quinta-feira, 2 de agosto de 2018

A Dama & O Cigano

Veneza, 1470.
Astrid era uma bela jovem de 15 anos que nada conhecia da vida. Por ser a filha mais nova de uma das famílias mais ricas de Veneza, seu comportamento era zelado com rigor pelos pais através de uma governanta igualmente rígida que a fazia companhia tanto quanto lecionava em seus estudos privados.
Mesmo sendo mulher, era uma potencial noiva para fomentar alianças em prol de sua família com outras poderosas da Itália. Quem sabe não casá-la, talvez, com algum membro dos Médici? E ela era possuidora de uma inteligência afiada e beleza quase lendária; sua estatura era mediana, seus cabelos eram tão loiros que à luz do sol brilhavam como ouro, e a pele era branca como a de uma boneca de porcelana. Seus olhos eram azuis, tornando assim suas feições dignas de comparações à deusa do amor, Vênus.
Em decorrência de uma criação rigorosa, levada à cabo pela governanta Anna, Astrid aprendeu a contentar-se com a solidão que lhe era imposta. Afinal, os pais queriam mantê-la imaculada aos perigos do mundo exterior, deixando intacta a inocência para quando fosse se casar. Ela sequer tinha contato com o irmão mais velho, herdeiro das propriedades da família. 
Mas, a despeito das convenções da época, sobre as quais estava sujeita, encontrava prazer nas lições de dança, de música e, principalmente, nas leituras, cujo romance favorito havia sido o do Rei Arthur, muito embora abominasse o triângulo amoroso inerente à obra.
Apesar dessa aparente tranquilidade e submissividade com os quais domava o temperamento que ansiava por uma liberdade corrente, tinha a crença de que, com resiliência, através do casamento viria a sair daquela prisão a que lhe havia sido imposta. Enquanto esse dia não chegava, porém, foi surpreendida quando a governanta uma vez lhe trouxera as boas novas:
--Haverá uma mascarada na cidade e seus pais creem que está na hora de apresentá-la à cidade. 
Os olhos de Astrid brilharam de felicidade, mas não ousou demonstrar entusiasmo mais que o necessário, sabendo que lhe era esperado que agisse como a mulher que havia se tornado. Dessa forma, assentiu com um movimento leve de cabeça, no que resultou em aprovação da parte da mulher mais velha.
Não demorou mais que uma estação para que a mencionada noite enfim chegasse. Homens e mulheres, jovens e velhos, das classes mais altas chegavam ao palácio do Gabinete para atender ao local onde a mascarada seria realizada. Astrid observou como vestiam-se bem, em luxuosos vestidos e robes de seda, tecidos importados de Este ou de Florença. 
Para aquela noite, Astrid havia pedido aos pais para se vestir como a rainha Charlotte da França, e, surpreendidos com aquele pedido incomum (já que ela havia dado mostras de aversão à vaidade até então), não hesitaram em concedê-lo, visto que achavam mais que necessário que sua filha fosse a mais bela de toda a Veneza, se não por extensão à própria Itália. Assim sendo, caía-lhe em seu corpo um vestido luxuoso de seda, amarelo-ouro, enquanto o cabelo seguia trançado conforme ditava a moda de seu tempo.
E era assim que chegava ao palácio ao lado de seu irmão, carregando expectativas sobre como agir com outras pessoas de sua idade. Contava apenas duas amigas, e até aquele momento não conhecera um rapaz sequer que não fosse seu pai, seu tio ou seu irmão. No entanto, faltava-lhe a vaidade de seu status e os olhares que lhes eram dirigidos causavam mais vergonha e horror do que surpresa e orgulho. Logo percebeu que não gostava nem um pouco de estar no centro das atenções. Todavia, a pureza de Astrid cada vez mais clamava por liberdade.
--Sorria, sua tola--resmungou-lhe o irmão, enquanto beliscava seu braço--ou vão pensar o pior de nós.
