quarta-feira, 31 de julho de 2019

Velhas Memórias. Ciclo V.

Zhengzhou, China.
Ainda em tempos distantes marcados por guerras sem escrúpulos, violências que, pela ilusão da matéria, exerciam domínio sobre a mente do homem, nasci. Desta vez, regressaria sob a veste de uma mulher. Numa família de camponeses, recebi o nome de Xin Yung. Xin era o sobrenome dos ancestrais de meu pai, e Yung foi o nome que escolheram me dar.
Recordo-me de ter vivido longe do rio e próxima às florestas em um pequeno vilarejo. Era criada pela minha avó, uma senhora que surpreendentemente alcançou 60 anos numa época em que se esperava morrer aos 30. Seu nome era Xin Zhorae e ela havia sido a mãe de meu pai. Zhorae foi a matriarca da família, quem aconselhava minha mãe sobre a educação das crianças e compartilhava sua sabedoria com meu pai em outros tantos assuntos. Não era tão robusta quanto poderia se supor, mas minha mãe costumava dizer que sua saúde era forte como o ferro por manusear tão bem as ervas que tinha em seu alcance. Seus olhos pequenos eram escuros e atentos a qualquer movimentação em nossa humilde casa de madeira; suas bochechas, embora pouco flácidas, eram pálidas como a neve que caía no inverno; e os lábios pareciam estar sempre cerrados, pois raramente repuxavam-se em um sorriso. Normalmente, expressava-se pelo olhar e somente um tolo não perceberia isso. Vestia-se com o que podia e, ao lado de minha mãe, dominava a arte da costura. Aquela mulher seria muito importante para mim, embora deva admitir que, em existências precedentes, não costumávamos nos dar bem. Assim, optamos por vir no corpo feminino a fim de remendar as pendências de outrora.
Quanto ao meu pai, seu filho, não tenho qualquer recordação. Foi convocado para uma das guerras do reino do qual fazíamos parte e nunca mais voltou. Sendo assim, cresci como a única filha daquela família, acompanhada, porém, de um irmão mais velho, que herdaria as ocupações de nosso pai, vassalo de um senhor de terra que, por sua vez, respondia ao rei daquele território. No decorrer da minha infância, tudo foi passado com certa tranquilidade. Isso se explicava aos passos que dava rumo ao progresso espiritual que almejava. Não é absurdo confabular a respeito do avanço que dava quanto a escuridão que não mais me cegava. E, no entanto, não significava que aquilo seria a última vivência. Longe disso.
De rosto oval e semblante tranquilo, olhos pequenos e serenos, bochechas coradas e lábios finos, tal foi a minha aparência com pequenas mudanças na vida. Meus cabelos viviam presos em um coque, embora este hábito tenha se desenvolvido a partir da minha juventude, pois na infância viviam soltos. Minha mãe não era tão próxima quanto poderia se pensar, tendo se ausentado da minha educação, o que fez nascer em mim uma frieza voltada para autoproteção. Contudo, não se deve confundir este traço como orgulho. A ausência do amor materno, porém, refletiria nas faltas que ela enfrentaria posteriormente. Deste modo, Xin Zhorae me trouxe para si. Quando tinha seis anos, ela me confidenciou, bem humorada:
--Vossa mãe pensais que sois mui parecida comigo, portanto, a relegastes aos meus cuidados. Não que me importe com isso, sempre fui mais forte que ela.
--Creais que eu seja fraca, senhora vó?--não pude evitar perguntar.
--Creio que possuis um espírito demasiado forte, criança. Mas quero que venhais comigo, ensinarei o que me foi passado pela minha mãe.
Curiosa como era, por mais iletrada que fosse, eu falei:
--Como podeis saber tanto?
--Os deuses nos concederam meios para compensar as faltas que sofremos--explicou-me ela--Veja, nada posso ler, nenhum domínio sobre as letras possuo, e, no entanto, para contrabalancear esta situação que não nos favorece de forma alguma, meu conhecimento sobre as ervas, a água, a natureza e todo o mais é vasto.
Como era observadora, compreendi que, se fosse esperta, seguiria um destino similar e favorável. No entanto, ao crescer, tornava-se óbvio que as mulheres não esperavam algo melhor que constituição da família. Aquilo me inquietava. Aos doze anos, questionei:
--Por que havemos de nos submeter aos outros, senhora vó? 
Zhorae apenas me encarou. Permitiu que meu espírito tão volúvel se rebelasse contra o corpo que tomara e, por conseguinte, a vida que tomava forma. Por mais que aceitasse algumas condições, tantas outras eu recusava. O orgulho ainda se manifestava, embora certamente em menor grau que anteriormente.
--Não pensaria assim--ela me respondeu, calmamente--Tendes a alma inquieta e irrefreável, Yung. Possuis um pensamento inquisidor e impaciente. Aprendeis rápido, é verdade, e se quiserdes seguir o caminho certo, tornar-vos-á uma sábia em vida. No entanto, também penso que isso se reflete pela forma com a qual vossa mãe vem lhe tratado. 
--Ela prefere meu irmão--comentei, surpreendentemente serena--Não a culpo por isso. Ele ocupará o cargo de nosso pai e somente os deuses sabem como vai conduzir todas as questões domésticas. Vejo que há nele uma perseverança interessante, de fato, mas por que não poderia ser como ele?
--E o que gostaríeis de ser?
--Uma guerreira--falei, sem pensar.
Zhorae riu.
--Guerreira?--ela repetiu--E por acaso conheceis uma mulher que tenha tomado a espada ao lado de homens? Não seja tola, criança. Seu irmão tampouco o é. Esta é uma ocupação para outros.
--E, entretanto, nosso pai foi à guerra, não?--eu retruquei, instintivamente procurando por conflito. 
--Falais como se ir à guerra fosse divertimento--repreendeu-me a avó, pacientemente--Desejais perder vossa vida em prol de objetivos que não são nossas responsabilidades? Delegar vossas funções a membros de família incapazes de cumpri-las por não terem sido previamente preparados para elas? Acreditais que casar é levar uma vida mais tranquila e ansiais por um amor em meio ao caos de interesses que não respondem pelos nossos?
Diante do meu silêncio, Zhorae prosseguiu:
--Desejais agradar e ser agradada, não é isso, criança? Não nutrais pela vossa mãe um sentimento de rancor, mas a ferida clama por uma cicatrização. A guerra não é um escape, não é um modelo de vida que devemos almejar. Ela destrói e nunca beneficia ao povo, mas aqueles que o governam. Venhais, está na hora de direcionar estes desejos para outro lugar.
Mas, enquanto me levava para o lado de fora, próximo ao bosque, não consegui evitar dar vazão a este inquietamento que me sacudia a alma.
--Mas a honra não está em defender e obedecer, senhora vó?
Ela parou e me fitou nos olhos antes de dizer:
--Para aqueles que a possuem, sim. Mas por que ela se apresentaria apenas em tais combates sangrentos?
--Porque--eu me aproximei em dizer--não há nada mais honroso que ajudar a defender nosso reino de invasores. Manter-nos a salvo é uma ação benfeitora aos olhos dos deuses, principalmente se feito sem grandes ambições.
--Sem dúvida que sim--concordou Zhorae--mas acreditais que os homens compartilham do mesmo pensamento? Que as guerras não são movidas por outras finalidades? Muitas vezes, filha, eles colhem o que plantam. Observe.--e, com a mão, fez um gesto para que me sentasse próximo a uma plantação de mandioca. Ela tomou a terra fértil nas mãos e, me encarando, disse--Com o passar do tempo, o povo que aqui vivia tomou nota de como se alimentar, ensinando uns aos outros a sobreviver. Isso pedia paciência e sabedoria, ambos os quais demoraram a se enraizar em nossos ancestrais. Até conhecerem o que deveriam plantar, erraram e, arrisco a dizer, morreram para que outros não repetissem isso. 
"Disso sabendo, o que pensarias de mim se, acaso, optasse por remover toda a plantação de mandioca, arasse a terra e criasse um  tipo de arroz em seu lugar? Isto aqui, este solo que escorre de minhas mãos, eu conheço. Sei o tipo ideal de semente, de comida, enfim, para ajudar-nos uns aos outros a não sofrer fome. O que pensais que colheria neste cenário, filha?"
--Nada--falei, apreendendo a noção do que faz o homem com aquilo que tem; que para tudo o que plantarmos, há uma colheita--É provável que deliberadamente causásseis uma escassez que afetasse todos os outros que da terra dependem.
--Muito bem. E creias, no fundo do seu coração, que seu pai morreu por isso? Que ele optou por seguir este destino? Falais das mulheres que baixam a cabeça e não escolhem, e dos homens que têm medo da morte?
--São covardes--respondi, como que em desafio.
--Seriam mesmo? Escutai-me, filha, em vez de ser tão impaciente e orgulhosa--pediu-me a avó--A cada passo dado, nos será ofertado uma escolha. Qual será a vossa? A de julgar homens pelas realidades que não vos competis viver? Para cada terra que os deuses vos conceder, pensais antes sobre o que pretendeis semear. Pois o que podeis colher, decerto afetarás não somente vós, mas tantos outros que conheceis.
Se havia me desapontado, era porque aquele conselho de sábia avó me nocauteara no âmago do que vinha sendo meu questionamento. Ainda que a cada amanhecer, eu pudesse caminhar pelo campo verde, admirar as árvores e contemplar o céu azul do novo dia que surgia; ainda que me desafiasse a melhorar na tecelagem e apreciasse a companhia dos animais mais do que a da minha família, eu me sentia incompleta.
Um dia, novamente agitada, fui atrás de minha avó. Ao lado de outras senhoras, ela mexia com ervas. Em silêncio, porém, a observei mexer naquelas folhas diferentes e sem nenhum comentário fazer, trabalhar seus dedos finos por cima delas. Ela estava produzindo o que, muito mais tarde, receberia o nome de chá.
--Venhais cá--ela me chamou assim que me viu. Depositara água sobre pedaços de folhas que eu desconhecia e falou--Bebais.
Sem que eu pudesse contestar, me foi empurrado o pequeno balde e assim bebi. O gosto não era dos melhores, mas não ousaria afirmar que era ruim quando não o era.
--É... bom--eu disse, entregando o objeto de volta às mãos que me entregara.
--Só isso? Bom?--resmungou a velha--Não estais nunca satisfeita, não é mesmo? Sentai aqui. Ensinarei a manipular esses couves e folhas de bambu.
Era verdade que aquela cena despertava em mim uma intuição de identificar algumas folhas, para quais objetivos deveria usá-las. Aquilo surpreendeu minha avó, que exclamou:
--Ah! Olhais, olhais! Como sois natural para isso, Yung! Mas como? Não a ensinei isto, oh não, não isto.
Referindo-se às plantas medicinais, eu apenas dei de ombros e falei:
--Creio que foi por instinto.
Mas a religiosidade da minha avó era alta demais para aceitar minha ignorância como resposta tática e inquestionável.
--Ao contrário, não foi. Venhais, há muito o que fazer.
Assim, se estabeleceu uma das atividades que não somente apaziguaria toda a agitação inerente ao espírito, principalmente pelas características que, não tendo sido desenvolvidas naquela vivência, precisavam ser domesticadas, como também estimulariam uma das qualidades que vó Zhorae diria ser importantes para as mulheres de casa. E tão logo fiz disso um escape ao ambiente doméstico frio que minha mãe estimulava, não demoraria para que conhecesse aquilo que me foi recusado:o amor em si mesmo.
Como se pressentisse este acaso, que por si só não o era, minha avó veio a mim em uma noite de primavera. Já contava quatorze anos e fazia muito que melhorara meu temperamento, embora faltasse mais a expiar. Meu corpo já adquiria contornos de maturidade, o que logo me expôs a conversas sobre casamentos. Conhecendo-me bem, Zhorae tomou a liberdade de me levar a uma pequena volta no crepúsculo. Andando a passos longe da vista de outros camponeses, muitos dos quais era ela quem se tornou familiar a eles, ela me situou em frente a um lago e pediu para que me sentasse ali mesmo, sobre a grama selvagem. Obedeci, e em meu silêncio, lancei a ela um olhar curioso.
--O desconforto que antes se fazia em sarcasmo transformou-se em silêncio--comentou Zhorae, como se ponderasse consigo mesma--Nunca cessais em me surpreender, filha. Ainda me pergunto se o desejo de ir à guerra mantêm-se, porém.
--Está adormecido--respondi, o que era verdade. Aquela vontade jamais se cessaria e, levando em conta as histórias precedentemente contadas, presumo que os leitores compreenderão o que aqui se passava.--Creio que ter-me direcionado para o conhecimento da herbologia me favoreceu nesse sentido.
--Mas não o suficiente--insistiu Zhorae, encarando-me com tal intensidade que fê-me desviar o olhar--Não. Há algo dentro de si que muito me parece cansado, triste, desalentador. Vossa mãe certamente não ajudais, e é por isso que devo concordar com seu irmão, querida. Há de se casar.
Levantei o olhar. Uma sensação de pânico veio a encher meus pulmões e foi preciso que ela se manifestasse para que eu não verbalizasse a tormenta que vinha de meu peito.
--Casamento também é dever. É honra. Tanto para vossa família quanto para nossos ancestrais. A linhagem se perpetua e é assim que tem de ser.
