sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Velhas Memórias. Ciclo VII.

Inglaterra, 405 D.C.

Na verdade, esta história começa um pouco antes, em Roma. Foi lá onde fui concebido e recebido pelos meus pais terrenos. Outra vez, achei por bem ter nascido pobre e no corpo de um homem para que enfrentasse uma provação mais difícil do que a anterior, ao menos em alguns aspectos. Mas esta seria minha última existência em tal gênero.
Em retrospecto, torna-se fácil confirmar o ano de meu nascimento próximo da época em que o Imperador Teodósio estabelecera como lei a religião cristã por todo o seu império em 380 depois de Cristo. Meus progenitores há muito seguiam a palavra de Cristo e contavam com uma idade avançada para a época quando nasci. Seria o filho mais novo, sendo o mais velho aquele que receberia suas atenções por depositarem nele as esperanças de uma vida melhor. Isso não quer dizer que me dispensavam afeição, carinho e educação. Muito ao contrário, Aeliana e Genésio me tratavam bastante bem para a época em que a distância emocional dos filhos predominava na mentalidade dos que padeciam a influência da carne sobre o corpo. Sendo assim, recebi o nome de Augustus. 
Aeliana, tão devota quanto Santa Monica, preocupava-se com a extrema condição de pobreza de nossa família e todos os dias rezava com o ardor para que tal situação não levasse seus únicos filhos para a morte. Por mais que em seu íntimo houvesse a intuição de que o transpasse não impunha definitiva separação, era natural que, na ignorância de seu estado em decorrência da época vivida, temesse o pior. Nosso pai, Genésio, era comerciante, mas parecia que nada dava certo. Por anos a fio, viveu com dificuldades. Era, de fato, pessimista por natureza e com uma preocupante inclinação à depressão. Permita-me esclarecer aos caros leitores que este pai de quem falo é o espírito do irmão que tirou-me a vida em existência precedente, indivíduo tal que me empenhei para educar antes de reencarnamos juntos. Nossos caminhos se cruzariam pouco, entretanto: a divina providência acharia melhor que seguíssemos missões diferentes em vida.
Mas ele, ainda assim, esteve presente em minha vida. Educou-me da melhor forma que pôde. Aos cinco anos, ainda me recordo, ele veio a mim e disse:
--Sabe, filho, ultimamente ando pensando em você.
--Em que pensou, papai?--eu indaguei, naquela típica voz infantil, carregada de inocência.
--Em tantas coisas---ele suspirou, com o semblante carregado de tristeza--Eu gostaria de dar a você o mundo, meu caro menino. Sinto que há muito por que gostaria de dar a você e por vezes me culpo por ter sido um pai diligente.
Sem saber o que significava aquelas palavras, embora no íntimo que guardava a alma a sensação de conhecê-las, eu falei:
--Você é o pai que Senhor Deus me concedeu e eu fico feliz por isso.
Acreditando ter sido por inspiração divina que aquelas palavras teriam saído de minha boca, Genésio me pôs em seu colo e abraçou:
--Amará este seu velho pai? 
Sorrindo, respondi:
--Sempre.
Aquele momento significativo foi o instante em que nossas almas tão espontaneamente se reaproximaram. Como se houvéssemos enterrado nossas dividas e de fato nos perdoado por rivalidades anteriores. De todo modo, logo depois deste momento, pareceu que Deus houvesse nos escutado e permitido à família que saíssemos da obscuridade de certa maneira. Meu irmão, cuja saúde delicada preocupava minha mãe, provou ser robusto e bastante inteligente. Éramos relativamente próximos, mas como podem perceber, minha vida não estava destinada a ser vivida ali. Conforme melhorávamos, minha mãe decidiu agradecer a Deus oferecendo-me à vida na Igreja. Meu pai, a princípio, hesitou, mas foi vencido pelos argumentos da esposa:
--Não temos condições de sustentar Augustus como deveria, e sei que seu propósito encontra-se servindo a Jesus, Nosso Senhor. Ele o chama, confia, marido, que não falo blasfêmias.
Aos sete anos, portanto, fui aceito pelo bispo de Roma. No decorrer da minha infância e adolescência, sem quaisquer grandes acontecimentos para serem aqui ilustrados, vivi "enclausurado". Isto é, longe da realidade mundana que assolava a capital do império. Desconhecia a corrupção, a maldade humana, as mentiras, a vaidade, os pecados que Deus repreendia na humanidade. Por mais rigoroso que possa parecer ao leitor moderno, ter vivido em companhia de jovens que almejavam tornar-se padres ou mesmo missionários que levariam a palavra de Cristo ao mundo não era tedioso. Aprendi o domínio da leitura e da escrita, seguia exemplarmente, na medida do que me era possível, todo o evangelho. E nada me agradava mais do que ler os testamentos que compunham a bíblia.
--Você é um jovenzinho engraçado--uma vez comentou comigo um dos braços direitos do bispo, um senhor chamado Aelius. Seu rosto envelhecido era caucasiano, embora marcado por manchas na pele, e coberto por uma barba espessa; possuía um nariz longo e olhos azuis cansados. Sorria com frequência, a despeito da falta de dentes, o que lhe configurava um aspecto gentil--Não pensei que conheceria uma alma tão virtuosa entre nós, Augustus. Isso é bastante surpreendente. Creio que está destinado a grandes coisas.
Corei diante de tal elogio, desacostumado a recebê-lo: minha natureza introspectiva inclinava-me a passar tempos longe de meus colegas, evitando socializar-me com os demais. Rezava mais do que o indicado, e tinha bastante ciência de que outros de minha idade chamavam-me de ranzinza e severo pelas minhas costas. Apesar disso, não me importava e esperava não chamar a atenção: repudiava estar no centro da curiosidade alheia. Mas ali estava alguém que eu genuinamente admirava e por isso lhe sorri.
--Obrigado, senhor Aelius. Que Deus o recompense por tamanha gentileza.
Ao meu lado, ele se sentou. Seus bondosos olhos azuis fitavam a minha aparência como se me estudasse: à época, apesar de franzino, possuía uma saúde robusta. Meus cabelos desgrenhados caíam sobre os ombros, e eram tão negros quanto a noite, enfeitados por cachos embaraçados; minha pele era terrivelmente branca, beirando à palidez pois evitava o calor do sol. E, entretanto, em minhas bochechas podia-se ver um leve rubor pintando-as, pois quando havia trabalhos a serem feitos no lado de fora, era inevitável que me queimasse um pouco. Diziam meus colegas, pelo que me recordo, de que meus olhos eram verdes como o pasto, intensos quando atentos, pois era muito observador. O nariz longo, porém, não me fazia o mais belo dos homens. Era jovem e nem todos de minha juventude foram agraciados com a beleza. Contudo, isso não passava pela minha cabeça. Naquele dia, enfim, usava vestes cinzas que caíam soltas sobre meu corpo, presas apenas por uma espécie de cinto que afivelava o tecido.
--Amém, meu jovem. Obrigado. Mas estou realmente intrigado, os outros me disseram que aprende muito rápido e leva à sério seus afazeres. Tem-se destacado dentre os seus por este comportamento--ele assim falou.
Eu ruborizei.
--Obrigado, senhor--agradeci, timidamente--Não sei o que fiz para merecer sua atenção, mas humildemente regracio pela sua presença.
Um parênteses faz-se necessário fazer aqui para situar os leitores de uma particularidade deste tempo, embora a mesma tenha sido perpetuada até os tempos da Reforma, que era a concentração do clero no quesito dos estudos. Nem todos os padres liam e escreviam, possuindo, assim, o total domínio da língua latina. Como a Igreja de Cristo vinha se erguendo cada vez mais poderosa, a politicagem adentrava seus tentáculos nos homens que deveriam seguir nosso amado mestre. Mas é claro que, naqueles dias, não devíamos esperar muito de uma humanidade ainda muito presa às influências da carne. Desse modo, se eu porventura obtive acesso a esse tipo de aprendizado, afirmo categoricamente que foi porque Deus em sua sabedoria infinita assim determinou.
--Gostaria de propor um convite--disse Aelius, sem prolongar-se naquela conversa supérflua--Que pensa em acompanhar-me junto ao bispo de Roma por um tempo?
Arrepiei-me, pois senti em suas palavras a inspiração divina que me convidava à ação. Pressentindo minha missão, prontamente aceitei:
--Mas é claro! Penso que Nosso Senhor está me chamando a ser útil, senhor!--e tomando suas mãos para beijar-lhe, exclamei--Obrigado, obrigado, obrigado!
Rindo de minha inocência, porém, Aelius pareceu satisfeito com minha reação. Logo mais, levantou-se, pois não pretendia se demorar mais, já que era um homem ocupado e tinha lá seus afazeres. Mas ele prometeu entrar em contato e com isso, aguardei ansiosamente. Demorou um pouco mais de dois meses até que ele me buscasse novamente. A espera foi agonizante e não sei como meus colegas prontamente souberam da invitação estendida a mim pelo confidente do bispo romano. Naturalmente, a reação não foi tão positiva quanto esperava.
--Oh, abram alas para o escolhido do papa!--ouvi alguém zombar de mim, em suas palavras destilando inveja e sentimentos pouco honráveis--Sente-se especial, Augustus? E, no entanto, cá está aqui entre nós, pobres meninos.
Em geral, estava acostumado a lidar com aquelas provocações. Romulus era seu nome e ele me desaprovava e não sem motivo: não éramos almas afins, e se estávamos ali era para aprendermos um com o outro. Contudo, aquele jovem de origem escrava e celta pelo lado materno não se adequava ao novo ambiente em que se inseria. Não aceitava a humildade pregada e acreditava que a força era a resposta para tudo. Boatos corriam--por mais que não desse ouvidos a besteiras, era impossível ser surdo a elas--que ele mantinha um forte laço com os deuses antigos de sua família. Independentemente de suas crenças, aquele rapaz de pele oliva e olhos castanhos ferozes era um espírito rudemente atrasado. Não obstante, sua personalidade furiosa dominava aos que eram fracos demais para renegá-la, por isso andava em grupos.
--Sabe muito bem que não me sinto especial e não acredito em distinções quando Nosso Senhor ama a todos igualmente--respondi em voz baixa e com toda a calma que detinha.
Aquilo o enfurecia, tanto pela dificuldade em alterar seu comportamento (pois deve-se ser dito, caro leitor, de que um indivíduo furioso com o outro na verdade está frustrado consigo mesmo e projeta isto naquele que, ao contrário, o inspira a mudar para seu próprio bem) quanto por malograr em trazer-me para compartilhar suas raivas mal resolvidas.
--Se Ele nos ama a todos sem diferenças, por que é que você está sendo favorecido? Não faz mais do que nós--retrucou Romulus, satisfeito com o eco de aprovação que causava em seu pequeno grupo de seguidores.
--Lamento que pense assim, meu caro. Não acho que deva-lhe explicações sobre o que não tenho poder, de maneira alguma, de fazer acontecer. E ainda que tivesse, não caberia a mim fazê-lo. Sua fé deveria ser o suficiente.
Quando ele pensou em ser mais agressivo comigo, foi interrompido diante dos passos de nosso supervisor. Insatisfeito com a cena que presenciava, o homem repreendeu Romulus, pois seu temperamento já era conhecido e dispersou o grupo. Enfim, tive o caminho livre, mas optei por adiar meus afazeres daquela tarde para rezar pela alma do coitado e daqueles que aceitavam segui-lo. Pois não compreendia porque se submeter a seguir Deus e Suas palavras, ser Seu mensageiro se o fazia blasfemamente? Mas mesmo na capela, não completei minhas preces porque o senhor Aelius, outra vez em pessoa, veio me procurar.
--Imaginei que viria encontrá-lo aqui, rapaz. Soube que seu destaque tem sido motivo de discórdia por aqui.
--Fico triste que tenha alcançado seus ouvidos esta história, padre--falei, sinceramente--Até porque a Igreja não deveria ser assim.
--Não--concordou ele--A vida monástica deveria ser regada a mais humildade, decerto, mas poucos são os homens sujeitos a esta tão bela moral. Na verdade, filho, somos falhos, e isso não deve ser esquecido como tampouco ser o motivo para descrer na palavra de Cristo. Em meio a erros, um dia subiremos aos céus.
--Palavras sábias--falei, sorrindo.
Aelius assentiu e disse:
--Não temas, pois não está sozinho. Deus está contigo, Augustus. E é por isso que chamo-o aqui. O bispo gostaria de conhecê-lo. Estou arranjando um encontro com ele.
Perplexo havia ficado, é claro, pois não esperava que isso fosse acontecer. Minha educação, meu sacerdócio estariam me levando cada vez mais próximo de Deus e, como pensava, naquele que O servia diretamente. O bispo, cujo nome não me cabe revelar, diria assim que me encontrou:
--Vejo que Aelius está fazendo um excelente trabalho com os jovens pobres de Roma. Que homem está se tornando, meu jovem! Soube de seus atributos e espero conhecê-los bem.
Tentei não me apressar tampouco permitir que a ansiedade me controlasse. Concentrei-me, pois, nas preces que fazia. E recordei-me, curiosamente, de um sonho em particular que me perturbou ainda na véspera da visita de padre Aelius.

O sonho em questão era muito, muito curioso: achava-me em um campo florido que dava vista ao mar sem ondas. Atrás de mim, erguia-se uma casa de construção única, cuja arquitetura não marcava com aquela que eu conhecia. De lá, saíam dois homens vestidos em túnicas brancas e rumavam em minha direção. A luz em suas presenças eram muito fortes, mas não afetava a minha visão. Um deles era dono de olhos violetas e cabelos levemente ruivos, quase beirando ao louro: forte em sua constituição, transparecia calma e sorria com familiaridade para mim. Este aqui adotou o nome de Mikhail, ou, Miguel. O outro, ao seu lado e de mesma estatura, se chamava Rafael. Este possuía uma pele mais azulada e olhos da cor do universo, se posso fazer tal comparação. Era belo como o homem que o acompanhava, e sua túnica era branca com traços dourados.
--Saudações, caro Augustus. É bom revê-lo outra vez, vejo como tem se desenvolvido muito, muito bem. Como estão as coisas na Terra?
Em uma língua que soava estranha aos meus ouvidos, respondi, porém, com naturalidade:
--Não tão bem quanto se possa pensar, mas espero seguir o rumo da minha missão com paciência e resignação.
O tempo todo era Rafael quem conduzia a conversa:
--Há outros contemporâneos em missões parecidas, mas temo alertar para uma ameaça do insucesso quanto a sua.
--Tudo no tempo de Deus, penso eu--falei, embora soasse um pouco triste--Mas, se puder perguntar, fui escolhido para ser seu missionário?
Desta vez quem me respondeu foi Miguel:
--Sim. Levará a palavra para terras distantes de onde vive, mas é preciso se preparar para as dificuldades terrenas. Contudo, lembre-se de que o que vier a fazer terá fruto alcançado por outros em encarnações futuras.
--Não tema, Augustus. É mais difícil do que tem pensado, mas sê firme e forte que colherá bons frutos. Está no caminho da luz--disse Rafael, soando otimista.
