quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Confissões do Luar

As lembranças são como vento, vêm e vão em ritmo desacelerado, independente de nossas vontades. Revivê-las nunca é fácil porque o tempo é capaz de modificá-las ao seu bem querer. No mais, recordo com algum grau de precisão apenas porque o desencarne me permitiu enxergar no passado um caminho apropriado para o futuro. Quem somos nós sem os erros cometidos? Eis, portanto, a minha história.

Cairo, 1130.
Nos desertos da pobreza era onde fui criado, numa comunidade que dependia da sorte. Não tínhamos nada, e se sobrevivíamos era muito. Minha família era enorme, numa quantidade surpreendente de 15 filhos dos quais apenas 5 chegaram à vida adulta. Por ser o mais novo, pensavam que sucumbiria como tantos outros antes de mim, mas não era para ser assim. A morte não seria minha parceira, não naquele instante.
Alguns viajantes ocasionalmente passavam por ali. Recordo da infância observar camelos domesticados por tais homens, e me questionava como aquilo era possível. Meu mundo se limitava naquelas circunstâncias de pobreza e areia e jamais permiti a mim mesmo sonhar com o que a realidade não alcançava. E, no entanto, um desses homens, vestidos de maneira bastante peculiar --com todas aquelas vestimentas de alguém que pertencia a um status superior ao meu, tecidos roxos que cobriam todo o corpo, deixando à mostra apenas um par de olhos. E naquelas roupas, via objetos de riqueza que jamais havia visto antes: broches de animais como águias impediam do tecido mais grosso de deslizar do corpo daqueles que o usavam, ouro enfeitava seus pescoços, embora jamais houvesse me perguntado qual era o propósito de sair pelo deserto usando peças caras e inadequadas a um ambiente como aquele.
Por algum motivo, contudo, meu velho pai os reconhecia. E veio logo ao seu encontro, tratando-os com o devido respeito que a posição dos viajantes demandava. À época, eu tinha 10 anos, era sujo e não sabia sequer como era minha aparência, pois a simplicidade de nossa condição impedia-nos de ter os mais simples objetos como um espelho, por exemplo.
--Senhores! --ele exclamou, e eu percebi que sua voz tremia. Não demorei para supor que meu pai os temia, e, por extensão, senti seu medo também--Que fazem aqui? É uma temporada imprópria para longas viagens e já faz muito tempo desde que os vi pela última vez.
Aquele cuja túnica era negra como a noite sem estrelas deu um passo a frente, descobriu o rosto e assim, se pronunciou:
--O senhor sabe muito bem porque viemos aqui--e eis que seus olhos negros repousaram em mim--Precisamos do garoto.
Meu pai exclamou, protestou, mas foi tudo em vão. Logo descobriria que eles me tomaram porque minha família estava em dívidas para com aqueles estranhos. Também saberia que aqueles homens eram sarracenos, e não demoraria muito para que me tornasse um deles.
Salazar, o nome que me deram. Em voga à época, sabe-se lá por quê. Bem, fui treinado nas artes que, à época, os cristãos chamavam de 'negras' por se perderem na ignorância de seus tempos, marcada por uma hegemonia da Igreja que pouco disseminava a palavra de Cristo. Ao contrário, usava o amor como discurso para a violência. Conheci a religião muçulmana, o saber de Alá; fui apresentado à medicina, às práticas desdenhosamente chamadas de 'magia obscura'. Desenvolvi o dom da cura, aprendi como pronunciar as palavras. Tornei-me letrado. Minha infância infeliz se dissolveu, substituída pela juventude que descobria um novo mundo. Assim como na caverna de Platão, quase fiquei cego pela luz quando a encontrei.
Muito me apetecia conhecer os mistérios da medicina e da cura, mas meu verdadeiro dom... estava na espada. Tal objeto era, para mim, como a última palavra dos juízes: usava-o conforme acreditava na inocência do indivíduo, ou na sua culpabilidade quando cometia um crime horrendo. Vejam, pois! Sem ter qualquer formação voltada para o direito, usufruía das leis de acordo com minhas crenças pessoais. Chamem de ego, vaidade... O que for! Mas atire a primeira pedra quem não julgou o próximo da mesma forma, não necessariamente da forma literal.
Como podem ver, uma vez que meus conhecimentos expandiam minha visão do mundo, o poder me chamava --e eu poderia ouvi-lo com a mesma lucidez como agora, enquanto reconto minha trajetória terrena-- e, fraco como era, fui subjugado pela tentação que exercia sobre minha fraqueza carnal. A espada era minha vocação, e não hesitei em segui-la. Talvez, tudo fosse diferente caso pensasse em ficar para trás, aprofundar a instrução que, em um dos velhos palácios tomados pelos sarracenos, haviam incentivado por não querer um dos seus completamente desprovido de bom senso, como uma vez me contaram. Era religioso, de fato, porém não era espiritualista. Justificava minhas faltas pelas falas de Alá. Não compreendia como os outros não aceitavam a maneira pela qual Ele moldou o mundo.
A juventude, meus caros, é uma armadilha necessária para nossa evolução. Pouquíssimos são aqueles que passam por ela intactos. Um jovem que saiu da pobreza e conheceu tudo o que lhe faltara até então... desenvolverá vícios e, se tiver juízo, saberá cortá-los. No meu caso, digo que não soube. Oh, não. Salazar pensava alto e ele queria mais. Hábitos que valorizassem o saber, afinal, Alá não permitira que todos permanecessem na ignorância. E os juízos de valores seriam suplantados por sua sabedoria divina.
Mas o mundo era permeado em guerras. Ouvia notícias delas e meu temperamento juvenil borbulhava impaciente para derrotar os inimigos cristãos. A verdade é que éramos lados diferentes da mesma moeda. E ali, no velho palácio, enquanto observava o pôr do sol em mais um dia de verão, vendo a luz deixar as moradas para que a sombra tomasse conta, refletia a respeito disso quando ouvi uma voz aproximar-se de mim.
--Este é seu canto preferido, longe das festividades e das preces. Isolado da multidão que tanto o adora, dos poetas que louvam seu charme e dos homens que recitam seus feitos em batalha.
Sorri ao reconhecê-la. Samira Abduh'uz era minha companheira desde o momento em que havia colocado os pés naquele palácio. Havia me acolhido como seu amigo e se responsabilizou por me inteirar na cultura muçulmana. Adorava dançar e podia falar diversas línguas, embora sua preferida fosse a persa. Quando brincávamos, em geral ela me levava ao quintal e ali fingíamos performar. Uma peça de teatro em persa, pois assim não seríamos repreendidos por aqueles mais religiosos. De todo o modo, dificilmente nos descobriam... provavelmente porque Samira e eu éramos os favoritos do local.