Aquiesci e não respondi. Lamentar não mudaria as circunstâncias e apesar da aflição que uma união sem meu consentimento me causava, negar o dever seria negar todo o ideal que vinha construindo nos últimos anos. 
--Achais que sou cega ao vosso sofrimento, Yung? Sois difícil em lidar, mas persisto no que venho vos dizendo. Meu marido, vosso avô, não era fácil tampouco, mas ele nunca me faltou com o respeito. Sendo quem somos, isto se faz significativo.
O matrimônio era valoroso para aquela cultura e se manteria assim nos próximos séculos, mas, para quem não conviveu com isso, aquilo era diferente. Aceitá-lo, na verdade, tornar-se-ia uma prova sobre meu orgulho e minha vaidade. Não mais necessitava viver em solidão, pois era um chamado para volver à sociedade de muitas formas.
--Farei o que me pedis--enfim concordei--já que é importante para vós.
Pela primeira vez em muitos anos, vi Zhorae sorrir. E foi uma cena acalentadora porque aquele ato, insignificante para mim, significou muito para ela. Descobri que, ao fazê-la feliz, pouco valia meus sacrifícios pessoais, pois a tinha em grande estima.
--Que os deuses sejam louvados! Comunicarei imediatamente ao vosso irmão.
Por conviver muito mais com minha avó do que com o restante da minha família, os via com indiferença. Quando, ainda naquele mês, aquela que foi minha genitora partiu para o plano acima, sua ausência pouco me afetou. Não houve tempo a prantear porque, em nossas condições, o luto era um luxo que não poderíamos nos dar.
Meu irmão, Xiu Tsun, era quase dez anos mais velho que eu. Possuía uma constituição mais forte do que a minha por estar constantemente fazendo trabalhos braçais. Em decorrência de sua saúde robusta, quase foi chamado a fazer parte do exército do rei, mas o senhor das terras sob cuja proteção vivemos interpelou em seu favor. Como não havia ameaça iminente de guerras, ele permaneceu em sua ocupação. E como agradecimento, foi permitido que desposasse uma prima distante. Com isso, podemos concluir que era capaz de usar sua ambição a seu favor. Ele era belo, porém faltava-lhe a inteligência e a mente afiada. Estava preso a instintos materiais, e tais eram as que motivavam seu ofício. Por isso, éramos diferentes em personalidade e não me interessava aproximar-me dele. Na verdade, conhecendo seu caráter, mesmo agora, afirmo que ter-me sob seu teto causava-lhe preocupações de sustento, não bastando acrescentar nossa avó a isso. No final das contas, casar-me não seria uma ideia tão ruim assim. E pela estima em que tinha Zhorae, permitiu que ela escolhesse meu marido. Encontrou-o em um sobrinho de uma amiga, outro camponês, mas que morava fora daquele vilarejo, embora na mesma região de Zhengzhou.
--Vais gostar dele--contou-me Zhorae, e havia uma empolgação em suas palavras que fê meu coração acelerar--É soldado do rei, contou-me Huan, alto, possui boa complexão e é bom de caráter. Que os deuses sejam louvados!
--Que os deuses sejam louvados--repeti, ainda que sem animação--Quando devo conhecê-lo?
--A proposta foi oferecida hoje--disse-me a avó--e deve ser por isso que os deuses me pouparam. Ver minha querida neta casada e assim descansarei em suas moradas.
A isso, revirei os olhos, por mais que o conceito de morte não me assustasse. Por enxergá-la como distante, e conservar em mim o instinto de breve separação pela carne e não pelo espírito, não acreditei de imediato que estivesse falando a verdade. A despeito de nossas diferenças arraigadas na infância, tornamo-nos inseparáveis e apegadas de maneira tal que, se houve alguma rivalidade no passado, ela não se fazia no presente.
--Sejais prudente, minha vó--falei, com a doçura que meu caráter permitia. Ainda era, em essência, um pouco embrutecida e o meio em que estava inserida não pedia outra modificação--Teria a tia dele consentido nesta união?
--De fato que o sim. Acalmais vossas preocupações, Yung, que tudo será resolvido conforme a vontade divina.
E com tal resignação, fui inspirada a silenciar meus temores. Procurei não me concentrar neste casamento, no desconhecido que seria obrigada a chamar de marido, e foquei em ocupar-me com as plantações de arroz, de cenoura, enfim, no manuseamento da terra fértil. Enquanto não recebia a resposta do meu noivo, era obrigada a lidar com assuntos domésticos... piores.
A esposa de meu irmão, a prima distante do senhor das terras para quem labutávamos, se chamava Jan Lin Chun e era, apesar de dócil em disposição, egoísta em caráter. Não lhe apetecia dividir o teto comigo e nossa avó, ainda que, à primeira vista, nos tratasse bem. Reclamava de viver em meio aos camponeses quando sentia falta de um suposto luxo que seu primo distante lhe concedera. Não obstante, instigava Tsun a ir além às condições que naquele momento imputavam sobre ele. Em suma, alimentava suas ambições para direcioná-lo à dominação das sombras das mesmas. Não era de se espantar que eu me achasse em isolamento, mas me preocupava com o que seria de minha avó se deixasse o lar prontamente. Uma vez, conversei a respeito disso com ela.
--Minha hora está chegando, tenho a consciência disso--disse-me ela, apresentando-me, um certo dia, a uma erva bem doce. Preparávamos uma bebida em meio ao fogo da lareira--Todo o propósito há de conhecer o fim, minha filha. Do contrário, para quê construí-lo?
--Vó, não seja assim... --falei, sentindo a impotência na voz--Vós poderíeis morar comigo e o esposo. Não hesitaria em brigar com ele se fosse necessário para que dividisse um teto conosco.
Mas a velha riu de minhas ilusões e, tomando minha mão na sua, retrucou:
--Já falei para que não vos preocupais comigo, criança. Não temo o futuro, nem aquela cobrazinha que será a responsável por dar continuidade a nossa linhagem. Acredite, sua bisavó era pior.
Eu ri, e pus-me a imaginar como, dentre aqueles indivíduos tão frios, vim a conhecer uma avó amorosa e protetora. Sentia no meu coração que suas palavras eram verdadeiras e ainda que a morte se projetasse sobre nós, reconhecia que isso não colocaria fim em nossas relações. Contudo, eu ainda teria alguns anos a mais a lidar com problemas que, à época, não tinha confiança em resolver sem seus sábios conselhos. 
--Quero que venha comigo, vó--insisti--Por favor.
--Não, filha. Não posso. 
Com isso, encerrou-se a discussão e não insisti mais. Como a jovem que era, fiquei entristecida pelo resto da tarde e no anoitecer. Na manhã seguinte, porém, seria forçada a lidar com pesadelos piores.
--Preciso que cozinhe hoje--disse minha cunhada, enquanto me vestia para o trabalho na colheita daquele dia--Estou carregando uma criança e não posso dispensar esforços.
Não respondi. Seu tom de voz não me agradou e havia uma leve ameaça pairando no ar. Apenas fiz minha prece em silêncio, pedindo para que os deuses se compadecessem de mim. 
--Ouvistes o que disse?--ela resmungou em voz alta, aproximando-se perigosamente de mim. Colocou uma mão ao redor de meu braço e me puxou para que a encarasse.--Sois muda? Estou falando com vós.
Com muito esforço, engoli em seco. Ainda que minha genitora houvesse deliberadamente me ignorado ou dispensado tratamentos a mim, não conhecera, até então, traços de agressão. Tão logo me aquietei, e a esposa de meu irmão rapidamente preencheu este vácuo. Um beliscão não arrancou de mim uma resposta, nem sequer um arranhão. Sem paciência, ela me esbofetou com força, fazendo-me cair no chão.
--Não quero vê-la fora de casa--disse, antes de deixar-me só. 
Apesar desta pequena resistência, a dor infligida a mim fê-me chorar. A ausência de qualquer defesa ou reclamação não significava a falta de reações da minha parte. Prantear as pequenas gotas de sangue que saíam de minha pele ou da humilhação sofrida era como pensava me defender. Pois, se o fizesse na frente de Lin Chun, seria como se consentisse que me fizesse objeto de suas agressões. Da mesma forma que se a respondesse seria ceder às suas provocações.
No entanto, não me demorei ali: havia deveres esperando a serem cumpridos e eu aguardava ansiosamente sair da terrível esfera que era viver sob aquele teto. Persistia, era verdade, mas nada apaziguava o clamor de minha alma em libertar-me daqueles tormentos infligidos a mim. Duvidava de minha força para enfrentá-la, e por isso me achava em busca de um livramento. Mas meus pensamentos se enfraqueceram diante de minha avó, quando fui encontrá-la em sua própria casinha: não estava tão bem quanto antes e precisava de cuidados. Com isso, vendo em mim sinais de agressão que ela supunha vir do meu irmão, exigiu que eu ficasse ao seu lado.
--Vosso marido virá buscá-la--contava-me, animada.
Já não contava mais quatorze anos quando ela me disse isso, e eu não sabia mais se deveria acreditar em suas palavras. Seriam os deuses cruéis a ponto de me trancarem com pessoas que me renegavam? Ou seria a tola que via em um casamento a perspectiva de liberdade quando meu marido poderia, também, ser como meu irmão ou a cunhada?
Defronte àqueles questionamentos para os quais não encontrava resposta, eu me resignei. Concentrei minhas forças a cuidar de minha avó. Meu irmão, ciente do que se passara, naturalmente optou pelo lado da esposa, mas em respeito à avó, permitiu que ficasse ao lado dela. Foram dias bastante tensos. Nada que eu pudesse fazer atenuava o sofrimento da velha.
--Sempre soube que éreis talentosa com essas ervas, criança. Este dom não deve ser desperdiçado, Yung.
Tomei sua mão na minha e disse:
--Prometo que não será, vó. Mas se eu fosse boa como a senhora diz, a teria curado.
--Besteira. Não temos a cura para tudo. Somente os deuses a possuem--retrucou Zhorae.
Quanto a isso não respondi. No dia seguinte, ela ainda lutava pela vida e percebi o quanto era egoísta pedir que permanecesse comigo.
--Liberte-se, vó. A dor não lhe faz bem--eu disse.
Mas ela teimou:
--Já vos disse, Yung. E direi-vos outra vez: terminarei meu propósito apenas quando ele vier.
Para os leitores mais céticos, foi uma coincidência, mas os que creem em minhas palavras, sabem que tal não existe. Meu noivo, afinal, chegou à região procurando pela minha família. Na verdade, a tia dele o trouxe diretamente a nós, perante meu irmão e sua esposa que abandonaram seus afazeres para ver o motivo pelo qual alguns estranhos se aconchegavam na casinha de minha avó.
Foi uma sensação bastante peculiar. Aquele rapaz, dentro das características que a velha havia me dito antes, me remetia a uma familiaridade desconhecida! Seu rosto era sereno, seus olhos transmitiam sabedoria e seu corpo, forte, denotava uma saúde robusta. Quase de imediato corri a seu lugar para agradecê-lo por ser meu salvador. Talvez mais que isso: algo em sua presença emanava luz em meu coração. Uma paixão arrebatadora, traduzida para a linguagem moderna.
Zhorae, que mesmo naquela situação nada lhe escapava, prontamente exclamou:
--Que a cerimônia seja realizada! Não partirei sem ver minha neta casada!
--Acalme-se, vó--eu a interrompi--Precisamos ser cautelosos e sua saúde é a prioridade.
Mas era claro que a velha teimaria em reinar sobre todos nós, mesmo tão perto do fim.
--Nada disso. Por favor, tragam o nosso senhor! Somente ele poderá dar a bênção.
Tentei dissuadi-la do acaso, mas Huan, a tia de meu futuro marido, correu ao lado de quem presumi ser seus parentes atrás do senhor de terras em questão. Nesse meio termo, meu noivo, cujo nome descobriria ser Chang Yan, aproximou-se de mim e disse:
--Poderia ter a honra de conversar com a senhora antes de nos casarmos?
Tornei a olhar para minha avó, que subitamente pareceu melhorar e energeticamente exclamou:
--Vais! Vais conhecer vosso esposo, Yung! O que vos espera?
Pela primeira vez em quinze anos, senti um rubor subir às faces. Soltei meus cabelos, lisos como a água, e, vestida como uma donzela camponesa se vestiria em minha posição, assenti e ofereci a Yan meu braço direito. Atravessamos os curiosos que nos acompanhavam com os olhos e seguimos por um passeio ao redor do vilarejo.
--Minha tia transmitiu a mim os mais sinceros desejos de ver-me unido à neta de uma amiga que ela valoriza--ele me contou e sua voz soava tão doce aos meus ouvidos que fê-me sorrir, ainda que timidamente--Confesso que a ideia só me agradou quando ouvi mais precisamente sobre você. Minha mãe já deu sua bênção, pois ela quer netos para mimar, veja só. Mas não foi até seu nome sair dos lábios de tia Huan que soube que era quem deveria tomar como esposa.
Ruborizei ainda mais. Inexperiente como era quando se tratava de rapazes ou relacionamentos daquela natureza, baixei o olhar. Contudo, meu coração se acelerava e em meu íntimo ansiava por mais. Reconhecia-o sem tê-lo conhecido, como isso seria possível? Tais eram os pensamentos que moviam-se em minha mente.
--Perdoe-me por soar atrevido, senhora. É uma sensação que não cabe muitas explicações--disse ele, quase como se estivesse se desculpando.
