partida e eu também me entristeci. Clodovech me deu amor, compaixão, mas, acima de tudo, ensinou-me com suas atitudes o que era ser verdadeiramente cristão. Suas faltas sequer faziam diferença, e por quê mencioná-las? Digo o mesmo de Geraldine que, desde o dia em que minha mãe desencarnou por conta das complicações do parto, me tomou como a menina que nunca teve para chamar de sua. Ralhava como mãe e amou-me como uma. Eis sim, a família da qual fazia parte. E não precisou de sangue para isso.
Contudo, o desejo do meu progenitor de colocá-la na Igreja era algo que deveria ser cumprido e aquela gente tinha honra em seus corações.
--Tem certeza de que quer isso?--Geraldine foi ousada em verbalizar a pergunta que cruzava nossos pensamentos e manchava nossas almas com aquela partida. Temíamos falar disso, mas não havia outra escolha.
--Sinto que Deus me chama a cumprir meu dever aqui--falei, resignadamente. E, então, pela primeira vez em muito tempo, chorei. Porque não os veria de novo em vida, porque lamentava que seria assim, por mais que respeitasse a vontade do Criador. Despedidas terrenas, eu reconheço, nunca são fáceis, quaisquer que sejam as épocas em que tais acontecem.
Aqui, faço uma observação importante: sentimentos devem ser cultivados, por mais iluminado que um determinado espírito possa vir a ser. Aceitá-los faz parte da árdua tarefa de evoluir, mas há uma ideia errada sobre aqueles que, como eu, alcançaram certo patamar na vida espiritual. Pensam que nós somos frios, distantes e mais racionais. Será mesmo? Quando digo cultivar os sentimentos, não falo para negar os ruins, mas também ressaltar os bons! Pergunto a vocês: vieram mesmo para sofrer, para torturar a si mesmos por pecados de outras vidas? Sequer se recordam do que fizeram, por mais que preservam em seus íntimos a intuição do que puderam ter feito. E o que importa? Importa mais o orgulho, a inveja, a raiva do que o amor, a felicidade e mesmo a tristeza. Por que é ruim sentir? Vejam, sei que muitos vão se surpreender ao ler que eu chorei. A frieza, meus caros, é resultado do materialismo. Crer que nós não sentimos absolutamente nada é mesmo reforçar a falsa concepção de que Deus quer ver seus filhos imersos eternamente na infelicidade absoluta.
Kardec mesmo já criticou isso, e Chico Xavier avançou bastante nesta percepção. Recomendo que os leem e reflitam sobre isso. Daqui, do mundo espiritual, torcemos por nossos protegidos e amigos que "deixamos" (não aprovo esta palavra, mas ela faz-se necessário para a mensagem que desejo transmitir) na Terra. Ficamos felizes por suas conquistas e tristes com as dificuldades, aconselhamos no que podemos e respeitamos seu livre-arbítrio. Jamais os abandonamos. Sentimos saudade, é claro, pois as memórias que compartilhamos são caras. Raiva, contudo, angústia e toda outra sorte de sentimentos inferiores... não, não sentimos. Compreendemos quem ainda as sente, e por isso falamos para abraçá-los e tratá-los, não negá-los pelo orgulho que os mascara. O ponto é que se somos rígidos, uma situação aqui e alá pede, é porque enxergamos além do que vocês, no plano terreno, veem. Se nos distanciamos, é porque Deus assim demanda para que aprendam o que não aprenderam por, muitas das vezes, teimosia. O completo abandono jamais existe, ainda que ocasiões como os de obsessão, por exemplo, possa vir a acontecer. O que eu digo é que felicidade e tristeza são possíveis porque um equilibra o outro. A compreensão do futuro, do presente, da consciência que, aos poucos, vocês da Terra vão adquirindo não os isenta de abolir os sentimentos. Quer ser feliz? Seja! Deseja chorar pela partida breve de um familiar, por mais ciente que esteja do reencontro próximo? Chore! Prantear não é pecado, tampouco errado. Contudo, os séculos de história da humanidade mostram como sempre insistiram que sentir é ruim. O que é ruim é se colocar no poço e destratar a criação de Deus, que é você, humano encarnado (e mesmo os desencarnados perdidos, pobres seres). Tudo há uma solução e, portanto, ressalto: sentimentos são bons! Ser sentimental é ótimo! Mas que se busque um equilíbrio, afinal, tudo concorre para a saúde, não é mesmo?

Pois bem, prossigo com a memória. Resumo que a despedida entre nós, pelas memórias compartilhadas, causou-nos dor provisória, pois a vida confirmaria, mais tarde, que não os veria outra vez: Geraldine não suportou a separação e faleceu não muito tempo depois. Seu marido, o bom Clodovech, a seguiu ao túmulo.
Quanto a mim, admito que foi difícil me adaptar à rigidez extrema naquele convento. A madre superiora, como que por "instinto" (para não dizer intuição, mesmo mediunidade), aceitou-me prontamente assim que a freira a procurou para comunicar sobre uma pobre camponesa que veio de tão longe para lá. Minha vida, na verdade, minha missão naqueles dias teve enfim início.

*                                                                             *                                                                     *   
Tornei-me freira, de fato, somente aos dezessete anos. Dos sete aos dez anos, fui educada para esta vida religiosa, sendo bem recebida por todas as mulheres daquela casa espiritual. Apesar da minha firmeza em prosseguir com os votos, sempre houve a possibilidade de não necessariamente seguir aquela vida. Contudo, um arrependimento surgiria disso. Não chamo de imprudência porque tudo concorre para determinados eventos de nossa encarnação antes de virmos à Terra. De fato, jovem e ingênua, guiada pela minha família do plano espiritual, fui orientada para aquele caminho. Poderia ter negado, ou mesmo me rebelado, afinal o livre arbítrio faz-se aqui presente. No entanto, persisti naquele rumo que mudaria toda a minha vida.
O ano era 834 e aquelas terras sob domínio de Louis, O 'Piedoso' (creio que agora seja seguro dizer que ele foi tudo, menos piedoso, ao lidar com seus conterrâneos) haviam sangrado por muitas décadas. Guerras civis cruzaram o país do leste ao oeste, e eis por que a reputação do filho de Carlos Magno não resistiu ao tempo (o que marcaria seu espírito, como consequência de suas imprudências, de fato). Para que não houvesse oposições políticas quanto ao seu governo, o rei Louis, ou imperador se assim for do interesse do leitor denominá-lo desta forma, não teve quaisquer prudências ao optar por se apropriar da violência para lidar com seus irmãos de sangue e os filhos destes. Afinal, em se tratando de política, Louis não tinha escrúpulos: se havia pretendentes, que morressem, pois não corresponderiam perigo para ele nem tampouco inspiraria os descontentes consigo. Nesse sentido, foi bastante ignorante, para não me apropriar de outra palavra. Sangue manchou suas mãos e marcaria seu reinado instável.
Nós do convento fomos alertadas, se não levemente ameaçadas, pela madre superiora de manter-nos neutras quanto ao que o nosso soberano dizia ou fazia. Compreendia que, ao financiar-nos, Louis também pagava pelo nosso silêncio. Em meu íntimo, porém, discordava daquilo. Comecei a perceber o materialismo que rondava nossa casa e, consequentemente, de como não estávamos alheias aos pecados do mundo. Por dezessete anos, pensava que estava segura dos perigos que tanto pintavam para nós. Como o diabo tentava os homens e as mulheres, fazendo destas seus instrumentos perdidos. Para que fôssemos salvas da perdição de Eva, era necessário que nos inspirássemos em Maria. E ainda assim, escolhiam como falar da mãe do Grande Mestre: ignoravam sua vida terrena, afirmavam baboseiras como "engravidada por Deus" e pareciam mesmo se esquecer de que ela foi mulher como nós. Contudo, mesmo sua santidade não havia conquistado a todas que viviam naquela casa sagrada, pois, não obstante, éramos conduzidas pelas vidas dos santos. O culto mariano só seria revivido e reafirmado ante às grandes massas e mesmo em meio ao ambiente clerical e aristocrático no século XI. Seria ali que as mentes humanas se abririam para a atuação de Maria, a Escolhida de Deus.