Astrid nada respondeu, prontamente obedecendo-o e servindo sorrisos ao entrarem no suntuoso salão, ricamente decorado de acordo com a nascente renascença que viria marcar aquele tempo e um pouco mais à frente. Cada vez que era apresentada a um rapaz, sentia-se como uma corsa domada sendo exibida a bel prazer diante dos caçadores que ansiavam em ter aquela carne para si. Apesar dessa sensação enojante embrulhar-lhe o estômago, ela cumpriu com seu dever ao dançar com cada rapaz, concedendo mesmo ao mais rude deles sua simpatia e gentileza.
No entanto, na primeira oportunidade em que viu-se distante da reprovação austera de seu pai e da constante avaliação rígida de sua mãe casamenteira e do vigilante irmão, escapou aos jardins, desvencilhando-se da atenção daquela corte. E quando lá chegou, um pequeno grupo de pessoas, não muito distante de onde estava, capturou-lhe a atenção. Com mais atenção, observou que era composto por uma maioria de pele morena vestida em roupas variadas nas cores pretas, vermelhas e amarelas. O som que dali saía, produzido pelo alaúde e uma espécie de chocalho, seguia acompanhado de vozes femininas que, embora em conjunto com a de dois rapazes, sobressaíam-lhes facilmente e rapidamente Astrid sentiu-se hipnotizada pela melodia que chegava aos seus ouvidos. Como se imersa a outro mundo, caminhou, sem pudor e qualquer importância à riqueza e ao luxo que deixava para trás, até onde aquelas pessoas se encontravam.
E, por um breve segundo, pareceu que tudo acontecera rapidamente. O rapaz que segurava o alaúde, percebera-se de sua presença e lhe sorriu. Era um sorriso leve, inocente e acolhedor. Seus cabelos negros escorriam aos ombros por debaixo de um chapéu preto que usava na cabeça, projetando uma sombra sobre parte de seu rosto. Em seu corpo, Astrid notou, não sem antes corar à percepção que teve, que a blusa esfarrapada vermelha de seda e os calções pretos ocultavam os músculos bem trabalhados. Dos rapazes que havia posto os olhos e dançado até então, aquele era o mais bonito. No entanto, havia algo a mais e seu coração tornou a acelerar. Soube, a partir daquele momento, que o amava instantaneamente.
O sorriso nos lábios daquele estranho se abriu, estendendo-se ainda mais de ponta a ponta, quando abriu para que ela se inserisse no grupo. Havia outras moças, duas delas usavam saias amarelas com listras vermelhas, enquanto as mais jovens dançavam com vestidos negros com traços vermelhos e rosas em seus cabelos, mas ninguém lhes fazia perguntas. Sorriam-lhe apenas como se a reconhecessem como seu mais novo membro. E entre elas e os outros rapazes ali presentes, Astrid sentia-se em casa, feliz e... livre. Aquela sensação de liberdade pelo qual vinha buscando incessantemente a havia levado até ali. Tal era o gosto que saboreava por sentir-se livre enfim.
Logo, soltou seu cabelo, tirou de seus pés os sapatos e permitiu-se dançar com elas, até mesmo arriscando a cantar como se aquela música fosse inerente a sua alma.  E mais de uma vez, encontravam os seus olhos aqueles cujo nome viria conhecer. Ettheraldo, o cigano, a admirava, seu coração clamando em ardor por aquela menina dourada, sua cigana Padilha.
Ao fim das canções, ele esperou pacientemente por sua vez para falar com ela, a dona de seu coração. Apesar de ver que ela pertencia a outro status, isso tampouco lhe importava.
--Senhora--ele disse, com seu sorriso característico e os olhos brincalhões que despertavam em Astrid sentimentos que jamais pensara existir--Gostaria de congratulá-la pela graciosidade em seu baile. Jamais ouvi voz tão bela. Encantei-me!
Um rubor subiu pelo pescoço até chegar às bochechas de Astrid, tão logo aquelas palavras foram ditas. Ela se alegrou ao perceber nelas uma sinceridade desprovida de ambição e luxúria, outrora detectados nos seus parceiros de salão. 
--Não sou senhora alguma--ela lhe respondeu docemente, ainda que pensasse que seria a dele se assim quisesse--Chame-me pelo meu nome, Astrid.