--O medo é uma reação natural ao que está por vir--alertou Miguel, diante do meu silêncio--Não estamos em tempos fáceis, muito pelo contrário, a materialidade ainda impõe o véu da ignorância sobre tantos olhos. Cabe a você ser instrumento do Pai nessa caminhada. Não se desanime, pois não está sozinho.
--O espírito da Verdade o conduzirá no tempo certo--disse Rafael, com um sorriso--Estamos muito feliz pelo seu progresso, Augustus. A História não o lembrará, mas todos os outros um dia irão saber disto, e se recordarão do que fez.
--Não me importo com a História--disse eu, firmemente--Apenas desejo ser útil e cumprir com minha missão.
--Sua fé é a luz que ilumina os fracos e salva os ignorantes--disse Miguel, sorrindo pela primeira vez--Vá em paz, irmão, que em breve nos reencontraremos.
E assim, me despedi. Feliz, decerto, porém desapontado pela breve despedida. Mas não me recordaria deste sonho por algum tempo.

E, entretanto, a intuição proveniente deste encontro me foi guardada e, de alguma forma, ela se manifestou quando estive cara a cara com o bispo. Conversamos bastante e discutimos a teologia, pensando sempre em Deus.
--Tenho uma excelente impressão sobre você--ele me disse, satisfeito--É demasiado moço, mas isso não impede que Deus aja sobre você como tem agindo. A impressão que me tem é que Ele o quer que atue junto a sua Igreja.
--De fato, senhor--eu concordei, embora sem graça por ouvir aqueles lisonjas. Esperava apenas ser merecedor delas--E o que gostaria que eu fizesse?
--Sabe, muitos de nós pensamos que o cristianismo não é merecedor dos hereges e ignorantes, dos que lá fora cultuam demônios--ele disse, soando reflexivo--É de senso comum que a Igreja deva atuar dentro dos círculos do Império. O próprio imperador compartilha desta opinião e acha que nossa religião não deve ser imposta aqueles perdidos no escuro. Mas eu discordo e não é por questões puramente políticas, Augustus.
"Eu me preocupo com a alma daqueles bárbaros. Em sua ignorância, enxergam em qualquer objeto, animal e árvore centros de culto para o inexistente. Preocupam-se em arranjar explicações para si mesmos pela ausência de uma guia que os traga para a luz. Como podemos permitir que se percam na ignorância quando é nosso dever levar a ideia de Cristo aos nossos irmãos? Sim, pode surpreendê-lo que os veja como tais.
"Mas Cristo dizia para amar o próximo como a nós mesmos, e, apesar das desfeitas que Judas cometeu contra ele, não foi Nosso Senhor quem o perdoou e o amou? Não foi Ele quem instigou seus apóstolos a levar a palavra do Pai aos que o desconheciam para que assim soubessem de Suas várias moradas? Por que deveríamos nos aquietar e permitir que nossos irmãos permaneçam perdidos?
"Não, Augustus. Não concordo com esta situação. E é por isso que o enviarei às terras obscuras. Precisamos de apóstolos, de missionários, de homens de fé que tenham a paciência para converter esta problemática pela qual sofremos. Para derrotar os demônios, meu caro, é preciso de muita luz."
Na ocasião, estávamos nos aposentos do bispo, outrora simples e pouco ornamentados com nada além de uma cama, escrivania, cadeiras e uma cruz. A janela abria-se para a visão de uma Roma populosa, a capital do Império, embora deva-se dizer que não fosse tão limpa ou benquista. Mas me atentei muito pouco às características dos homens com quem dialogava ou com o cenário em que me achava, pensando, ao contrário, nas palavras daquele que logo mais seria papa.
--Nesse caso--disse eu, sentindo-me repentinamente confiante--aceito o desafio, senhor. Para onde pretende me enviar?
Apesar da jovem idade e pouca experiência terrena, não era tolo. Já havia colecionado vivências anteriores o suficiente que me permitiam enxergar o caráter verdadeiro que poderiam distinguir o lobo do cordeiro. As intenções do homem com quem me encontrava eram boas e inspiradoras, entretanto, será que elas permaneceriam intactas à mácula do mundo em que estávamos inseridos? De todo o modo, eu percebi que o bispo já havia conversado sobre este assunto, ainda que discretamente, com o senhor Aelius e, como eu suspeitava, sem o consentimento prévio do imperador. Não importava, porém: meu destino estava selado.
*                                                                            *                                                                            *
A viagem às terras longínquas da Bretanha foi tediosa e marcada por uma mistura de sensações que me inquietavam. Não se tratava de questionar a missão divina, sequer de duvidar da capacidade em levá-la a cabo, mas da falta da confiança em mim mesmo. Lembrem-se que ainda sofria influência da matéria. Portanto, era natural que temesse o futuro incerto, desconfiasse de mim mesmo e, não obstante, desse vazão às paranoias: tais eram permeadas pelos boatos, de certa maneira infundados, de que lidaria com selvagens imbecis sob o rígido rugo de demônios.
Passava pela minha mente, entrementes o medo que não cessava de arrombar meus pesadelos à noite  e aquietar-me no decorrer do dia, que lidaria com selvagens brutos. Muitos talvez saibam que este conceito foi desenvolvido paulatinamente nas obras kardecistas, tratando-se não dos índios e outros povos (como alguns de vocês erroneamente supuseram), mas de indivíduos completamente ignorantes, primitivos em crenças e pensamentos. Pois bem, dada esta explicação, aproprio-me desta concepção para ilustrar meus temores, mesclados, sem sombra de dúvida, ao contexto do império romano que tão preconceituosamente excluía e classificava outros povos conforme os subjugava.
É certo que os leitores que se interessarem pela História deste período poderão contestar a veracidade deste meu conto porque, em termos documentais, está registrado que a inserção do cristianismo foi amplamente aceito no século seguinte, e mesmo assim, tardiamente, quase no decorrer de alguns decênios do século VI. Asseguro-lhes, porém, de que não somente a História foi e continua sendo documentada e mapeada pelos "vitoriosos", como também de minha parte não há mentira alguma. Sendo assim, ressalto igualmente que, infelizmente, pouco se chegou aos dias desta nova contemporaneidade sobre os tempos em que vivi.
Prossigo, portanto, com a estória. A Inglaterra do século V foi recentemente conquistada, na verdade, estava ainda em processo de conquista, por duas tribos provindas da Germânia: os anglos e os saxões. Ambos adoravam deuses de nomes como Loki, Odin, Freyja, Balder, etc, embora a partir de nomeações diferentes, pois vinham de regiões distintas. Nesse sentido, as crenças os norteavam, tais como fariam mais tarde com os vikings, a se dissiparem tais quais a dominarem outras terras em decorrência do excesso populacional que se manifestaria por séculos nas regiões nórdicas. Pois bem, a Inglaterra não mais fazia parte do Império Romano e por muito tempo esteve abandonada. No entanto, os romanos que persistiram em manter-se por lá não eram de todo cristãos ainda. A pluralidade de crenças mobilizava um território disperso: a Inglaterra, que recebeu o nome de Angla-Landa na linguagem anglo-saxã (e que, por sua vez, significava terra dos anglos), passaria a formar cinco reinos distintos: Northingham abrigaria ainda o que no presente é reconhecido geograficamente como sul da Escócia; Kent, a região um pouco mais abaixo, porém, mais larga do que a cidade que segue seu nome atualmente; Sussex, que seria dominada amplamente por outra parte da tribo saxã (e cujo nome significava saxões do sul); Mercia e, a mais conhecida de todas, Wessex.
Quando estava a chegar, o líder tribal chamado Cerdic, por assim dizer, vencia violentamente as últimas resistências romanas, dando aval para que cada reino, portanto, se formasse. Não o conheci naqueles tempos, embora ouvisse falar dele constantemente, e só o encontraria no plano espiritual para ajudá-lo a se desapegar dos valores materiais inculcados em seu espírito. Pois bem, como dizia, este cenário bagunçado era a Inglaterra que me encontraria, daquele tempo tão longe dos que agora leem esta memória minha.
Mas não me prolongarei mais: como dizia, a jornada foi tortuosa e não escapei dos preconceitos. Para tudo há um propósito, porém, e isso é sabido. Aportei em Dover, ou o que era Dover então, localizado no sudeste de Kent, o reino que, largo em território, abrangeria outros espaços que na posterioridade seriam abarcados pelos mercianos. Seu rei, cujo nome não me cabe revelar, era, a bem da verdade, mais um líder tribal que recebeu tal titulação porque era mais forte que os demais. Nestes tempos, não existia perspectivas de poder de maneira que formassem os Estados como séculos mais tarde, como este não era exclusivamente concentrado em uma pessoa só. O rei O... dependia de companheiros que, numa oportunidade, poderiam desbancá-lo. Não havia padres, sistemas organizados: a própria cultura, suas formações, eram dadas originalmente. Não os julguem pela capa, porém: a História marcou tais tribos como voltadas exclusivamente para a violência, com um certo desdém pela crença politeísta.
Espiritualmente falando, esta fé em entidades plurais nada mais era que uma fé que ligava aqueles espíritos perdidos a outros de esferas que poderiam ser superiores ou inferiores. Como exemplo, a deusa do amor que cultuavam nada mais era que o espírito de uma feiticeira que, em eras mais antigas e de outras dimensões, se apoderou de seu poder por vias não muito benéficas. Entretanto, ela poderia atuar como uma entidade a serviço de Deus se optasse por buscar seu melhoramento. E passou a fazê-lo quando adquiriu consciência do bem que poderia causar a fim de remediar o mau que provocou. Contudo, foi associada, pela ignorância dos homens, a uma "deusa". A lógica foi a mesma para outros nesta categoria, e foram necessários porque aproximava, de certa maneira, os indivíduos perdidos ao Deus uno. Não à toa, estes mesmos sujeitos reencarnariam em tempos ainda sombrios, porém marcados por uma religiosidade mais "racional", na época das Reformas Protestantes.
Como dizia, o rei O..., um sujeito alto e de complexões que remetem muito ao alemão típico de cabelos louros e olhos azuis, me receberia em pessoa assim que soube do desembarque de um estranho em vestes ainda mais estranhas em suas terras. À primeira vista, quando o barco em que me encontrava aportou nas areias de Dover, quatro homens em vestes tribais (isto é, desnudos da cintura para cima, calções largos e, em uma mão seguravam uma lança, na outra via-se escudos de portes diferentes) com expressões ferozes vinham a mim. Estava acompanhado de dois assistentes designados pelo bispo, Petrônio e Octávio, e ambos temiam a visão daqueles "pagãos". Agarravam-se à cruz que levavam consigo em colar e murmuravam preces em latim. Silenciei-os prontamente, e aqui minha personalidade de guerreiro (que o leitor haverá de recordar de leituras prévias, se tiver sido atento) se mostrou útil.
--Sejamos corajosos--repreendi-os--pois obedecemos às ordens de Cristo. Do contrário, seremos tão impuros quanto estes infiéis.
Com isso, os dois rapazes, também de minha idade, assentiram e se aquietaram. Creio que por inspiração divina, consegui me expressar mesmo sem o domínio da língua. Tentarei, desta forma, reproduzir o diálogo que tive com o líder destes guerreiros:
--O que querem?--indagou aquele que me parecia ter mais influência sobre os demais, um rapaz de idade aproximada à minha e cujos cabelos pretos recaíam à cintura, possuindo, além disso, uma barba preta tão longa quanto. Seus olhos eram, por contraste, mais claros, de um verde que se assemelhava à grama molhada que enfeitava o monte da paisagem. O rosto, franzino, mostrava cicatrizes que indicavam experiência em batalhas. Seu corpo, forte e musculoso, também colecionava marcas provocadas pelos encontros bélicos dos quais participara, mas presumi que seu temperamento rude foi o que rebaixara sua posição: um guerreiro forte como ele não seria designado a meramente vigiar as fronteiras dos reinos tribais e sim a lutar ao lado de seu rei. Deveria ter feito algo para estar ali. Ademais, um pressentimento inspirado por meu anjo protetor pedia que fosse cauteloso.
Assim sendo, limpei a garganta e, oferecendo o mais amigável dos sorriso, falei:
--Viemos de longe, de terras longínquas, para tratar com seu líder.
O rosto deste homem não se amenizou diante de minha simpatia. Ao contrário, suas desconfianças pareceram aprofundar-se. Ignorei o medo que meus colegas inspiravam e tentei novamente:
--Deve estar ciente de que nós, eu e estes bravos homens que aqui me acompanham, não somos provenientes de outras tribos que possam ser inimigos das suas...
Ele, enfim, me interrompeu:
--Estrangeiros.
Foi tudo o que disse e, em sua língua estrangeira, ordenou que fôssemos levados ao seu chefe. No decorrer do caminho, Petrônio sussurrou próximo ao meu ouvido:
--Não sabia que falava a língua destes selvagens.
--Quieto--sibilei--Não é o momento de conversávamos.
Era verdade que eu também me encontrava surpreso pelo que se desenrolou: como poderia falar um idioma que não dominava? Deus claramente sabiamente o que estava fazendo ao inculcar-me por intuição, através de um guia espiritual que outrora vivera naquele espaço, o uso da língua com tranquilidade.
O caminho até a tribo que configuraria no grande reino de Kent seria longo. Atravessaríamos, todo o grupo em silêncio constante e permeado por tensões de ambas as partes (já que temíamos ser atacados da mesma maneira que aqueles homens esperavam algo de nós), bosques, andaríamos por velhas estradas romanas até nos depararmos com a vida no centro do local.
O vilarejo com o qual viemos nos deparar crescia exponencialmente, construções eram erigidas, quando não aperfeiçoadas, pelos saxões do oeste. Templos romanos, outrora voltados para deuses não mais cultuados em Roma, eram adequados para receber seus novos hóspedes divinos: pedra sobre pedra, pinturas estranhas e outras tantas manifestações respeitosas à natureza caracterizavam aqueles centros de devoção politeísta. A manifestação daquele tipo de fé me chamou mais a atenção do que a arquitetura local: cada mulher, acompanhada de algum parente ou amigo, visitava correntemente os vários templos em lugares diferentes com um semblante bastante sério. Acreditavam firmemente nos deuses que, de suas casas régias, determinavam o destino dos homens, prontos a decidirem se mereciam castigos ou louvores.
Fiquei triste, embora igualmente impressionado, pelo que vi. Thor, por exemplo, não passava de um espírito guerreiro cuja vaidade culminou num culto desproporcional. Hoje em dia, é verdade, ele foi apropriado pela cultura de um povo morto e renascido de maneiras mais sutis. Talvez, suas intenções fossem boas, mas a vaidade não é um traço para ser louvado, certamente. De todo modo, estas coisas que lhos digo é porque as aprendi no plano espiritual, logo após meu desencarne. No entanto, não são os "deuses" o foco da minha memória ainda que lhes cause curiosidade.