Pois bem, como dizia, quanto mais observava os mínimos detalhes das ações dos outros, mais eu me incomodava e tornava questionadora. Contudo, sempre optei pelo silêncio, embora não houvesse feito este voto. Procurava rezar mais do que o recomendado, afinal, com o passar do tempo, ouvia e via coisas que me horrorizavam. A corrupção moral, eu percebi com tristeza, era inerente à humanidade, mesmo para aqueles que se esforçavam em mirar e copiar o comportamento de Cristo. Contudo, também eu percebi que ainda insistia em domar-me o velho orgulho, companheiro de outras vidas. Mais ainda insisti nas preces, ajoelhando-me no chão gelado e usando roupas simples, recusando tecidos mais sofisticados. Na verdade, fui ao ponto de cortar nos ombros os cabelos dourados que um dia foram motivo de orgulho para querida Geraldine. Uma irmã, que me acompanhava silenciosamente, não conseguiu esconder seu horror quando me viu cometer tal ato:
--Céus, irmã Justine!--era como passaram a me chamar depois que optei por seguir freira, abandonando para trás o nome Agnés--Por que faz isso com você?
--Sou devota ao único noivo com quem pretendo me casar--expliquei, calmamente--Jesus Cristo, Nosso Senhor. A ele, esperarei pelo resto das minhas vidas e sei que o cabelo é o motivo pelo qual o orgulho ainda banha suas impurezas em mim, distanciando-me Dele.
Adalsinda, nome adotado por Adèle quando chegou à Paris alguns anos depois de mim, encarou-me envergonhada. Sua devoção, ela assim achou, não era nada comparado à minha.
--Perdoe-me, Justine. Deveria ser como você.
Bondosamente, sorri a ela e tomei sua mão nas minhas. Levei-a para o nosso quarto onde, vazio de outras irmãs, sentei-a na cama e disse, enfim:
--Não perca sua individualidade, querida Adalsinda. Não se esqueça de quem foi antes de tomar este véu, pois Jesus tudo viu e tudo verá. O que importa está em seu coração. Do que adianta dedicar-se a Deus se permanece em si velhos hábitos? É muito fácil julgarmos os que vivem fora desta casa, mas será que temos este direito?
Ela rapidamente captou o que eu queria dizer com aquilo. Como freiras próximas à madre superiora praticavam costumes inadequados e impróprios para mulheres que pretendiam relegar ao passado o que faziam em vida secular. Muitas dela, contra as regras do convento, mantinham ligações com o mundano e tinham mesmo relações com os padres que visitavam e homens dos reis. Quantas foram as vezes em que fi-me de surda e cega para os abortos? Ou para as tristezas que atormentavam aquelas almas que certamente não haviam sido destinadas para uma vida que elas não escolheram? Queriam ter filhos e, no entanto, foram forçadas a abandoná-los. Para deslegitimar seu sofrimento, pregavam um discurso que condenava este comportamento. Como resultado, aquelas que viveram por tanto tempo naquele convento eram as mais amarguradas. Todas possuíam um passado, e eu não seria exceção.
Na verdade, comecei logo a perceber como meu orgulho fazia-me julgar aquelas pobres criaturas. Isso me envergonhava, mas a juventude não faz de nós tolos? Quem foi jovem e não errou que atire a primeira pedra! Por isso a necessidade da encarnação! Mas era preciso que eu sentisse na pele o que eu julgava para que meu orgulho fosse, de uma vez por todas, quebrado e enterrado. De volta à conversa com Adalsinda, porém, falei, de coração:
--Tenho percebido que venho fazendo isso com mais frequência do que gostaria de admitir. Somos todas pecadoras, mas a prece nos elevará! Sem Deus, nada somos. Mas é preciso que O amemos genuinamente e procuremos seu perdão de coração aberto. Não creio que Ele nos punirá como tantas falam, mas, ao contrário, como bom pai, nos ensinará a seguir o caminho correto se desejamos segui-lo.
--Você é uma santa, Justine--murmurou Adalsinda, admirando-me com seus grandes olhos negros.
--Não--eu repelei tal título veementemente--Não pense isso de mim, Adalsinda! Por favor! Não mereço este título como tampouco almejo. Venha, a prece é o que precisamos agora para nos corrigirmos de nossas faltas.
Por mais exemplares que fôssemos em conjunto com algumas das freiras de nossa idade, algumas das mais velhas olhavam-nos com inveja e não gostavam, sabe-se lá por quê, que rezássemos com muita frequência. Por isso, delegavam-nos tarefas que, aos olhos delas, eram "humilhantes" e "degradantes" como lavar os lavatórios, limpar os chãos, esfregar as camas, trocar os lençóis, jogar as fezes ao rio próximo e ensaboar o chão de urina (pretendo poupar os leitores os detalhes da falta de higiene que era tão característico da época, mas do pouco de que falei já é possível imaginar a situação). A resposta era o silêncio, a que eu, desde cedo, me acostumei. Contudo, isso apenas irritava aquelas mulheres. No entanto, nem mesmo a madre superiora era cega para os maus tratos que sofríamos e um dia chamou a atenção daquelas velhas de baixo espírito (os mais atentos enxergarão numa dessas a reencarnação do ex-escravo que, na existência anterior, me importunava da mesma maneira) e em seguida, chamou-me e minha colega, a quem me afeiçoei e chamei-a de irmã, para uma conversa.
--Vocês estão muito reclusas--ela pontuou, preocupada--Não interagem com as noviças, sobre quem são responsáveis. Não posso admitir isso.
Uma parte minha pensou em dar uma resposta, mas meu espírito foi mais forte que a carne e eu, prontamente, mantive-me calada. Mas Adalsinda não foi tão sábia ao dizer:
--E, no entanto, por que não diz o mesmo das outras? Há, e não vou citar os nomes já que a senhora reconhecerá, irmãs que se ocupam em fofocar e esquecem tão deliberadamente do ensino de Cristo que elas também são negligentes com o ensino espiritual das noviças. Se somos responsáveis, o que eu, decerto, não ignoro, todas as outras também o são. Não é justo que apenas nós soframos a punição.
A coragem de Adalsinda foi surpreendente, deve-se dito. Aquilo me ensinou que o silêncio nem sempre era necessário, lembrando-me da coragem de outrora, causando-me o que chamam os jovens de hoje em dia de "déjavu": em retrospecto, era como se minha alma recordasse da ousadia que um dia marcou minha alma, ainda jovem e inexperiente, neste mundo. No entanto, um pouco mais consciente naquela existência, concluí que ser corajosa era mais do que abaixar a cabeça e permitir que me tratassem como quisessem. Não era o mesmo que ser ousada, pois isso não almejava sê-lo; mas brava o suficiente para me defender e aquilo que acreditava. Era isso que aquela irmã pretendia quando não se calou e, sendo assim, não era surpresa a perplexidade com a qual deixou a madre superiora. Decerto esta esperava que aquiescêssemos como costumeiramente o fazíamos.
Desconcertada, ela ponderou, pois, apesar de tudo, aquela sabia pensar e ser condizente no que podia na posição que ocupava. Se levássemos os boatos à sério, lidávamos com a irmã ilegítima do rei Louis, a filha bastarda do temeroso Carlos Magno, mas não me cabe discorrer sobre isso neste conto.
--Vejo que há razão em suas palavras--a madre reconheceu após longo suspiro--Verei o que posso fazer. Aproveitam o restante da tarde livre para desfrutar dos jardins e amanhã remanejarei os deveres, hm?
--Obrigada, senhora...--ia dizendo Adalsinda por nós duas quando a porta abriu-se escancaradamente, trazendo às nossas vidas o evento que nos mudaria para sempre.
Como falei antes, estávamos em guerra: irmãos contra irmãos digladiavam-se porque acreditavam cumprir com o dever de súditos de um rei mesquinho que sequer sabia como governá-los. A paz parecia distante e sua descrença, principalmente depois de dois conflitos violentos cujos resultados infelizes levavam agora ao terceiro, semeava ódio, descontentamento e, acima de tudo, muitas e muitas mortes.