Conheciamo-nos perfeitamente bem, e admito que meu orgulho e minha vaidade foram bastante magoados quando ela foi casada com outro homem. Naquele verão, provavelmente contava 25 anos e já era experiente em batalhas, como ela mencionou de antemão: havia lutado contra os cristãos em variados momentos e, apesar de termos perdido incontáveis vezes, nem tudo foi perdido e obtivemos vitórias também. Como podem ver, era tolamente apaixonado por aquela mulher e não aceitava que, de todos os louros colhidos, ela não fosse minha esposa.
--Estava contemplando o passado--disse, reflexivo--Pergunto-me como os faraós deviam desfrutar desse local... Há tanto tempo atrás, eles eram louvados pelos povos vizinhos pela sabedoria que cultivavam... a despeito da idolatria. E, entretanto, tantos séculos depois, continuamos a venerá-los.
Ela se aproximou de mim, e eu podia sentir aquele cheiro familiar. Seu perfume me inebriava e não havia como escapar dele, tão fácil me prendia como uma cobra quando capturava sua presa. Samira era minha fraqueza, e acredito que ela tinha ciência disso. Sempre teve.
--Somos seus herdeiros agora--ela me disse tranquilamente, mas percebi o orgulho que denotava de sua voz--Feitos dos resquícios de uma velha civilização, criaremos outra.
--Será?--e pus me ao seu lado, encarando seus grandes olhos verdes que me miravam com ternura--Sinto que não é meu destino ficar aqui, Sami.
--É claro que não--Samira pôs uma mão em minha bochecha e pude ver, sob a máscara da calmaria, a tristeza de uma tempestade que se formava--Você é grandioso para nós, Salazar. Alá tem planos para você, certamente longe disso tudo. O antigo não é seu para governar, mas o novo... Certamente.
Ri diante das palavras que soavam uma profecia diante de meus ouvidos, como se uma predição ditasse todo o meu destino. A vaidade nos envolve e enfraquece a carne se não estivermos dispostos a enfrentar nossos demônios e lidarmos com a realidade crua da vida. E, à bem da verdade, não estava. Acreditei piamente nas palavras que ela dizia, ainda que a dor da separação --que, à época, pensava ser definitiva-- me fosse sentida internamente. No entanto, se não éramos casados, não teria por que me lamentar pela perda... Tal era o orgulho que, como veneno, corroía em meu ser, espreitando pelas boas qualidades que tinha a fim de sufocá-las na falsa escusa em me proteger. Hoje em dia, vocês chamam isso de autosabotagem.
--Não está feliz por mim? --ousei indagar--Sabe que, por mais satisfeito que me sinta aqui, me sinto preso e limitado por tudo isso. Uma vida de riquezas não é para mim, Sami.
--É claro que estou feliz por você --ela exclamou, magoada--Como não poderia? É tudo o que gostaria de ser, livre.
Eis que não havia me dado conta de que Samira nunca tomara decisão sobre sua vida: tudo nela havia sido cuidadosamente manuseado por outros. Como uma boneca, passava de mão a mão, seja por seu pai, irmão ou marido, o quer quer que gostaria de fazer... para isso precisaria consultar um deles. Apesar de ter sido feito prisioneiro desde tenra idade, desfrutei muito mais dessa liberdade do que ela. Como poderia o ser humano tratar seu igual de maneira inferior? Como poderíamos justificar a  falsa superioridade masculina baseada em escritos de Deus? Por amor a Ele, muitos sequer pensavam.
--Sinto muito--falei, e a envolvi em meus braços--Não queria que você tivesse essa vida. É tão infeliz assim?
Ela levantou aqueles olhos para mim, e enquanto sentia o véu que cobria seus cabelos negros escorregar de suas costas, nossos olhares se encontraram. Impetuoso como era, não esperei por uma resposta, talvez porque já a soubesse. E a beijei ardentemente.
Samira guinchou surpresa, mas não resistiu. Ela queria aquilo também porque sentia o mesmo que eu. Voltávamos a outra vida juntos e, novamente, não a compartilharíamos. Assim estava escrito o destino. Enquanto o silêncio permanecia inalterável, o beijo durava. Contra minha vontade, todavia, o interrompi.
--Venha... Venha comigo--ouvi-me dizendo--Para a cama agora, e para o sempre depois. Esqueça-o e venha comigo.
Quando amamos de verdade, pensamos genuinamente em outra pessoa. Esquecemos o egoísmo, o orgulho, a vaidade; nossa felicidade é nada se comparada a do ser amado. Não há sentimento mais puro e abençoado do que o amor. Era como se houvesse regenerado minhas piores partes, como se estivesse em contato com a luz. Mas, para alguém acostumado com a escuridão, era certo que eventualmente me queimaria caso não tivesse cuidado.
E ela sentia o mesmo. Não era um sentimento daquela vida, mas de várias. A familiaridade era sentida no ar, quando, sem a necessidade de verbalizar o que passava em nossos corações, pressentimos outro adeus. Era por isso que chorava. Aquela seria a última vez...
--Não posso--sua voz, engasgada com tudo o que não fora dito, assim se pronunciou--Não posso. Tenho deveres a cumprir.
--Isso tudo é mundano--murmurei--Nada disso importa. Alá nos abençoará!
Doía-me mais do que muitas facadas, ferimentos de guerra, saber que ela preferia as atas daquela vida que só lhe causava miséria e infelicidade do que a arriscar tudo isso para viver feliz comigo.
--Sei que sim, mas conhece meu marido. Ele é poderoso demais e não aceitaria... Perseguiria a nós dois até que acabássemos mortos. Perdoe-me, Sal. Por favor--ela implorou, e vi em seus olhos que fazia aquilo não por ela, mas por mim, por nós.
Beijei-a novamente. Embora profundamente magoado, queimado pela luz sentida--em vez de aproveitá-la, me afastei, voltando para a escuridão--a perdoei. Mas pedi que passasse aquela noite comigo e, porque o marido estava ausente da corte, ela concedeu. Jamais me esqueci de como, sob a lua cheia que afastava as nuvens para iluminar o aposento, nos amamos com tamanha intensidade.
--Luar, luar, como brilha a lua--cantarolei em sussurros contra o ouvido da bela Samira, quando ela se aninhou contra meus braços e, em meio ao sono que a tomava, acabou dormindo--Em meio à noite, guia-nos para a chuva.. .a chuva de felicidade na qual um dia iremos nos deleitar.
Quando, na manhã seguinte, despertei, Samira havia ido embora. Foi uma sensação que me abalou muitíssimo, mas compreendi ser necessária. Afinal, nos dias próximos parti para o oeste. Nada mais me prendia ao Egito.

1150
Vinte anos se passaram desde então. Não retornei mais ao Egito, jamais olhei para trás. Samira não foi esquecida, apenas posta de lado. O passado não me pertencia mais e rezava apenas para o futuro quando vivia um presente perigoso.