Como ia dizendo, a religiosidade daquele povo me capturou a atenção: sua fé era intensa, eu podia sentir a energia dela. Na maior parte, era genuína e de bom coração, não reflexo de espíritos presos às necessidades materiais, conquanto tampouco significassem mérito de alta evolução. No entanto, pouco tempo tive para me deter e apiedar-me daquela gente que se perdia no que eu qualificava, pelo viés do "pré-conceito" da época, de ignorância obscura, afinal, o guerreiro enraivecido me levava ao seu líder.
A analogia de locações régias aqui se faz pobre, infelizmente, porque ao pensarmos em "castelos", somos levados às construções arquitetônicas que marcaram belamente o período medieval. No entanto, ainda estávamos na transição da Idade Antiga para a Idade Média e com isso as obras não eram tão adequadamente produzidas como na posterioridade, o que não configurava regra para todos os reinos e todos os povos, é claro. Neste sentido, o castelo deste líder tribal, ou rei de Kent se assim optar por designá-lo como tal, era, em sua essência, feita de madeira e palha. Em seu interior, não inspirava o luxo que marcava, por contraste, as residências de imperadores romanos, ou mesmo o ambiente no qual vivia o soberano de seu povo. Mesas longas ocupavam o espaço e um grande barulho ecoava das pessoas que sentavam-se nelas: homens barbudos e sujos, mas que em seus braços usavam braceleiras e outros tipos de joias, ostentavam o prestígio que era beber e comer sob a vista do rei.
Este, cujo nome não me foi permitido revelar, achava-se acompanhado de uma bela mulher que, curiosamente, me inspirava uma familiaridade. Mas concentremo-nos na figura régia de seu esposo: o líder O... era alto e dava indícios de que um dia havia sido celebrado pela beleza, mas o cansaço em suas faces rosadas e na acumulação de gordura em seu corpo prenunciavam uma queda de status. Sua bravura deveria ter sido motivo de respeito no passado, pois um homem como aquele não me parecia um guerreiro que saía constantemente em busca de lutas. A barba mal tratada cobria os lábios e chegavam à altura do peito, conquanto os cabelos louros quase prateados derramavam-se porcamente sobre corpo, num emaranhado de fios que confundiria a visão de um observador inatento. Seus olhos azuis indicavam cansaço, e eu não pude refrear o pensamento de indignação: como aquele era o rei de homens mais jovens e incansáveis? Era no mínimo curioso, levando-se em conta do que observei até então daquela sociedade que se expandia, que O... fosse ainda visto como autoridade máxima de seus súditos.
Sua esposa, porém, era o contraste! Beleza nunca me encantou tão fortemente! Suspeito de que os leitores mais observadores terão percebido o que aqui se passou. De cabelos louros escuros e trançados de forma qual que expusesse todo seu semblante oval, aquela mulher encarnava, porém, uma tristeza profunda, quase uma resignação de seu destino. Certamente não desposou seu consorte por escolha própria! E ai destes tempos, meus caros leitores, em que a lei do homem predominava sobre a lei de Deus! Ai daqueles que sofreram por não poderem amar! Ai daqueles que, ao contrário, subjugaram seus próximos em favor dos piores sentimentos para anular os mais sinceros!
Em suma, possuidora de olhos verdes escuros e pele rosada, trajava roupas adequadas à época. Tinha toda uma majestade em sua pessoa, uma firmeza que transpassava a infelicidade que rondava sua energia. Era digna e calma, mas seus olhos refletiam sua alma: não via propósito de estar em um lugar como aqueles, ainda que a postura régia lhe caísse bem. Sua presença contrastava com a dos homens e mulheres que permeavam aquele cenário.
Contudo, algo em seu olhar despertou quando me percebeu em meio a multidão e o mundo pareceu tomar um rumo mais lento conforme nós nos reconhecíamos e percebíamos um ao outro. Um leve, porém discreto, sorriso iluminou suas faces e o rubor que correu de seu pescoço para o rosto agraciou-lhe ainda mais. Meu coração, diante daquela visão, descompassou-se. Bateu forte, rápido. Em minha mente nada mais havia se não a figura daquela que me oferecia seu sorriso sincero e gentil.
Octávio, porém, observador, rapidamente me arrancou das ilusões que formavam em minha mente e disse:
--Somos homens de Deus. Falhos, é verdade, mas poderia tentar ser um pouco menos? Nossa missão, não a esqueça! Não seja maculado por tentações insípidas!
Franzi o cenho ao meu colega por ter chamado a bela rainha de "tentações insípidas", mas a verdade tão logo caiu sobre mim que era como se houvesse sentido uma espada cruzar-me a carne novamente. No que estava pensando? A missão que tinha para com Deus era mais importante e não deveria ser posta em segundo lugar, em prol de uma atração que eu julgava erroneamente ser passageira. Sendo assim, assenti em concordância e falei:
--Fala a verdade, irmão. Perdoe-me.
Não houve mais tempo para a conversa, pois o rei nos fitou e tão logo o guerreiro rude se aproximou, pressenti tensão entre as partes. Claramente, algo não estava bem entre eles e eu assumi que minha observação anterior estava correta: mas eu sequer poderia imaginar que aquele homem de constituição rude seria o responsável por ceifar a vida do soberano mais tarde.
--Quem é você?--o chefe tribal encarou seus olhos ferozes rumo em minha direção, e algo em seu olhar me fez arrepiar.
Novamente inspirado, gaguejei em sua língua nativa:
--Augustus, meu senhor. Venho de Roma, enviado do imperador....
--Não quero saber de Roma!--ele esbravejou, e seu tom pareceu trazer a atenção dos bêbados que o ignoravam de volta a ele--Vá embora!
Octavio e Petrônio trocaram olhares significativos, mas não desistiria fácil.
--Poderia inquirir por que não gostaria de conhecer o império mais poderoso do mundo?
A rainha achou melhor intervir e sua doce voz ecoou como uma melodia ao falar:
--Que sejam acalmados os ânimos, meus senhores. Meu marido, acredito que seria traição aos deuses se desonrássemos os convidados.
Um murmúrio foi ouvido e o rei, insatisfeito, concedeu:
--Muito bem. Sejam bem-vindos a minha casa, mas recomendaria cautela e prudência ao se dirigir a mim!
Contendo um suspiro e domando ainda o pouco do orgulho que insistia em cravar suas garras em meu espírito, baixei a cabeça e concordei. Allana, o nome de sua bela consorte, veio nos receber em pessoa, cumprindo com o papel de rainha:
--Meus senhores, fico feliz de receber notícias de Roma depois de tanto tempo ter-nos dominado. Pensei que em posterior abandono, não haveriam de regressar.
A isso, arqueei uma sobrancelha. Claramente ela possuía um temperamento, o que havia me surpreendido, pois a julgava ser alma calma e sábia. E, no entanto, logo mais pagaria com meu julgamento pois nem sempre o temperamento significa ausência de tais qualidades.
--Viemos com outro propósito--eu disse, ainda inseguro sobre a conversa que ela insistia em ter conosco partindo do princípio de que falava bem saxão quando, ao contrário, era inspirado a parecer que sim.--Nada tem a ver com as políticas que opõem grandes reinos.
--Grandes reinos--ela repetiu com um quê de desdém, embora todo o tempo fosse polida. Eis que ela surpreende a mim e a meus colegas falando em latim--Não ajam como idiotas, não me tratem como uma. Kent sequer pode ser chamado de reino, embora tenhamos a pretensão de fazê-lo como tal. Ele vem crescendo, é verdade, porém, estamos atentos a uma possível ameaça do leste. Está ciente de Cerdic, meus senhores? Cerdic, o Saxão? Expulsou o restante dos romanos que ousaram permanecer nesta ilha outrora chamada de britânica pelos celtas.
--É sábia para uma mulher!--meu colega teve a infelicidade em expressar o que qualquer um pensaria naqueles tempos, mas a rainha Allana o encarou com indiferença.
--Sou a herdeira de meu pai, e ele quis que sua filha, mãe de descendentes que carregassem seu sangue, transpassasse sua sabedoria. Não confundam beleza com ignorância. Venham... Aqui não é lugar para tratar de negócios.
E, sem esperar uma palavra de nós em resposta, levantou-se e saiu de cena. Seu esposo juntava-se a um grupo de beberrões em tal estado de leviandade que se esqueceu de que tinha visitantes em sua "corte". Octavio, por sua vez, temeu que ela fosse uma bruxa e alertou-me para o perigo de uma possível enrascada. Não dei ouvidos aquela asneira e, impaciente, instiguei-o a seguir-me. Petrônio o fazia sem questionar-me, porém.
Aquele castelo de palha era maior que pensava e logo eu e os rapazes fomos surpreendidos por um corredor relativamente largo antes de avistarmos os guardas que acompanhavam a bela rainha. Allana aguardava-nos com paciência antes de nos guiar aposento adentro para que pudéssemos conversar, embora não fosse tola em excluir seus seguranças. Mal prestei atenção aos detalhes que compunham o cenário do qual fazia parte, embora a luz de velas marcasse o ambiente e refletisse uma relativa pobreza de móveis que sequer merecia comparação aos que me acostumei a utilizar em Roma. De todo modo, havia lugares para todos nos sentarmos e meu olhar estava tão petrificado pela doçura que mesclava-se em falsa arrogância de Allana que não prestei atenção no desconforto dos outros ao nosso redor.
--Percebi que é o líder do seus--ela comentou, encarando-me com tamanha profundidade que eu, à época completamente convicto na falsa concepção de inferno, pensei sentir o fogo do diabo penetrar em minha carne. Mas lutei com meus demônios, pois esforçava-me em concentrar na missão que Deus bondosamente me concedera--Fale, pois, quem são.
Eu assenti e obedeci:
--Augustus é o meu nome, e estes são Octavio e Petrônio. Viemos de Roma, fomos sacramentados pelo bispo maior. Servimos a Cristo e, claro, ao Imperador.
Allana jogou a cabeça para o lado e sua trança seguiu movimento similar; as joias que enfeitavam em seu corpo tintilaram levemente. Havia um reconhecimento de seu espírito ao que falava, mas seu corpo não conseguia perceber sobre o que era.
--O imperador romano se chama Cristo?--indagou a rainha, confusa--E quem é, por Hella, esse bispo de quem diz servir?
Com paciência, expliquei detalhadamente quem havia sido Jesus de Nazaré, o Cristo que foi sacrificado para salvar a humanidade de seus pecados; como a crença em Sua pessoa, filho de Deus encarnado homem, foi motivo de várias perseguições por sujeitos cegos de poder e ambição que acreditavam ser eles mesmos deuses, quando não descendentes de divindades inexistentes. Nesse instante, pensei que seria interrompido: vi um brilho de dúvida pairar naqueles belos olhos verdes, uma inquietação que parecia gladiar contra suas próprias crenças. Mas como me permitiu falar, fui estimulado a falar muitíssimo mais da trajetória de Jesus, esquecendo-me do motivo "diplomático" para o qual eu e meus colegas fomos enviados. Entretanto, em retrospecto, aquele pequeno passo era exatamente aquilo que meus superiores desejavam que fizesse. No decorrer do século V e até antes da ascensão de Carlos Magno, a pregação era por viés da paz e sem qualquer uso da violência por mais que vivêssemos em tempos sombrios, ainda fortemente influenciados pelo descabimento de força daqueles espíritos apegados à carne.
Abordei, em minha fala, a história de todos os apóstolos que acompanharam Jesus e como a santidade de cada indivíduo que o seguiu fez milagres, e continua fazendo, demonstrando assim a onipotência e onipresença de Deus, Nosso Senhor. Também aproveitei a chance de explicar como Deus era três em um: pela linguagem da época, me esforcei arduamente em distinguir Nosso Pai da crença politeísta que marcou profundamente a (Grã)Bretanha medieval. E, finalmente, contei dos superiores: dos bispos que, em breve, seriam papas.
--É muito impressionante tudo isso que me contou--disse Allana, assim que me calei--Estou incomodada, não vou mentir. A paixão e devoção em seus olhos fê-me claro porque veio a nós, porque Roma, de repente, decidiu retornar sua atenção a um povo que não mais lhe obedece. No entanto, ainda assim, vejo-me obrigada a perguntar--e aqui ela olhou para cada um de nós--o que querem aqui. Estão em uma terra de outros deuses, de domínio selvagem e independente. Os primeiros povos que habitaram, meus ancestrais, morreram sob o jugo romano. Não espera que eu acredite que vieram em paz porque supostamente o seu deus prega esta palavra.
Não sabia como responder àquele argumento, posto que foi colocado docemente, com sutileza, mas também com razão. Eu sabia que ela entendia, para não dizer que reconhecia, o propósito pelo qual estava naquelas terras. Também estava ciente de que, embora houvesse uma grande chance de aceitar e converter-se, a dificuldade apresentava-se e sobrepunha-se ao desejo de ambos em fazer acontecer. Afinal, éramos minoria.
--Mas não somos como os romanos pagãos--disse Petrônio, de repente, surpreendendo a todos nós pela quebra de seu silêncio--Embora os bretões sejam desprezados pelo império, nós, como servidores de Cristo, estamos empenhados em mudar esta situação.
--Deseja que nós esqueçamos a crença de nosso povo para abraçar a de um que nos subjugou por tanto tempo?--inquiriu a rainha, embora em sua voz não houvesse raiva ou desprezo ao direcionar-se ao meu colega.
Para minha surpresa, Petrônio foi calmo e gentil ao responder:
--Pedimos apenas uma chance, senhora, de apresentarmos outro mundo para seu povo. Não há necessidade de relegar ao esquecimento a tradição da família de cada um de vocês. Vejo em sua pessoa o sangue bretão que não corre no sangue de seu marido estrangeiro. E, ainda assim, cá está. Abraçou os deuses dele, mas certamente não olvidou-se dos seus.
Ela pareceu ponderar a palavra de Petrônio quando ouvi Octavio dizer, surpreendentemente no mesmo tom:
--Há somente um único Deus, senhora. Mas Ele fala pelos seus, que, embora não o sejam, estão ligados a sua família.
Lentamente, comecei a compreender o que eles esforçavam-se em expressar, mas talvez não tivessem palavras ainda para isso: se inseríssemos a cultura cristã junto à pagã, não tardaria para facilitar uma conversão mais rápida daquele povo. Na verdade, a própria Igreja Católica faria isso no decorrer dos séculos até os dias da Reforma Protestante: apropriaria-se de valores e costumes de sociedades previamente politeístas para expandir seu poder. No século XI, por exemplo, ainda na Inglaterra os cristãos iletrados consultariam padres (igualmente iletrados) cristãos para expulsar um elfo ou outra criatura mística de suas casas, como também rezariam para outros deuses (mais tarde transformados em santos, como o caso de Brigida da Irlanda) se Jesus ou outro apóstolo não lhe fornecesse solução. Isso, na verdade, culminaria na cultura popular que ainda hoje em dia perdura em outras formas, mas que à época era a expressão de ignorância de sociedades espiritualmente primitivas.
--Posso falar com meu esposo--Allana enfim cedeu--mas nada garanto que obtenham sucesso sobre a missão de vocês aqui.