Inevitavelmente, aquele cenário chegou à nós e não havia nada que pudéssemos fazer: lutar contra os desígnios de Deus estava fora de questão. Cada vez mais homens feridos buscavam nossa ajuda e a madre, apesar de seu voto de neutralidade ao irmão, não recusou o chamado divino em ser a servidora de Cristo que clamava tornar-se desde o dia que seu pai a colocou naquela posição. A despeito de breve relutância, prontamente mudou de ideia ao ver o número de pobres coitados que, sem qualquer distinção de posição, compartilhavam dor e aguardavam nada se não o conforto das noivas do Filho de Deus. Se tivessem que morrer, que partissem daquele mundo com dignidade. Como a madre recusaria isso?
--Quero a ajuda das melhores entre nós--ouvi-a determinar à outra mulher que costumava estar sempre ao seu lado em assuntos urgentes. A madre logo se virou para nós e, no mesmo tom, urgiu:--E vocês, irmãs, me acompanhem.
Nervosa, mas igualmente ansiosa em querer provar meu valor a Deus, assenti prontamente e não esperei resposta. Segui a madre e Adalsinda para nos juntarmos às outras freiras que o braço direito da madre havia reunido. Foi uma bagunça, de fato, pois teríamos que impôr reclusão às noviças, especialmente aquelas cujo comportamento mundano era bastante conhecido, como também impedir que houvesse qualquer ligação da parte dos homens. Era preciso frieza e inteligência, uma luta, como diriam aquelas pessoas, contra a natureza infortúnia de nosso sexo. Por isso, as mais adequadas para aquela missão receberam sem qualquer emoção os feridos. A madre inspecionava os feridos e, inconscientemente, designava cada uma de nós aos que requisitavam nossa atenção. Foi quando o reconheci.
O mais belo dos homens achava-se deitado num leito improvisado com a blusa aberta, fedida, manchada pelo sangue e rasgada. Em seu peito, uma ferida profunda infligia-lhe dor, pois havia sofrido um corte profundo do que supus, como se por pressentimento, ter vindo de uma espada. A visão não era bonita, mas meus olhos não se incomodavam com aquela visão, mas a do rosto daquele camponês. Seus cabelos marrons e sujos estavam emaranhados e cobertos de terra, e em seu semblante, havia tristeza e angústia. Como também podia-se ver resignação. Naqueles olhos castanhos, para a mais atenta das criaturas, estava um apelo mudo ao Senhor para que seu espírito encontrasse alguma paz--se acaso assim merecesse--fora daquele corpo. A verdade é que ele passou por tantas provações que ali, a desencarnação teria sido a solução mais apropriada, de fato. Ninguém é merecedor da dor, mas ela era, e ainda continua sendo, um expurgo para os pecados. E Nigel precisava melhorar como eu. Reencontrávamos como em todas as outras encarnações éramos destinados a nos reunir e sempre nesta posição de amantes.
Quando aqueles olhos me fitaram, a palidez pareceu sumir de seu rosto como a infelicidade dissipou-se de seu olhar, substituía pela esperança. Um sorriso marcou seu lábio cortado e ensanguentado, expondo alguns dentes quebrados. Mas sua voz, por mais rouca que fosse, era possível de ouvir:
--Ajude-me.
Não recusei o sorriso que me oferecia e prontamente me recordei do meu dever. Esqueci do tempo enquanto me dedicava a limpá-lo, esforçando-me em costurar suas feridas e poupá-lo de uma morte, pois tão de repente aquela recatada freira, cujo contato com o mundo exterior havia sido tão limitado, desejava asperamente reviver aquele estranho e conhecê-lo melhor. A impulsividade, por mais domada que pudesse estar, insistia em reaparecer.
Foi árduo, mas as habilidades conservadas de outras encarnações e aprimoradas naquela, permitiram que Nigel, como viria a saber seu nome, vivesse. Era noite quando trouxe-lhe ensopado de galinha junto a um copo de ale. Observei-o comer faminto e beber como um desesperado. Pus-me a pensar sobre o que havia acontecido com ele para que seu corpo reagisse daquela maneira ao comer e beber, mas esperei.
--Obrigado--ele agradeceu, esboçando outro sorriso--Que Deus a abençoe, senhora.
Abaixei a cabeça para que não visse em mim um rubor inapropriado subir minhas faces. Mas Nigel confundiu aquele gesto com o de um agradecimento.
--Que dia é hoje?--quis saber ele, ansioso por uma conversa.
Sem levantar o olhar, respondi-o educadamente:
--Dia de São Valentim--repliquei, lutando contra o instinto de estimular a tagarelice que não pensava existir em mim.
--Abençoado o seja--disse Nigel, sem qualquer sinal de reconhecimento--Conhece todos os santos, senhora...?
--Irmã Justine--respondi, seca, evitando seu olhar, mas sentindo com um nó no estômago o desapontamento com o qual Nigel me dirigia.
--Irmã Justine--ele repetiu, reflexivo--É muito quieta, dona... digo, irmã. Não a ensinaram a ser hospitaleira com os estranhos que recebem?
Suspirei e, reconhecendo que tinha razão, mirei meu olhar no dele. Vi o arrepio percorrer seu torço nu, onde estava enfaixado, e constatei com mais certeza a conexão que nos rondava. Nigel sorriu, porque ele sentia o mesmo que eu. Almas tão afins, meus caros, não necessitam de linguagem para expressar o óbvio muitas das vezes.
--Perdoe-me, é o primeiro homem com quem tenho contato desde tenra idade--falei, procurando justificar minha rudeza--Não pensamos que um dia a guera os traria aqui.
Nigel suspirou. Era tarde, e muitos de seus companheiros já repousavam; a lareira estava acesa e as irmãs mais sérias não cessavam sua vigília. Nesse sentido, não prestavam atenção em nós, e não teriam motivo para fazê-lo. Incansável, porém, ele continuou a conversa.
--É complicado. Não era o que pretendíamos também, mas que solução tínhamos?
Em silêncio pela primeira vez, Nigel se calou, talvez desistindo de conversar comigo. Seu semblante expunha o que ele se esforçava em esconder: os traumas vistos e vividos em campo de batalha, a frustração por  lutar por algo que ele não acreditava mais. A dor, tanto física quanto psicológica, estava lá e ela me comoveu a sair do meu lugar comum.
--Está tão ruim assim?--perguntei, aos sussurros.
Nigel virou seu olhar para mim e deu uma risadinha. A barba mal feita não escondia os ferimentos, e as cicatrizes nas bochechas dali saíam para deixar uma marca eterna no rosto. Constatei, com horror, que ele havia lutado sem proteção adequada.
--Chamam o rei de piedoso porque ele luta contra o que diz ser pagãos--ele me respondeu, dando de ombros--O que é ser pagão, dona? Eu não sei. O que eu sei é que Deus não permitiria esta carnificina! Nosso monsenhor (do francês antigo: mon sieur, que, posteriormente, viria a ser monsieur e que na língua dos leitores equivaleria a "meu senhor") nos governa como pensa tê-lo feito seu pai. Um tão cruel quanto o outro, impulsionando pobres como eu e meus caros a uma luta em que apenas nós morremos.
"Crucificam-nos como os romanos crucificaram Jesus, irmã. Perdoe-me o linguajar, mas é a verdade que eu conheço. Cresci em meio a este tumulto, onde o ódio substitui a linguagem do amor do deus Uno que juram defender. Eu me pergunto: quão diferentes são estes homens dos imperadores antigos que cultivavam Ares, Marte, seja lá que divindade tinha o nome, mas cuja principal característica era levar seus súditos em lutas ensanguentadas? Perdoe-me, estou falando heresia, mas estou condenado!"