Contra as convenções da época, não passava despercebido aos outros ciganos, aquele reencontro de almas, tão afins como quando o sol se deparava frente à lua, provocando um eclipse. A conversa entre os dois prolongava, o tempo parecendo fluir enquanto isso, e com isso, afastavam-se do grupo para terem um pouco de privacidade.
--E qual é a história que me traz, Ettheraldo? --quis saber Astrid, curiosa.
Caminhando pelos jardins, aquele moreno de olhos negros tomou as mãos dela nas suas e disse-lhe então:
--Venho de uma região chamada Romanii, próxima ao oriente. É muito longe daqui, decerto, pois fica ao leste dos reinos da Cristandade. Minha família era pobre, e um dia nos juntamos ao circo, onde ficamos por um tempo. Contudo, a doença logo nos pegou e separou-nos a todos... De alguma maneira sobrevivi ao que chamaram de peste e apenas escutei o chamado para ser cigano, um chamado que não ignorei e prontamente atendi. Não fosse por isso, não estaria até aqui, minha dama dourada.
Dizendo isso, levou uma das mãos de Astrid aos lábios, onde depositou um beijo gentil, suave como o vento. Embora parte de si acusasse aquela proximidade, tão calorosa, de atrevimento, não negaria de forma alguma que gostava daquilo. Mas não era por isso que sentia suas bochechas queimarem. E, tomando nota de sua reação silenciosa, Ettheraldo questionou:
--Por que ruboriza, Astrid?
--Tenho me sentido encarcerada por bastante tempo, Ettheraldo, e, no entanto, ao escutar sobre as provações pelas quais passou... vejo quão ingrata tenho sido. 
Colocando uma mão ao redor de sua cintura, ele se inclinou para sussurrar-lhe ao ouvido:
--Cada um passa por suas próprias tribulações, e não cabe nem a nós ou a outros em compará-los. Deus sabe o peso que cada um carrega, e Ele sabe que é justo à nós porque está ciente, em Sua sabedoria infinita, o quão capazes somos nós em cumprir a missão designada. Ou não estaríamos aqui.
Perplexa com o que ouvia, Astrid contemplava a sabedoria saindo dos lábios de seu querido e doce cigano. Conheciam-se em menos de duas horas e, contudo, a sensação era de que há séculos estiveram em contato.
--Perdoe-me, sou ignorante quando me deparo com o que ouço... Como... Como sabe disso tudo?
Ele jogou sua cabeça levemente para trás e riu. Não era um riso de deboche, ela observou, admirada, mas de alguém leve... e livre como o vento. Como se qualquer dificuldade pelo qual havia passado tivesse sido breve, e mesmo no contexto presente, não parecia se queixar. Ainda que fosse humilde em comparação a tantos de seu status, Astrid não hesitou em reconhecer seus próprios defeitos. Assim, contemplava a si mesma quando Ettheraldo falou:
--Durante minha jornada, estive em contato com vários povos e suas crenças. No entanto, a que mais me aproximei foi a dos cristãos. Antes de me tornar cigano, estudei e bastante com os padres. Eles haviam me acolhido na orfandade, e devo muito a eles. Conhecimento, minha Padilha branca, é tudo na vida. É o que levaremos daqui para frente, é algo que ninguém pode tirar de nós.
--Eu desejo ser assim como você, mas...--as palavras desapareciam sob sua língua, e baixou o olhar. Sentia-se incompleta, envergonhada por tudo. Ele poderia ser mais pobre, de fato, mas era mais rico do que seria. E, entretanto, era a liberdade dele, a leveza com a qual levava a vida pela qual Astrid ansiava. Amar sem submeter-se à regras, viver sem dever obediência à terceiros, respirar sem esperar cumprir com as expectativas expostas nela.
--Sei que pensa muito--comentou Ettheraldo, que observava Astrid em seu silêncio e entristecia seu espírito ver a tristeza aprisionando-a, tomando de refém sua alma, seu princípio vital porque a brevidade de uma vida era moldada conforme a superficialidade da época--e que estaria disposta a muito, mas tudo a seu tempo. É um aprendizado, compreende? Por mais difícil que seja enxergar agora, não fique triste. Não existe coincidências, mas a vontade de Deus, que prevalece sobre a nossa. 