--Obrigado, senhora--disse Octavio, alegremente, evidentemente tendo se esquecido de que ela possivelmente era uma feiticeira--Foi muito gentil em receber-nos. Que Deus a proteja.
Ela assentiu solenemente.
--No entanto, é meu dever alertá-los de que estão lidando com descendentes de Odin, Thor e Loki. Cuidado com as palavras.
E, assim, sem qualquer despedida, seguimos caminhos diferentes. Observei aquela trança dourada cair enfeitada em sua costa enquanto Allana caminhava com todo o esplendor que sua posição lhe concedia. E sorri comigo mesmo porque aquele reencontro de almas aconteceu.
*                                                                               *                                                                            *
Não foram dias fáceis, de fato. Pensar em Allana era o que me inspirava a ter paciência com os selvagens que recebiam a mim e meus colegas com desdém, para não dizer ódio. Não raro me repreendia por tê-la em meus pensamentos, e o fato de ter impureza neles me assustava. Por outro lado, o trabalho da caridade tinha o efeito de sobrepor-se a tais sensações emanadas da carne e acabou me aproximando também dos colegas que, na verdade, eram amigos de existências precedentes. Sim, meus caros, são os mesmos espíritos que me acompanham desde a minha primeira encarnação na África antiga.
--Confesso achar um absurdo, para não dizer ofensa, que essa gente ache enfadonho morrer crucificado--confessou-me Octavio, em tom de lamurio--Preferem morrer em batalhas e ir a este lugar que chamam de Valhala a fazer companhia a Nosso Senhor! A ameaça do inferno sequer os abala!
--Entendo sua decepção, meu estimado amigo--falei, contente de poder chamá-lo assim--Mas assim é a vida. O Verbo que se fez carne e habitou entre nós... não foi tão prontamente aceito por seus semelhantes. Não foi ele constantemente rejeitado até ser aceito e seguido pelo próprio império que o crucificou?
--É um bom argumento--concordou Petrônio, reflexivo--Mas entendo também que Jesus de Nazaré sofreria das mesmas injúrias aqui. Veja como esse povo trata o doente, o velho, o incapaz de morrer segurando uma espada.
--Somos todos falhos--limitei-me a concordar--Um dia, no entanto, isso mudará. Não devemos desistir de nossa missão, meus amigos. Uma hora o fruto será colhido.
Mas a situação ficava cada vez mais complicada, não necessariamente quanto a mim e aos padres que me seguiam nessa empreitada. Como Allana, a rainha, havia dito, Kent estava se expandindo e isso significava guerras e apropriações, subjugações e outros tipos de violência que marcariam a ascensão daquele reino. Para os que ficavam ajudando os camponeses a lavrarem suas terras, como eu e Octavio e Petrônio, porém, víamos de perto outra ameaça surgir: a interna. O guerreiro que nos recebeu logo de princípio chamava-se Oeric e, como eu suspeitava, não tardou a rebelar-se contra aquele que se chamava de "rei". Matou-o, portanto, e foi aceito como o novo rei. Desposou Allana, que a tudo isso se viu forçada a aceitar tão gentilmente quanto possível.
Foram dias bastante difíceis, pois os guerreiros que foram dominar as tribos provindas de Jutlândia voltaram bravos e com alguma razão. Uma guerra civil não tardou a eclodir e eu e meus colegas, que não éramos guerreiros e nem poderíamos ser por determinação da classe social da qual fazíamos parte, fomos forçados a nos esconder.
--Não gosto disso--uma vez confessei, ciente de que estava dando voz ao orgulho que insistia em escapar do meu controle--De ficar aqui, quando poderíamos estar ajudando aqueles pobres coitados lá fora.
Octavio, porém, disse algo sensato, ainda que pudesse parecer frio para os mais sensíveis:
--Eles foram criados para enfrentar este tipo de situação. Muitos preferem morrer empunhando uma espada a esconder-se aqui. Não é o deus deles que vai lhes ajudar ou remediar a situação dependendo de como correr?
Estávamos numa tumba subterrânea, cercados de protegidos da rainha Allana. Todos eles falavam energeticamente e, de vez em quando, encaravam-nos com a testa franzida.
--Não acho que são merecedores disto--eu falei--Estão perdidos.
--Ninguém disse que eles merecem morrer--retrucou Octavio--mas é fato que vivem para a morte, buscando-a com vontade ou não. Sinto pena destes pobres bastardos, recordam-me daquele celta filho de escravos que nos atormentava.
--O que será de nós?--indagou Petrônio--Na melhor das hipóteses sairemos vivos daqui, mas me pergunto se conseguiremos deixar este lugarzinho a que chamam de Kent.
Nenhum de nós três falou: era como se sentíssemos a sombra da morte pairando sobre nós, como se fôssemos avisados de que o fim estava próximo. Fechei os olhos e rezei. Pedi com todo o coração para que Jesus tocasse as almas daqueles homens e apaziguasse a guerra que tão tolamente travavam uns contra os outros. De alguma forma, a prece me trouxe uma resposta na figura da rainha Allana. Um arrepio percorreu meu corpo ao vê-la novamente.
--Ah, padres cristãos--ela nos recebeu com um risinho, embora em seus olhos houvesse o cansaço e o medo--Estão vivos aqui, vejo. Devem ser muito estimados pelo deus de vocês para saírem intactos daqui.
--Senhora Allana--eu falei, honradamente--creio que veio nos trazer boas novas?
--A luta cessou--comentou a rainha em sua voz solene--E Odin determinou que nosso rei o acompanhasse à Valhala.
Apesar dos suspiros que ouvi de meus prezados irmãos de alma, aquela notícia por si só não me surpreendeu: a causa de minha surpresa, na verdade, repousava na descrença com a qual aquela mulher se referia aos seus próprios deuses. Teria eu tido alguma parte no despertar de seu verdadeiro ser, o crente no Deus uno em pessoas três?
--Entendo--disse, sem lamentar verdadeiramente pela morte de tal ser--E quem agora será o rei?
Aqui, ela sorriu:
--Permitiram que eu governasse até decidirem meu próximo esposo.
Chocado, não pude dizer outra coisa que não refletir o preconceito cristão da época:
--Você governará esta tribo?
Com um risinho, Allana disse, sem desvir de mim seu olhar penetrante:
--Serei aconselhada, é claro. Um grupo de homens da minha confiança me acompanhará neste quesito. Não posso incluí-los, infelizmente, mas gostaria de tê-los comigo de todo o modo.
Sorri humildemente e me curvei a sua presença.
--É claro, senhora.
--Mas como é possível?--exclamou Octavio, ecoando meus pensamentos.
Allana o encarou, um pouco fria em suas maneiras:
--Acompanhei dois reis, meu senhor, e com eles desempenhei bem o papel que Freyja achou adequado me conceder. Por que seria diferente? Não sou incapaz e conheço as regras de meus súditos tanto quanto daquelas que regeram a terra dos meus ancestrais. Pensei que o Deus de quem tanto pregava visse com bons olhos esta ação, afinal, um Pai não ama a todos sem distinção?
Octavio corou e ouvi Petrônio conter uma risadinha, mas eu a observava com a devoção de um amante.
--Pois bem, homens cristãos, sigam-me--ela ordenou e, em silêncio, a seguimos.
Era verdade que ninguém ali recebia bem nossas pregações, dificultando e muito nossa missão. Quando voltamos ao grande salão onde a "nobreza" que elegeu Allana como rainha da tribo se encontrava, fomos vistos com desdém e a nós foram dirigidos muitos olhares fulminantes. Eram pessoas ignorantes, que temiam o que desconheciam. Por outro lado, se aumentava a indiferença com a qual alguns nos tratavam, posso dizer que minha esperança crescia na mesma proporção de que o tratamento tornasse-se afetuoso a ponto de abraçar a causa cristã. Mas como eu sabia tão pouco! Quão ingênuo eu era!
A festa se decorreu tranquilamente, porém: éramos ignorados e mesmo a rainha dava-nos pouca atenção, mas disso não tinha qualquer culpa por ser requisitada por homens e mulheres de estações mais baixas que precisavam de favores seus.
--Até pouco tempo atrás eles se odiavam mutuamente--comentou Petrônio comigo--e, no entanto, agora se abraçam como se o ontem nunca houvesse existido.
--A paz é sempre bem-vinda--confabulei--até porque, por mais barbáries que pudessem ter sido cometidas, ninguém gosta de se matar a troco de nada.
--A questão é: até que ponto esta paz vai durar?
Petrônio, de idade similar a minha, detinha mais sabedoria do que uma inspeção a sua aparência na primeira vista poderia conceder. Franzino em corpo, possuía um rosto firme e olhos decididos, mas que lhe davam um ar introspectivo; seu nariz era longo, porém torto em decorrente de um soco de um adversário que o quebrou quando era criança. Seus lábios vermelhos eram finos e secos, e faltavam-lhe alguns dentes. Era observador e calmo, tranquilo em aspectos e, por mais que refutasse, tinha uma fé mais racional. Aprendeu a ser paciente e viveria mais do que nós todos, chegando a conhecer e trabalhar com Santo Agostinho.
Quanto a Octavio, também ele possuía um aspecto intelectual, embora lesse pobremente devido a um problema de visão que nos dias presentes os médicos classificariam de grau agudo de miopia. Era calvo desde a juventude, seus olhos castanhos transmitiam a calma que, não obstante, por vezes davam vazão a um temperamento antigo. Assim como Petrônio, Octavio era sábio, porém, ao contrário de nosso amigo, era mais propenso a seguir as emoções. Não era detentor de má índole e tinha algo de protetor para comigo.
Juntos, os três éramos próximos pela longa convivência e afinidade que não se prendia àquela existência. Estávamos em constante aprendizado e cada um possuía algo que faltava ou complementava o outro. Era por isso que seguíamos quase sempre os mesmos caminhos.
--Devo dizer que a paz aqui não é tão estável quanto poderia ser em Roma--comentei--embora os imperadores vivam se matando em busca de poder.
--O império não é mais o mesmo, Augustus--disse Octavio.
--Ah, sem dúvida que não--e falávamos anos antes de sua queda--Os germânicos vêm ocupando cada vez mais os territórios do imperador, isso sem dizer que não há mais a preocupação de outrora em governar os súditos de longe.
--É uma questão complicada--disse Petrônio, soando indiferente--Políticas não são assuntos nossos para resolver.
E ele não estava errado nessa afirmação. Éramos homens servindo a Cristo e nada mais importava. Por mais que ser padre pudesse estar maculado às questões da época, o que só mudaria no primeiro decênio do século XI, ainda havia aqueles que resistiam. No meu caso, porém, até quando resistiria? Em tudo o que eu fazia em Kent, fazia com devoção e pensamento voltado para os ensinamentos em Cristo. Contudo, nada me distraía de Allana, e estar separado dela era um pesar para o meu coração. Depois deste dia de festividade em que se comemorava o início de seu reinado, cada vez menos nos víamos. De longe, observava como era imune aos desejos da carne: via como os homens a desejavam, como sua presença os encantava. Isso não me causava qualquer ciúme, pois aquela não era mulher de possuir apenas para satisfazer os desejos carnais. Não me sentia inseguro em qualquer campo afetivo, não pela vaidade ou orgulho, mas porque em meu íntimo confiava na afinidade de nossas almas. Cada um de nós seguia suas respectivas missões que Deus nos designou em sua sabedoria divina, mas eventualmente nos encontraríamos de novo. Havia paz ao olhá-la e admiração quando a via ser cortejada por tantos que almejavam um trono também ao seu lado.
--Você não devia se apaixonar--censurou-me Petrônio, ao ver-me mirando a rainha loura que governava seus súditos com dignidade--Cuidado com a tentação da carne--ele alertou.
Senti raiva pela primeira vez desde que havíamos aportado àquela terra estranha, mas sabiamente a contive. Mordi a língua, e, ao contrário, repliquei calmamente:
--E por acaso demonstro ter cedido a ela?
Petrônio corou, visto que em todos aqueles meses--oh sim, perdoem-me pela falta de tato, mas o tempo correu bastante desde então--eu cumpri firmemente com meu propósito. Embora houvesse conquistado a simpatia de alguns poucos camponeses, não havia tido sucesso em converter nenhum deles. Isso não quereria dizer, contudo, que houvesse desprezo mútuo das partes quanto a isso. Deixem-me reproduzir uma conversa que tive com um senhor de 35 anos chamado Aelio.
--Sou neto de romanos--ele me disse, explicando-me porque seu nome diferia tanto dos outros--por isso, tomaram-me como servo, escravo, o nome que preferir dar a condição que estou aqui, na fazenda do braço direito da rainha. Meu orgulho não será esquecido, por isso a língua latina me é fortalecida pelas histórias que guardo de meus ancestrais. Entenda, filho, eu respeito muito alguém que tenha se sacrificado pela humanidade... e concordo que o amor possa curar tudo, mas não explica por que tantos de nós passamos pelo que passamos.
"E, veja, não estou reclamando. É claro que me sinto ofendido por ter sido subjugado por um bárbaro em minha própria terra e sido impedido de procriar com outros de meu sangue, tendo sido obrigado a desposar uma ruiva da laia deles. Por outro lado, acredito que haja algum propósito nisso. Somente os deuses sabem e tecem os nossos destinos. Não existe acaso, e é por isso que nada temo."
--Por que não fugiu?--eu indaguei--Por que não tentou encontrar um meio de voltar à pátria de seus ancestrais?
--Os deuses assim não quiseram--ele respondeu, simplesmente, com um dar de ombros--E veja, filho, é assim que as coisas são. Como falei, há um propósito e só saberei disso no dia que eu morrer. Não tirarão de mim a minha dignidade, as tradições e os costumes pelos quais me educaram. Você me disse que o orgulho é um vício que mata, e pode ser que tenha razão nisso aí: vi vários homens cometerem tolices em nome disto que chama de orgulho. Para mim, entretanto, é o que me resta. Ou de mim não farão homem ou escravo, mas um bastardo. E isso é intolerável.
Compreendi que o orgulho era sua única defesa diante de tudo pelo qual passou: desde que a ilha britânica havia sido abandonada pelos romanos, várias invasões de tribos germânicas tornaram-se frequentes. Aelio resistiu, mas não foi tolo para oferecer sua vida em  troco de uma morte supérflua. Sua resignação, porém, mostrava a força de um espírito que via mais do que a carne lhe impunha e isso o faria uma grande personalidade em encarnações seguintes. Não cabe a mim aqui contar quem foi.
Pois bem, havia sabedoria nos lavradores, nos comerciantes, nos guerreiros. Nos mais simples, nos que conviviam com o luxo. Isso me deixava atônito, pois a visão que tinha daquele povo entrava em conflito com o que me havia sido ensinado. Não concordava com seu culto, mas aos poucos compreendia que seu politeísmo era tudo o que tinham, pois em sua concepção haviam sido esquecidos por Cristo.