Para minha surpresa, aquele homem chorou. Fitei-o horrorizado enquanto Nigel pranteava, e por mais que me compadecesse de suas dores, suas aflições, seus traumas, o que poderia fazer? O instinto me compelia a abraçá-lo, mas não poderia fazê-lo. Com isso, tolamente ofereci outro copo de ale, mas desta vez, mais apropriadamente inspirada por meus guias, falei:
--É um homem bom, o senhor. Deus não repudia aqueles que, em ignorância, travam batalhas contra sua vontade. Que outra escolha poderia tomar? O mundo é perigoso, e não por isso estou aqui. Ainda assim, será mesmo que estou segura? Eu não sei. Veja, pensávamos, as irmãs e eu, que não viveríamos o que vocês viveram. Em um mundo como esse, não há lugar para nós, noivas de Cristo. Contudo, será mesmo assim? Vamos rezar juntos, senhor. Pela sua alma e pela minha.
--Sua voz é doce, irmã--ele disse, sem qualquer malícia, ao me encarar com olhos encharcados de lágrimas--Seu conforto é muito bem-vindo. Mas poderia Deus me perdoar? Eu tive escolhas, sabe, e ainda assim tirei a vida de meus irmãos. Vi a morte tirar de seu corpo a alma. E ainda ouço suas vozes à noite.
Ignorando um arrepio que me percorria, pois, de repente, me recordei das premonições da prostituta que marcou minha infância, decidi escutá-lo verdadeiramente:
--O que elas dizem?--eu falei, esperando que não fossem demônios os que sussurravam contra a mente do pobre rapaz, mas em meu íntimo, conservava contrária intuição.
Envergonhado, Nigel hesitou como Crespine havia hesitado, mas ele prontamente foi ousado ao dizer:
--Que deveria me perdoar. Eles cumpriram seu destino, me disseram; e estavam felizes por isso, porque estas guerras não perturbariam suas consciências.--e aqui ele chorou copiosamente--Dizem que não podem descansar até me perdoar. Que Deus assim determina. Mas como posso ser perdoado depois de tudo que fiz?
Sua aflição, resultado de tamanho trauma, aqui expõe duas questões de cunho carnal e espiritual. Para os leitores modernos, logo compreenderão do que trato: do transtorno do estresse pós-traumático, ocasionado por uma situação emergente que abala as estruturas psicológicas daquele que sofre patologicamente, podendo até mesmo reverter sua personalidade. A outra, espiritual, reflete o expurgo pelo qual Nigel estava passando pela sua escolha feita antes de encarnar a fim de que pudesse alcançar um patamar ainda mais elevado, pois, tendo podido cessar seu ciclo de reencarnação, recusou-o até que comigo acontecesse o mesmo. Estávamos, portanto, ligados tamanho era o amor que sentíamos (e ainda sentimos!) um pelo outro.
Contudo, naquele século em que estávamos vivendo, os conhecimentos medicinais não eram tão desenvolvidos. Por isso, a escassez de possibilidades com que poderia tratar aqueles sintomas. Nigel possuía o costume de sacrificar-se pelo outro, mas precisava, ainda, aprender a amar a si próprio. A respeitar-se, e a ser menos impulsivo, como eu. Era, enfim, necessário um equilíbrio e precisávamos nos esforçar para alcançá-lo quando a Terra ainda era permeada por um forte apego às necessidades materiais.
--Rezarei por sua alma--eu falei, depois de longo silêncio, onde deixei que pranteasse suas perdas, quaisquer que fossem elas--Deus fala, e o senhor deveria ouvi-Lo. Suas feridas, penso eu, não estão apenas no seu corpo. Descanse, meu caro, pois me parece que precisa de uma longa recuperação.
Assim, sem esperar qualquer resposta, deixei-o ali. Não queria revê-lo porque temi o descontrole que ele provocou em mim: a necessidade de amá-lo, de ampará-lo, de afastar dele os demônios que o cercava. Com discrição, pude disfarçar o que passava em minha mente angustiada, pois detinha alguma racionalidade sobre aqueles sentimentos "novos" e "energéticos" que a presença masculina na casa predominantemente feminina impunha.
Naquela noite, rezei por ele, mas também sonhei com ele. Para minha surpresa, foi um sonho bom. Éramos nós e não havia nada que nos atrapalhasse. Recordo bem: passeávamos pelo jardim e Nigel ria, sarado de suas feridas; estava com os cabelos limpos, e não havia cicatrizes que maculassem seu rosto. Encarava-me com nada se não amor, e oferecia-me a mão para tomar. Tão convidativo que fê-me sorrir. No momento que a tomei, porém, já éramos outras pessoas: africanos, orientais, europeus... Tudo numa rápida mistura, e em todas aquelas visões eu o beijava apaixonadamente. Meu coração batia com ardor e era como se nossa áurea expandisse em uma única luz, atingindo várias cores diferentes. Olhei-o, de volta enquanto Agnés/Justine e ele Nigel, e disse:
--Amo-o.
Tocando em minha face, ouvi-o dizer claramente:
--Amo-a também, minha querida. Como é bom revê-la...
Mas aquele sonho, que, na verdade, era a resposta aos anseios que nossos espíritos aguardavam, dissipou-se tão logo despertei. E eu acordei com lágrimas nos olhos porque conservava apenas duas intuições: que o objeto de minhas afeições repousava em Nigel, mas que jamais poderia tê-lo para mim.
Pensei em evitá-lo no dia seguinte, mas a madre superiora requisitou que o ajudasse outra vez: sem qualquer suspeita, disse-me que Nigel recusava a ajuda de outras freiras, exigindo pela minha presença, em vez disso.
--Estou orgulhosa de seus esforços, irmã Justine.
Apenas assenti e prometi que faria o que estivesse em meu poder para ajudá-lo. Com isso, estava novamente ao redor dele. Deitado em seu leito com uma serenidade em sua face como se havia muito estivesse resignado com seu destino, Nigel encarava o teto com um quê de impaciência.
--Bom dia, senhor--murmurei, ao me aproximar em silêncio. Quando seus olhos encontraram os meus, um brilho iluminou todo o seu ser e fê-me sorrir como de reflexo. Sua presença trazia-me paz e eu agradeci a Deus em meu íntimo por isso.--Dormiu bem?
--O melhor em tantas noites mal dormidas, irmã--disse-me ele, alegre--Bom dia, de fato! Tive um sonho muito curioso que me permitiu repousar como nunca antes, mas, engraçado, não consigo me recordar de como foi!
Aquilo me causou uma certa angústia em meu peito, talvez porque ainda conservasse alguma lembrança deste sonho sobre o qual falou. Contudo, repeli meus pensamentos tolos de que ele tivesse sonhado comigo. Repreendi-me severamente por isto, afinal, quantas não foram as vezes em que julguei minhas companheiras de casa por atos semelhantes? Ruborizei quanto à vergonha que, estampada tão evidentemente em meu rosto, capturou a curiosidade daquele homem.
--O que houve, irmã Justine? Cora violentamente em minha presença! Fui rude com a senhora? Saiba, pois, que não foi minha intenção causar qualquer constrangimento--ele exclamou--O que posso fazer para aliviar a preocupação que a faz franzir o cenho?
--Oh não!--disse eu, rapidamente--Não, senhor, nada tem a ver com a sua pessoa os pensamentos irritantes que cruzam minha mente enquanto nós conversamos. Não há com quê se culpar, garanto-lhe que digo somente a verdade. Mas admito que minha fraca inaptidão para sociabilidades torna-me uma pessoa desagradável como companhia adequada a um soldado.
Nigel riu, e a verdade em minhas palavras aliviou-o de uma consciência pesada. Pobre homem.
--Muito ao contrário, irmã Justine. A senhora é mais do que adequada a alguém como eu--ele sorriu e eu retribuí tão naturalmente como os pássaros que cantam ao sol quando ele dissipa as nuvens do céu--Apesar de que não me considero um soldado, sequer um homem do rei! Não, não, sou um camponês humilde que luta pelos outros.
Ele soltou um resmungo, mas notei que as aflições da noite anterior já não ocupavam o mesmo espaço que antes, embora certamente ainda estivessem ali.
--E o que há de errado em ser camponês?--eu disse--Também fui camponesa, senhor, antes de seguir esta vida que Deus me concedeu.