Uma luta por crenças, uma batalha pela fé... Assim éramos, tanto um lado quanto o outro, movidos em prol da matéria que tão tolamente confundíamos com o espírito. Não, meus caros. A responsabilidade era toda nossa. O sangue que se espalhou no chão, os gritos que ecoavam nas noites vazias, as vidas arrancadas... A morte que cercava a todos nós, foi trazida por nós mesmos. É preciso reconhecer isso. Em meio à adrenalina, contudo, faltava-nos a razão.
--Eis o que vamos fazer--assim falei aos meus colegas quando estávamos reunidos ao redor do fogo--O inimigo vem, e sabe o que vamos fazer? Chamá-los para o centro. Esconderemo-nos nos pontos estratégicos--apontei para as mais altas montanhas, as cordilheiras que propiciavam caminhos que já nos eram familiares--e quando eles se aproximarem, atacaremos.
Dei um sorriso malicioso, olhando cada companheiro nos olhos. Já não era jovem e vigoroso como antes, ainda assim, porém, era mais forte que muitos reis cristãos. Havia melhorado em muitos termos, porém, piorado em tantos outros. Minha barba havia crescido à altura do pescoço, e a prendi em um pedaço de ouro; minha pele estava queimada pela exposição ao sol, mas meus olhos castanhos enxergavam cada vez mais no escuro. Meus sentidos estavam constantemente alertas e jamais, jamais deixava de lado minha espada. Normalmente, carregava duas adagas e uma espada longa comigo, mas o uso das adagas facilitava bastante nos combates corpo-a-corpo quando se via vantagem sobre o inimigo. Não era regra, naturalmente, pois era preciso cautela. Antes de uma batalha, mirava a todos os cavalheiros que vinham ao meu encontro com sua cruz vermelha estampada orgulhosamente em seu peito, o elmo cobrindo suas feições e abafando os gritos de ódio contra nós... Habilidosos muitos ali eram, admito. Não há vergonha em reconhecer a honra no inimigo.
Mas conheci muitos traidores. Homens que fingiam diplomacia apenas para tentar nos atacar à noite, homens que fingiam honra para buscar uma oportunidade de nos matar fácil, infiltrando-se em nosso acampamento, ansiando pela chance de destruir nossa fé, nossas relíquias e julgando-nos infiéis. Um em particular chegou a morrer pelas minhas mãos. Seu nome era Andieu, ele era francês. Não era muito alto, embora fosse forte e gracioso enquanto montava seu cavalo; era sério, retraído, um homem que reprimia suas paixões. Por ter se apaixonado pela esposa de algum nobre, juntou-se aos nobres templários. Seus olhos verdes escuros eram astuciosos, e digo-lhes que os olhos são bastante indicativos de caráter quando bem observados, afinal, refletem o espírito e o que se passa nele. Convenceu meus homens de sua sinceridade quando foi capturado e implorou pela vida. Em uma noite, contou a história de seu amor proibido, disse que repugnava a violência, que não acreditava ser honesto seguir Cristo e, paradoxalmente, em seu nome deixar um rastro de mortes. Observei-o atentamente.
As chamas da fogueira ilustravam seu belo rosto angular, suas feições esquisitamente francesas: o longo nariz, as sobrancelhas cheias e a barba que crescia sem qualquer cuidado sobre o rosto; os cabelos encaracolados igualmente desajeitados, mal cuidados. Sua aparência era, em suma, suja, mas esquecíamos destes pormenores quando ele falava. Como um ator, sua eloquência era chamativa, e o desgraçado sabia como envolver a nós todos em sua narrativa.
--Seu nome era Aliénor, e era a mulher mais bela do reino. Rica de posses, graciosa em suas maneiras e, digo-lhes mais, que curvas, meus senhores! Comparada, de fato, à rainha que leva seu nome, Aliénor era, no entanto, menos que a esposa de um rei. Seus cabelos louros enfeitiçavam todos em qualquer lugar que estivesse, e não havia homem que não se afundasse em seus gentis olhos azuis. Era tão inteligente, gostava de poesia, olha que surpresa! Pois sim, as mulheres de nosso lar têm a permissão de ler e ouvir histórias dessa natureza.
"Era a consorte de um duque, como contava aos senhores, e eu? Quem sou eu se não inferior, vindo de uma família obscura e destinado ao cargo da Igreja? Não é irônico como terminei servindo a Deus de alguma maneira? Mas foi pelo pecado, oh sim, que terminei aqui. Apaixonei-me pela mencionada dama quando, um dia, ela me notou. Dançamos diante de todos os nobres, e como sussurravam os invejosos homens que não receberam sua atenção!
"Fui mui gracioso ao bailar com a dama Aliénor, e não demorou muito para que descobríssemos gostos em comum. Os contos cavalheirescos, a corte do amor, os poemas declamados! E, no entanto, o amor sucumbiu, não por muito tempo, à luxúria e logo consumamos o amor. Por algumas luas, isso continuou até o dia em que fui pego. A senhora implorou de joelhos ao rei para que o amante não fosse punido, e a rainha, que muito apetecia sua presença, acolheu-a como sua dama de companhia depois disso e em meu favor falou. E cá estou."
Vi que muitos dos meus homens ouviam assombrados. Quase nunca recebíamos relatos de tal natureza acerca do que acontece nos reinos cristãos. Admito que essa história me tocou da mesma maneira, pois me recordei do amor que sentia por Samira. Perguntei a mim mesmo se ela vivia, e uma dor rasgou meu peito naquela noite, pois o pressentimento que tinha era de que há tanto tempo minha amada partira deste mundo.
Desse modo, levantei-me e optei pela solidão. Deixei que a conversa acontecesse, que Andieu tagarelasse o que tinha para tagarelar com meus homens e deixei que a escuridão me envolvesse. Estava sentado no topo da montanha e permiti me livrar um pouco da túnica que cobria meu corpo. O vento uivava, mas era como se me protegesse. Nada temia, pois era um selvagem na melhor concepção do termo. Pertencia à natureza, e a natureza me pertencia. Éramos um igual, e por isso que era temido.
--Percebi que o senhor desapareceu quando contava sobre as mulheres da corte do rei Louis--a voz do francês intrometido ecoou não muito longe de onde estava. Instintivamente levei a mão à adaga que carregava ao meu lado. Aguardei por movimentos que o traíssem, afinal, estava sozinho e podia muito bem ser assassinado a qualquer momento. No fundo do meu ser, sabia que aquele homem não era confiável.
--Pouco me interessa saber de suas mulheres--retruquei, soando tão distante e sem emoções quando podia. Havia outro lado da verdade contada, e que ninguém jamais saberia: o quanto sentia falta de Samira, e como a história dele me lembrava a que havia vivido tanto tempo atrás--Por que veio aqui, afinal?