Uma vez, isolado de toda aquela gente, decidi voltar às origens: à praia, onde tudo começou. Senti que estava sendo vigiado, pois mesmo depois dos meses que viraram anos, ainda era um estrangeiro, um espião, ou o que quer que fosse. Sentei-me na areia, porém, e fiquei ali observando as ondas. O azul do mar era cultuado porque aquela realidade lhe tocava, alcançava e oferecia alguma explicação. E, de fato, nenhuma força da natureza é inativa por si só, há todo um princípio, uma força que a comanda. Os espíritos bondosos assumem falanges confundidas com deuses, é fato, mas isso era necessário para a época, para aquele que tinha um coração puro. Sim, mesmo ali, eu encontrei com uns cuja pureza me encantava.
Assim, perdido nos pensamentos, não vi a rainha chegando e quase pulei quando a vi sentar-se ao meu lado:
--Senhora!--eu exclamei, assustado--O que faz aqui?
Ela deu um riso solto. Seus cabelos não estavam presos em tranças, caindo em cachos bagunçados que a embelezavam ainda mais. Apesar do rubor em suas faces e o surgimento de algumas rugas ao redor dos olhos, Allana permanecia bela aos meus olhos. Não concebia seu envelhecimento, mas isso tampouco me importava.
--Sinto falta de sua companhia, meu caro--ela tomou a liberdade de segurar minhas mãos na dela em um ato tão espontâneo que não tive a coragem de remover--Estamos próximos, mas não como antigamente. Não vem falado mais de seu Cristo comigo.
Sorri um pouco diante disso.
--Devo levar a palavra a todos.
--Estou ciente de que tem causado grande incômodo por onde quer que passa--disse-me Allana--E vale a pena, eu pergunto? Desafiar todos e tudo por causa de um deus que está ausente? Que permite que seus próprios filhos mergulham num mar de fogo e infelicidade? Como pode Ele ser bom se concede o eterno sofrimento àqueles que diz amar?
Inspirado pelo mentor que me acompanhava, segurei as mãos de Allana contra as minhas e, mergulhando naqueles olhos verdes, reganhei a confiança que um dia pensei ter perdido e falei:
--Não acredito que Deus permita o inferno se seus filhos não se esforçarem em melhorarem. Ele não é tão rígido assim, pois se ama incondicionalmente sua própria criação, não há por quê deixá-la afundar-se em seus erros. Ao contrário, ele dá várias e várias chances para a redenção. E creio que ela virá para todos, mais cedo ou mais tarde.
--E por que é tão errado cultuar outros deuses? Você diz que Deus é amor, que Cristo, quem quer que seja, é nosso irmão, mas veja... No momento em que pede para nos renegar, com ameaças sutis de inferno aqui e acolá, quão diferentes podem ser dos nossos deuses? Sentem ciúmes, punem, mas também amam e perdoam.
--Será mesmo? As histórias de Odin não me parecem que fazem de seu deus um perdoador--eu comentei, reflexivo.
--Permita-me cultuar meus deuses que eu cultuarei o seu também--ela disse, em um sussurro que fê meu coração bater rápido. Allana se aproximava de mim--Eu o amo, meu doce padre. Amei-o desde o primeiro momento que depositei meus olhos em você.
Fechei os olhos e senti a brisa bater contra meu rosto, o cheiro da maresia inundar meu nariz. O amor dela não era de luxúria, embora este sentimento inevitavelmente estivesse intrínseco a tudo o que sentíamos um pelo outro. Eu amava, sim. Todas as qualidades, todos os defeitos, tudo. Não havia o que não amar, mas... mas... eu tinha um dever a ser cumprido.
--Não posso--eu falei, minha voz sufocada pelo cheiro que vinha dela... um cheiro que me recordava o mar, a chuva, e ao mesmo tempo o sol, a luz que enaltecia e que também queimava. Era algo tão intenso que sequer permitia que eu respirasse--N-Não posso.
Mas isso não a impediu de tomar meus lábios nos seus e não fui forte em repelir-me de seus braços. Não. Ao contrário, cedi e quando o fiz, nada me afundava mais do que a paz. Por mais que a consciência carnal gritava-me culpa, acusando-me de nomes, minha alma a silenciava, porém: reunia-me com grande amor meu e nada nos separaria novamente.
--Eu a amo--falei, beijando-a com cada vez mais ardor--Eu a amo, Allana.
--E eu amo você--ela respondeu com urgência.
Ali, diante da presença da deusa do mar e do deus do amor, de entidades que, no fundo, eram todas testemunhas do Deus Uno, amamo-nos. Consumamos o ardor que nos queimava incontrolavelmente. E fui feliz.
*                                                                                      *                                                                   *
Sim, encontrei a felicidade e ela não se manifestou de uma forma material. Não quis nenhum enriquecimento que Allana pudesse me oferecer, e ela ofereceu diversas vezes. As dificuldades mantiveram-se espelhadas continuamente em obstáculos que aumentavam perigosamente, de certo. Mass nada me abalava quando a via, quando nos deitávamos. Todavia, um dia acusaram-na de negligenciar seus deveres para com os verdadeiros deuses. E seus conselheiros, os mesmos que a ajudaram a estabelecer-se no trono, planejavam traí-la.
Permitam-me localizá-los: o ano era 425. Estava sozinho em minha missão: enviei Petrônio a muitas custas para a África, como meus mentores espirituais haviam-me pedido em sonho, para que trabalhasse junto aquele que seria conhecido como Santo Agostinho. E nosso outro amigo, Octavio, havia desencarnado por suspeitas de envenenamento, pobre sujeito. Estava cônscio de que os perigos me cercavam cada vez mais, mas pouco me importava. Amava e era feliz. Mas isso também me fez mais ousado.
Não mais preguei em voz baixa e para os escravos; sequer me limitava às discussões felizes que tinha com Allana. Sentia-me adoecer, porém: já não era mais jovem, e mesmo sendo robusto para a época, enfraquecia-me consideravelmente. Crescia o número de irritados para comigo, pois minha voz começou, eventualmente, a tocar alguns corações. No entanto, acabei colocando em risco minha amada. E toda a felicidade que um dia almejei e pensei ter conquistado, pois tolo fui em crer que seria permanente mesmo sabendo que nada neste plano assim o era, começou a dissipar-se ante a mim.
--Você precisa ir embora--Allana um dia me disse--Estão insatisfeitos comigo e correm boatos de que meus inimigos estão procurando apoio de Cerdic de Wessex. Por favor, evite tolices.
--Não posso abandonar minha missão--eu retruquei. E o orgulho, sempre ele, era o principal obstáculo para minha melhora.
Na verdade, meus caros, a esta época eu me achava muito, muito adoentado. Os médicos de sua contemporaneidade teriam visto câncer afundar meus pulmões, mas eu diria que este tipo de doença seria muito necessário para extirpar o orgulho que, embora em menor grau que nas vidas precedentes, ainda insistia em manifestar-se. Talvez por pressentir o fim, eu nada mais temia.
--Seu Deus não gostaria disso--ela falou, e eu sabia que era seu mentor falando por si.--Por favor. Não é covardia esconder-se, fugir ou o quer que seja. Não está mais seguro tanto quanto eu também não estou.
Eu estava pronto a contra-argumentar e ser obstinado, mas as lágrimas de desespero e pavor naqueles olhos me comoveram a não ser imprudente. Ela intuía meu desencarne tanto eu pressentia o dela, tal era a nossa conexão. E percebi que, outra vez mais, nossos caminhos precisavam ser separados. Pela segurança dela, eu aquiesci.
--Tudo bem. Eu me irei--falei, sem esforçar em esconder meu pesar.
Allana me abraçou e aquela seria a última vez que pressionaria seu corpo contra o meu, que seu suor se misturaria ao meu, que seus lábios selariam nos meus.
--Eu o amo, eu o amo--disse-me ela--Por favor, que Deus Cristo o abençoe, meu amor.
Sorri. Sorri porque, apesar de breve confusão, a trouxe para a verdade. Não em sentido superior que possam alguns de vocês tão erroneamente pensar, mas no reconhecimento espiritual que florescia mais e mais. Afinal, é na dor que se vence as piores batalhas. Na madrugada, pois, eu parti. Sozinho e em silêncio, sem lágrimas, embora carregasse meu pesar resignadamente.
Mas me aguardavam os conspiradores, oh sim. Pois aquele que odeia, não necessariamente sente este tipo de sentimento por motivos de existências regressas, mas por projetar aquilo que lhes falta. No entanto, Deus em sua infinita misericórdia permitiu que a doença me levasse antes que os golpes mortais de meus inimigos chegassem a mim.
Quanto a Allana, veio a falecer em batalha contra seus próprios inimigos. Não deixou filhos, mas, tal qual aconteceu comigo, foi poupada de piores eventualidades. No entanto, concorreu para a expansão daquele reino Kent, mais lembrado pela tomada do líder Hengst em 455. Dali em diante, uma série de monarcas governaria até Kent ser absorvido pela Mércia e esta por Wessex no decorrer da unificação de Angla-Land. Muitos se recordam de Alfredo, o Grande, por ter sido o primeiro cristão a governar a Inglaterra, mas seus predecessores devem ser lembrados também.
Independentemente disso, porém, outros romanos, irlandeses (como o São Patrício) deixaram seus legados para a expansão cristã naquelas ilhas que um dia foram desprezadas pelos cristãos europeus pela suposta obscuridade enraizada através do culto politeísta. No entanto, a arrogância e tantos outros vícios eram continuamente semeadas pela humanidade terráquea e persistiriam ainda por muito tempo, desvirtuando as palavras de Cristo para si mesmos... 

sábado, 24 de agosto de 2019

Velhas Memórias. Ciclo VI.

Atenas, Grécia.
Sigamos adiante nos tempos antigos, no desenrolar da história da Humanidade do qual fiz parte embora a memória deste passado não será capaz de acoplar todos os indivíduos que viveram aqui, eu incluso. Outra vez, vim como homem, sob o nome de Patroklos, e numa família relativamente nobre. Na concepção presente, seria o mesmo que dizer 'classe média'. 
Enfim, fui o primogênito da família Petropoulos, cujo patriarca Aléxandros era reconhecido como um dos atuantes na política da pólis. Cercava-se de filósofos e outros tantos homens ligados à monarquia da época, não raro sendo ilustre o suficiente para reunir-se a tais companheiros constantemente em vida. Por outro lado, não ocupava um cargo importante que atraísse a atenção de nosso soberano. De todo o modo, Aléxandros em sua juventude desposou Heléne, prima distante do rei ateniense. Não me ocuparei em devagar sobre como esta união de pessoas de caráter distintos se realizou. Se não havia amor entre as partes, respeito, por outro lado, conduzia o matrimônio, embora Aléxandros optasse frequentemente pela companhia masculina à da mulher. 
No entanto, Heléne cumpriu com seu papel de esposa ao conceber dez crianças, dos quais cinco chegariam à vida adulta: eu, Patroklos, era o mais velho; fui seguido de Philippos, Sophia, Héktor e Lárissa. E todo o tempo Hélene cuidou de nós, devotando muito de seu tempo, supervisionando a educação de seus filhos com afinco e amor. 
Recordo-me de ter sido próximo de Philippos, tanto pela idade quanto pelo temperamento, e Sophia. Na infância, gostávamos de desfrutar de nosso tempo livre passeando, quando não brincando, pelos jardins. De nós três, curiosamente era o menos agitado: havia aprendido a domar minha impaciência, afinal, embora não possa dizer o mesmo do orgulho, aquela falta que tanto teimava em aparecer... Mas, para ser justo comigo mesmo, veio tardiamente a aparecer. Enfim, prosseguindo: meu gosto cada vez mais recaía mais para os livros e menos pela espada, ainda que pudesse dominar ambas as artes com facilidade. Sophia, por sua vez, já possuía um intelecto mais afiado que o meu, apesar de detestar as tarefas femininas: discutia constantemente com nossa mãe sobre tecelagem, preferindo, ao contrário, ler do que a cozinhar, a cuidar da casa, entre outros deveres que, se cumpria, o fazia com relutância. Philippos, igualmente temperamental, demonstrava vigor para as espadas também: sua inclinação para a arte da guerra logo despertou a atenção de nosso pai que, na primeira oportunidade, o colocou entre os homens que serviam ao rei Dionísio. 
No dia que ele foi embora, recordo-me de ter sido sensível a sua partida e ser repreendido pelo meu pai por prantear sua ausência:
--Seja homem e pare de frescura. Sequer sua mãe está lastimando por seu irmão. Isso é uma ótima oportunidade por ele. Deveria ficar feliz por Philippos.
Era verdade que estar junto ao meu pai constituía uma grande provação para mim: naquela existência eu desconhecia que ele havia sido meu irmão da vida anterior que, por sua vez, teria sido um rival precedentemente. Os leitores atentos o reconhecerão. Apesar da paz de então, precisávamos superar outros obstáculos. Entretanto, a tudo isso enfrentava relativamente tranquilo. Quando criança, aceitava prontamente a autoridade de Aléxandros e recusava responder ao que minha mãe constantemente alegava ser provocação. Sempre que discutiam, meu nome aparecia na boca de um ou outro, mas era ela que me defendia. Sophia mais tarde diria que invejava-me por ser o predileto de nossa mãe, mas aquilo era besteira. Afinidade nada tinha a ver com predileção.
De volta à estória, Philippos partiu para servir o rei e, infelizmente, aquela seria a última vez que o veria. Em uma das guerras que eclodiria contra Esparta, nosso bravo irmão desencarnaria tão pronto completou sua missão neste plano. Nada sabia disso até então, é claro, apesar da vaga intuição ao vê-lo ir, e me perguntando o que poderia ter feito para impedir sua ida. Guardava em minhas memórias os tempos de implicância e companheirismo, durante os quais Philippos era, inquestionavelmente, superior em suas ações, a despeito do temperamento. Colocava-se como se fosse primogênito, mas nunca houve inveja ou ambição descomedida de sua parte. 
Desse modo, coube Sophia a ocupar o lugar deixado vago por Philippos.
--Você não tem curiosidade--ela me indagou uma vez, elétrica como costumava ser--de conhecer o mundo e os bárbaros que habitam nele?
Arqueei uma sobrancelha e disse:
--Não está lendo demais, Sophia?
Aquela cujo nome significava sabedoria prontamente fê-lo jus ao me retrucar:
--Ler nunca é demais, tal qual adquirir conhecimento torna-se uma excelente ferramenta mesmo para nós, mulheres. Athena, a deusa que favorece a cidade que leva seu nome, sempre foi muito sábia. A mais inteligente de todos os deuses. 
--Você me venceu nesse argumento--admiti, meio sem graça.
Com olhar vitorioso sobre mim, minha irmã prosseguiu:
--Não fosse pela leitura, não questionaria. Às vezes, gosto de escutar os filósofos que papai traz a nossa casa quando ninguém está me vendo. Eles desprezam o diferente, mas se fôssemos todos iguais, não seria tudo chato?
--Creio que respeitar as individualidades seria o ideal--eu ponderei--mas seria o suficiente? O que é individualidade, afinal de contas?
--É sobre isso que os filósofos debatem--disse Sophia, antes de atingir o principal ponto--E sobre a alma também.
--A alma?--eu repeti, espantado.