De alguma forma, aticei sua curiosidade. Nigel encarou-me com seus olhos fixos como se quisesse me desvendar. Tomou um copo de ale ao fazê-lo e mesmo sabendo que era a causa pela qual outra vez um rubor subisse às minhas faces, não ousamos desviar o olhar um do outro.
--Pergunto a mim mesmo se seria pecado inquirir a respeito da vida que levou antes daqui.
--Normalmente não é costume revivermos o passado mundano, senhor--alertei-o.
--Isso me parece errado--contestou ele, sem satisfazer-se com a resposta que recebeu--Sua família, sua vida, nada mais interessa depois que veio servir a Deus? Creio que Ele não gostaria disso, irmã. Se me recordo, senhora, as palavras do padre sempre reforçaram o amor e respeito pela família.
Sorri diante disso, mas repliquei:
--Como ele deve também ter dito para amar e louvar o Senhor acima de todas as coisas.
Nigel fez uma careta, mas aquiesceu.
--É verdade. No entanto, não consigo conceber isso! Minhas irmãs, sempre fui apegado a elas. Protegi-as até que cada uma se casasse e fiz questão de que seus maridos fossem homens de honra--disse-me ele, recuperando sua energia ao falar de sua família--Nossos pais morreram jovens, por assim dizer, embora eu já tivesse ideia o suficiente de minhas tarefas para fazer o que deveria ser feito. Fui um bom súdito para o rei Carlos Magno, e seus representantes nunca tiveram razão de reclamar da minha pessoa.
"Um de seus bispos, inclusive, era próximo de mim. Na medida do possível, é claro, pois como camponês deveria prestar-me ao meu lugar. E tinha ciência disso, sempre tive. No entanto, depois que morreu... Quando este novo rei ascendeu, intitulando-se imperador e, segundo dizem as más línguas, exercendo todo seu poder para destruir seus próprios irmãos (sendo legítimos ou não, compartilhavam seu sangue), percebi que precisava proteger minhas queridas irmãs. Se fosse possível, as teria enviado para um convento de confiança, senhora, mas não tinha qualquer dote para isso. Portanto, certifiquei-me de que se casariam com homens decentes... e que, preferencialmente, morassem longe do poder de homens avaros."
Aqui ele fez uma pausa, e me lançou um longo olhar significativo.
--Compreende o que quero dizer?
Eis que eu me recordo da fala de meu pai há tantos anos e assenti:
--Sim. O direito da primeira noite que cabe aos senhores, nossos suseranos.
Nigel fez um movimento com a cabeça, concordando.
--Dei um jeito... Não preciso dizer como, mas consegui proteger minhas irmãs disso tudo. E agora só me resta como único da linhagem de nossa família. Precisava desposar uma senhora, quem quer que fosse, mas creio que não viverei muito para dar continuidade aos passos de meu pai.
Novamente, um arrepio, como um choque, percorreu meu corpo. Havia verdade naquelas palavras e aquilo encheu meus pulmões de terror. Com isso, vi-me forçada a protestar:
--Não! O senhor viverá bem e por muito tempo. Arranjará uma esposa que o dará bastantes filhos, e estes crescerão em épocas de paz! Sei que as guerras cessarão e que tudo isso não importará mais.
Nigel sorriu e, sem que percebesse, tomou minha mão na sua e falou:
--A inocência desta vida religiosa a previne de ver o mundo como vi, senhora. Não serei eu a destroçá-la para a realidade como ela é.
Sacudi a cabeça e, com relutância, afastei-me dele. Prontamente, me vi cuidando dele outra vez. Nigel a toda hora me observava, seus olhos rondando o meu rosto como se buscasse por alguma coisa que não soubesse o que era. Sob sua atenção, ruborizava mais de uma vez e aquilo parecia diverti-lo.
--Contei tudo de mim--ele interrompeu o silêncio, e vi que não gostava da quietude, talvez porque esta o fizesse pensar em seus pesadelos--Não me dará a honra de conhecê-la melhor?
--Não há o que se conhecer de uma freira--repreendi-o, embora concedesse um doce sorriso.
--Como se chama? Não Justine, eu sei que não--ele teimou--Meu nome é Nigel, ou foi este o que me deram, de toda forma.
Sem qualquer resistência, e sabendo que não seria interrompida, cedi.
--Agnés foi o nome que minha mãe deu quando nasci. Vivi ao leste de Paris, pelo que recordo. Minha família era muito pobre, e me lembro apenas de dois irmãos que me protegiam do meu pai--falei, sem qualquer remorso--Ele me culpava pela morte de mamãe, já que ela sofreu um parto difícil e partiu deste mundo depois de ter pronunciado o nome que deveria carregar pelo resto da vida.
--Sinto muito--ele murmurou, compadecido.
Sorri.
--Não sinta, senhor. Esta é a vida de tantos nós--e prossegui--Cresci próxima dos meus irmãos, embora lamentavelmente não me recorde de seus nomes, mas de suas aparências. Ainda sonho com eles, se quer saber minha opinião. Bom, o primogênito faleceu antes mesmo de eu completar cinco anos. Meu pai logo quis se livrar de mim, e não receio falar disso porque Nosso Senhor preparou uma vida para mim.
"Demorei dois anos até chegar aqui, realmente, e um casal de idosos chamado Clodovech e Geraldine me criou neste meio tempo. Guardo memórias muito felizes ao lado deles. Rememoro, de vez em quando, as paisagens pelas quais passamos, os momentos divertidos em meio ao caos... Afinal, era apenas uma criança. Geraldine gostava de pentear meus cabelos dourados e insistia que devesse me limpar porque, ela dizia, deste modo eles brilhariam como o sol."
Percebi que me emocionei depois de tanto tempo. Acreditava que se não falasse deles para ninguém, não seria necessário voltar a uma das épocas mais felizes de minha vida. E, no entanto, conforme as lágrimas ameaçavam subir meus olhos, constatei que senti falta deles. E que poderia ter dito não, e ter tido uma vida feliz ao lado deles. Ainda que morresse jovem, o que era comum àquela época, teria partido de volta ao mundo espiritual mais feliz. Foi quando me dei conta de que era eu mesma a responsável pelas dores que carregava. E concluir isso me entristeceu consideravelmente.
Pois, leitor, por maior que seja nossa fé em Deus, há, como disse e continuarei a pregar, o livre arbítrio. Não precisamos nos suceder voluntariamente às infinitas possibilidades de infelicidades para que possamos evoluir e alcançar a graça de Nosso Pai. Tudo o que fazemos, colhemos. Há aprendizados mais difíceis, mas isso não quer dizer que tenhamos de ser infelizes. Como disse uma vez um espírito sábio, nossa felicidade será proporcional àquela que causamos aos outros.
--Vejo que a senhora conserva boas memórias de uma vida que se esforça em esquecer--disse-me Nigel, nato observador que já me conhecia bem--E por que faz isso consigo mesma?
--Achava que era feliz aqui, servindo ao Nosso Senhor--eu confessei, falando a verdade sem mentir para mim mesma.
--Acredita mesmo que Deus, Nosso Pai, se contentaria em vê-la infeliz para servir a Ele?--indagou ele, cheio de verdades sob uma aparência misteriosa.
Antes que pudesse respondê-lo, porém, Adalsinda veio me procurar. Requeria de ajuda minha e, assim, me recompus rapidamente e pronta para o serviço. Energética como era, ou como passaria a ser, aquela irmã veio me contar de notícias que chegavam de Rhine. Como imaginava, não eram boas.
--Irmãos contra irmãos, filhos contra filhos--disse-me ela--E a guerra parece que chegará aqui em breve! O rei logo soube de que há homens hospedados aqui e exige seu retorno.
--O quê?--exclamei, horrorizada, sem conseguir me manter impassível diante do que ouvia. Havia algo em meu semblante que expunha meus pensamentos, porque Adalsinda urgentemente me levou a um canto onde não havia ninguém para dizer:
--Sei que está encantada com aquele rapaz--e, colocando um dedo indicador sobre meus lábios a fim de me impedir que a contestasse, disse--Seja discreta, eu ajudarei nisso, mas não pode impedi-lo de seu destino.