Ela lhe sorriu e Ettheraldo tocou-lhe o rosto. Dois corações batiam como um, e o ambiente ao redor parecia iluminar-se. Queriam continuar assim pelo resto da noite, transformá-la em estações que, embora mutáveis, voltavam sempre, constituindo numa certeza única. Mas, não era assim. Por isso, ele se afastou.
--Deve voltar ao interior do salão--disse-lhe ele, o sorriso se dissipando do rosto, as feições tornando a ficar mais sérias ainda que a serenidade tomasse conta de seus olhos--A bebedeira não durará para sempre, e sua ausência será notada.
--Mas...--ela se via agarrando as mãos de Ettheraldo como se aquele fosse um momento de despedida--nos veremos outra vez?
Ettheraldo fez uma mesura, tomando novamente uma mão de Astrid e levando-a aos lábios antes de piscar.
--Senhora, certamente! Digo-lho adeus agora, minha Padilha branca, mas hei de voltar aos seus braços em breve.
E assim, em seu sorriso bobo e apaixonado, Astrid era deixada para trás enquanto Ettheraldo voltava ao grupo, cada um ansiando pelo próximo encontro.

Nos próximos dias, embora visse a mãe com mais frequência em casa porque deram início aos planejamentos de seu casamento com alguma figura importante da nobreza italiana, Astrid pensava cada vez mais em seu cigano, o belo e livre Ettheraldo. Lembrando de sua sabedoria, expressada sem dúvida através das palavras de Deus, passou a se interessar pelo estudo da catequese e da Bíblia, desejando alcançar o nível de sabedoria de seu amado.
A inspiração não era secundária, todavia; aprendera enfim a escrever poesias. E o desejo de seu coração pelo objeto de suas afeições sussurrava em sua mente como vento pelas palavras que marcavam o papel. E logo, pilhas de poesias eram feitas. A isso, a mãe erroneamente interpretou como apaixonada por um de seus pretendentes. Ciente de suas objeções caso descobrisse a verdade, Astrid manteve tudo em segredo.
A primavera logo se dissipou e foi no verão que o veria outra vez, quando a mãe arquitetou um encontro do tal pretendente da casa de Florença com a filha em um festival que havia embelezado toda a cidade. Novamente, estava em contato com nobres, mas não era pela companhia deles que ela ansiava. No entanto, cultivou a paciência para florescer a recompensa que viria na presença de Ettheraldo.
Seu suposto noivo, ela logo descobriria, tinha gostos voltados para a companhia dos homens e da bebida. Uma vez embebido, Astrid o abandonou discretamente para encontrar seu cigano. Naquele dia, vestia um lenço ao redor do pescoço, único acessório que o diferenciava das peças usadas da última vez. Contudo, sem o apetrecho do chapéu, seus cabelos soltos faziam-o mais bonito. Astrid suspirou.
--Ah, minha Padilha! --ele exclamou quando a viu--Como está bela essa noite!
Astrid riu antes de entregar-lhe o braço e depositar, ela mesma, um beijo em seu rosto.
--É sempre gentil, meu querido. Como tem passado? Não me enviou uma carta sequer! Fiquei preocupada...
Estavam em uma barca enquanto falavam, e passeavam pelas águas da cidade com o máximo de discrição possível. À luz do luar, Astrid via-o jogar a cabeça para trás naquele gesto familiar leve quando ria antes dos olhos negros deliciosamente passarem aos seus em um longo e intenso olhar.
--Minha dama branca--ele murmurou, doce como o suco da fruta--tão genuína em suas afeições. Sinto-me felizardo, porém, deixe-me, antes de tudo, tranquilizar-te. Nós, ciganos, somos mal vistos como os judeus, e portanto não podemos ficar muito tempo em um mesmo local. E seria bastante arriscado para a senhora que enviasse uma correspondência. Soube que está noiva, hm?