Instintivamente tomei suas mãos nas minhas e repliquei:
--Por favor, fale mais! Gostaria de ouvi-lo. Receio admitir ter sentido o mesmo, embora pouco tenha ouvido sobre o senhor da minha avó. Temia perder as esperanças de desposá-lo, pois, de alguma forma, era você quem deveria ser meu esposo e mais ninguém.
Yan me abriu um sorriso caloroso que, novamente, provocou um rubor em minhas faces.
--Os deuses foram bons conosco, senhora. Creio ter sonhado com vós em uma das noites mais recentes, quando fiz a inspeção pelas bordas a comando do general Xiu. Foi como se...--ele pareceu dizer algo, mas se calou--De toda forma, espero fazê-la feliz.
Um pequeno encontro de cinco minutos mais parecia como um reencontro de uma vida inteira. E era assim que foi, de fato.
--Contaria-me, senhor, sobre sua vida?--inquiri, ansiando pelo desconhecido.
--Nada mais me alegria em fazê-lo--disse-me ele, alegremente.
Percebi que Yan gostava de falar. Sua voz era serena, paciente e doce de se ouvir: nenhum detalhe lhe escapava, assim soube que a casa em que morava era relativamente maior que a minha pelo fato de atuar tão próximo ao rei, e não meramente a um senhor de terras. Ainda que estivéssemos em um tempo curto de paz, como descobriríamos em breve, ele cumpria algumas pequenas missões designadas ao grupo do qual fazia parte pelo general. E os treinamentos eram rígidos, pois disciplinavam a mente sobre o corpo de maneira qual que não houvesse espaço para paixões.
Logo mais, contou-me que sustenta duas irmãs, uma das quais está prometido a outro companheiro de armas, e a outra não pretende se casar de forma alguma, o que explica alguns conflitos que têm com a velha mãe. Instintivamente, flagrei-me pensando a respeito da situação desta irmã, chamada Chang Annchi. Algo me dizia que sua condição não era boa, e que não detinha uma saúde tão boa quanto a dos irmãos. E se eu conseguisse curá-la? Mas não ousei transmitir meus pensamentos em palavras para aquele bondoso homem. Ainda não. Com isso, cultivei a paciência.
A conversa não se demorou muito mais porque o senhor das terras, cuja parente se tornara minha cunhada, finalmente chegou. Com reserva, cumprimentou a todos nós, embora se mostrasse surpreso ao ver Yan. Como viria a saber mais tarde, os dois homens se conheceram há cinco anos atrás quando os vizinhos quase invadiram o reino. 
De todo o modo, na presença de minha avó, deixava minha família para tornar-me membro de outra. O culto aos ancestrais ainda tinha alguns resquícios e, para minha surpresa (o que não deve ser para o leitor que acompanha estas histórias), via os espectros tanto da minha quanto da família de meu esposo. Havia sorriso e prazer em suas expressões e todos eles transmitiam uma paz que refletiu-se em meu interior. Como só eu parecia vê-los, entretanto, achei por bem guardar aquela visão a mim.
Uma vez que a cerimônia, ou o que se pode chamar de tal, veio a fim, Zhorae desfaleceu, para horror de todos. Colocamo-na em sua cama e, se até então estava tomada pela felicidade, achava-me em grande estresse. Procurei pelos frascos de ervas sobre os móveis de madeira, na esperança de detectar aquele que levasse-a à cura. Enquanto isso, ouvi Tsun exclamar:
--Mas ela estava bem agora mesmo! Como pode? Como pode, meus deuses?
Foi quando, quase que por um instinto, ocorreu-me algo que ela falou: somente os deuses detinham a cura de tudo. E perceber que era hora de deixá-la ir foi, para mim, uma dor. Não tão profunda quanto possam imaginar, mas ainda assim... dor. Meu marido veio a mim, procurando me consolar, mas levantei-me e disse, mirando em seus olhos:
--Preciso libertá-la. É hora de partir.
Tão serena quanto possível, aproximei-me ante à multidão de vizinhos que se aglomerava, horrorizada, à visão da querida Zhorae. Fiz, portanto, um pequeno pronunciamento ao tomar sua mão na minha:
--Querida vó, fostes como uma mãe para mim. Educastes-me para o papel de esposa que virei a desempenhar, para a mulher que me tornei. Transmitistes vosso conhecimento a mim e não duvidais de que farei o mesmo. Que os deuses vos receba na grande morada, cercada pelos nossos ancestrais que estão em paz. Não serais jamais esquecida, vó Zhorae. Agradecemos vossa presença, vosso espírito, vossa sabedoria. Que os deuses vos acompanhe.
Assim, tão rápido quanto o pôr do sol, a pele de minha avó perdeu o calor e sua respiração cessou. Ela já não estava mais entre nós. E eu chorei.

*                                                                                         *                                                                    *
--Conte-me das cicatrizes que carregais--pediu-me Yan, observando a luz do amanhecer entrar pela janela e queimar sobre minha pele exposta. Ele se referia aos cortes em minhas mãos, à cicatriz próxima à bochecha e outra menor em meu braço, estas últimas causadas pela minha cunhada. Nas costas, uns arranhões podiam ser vistos próximos à lombar por conta do trabalho árduo que fazia. Mas nunca dei a estes importância.
--Seria preciso revisitar o passado que desejaria esquecer--eu respondi, escondendo meu rosto contra seu pescoço e conhecendo a paz em seus braços. 
--E teríeis vergonha dele?
Levantei o olhar para encontrar o dele, tão pacífico, tão sincero, que era difícil não amá-lo. Dois anos haviam se passado desde o dia em que nos casamos, desde que deixei para trás uma vida que só era florida pela presença de Zhorae. A presente em que vivia não era mais fácil, ao contrário, desdobrava-me em aprofundar-me nos conhecimentos de ervas para ajudar na saúde da irmã de Yan, Annchi, e também na de sua mãe, que já não era mais jovem. Aquelas mulheres me aceitaram como suas e a elas me tornei muito próxima. Ajudá-las não era um sacrifício para mim. Contudo, era inegável que aquela nova família da qual fazia parte me inspirava mais amor, paz e resignação do que a outra.
Por isso, refleti antes de respondê-lo. Yan ainda me fitava com seus olhos castanhos que, à luz do sol, pareciam esverdear-se. Ele sabia como ler minha alma e a compreendia bem. Não julgava, e nós nos completávamos tanto por isso quanto por outros motivos.
--Não--enfim falei--Fico triste não pelo que eu passei, mas por quem foram as pessoas com quem convivi. Não consigo chamar Tsun de irmão, embora ele assim seja. Ou considerar sua esposa minha irmã. Eles me causaram muita infelicidade, Yan. Perdoar, é claro que eu perdoo, mas tem sendo um exercício diário.
--As dificuldades pelas quais passamos costumam nos abrir os olhos para dois caminhos que podemos escolher--ponderou ele--Um, para o perdão sincero. O outro, para o perdão supérfluo. No entanto, apenas um deles satisfaz a vontade dos deuses.
--Sim--concordei--E não quero nada supérfluo. Sou mais do que isso.
Ele me abraçou forte e, depositando beijos em minha face, disse:
--Sabeis mais do que admite, minha querida. 
Eu ri disso, mas não respondi. Provavelmente fosse verdade. Assim ficamos juntos no desenrolar daquela manhã, sem pressa nenhuma para viver o decorrer do dia. Entretanto, não era do nosso feitio escapar aos deveres que nos clamavam. Sendo assim, prossegui nas plantações e nos cuidados domésticos como de costume, sempre dividindo meu tempo entre tais obrigações. 
Apesar da paz que pareceu ser concedida a minha vida, caro leitor, não se engane. A felicidade precisa ser duramente conquistada e não é pelas vias materiais. É bem verdade que fui feliz ao lado do amor que me acompanha há quatro existências (e continuará acompanhando, como verão no futuro), mas isso só não basta. Havia provações que pediam para expiar faltas precedentes.
Uma delas foi a dificuldade de conceber. De fato, engravidei em quatro luas cheias, mas as perdi a cada lua crescente. Quando contei vinte e dois anos, a preocupação tornou-me mais religiosa do que o comum. Pedia, fazia os sacrifícios que alguns deuses necessitavam...  Mas de nada adiantava. Não engravidava como perdi as duas mulheres que mais se importaram comigo depois de minha finada vó. A mãe e a irmã de meu esposo faleceram em cinco meses de diferença.
Na ocasião do enterro da irmã, desabei. E Yan se assustou porque não era de ser levada pelas emoções.
--Perdoe-me--eu implorei, de joelhos--Falhei com vós como esposa e mãe. Falhei com elas como curandeira. Perdoe-me, esposo.
Yan, que detinha um controle maior sobre seus sentimentos do que eu, gentilmente levantou-me para envolver-me em seus braços. Assim, disse ele:
--Não há o que perdoar, amor meu. Desde o primeiro dia, fostes solícita para com elas. Tratou-as como a família que recebera, desenvolveram todas as três laços de afeição que eu, para ser sincero, não vira isso em outras situações. Os deuses são implacáveis, mas devemos permanecer como um só quando enviam a nós suas vontades inquestionáveis. Somos fortes e venceremos isso juntos. Quanto aos deveres que uma esposa deve cumprir, ouso dizer que a concepção não é apenas uma delas. E ainda que fosse, não fostes uma mãe para a minha, uma conselheira e irmã para Annchi? Não há nada que perdoar. Amo-a e a amaria mesmo se nada fizestes. 
Com isso, fortalecemos nossos laços e vencemos dificuldades. Ao que tudo indicava, envelheceríamos juntos e cumpriríamos nossa missão juntos. Contudo, por algum motivo, minha jornada estava destinada a ser solitária. Pelo menos, no início. Pois quando tudo parecia ter melhorado, as guerras eclodem novamente.
Procurei ajudar no que podia com os soldados feridos, mas nem todos aceitavam que uma mulher fosse a curandeira dos homens do rei. Ainda assim, esforcei-me em ajudar tanto quanto podia. Considerei mesmo a me disfarçar como um deles para ajudá-los, no entanto, fui impedida de fazê-lo por meu marido.
--São tempos perigosos, querida. Não vos arrisqueis, por favor. 
Seu pedido ressoava como um pedido de socorro aos meus ouvidos, pois compreendia que havia perdido muitos do que amava para a vida. Não segui, portanto, meu instinto e, como esposa obediente, aquiesci.
--Apenas volteis para casa seguro, por favor--implorei.
A velha sensação da sombra da morte como um eclipse pairava novamente sobre nós. Compreendi, com um aperto no coração, que ele não voltaria para casa. E ele parecia sentir o mesmo, pois me apertou contra o peito e disse:
--Sigo sob os desígnios dos deuses, não é sábio questioná-los. Não chore, Yung. Sê forte. Sê forte por nós.
Engolindo as lágrimas, assenti e depositei um beijo contra seus lábios. Aquela seria a última vez que o veria em vida.
*                                                                                 *                                                                            *
A vida como viúva não foi fácil. Alguns dos companheiros de meu marido propuseram-me casamento, mas prontamente recusei e, diante da insistência, ameacei suicídio. Não o faria jamais, mas tal amedrontamento funcionaria com indivíduos miseráveis e apegados à carne. Por mais vinte anos, eu, por outro lado, resistiria com todas as forças a isto. Recusei-me a casar outra vez, pois não amaria ninguém como o amei. Mas amaria as crianças camponesas que, tendo piedade da velha viúva que vivia sozinha, vinham fazê-la companhia. 
A cada uma delas, cercava-me pacientemente. Não contava apenas histórias, mas transmitia o conhecimento que minha avó lhes passava. E as amei, como os filhos que nunca teria. Este era, na verdade, o único amargor que trazia comigo. No final, porém, com muita felicidade completei o ciclo do conhecimento. Dominava todas as ervas, sabia identificar as próprias para o uso medicinal e alimentação, e as venenosas. Apeguei-me a cada criança, lamentei a partida daquelas que deixavam cedo este mundo, mas não pranteei. Há vinte anos não pranteava.
Era verão e eu pressentia que o final dos meus dias se aproximava. Contava quarenta e três anos e tantas vivências, tantos dissabores. Sobre isso refletia quando uma figura gritou meu nome, atraindo-me a atenção. Para minha grande surpresa, parado à porta da casa estava meu irmão, Tsun.
--Tsun--eu falei, perplexa--Que fazeis aqui?
--Vim vê-la--ele respondeu, seco, embora seu rosto traísse sua expressão--Não a vejo desde o dia que partistes, ainda moça. Onde...?--Tsun deixou a pergunta no ar ao notar quão silenciosa estava a casa.
--Ele morreu--disse, cansada--Levado embora pela guerra. Que quereis? Não é para me ver, certamente. Tantos anos e nada, penseis que tivestes morrido.
Tsun soltou uma risada amarga e se sentou em qualquer lugar.
--É o que desejais?
--Não--falei, encarando-o naqueles olhos que lembravam os meus--Não desejaria a morte de ninguém. Menos ainda daqueles sangue do meu sangue.
Tsun pareceu lacrimejar, e eu me compadeci. Via o arrependimento nele.
--O que houve?--suavizei ao me dirigir a ele--Onde está...?
--Morta--disse ele, prontamente, ainda evitando meu olhar--Morreu logo depois que partistes, dando à luz a dois iguais, olha só! Tomei a liberdade de chamar a menina de Yung.
Aquilo me comoveu.
--Tsun...