--Irmã...
Ela me abraçou com força, e eu me entreguei às lágrimas. Nigel abriu em mim emoções que pensei ter sido bom reprimir, mas agora, subjugada por elas, notei o quão infeliz era.
--Já passei por isso também--murmurou Adalsinda--Foi por isso que vim pra cá. Envolvi-me com quem não deveria ter me envolvido. Meus pais descobriram e, abominando-me por ter gerado um bastardo, enviaram-me para cá.
--Céus!--guinchei, preocupada--E a criança?
--Deus a poupou de ter tido uma vida miserável entre nós--disse a irmã, com serenidade da voz--Estamos todas juntas para cumprir o mesmo propósito, que é nos reaproximar de Deus. Não se esqueça disso, querida. Ame, não é pecado amar. Afinal...
--Se amar é pecado, somos todos pecadores--murmurei, sem saber de onde vinha esta frase.
Adalsinda me sorriu e liberou de seus abraços. Éramos, eu notei, mais do que companheiras religiosas, mas irmãs de alma, de fato. Uma poderia confiar na outra e em tempos obscuros como aqueles em que vivíamos, isso era muito, muito necessário.
Assim, voltei para cuidar de Nigel. Qual foi a minha surpresa ao ver que ele já não estava ali! Procurei-o na medida em que minha ansiedade não expusesse o verdadeiro motivo pelo qual buscava por ele. Mas uma freira distraída me disse que o camponês estava nos jardins. Contendo um suspiro de alívio, fui até ele.
Sentado em meio aos pomares, acompanhado de roseiras e tantas outras plantas que enfeitavam aquele cenário, estava Nigel. Mais limpo e com as roupas remendadas, ainda assim eram visíveis as cicatrizes que marcavam seu corpo. Vê-lo tranquilo, porém, apertou meu coração. Queria guardar a visão de seu sorriso, de seu olhar, mas minha presença traiu o que pretendia fazer: a observá-lo de longe.
--Irmã Justine--disse Nigel, alegremente--Venha sentar-se ao meu lado, por favor.
Com um sorriso que passava a acompanhar sua aura sempre que dirigia sua palavra a mim, eu obedeci e tomei o lugar ao lado como ele instruiu.
--Hoje, o dia está muito bonito para ficar aqui. A madre superior permitiu que respirasse o ar puro da natureza por uns instantes.
Em silêncio, me atentei para a maneira com a qual falava: um pouco trêmula, esforçando-se a passar uma confiança que, na verdade, não tinha, eu notei com tristeza que já havia recebido as más notícias. Mas procurei, também, demorar-me nas madeixas amarronzadas que caíam sobre seu pescoço, desorganizadas e sujas, porém, produzindo alguns cachos nas pontas; vi a barba que crescia rapidamente, já cobrindo as feridas em torno do maxilar, do pescoço e um pouco das bochechas. O corpo, no entanto, fê-me corar violentamente, pois notei como, a despeito das cicatrizes, aqueles músculos bem trabalhados causou em mim uma curiosidade que nunca havia sentido antes, aumentando mais ainda o desejo em curá-lo.
Desviei prontamente o olhar, mas Nigel sabia, como sempre soube, quando repousava minha atenção nele.
--Devo partir em breve--ele me disse--Não nos veremos outra vez, Agnés.
Surpreendida pela forma com a qual chamou meu nome, eu senti meus olhos se arregalando e disse:
--Senhor...!
--Oh, por favor--ele riu, mas o som que saiu de seus lábios era preenchido por uma melancolia de dar dó--Acha que não sei o que passa contigo, nem comigo? Sou inexperiente em algumas coisas, mas não sou burro. Dois dias podem ser pouco, mas, para mim, foram suficientes. Estou melhorando, mas sabe que, se pudesse, a desposaria aqui e agora mesmo.
Encarei-o com perplexidade e prontamente removi minha mão da dele, embora sentisse em meu coração que falava a verdade.
--O senhor é muito ousado--eu o acusei, mas sem ter me prontificado a deixá-lo para trás.
--Sou?--ele me encarou como se me desafiasse a abandoná-lo.
E quando abri a boca para retrucar, fomos interrompidos porque a madre superiora precisava de mim. Assim, levantei e, sem olhar para trás, voltei à posição que me era requisitada. No decorrer do dia, porém, afastada dele, percebi que cumpria minhas funções no automático. Esforçava-me sempre para ignorar as provocações usuais de outras irmãs frívolas que nunca se cansavam do meu silêncio. Acompanhava Adalsinda aonde quer que ela fosse, mas evitava as refeições, preferindo rezar na capela, de preferência longe das velas.
--Sabia que a encontraria aqui--ouvi uma voz familiar dizer.
Fechei os olhos, temendo mesmo que fôssemos ser pegos. Já previa o pior e por isso temi por mim. Assim, nada respondi. Nigel, entretanto, foi além e, embora não ousasse ficar perto de mim, não se situou tão longe tampouco.
--Vim pedir perdão pelos pecados cometidos. Um deles foi tê-la ofendido.
Virei-me para encará-lo, aflita, e disse:
--Ofendido?
--Sim. Não respeitei seus votos, penso que me admirei rápido demais pela sua pessoa, irmã. Apenas vim dizê-la isso. Que Deus a abençoe por seu nobre coração e perdoe-me pelo meu já tão falho e maculado pela vida.
Sem esperar uma resposta minha, vi-o ir embora. No restante da noite, porém, me vi confusa e presa às tantas batalhas que me submeti por conta de uma escolha. Na realidade, aquele enclausuramento num convento era menos por fé do que pelo medo de lidar com sentimentos provenientes do passado. A rejeição do pai, a perda dos irmãos, minha recusa em viver com uma família... Poderia ter um casamento decente, criaria meus filhos... E foi quando notei esta frustração que vinha de tantas e tantas encarnações: eu nunca tive crianças. Sejam elas de sangue ou não. Neguei meu lado 'materno', a experiência de ser mãe, ou mesmo de pai, por medo ou orgulho. Ou por ambos. Ainda que me esforçasse em cumprir com tudo o que me era exigido, e ajudar ao próximo era o que me dava mais deleite em toda a vida, constatei que minhas próprias felicidades estavam em segundo plano.
Na manhã seguinte, sem saber exatamente o que fazia, fui atrás de Nigel. Decidi que o conheceria melhor, sem esperar por nada em troca, amaria-o distantemente por mais que aquilo me doesse. Não pensaria em família ou matrimônios, apenas na felicidade instantânea que ele inspirava meu ser.
--Bom dia, senhor--eu disse, encontrando-o em seu leito como vinha fazendo nos últimos dias--Está descansado?
Surpreso em me ver, Nigel rapidamente se ajeitou e, ignorando a dor em suas costelas, disse:
--Minha senhora! Achei que...
--Seria muito não cristão da minha parte deixá-lo às suas infelicidades, caro homem--retruquei, sem aguardar resposta dele--Não falemos mais do passado, mas do presente.
Nigel me encarou por um longo momento, como se esperasse que mudasse de ideia. Ele relutou, mas eventualmente cedeu.
--As notícias da guerra que chegam a nós são aterrorizantes. O rei deseja que regressamos tão breve quanto possível.
--Sinto muito--lamentei sinceramente--Tenho rezado para que isso não aconteça mais, mas temo ter me enganado.
--A madre foi bondosa em atrasar nossa partida o tanto quanto possível--ele contou--Muitos dos homens não estão em condições de voltar agora. Estamos mergulhados em silêncio, cercados pela culpa, raiva, ódio... A ignorância nos rodeia tal qual a morte nos espreita. A maioria certamente espera por esta última.