--Gostaria de conhecê-lo melhor--Andieu teve a audácia de sentar-se ao meu lado. Certamente, querendo conquistar minha confiança--É temido por outros.
Pela primeira vez em tanto tempo, ri. Mas não ousei encará-lo.
--Temido?
--Temido--afirmou o francês, soando admirado--Dizem que é cruel e inabalável nas batalhas, que é o diabo em pessoa que faz prevalecer o terror nos homens mais fracos.
Minha risada desta vez ecoou mais forte e olhei para o estrangeiro. Encarei-o intensamente até fazê-lo dar de ombros.
--É assim que falam? Quando um inimigo não-cristão derrota seus semelhantes é chamado de diabo? Se lutam por Deus, por que Ele não lhes concede incontáveis vitórias? Que reputação é essa que tenho quando o que eu faço é defender meu povo, nossa fé de vocês?
Talvez houvesse falado demais. Que importa? Sacudi a cabeça e voltei a encarar a escuridão. A morte me cercava e eu esperava pela apunhalada imprevisível, pelos passos que não veria, pelo golpe que mal sentiria... Ouvi a respiração tensa de meu prisioneiro e tive minhas suspeitas confirmadas. Mas ele não era o cavalheiro das histórias contadas, não tinha honra, era apenas um covarde. Um filho de Deus cujo instinto de sobrevivência bradava o peito a fim de derrotar-me.
O silêncio, conforme aprendi no decorrer desses anos, costumava ser um excelente indício de caráter. Não demorei a perceber as intenções de Andieu, que fez um som de limpar a garganta antes de prosseguir:
--A coragem tem qualidades estranhas em homens diferentes de nós, presumo.
--O que você chama de coragem, forasteiro, vejo como honra.
--E a honra é o que move os infiéis?
Senti uma risada sufocada na pergunta feita, mas apenas voltei meu olhar para ele. Mesmo na escuridão, via os traços de sua presença. Eu o via como era.
--E o que move os cristãos? O que move a fé?
--A crença.
--A crença, você diz. E no que você crê? No que foi levado a crê? Somos tão diferentes assim, afinal? Louvamos a um só Deus, mas praticamos a religiosidade de outra maneira--no breu, sorri, pois ele sentia-se incomodado ante ao que ouvia--Não negue o que digo. Os pecados, todos eles, são o que nos movem. E, no entanto, não é preciso conhecê-los, sofrê-los todos antes de alcançar a salvação? Ah, Andieu. Você não me engana.
Quando as palavras são ditas e levadas pelo vento, elas açoitam aqueles cuja consciência só têm a temer. Pela tensão dos movimentos de Andieu, vi aonde seria levado. Repousei minha mão na adaga, preparando-me para o ápice da conversa.
--Em que erramos, me diga? Não foram vocês que expulsaram nosso povo e depois, procuraram por nosso conhecimento? Chama-me de infiel, mas o senhor não soube respeitar seu superior, seduziu sua esposa e cometeu adultério com a mesma--aqui, endureci minha voz--Enfeita seus feitios quanto quiser, mas o pecador, ao que me parece, é você. Com qual honra vem se infiltrar em meu acampamento, iludir a todos nós somente para que amanhã--e eu me levantei, minha voz elevando-se pouco a pouco--traga inúmeros homens para tirar de nós a vida que vocês não conceberam?
Não houve resposta do contador de histórias. Andieu provou-se ser apenas o sedutor, o mentiroso e desonroso homem que suspeitava ser desde o princípio. Ele veio me atacar, confiando arrogantemente em seus movimentos, mas esqueceu-se de que conheci bem demais a escuridão para temê-la. Em questão de segundos, desarmei-o e convoquei meus homens.
--Não sei por que o choque--disse, friamente, quando eles chegaram ao topo, com as tochas em mãos--Não sabem que não devemos confiar em cristãos? Quero-o executado, porém, apenas amanhã cedo, quando o sol raiar.
--Vocês morrerão! --berrou Andieu, atado por seus inimigos--Sofrerão por ter povoado a terra de Deus, pela heresia cometida contra Sua Santa Igreja.
--Há apenas um Deus--eu disse, no mesmo tom, antes de me afastar.
Quando os raios do sol iluminaram onde nós estávamos, fiz questão de levar o prisioneiro para o ponto principal do lugar onde tinha ciência de que os templários viriam. Desembainhei a espada enquanto meu braço direito segurava Andieu. Ele estava de joelhos, os olhos me encarando com ódio e desprezo. Virei-me para ele e, calmamente, falei:
--Que Alá o perdoe por todos os crimes que cometeu contra nós e os seus semelhantes.
Como havia mencionado antes, a espada que eu carregava era a sentença a ser promulgada. Uma vez culpado, Andieu foi vítima de suas escolhas e por ela morreu. Deixei o corpo ali, pois era um aviso. Um aviso de que não pouparíamos ninguém.

Em nome de Deus, cometemos perjúrios, atrocidades e tantos outros tipos de violência. A morte foi minha aliada, a escuridão, minha amante, e meus demônios, meus companheiros. A chuva de flechas que jogaram contra nós não impediu da fúria consumi-los, mas o fogo... Oh, sim. Dispersou a todos nós, mas se pela espada matei, por ela fui morto.
--Não há Alá que o salve agora--foi o último sussurro que ouvi antes de deixar o corpo que, por tanto tempo, habitei.
Colecionei arrependimentos, cometi erros, tirei vidas, julguei como fui julgado, traído e morto. Construí uma reputação sem meu consentimento, vivi por uma fé que se voltava mais para mim do que para o próximo. Senti a dor, tantas dores daqueles cujo golpe sem misericórdia desferi; senti o ódio, tanto ódio provocado sem justificativa por mim, como também dirigido a mim sem qualquer conhecimento de causa. Senti a miséria e infelicidade dos que por mim foram vítimas, de uma forma ou outra.
Os desejos da carne que não se dissiparam me arrastaram até o luar, e torturaram-me até que pudesse aprender a perdoar. A arrogância é a queda do homem, abre o caminho para vícios piores e invisíveis, mas, da mesma maneira, o amor é sua redenção. A luz para a escuridão, a cura para a doença, o consolo para a perda, o remédio para a dor. E é por isso que digo apenas isso: luar, luar, como brilha a lua....

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

A Dama & O Cigano

Veneza, 1470.
Astrid era uma bela jovem de 15 anos que nada conhecia da vida. Por ser a filha mais nova de uma das famílias mais ricas de Veneza, seu comportamento era zelado com rigor pelos pais através de uma governanta igualmente rígida que a fazia companhia tanto quanto lecionava em seus estudos privados.