--A alma--afirmou Sophia, categoricamente, encarando-me com seus enormes olhos azuis--Conta a história que, ao nos criar, Zeus separou nossa alma em duas. Habitávamos dois corpos, antes de termos sidos dissociados. Crê nisso, irmão?
--Por que duvidaria de nosso deus?--retruquei, mas quando as palavras saíram de minha boca, senti como se estivesse me traindo. Como se estivesse mentindo para mim mesmo. Franzi o cenho.
Sophia riu de minha reação. Assim como Philippos, ela era um espírito bastante avançado e superior a mim em muitas maneiras. No fim, deu de ombros e disse:
--Vamos conversar sobre isso em outro momento, preciso voltar a lição antes de mamãe chegar em casa.
Assenti e observei aquela criança de oito anos correr pelos corredores com seus cabelos louros e cacheados desmantelando pelas costas. Tão alegre, tão vívida, tão... livre. Como se lamentasse, tornei a me atentar outra vez para as lições, mas a pequena conversa com Sophia não deixou à mente. 
Mais tarde, naquela noite, meu pai avisou que teríamos convidados ilustres ao redor da mesa. Minha mãe, uma mulher de não mais que trinta anos encarou seu esposo com um olhar cansado. Seus cabelos castanhos pareciam ter perdido vida e não me escapava à atenção a infelicidade que abatia sobre seu semblante: os olhos claros não refletiam mais a energia de antes. Na verdade, o que eu ignorava era a doença que havia tomado conta de seu corpo. Embora desconfiasse que minha mãe, na verdade, amava a escrava que mantinha perto de si o tempo todo, nada poderia fazer quanto a maneira pela qual ela era tratada por meu pai. Não gostava muito das companhias masculinas dele tanto quanto ele não apreciava Moura, a celta ruiva que ela mantinha por perto. 
A escravidão, permita-me dizer, foi um sistema antigo que, como um câncer, atingia a humanidade ainda presa às vicissitudes da carne, que refletiam a inferioridade de seu espírito. Eu, minha mãe e alguns de meus irmãos, contudo, desprezávamos esta questão e, a contragosto de meu pai, tratávamos os escravos como os humanos que eram. Infelizmente, Aléxandros Petropoulos os desprezava como a sociedade da qual fazia parte e se não repelia a celta ruiva era porque reconhecia que sua presença, paradoxalmente, o inseria na elite ateniense. Pois quem possuía escravos, principalmente aqueles bárbaros (denominação para os povos germânicos e outros que viviam fora da Grécia ou, como éramos chamados então, das pólis helênicas), era rico, aristocrata ou o próprio rei. Sendo assim, conquanto não possuía outra, ele tolerava a presença da amante de sua esposa. 
--Moura fará o jantar--disse minha mãe, cansada e empalidecida--Estou doente novamente.
Vi meu pai franzir ante aquela nova informação.
--Doente?--ele repetiu--Como isso?
--Dei à luz a dez filhos, por algum milagre dos deuses sobrevivi a tantos partos--respondeu Heléne, solenemente. Tendo alcançado a idade dos dez anos (ainda que, por ventura, me comportasse como uma), era permitido a me inserir naquela ocasião que, até então, me era proibida ver: a realidade nua e crua de casamentos feitos por alianças. Recordo-me de ter visto, na sala de estar, uma presença de luz que, à mente da época, associei à própria deusa Atena. Talvez assim fosse, embora não como pensava ser, de fato. Uma mulher ilustre de cabelos louros, vestida em trajes guerreiros e com olhos de violeta, assistia a tudo isso e me fitava com serenidade. Assombrado, nada comentei com meus pais sobre aquela visão e, portanto, estive surdo ante à desavença entre eles.
Perguntava-me por que a deusa da sabedoria se manifestaria entre nós, meros mortais. Não éramos uma família de sacerdotes, embora minha mãe e Sophia fossem-lhe devotas (Larissá se identificava mais com Árthemis); nem éramos ligados, ao menos não diretamente, ao rei e aos políticos que o cercavam. O que podíamos oferecer a ela? 
Mas, no fundo, guardava a intuição de que os deuses não eram tão ruins ou exigentes, sequer invejosos, como acreditávamos: não era isso que a presença de Atena, que um dia teria transformado sua rival arrogante em aranha, me inspirava. Em tempo antes de Homero, já sabia que ela liderava os homens e os inspirava a seguir coragem, a fazer o bem sem esperar recompensa; de alguma forma, infundia a nós a pureza que deveríamos almejar. Ela era a Verdade e isso era o que importava. Vê-la pessoalmente, não como a descreviam, mas como acreditava, imprimiu uma paz inabalável. 
Tão logo ela me sorriu e eu, de volta, e o ambiente pareceu harmonizar-se outra vez.
--...assim peço perdão por ter-lhe sido negligente--ouvi meu pai dizer--Hera está me punindo por isso.
--Não seja tolo--retrucou minha mãe--Não somos perfeitos e você nunca me desrespeitou. Filho, perdoe-nos por ter visto isso tudo, mas a conversa se fez necessária.
Alheio a tudo isso, eu, porém, aquiesci.
--Gostaria de tê-lo no jantar hoje--minha mãe prosseguiu e eu notei que seu rosto havia ganhado cor novamente--Já é um adulto e, como herdeiro da família, precisa tomar nota dos negócios.
Sorri bondosamente e falei, sob o olhar atento do pai:
--Cumprirei com máxima o meu dever, senhora--e acrescentei--O senhor não terá motivos para envergonhar-se de mim, pai--falei com firmeza, encarando-o nos olhos.
Pensei ter visto um deslumbre de orgulho quando ele falou:
--Estou feliz por tomar ciência de seus deveres para com esta família, garoto. É imprescindível que saiba disso. Sê responsável e os deuses o protegerão, mas fuja de suas responsabilidades e o castigo cairá sobre você.
Não reclamei, apenas assenti e concordei. Mais tarde, quando os filósofos que meu pai costumava se reunir se apresentaram para o jantar, fez-se a importância da presença daqueles homens, um dos quais marcaria minha vida em particular.
Todos eles usam túnicas brancas e sandálias marrons, embora em algumas que escorregavam sobre seu corpo verifiquei um acessório que diferenciava um homem do outro. Nomeá-los agora seria perda de tempo porquanto o conteúdo da conversa se faz mais urgente de reproduzir. Aquele de cabelos dourados e cacheados se pronunciou:
--Agradecemos a todos os deuses e aos familiares que nos acompanham pela presença e por ter nos reunido aqui nesta noite.
Sentado ao lado de meu pai, observei-o com o canto do olho murmurar alguma aprovação, levantar seu copo dourado cheio de vinho e copiei seu gesto. Foi a primeira vez que ingeri em meu organismo infantil aquele liquido alcoólico, mas disfarcei o azedume de minha face. O louro prosseguiu:
--E também pela hospitalidade que a família Petropoulos nos recebe. Que os deuses o louvem e a sua esposa, Heléne, meu caro Aléxandros. 
--Obrigado, meu devoto amigo--disse meu pai, que fez um pequeno discurso de agradecimento antes que seu amigo de belas feições continuasse sua fala. Minha mãe e a escrava Moura haviam servido aos homens antes de desaparecerem com as crianças da sala, dando-nos, pois, a privacidade que nosso sexo requeria para reuniões daquele gênero.
--Estes dias, na casa de nosso companheiro P...., viemos discutindo sobre o conhecimento. E, a partir dele, vimo-nos indagar sobre os perigos do mesmo. Afinal, o quanto ele se faz necessário em nossa vida? Lembro-os, ressalto, que a virtude nada tem a ver com esta categoria que os apresento.
Outro homem, um dos mais velhos daquele grupo que sentava-se à mesa redonda da sala, manifestou-se prontamente:
--Meu caro L...., permita-me questionar sobre o perigo do conhecimento quando a ignorância prende o homem às raízes do instinto e, portanto, a vicissitude. Como não associar a virtude ao saber? Aquele que trabalha ardosamente no campo, porquanto desconhece a vida nos papiros, sequer lê as letras, estaria preso ao obscurantismo? Nosso amigo P.... mesmo os disse que a virtude é inerente à alma quando somos postos em contato com a bondade e o discernimento que resguardamos em face ao aprendizado de existência prévia, não é isso? Pois pergunto a que conhecimento se refere e qual perigo poderia o mesmo oferecer a nós?
O tal L.... assim respondeu, calmamente:
--De fato, o senhor traz verdades, meu caro. Nosso amigo P....--e ele aponta para outro homem de cabelos negros e barba espessa cujos olhos castanhos fitavam a nós todos com uma atenção fixa--teve a bondade de nos esclarecer quanto a isso, de fato. Não nos foi ensinado que a tudo o quanto tivemos contato desde nossa infância até o presente momento foi um resgate de competências dominadas pela alma anteriormente? Assim, compreendemos que os deuses são benfeitos quando permitem que temo-nos acesso ao que aprendemos previamente. Entretanto, o uso do conhecimento é para isso que atento na reunião de hoje. Este sim pode ser o condutor do caráter do cidadão, não acha?
--O conhecimento em todas as suas formas pode ser direcionado a um determinado fim--expressou-se meu pai, reflexivo--E, com isso, entendemos que mesmo o mais tolo de nós em sua capacidade de exercer o raciocínio que os deuses nos conceberam, pode cair-se em si próprio.
--Sem dúvida--concordou outro que da mesa também fazia parte, não sendo nem o mencionado senhor P..., ou mesmo aquele de nome L...., que também expressava-se tranquilamente--E aqui nos perguntamos: como direcionar o conhecimento para o bem sem cairmos em nós mesmos?
--A virtude precisa ser contrabalanceada a vicissitude--afirmou categoricamente aquele que sentava ao lado do senhor P..--E ela far-se-á presente em suas ações. 
--Questiono-o, porém, se a virtude é para um o que pode ser vicissitude para outrem--disse, novamente, o senhor L.
--É certo que se reunirmos um ideal de pessoas que corresponde aquilo que nós, em nosso conjunto de ideais e concepções, concordamos serem virtuosas, encontraremos o conceito que aí está trazendo. Pois o virtuoso não usaria de seus estudos e experiências para provocar o mau próximo. Não haveria necessidade para isso e, se houvesse, não seria qualificado como tal--disse, então, meu pai.
Houve um murmúrio de concordância antes do louro, o que deu inicio ao debate, silenciar a todos e dizer:
--Se o conhecimento dirigido para o bem promove a virtude, como termos certeza de que as vicissitudes não o derrubarão? E se acaso acontecer, pode ser o sábio um homem virtuoso? Pergunto mais, é possível um indivíduo que não conheceu a virtude inculcar tal valor a um outro como jovem presente nesta reunião?
Todos os olhares se voltaram a mim por um rápido momento. Senti meu rosto ruborizar, mas, graças aos deuses, não precisei responder.Foi o senhor L... quem respondeu:
--Não é sabido que a virtude torna o homem ideal depois de tantas existências? Porquanto assim se faz, como haveria-o de sucumbir aos vícios se não tendo as conhecido para repeli-las? Para o falso virtuoso, chamamo-nos de hipócrita: prega o que não pratica e se vangloria do que não exerceu tanto nesta quanto em outra realidade. A este homem, os deuses negam. A não ser que ele esteja muito arrependido e deseja reunir em si mesmo as qualidades que almeja, não vejo por que razão deveria ser tal sujeito impedido de ensinar os mais jovens a obter aquilo que falhou em sua jornada. 
"A verdade é, meus caros, que somos ensinados que a imprudência leva à sabedoria. Não está de todo errado, pois os deuses, em si mesmos, não cometem os erros que somos levados a pensar que fazem. Já tivemos esta discussão antes na casa do senhor P...., na companhia do senhor S.... que, infelizmente, não está mais entre nós para glorificar nossas reuniões com sua sabedoria. De todo modo, para alcançar o conhecimento e levá-lo aos ignorantes é preciso associá-lo a virtude alcançada. Aquele, porém, que não a exerce apropriadamente ainda não domina o saber, sequer está preparado para refletir com clareza o que aqui fazemos com regularidade."
--Guardar o que sabemos é um erro--ouvi alguém se manifestar--E, no entanto, o fazemos. Isso não nos torna hipócritas?
O silêncio se fez entre o grupo antes do senhor P... enfim se manifestar:
--O que o faz pensar isso quando nem todos estão preparados para receber o que demoramos, em nós mesmos, a conceber? 
--Somos frutos do meio e negar isso é fechar os olhos para o conhecimento recebido--acrescentou o senhor L....
--Será mesmo?--indagou o senhor P... com sua voz serene e calma.--Veja como nós pudemos ir além nesta discussão. Contudo, deixe-me orientar o jovem cuja presença estamos deliberadamente ignorando. Afinal, o conhecimento precisa ser passado não é mesmo. Como se chama, rapaz?
Quando os olhos voltaram a mim, senti meu corpo ser tomado por um arrepio e meu rosto ruborizar. Contudo, pelo canto do olho vi novamente a presença da deusa Atena e fui inspirado a me manifestar antes que meu pai me repreendesse por hesitar demais:
--Patroklos Petropoulos, filho de Aléxandros Petropoulos.
Os homens deram uma risadinha, todos eles assentindo com a cabeça respeitosamente. No entanto, o senhor P... de olhos intensos não se abalou com a reação dos outros.
--Muito bem, filho. Vejo que respeita e tem orgulho da família que vem, o que me diz muito do seu caráter. Entende o que se passa por aqui?
Senti-me relutar, temendo falar alguma besteira, mas a deusa assentiu em minha direção, atrás do sujeito que se dirigia a mim, e eu falei:
--S-Sim, senhor. Meu pai certificou-se de que estava me saindo bem nos estudos para acompanhá-los esta noite.
De novo, murmúrios dos companheiros de meu pai: alguns me admiravam, outros nem tanto. Não virei o rosto para saber como ele reagia a tudo isso, mas o senhor P... manteve a expressão inalterável ao dizer:
--E ele está certo. O cérebro é para nós o que a espada é para os homens. Desde tenra idade precisa compreender isso para que faça o certo e o útil não apenas a si próprio como para os outros que o seguirão. Creio que será responsável pelos seus irmãos, pela propriedade que herdará de seu pai e igualmente dos escravos que aqui se encontram. Desempenhará um papel nesta pólis, qualquer que seja ele, dominada por um soberano que, a bem da verdade, mais aproxima-se de um tirano. Compreende, de fato, o que estou dizendo?
Ele falava com tamanha autoridade e seriedade que ninguém ousou se manifestar. Nossos olhos se encaravam, eu reconhecia o aviso sútil e temia, por ora, o que poderia viver no futuro próximo. Contudo, mais que isso, a sabedoria daquele indivíduo era inspiradora. 
--Sim--eu disse com firmeza, sem ter hesitado ou gaguejado daquela vez--Tudo o que aprendemos não dever ficar guardado apenas a nós, ou fazemos uso inútil daquilo que os deuses bondosamente nos concederam quando, anteriormente, nos esforçamos para conquistar aquilo que chamam de conhecimento. É nosso dever ensinar sem esperar recompensas e prover-nos útil o tanto quanto possível para que possamos tornar-nos sábios. 