Ouvi-lo desabafar sobre estas circunstâncias cruéis que o rei/imperador impôs aos seus próprios súditos era muito ruim. Terrível. Em termos espirituais, havia tantas explicações para isso. Não se tratava exclusivamente de uma abertura para as trevas atuarem livre e espontaneamente, mas o acolhimento destas e a justificativa de desperdício de sangue em nome do Grande Mestre que pranteava tudo aquilo. Sim, havia a liberdade de escolha... como não havia como fugir da colheita. E em breve, em alguns anos, Louis, o 'Piedoso, colheria o que plantou. Pobre homem. (Nota de Amadeus: Recentemente, ao reencontrá-lo no plano espiritual, antes de seu processo reencarnatório, quando obtive sua permissão de inserir parte de sua história que está intrínseca a minha de várias maneiras, este espírito demonstrou ainda grande vergonha deste passado. Ao menos, o coitado está melhorando como haveria ser, mas ainda há muito a expiar).
--A fé é o único instrumento que nos salva de desejar ansiosamente pela morte do corpo--eu falei, tomando sua mão na minha--Ninguém almejou esta vivência, senhor Nigel, mas de que adianta fugir disto tudo?
--É preciso coragem para enfrentar os demônios que tentam as pessoas--ele respondeu, infeliz--Duvido constantemente da minha. Para alguns, sou covarde por pensar assim. Estes meus companheiros estão contaminados pelo ódio.
--Não posso culpá-los--comentei, reflexiva--Estão todos assim, pelo que sei. Mas não falemos mais disso, senhor. Vamos rezar a Deus, Todo Poderoso, e pedir pela intercessão dos Santos para que esse sentimento ruim abandone a nós todos; que Ele, em sua infinita misericórdia, limpe os maus pensamentos do rei e daqueles que os cercam.
Assim, em única voz e coração, de almas juntas e tão afins, fizemos uma longa prece em latim. Por horas, rezamos e, ao final, algumas freiras próximas de nós copiavam nossos gestos, emocionadas.
--Que Deus a abençoe, senhora--ouvi-o murmurar antes de tomar seu leite de papoula e dormir tranquilamente.
Naquele fim de tarde e início da noite, Adalsinda, como de costume, veio me acompanhar na assistência à Nigel. Aos sussurramos, trocamos confidências:
--Há algumas freiras que suspeitam de que fora abençoada pela graça divina, Justine. Sua prece mais cedo curou alguns dos homens que os acompanharam.
Novamente, neguei a associação a uma possível santidade, descrente das palavras de minha cara amiga.
--Não fale besteiras, Ada. Sabe bem que não gosto disso.
--Humilde como haveria de ser--ela me sorriu--E como ele está?
--Bem, porém assombrado pela guerra.
Adalsinda suspirou.
--Deus que me perdoe, mas entreouvi uma conversa da madre superiora com aquelas velhas que as acompanham--ela ignorou meu franzir de cenho quanto à forma que ela chamava das freiras mais antigas que nos desprezavam--Lothair, o filho mais velho do rei, juntou-se a ele. Há uma reconciliação de pai e filho, mas a situação não parece nada amenizante. Há tensões aqui e lá, lordes discutindo, outros tantos convocando seus vassalos... E cada vez mais, a guerra ruma ao sul.
Fechei os olhos e murmurei uma prece. Ada continuou:
--O rei tem pressionado a madre para que envie seus homens de volta, embora sejam apenas camponeses. Mas ele precisa de todo apoio que puder. Ela sugeriu ao monsenhor de que os deixasse aqui para defender o convento, mas a resposta recebida foi uma evasiva sarcástica: quem haveria de violar o convento sagrado? Ninguém seria tão estúpido assim.
Arregalei os olhos.
--Foi esta a missiva que o soberano enviou a ela?
--Ao que parece sim. Bom, a situação não é boa e seremos deixadas à nós mesmas. Que Deus nos proteja, minha irmã, porque se isso não significa o fim dos tempos, não sei mais o que poderia ser.
Dando-me um beijo na testa, Adalsinda levantou-se e voltou para seus afazares. Naquela noite, sem qualquer apetite, voltei para a capela e rezei ardentemente pela situação que estava a França inserida. Nenhuma perspectiva de paz, e que me importava como se relacionava Louis e Lothair? Aqueles homens não conheciam a desgraça como era de fato, e eu me perguntava como conseguiam dormir à noite. Imaginei se era este o legado de Carlos Magno, e logo pressenti que seu império não duraria muito se aquelas guerras civis prosseguissem interminavelmente.
A semana passou-se devagar e permeada por tensões, ameaças e tristezas. O ambiente no convento era marcado por pesares e silêncios. As noviças atrevidas choravam pelos seus rapazes, mas nem mesmo a madre conseguia controlá-las. A guerra chegou, afinal, a nós e não poderíamos fazer nada se não ajudar aqueles pobres homens que estavam sendo pressionados a regressarem a uma vida terrível, regada a grande desperdício de sangue, sem saber por que lutavam ou mesmo para quem levantavam suas armas. Como eram camponeses, não possuíam qualquer meio de riqueza que pudesse comprar meios de proteção. Mas o convento, apoiado financeiramente pelo rei, possuía algo do tipo. Logo, todas as freiras e noviças receberam ordens de costurar armaduras, roupas novas, o que quer que fosse para ajudar aqueles rapazes.
Sem qualquer suspeita, cumpria meu dever sempre próximo ao leito de Nigel. Às vezes, ele ficava em silêncio, e era quando eu o estimulava a falar.
--Uma vez conheci uma prostituta muito religiosa--contei a ele, em tom leve para que pudesse distraí-lo de si mesmo--Seu nome era Crespine e ela era muito bela. Você gostaria dela.
Nigel riu, e desta vez sua gargalhada sonora mostrava um divertimento mais sincero. Sorri diante disso.
--Pensa que sou homem de prostitutas, senhora?--indagou ele, fingindo ofensa.
--Não, mas é um belo rapaz--falei, sem pensar--Certamente gostaria de ter mulheres belas como ela ao seu lado.
Nigel tomou minha mão na sua e a levou para seus lábios. Aquilo fê-me ruborizar, mas também esquentou meu coração. E, então, disse:
--Já falei que preferia desposá-la. Passariam-se meses, anos e até séculos e eu não me esqueceria da senhora. Se eu soubesse escrever, declamaria um poema para você, Agnés.
--Ninguém se apaixona assim por alguém em uma semana--eu respondi entre risinhos, embora, apesar de falar na defensiva, meu semblante traísse o que eu sentia.
Mas Nigel sorriu e disse:
--Não acredito nestas palavras, mas que seja. Apenas vivemos o momento.
Foram bons dias, na verdade. Aquela semana foi sucedida por outra até virar o mês, ou, segundo os velhos costumes, vir a mudança lunar. Com isso, esquecemo-nos dos eventos externos, de que havia lutas sangrentas desnecessárias assolando vários reinos. E todas as preces que cantávamos ritualmente antes do pôr do sol pareciam ter algum efeito, de fato, sobre os doentes presentes. Nigel mesmo achava-se curado, embora agisse como contrário.
--Precisa mesmo esconder seus cabelos?--uma vez ele me perguntou, observando-me curar um de seus amigos--Estou curioso.
Lancei a ele um olhar de reprimenda.
--Se não faço mais parte do mundo, por que meus cabelos deveriam ser exibidos?
--A senhora possui uma língua afiada para alguém que veste os trajes de uma freira--disse ele, aos risos.
Enrubesci.
--Perdoe-me, mas a sua curiosidade me coloca em situações constrangedoras, às vezes.
--Esqueci de minha posição, irmã, quem lhe deve perdão sou eu--disse Nigel, soando distante.
Suspirei e voltei meu olhar para ele, o único homem que amaria na vida.
--Cortei meus cabelos curtos há tanto tempo para esquecer os dias vividos. Geraldine tinha muito orgulho deles, e eu não queria isso.
A isso, Nigel me observou como se contemplasse as minhas palavras.
--A senhora vive em um mundo onde o orgulho é enaltecido, seja aonde estiver. Ele não pode ser seu escudo para sempre, irmã.