Ele levantou o olhar e disse:
--Vim perdir vosso perdão. Nossos ancestrais me impeliram a fazê-lo. Não posso aceitar meu destino sem isso. Fui cruel, fui... estúpido, fi-me cego ante as suas dores.
Tsun chorava e eu nunca o vira chorar. Nem quando nossa mãe, de quem ele era tão próximo, viera a falecer. Condoída, levantei-me do meu lugar e pedi para que ele se levantasse. Levei-o para o lado de fora.
--Todos nós erramos--disse, reflexiva--mas cabe a cada um aprender com os erros. Fui orgulhosa, irmão. Negligenciei o bem, os mandados dos deuses, quando eles me tiraram meu bem precioso. Fui egoísta ao olhar só para mim. E, no entanto, estamos cá. Errei contigo também, mas éramos jovens e a juventude é tão impetuosa. Não à toa a sabedoria chega mais tarde.
Ele sorriu para mim e foi quando senti todas as minhas dores se curarem. Emocionada, o abracei.
--Ficará comigo hoje?
--Hoje e sempre, irmã.
E de fato ficamos. Como meus sobrinhos já tinham vida feita, Tsun mudou-se para a minha propriedade. Ali moramos até desencarnamos juntos, no solstício de verão.







sexta-feira, 19 de julho de 2019

Velhas Memórias. Ciclo IV.

Varanasi, Índia.
Ainda em tempos bastante antigos, onde velhas civilizações não eram memórias na história dos homens, vim a ter uma vida em uma sociedade cujos valores retratavam concepções peculiares do bem e do mal, mas que também salientavam as hierarquias que a sustentavam. As terras que eventualmente foram designadas sob um mesmo nome (que os leitores rapidamente identificarão como Índia) um dia estiveram separadas, marcadas a ferro e fogo pelo estandarte da violência em curioso contraposto à emergência da paz.
A pobreza era uma consequência da divisão de castas e não à toa nasci neste meio. Havia ainda muito a que expurgar e eu aceitei seguir o destino que me ajudaria nisso. Outra vez, encarnei homem. Recebi dois nomes, na verdade: Agastya, em homenagem ao filho do deus Mitra e sua esposa Varyna; e Shiva, deus da transformação. Fui um dos dez filhos de Maya e Rashnovi.
Minha primeira infância situou-se principalmente nas proximidades do rio sagrado, conhecido pelo nome de Ganges. Recordo-me de passar várias horas ao dia cultuando o deus Shiva, padroeiro de Varanasi. Uma vez, ainda em tenra idade, perguntei por que fazíamos aquilo. Minha mãe era uma mulher devota e paciente, possuidora de olhos castanhos bondosos que refletiam a luz que emanava de sua alma. Ela pôs a me explicar:
--A fé é um instrumento muito poderoso, meu filho. É através dela que nos comunicamos com os deuses. Quando rezamos, não o fazemos exclusivamente para pedir alguma coisa. Afinal, seria muito fácil, não é mesmo, nos virarmos para os deuses somente nas necessidades? Não. Devemos agradecer por tudo o que temos.
Mas meu orgulho ferino, falta que viria a corrigir, prontamente se mostrara através da seguinte resposta:
--E de que adianta fazê-lo, mamãe? Quando não temos absolutamente nada e recebemos como castigo daqueles que deveriam nos proteger uma vida miserável como a nossa?
Esta réplica era merecedora de um tapa, como já vi outras mães menos benevolentes fazerem com seus filhos impertinentes, mas Maya era muito paciente.
--Ah, filho. Sei que não gosta desta condição tanto quanto nós, e é pedir muito para que compreenda o significado disso agora, pois é jovem demais para tal. Mas, me diga uma coisa: não temos lar? Um teto?
Ela aguardou minha resposta. Fitei aqueles olhos me observarem com paciência, olhos de professor, de alguém que ensina impassivelmente o aluno sobre como aquele raciocínio não era o melhor caminho a tomar. Seu rosto oval não era mais jovem e a pele escura estava queimada em decorrência da excessiva exposição ao sol, a despeito de usar um véu por sobre os cabelos compridos que quase cobriam o semblante. A velhice em seu ser me parecia evidente e, como um eclipse, projetava sua sombra sobre meus temores em perdê-la. E, no entanto, não foi isso o que eu falei:
--Temos--e acrescentei--Como também temos comida e bebida.
--Pois então--falou minha mãe--não acha que temos tudo o que precisamos? Veja aqueles que se encontram do outro lado do rio, meu filho. Aqueles que caminham como se suas almas estivessem presas pelo demônio derrotado por Shiva. Eles não possuem moradia, não têm o que comer, vivem uma miséria que, pela graça de Shiva, não vivemos. Não precisamos mendigar por um pedaço de pão nem rezar por um lugar para que possamos nos proteger da tempestade. Veja, Agastya. Veja como há muito a celebrar e agradecer.
Aquela percepção tão crua apresentada a mim, naquela idade, logo me fez sentir o choque de realidades diferentes. Como se imediatamente despertasse a consciência de quem era e por que estava ali. Observei os mendigos com tristeza e, com isso, disse:
--Deveríamos rezar por eles, mamãe. Os deuses certamente ouviriam nossas preces, não é?
Maya parecia satisfeita com a mudança do ponto de vista do filho e sorriu.
--Eles sempre ouvem, Agastya. Nos melhores e nos piores momentos. Não estamos sozinhos jamais. Contudo, não estão para nos servir, atender nossos desejos mais íntimos e superficiais. Vivemos em um ciclo e precisamos aprender com ele. Sabe por que nomeei-o em honra ao deus padroeiro desta cidade? Porque, tal como ele, espero que se regenere, se transforme e seja o homem que deva ser, tal qual seu pai o é.
A verdade era que, apesar das boas relações com meu pai, não éramos próximos. Achava que minha mãe, mesmo ocupada com a educação de meus irmãos e irmãs e trabalhando para ajudar no sustento da casa (dentro daquilo que sua casta permitia, é claro), era a sabedoria em pessoa, e por isso buscava me centrar em sua vida como ela era o centro da minha. No entanto, o fato apresentava-se numa reunião de almas afins, e ela já havia sido minha mãe em uma existência predecessora. Tornou-se, portanto, natural que nos reaproximássemos naquela encarnação.
De todo o modo, para mim, meu pai não era o modelo de homem que almejava ser, embora muito o respeitasse por todo o esforço com o qual mantinha nossa pequena casa. Trabalhava arduamente, e havia dias em que não o víamos. Não me recordo de sua profissão, mas era certamente uma das mais humildes. Enfim, não sabia quem eu queria ser, exceto aquilo que minha mãe depositava em mim: um ser humano melhor. E já começava sendo um ao entender mais a respeito da gratidão e humildade, esforçando-me, portanto, em praticar tais ideias.
Até meu décimo ano de vida, era, paradoxalmente, o mais agitado dos irmãos e o mais pensativo deles. Provavelmente por este motivo era muitíssimo próximo de minha irmã mais nova, Shira, e uma vez tivemos uma curiosa conversa sob a noite estrelada, perto do rio sagrado:
--O que será de nós?--ela perguntou. À época, havíamos perdido dois irmãos para a doença do verão. E, para piorar a situação, nosso pai se achava igualmente doente. Não demoraria muito para que o espectro da morte cercasse a nós todos e, com isso, desse início à minha jornada.
--Não sei--respondi--Gosto de pensar que os deuses estão olhando por nós.
--Eles devem ser muito ocupados para lembrar da gente--disse Shira, mas em sua voz não havia nada que denotasse o rancor que muitos de nossos vizinhos guardavam por não conseguirem sair da casta. A bem da verdade, aqueles eram indivíduos que se rebelavam ante a condição que nasceram e não conseguiam aprender nada com isso.
--Será mesmo, Shira? Acho que não. Eles não vão se responsabilizar pelas nossas condutas--ponderei--Há uma sabedoria em seu silêncio que deveríamos desenvolver.
Shira recostou sua cabeça contra meu ombro e era como se dois corações batessem como um. Senti sua respiração enfraquecer-se, o que me fez temer pelo pior. Afinal, possuíamos uma ligação forte que não compartilhávamos com outros irmãos. Um calafrio percorreu minha espinha e prontamente a coloquei sob meu braço, num gesto tão fraternal quanto protetor, se é que pudesse dissociar tais palavras uma da outra.
--Me conta uma história?--sua vozinha cansada pediu.
Eu sabia que o fim se aproximava, que nossos laços seriam cortados, ainda que por uma brevidade de tempo. Contudo, relutava em aceitar isso. Havia tantas perguntas que se formavam em minha mente, mas eventualmente consegui silenciá-las e me concentrar nela, naquele serzinho que eu amava tanto:
--Qual você quer ouvir?
E então aqueles olhos grandes que ela herdou de nossa mãe encontraram os meus, mais escuros e menores. As tranças caíam malfeitas em seu corpo infantil, a sujeira cobria as sardas ao redor de suas bochechas e a boca estava sem cor. Empalidecia-se, sua pele ficava cada vez mais fria e eu não queria entender isso.
--Deveria chamar mamãe--falei subitamente--Você não está bem.
--Não--disse Shira, tão firmemente quanto sua voz poderia soar--Quero ouvir uma história.
--Mas...
--Por favor--insistiu ela, parecendo uma adulta quando era, na verdade, um espírito cansado que ansiava voltar à velha pátria.
Meus olhos se encheram de lágrimas, mas aquiesci. Abracei-a como se pudesse preveni-la da morte que, tão silenciosamente quanto o nascer da escuridão, se punha entre nós. E contei a ela sobre as histórias dos deuses. De um chamado Mitra, outro chamado Brahma. Discorri tudo o que sabia, tudo o que nossa mãe havia nos contado. Falei até ficar rouco. Falei... até sentir sua vida esvair-se do corpo.
--Agastya!--ouvi minha mãe chamar, preocupada--Está frio, venha, venha! O que faz aí com sua irmã?
Não me esqueceria daquele crepúsculo: como ela me encontrou em lágrimas, abraçado à Shira, cujo semblante demonstrava paz em contraste a aflição que tomou conta de mim. Surpreendi-me com a serenidade daqueles olhos experientes acostumados a lidar com a morte. Havia tristeza neles, como também compreensão.
--Os deuses a chamaram--disse-me Maya--Deixe-a ir, querido. Ela precisa ir.
E, de fato, precisava. Assim que me desprendi do corpo dela, eu a vi com os pés no rio sagrado. Seu rosto não estava mais sujo e seu sorriso era tão caloroso que me confortou vê-la daquela forma. Uma aura luminosa a cercava e foi quando tive a certeza de que Shira fora abençoada pelos deuses. Naquele instante, compreendera melhor sobre paz. E isso me inspirou a adentrar-me em uma busca por ela.

O chamado veio cedo, quando completei meu décimo e segundo ano de vida. Minha mãe sobrevivera a meu pai apenas por dois anos, tendo falecido alguns meses antes de ter me tornado homem. Nesse ínterim, perdi outros irmãos. Quando optei por partir, deixava para trás uma irmã casada com um senhor de terras pouco importante e um irmão que estava quase perdendo nossa casa por motivos políticos.
O que eu queria ser? O nome era uma identidade e o meu possuía um simbolismo muito forte. Afinal, isso mostrava não somente minha ligação com os ancestrais (que, do lado do pai, cultivavam o deus Mitra) como também com os deuses hindus. Senti que, para me regenerar, precisava buscá-los. Por isso, deixei Varanasi.
Não havia muitas estradas e eu era visto com desdém conforme seguia adentro de Varanasi antes de relegá-la ao passado, pois tornei-me o mendigo que tantos desprezavam, aquele ser marginalizado e que sofria uma sanção dos deuses por algo cometido em outra existência. Essa perspectiva não era tão errada quanto poderia parecer, ainda que a influência do ambiente tenha-na distorcido, já que escolhemos nossos caminhos com a intenção de reparar os crimes que cometemos contra nós mesmos e outros.
Na minha ignorância, todavia, deduzia que meu destino não era meu, pois havia sido determinado previamente pelos deuses. Não era fácil, porém, vagar na sensação de que faltava-me algo. E, não obstante, entrei em três templos antes de rumar ao norte. Roguei aos deuses que tivessem piedade de mim e me guiassem. E na trindade do hinduísmo, vi o deus de muitas faces. Avistei-o, sim: de cabelo e barba branca, olhos azuis como o céu e pele pintada pelo sol, era o deus Brahma quem aparecia diante de mim.
E, em meio a multidão presente que lhe prestava homenagens, foi me encontrar tão silenciosamente quanto discretamente: parou na minha frente e me encarou. Uma mão ofereceu e, no entanto, quando levantei a minha para tocá-la, sua figura desapareceu. Olhei ansiosamente para os meus lados, mas ninguém havia visto o que eu acabara de ver. A ansiedade, contudo, deu margem a contemplação. Logo, veio a certeza: a procura pela cura residia ao norte daquelas terras queimadas pelo fogo. Deveria me construir novamente. Regenerar-me, pois.
Sozinho, segui como por instinto para longe da cidade onde nasci. Guiado pelas crenças, sem qualquer receio caminhei descalço: o chão era duro e arranhava minha pele incontáveis vezes até sangrar. O calor era insuportável, e eu não tomava banho fazia dias. Estava perdido, confuso, e não sabia precisamente o que fazer. Eventualmente, porém, uma voz me recomendou seguir ao noroeste, pois ali havia uma vila. E lá seria onde meu aprendizado começaria.