--Certamente sem considerarem minha opinião sobre a questão--resmungou Astrid, baixando o olhar para as mãos que se entrelaçavam--Às vezes, minha mente fica a rodear... sobre o que você tem feito. É tão livre, de fato bem o sei e longe de mim recriminá-lo, mas... --ela não conseguiu vocalizar o que pensava. Sentia-se tola, se não infantil. Ciúmes de alguém que mal conhecia? Isso não era nenhuma história de amor, embora as circunstâncias ditassem o contrário.
Mas Ettheraldo riu, em vez de censurá-la por aquele sentimento. Envolveu seus braços ao redor de sua dama branca e, gentilmente, levantou seu queixo para que pudesse vê-lo quando dissesse o que gostaria de expressar:
--Sou livre, de fato, mas preso ao domínio de minha senhora. E, com noivado ou sem ele, não pretendo ser liberto a não ser que me comande para tal. Escute a música ao redor--ele sussurrou, desta vez contra o ouvido, fazendo Astrid arrepiar-se--e deixe que ela nos guie. Os antigos gregos valorizavam bastante a música, sabia? As canções, as poesias... expressões de almas que um dia amaram, sentiram a paixão queimar cada cerne de si próprios fosse por luxúria ou não. Elas lamentam sobre um destino perdido, não concebido porque outro caminho fora tomado. Contudo, minha senhora, qual será nossa canção?
--Uma que não permeie em tragédia--ela se ouviu pensando alto antes de apressar a corrigir-se, mas sendo interrompida por Ettheraldo que, colocando um dedo sobre os lábios carnudos de sua dama, retrucou:
--Toda canção, lamentosa ou não, termina em tragédia. E por que deveria isso ser triste? Se amar é um pecado, somos todos pecadores. 
--Amor é uma bênção, porém, apenas os que são chamados tolos vêm desta forma--murmurou Astrid. 
Às vezes perguntava-se se não estava sendo tola, ingênua, mas a conexão que sentia com ele era tão intensa e verdadeira... Perdida em seus pensamentos, não prestou atenção em quanto era contemplada por Ettheraldo. Apesar de ser mais velho que ela, contando vinte e três verões, e ter mais experiência com a vida, jamais sentiu serem a idade e as condições sociais que os diferenciavam pesos para a relação. Acreditava, piamente, que Deus os havia unido para algum propósito, embora tivesse ciência de como aquilo terminaria.
--Você se arrepende de ter conhecido a liberdade, minha Padilha? --ele perguntou, em um sussurro como a brisa de verão.
--Jamais--ela respondeu, firmemente.
E, como se para confirmar isso, seguiu seu coração e, despindo-se das algemas que domaram seu temperamento por muito tempo, deixou-se ser livre ao levar seus lábios em encontro aos dele. Sabia, e como negaria, que era tão cigana quanto ele.

Durante aquele verão, os cuidados para fugir de seu noivo sem que sua mãe ou seu pai soubessem (mais ainda sua governanta que constantemente estava ao seu lado) tivessem conhecimento foram redobrados. Sempre à noite, a dama e seu cigano desviavam-se de caminhos públicos para o privado e não à toa, debaixo do luar, se viam nos jardins, principalmente no lado inexplorado dos mais extensos deles.
Deitados na grama, o casal estava em silêncio, apreciando a companhia um do outro. Havia noites em que bailavam com o grupo, e Ettheraldo se via arrebatado pela presença de Astrid e em como dançava como a rainha que deveria ter sido. Os cabelos dourados, à noite prateados pela lua, a distinguiam de outras mulheres do grupo, sua pele branca um contaste à morena, mas nada disso parecia importar quando sorria e cantava de igual para igual.
Em uma das noites quentes daquela estação, Sabah, uma das mais velhas do grupo, aproximou-se de Astrid e lhe disse:
--Vim entregar-lhe uma saia. Sei que há propósitos que nos são desconhecidos, velados de nossos olhos para que, no futuro, não sofremos com os caminhos tomados. Ainda assim, é uma de nós. Sentimos isso, minha senhora. Apenas use.