Minha fala provocou admiração dos homens e surpresa em meu pai, mas tais reações não me abalaram. Não me expressei para agradá-los, mas porque o senhor P... esperava uma resposta contemplativa que, contudo, fosse a mais realista possível. E eu acreditava em tudo o que dizia porque guardava em meu íntimo tudo aquilo que me foi ensinado em existências anteriores. 
O senhor P... sorriu sob a barba espessa e disse:
--Sua mente é mais afiada do que pensei. Vejo qualidades em sua alma, meu jovem. Espero que saiba exercitá-las. 
Aquilo me instigou, se não inspirou, a verbalizar a discussão que tive com minha irmã mais cedo naquele mesmo dia:
--O que o senhor pensa da alma?
Alguns riram e meu pai esteve a me repreender quando o senhor P... silenciou a todos e disse:
--Ora, senhores, não estamos lidando com apenas um garotinho aqui. É um homem como nós, embora certamente mais jovem, ainda que possuidor de uma sagacidade que faltam a muitos. Por que negar sua voz? 
"Direi-lhe o que penso da alma, meu caro Patroklos, nome de um herói cantado por um poeta há tanto tempo. Creio que deve conhecer Homero? A despeito de sua excessiva humanização de nossos deuses, sua inspiração vem da alma. E o que penso dela? Que é imortal. Que possui conhecimentos que tanto podem incliná-la para o bem quanto para o mal, para a virtude ou a vicissitude, se o sujeito souber despertá-la em si próprio."
"A alma pode seguir rumo a três caminhos que você me parece tomar nota, Patroklos: os campos elísios, os campos secos e a moradia de Hades. Normalmente, aquele que chega à primeira opção pode optar por renascer, esquecer-se de tudo e viver novamente. No entanto, desconfiamos que seja mais comum aqueles que vivem nos campos secos escolherem o renascimento. Como diz o nome, campos secos é o intermediário. Onde nada há se não o tédio, a vagueza das coisas e a inutilidade d'alma. Zeus todo poderoso que nos criou se satisfaria em ver-nos inúteis? Decerto que não. E tampouco se satisfaria em manter-nos ignorantes? Óbvio que não. Ou Atena não viria inspirar a todos nós a buscar a sabedoria, não é mesmo?"
"Os deuses não são nossos reflexos e portanto vão além do que nossa alma pode conceber. Esta não é sua questão, meu jovem, mas não há como dissociar uma ideia da outra. As histórias que nos contam apontam para divindades falhas, invejosas e que necessitam a todo o momento relacionar-nos conosco para mostrar seu poderio. Pergunto a você o seguinte: se o deus que cria nossa alma imortal, qual seria seu intuito ao fazê-lo? Seria para zangar-se constantemente? Qual seria o propósito de nos humilharmos e forçar a nós termos relações com as divindades sem nossa vontade? Por que haveríamos de ser castigados sem uma chance sequer de redenção?"
"Nas estórias em que heróis sofrem e, na pureza, são resgatados de morte terrível pelos deuses, vemos a compaixão divina cair sobre nós. Somos merecedores desta, assim me parece, conquanto somos puros. No entanto, aqueles que faltam tal caráter são merecedores de eterna punição? Por que a divindade sentiria inveja de sua criação? Por que ela a condenaria a eterna maldição? Acha mesmo que Hades se compraz do sofrimento alheio? Ou que ele se levantará contra Zeus? Ou mesmo que planeja destitui-lo de seu trono ao lado do soberano dos mares?"
"A alma que Zeus criou seria passível de outras existências, de escolher por elas para renascer apenas para sofrer infinitamente? Você me pergunta o que é a alma, nos vê discutir sobre o conhecimento, a confabular a respeito do exercício do mesmo. Depois disso que contei, a que conclusões chegou?"
Aquele homem me observou atentamente como se me avaliasse. Fitou-me como se estivéssemos apenas os dois na sala, consciente de que sua presença me intimidava. E, mesmo assim, falei:
--Os deuses são superiores a nós, de tudo sabem a nosso respeito: do passado, do presente e do futuro. Se fossem doravante cruéis como as fábulas reportam, não haveria sentido em sermos constantemente punidos. Tal é a liberdade que concedem a nossa alma, para que possamos desenvolver as faculdades que criaram em nós. Não por isso a alma é imortal, reflexo da divindade sem, contudo, fazer dela parte. Com isso, somente tornamo-nos sábios não porque a nós nos foi concedido a estrada que, sozinhos, devemos seguir, mas porque assim progredimos a fim de fazer o mesmo com nossos semelhantes sempre ao modelo que os deuses nos inspiram.
Recordo-me de meu pai ter me encarado com perplexidade e o silêncio cair sobre todos os presentes. O senhor P.... assentiu a cabeça e disse, alegremente:
--Ao que parece, encontramos nosso semelhante, senhores. Espero que o jovenzinho aqui pratique o que pregou e siga neste caminho. A filosofia lhe fará bem, caro Patroklos, astutamente herói real e não das fábulas homéricas.
Sorri tanto com o elogio quanto com a advertência sútil que me foi dada. Aquele seria o único encontro que teria com aquela personalidade cujo nome não me foi permitido expor, e isso se refletiria na forma como moldaria meu caráter no decorrer da vida, assim como, consequentemente, apuraria o meu espírito nesta já mencionada estrada.
Ao fim de memorável noite, meu pai virou-se para mim e disse:
--Sinto que o subestimei demais em todos estes anos, Patroklos. É mais merecedor de tudo isso do que jamais pensei. Perdoe-me.
Aquele gesto me surpreendeu porque nunca, em apenas uma década de vida, vi o patriarca agir sensivelmente para comigo. Foi significativo porque nossas almas se reaproximaram e tudo parecia indicar um caminho melhor para nós mesmos.
--Não há o que perdoar, meu pai--falei, sincero--Está tudo bem.
Ele me sorriu, um sorriso cansado. Não era mais jovem, estava próximo dos quarenta anos, e seus cabelos já estavam quase grisalhos; os olhos azuis me miravam com ternura e percebi que nunca o tinha amado como o amava naquele instante, por mais breve que fosse. Fui me deitar feliz e, ao ver a deusa Atena outra vez, senti-me ainda mais contente. Afinal, a sensação de que trilhava um bom caminho me acalmava a alma.

*                                                                                 *                                                                      *
Dos dez aos quinze anos, desde aquela noite, não houve momentos significativos a compartilhar aqui. Segui estudando e acompanhando meu pai nas questões que requeriam urgência a serem resolvidas. Mas também minha mãe foi essencial em me ensinar sobre a gerir uma casa, ainda que esta fosse uma tarefa mais tarde incumbida a minha esposa. Era preciso, ela dizia, que eu soubesse de tudo. 
Naquele verão, entramos em guerra novamente contra Esparta e houve uma eclosão de nova praga, doença que acabou por levar a bela Heléne de nós todos. Moura sofreu o luto, provavelmente mais que a nós todos, como Aquiles sofreu por Patróclo, de quem recebi seu nome.
Meu pai lamentou sua perda, mas a vida precisava seguir em frente. Casou Sophia ao filho do senhor L..., enquanto ofereceu Larissá a Arthemis, tornando-a, portanto, sua sacerdotisa. Minha irmã mais jovem possuía, de fato, fortes inclinações religiosas para esta deusa, embora nosso pai provavelmente desejasse que ela servisse à Atena. E o que fazer com Hektor? Philippos seguia carreira militar, por mais que tão logo sua vida fosse ceifada em combate, e eu era o herdeiro das propriedades da família. Todavia, Hektor ressentia-se de ser o filho cujo destino pairava no ar e a rebeldia começava a dar os ares. O que, o pai se perguntava, deve ser feito dele? Que habilidades existiam no rebento mais novo que pediam por incentivo? 
O conflito entre os dois não tardou a florescer: quando fui receber a jovem Erhais de família nobre do norte de Atenas, contava dezoito anos e Hektor, doze, tão homem feito quanto eu. Planejou sequestrar a pobre Erhais com dois escravos. Nosso pai descobriu, entretanto, e o enviou para o campo enquanto açoitou os outros dois, evitando enviá-los à morte porque o impedi.
Este assunto me preocupava, pois, conforme crescia, desenvolvia forte aversão a hostilidades, principalmente familiares. Moura costumava dizer que herdei da minha mãe o senso de pacificador e, sendo assim, fui incentivado por ela a desenvolver ainda mais esta qualidade. Foi quando decidi conversar com meu pai sobre Hektor.
--Já considerou enviá-lo a Esparta?--perguntei a ele--Se ele servisse o rei de lá, é provável que teria uma vida melhor.
--Enviá-lo a Esparta?--repetiu o patriarca, atônito a sugestão--Por que, em nome de Hades, eu faria isso?
Suspirei, mas esforcei-me em praticar a paciência.
--Porque ele claramente tem os dons para ser um guerreiro, e o senhor deveria dar a Hektor uma chance de prová-lo, pai.
--E por que enviá-lo para servir o rei espartano? O que há de errado com o nosso?
Internamente, lamentei por meu pai não perceber que vivíamos sob uma tirania inconcebível. O que seria de Atenas sendo governado por tal rei? Mas nada falei. Aléxandros, porém, não faltava cérebro e, compreendendo aquilo que não disse, respondeu:
--Concordo que não seria a opção mais viável, mas quem sabe no campo ele não se ajeita?
No entanto, ambos sabíamos que Hektor continuaria a ser um problema e o pai se recusava a lidar com essa situação. Enquanto isso, me preocupava com minhas próprias questões domésticas. Não amava Erhais, mas tampouco me preparava para amar alguém. Não concebia o amor por desprezá-lo. Eis a manifestação do orgulho que ainda insistia em velar-me para o bons sentimentos por melhor que eu estivesse em relação às realidades que outrora experimentei neste mesmo plano.
Erhais era bela com seus cabelos negros que, em cascata, derramavam-se às costas: com frequência, porém, os prendia sob uma faixa branca em respeito ao status de casada, mas os soltava quando o pedia na intimidade. Usava túnicas apropriadas para a sua posição, normalmente de cor azul do oceano por ser devota de Poseidon, o que achei curioso. Sua pele de oliva contrastava à minha, o que achei bem-vindo. Aos poucos, me acostumava a sua beleza que, mesmo na idade dos quatorze anos, florescia adoravelmente.
--Creio não estar dando a você a atenção que merece, Erhais--eu disse uma vez, alguns meses depois do nosso matrimônio--Peço perdão por esta negligência do meu dever para contigo. É que questões domésticas pedem com urgência a minha presença.
Erhais possuía uma docilidade em temperamento desde o princípio e isso dava-me uma alegria descomunal. No entanto, os deuses foram sábios em velar de meu espírito, ao menos por ora, o reconhecimento passado.
--Não há o que perdoar--disse ela e seus olhos de amêndoa, janelas da alma, transpareciam a sinceridade de suas palavras--Está aprendendo o que provavelmente porá em prática em alguns anos. Assim é a família e ela é sagrada aos olhos dos deuses.
Assenti com a cabeça em concordância. Era uma tarde de verão e ela estava tecendo ao lado de uma escrava que havia trazido consigo, uma bárbara do oriente chamada Yin. Desta forma, nossa conversa soava casual e isso me incomodava porque sentia que podíamos ser mais que isso, e não queria que aquela união se tornasse vazia por mais respeitosa que fosse, como foi o caso dos meus pais. Por isso pedi gentilmente que Yin se retirasse e me deixasse à sós com Erhais. Ela, por sua vez, surpresa com aquele pedido me fitou como se houvesse enlouquecido.
--Quero que sejamos mais que alianças matrimoniais--eu expliquei--Poderia me dar a honra de conhecê-la melhor?
Erhais timidamente concedeu e, com isso, fomos caminhar pelos jardins. Foi quando ela disse:
--Pensei que seria como seu pai. Normalmente, os primogênitos costumam seguir os patriarcas. Um costume que Atenas costumeiramente segue.
--Ele é inspirador para muitas coisas--respondi--mas possuo discordâncias quanto a estas questões matrimoniais. 
--Graças aos deuses--ela deu um risinho e eu a acompanhei--Posso perguntar o que causou isso?
--Nada tenho a esconder--disse eu--portanto, posso responder o desejar questionar. Mas a verdade é que houve dois momentos significativos na minha vida em que percebi que a gentileza deveria prevalecer sobre todo o resto. Minha mãe, por mais respeitada que pudesse ter sido tratada pelo pai, foi infeliz em seu casamento. De fato, foi louvável em tudo o que fez sem murmurar, mas porque encontrou consolo em outro lugar, vou dizê-la discretamente sobre isso.
"Ainda que não tivesse encontrado, nunca falhou com seus deveres. Dedicou-se à família, recebeu hóspedes, em suma, cumpriu com o papel de esposa e mãe. Mas havia algo faltando, eu sabia disso. Tanto nela quanto no meu pai. E quando criança, estive presente nas reuniões filosóficas de meu pai e seus amigos. Fui ensinado tanto sobre conhecimento e virtudes, agraciado com sujeitos iluminados, sem dúvida."
--Provavelmente foram os deuses que desceram à Terra e se comunicaram contigo--disse-me Erhais, soando contemplativa--Você se tornou merecedor deles, Patroklos.
Em silêncio, ponderei suas palavras. Erhais me observava com serenidade, não havia nada em seu semblante que indicasse possuir uma fé cega, e de algum jeito sabia disso. Aos poucos, a reconhecia como era sem os apetrechos da beleza física: a resignação, a bondade, a doçura. Apaixonei-me. 
--Os deuses não concebem seu favor a qualquer um--prosseguiu ela--portanto, deve-se ater aos sinais. Não é como acontece nas fábulas que lemos, não, é mais que isso. E, entretanto, as mensagens estão lá para aqueles que leem para além do que está escrito.
--Sábia como é, me admira que não seja devota de Atena--comentei, meio divertido.
Erhais me concedeu um sorriso.
--Respeito todos os deuses e amo-os sem distinção. A cada um me inspira a cultivar uma qualidade em mim mesma, resguardado em alma por eles, disso sei pois às divindades tudo devo. Contudo, o mar... Poseidon é um grande ensinador, de fato. Alguns o chamam de instável, mas seria mesmo? Não se controla as ondas, não se luta contra elas. Assim é o nosso destino.
Novamente, me vi pensando sobre o que me foi falado.
--O que é o destino?--eu indaguei--É o conhecimento?
--O que é o conhecimento?--me respondeu Erhais--É um saber passivo? Um saber receptivo? Um saber criador? Ou apenas experiências que a alma há de acordar a cada instante?
Sorri.
--Que surpresa é encontrar alguém que se propõe a pensar assim.
Erhais riu.
--Que mundo triste é o dos homens por crer que suas parceiras são incapazes de produzir belas poesias, criar estórias e, principalmente, discutir filosofia.
--Jamais pensei isso de você--eu disse, em parte na defensiva.
Mas ela era compreensiva demais para mim.
--E não disse que pensava--rebateu--mas vivemos em um mundo masculino, meu querido. E ele funciona desta forma.