Mesmo sendo mulher, era uma potencial noiva para fomentar alianças em prol de sua família com outras poderosas da Itália. Quem sabe não casá-la, talvez, com algum membro dos Médici? E ela era possuidora de uma inteligência afiada e beleza quase lendária; sua estatura era mediana, seus cabelos eram tão loiros que à luz do sol brilhavam como ouro, e a pele era branca como a de uma boneca de porcelana. Seus olhos eram azuis, tornando assim suas feições dignas de comparações à deusa do amor, Vênus.
Em decorrência de uma criação rigorosa, levada à cabo pela governanta Anna, Astrid aprendeu a contentar-se com a solidão que lhe era imposta. Afinal, os pais queriam mantê-la imaculada aos perigos do mundo exterior, deixando intacta a inocência para quando fosse se casar. Ela sequer tinha contato com o irmão mais velho, herdeiro das propriedades da família. 
Mas, a despeito das convenções da época, sobre as quais estava sujeita, encontrava prazer nas lições de dança, de música e, principalmente, nas leituras, cujo romance favorito havia sido o do Rei Arthur, muito embora abominasse o triângulo amoroso inerente à obra.
Apesar dessa aparente tranquilidade e submissividade com os quais domava o temperamento que ansiava por uma liberdade corrente, tinha a crença de que, com resiliência, através do casamento viria a sair daquela prisão a que lhe havia sido imposta. Enquanto esse dia não chegava, porém, foi surpreendida quando a governanta uma vez lhe trouxera as boas novas:
--Haverá uma mascarada na cidade e seus pais creem que está na hora de apresentá-la à cidade. 
Os olhos de Astrid brilharam de felicidade, mas não ousou demonstrar entusiasmo mais que o necessário, sabendo que lhe era esperado que agisse como a mulher que havia se tornado. Dessa forma, assentiu com um movimento leve de cabeça, no que resultou em aprovação da parte da mulher mais velha.
Não demorou mais que uma estação para que a mencionada noite enfim chegasse. Homens e mulheres, jovens e velhos, das classes mais altas chegavam ao palácio do Gabinete para atender ao local onde a mascarada seria realizada. Astrid observou como vestiam-se bem, em luxuosos vestidos e robes de seda, tecidos importados de Este ou de Florença. 
Para aquela noite, Astrid havia pedido aos pais para se vestir como a rainha Charlotte da França, e, surpreendidos com aquele pedido incomum (já que ela havia dado mostras de aversão à vaidade até então), não hesitaram em concedê-lo, visto que achavam mais que necessário que sua filha fosse a mais bela de toda a Veneza, se não por extensão à própria Itália. Assim sendo, caía-lhe em seu corpo um vestido luxuoso de seda, amarelo-ouro, enquanto o cabelo seguia trançado conforme ditava a moda de seu tempo.
E era assim que chegava ao palácio ao lado de seu irmão, carregando expectativas sobre como agir com outras pessoas de sua idade. Contava apenas duas amigas, e até aquele momento não conhecera um rapaz sequer que não fosse seu pai, seu tio ou seu irmão. No entanto, faltava-lhe a vaidade de seu status e os olhares que lhes eram dirigidos causavam mais vergonha e horror do que surpresa e orgulho. Logo percebeu que não gostava nem um pouco de estar no centro das atenções. Todavia, a pureza de Astrid cada vez mais clamava por liberdade.
--Sorria, sua tola--resmungou-lhe o irmão, enquanto beliscava seu braço--ou vão pensar o pior de nós.
Astrid nada respondeu, prontamente obedecendo-o e servindo sorrisos ao entrarem no suntuoso salão, ricamente decorado de acordo com a nascente renascença que viria marcar aquele tempo e um pouco mais à frente. Cada vez que era apresentada a um rapaz, sentia-se como uma corsa domada sendo exibida a bel prazer diante dos caçadores que ansiavam em ter aquela carne para si. Apesar dessa sensação enojante embrulhar-lhe o estômago, ela cumpriu com seu dever ao dançar com cada rapaz, concedendo mesmo ao mais rude deles sua simpatia e gentileza.
No entanto, na primeira oportunidade em que viu-se distante da reprovação austera de seu pai e da constante avaliação rígida de sua mãe casamenteira e do vigilante irmão, escapou aos jardins, desvencilhando-se da atenção daquela corte. E quando lá chegou, um pequeno grupo de pessoas, não muito distante de onde estava, capturou-lhe a atenção. Com mais atenção, observou que era composto por uma maioria de pele morena vestida em roupas variadas nas cores pretas, vermelhas e amarelas. O som que dali saía, produzido pelo alaúde e uma espécie de chocalho, seguia acompanhado de vozes femininas que, embora em conjunto com a de dois rapazes, sobressaíam-lhes facilmente e rapidamente Astrid sentiu-se hipnotizada pela melodia que chegava aos seus ouvidos. Como se imersa a outro mundo, caminhou, sem pudor e qualquer importância à riqueza e ao luxo que deixava para trás, até onde aquelas pessoas se encontravam.
E, por um breve segundo, pareceu que tudo acontecera rapidamente. O rapaz que segurava o alaúde, percebera-se de sua presença e lhe sorriu. Era um sorriso leve, inocente e acolhedor. Seus cabelos negros escorriam aos ombros por debaixo de um chapéu preto que usava na cabeça, projetando uma sombra sobre parte de seu rosto. Em seu corpo, Astrid notou, não sem antes corar à percepção que teve, que a blusa esfarrapada vermelha de seda e os calções pretos ocultavam os músculos bem trabalhados. Dos rapazes que havia posto os olhos e dançado até então, aquele era o mais bonito. No entanto, havia algo a mais e seu coração tornou a acelerar. Soube, a partir daquele momento, que o amava instantaneamente.
O sorriso nos lábios daquele estranho se abriu, estendendo-se ainda mais de ponta a ponta, quando abriu para que ela se inserisse no grupo. Havia outras moças, duas delas usavam saias amarelas com listras vermelhas, enquanto as mais jovens dançavam com vestidos negros com traços vermelhos e rosas em seus cabelos, mas ninguém lhes fazia perguntas. Sorriam-lhe apenas como se a reconhecessem como seu mais novo membro. E entre elas e os outros rapazes ali presentes, Astrid sentia-se em casa, feliz e... livre. Aquela sensação de liberdade pelo qual vinha buscando incessantemente a havia levado até ali. Tal era o gosto que saboreava por sentir-se livre enfim.
Logo, soltou seu cabelo, tirou de seus pés os sapatos e permitiu-se dançar com elas, até mesmo arriscando a cantar como se aquela música fosse inerente a sua alma.  E mais de uma vez, encontravam os seus olhos aqueles cujo nome viria conhecer. Ettheraldo, o cigano, a admirava, seu coração clamando em ardor por aquela menina dourada, sua cigana Padilha.