Astrid fitou a peça que lhe entregavam de boa vontade e sentiu os olhos marejarem. Como retribuir a gentileza daquele povo? Sem palavras, ela apenas envolveu a boa senhora em seus braços, tomando-a de surpresa, antes de vestir a tal saia como lhe havia sido pedida. E, em minutos, Ettheraldo mal conseguia respirar ante a visão que tinha daquela jovem mulher vestida em uma blusa amarelo e uma saia rodada recortada em três ondas nas cores branca, vermelha e preta, com pedaços de uma rosa vermelha intrínsecos ao tecido. 
--Curvo-me à minha senhora--disse-lhe Ettheraldo, perplexo--Minha rainha.
--Seja, portanto, meu rei--riu-se Astrid, à vontade.
Dominaram as danças daquela noite, sob a lua cheia e o canto dos ciganos. Ali, entre eles, Astrid era a própria liberdade, dona de si, como instrumento do amor que a unia a Ettheraldo. No entanto, ela não contava que uma confidente de sua governanta a tivesse seguido desde as últimas semanas, pronta a delatá-la no momento oportuno. 
Ignorante quanto a isso, uma vez que as festividades diminuíam e era preciso voltar à casa, Astrid confidenciou a Ettheraldo:
--Palavras jamais são boas o suficiente para expressar o que tem se desenvolvido entre nós nos últimos meses.
--E, entretanto, aqui elas estão--ele murmurou, soando como a melodia de uma música ao beijá-la. Estavam sozinhos, próximos demais da casa de Astrid. Cometeram o erro de subestimar o silêncio da rua, em confiar nos roncos dos mendigos e acreditar que a madrugada de tudo e todos ocultava. 
Ela o beijou, e beijaria mais se uma voz não tivesse esganiçado logo atrás de si:
--Astrid! Meu bom Deus, o que... Venha para cá, agora mesmo! 
O choque e o medo não foram suficientes para prevenir o que aconteceria em questão de segundos. Anna, a governanta, rapidamente separou o casal e pediu para que sua confidente chamasse um guarda, levando Astrid para dentro de casa pelos cabelos. Não haveria tempo para despedidas, tampouco: os pais de Astrid foram acordados e, em perplexidade pelo escândalo da filha, decidiram resolver isso antes que tal se espalhasse.
--Como ousa envergonhar a nós todos?! --berrou o pai, já tendo esbofetado Astrid mais de uma vez.
Ela não respondeu. A liberdade tinha sido uma ilusão, mas e o amor? Onde estava Ettheraldo? O que haveria de acontecer a ele? Nada do que pudesse dizer apaziguaria a raiva dos pais. O pai a batia de novo. Sentia as faces ficarem vermelhas, um corte atravessar a bochecha; logo depois, quinze palmadas pela mão de ferro de Anne, mas dor nenhuma a submeteria ao choro. Ela não seria subjugada. 
--Ele morrerá--disse-lhe acidamente o pai--Pouco me interessa o que ele fez ou deixou de fazer. Esse escândalo não chegará aos ouvidos dos outros. Dê graças ao bom Deus que sua perversidade não tenha sido descoberta pelo noivo. Receberá a sentença de traição, pelo ser infeliz que é!
--E tudo o que ele fez foi me amar...--sabia que devia ficar quieta, mas levantou os olhos e, mesmo com a boca ferida, disse--Se amar é um pecado, então sou uma pecadora. 
A mãe, que a tudo assistia enojada, não conseguia encarar a filha... Não surpreendia que nada fizera para impedir o pai de bater a cabeça de Astrid contra a parede. Contudo, ainda naquela madrugada, ela se aproximou de Astrid para cuidar dela.
--Sabia que era errado e mesmo assim o fez. E por que, Astrid? Não, não fale--ela suspirou. Era uma mulher de trinta anos que, embora amargurada pelo que a vida havia lhe tornado, reconhecia a liberdade e a coragem na filha que uma vez haviam sido suas--Odeia-me, bem o sei que sim, mas eu também já passei por isso. Nesse mundo permeado por homens, que escolhas temos? 
Astrid levantou o olhar, estava, de fato, magoada e irritada, mas quando enxergou a compaixão vinda da mãe, pela primeira vez a compreendeu e a abraçou. Lágrimas, portanto, vieram e mesmo a mulher não era tão fria a ponto de se distanciar daquele momento.