Com isso, me deu um piscadela e seguiu em frente, ciente de que me fazia apaixonar-me por aquela mulher. Alheio mesmo à presença dos deuses, a filosofia sequer cruzava meus pensamentos. O amor, ao contrário, impunha-se sobre todo o resto e minhas faltas eram, enfim, subjugadas. Afinal, mesmo ainda jovem, compreendi que o conhecimento significava mais do que leituras e indagar sobre o desconhecido para curvá-lo ao que nós sabemos, de fato. Era a autocompreensão e a abnegação de nós mesmos para o sacrifício da luz. Aqueles tempos eram difíceis e as provações, ainda mais. Lembrar de tais é rememorar a angústia que senti ao tomar ciência disso.
E a tendência era, como dizem nos dias presentes, piorar.
*                                                                                 *                                                                         *
Quando meu pai desencarnou, o fez sem ter cumprido completamente sua missão para com Hektor. Talvez porque ainda não era hora. Quando ele regressou a casa, decidi ajudá-lo e, por que não, incentivá-lo às artes? 
Mas Hektor voltou embrutecido, carregando cicatrizes que custou-me a contar (descobriria mais tarde que ele, dentre outras coisas, foi violado) o que me fez renovar somente os esforços em me aproximar dele. No meio tempo, minha esposa assumia os deveres domésticos por completo, regendo a casa e lidando com outros afazeres conquanto me dedicava ao meu irmão.
Hektor era agora um homem feito de 20 anos, cabelos pretos curtos e barba feita por fazer. Possuía um olhar feroz que marcava o rosto endurecido. Era forte de corpo, mas em questão de altura era mais baixo que eu. Desde o momento de sua chegada, evitou-me, e não me passou despercebido o quanto olhava para minha esposa.
--Precisamos conversar--eu falei.
--E chegou o novo chefe da família--ele me recebeu com sarcasmo, mas calmamente o fitei.
--Sophia e Larissá vêm nos visitar esta semana--comuniquei-o antes de tomar lugar ao seu lado--Pretendo reunir a nós todos.
Hektor assentiu, mas senti-o distante. Pressenti que seria difícil, que havia algo de errado com ele. Era preciso paciência, porém, e humildade ao lidar com meu irmão.
--E não quero mandá-lo embora, irmão. Sabe que é bem-vindo aqui. Não falo isso apenas por comiseração ou porque é meu dever. Mas gostaria de acertar as coisas... 
--Não há nada para ser acertado--retrucou--Claramente, concorda com nosso pai quando deixou que fosse enviado.
O suspiro que eu procurava conter se soltou.
--Esforcei-me em dissuadi-lo da tarefa. Sugeri enviá-lo à Esparta para que fosse útil ao rei de lá. Sempre possuiu qualidades que o igualavam a Philippos, o irmão que não sei se lembra dele. Poderia ter sido tão grande quanto.
Hektor soltou um resmungo. Por algum motivo, evitava me encarar nos olhos.
--Tão fácil falar agora que eu voltei. Onde estavam suas cartas? Sua preocupação?--sua voz ressoava um forte ressentimento que eu temia não ter forças para combater--Os seus esforços de nada valeram para impedir meus desfortúnios.
--Crê que os deuses seriam assim tão cruéis contigo?
Meu irmão levantou o olhar pela primeira vez e um sorriso venenoso cruzou seus lábios cortados:
--Crê que eles creiam em mim?
--Por que haveria de ser o contrário?
Hektor se levantou e bradou:
--Porque eles só o favorecem, você que nunca fez nada! Sequer sofreu nas mãos de terceiros, toda a vida protegido pelo pai e, em sua ausência, pela mãe. Não conheceu a negligência, pois sempre obedeceu. Tão fácil obedecer quando se é o favorito por todos! É mais apropriado chamá-lo de Aquiles, pois! Mas me pergunto se há uma fraqueza sua? Ah, decerto que sim! O ponto fraco de tolos como vocês é o amor.
Meu rosto queimou em fúria porque percebi que ele me ameaçava ao mencionar minha esposa. Contudo, com grande esforço não me ajoelhei a tal sentimento. Em vez disso, lutei contra ele porque aquilo era a provocação de Hektor que me convidava a única companhia que conhecera: a dor. Quanto mais me instigava ao seu deboche, a sua língua ferina, mais sofrimento ele mostrava. 
--Sinto pelo que o pai lhe causara, mas crê quando digo que será melhor agora.
--Será que sim? O rei é louco, dizem. Com o nome que tem...
--Não maldiga os deuses!--sibilei, impaciente--E cada um sabe da dor pela qual passa. Não vou julgá-lo como tampouco compete a você me julgar. Vamos lá, seja sábio!
--Não sou a porcaria de um filósofo!--berrou Hektor--Pare de me tratar como um!
--Poderia ser, se me permitir!--insisti--Escute-me, Hektor. Sei que está sofrendo...
--Que dor poderia o perfeito Patroklos conhecer?
Não o respondi. Hektor continuou vociferando ofensas e eu ali ouvi tudo, mesmo magoado com aquelas palavras jogadas contra mim. No entanto, ele dava vazão à fúria, sentimento tal que reprimira por anos. E eventualmente, ele se cansou. 
E chorou.
--Nosso pai não está mais entre nós--disse eu, sentando-me ao lado dele. Estávamos nos jardins, sob um pomar qualquer--Não há o que se preocupar. Acha que gosto mesmo da posição que ocupo? Crê que sempre desfrutei de um favor abençoado, tanto divino quanto mundano?
--Sua vida sempre foi perfeita--Hektor cuspiu inveja em suas palavras, veneno que corroía seu coração--Nunca vi-o ser repreendido por ninguém.
--Você é alguns anos mais novo que eu, não éramos próximos por isso. Costumava passar mais tempo com Philippos e Sophia--disse, contemplativo--Sendo assim, como pode acusar-me de tantas coisas que falou? Eu tentei de todos os jeitos interferir a seu favor, mas falhei. Não adianta acusar o velho pai agora, ele não está mais entre nós para se defender.
Quando os soluços cessaram, Hektor secou os olhos e, pela primeira vez, admitiu:
--Sofro, irmão. Por ele, eu sofro. Sinto inveja sua, mas, deuses, não consigo odiá-lo.
Pousei uma mão em seu ombro e disse:
--Dará tudo certo. Esse sofrimento passará. 
A verdade é que eu o subestimei. Se pelo resquício de orgulho ou vaidade, ou porque de fato acreditei que pudesse melhorar, não sei. Olhando em retrospectiva, creio que seja reflexo dos dois. Sim, mesmo então, uma parte de mim se aliviava por não ter sido o filho que Hektor foi para o pai e me julgava melhor que ele, apropriado para levá-lo a uma melhora de conduta a partir do que a filosofia havia me ensinado. Neste quesito, faltou-me humildade. Entretanto, sempre nutri afeição por todos os meus irmãos e com ele não seria diferente: desejava ajudá-lo genuinamente, sem esperar retorno. Queria inculcar nele o sentimento que o senhor P.... havia me inspirado há tantos anos atrás, quando era um garoto. Queria abrir os olhos de Hektor para o véu da matéria que, insipidamente, caía sobre ele. Mas querer nem sempre é poder. 
A princípio, ele cedeu: contou-me sobre seu passado no campo. Que envolvera-se com homens mais velhos, mas um deles aproveitou-se do seu consentimento. Quanto a isto, não deu detalhes e eu não forcei a dizê-lo. Os tios que o receberam não o tratavam bem, e de nada adiantou quando descobriram que se tornou amante da prometida do primo. Foi expulso de lá, consequentemente. Sem ter para onde ir, buscou refúgio na casa de um antigo amante: mas Hektor foi recusado a morar lá. Não havia perspectivas e a prostituição foi uma breve solução. No entanto, a profissão parecia induzi-lo a miséria... E cá estava ele, pronto a implorar perdão para o pai se o aceitasse. 
Quanto ao perdão, não acreditei porque um pressentimento ruim tomou-me conta. De todo modo, novamente não o forcei a falar contra sua vontade. Ofereci minha casa e todo o mais contanto que ele não permanecesse desocupado. Hektor concordou e, no decorrer da semana, confessou que planejava tornar-se parte do exército do rei. 
Novamente, fui tomado por um pressentimento não muito bom e fui comunicar isso a Erhais.
--Há algo de errado com ele--eu disse, antes de contar a ela sua estória. Erhais havia conseguido engravidar depois de cinco anos de casamento. Antes disso, sofrera dois abortos espontâneos, mas naquele instante tudo concorria para que a criança viesse a nascer. Fizemos promessas para Hera e Árthemis, e Larissá prometeu ajudá-la no parto quando a hora viesse.
--Ele sofreu bastante o pobre coitado--disse Erhais--É nosso dever ajudá-lo.
--Sim--eu concordei prontamente--mas algo me incomoda. Algo não está certo.
Naquela noite, em sonho a deusa Atena veio comunicar-se comigo.
--Seu fim se aproxima, creio que já sabe disso.
Lembro de ter ficado aturdido com isso.
--O que eu fiz de errado?--me ouvi dizer.
Mas Atena sorria a mim com paciência e ternura.
--Por que pensa isso? Não crê que fez o suficiente por ora? Aprendeu o que já tinha que aprender? Voltará, sua intuição reconhece o que digo, mas não agora. 
--Falhei com Hektor--eu desabei, pois foi tudo o que conseguia pensar.
Consoladora, Atena pôs a mão em meu ombro e disse:
--Não, meu amor. Você não falhou. Entenda, as pessoas são livres para escolher o caminho que desejam. Não aprendeu isso antes com P....? Nada pode fazer se o sujeito em questão deseja permanecer no erro. 
--Não há nada que eu possa fazer?
--Infelizmente, não. Mas para que a criança nasça saudável, e ela nascerá sem qualquer custo à vida da mãe, envie-a ao norte juntamente a sua irmã--aconselhou Atena, a de olhos glaucos--E quando a hora chegar, sê comedido e resignado. Não é culpa sua, a missão que escolheu foi concluída.
Assenti.
--Ainda assim sinto-me na obrigação de pedir perdão aos deuses...
--Não há o que pedir perdão, meu caro--refutou-me Atena, bondosamente--Fez o que pôde ser feito. As circunstâncias não se alterariam se houvesse feito diferente. Nem sempre cabe a nós mudar tudo e todos. E não se preocupe com o que Zeus pensaria de você. Apenas aceite e siga em frente.
Outra vez fiz um meneio com a cabeça.
--Mas é claro. Obrigado, agradeço sinceramente, deusa Atena.
Ela me lançou um breve sorriso.
--Estarei com você sempre, meu caro.
E, com isso, despertei.
*                                                                                   *                                                                  *
--Estou com uma sensação terrível no peito--confessou-me Erhais no dia da partida, com os olhos cheios de lágrimas--Por que precisa enviar-me longe? E tão guardada assim?
--É o melhor que posso fazer, os deuses assim determinaram--falei, bondosamente--Não faria isso se fosse o contrário. Amo-a, Erhais.
--E eu a você. Eternamente sua serei--murmurou ela, repousando sua testa contra a minha.
Não havia tempo para despedidas, embora estivesse resignado com elas. Uma sensação amarga invadiu-me o estômago como se aquele cenário fosse reconhecido. Triste, suspirei. A sacerdotisa de Árthemis, minha irmã, reconheceu isso também e me lançou um longo olhar:
--Não gostaria de vê-lo assim, mas a deusa determinou que o deixasse e partisse com Erhais.
--É a vontade divina--eu falei, soando distante até para mim mesmo. 
--Que os deuses o protejam, meu irmão. Não a abandonarei, nem a ela, nem a criança--disse-me Larissá, soando um pouco profetiza nas palavras.
--Agradeço, irmã. Que eles a protejam também.
Observando as duas mulheres que amava em lágrimas partiu-me o coração, por mais resignado que estivesse. Hektor, que com seu olhar já característico de raiva a tudo assistia, se aproximou:
--Por que as mandou embora?
--Porque os deuses assim quiseram--eu respondi, sustentando seu olhar até que ele, envergonhado os desviasse.  
Ao entrarmos na casa, tendo também insistido para que Moura acompanhasse a esposa juntamente a Yin, ele se virou:
--Você tem tudo. Isso é injusto.
--A vida não se trata de posses, irmão. Mas e quanto à vida no exército?--perguntei, já ciente da resposta que viria. Fui dito mais cedo por um dos escravos que tentei libertar, mas por teimosia recusou, que Hektor havia roubado uma das espadas de nosso pai. E já havia vislumbrado a arma juntamente a ele, porém ainda insistia em tentar ajudá-lo.
Hektor ficou balançado em sua decisão. Era visível a vergonha que cobria seu rosto, e vi que Apolo o inspirava a não tomar a decisão que pairava sobre si. Do outro lado, porém, uma sombra negra sussurrava-lhe o ouvido e esta eu não soube reconhecer. 
--Hektor--eu chamei de volta--Está tudo bem?
--Não--ele confessou--Deixe-me.
E antes que pudesse fazer algo ele desapareceu da minha vista. No restante do dia, agradeci a Apolo pela ajuda, mas fiquei em tensão não pelo medo do desencarne e, sim, pela forma como isso aconteceria. Confiava em Atena, em Zeus, nos deuses, mas... temia. Era natural que temesse, afinal.
O dia sucedeu à noite e nada de Hektor. Relutei em dormir, até que ele por fim apareceu com um semblante mais calmo. Em suas mãos, um cálice e não uma espada. Aliviei-me.
--Não bebeu nada o dia inteiro--ele observou, vindo tomar seu lugar ao pé da minha calma.--E me parece que não está bem.
--Não, não estou--disse eu, aceitando de bom grado o vinho. O cansaço, na verdade, fora inspirado por Atena e ao meu lado direito, via a presença de Apolo, a luz quase de todo iluminando o quarto escuro. Também por Atena, senti sede, porém um ímpeto de falar impediu que de todo ingerisse o veneno contido no vinho--Gostaria de ter sido um irmão melhor, Hektor. Vejo agora que me perdi na expectativa em agradar nossos pais. Cumprir com o dever, ser filósofo e um bom marido... De que tudo isso significa se falhei com você enquanto irmão?
Hektor tremeu diante daquelas palavras. O arrependimento estava em seus olhos, mas o sono que Atena me inspirava fê-me beber o vinho. 
--Espero que me perdoe. Obrigado pela bebida--falei--Vai me ajudar a dormir.
--Patróklos! 
Ele me chamou, mas era tarde demais. Adormeci e, sem sentir o efeito do veneno em si, desencarnei. Não muito depois, Hektor também seguiu meu destino, embora de uma maneira pior e deliberadamente. Por um bom tempo, recusei a encarnar para ajudá-lo. Creio poder dizer que consegui. O suficiente, porém, para que ele voltasse ainda nos tempos de nosso mestre Jesus.
Mas eu viria posteriormente quando Ele me permitiu, quando o Pai determinou que fosse necessário. Pois não mais encarnaria para expiar, mas em missões... 

Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...