A vila de camponeses era tão pobre como Varanasi, embora muito menor e com uma concentração baixa de pessoas. Em seu centro, a estátua de Shiva me trouxe uma familiaridade que também confirmava que estava aonde deveria estar.
--Está perdido, rapaz?--ouvi uma voz dizer.
Ao me virar, parado ao meu lado estava um homem de meia idade vestido com trajes da época. A julgar pela casualidade com a qual vinha falar comigo, não me parecia ser um camponês qualquer. De toda a forma, senti-me encorajado pela sua presença.
--Os deuses me trouxeram aqui--falei--Não sei explicar por que, porém.
--Os mistérios divinos não costumam estar abertos a interpretações supérfluas--retrucou-me o velho, sorrindo com seus olhos escuros--Como devo chamá-lo?
--Agastya Shiva--respondi--E o senhor?
Pelo jeito que era observado, concebi que estava sendo julgado. Mantive, porém, o olhar com o qual me dirigia, ainda que o melhor a fazer era ser mais humilde. Meu espírito, contudo, era astuto demais para contentar-se com uma falsa aparência de introspecção.
--Rishyasringa, mas, por favor, me chame de Rish. Venha comigo, rapaz. Se Shiva o enviou, não seria bom rejeitá-lo.
Com isso, o segui vila adentro, passando despercebido pelos trabalhadores concentrados em suas tarefas. Mirei cada um deles, tomando nota de quão jovens a maioria parecia ser: havia um garoto mais jovem como também um homem mais velho, embora não tanto quanto o senhor Rish. Enfim, entrei em uma casa bem simples, de madeira. Não havia muitos móveis, apenas o essencial. Em seu centro, sentou-se Rish de pernas cruzadas e pediu que fizesse o mesmo. Intrigado, obedeci.
Não demorou muito para que ele me fitasse e dissesse:
--A morte o cerca, Shiva. Não me surpreende, com o nome que carrega. Deus das transformações, da regeneração, da boa energia que circula, constrói e destrói se necessário. Você veio aqui para se curar.
--Curar?--eu repeti, confuso.
Rish me dirigiu um sorriso bondoso.
--Sim. Das feridas que vêm transportando contigo. Aqui, vivemos longe das tribulações lá do grande centro, de onde veio. As guerras, os ataques, em suma, qualquer que fosse o exercício da violência, não nos interessa e pouco nos afeta. O senhor que possui as terras a que eu e outras duas famílias laboramos, tem a bondade de nos deixar em paz e só cobra de nós a colheita. Há respeito mútuo, apesar de raro nestes dias.
"Você será acolhido no seio da minha família. Minha esposa e eu não tivemos filhos, creio que sua presença significará muito para ela. Mas espero que respeite-nos durante o tempo em que ficar aqui. É só isso que esperamos de você. No mais, vou ensiná-lo tudo o que sei. Acredito que o conhecimento seja muito importante para ser guardado apenas comigo e com minha esposa. Infelizmente, nem todos aqui que convivem conosco estão interessados neste tipo de coisa."
A tudo isso, ouvi estupefato. Compreendi com mais clareza o propósito de toda aquela dificuldade pela qual vinha passando, o motivo da longa jornada que me trouxera ali. Lembrei ainda das palavras de minha mãe sobre agradecer mais e pedir menos.
--Obrigado, senhor. De mim, não esperará menos que isso.
Ele inclinou-se para depositar um beijo nas minhas bochechas, um gesto que me dava as boas vindas àquele ambiente.
--Nesse caso, vá se limpar. Asha chegará em breve da colheita de grãos.
Feliz pela primeira vez em muito tempo, aquiesci e fui procurar um rio para me banhar. O caminho, como descobriria, não era dos mais fáceis, pois tinha de me desviar de alguns animais no caminho como insetos, abelhas, etc. Mas foi quando entrei em contato com água fria do rio que, finalmente, me senti puro.
Enquanto me lavava, me recordei do passado que carregava comigo: a teimosia que persistiu até os oito anos, as brincadeiras e as lições com meus irmãos, as risadas que marcaram a minha família como também a partida de cada um deles. Não senti tristeza ao rememorar a ida de Shira ao grande mundo, embora lamentasse sua ausência. Amava-a com tal intensidade que suspeitava não amar ninguém mais. Fomos muito unidos, mas a convicção de que estava em paz reconfortava o luto que persistia em meu coração.
Mesmo jovem, cultivei a consciência do desapego. Ao menos, pretendi dar início a ele. Não queria mais sofrer pelo que já foi, e sentia a necessidade de mudar. Por isso, falei em voz alta:
--Agradeço a Brahma, Shiva, Vishnu e Mitra por terem me trazido até aqui, me inserirem em uma família nova, me abrirem caminhos para a cura. Louvados sejam vós pela bondade com a qual me trouxeram até aqui. Obrigado. Obrigado. Obrigado.
Juntando uma palma na outra, fechei os olhos e pude visualizar todos aqueles cujos nomes pronunciei. Repentinamente, senti uma calmaria tocar todo o meu ser. Aquela segurança possuía uma felicidade pura que poucas vezes experimentei de fato. E, se o leitor tiver sido atento até aqui, verá a minha ligação com o rio. Como nas histórias passadas, ele esteve presente em eventos significativos para a minha espiritualidade. Aqui, não seria diferente.
No mais, quando voltei a velha casa de madeira, deparei-me com uma senhora de cabelos trançados e olhos quase puxados. A brandura em seu semblante recordava minha mãe e confesso ter me comovido quando ela se aproximou de mim e me recebeu como seu filho.
--Seja bem-vindo, Shiva--disse, e eu percebi que aquele seria meu novo nome.--Já se limpou? Oh, pobrezinho. Está todo ferido! Venha, vou ajudá-lo com isso.
Surpreendentemente tímido, segui a senhora Asha de volta ao centro da casa onde estive instantes antes com seu esposo. Ali, sobre a madeira rústica, pediu para me sentar enquanto pegava umas ervas. Uma vez amassadas e removidas o líquido branco que algumas delas continham, passou em minha pele vermelha com delicadeza. Foi quando senti as queimaduras em razão da exposição ao sol, e de pequenas feridas por conta dos mosquitos, pernilongos, enfim, outros insetos que haviam me picado no decorrer daquela andança.
--Peço desculpas desde já se minhas mãos parecerem indelicadas--adiantou-se a mulher--mas elas quase não têm encontrado ofício adequado esses dias.
Como resposta, dei uma breve risada e respondi:
--São as mãos mais suaves que poderia ter achado, senhora. Não há nada pelo qual se desculpar.
Ademais, acrescentei em pensamento, nenhuma dor é permanente. Acreditava, como mais tarde os ensinamentos confirmariam, que tudo havia um por quê e aceitá-la facilitaria na cura.
No mais, deixei que Asha falasse no restante da tarde, ainda que estivesse cansado. Mas percebi que gostava de ouvi-la: desconhecia a figura materna havia alguns anos e ser aceito por aquela mulher de espírito e coração puros me deixava bastante feliz e confortável com a nova situação que me encontrava introduzido.
--Deite de bruços aqui--ela pediu--Colocarei três folhas sobre seu peito e farei uma reza. Feche os olhos, e verá que melhorará rapidamente.
Muito curioso como era, principalmente por ter uma mente afiada e que conectava-se com o novo numa velocidade impressionável (alguns dirão que a juventude é um componente importante nesses casos; besteira, na minha opinião), obedeci, mas perguntando-me a mim mesmo sobre estas técnicas. Quando eu ou meus irmãos estávamos doentes, minha mãe usava outras ervas. Infelizmente, como nunca me interessei por elas, não saberia identificá-las. Com isso, não me aguentei e falei:
--Senhora, poderia aprender isso?
Asha deu uma risada leve e o som parecia fazer do ambiente mais leve.
--Quem sabe, um dia? Se os deuses acharem que você seja merecedor, Shiva, tranquilamente passarei a você meus conhecimentos. Estes vieram, a propósito, da linhagem feminina da minha família. Minha mãe transmitiu a mim o que sua mãe transmitiu a ela e assim por diante.
--Se apenas fosse mulher, então!--exclamei, frustrado.
Ela riu, novamente.
--Você é muito apressado e quer tudo para ontem, não é mesmo? Acalma seu espírito, Shiva. Tudo em seu tempo. Agora, aquiete-se, ou não surtirá o efeito da cura em si.
Contra a vontade, pois queria conversar mais com ela, aquietei-me. Fechei os olhos e permiti relaxar o corpo enquanto aquelas folhas e seus bulbos escorriam pelas minhas costas. Acabei, pois, adormecendo, mesmo sobre o chão árido e frio. Todavia, a sensação que me coube foi de conforto. Como se estivesse em casa, de fato. Uma vez que as pálpebras se fecharam, o silêncio ao meu redor foi absoluto, a respiração diminuiu, as batidas cardíacas se estabilizaram e... eu me vi fora do corpo. Parados atrás da sra Asha, estavam minha mãe e uma mulher cujo semblante me era bastante familiar. Não reconheci imediatamente, embora quando nossos olhos se cruzaram, soube que a amava.
--Filho. Como é bom vê-lo outra vez--disse o espírito de Maya--Está em segurança e fico tão contente em saber disso.
Perplexo, não consegui falar nada. Ela veio em minha direção e, ao tocar em meu ombro, soube que era real. As lágrimas prontamente vieram antes que pudesse contê-las:
--Sinto sua falta, mãe. Sinto-me perdido, abandonado. Não sei o que fazer, quem devo ser.
Minha mãe envolveu-me em seus braços e falou, na voz mais doce que poderia lembrar:
--Agastya, você sabe muito bem que não está perdido nem abandonado. No entanto, tudo isso que sente vem de uma dor que pede para ser curada, não é mesmo?
Não respondi, confundindo aquelas palavras com repreensão. Vendo que recusei seu olhar por vergonha, ela falou:
--Querido, no fundo, entende o que quero dizer. Os deuses o trouxeram até aqui para dar início a um aprendizado que o melhorará, o regenerá! Como Shiva, se transformará, e é isso que sempre quis para você. Não tema, nossa separação foi breve. Sua missão será mais individual porque precisa reparar o que fez a si mesmo em existências precedentes. Permita que a dor venha, assim será curada.
--Não entendo bem--admiti--mas vou obedecer, mamãe. Serei um bom homem.
--Você já é, meu filho. Eu o amo tanto.
E quando ela depositou um beijo sobre minha testa, esqueci até mesmo daquela mulher que a acompanhava. Minha mente se esvaziou de preocupações e foi como se a luz afastasse todos os meus demônios. Contava doze anos, mas parecia mais. Muito mais.
--Não se esqueça de que não está sozinho. E agradeça sempre, independentemente das circunstâncias. Não reclame e enfrente os obstáculos de cabeça erguida. É um guerreiro, meu filho. Creia em você mesmo como crê nos deuses.
Assenti com a cabeça. Certifiquei-me de ouvir bem e guardar aqueles conselhos valiosos de minha finada mãe, mas eles pareceram desaparecer no momento em que acordei. E quando abri os olhos, foi com um susto que me levantei.
--Acalma-te, rapaz--ouvi a voz da senhora Asha me orientar para a nova realidade. Estava atordoado e um pouco tonto, e foi ela quem me ajudou a localizar-me--Ao que parece, o tratamento surtiu efeito e você dormiu. O suficiente para ter perdido o nascer da lua. Venha, precisa se alimentar e beber algo.
Novamente, a obedeci. Sentei-me no chão, porém, e aguardei que ela retornasse da cozinha. Perdido em meus devaneios, sequer notei a presença do senhor Rish no canto.
--Seus sonhos costumam ser profundos, garoto?--ele perguntou, causando-me um leve susto por não tê-lo percebido antes.
--Um pouco, senhor. Normalmente, não costumo me lembrar deles--respondi com um leve dar de ombros, como se aquilo fosse insignificante.
Rish coçou a barbicha que formava ao redor da boca e queixo e então prosseguiu:
--Nunca vi alguém dormir sem se mexer, alheio aos sons do exterior. Estava mesmo cansado, eh?
--Foi uma longa caminhada--comentei, soando cansado para os meus ouvidos, apesar de não se dar o mesmo com meu corpo que se havia fortalecido--Mais de três dias, se meus cálculos estiverem corretos.
--Compreendo. Bem, sua adaptação aqui não deverá ter muitos problemas--disse ele, mas como se estivesse falando para si mesmo--Amanhã, conhecerá as outras famílias e o grande senhor. Em seguida, trabalhará como todos nós aqui. Ao crepúsculo, porém, começaremos suas lições.
--Lições?--repeti, curioso.
--Sim. Como falei antes, pretendo repassar a alguém meus conhecimentos. E será você meu aprendiz--disse ele, decidido--Os deuses não o trouxeram até a mim a toa. Para tudo, há um motivo, meu caro. Não se engane.
Aquiesci e assim, percebi, tudo foi decidido. A primeira semana transcorreu bem: conheci todas as famílias presentes e o senhor das terras em que trabalharíamos, conforme havia sido acordado com o senhor Rish. As lições me marcariam profundamente: a princípio, testavam minha impaciência e expunham meu temperamento. Ao fim daquela semana, eu falhei em contê-lo e explodi:
--Não consigo! Para que cargas d'água tenho que decorar todos os nomes dessas folhas?