--Eu também já amei um dia--disse ela, enquanto confortava Astrid--mas do que vale o amor quando nosso destino não é nosso? Ciganos... Não me surpreende tanto que a liberdade prometida tenha lhe atraído tanto. 
--Não... foi... apenas isso--disse Astrid, que, mesmo ferida, compreendia o que era perdoar, o que era carregar cada fardo e, ainda assim, ser leve e deixar tais encargos para Deus. Seu coração se apertou--Eu o amo, senhora mãe. 
--Eu sei--lamentou a outra--Bem o sei. Mas, num mundo de pecadores, cabe a nós nos confortarmos.
Nenhuma da duas falou outra vez e Astrid permitiu-se dormir em um mundo sem sonhos. No dia seguinte, o pesadelo continuava a ser pesadelo. Perseguiu-se o povo cigano, mas pela graça de Deus, a grande parte se dispersou. A culpa atordoava Astrid a cada notícia recebida, para deleite da governanta, e nada pior do que saber da execução de seu amado Ettheraldo à praça pública doia seu coração.
Uma de suas amigas, chamada Maria, aproximou-se de Astrid e disse-lhe ao tomar em suas as mãos dela:
--Ele não haverá esquecido da senhora, Astrid. Cantarão, sei disso, da dama e de seu cigano. Da dama e do vagabundo--ela riu um pouco, e ficou satisfeita em ver sua amiga sorrir.
--Cantarão, sim, mas a que preço? --lamentou Astrid. --Essa dor não cessa.
--Haverá de cessar--prometeu Maria--Escute o que falo. Confie em Deus que tudo passará, nada é permanente, nem a dor que lhe inflige.
Naquele dia, Astrid permitiu-se, em segredo, prantear o luto pelo amor de sua vida, o marido que não desposara como gostaria. Dali em diante, devotou-se a Deus, tendo o pedido de entrar na vida monástica negado pelo pai. Casou-se, decerto com um rapaz de linhagem nobre, da família Orsini, e para o norte da Itália foi morar.
Contudo, apesar de tomar o dever a sério, jamais voltou a ser a mesma. Devotou-se a tal modo que muitos acreditavam que havia enlouquecido, mas a verdade é que Astrid finalmente compreendera a leveza pela qual tanto havia admirado Ettheraldo. Se nada é mutável, imagino que tampouco a morte fosse. Com isso, ficou sensibilizada ao que acontecia ao seu redor e quando ficou grávida, sentiu-se feliz pela primeira vez em muito tempo.
--Se tiver uma menina, se chamará Sibila--confidenciou Astrid a sua amiga mais querida, Maria--Caso seja um menino, receberá o nome dele.
E desta maneira, iniciaram os preparativos para o dia que Astrid daria luz ao seu bebê. No dia previso, entretanto, quem haveria de saber o que estava a acontecer? O parto havia sido difícil, e Sibila, a menina, nasceu sem transcorrer quaisquer problemas, mas a mãe não sobreviveria pois fora envenenada.
Quando descobriu o que aconteceu, Maria se encarregou de cuidar de Sibila, decidindo criá-la longe da Itália. Quanto a Astrid, ainda que tivesse sofrido para ter a morte que recebera, soube abraçá-la sem pudor. Afinal, no momento que seus olhos se abriram novamente, era o povo cigano que a recebia. Era seu Ettheraldo que estendia-lhe as mãos.
--Meu amado, oh meu amado Ettheraldo! --ela pranteava ao jogar-se em seus braços--Eu sinto tanto, de verdade, eu sinto muito.
--Shh, shh--ele a consolava. Como era bom tê-la em seus braços novamente--Não se aflija mais, minha dama branca, minha Padilha. Nenhum veneno irá corrompê-la, nenhuma dor irá subjugá-la. Não, não. Tempos felizes chegaram para nós, como nas canções das quais falávamos.
--Mas todas elas continham tragédias...
Ele riu, e como ela havia sentido falta de sua risada.
--Que importam elas se o amor permanece quando elas se vão? O mundo é imutável e instável, minha amada Astrid, mas o amor é sempre o mesmo.

Fim.

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