Ao fim das canções, ele esperou pacientemente por sua vez para falar com ela, a dona de seu coração. Apesar de ver que ela pertencia a outro status, isso tampouco lhe importava.
--Senhora--ele disse, com seu sorriso característico e os olhos brincalhões que despertavam em Astrid sentimentos que jamais pensara existir--Gostaria de congratulá-la pela graciosidade em seu baile. Jamais ouvi voz tão bela. Encantei-me!
Um rubor subiu pelo pescoço até chegar às bochechas de Astrid, tão logo aquelas palavras foram ditas. Ela se alegrou ao perceber nelas uma sinceridade desprovida de ambição e luxúria, outrora detectados nos seus parceiros de salão. 
--Não sou senhora alguma--ela lhe respondeu docemente, ainda que pensasse que seria a dele se assim quisesse--Chame-me pelo meu nome, Astrid.
Contra as convenções da época, não passava despercebido aos outros ciganos, aquele reencontro de almas, tão afins como quando o sol se deparava frente à lua, provocando um eclipse. A conversa entre os dois prolongava, o tempo parecendo fluir enquanto isso, e com isso, afastavam-se do grupo para terem um pouco de privacidade.
--E qual é a história que me traz, Ettheraldo? --quis saber Astrid, curiosa.
Caminhando pelos jardins, aquele moreno de olhos negros tomou as mãos dela nas suas e disse-lhe então:
--Venho de uma região chamada Romanii, próxima ao oriente. É muito longe daqui, decerto, pois fica ao leste dos reinos da Cristandade. Minha família era pobre, e um dia nos juntamos ao circo, onde ficamos por um tempo. Contudo, a doença logo nos pegou e separou-nos a todos... De alguma maneira sobrevivi ao que chamaram de peste e apenas escutei o chamado para ser cigano, um chamado que não ignorei e prontamente atendi. Não fosse por isso, não estaria até aqui, minha dama dourada.
Dizendo isso, levou uma das mãos de Astrid aos lábios, onde depositou um beijo gentil, suave como o vento. Embora parte de si acusasse aquela proximidade, tão calorosa, de atrevimento, não negaria de forma alguma que gostava daquilo. Mas não era por isso que sentia suas bochechas queimarem. E, tomando nota de sua reação silenciosa, Ettheraldo questionou:
--Por que ruboriza, Astrid?
--Tenho me sentido encarcerada por bastante tempo, Ettheraldo, e, no entanto, ao escutar sobre as provações pelas quais passou... vejo quão ingrata tenho sido. 
Colocando uma mão ao redor de sua cintura, ele se inclinou para sussurrar-lhe ao ouvido:
--Cada um passa por suas próprias tribulações, e não cabe nem a nós ou a outros em compará-los. Deus sabe o peso que cada um carrega, e Ele sabe que é justo à nós porque está ciente, em Sua sabedoria infinita, o quão capazes somos nós em cumprir a missão designada. Ou não estaríamos aqui.
Perplexa com o que ouvia, Astrid contemplava a sabedoria saindo dos lábios de seu querido e doce cigano. Conheciam-se em menos de duas horas e, contudo, a sensação era de que há séculos estiveram em contato.
--Perdoe-me, sou ignorante quando me deparo com o que ouço... Como... Como sabe disso tudo?
Ele jogou sua cabeça levemente para trás e riu. Não era um riso de deboche, ela observou, admirada, mas de alguém leve... e livre como o vento. Como se qualquer dificuldade pelo qual havia passado tivesse sido breve, e mesmo no contexto presente, não parecia se queixar. Ainda que fosse humilde em comparação a tantos de seu status, Astrid não hesitou em reconhecer seus próprios defeitos. Assim, contemplava a si mesma quando Ettheraldo falou:
--Durante minha jornada, estive em contato com vários povos e suas crenças. No entanto, a que mais me aproximei foi a dos cristãos. Antes de me tornar cigano, estudei e bastante com os padres. Eles haviam me acolhido na orfandade, e devo muito a eles. Conhecimento, minha Padilha branca, é tudo na vida. É o que levaremos daqui para frente, é algo que ninguém pode tirar de nós.
--Eu desejo ser assim como você, mas...--as palavras desapareciam sob sua língua, e baixou o olhar. Sentia-se incompleta, envergonhada por tudo. Ele poderia ser mais pobre, de fato, mas era mais rico do que seria. E, entretanto, era a liberdade dele, a leveza com a qual levava a vida pela qual Astrid ansiava. Amar sem submeter-se à regras, viver sem dever obediência à terceiros, respirar sem esperar cumprir com as expectativas expostas nela.
--Sei que pensa muito--comentou Ettheraldo, que observava Astrid em seu silêncio e entristecia seu espírito ver a tristeza aprisionando-a, tomando de refém sua alma, seu princípio vital porque a brevidade de uma vida era moldada conforme a superficialidade da época--e que estaria disposta a muito, mas tudo a seu tempo. É um aprendizado, compreende? Por mais difícil que seja enxergar agora, não fique triste. Não existe coincidências, mas a vontade de Deus, que prevalece sobre a nossa. 
Ela lhe sorriu e Ettheraldo tocou-lhe o rosto. Dois corações batiam como um, e o ambiente ao redor parecia iluminar-se. Queriam continuar assim pelo resto da noite, transformá-la em estações que, embora mutáveis, voltavam sempre, constituindo numa certeza única. Mas, não era assim. Por isso, ele se afastou.
--Deve voltar ao interior do salão--disse-lhe ele, o sorriso se dissipando do rosto, as feições tornando a ficar mais sérias ainda que a serenidade tomasse conta de seus olhos--A bebedeira não durará para sempre, e sua ausência será notada.
--Mas...--ela se via agarrando as mãos de Ettheraldo como se aquele fosse um momento de despedida--nos veremos outra vez?
Ettheraldo fez uma mesura, tomando novamente uma mão de Astrid e levando-a aos lábios antes de piscar.
--Senhora, certamente! Digo-lho adeus agora, minha Padilha branca, mas hei de voltar aos seus braços em breve.
E assim, em seu sorriso bobo e apaixonado, Astrid era deixada para trás enquanto Ettheraldo voltava ao grupo, cada um ansiando pelo próximo encontro.

Nos próximos dias, embora visse a mãe com mais frequência em casa porque deram início aos planejamentos de seu casamento com alguma figura importante da nobreza italiana, Astrid pensava cada vez mais em seu cigano, o belo e livre Ettheraldo. Lembrando de sua sabedoria, expressada sem dúvida através das palavras de Deus, passou a se interessar pelo estudo da catequese e da Bíblia, desejando alcançar o nível de sabedoria de seu amado.