Para minha felicidade, porém, tanto o senhor Rish quanto a senhora Asha achavam divertidos estas manifestações internas:
--Você é jovem e indisciplinado. Estamos começando errado ao dá-lo nomes. E não se envergonhe, Shiva. Permita que suas sombras apareçam. Não as derrote nem as domine ainda. Apenas viva-as.
Emburrado, não compreendia porque, na verdade, meus instintos apontavam para resquícios da vida de guerreiro que insistiam em sobressair-se sobre outras habilidades que precisava desenvolver. E o senhor Rish desconfiava disso, ao menos havia um instinto nele que apontava para isso. Nesse sentido, preparou exercícios de disciplina que durariam por dois anos. Tais envolviam um aprofundamento na meditação no ambiente exterior quanto interior, mas também pediam um domínio maior de uma energia acumulada. Para tanto, acordávamos cedo e contemplávamos o nascer do sol onde ele me instruía a acalmar a mente e exercitar o corpo através do labor antes do desjejum.
Não era um exercício fácil. De fato, ele demandava um leque de sacrifícios mais profundos do que à primeira vista transparecia ser. E nem sempre tinha sucesso nele. Apesar disso, contudo, o senhor Rish e a senhora Asha concordaram em mantê-lo até o início da minha maturidade, isto é, quando tornei-me homem feito aos dezoito anos.
--Sua saúde é forte--admirou-se ele, quando, após o plantio usual, fui além dos meus afazeres e dediquei-me a limpar toda a casa.--Não adoeceu sequer desde que chegara a nós. Há uma mensagem por trás disso tudo, meu jovem.
Sorri àquele senhor que passei a chamar de pai. Seis anos depois, tornei-me outra pessoa, tamanha foi a mudança pela qual passei. Fisicamente, cresci e, a despeito de algumas cicatrizes que ganhei pelo labor, adquiri força, músculo e resistência. Meus cabelos estavam mais compridos, ainda que a barba permanecesse lisa. A senhora Asha costumava elogiar o castanho claro dos meus olhos que, à luz do sol, aparentavam esverdear-se e mais ainda os dentes que, embora amarelados, conservavam-se inteiros.
Emocionalmente, porém, cultivei humildade, resiliência, paciência e resignação. Traços que, enfim, distinguiram-se das sombras que um dia apossaram-se de mim por completo. O instinto guerreiro não foi liquidado por completo, mas se submeteu a outras qualidades que pediam mais atenção. Tornei-me mais sereno, mas isso não significava que era mais sábio. Céus, não. A sabedoria seria alcançada apenas na posterioridade, se é que posso assumir tal coisa.
Com isso, meus novos pais decidiram que era hora de pôr em prática outro aprendizado. Enfim, teria o primeiro contato com as ervas. A principal destas, na verdade, seria a que eu me familiarizaria mais e dominaria melhor: ashwagandha era seu nome. Havia outros tipos dela, mas a mais doce seria meu instrumento para a cura.
--Há que entender algo, meu filho--disse a senhora Asha, bem séria--Quando falamos sobre cura, abrimos precedentes para vários trabalhos. Não se trata de buscar soluções imediatas para problemas mesquinhos ou mesmo desenvolver uma dependência sobre um tipo de erva para determinada defasagem. É um processo complexo.
"A natureza foi, e ainda é, um bem que os deuses concederam a nós, Homens, para que pudéssemos usá-la não somente para suprir as necessidades mais humanas, mas salvaguardá-las em outras situações. Assim, apropriamo-nos dela porque, como você viu, ela também é parte divina. E disso sucede que as ervas são uma extensão dos próprios deuses que devem ser usadas com cuidado. Afinal, perguntamos: o que deve ser curado? Um mal de estômago? Uma dor de cabeça? O que causou verdadeiramente estes sintomas? O que deve melhorar cada um destes? E se curarmos o corpo, como fica a alma?"
Senhor Rish aproveitou a deixa e prosseguiu:
--Os males que nos afligem não são causas isoladas. Se atingem a nós agora é porque veio de dentro, e como isso se tornou possível? Por isso a meditação foi um exercício importante nesses anos, antes e depois do desjejum. Para que você contemplasse seus demônios, ou sombras se preferir, e enxergasse a causa daquilo que te afeta. Uma vez que compreendesse quem você é, verdadeiramente, o próximo passo seria mais efetivo. De nada serve buscar uma solução se não procura encarar, de fato, o problema no seu âmago.
--As ervas, nesse sentido, devem ser utilizadas com cuidado. Não são brinquedos, não são vícios, não cobrem aquilo que recusamos a ver--alertou a sra Asha, bem séria--Os próprios grãos também são instrumentos valiosos pelo conteúdo que carregam dentro de si, assim como a bulbosa. No entanto, precisamos saber identificar os venenos. É bem verdade que, se há alguns menos letais, em sua maioria o são.
--E não se trata apenas de decorar os nomes e suas utilidades--disse ele--É como relacionamos com a natureza e conosco. Para tanto, as palavras têm um poder importantíssimo. Quando rezamos, pronunciamos oralmente todo um rito que nos aproxima dos deuses, não é verdade? E se nossas preces são atendidas, o que entendemos disso? Que ao falarmos com o coração, estamos expondo nossa essência, a verdadeira essência. É assim que somos ouvidos. Da mesma forma, quando entendemos o funcionamento de uma erva, de um grão, enfim, daquilo que a natureza nos dá, aplicamo-na no conhecimento que aquilo nos aprouve. As palavras expressam a alma, meu filho. Por isso o extremo cuidado com a cura.
--E quando curamos um terceiro, precisamos ter um dobro do cuidado com todo esse ensinamento--disse a senhora Asha--A paciência, aqui, é um elemento fundamental. Não sabemos com quem estamos lidando e nem sempre a erva será eficaz. Há casos em que as palavras, por poderosas que possam ser, são mais eficazes. O toque torna-se um mediador da oralidade e da matéria dada pelos deuses. Juntando-se os três, portanto, lidamos com a cura como deve ser. Mas lembre-se de que nada disso funciona se não conhecer a si mesmo, ao outro e, principalmente, no aplicador, seja a erva, flor, grão, etc.
A tudo isso ouvia atento. Não tinha espaço em minha mente que não fosse o entendimento desse processo complexo que era a própria cura. Senti-me instigado e algo em minha alma se abriu para isso. Dispus-me a aprender, a ser ensinado, por mais complicado que aquilo pudesse ser. E ainda que a impaciência se manifestasse em várias ocasiões, em quase todas elas consegui subjugá-la. Aqueles foram anos de importante aprendizado, calmos como deveriam ser antes da tempestade chegar, pois seria testado, como de costume.
E os indícios dessa tempestade chegaram na figura do filho do grande senhor e sua esposa. Vieram fazer o que as outras famílias chamaram de "inspeção". No entanto, se vi naquele herdeiro uma vaidade, uma arrogância, depravações que somente a um cego passaria despercebido, na mulher que o acompanhava... sua aura me encantou instintivamente. Ashiva, descobri ser seu nome, não parecia feliz em seu matrimônio.
Ao contrário do esposo, aquela jovem de longos cabelos cacheados e olhos escuros como a noite, vestida em seda, vinha humildemente cumprimentar a todas as famílias. Não quis saber do nome do herdeiro daquelas terras, sua insensatez tendo despertado uma aversão forte que procurei engolir. Concentrava-me, porém, em Ashiva. Apesar da sua riqueza, pouco o demonstrava. Conversava com todos ali presentes, olhando dentro dos olhos de cada um, e ignorando as reclamações do consorte. E quando ela veio a mim falar, recordei-me do sonho que tive quando tinha doze anos. Quando havia chegado aquele vilarejo. Era ela, soube instantaneamente.
--Senhor--disse Ashiva com sua voz saindo em sussurros, encarando-me sem demonstrar qualquer emoção. Por um motivo qualquer, nossas mãos haviam se entrelaçado e eu só me concentrava naquele reencontro. Pois sim, leitor, era o meu amor de outras existências que pairava diante de mim.--Como está?
--Bem--eu me ouvi gaguejar. Tão logo percebi que segurava sua mão, prontamente a deixei cair. Não porque a desprezava, mas temia alguma retaliação. E como vi de canto de olho, seu esposo nos encarava com o cenho franzido--Obrigado pela visita, senhora.
Ashiva não tirou os olhos dos meus, e sua inquietação, a meu ver, era evidente.
--Como se chama?
--Shiva, senhora.
Ela sorriu, e era como se o sol tivesse mandado as nuvens embora.
--Shiva--repetiu--É um belo nome, em honra do deus que a tudo transforma, a tudo destrói. Minha querida mãe pensava o mesmo quando nasci.
--Se temos nomes similares, a este deus devo meus sinceros agradecimentos--falei, não contendo um sorriso.
A isto, Ashiva riu. Mas nossa pequena conversa não durou mais que isto, posto que o esposo interrompeu abruptamente e, sem qualquer receio, expressou-se duramente sobre não querer estar entre os camponeses. Assim sendo, ela partiu. E quando eles desapareceram de nossas vistas, a senhora Asha disse, em um tom que denotava temor:
--Cuidado com o que deseja, meu filho. As paixões são perigosas se não soubermos controlá-las.
E por mais atraído que estivesse me sentindo a ela, aquela mulher que tão subitamente me encantou, não era burro. Ainda podia dominar as minhas fraquezas, algo que vinha fazendo com certo sucesso desde a minha chegada neste local. No entanto... até quando isso se daria?

--Você está distraído--comentou o senhor Rish alguns dias mais tarde--Aquela mulher o enfeitiçou?
Suspirei.
--Não se trata de feitiços, pai--retruquei--Mas quando nossos olhares se encontraram, eu... eu senti algo. Foi como se já a conhecesse.
--Ela é bonita, isso devo conceder--admitiu ele.
--Não se trata de beleza--insisti--Sua humildade, sua gentileza...
O senhor Rish tratou de me interromper, ao dizer:
--Filho, permita-me dizer algo. Vivi o suficiente para ter a experiência em prever a formação de um desastre. Você é jovem, e espero, que os deuses me ajudem, que não seja imprudente. À primeira vista, qualquer um pode ser aquilo que desejam serem. Como pode me assegurar que não é uma dissimulação? Não se esqueça quem é o esposo dela.
Tive várias respostas a dar, mas achei insensato verbalizá-las. Assim sendo, optei pelo silêncio. Com isso, o senhor Rish, a quem chamo de pai por considerá-lo como tal, entendeu este gesto como alguém levado à razão. Mas, tolo como eu deveria ser, não havia aprendido o suficiente a domar minhas paixões. Soube subjugar meu temperamento, aprendi a ouvir, desenvolvi uma série de traços que o conhecimento me levava e continuar a levar se puder... Entretanto, aquela mulher esteve em meus sonhos ao lado de minha mãe. Havia um simbolismo a considerar.
Mas como os dias se transformaram em semanas e estas em meses, me vi forçado a lidar com a frustração crescente em meu peito. Iludi-me, percebi, e fui obrigado a dar razão ao senhor Rish pelas palavras. Até que uma ocasião viria a mudar minha vida tragicamente. A tempestade, enfim, chegaria.
--Senhor Rish!--a voz de uma mulher foi ouvida nas primeiras horas do crepúsculo, naquela tarde. Em seus trajes de camponesa, ela vinha correndo em nossa direção--Precisam da senhora Asha imediatamente!
--Irei chamá-la, é claro. Mas o que houve?--indagou Rish, preocupado.
--A senhora Ashiva está doente gravemente. Tomou ciência de que conhecem a arte da cura e veio procurá-los--explicou ela.
Imediatamente, meu coração bateu contra o peito, embora nada tivesse demonstrado. Claro que estava preocupado, mas também pensei na oportunidade em revê-la. Ao chegarmos na casa daquela que veio procurar a senhora Asha, deparamo-nos com a dama toda revestida em seda com os olhos vermelhos e o rosto pálido. Segurava sua barriga como se protegesse a si mesma, mas logo percebi que não se tratava dela, e sim da criança que carregava no ventre.
--Por favor, me ajude--implorou Ashiva.
--O que houve, menina?--disse Asha, por sua vez, calma--Venha, deite-se aqui e me conte tudo.
Por um breve segundo, aqueles olhos de chocolate encontraram os meus e não soube o que senti na hora. Foi tudo muito corrido, pois o senhor Rish, tendo observado isso, rapidamente me afastou da presença dela. Contudo, saberia mais tarde que se tratava de um aborto espontâneo que quase lhe custou a saúde.
Pensando comigo mesmo ao lado de fora do casebre onde a moça rica encontrava-se com a senhora mais pobre, percebi que talvez pudesse ajudar dona Ashiva a partir do meu domínio (crescente) sobre a erva ashwagandha. Por isso, desobedeci as orientações de meu pai adotivo e entrei na sala, exclamando:
--Permita-me ajudá-las, senhora mãe! Sei como posso fazê-lo!--e, sem esperar reação alguma das mulheres presentes, expliquei sobre o uso da erva medicinal que Asha havia me ensinado com louvor.
Mas Asha também conhecia meus sentimentos pela moça, por isso hesitou por um segundo, antes de perceber que, independentemente do que quer que pudesse sentir por Ashiva, minha boa intenção vinha em primeiro lugar. Por isso, ela aquiesceu e permitiu que ajudasse em seu trabalho. Com isso, tive a oportunidade de exercer minha primeira cura. Não pensava no sucesso privado, mas na saúde dela. Desejava ardentemente que pudesse melhorá-la.