Como detestava aquelas formalidades, pensei enraivecida. Meu coração almejava tantas e tantas coisas, mas a minha razão as domava e subjugava. Compreendi, portanto, por que era orgulhosa. Não era nas minhas ações com os outros, mas comigo mesma. Desprezava meus sentimentos porque os acreditava ser impotentes e insignificantes. Em outras palavras (para o leitor moderno), me faltava amor próprio. Afinal de contas, as cicatrizes podem ser profundas e ainda abertas se souber como escavá-las.
Diante do meu silêncio, Nigel percebeu que me feriu e lutou-se para consertar outra vez o que havia feito:
--Não quis dizer isso. Só... Só queria que fosse feliz.
Aproveitando uma oportunidade para que ficássemos à sós, falei a ele a verdade:
--Eu não sou infeliz, senhor, embora pense que poderia ser muito mais feliz ao seu lado. Estou contente com onde estou, ainda que pudesse experimentar alegrias inexprimíveis se morássemos juntos. Nada tenho a reclamar de aqui estar na companhia de minhas irmãs, mas nenhum desagrado vivenciaria se um padre abençoasse nossa união e tivéssemos filhos.
Perplexo com minha declaração, vi lágrimas surgindo naqueles olhos quase cor de âmbar de Nigel. Havia tocado seu coração como ele fizera comigo e, então, nos compreendemos verdadeira e mutuamente.
--Fuja comigo--ouvi-o implorar--Não precisamos nos submeter a tudo isso.
--Não posso--neguei com todas as forças que tinha, engolindo minhas próprias lágrimas e o nó na garganta que elas formavam--Não posso e nem ousarei quebrar meus votos.
Nigel não insistiu, embora uma parte minha quisesse que o tivesse feito. Como de costume, nossos caminhos seriam separados. Mas ele tirou, sabe-se lá de onde, um anel e colocou no meu dedo indicador.
--Este anel, por alguma razão, nunca o perdi. É simples, um ferreiro o havia feito há tanto tempo atrás quando meu pai o procurou para produzir uma joia significativa a fim de dar à mulher que amava--contou-me ele, com voz emocionada--Meu pai deu todas as suas economias para que aquele homem produzisse isso. E minha mãe o usou até o final de seus dias. Um dia, antes de morrer, ele veio até a mim e me deu seu bem mais precioso porque queria que eu conhecesse alguém decente e merecedora deste anel. Não posso tê-la comigo, mas você pode ter uma parte de mim. Amei-a desde o dia em que pus meus olhos neste rosto frágil, delicado, mas que escondia uma alma tão forte e impenetrável como as muralhas do castelo. E continuarei a amando até o fim dos meus dias, Agnés.
Antes que pudesse me dar um beijo para selar suas palavras, fomos interrompidos por Adalsinda, minha amiga e confidente, a única que estava a par de tudo o que estava acontecendo.
--A madre está chamando todas nós--ela avisou, urgentemente--Um dos homens do rei chegou para buscá-los.
Assenti com a cabeça, mas antes que fôssemos separados, procurei um instrumento, qualquer que fosse ele, e cortei um pedaço de uma mecha de meu cabelo.
--Que você nunca se esqueça da mulher que o amou desde o instante em que repousou estes olhos cheios de ternura e afeição quando entrou aqui--falei, quase sufocando com as lágrimas que prontificavam a serem derramadas.
Emocionado, Nigel assentiu. Guardou com afinco o presente mais precioso que poderia dar e, com muito esforço, limitou-se a depositar um beijo na testa. Assim, em silêncio entramos e, daquele dia em diante, nunca mais nos veríamos. E ninguém, com exceção de Adalsinda, saberia o que se passou entre nós dois.
*                                                                                   *                                                                      *
Nigel desencarnou dois anos mais tarde quando a guerra civil atingia seu ápice. Contudo, era possuidor de tão iluminado espírito que sequer sentiu quando a espada atravessou seu corpo. Não receberia suas notícias se não pelos sonhos. E aqui relato a vocês, leitores, o que se passou. À época, não contei a ninguém, nem mesmo à querida Ada, como carinhosamente chamava minha irmã de alma, porque era particular demais para ser dividido.

Nos dois anos desde que ele havia ido embora, passei a ficar doente com mais frequência. Ajudava em meus afazeres, mas sentia um grande e desalentador esforço em cumpri-los. Recusava comer, embora eventualmente comesse pouco. Meus guias trabalhavam comigo noite e dia para que não desistisse da missão que eu mesma havia optado por seguir. Lembravam-me disso e alimentavam com sua bondade a minha resignação. Quando pensei estar me recuperando, numa noite de verão sonhei que estava em um campo de lírios, onde o sol brilhava em seu domínio incontestável e não se sentia nada que não uma brisa perto ao mar. Ali, sob o pomar, estava Nigel. Vestido todo de branco e com uma paz absoluta em seu semblante, ele me aguardava. Como se sentisse minha presença, aquele belo homem se virou a mim e disse:
--Senti sua falta, bela Agnés.
Corri em sua direção sem pensar duas vezes. Pranteei porque de imediato soube o que aconteceu.
--Não me perdoo por isso. Por favor, por favor, peço que não se esqueça de mim.
Abraçava-me com força e cheirando meus cabelos, Nigel, entretanto, estava em paz.
--Não há o que ser perdoado. Mas as lições foram aprendidas, por nós dois. Nenhuma lei dos homens pode separar o amor que vem a ser unido. E, no entanto, por que toda vez me repele? Prefere mesmo se submeter a tantos sofrimentos a se permitir ser feliz, minha cara?--sua voz era doce e soava como melodia--Não se culpe, por favor. Assim era para ocorrer para que pudéssemos evoluir. E estamos seguindo rumo ao Grande Mestre.
--Eu o amo--era o que conseguia dizer--Não consigo viver sem você, não consigo.
Nigel levantou meu queixo para que nossos olhares se cruzassem uma última vez e, sem responder, levou seus lábios de encontro aos meus. Senti todas as minhas sombras se dissiparem e a luz mergulhar em minha alma.
--Eu a amo--ele murmurou--Estarei esperando por você. Quero que saiba que agora é safo dizer que não mais nos separaremos. Lembre-se disso, meu amor.
E sem esperar por uma réplica minha, ele desapareceu e eu acordei de volta ao mundo chuvoso e triste dos homens. Apesar disso, havia renovado minhas forças e compreendido minha provação. Aceitado mesmo que, em meio a uma série de erros, havia acertado, no final das contas, por escolher o dever sobre todas as outras.
Quando completei vinte anos, meus "poderes" de cura começaram a alcançar um considerável número de seguidores, fama qual eu nunca gostei e nem pretendia desfrutar. Com a morte da madre superiora, o bispo de Paris ofereceu-me tal posição que eu não hesitei em negar. Havia trabalhos a serem feitos e títulos nem posições chamavam minha atenção, não por orgulho, mas porque meu dever era para com os pobres e não os ricos. Apesar disso, o que mais gostei de receber foi o respeito de todas. Adalsinda tornou-se madre em meu lugar alguns anos depois e ela incentivava que eu levasse minhas preces para os pobres parisienses. Abrimos o convento para o público e com isso, exercia todo o conhecimento medicinal de outras vidas para os que necessitavam.
Vivi muito tempo, de fato, e ocupava minha mente para que não pensasse nele. Mas Nigel me visitava de vez em quando, o que me confortava quando a tristeza batia profundamente. No mais, ainda que o cansaço batesse cada vez mais, resistia às doenças. Insistia nas tarefas e ajudar aqueles que mais precisavam. Aos poucos, meu corpo cedia: a cegueira tomou conta dos olhos no meu quadragésimo ano de vida. Em seguida, vieram a anemia, a doença dos ossos, dos pulmões... até que no ano de 867, aos 50 anos, desencarnei para o plano espiritual. Ser recebida com todo o amor que conheci pouco no plano terreno compensou, sem dúvida alguma, os sofrimentos pelos quais me submeti, mas que também poderiam ter sido evitados.
O amor, como bem dizem, vence todas as coisas e derruba todos os obstáculos levantados pelas criaturas da Terra.















Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...