A inspiração não era secundária, todavia; aprendera enfim a escrever poesias. E o desejo de seu coração pelo objeto de suas afeições sussurrava em sua mente como vento pelas palavras que marcavam o papel. E logo, pilhas de poesias eram feitas. A isso, a mãe erroneamente interpretou como apaixonada por um de seus pretendentes. Ciente de suas objeções caso descobrisse a verdade, Astrid manteve tudo em segredo.
A primavera logo se dissipou e foi no verão que o veria outra vez, quando a mãe arquitetou um encontro do tal pretendente da casa de Florença com a filha em um festival que havia embelezado toda a cidade. Novamente, estava em contato com nobres, mas não era pela companhia deles que ela ansiava. No entanto, cultivou a paciência para florescer a recompensa que viria na presença de Ettheraldo.
Seu suposto noivo, ela logo descobriria, tinha gostos voltados para a companhia dos homens e da bebida. Uma vez embebido, Astrid o abandonou discretamente para encontrar seu cigano. Naquele dia, vestia um lenço ao redor do pescoço, único acessório que o diferenciava das peças usadas da última vez. Contudo, sem o apetrecho do chapéu, seus cabelos soltos faziam-o mais bonito. Astrid suspirou.
--Ah, minha Padilha! --ele exclamou quando a viu--Como está bela essa noite!
Astrid riu antes de entregar-lhe o braço e depositar, ela mesma, um beijo em seu rosto.
--É sempre gentil, meu querido. Como tem passado? Não me enviou uma carta sequer! Fiquei preocupada...
Estavam em uma barca enquanto falavam, e passeavam pelas águas da cidade com o máximo de discrição possível. À luz do luar, Astrid via-o jogar a cabeça para trás naquele gesto familiar leve quando ria antes dos olhos negros deliciosamente passarem aos seus em um longo e intenso olhar.
--Minha dama branca--ele murmurou, doce como o suco da fruta--tão genuína em suas afeições. Sinto-me felizardo, porém, deixe-me, antes de tudo, tranquilizar-te. Nós, ciganos, somos mal vistos como os judeus, e portanto não podemos ficar muito tempo em um mesmo local. E seria bastante arriscado para a senhora que enviasse uma correspondência. Soube que está noiva, hm?
--Certamente sem considerarem minha opinião sobre a questão--resmungou Astrid, baixando o olhar para as mãos que se entrelaçavam--Às vezes, minha mente fica a rodear... sobre o que você tem feito. É tão livre, de fato bem o sei e longe de mim recriminá-lo, mas... --ela não conseguiu vocalizar o que pensava. Sentia-se tola, se não infantil. Ciúmes de alguém que mal conhecia? Isso não era nenhuma história de amor, embora as circunstâncias ditassem o contrário.
Mas Ettheraldo riu, em vez de censurá-la por aquele sentimento. Envolveu seus braços ao redor de sua dama branca e, gentilmente, levantou seu queixo para que pudesse vê-lo quando dissesse o que gostaria de expressar:
--Sou livre, de fato, mas preso ao domínio de minha senhora. E, com noivado ou sem ele, não pretendo ser liberto a não ser que me comande para tal. Escute a música ao redor--ele sussurrou, desta vez contra o ouvido, fazendo Astrid arrepiar-se--e deixe que ela nos guie. Os antigos gregos valorizavam bastante a música, sabia? As canções, as poesias... expressões de almas que um dia amaram, sentiram a paixão queimar cada cerne de si próprios fosse por luxúria ou não. Elas lamentam sobre um destino perdido, não concebido porque outro caminho fora tomado. Contudo, minha senhora, qual será nossa canção?
--Uma que não permeie em tragédia--ela se ouviu pensando alto antes de apressar a corrigir-se, mas sendo interrompida por Ettheraldo que, colocando um dedo sobre os lábios carnudos de sua dama, retrucou:
--Toda canção, lamentosa ou não, termina em tragédia. E por que deveria isso ser triste? Se amar é um pecado, somos todos pecadores. 
--Amor é uma bênção, porém, apenas os que são chamados tolos vêm desta forma--murmurou Astrid. 
Às vezes perguntava-se se não estava sendo tola, ingênua, mas a conexão que sentia com ele era tão intensa e verdadeira... Perdida em seus pensamentos, não prestou atenção em quanto era contemplada por Ettheraldo. Apesar de ser mais velho que ela, contando vinte e três verões, e ter mais experiência com a vida, jamais sentiu serem a idade e as condições sociais que os diferenciavam pesos para a relação. Acreditava, piamente, que Deus os havia unido para algum propósito, embora tivesse ciência de como aquilo terminaria.
--Você se arrepende de ter conhecido a liberdade, minha Padilha? --ele perguntou, em um sussurro como a brisa de verão.
--Jamais--ela respondeu, firmemente.
E, como se para confirmar isso, seguiu seu coração e, despindo-se das algemas que domaram seu temperamento por muito tempo, deixou-se ser livre ao levar seus lábios em encontro aos dele. Sabia, e como negaria, que era tão cigana quanto ele.

Durante aquele verão, os cuidados para fugir de seu noivo sem que sua mãe ou seu pai soubessem (mais ainda sua governanta que constantemente estava ao seu lado) tivessem conhecimento foram redobrados. Sempre à noite, a dama e seu cigano desviavam-se de caminhos públicos para o privado e não à toa, debaixo do luar, se viam nos jardins, principalmente no lado inexplorado dos mais extensos deles.
Deitados na grama, o casal estava em silêncio, apreciando a companhia um do outro. Havia noites em que bailavam com o grupo, e Ettheraldo se via arrebatado pela presença de Astrid e em como dançava como a rainha que deveria ter sido. Os cabelos dourados, à noite prateados pela lua, a distinguiam de outras mulheres do grupo, sua pele branca um contaste à morena, mas nada disso parecia importar quando sorria e cantava de igual para igual.
Em uma das noites quentes daquela estação, Sabah, uma das mais velhas do grupo, aproximou-se de Astrid e lhe disse:
--Vim entregar-lhe uma saia. Sei que há propósitos que nos são desconhecidos, velados de nossos olhos para que, no futuro, não sofremos com os caminhos tomados. Ainda assim, é uma de nós. Sentimos isso, minha senhora. Apenas use.
Astrid fitou a peça que lhe entregavam de boa vontade e sentiu os olhos marejarem. Como retribuir a gentileza daquele povo? Sem palavras, ela apenas envolveu a boa senhora em seus braços, tomando-a de surpresa, antes de vestir a tal saia como lhe havia sido pedida. E, em minutos, Ettheraldo mal conseguia respirar ante a visão que tinha daquela jovem mulher vestida em uma blusa amarelo e uma saia rodada recortada em três ondas nas cores branca, vermelha e preta, com pedaços de uma rosa vermelha intrínsecos ao tecido. 
--Curvo-me à minha senhora--disse-lhe Ettheraldo, perplexo--Minha rainha.