Assim, tomei a erva, parti-a e, bem concentrado, coloquei seus pedaços sobre o corpo de Ashiva que estava sob uma camisola branca. Não tomei nota de suas curvas, apenas busquei tratá-la. Sequer percebi, como diria Asha mais tarde, os olhares de admiração que ela me dirigia. Pela primeira vez, tinha a chance de praticar o que conhecia. E queria fazê-lo bem.
--Pela graça concedida pelos deuses da trindade, Brahma, Shiva e Vishnu, que suas enfermidades sejam removidas, que as chamas roxa, vermelha e azul transmutem a dor em seu corpo para saúde robusta, permitindo que nasça uma criança no futuro. Obrigado. Obrigado. Obrigado.
Com isso, esperei. Rezei. E ao colocar minhas mãos sobre a barriga de Ashiva, senti um calor irradiar de minhas mãos. Poderia ter me deslumbrado com esta constatação, mas não me entreguei a tal vaidade. Ao contrário, fechei meus olhos e aguardei. Exercitei a paciência e o domínio sobre as sombras que ameaçavam entrever-se no processo. No final, porém, fui sucedido. E curei-a.
--Obrigada--disse-me Ashiva, emocionada. Diante do olhar perplexo de Asha e outras mulheres, sem a presença, porém, de outro homem, vi-me ter o sucesso que almejava. Senti uma alegria genuína com isso--Obrigada por tudo.
Assenti com a cabeça e sorri timidamente:
--Vê-la bem é o meu maior prazer, senhora.
Nossa conexão pareceu se renovar daí, pois nossos olhares diziam bastante. No entanto, desta vez, estava mais preparado para sua partida. E talvez como recompensa por isso, ouvi-a dizer:
--Deveria conhecê-lo melhor, senhor Shiva. Parece-me que estou na presença do filho do próprio deus Shiva e tal honra não deve ser relegada a uma negligência.
A isso, não sabia o que responder. Foi preciso que a senhora Asha intervisse e dissesse:
--Moça, não te olvides de seus deveres para com seu esposo. Não acho que essa aproximação faria bem. Agradecemos sua bondade, de verdade, mas nosso rapaz aqui... é demasiado ocupado para entretê-la.
Ashiva, por sua ve, tão bondosamente replicou:
--Engana-se, boa mulher, se pensa que esqueci o meu lugar. Não. Por mais que tenha me casado com um demônio, não me olvidei do que devo fazer como sua mulher. Mas estou cansada de viver num mundo de luxos do qual não faço parte. Permita-me, ouso pedir, que me ajude nesta empreitada. Que conheça a simplicidade como ela é, como os deuses concederam. Se não posso ter a felicidade, aceito outras formas desta.
Tocada por um discurso tão sincero, não houve como negar isso a Ashiva e, quando me dei conta, estávamos sozinhos.
--Senhora, não sou merecedor de sua presença--eu me ouvi dizer, sentindo o corpo tremer. Não tive contato com jovens mulheres, quanto mais aquelas possuidoras de beleza exterior e interior. Portanto, esforcei-me em domar meu coração e baixei os olhos, sabendo meu lugar.
--Como não é se me salvou, senhor Shiva?--disse-me ela e pude detectar curiosidade em seu tom de voz. Ainda assim, não ousei encará-la--Que os deuses me perdoem por invejá-lo. Não queria estar imersa em uma vida que não me pertence. Se pudesse levar uma vida religiosa, assim o faria. Mas as mulheres, ah, o que somos nós neste mundo? Mudas, decerto, pois não ouvem-nos em momento algum.
A esta confissão, sabia menos ainda como falar. Por isto, permaneci quieto e ouvi. Mas Ashiva continuava a me encarar, como se quisesse desvendar o motivo pelo qual não agia como tantos outros homens que conhecera.
--Não é fácil viver em uma grande casa onde cortesões vêm elogiar-me e atiçar minha vaidade. Sei que tudo isso é uma provação, mas penso que sou fraca para vencê-la.
Foi quando falei:
--Creio que a senhora se subestima demais. Se me permite falar francamente, há ousadia presente em sua sutileza e, mesmo assim, adequa-se às expectativas de terceiros.
Ashiva sorriu.
--O senhor não está tão errado em suas assunções. Não espero permissões para fazer minhas preces, pois tais são os momentos em que estou genuinamente feliz. No resto do meu tempo, sinto sobre mim uma infelicidade contra qual não encontro forças para vencê-la.
Vi-me impelido a envolvê-la em meus braços, confortá-la e prometer toda a felicidade do mundo. No entanto, outra vez a razão sobrepôs-se a emoção e eu me senti impotente. E, no entanto, disse:
--Os deuses seguramente estão cientes de seu sacrifício, senhora. Eles a protegem, eu sei.
Ashiva me contemplou com seus olhos intensos e por um momento ficou em silêncio, como se pesasse seriamente minhas palavras. Percebi, pelos modos sutis como me encarava, que muito relutava em tomar qualquer medida que abrangesse sua infelicidade.
--Creio que sim, mas por que me sinto tão infeliz? Por que permitir esta infelicidade?
--Porque há deveres que devem ser cumpridos--falei, como se respondesse minhas inquietações--e nossas felicidades não importam tanto.
--Você parece resignado quanto a isso--comentou ela--Por que se contenta com pouco?
Levantei o olhar para mirá-la e disse, com toda a serenidade que detinha sobre mim:
--Não é pouco para mim ser útil para tantos. Tenho uma missão a ser cumprida aqui.
Ashiva pareceu compreender de imediato o que quis dizer.
--Quando somos instrumentos de lá, não nos cabe mudar a roda que devemos seguir--e, então, sorriu--Sou muito afortunada por estar em sua presença, Shiva. Pedirei ao meu esposo para descansar por aqui, entre vocês, se não me incomodar. Creio que tem muito a me ensinar.
Encarei-a, perplexo.
--Ainda que muito me agrade em receber elogios da senhora, sou indigno de tais e mais de sua presença, moça. Não sou tão sábio quanto pensa que sou.
Ashiva deu uma risada e retrucou:
--E nem sou tola para tomar-me como tal.
--Nesse caso, permita-me desculpar acaso julguei-a, senhora. Não foi minha intenção.
--Não há nada para se desculpar, Shiva--ela me concedeu o mais belo dos sorriso.
--Bom, se a senhora ficar, devo me escusar de sua presença para que descanse--falei, ciente de que se ficasse mais tempo ali, meus pais falariam.
Pus-me a despedir e, sem aguardar uma resposta, voltei a casa. E o retorno me pareceu desesperador. Como se enfrentasse o frio e a escuridão sem a luz que a presença dela emanava. Aquele sentimento era desesperador porque punha em cheque os valores que vinha cultivando. De algum modo, reconhecia na figura daquela moça bem-vestida um amor avassalador. Entristecia-me concluir que não poderíamos nunca ficar juntos, pois pairava sobre mim uma questão deveras importante: o dever ou o amor? Qual seria a opção que devesse escolher?
--Sabia que vinha--disse-me a senhora Asha assim que pus os pés dentro de casa--Conversei com seu pai, e precisamos conversar.
Como de costume, sentamo-nos no chão. Aquela que passei a chamar de mãe tomou minhas mãos nas suas e disse, olhando dentro de meus olhos, como se removesse qualquer véu que encobrisse a essência de meu espírito:
--Isso tudo é difícil para você, nós bem o sabemos. Não escolhemos quem amamos, mas a prudência é um artifício que poucos adquirem.
--Não sou sábio, mãe--falei, sem me esforçar por esconder ou dominar a tristeza que me abatia--No entanto, tampouco sou burro. Desde o momento que deixei minha primeira casa e submeti-me às vontades dos deuses, soube que essa jornada seria permeada de dor. Não é assim que regeneramos? Que nos transformamos?
Asha levantou sua mão, já enrugada, e tocou meu rosto. Fechei os olhos e me recolhi ao seu toque, quente e amoroso.
--Sinto muito pelo peso que está carregando--disse ela, sinceramente--Tanto mais pelo destino que seguirá. Sim, vejo isso. A cura fará parte disso tudo, sua busca incessante pelo conhecimento virá a altos preços, mas só você pode fazer suas escolhas, meu querido. Ninguém mais.
A forma como ela falou foi como se os deuses estivessem utilizando de seu corpo para se manifestarem. Era uma mensagem que me apontava dois caminhos: uma, a da felicidade  material, e a outra, a espiritual. Por mais que me irritasse com isso, seria perda de tempo me lamuriar. Aquiesci, portanto, e nada mais falei.
No decorrer daquela semana, porém, não conseguia escapar da presença de Ashiva que, demandando pelos meus poderes de cura, desejava ter-me por perto na desculpa de que eu havia sido o responsável pela sua melhora do aborto, excluindo, aparentemente, a participação de todas as mulheres. Relutantemente, obedeci a seu chamado. E em um desses dias, estávamos sentados próximo ao rio que costumava me banhar.
--Como é a vida lá em cima?--indaguei. Por mais que pressentisse o final daquilo tudo, decidi que aproveitaria o quanto fosse possível.
Com um véu cobrindo seus cabelos escuros e sempre vestida de seda, a doce Ashiva me lançou um olhar penetrante enquanto dizia:
--Mais superficial do que aqui embaixo. Não nos preocupamos com a cura, com a relação que devemos manter com deuses, embora eles estejam ligados a nós e por nós utilizados como mera desculpas para as faltas cometidas. E é aqui que eu me sinto livre. Quando vim aqui pela primeira vez, me senti em casa. Estranho, não?
Concedi a ela um sorriso.
--Não acho estranho, não totalmente. Se eu fosse rico, não desejaria ter nascido pobre. Mas é verdade que a simplicidade da vida é o que torna tudo suportável.
--Queria poder ajudá-lo com isso--comentou Ashiva, em um sussurro quase inaudível.
--Com o que? A pobreza? Não há nada que possa fazer para mudar isso e mesmo se pudesse, recusaria. Não por teimosia ou orgulho, mas temo o que seria de mim se tivesse acesso a tanta riqueza.
--Pois eu duvido que ela mudaria seu caráter--retrucou ela.--Conheço-o, Shiva. O suficiente para assegurá-lo de que seria um governante bom se tivesse a oportunidade.
Disso eu ri. Se ela me conhecesse profundamente, veria as sombras que me cercavam, os demônios contra os quais lutava diariamente. Ashiva era boa demais para enxergá-las, sequer admitir as faltas que um dia cometi por ímpeto, vaidade, orgulho e ira. Se naquele instante transmitia calma, foi porque durante seis anos submeti-me a um exercício rigoroso.
--Não quero associar-me a poder, disputas ideológicas, o que quer que isso for.
--E por que haveria de querê-lo? É um mundo obscuro e perigoso. Contudo, em um mundo ideal, talvez tudo fosse o contrário.
Limitei-me a rir, mas caminhávamos para uma filosofia do qual não tinha qualquer embasamento. E como poderia? Era analfabeto e ignorante de todas as artes, embora fosse bom com números, plantas, histórias e deuses. Calei-me, portanto, para que não falasse idiotices perante aquela moça que de tudo parecia saber.
Ficamos em um silêncio confortável até o sol ameaçar se pôr. Levantei-me e logo a ajudei a fazer o mesmo. Por alguns segundos, estivemos perto demais e me forcei a me afastar, mas Ashiva tomou minha mão na dela. E, como resultado daquele primeiro toque entre peles tão diferentes, um choque percorreu todo meu corpo. Virei-me para ela, e minha resistência foi posta em teste.
--Senhora. O que pensa que está fazendo?--falei em tom de reprimenda, embora minha garganta estivesse seca.
--Não pode negar que temos uma conexão forte--disse-me Ashiva como se me desafiasse a contestá-la--Desde o primeiro dia que depositei meus olhos em você.
--Isso é proibido--sibilei, desesperado, sem, porém, conseguir desatar o nó que laçou nossos dedos.
--Ele nunca saberá. Eu o amo, Shiva.
E sem esperar uma resposta minha, ela se lançou em minha direção e pressionou seus lábios doces contra os meus. Que os deuses me perdoassem pela fraqueza da carne, mas aquele beijo despertou-me uma alegria tão pura em meu ser que não consegui repeli-la. Respondi o beijo com outro e esqueci-me de todo o resto. O véu que escondia seus cabelos caiu na grama e logo estávamos sobre ele. Um calor que arrebatava-me tal qual o fogo se espalhava livremente, causando um incêndio perigoso, fez-se sentir pela primeira vez. Não conseguia reprimir a necessidade que nascia em estar com ela. Precisava dela como necessitava do ar para respirar.
Terminamos o ato sob o céu estrelado, e em silêncio contemplamos a ascensão da lua e o brilho que lançava toda à escuridão que a cercava. Abracei Ashiva contra mim e respirei seu perfume, guardando-o em minha mente. Nos encontraríamos nos próximos dias, sempre no rio, e perante a natureza, praticaríamos o coito sem qualquer vergonha, pois nos amávamos e era naqueles momentos sem qualquer intromissão de terceiros que poderíamos ser quem nós quiséssemos.
No entanto, por mais duro que fosse, vivíamos a ilusão da carne. E eu me desvirtuei da minha jornada. Só me daria conta quando as consequências me atingissem, fazendo ressurgir a dor que impelia para a cura. Tudo, como podem ver, estava conectado.
Meus pais foram os primeiros a descobrir. Senhor Rish não me deu a palavra por dois dias e seu silêncio foi como uma apunhalada. A senhora Asha, por sua vez, suspirou e disse:
--Dê-lhe tempo. Às vezes, nós esquecemos que você é jovem e factível a cometer erros. Não devemos exigir de você a perfeição, mas tememos que acaba se magoando, filho.
Em minha mente, havia espaço para dois sentimentos: o ardor do amor que, inabalável ante às ameaças que surgiam, exigia ampla resistência, uma bastante estúpida para um indivíduo que decerto teria mais bom senso que eu; e igualmente a intensidade da dor pela realidade cruel que ameaçava surgir. Optei, porém, em ser humilde e admitir meu erro:
--Peço desculpas, mãe. Não quis ofender sua honra nem a de meu pai. Eu só... me apaixonei. É indescritível a sensação. Foi como se...
--...houvessem se reunido depois de uma longa separação--completou Asha, para minha surpresa--Sou velha, mas não me tome como estúpida. Foi assim comigo e seu pai, embora dificilmente fôssemos o exemplo de tal coisa. Amor é uma concepção estranha a muitos, e, entretanto, ela existe. Em várias formas, é verdade, mas existe e é palpável. Só que você, meu querido, veio servir aos deuses e regenerar-se. Não sabe disso?
--Não consigo me envergonhar pelo que sinto--murmurei, sendo sincero em vez de guardar minhas impressões para mim mesma.--Se pudesse, lutaria por ela. Morreria por ela.
--Não seja tolo, Shiva--retrucou Asha, agora mais dura--Não o criamos para ser escravo de suas paixões. Compreendo o que sente, mas seja prudente. Veja aonde está se metendo, criança. Não é mais um rapazinho ingênuo. Conhece as implicações de tudo isso.
E por mais que detestasse, havia de dá-la razão. Alguns dias mais tarde, seu marido veio buscar Ashiva e fui obrigado não somente a vê-la partir como a ser humilhada, e maltratada por ele.
--Controle sua raiva--alertou o senhor Rish--se não quiser encrenca. E tenha ciência de que, acaso escolha esta opção, as consequências não o atingirão apenas, mas a todo o vilarejo.
Tudo repentinamente fez sentido. Entrevi as complicações se seguisse meu coração, de fato, se fosse atrás de Ashiva e clamasse seu amor como, à princípio, pensei em fazer. Foi quando decidi tomar uma decisão drástica.
--Preciso partir--falei.
--O quê?--disse o senhor Rish, com os olhos arregalados.--Não pode estar falando sério, não ouviu o que..?
--Pai--interrompi-o--você está entendendo errado. Não vou atrás dela, estaria cometendo um erro. Mas preciso retomar minha jornada. Não posso mais ficar aqui, causaria problemas se permanecesse.
Quando comuniquei minha deliberação final à senhora Asha, ela aceitou com mais resolução do que meu pai, o que me surpreendeu, pois a tinha como mais emotiva do que ele.
--Os deuses já me avisaram. Um dia voltará, meu filho, mas não estarei mais aqui acaso regresse. Deixe-me abraçá-lo pela última vez. Está tomando a decisão certa.
Era assustador, eu percebi, que nenhum dos dois, por mais que me amassem, houvesse se esforçado em convencer-me a ficar. No entanto, não poderia mesmo que o fizessem: pressentia que o marido de Ashiva tornar-se-ia o grande senhor em breve e, se descobrisse que tivéssemos algo, descontaria toda sua raiva nesta gente inocente. Tal risco não me permitia ficar. Aprenderia com a dor a ser mais humilde, a enxergar com mais clareza para me curar das chagas que trouxe a mim mesmo.
--Que os deuses o abençoem--disse-me o senhor Rish naquele dia, na véspera da minha partida.
--Nos reencontraremos eventualmente--assegurou-me a senhora Asha.
E aquela seria a última vez que a veria em vida.

Foi uma caminha solitária aquela que fiz aos vinte e dois anos de idade. Uma viagem na companhia de ninguém mais que eu mesmo, embora estivesse cego às companhias que, invisíveis, me protegiam e auxiliavam. Fazia-se indispensável, porém: guardava em minhas memórias o amor de Ashiva, nossas juras, nossos momentos juntos sob a lua e as promessas que jamais se concretizariam. Sofria, era verdade, mas na consciência de que fizera o certo.
Pensava em meus pais adotivos, que me receberam bem e ensinaram-me tudo o que sabia sobre as ervas, as plantas e os frutos que a natureza nos dava. O domínio que minha mente exercia, embora não com tanto sucesso assim, sobre as vicissitudes foi expandido graças a eles. O amor de Asha não seria esquecido nem eclipsado pelo da mãe que me deu à luz, Maya, a que havia muito passado para o o outro mundo. Nem o pai exemplar que tive na figura de Rish.
Naquelas memórias que mesclavam e formavam minha juventude, pranteei. Por trinta dias e trinta noites, o choro abria feridas que eu não tinha como limpar. A paciência, todavia, viria a suprir isso de algum jeito. Passei a viver nas cavernas e deixei a barba crescer. Afastei-me da civilização por um tempo porque se fazia necessário que me isolasse. Para que curasse os outros, era preciso que me curasse primeiro.
Fiz amizades com os bichos e, finalmente, encontrei a paz em meio ao desespero da solidão. O amor de Ashiva parecia distante conforme envelhecia, uma chaga que não sangrava mais. Resignei-me. Cultivei as feridas do corpo e com tranquilidade as curei. O silêncio me fez bem, ainda que me enlouquecesse de vez em quando. Nos ventos frios e nas tempestades, gritava. Até que, por fim, decidi regressar aonde tudo começou: Varanasi.
Perdi a contagem do tempo e a consciência do lugar, mas certo da identidade que carregava comigo. Alguns viriam a me conhecer como Agastya, o eremita. Aconselhava e ouvia as dores dos mendigos que a sociedade excluía, e por eles era acolhido. Devidamente, regressava à público. Acredito que já tinha mais de trinta anos quando passei pelo velho vilarejo. Soube que Ashiva morrera de parto e seu esposo se casara pela terceira vez: maltratava a vila que tanto produzia e isso produziu, diretamente ou não, uma seca que matou metade das famílias. Conforme me dito no passado, a senhora Asha já havia desencarnado quando voltei. Mas meu pai, o velho Rish, quase seguia-a para o além túmulo quando me recebeu, emocionado.
--Pelos deuses! Meu filho, meu querido filho!--ele me abraçou e não pude conter as lágrimas, estas que haviam se secado tantos anos atrás, permitiam suavizar a alma endurecida.--Preferi acreditar que morrera do que ter nos esquecido.
--Jamais o esqueceria, meu pai--falei com emoção--Fico feliz que os deuses foram bons comigo ao me trazer até o senhor novamente.
--Talvez fosse por isso que não morri--exclamou ele, com aquela energia que me era conhecida--Conte-me tudo, mas se limpe antes!
Eu ri diante disso, em referência ao primeiro dia que havia chegado até ali quando era um garoto. Fui até ao rio e lavei-me, mas ao ser tomado pelas memórias de tanto tempo atrás, senti-me afetado. E suspirei. Fechei os olhos e a vi, em mente: sem o véu que cobria seus cabelos, mas vestida em seda e com todos os adereços de sua casta, Ashiva ria e dançava alegremente, sem carregar peso nenhum que aquela encarnação lhe impusera.
Fiz uma prece a ela, como também o fiz às mulheres que me criaram, que foram minhas mães em toda a sua concepção. Não me esqueci de Shira tampouco. Ao pensar nos mortos, um cansaço abalou-me e a saudade apertou-me, mas fui forte o suficiente para me recompor. Reconheci que não havia me curado tanto quanto pensara, mas não me pus a pensar demais nisso.
--Como está, pai?--inquiri, uma vez dentro de casa e sentado no chão com as pernas cruzadas como ele um dia me ensinou.
Rish estava grisalho e com rugas ao redor da face oval, e a exaustão provinda de uma vida pesada parecia ter-lhe diminuído a altura.
--Bem, na medida do possível. Sinto que, muito em breve, partirei para as graças dos deuses. Um novo ciclo recomeçará, é certo, mas quero me livrar destes fardos que me atém aqui--reclamou ele--Contudo, vê-lo novamente foi como se encontrasse a cura. Não tem sido fácil aqui desde que sua mãe se foi. O novo senhor confirmou nossas suspeitas e tornou-se bastante tirânico em suas medidas. Ele descobriu sobre você e Ashiva, a propósito.
--Descobriu?--repeti, incrédulo.
--Sim--confirmou ele, aos suspiros--Porque ela carregava um filho seu algum tempo depois e como eles não tinham dividido a cama desde o aborto espontâneo, juntou uma coisa na outra... Mas nós o asseguramos, logo após o seu êxodo, que estava morto. Isso pareceu satisfazê-lo. Desde então, porém, vem se vingando de nós todos atribuindo novas tarefas e cobrando novas taxas de colheita.
--Sinto muito, meu pai--falei, mal acreditando até que ponto a maldade humana podia ir.--Fiz bem em ter ido, ao que parece.
Mesmo idoso, o senhor Rish não perdia seus espíritos:
--Pare de se lamentar, garoto. Não foi para isso que o criei! O que passou, passou, é certo. E com você ou sem você, aquele homem seria o que é. Os deuses foram bons em poupar Ashiva. Ela faleceu logo depois e temo que sua criança tampouco.
Eu poderia ter constituído uma família, pensei amargamente. Se tivesse a chance, poderia amar e ser amado, e mesmo em circunstâncias algozes, teria filhos, um legado a passar. Mas não havia como se lamentar pelo passado, eu aprendera isso bem. Tudo tinha um motivo pelo qual passar e agradecia todos os dias três vezes aos três deuses por isso.
--O que pretende fazer agora?--perguntou meu pai, diante do meu silêncio às notícias recebidas--Conte-me sobre suas desventuras. Gostaria de ouvi-las.
Aquilo ajudou a recuperar meu ânimo e assim contei a ele tudo o que vi e vivi no decorrer de minha jornada. Vivi em cavernas, visitei templos e fiz oferendas. Aconselhei os mendigos, juntei-me a eles e fui ensinado sobre humildade e caridade. No entanto, voltei não apenas para ver como o senhor Rish estava, mas com o propósito de regressar à cidade natal.
--Bom, muito bom--comentou ele, aprovando--Você fez jus ao seu nome, Shiva. Regenerou-se. Transformou-se. Posso ver isso.
Sorri.
--Obrigado, pai. Mas ainda falta muito a melhorar.
--Não seja tão exigente consigo mesmo--resmungou Rish, me concedendo um sorriso mais desdentado--Vamos, preciso dormir.
Ajudei-o a se levantar e o pus a deitar em sua cama. A tristeza tão abruptamente tomou conta de mim e pressenti o fim de nossos laços, ao menos por ora.
--Pai, agradeço por ter-me recebido hoje como no dia que vim, há tanto tempo atrás--falei, ajoelhado ao seu lado--Espero fazer jus ao conhecimento que me transmitiu e pretendo continuar seu trabalho.
Cansado, Rish fez um sobre-esforço para tocar meu rosto. Sua mão enrugada e endurecida pela lavoura acariciou minha pele queimada, sentindo o nascer de algumas rugas.
--Cumpri minha missão, meu filho, e tenho orgulho de você. Muito. Obrigado por não ter se esquecido de mim.
--Jamais, meu pai. Jamais.
E assim pus um beijo sobre sua testa. Em paz, Rish fechou os olhos e adormeceu para não mais acordar.

De volta à jornada que, como previa, estava prestes a chegar ao fim, contemplava o passado não com dissabor, mas com certo orgulho. Sobressaí-me em diversas ocasiões e venci quase todas as dificuldades da vida. Senti medo, raiva e frustração, como também tristeza e melancolia, mas acima de tudo, amor. Amei em vários estágios da vida e pratiquei-o como fui ensinado: agradecendo, sendo humilde, paciente e resiliente.
Exausto depois de tantos obstáculos, enfim cheguei a Varanasi. Estava mais cheia desde que eu me lembrava, com novas casas pipocando aqui e ali. Novos rostos em todos os lugares. Visitei os templos que costumava frequentar quando criança e notei a criação de outros. Ninguém, porém, parecia se importar. O povo simples de devoção compartilhava sua fé com cada deidade de forma abnegada e sincera. A cultura, dali, nascia.
Finalmente, segui o velho caminho para a casa onde havia nascido, pensando em procurar os irmãos de outrora. Enquanto passava, recebia olhares não mais de desprezo, mas curiosidade, respeito mesmo. Afinal, me tornei um eremita. Para eles, um sábio. Títulos que, para mim, não importavam. Estava cansado, como falei.
Para minha surpresa, ao chegar no lugar de origem, deparei-me com muitos outros casebres. A casa de minha família se perdeu entre tantas ou eu falhava em identificá-la. A minha procura, porém, não deu em nada. Segui o rio, portanto, até o alto de uma pedreira. Sentei-me e contemplei o pôr do sol. Aquele dia, apesar de um vazio que carregava comigo, concluí que, de fato, havia me regenerado. E agradeci três vezes por isso. Afinal, novos rumos começavam a ser traçados para mim...


Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...