--Seja, portanto, meu rei--riu-se Astrid, à vontade.
Dominaram as danças daquela noite, sob a lua cheia e o canto dos ciganos. Ali, entre eles, Astrid era a própria liberdade, dona de si, como instrumento do amor que a unia a Ettheraldo. No entanto, ela não contava que uma confidente de sua governanta a tivesse seguido desde as últimas semanas, pronta a delatá-la no momento oportuno. 
Ignorante quanto a isso, uma vez que as festividades diminuíam e era preciso voltar à casa, Astrid confidenciou a Ettheraldo:
--Palavras jamais são boas o suficiente para expressar o que tem se desenvolvido entre nós nos últimos meses.
--E, entretanto, aqui elas estão--ele murmurou, soando como a melodia de uma música ao beijá-la. Estavam sozinhos, próximos demais da casa de Astrid. Cometeram o erro de subestimar o silêncio da rua, em confiar nos roncos dos mendigos e acreditar que a madrugada de tudo e todos ocultava. 
Ela o beijou, e beijaria mais se uma voz não tivesse esganiçado logo atrás de si:
--Astrid! Meu bom Deus, o que... Venha para cá, agora mesmo! 
O choque e o medo não foram suficientes para prevenir o que aconteceria em questão de segundos. Anna, a governanta, rapidamente separou o casal e pediu para que sua confidente chamasse um guarda, levando Astrid para dentro de casa pelos cabelos. Não haveria tempo para despedidas, tampouco: os pais de Astrid foram acordados e, em perplexidade pelo escândalo da filha, decidiram resolver isso antes que tal se espalhasse.
--Como ousa envergonhar a nós todos?! --berrou o pai, já tendo esbofetado Astrid mais de uma vez.
Ela não respondeu. A liberdade tinha sido uma ilusão, mas e o amor? Onde estava Ettheraldo? O que haveria de acontecer a ele? Nada do que pudesse dizer apaziguaria a raiva dos pais. O pai a batia de novo. Sentia as faces ficarem vermelhas, um corte atravessar a bochecha; logo depois, quinze palmadas pela mão de ferro de Anne, mas dor nenhuma a submeteria ao choro. Ela não seria subjugada. 
--Ele morrerá--disse-lhe acidamente o pai--Pouco me interessa o que ele fez ou deixou de fazer. Esse escândalo não chegará aos ouvidos dos outros. Dê graças ao bom Deus que sua perversidade não tenha sido descoberta pelo noivo. Receberá a sentença de traição, pelo ser infeliz que é!
--E tudo o que ele fez foi me amar...--sabia que devia ficar quieta, mas levantou os olhos e, mesmo com a boca ferida, disse--Se amar é um pecado, então sou uma pecadora. 
A mãe, que a tudo assistia enojada, não conseguia encarar a filha... Não surpreendia que nada fizera para impedir o pai de bater a cabeça de Astrid contra a parede. Contudo, ainda naquela madrugada, ela se aproximou de Astrid para cuidar dela.
--Sabia que era errado e mesmo assim o fez. E por que, Astrid? Não, não fale--ela suspirou. Era uma mulher de trinta anos que, embora amargurada pelo que a vida havia lhe tornado, reconhecia a liberdade e a coragem na filha que uma vez haviam sido suas--Odeia-me, bem o sei que sim, mas eu também já passei por isso. Nesse mundo permeado por homens, que escolhas temos? 
Astrid levantou o olhar, estava, de fato, magoada e irritada, mas quando enxergou a compaixão vinda da mãe, pela primeira vez a compreendeu e a abraçou. Lágrimas, portanto, vieram e mesmo a mulher não era tão fria a ponto de se distanciar daquele momento.
--Eu também já amei um dia--disse ela, enquanto confortava Astrid--mas do que vale o amor quando nosso destino não é nosso? Ciganos... Não me surpreende tanto que a liberdade prometida tenha lhe atraído tanto. 
--Não... foi... apenas isso--disse Astrid, que, mesmo ferida, compreendia o que era perdoar, o que era carregar cada fardo e, ainda assim, ser leve e deixar tais encargos para Deus. Seu coração se apertou--Eu o amo, senhora mãe. 
--Eu sei--lamentou a outra--Bem o sei. Mas, num mundo de pecadores, cabe a nós nos confortarmos.
Nenhuma da duas falou outra vez e Astrid permitiu-se dormir em um mundo sem sonhos. No dia seguinte, o pesadelo continuava a ser pesadelo. Perseguiu-se o povo cigano, mas pela graça de Deus, a grande parte se dispersou. A culpa atordoava Astrid a cada notícia recebida, para deleite da governanta, e nada pior do que saber da execução de seu amado Ettheraldo à praça pública doia seu coração.
Uma de suas amigas, chamada Maria, aproximou-se de Astrid e disse-lhe ao tomar em suas as mãos dela:
--Ele não haverá esquecido da senhora, Astrid. Cantarão, sei disso, da dama e de seu cigano. Da dama e do vagabundo--ela riu um pouco, e ficou satisfeita em ver sua amiga sorrir.
--Cantarão, sim, mas a que preço? --lamentou Astrid. --Essa dor não cessa.
--Haverá de cessar--prometeu Maria--Escute o que falo. Confie em Deus que tudo passará, nada é permanente, nem a dor que lhe inflige.
Naquele dia, Astrid permitiu-se, em segredo, prantear o luto pelo amor de sua vida, o marido que não desposara como gostaria. Dali em diante, devotou-se a Deus, tendo o pedido de entrar na vida monástica negado pelo pai. Casou-se, decerto com um rapaz de linhagem nobre, da família Orsini, e para o norte da Itália foi morar.
Contudo, apesar de tomar o dever a sério, jamais voltou a ser a mesma. Devotou-se a tal modo que muitos acreditavam que havia enlouquecido, mas a verdade é que Astrid finalmente compreendera a leveza pela qual tanto havia admirado Ettheraldo. Se nada é mutável, imagino que tampouco a morte fosse. Com isso, ficou sensibilizada ao que acontecia ao seu redor e quando ficou grávida, sentiu-se feliz pela primeira vez em muito tempo.
--Se tiver uma menina, se chamará Sibila--confidenciou Astrid a sua amiga mais querida, Maria--Caso seja um menino, receberá o nome dele.
E desta maneira, iniciaram os preparativos para o dia que Astrid daria luz ao seu bebê. No dia previso, entretanto, quem haveria de saber o que estava a acontecer? O parto havia sido difícil, e Sibila, a menina, nasceu sem transcorrer quaisquer problemas, mas a mãe não sobreviveria pois fora envenenada.
Quando descobriu o que aconteceu, Maria se encarregou de cuidar de Sibila, decidindo criá-la longe da Itália. Quanto a Astrid, ainda que tivesse sofrido para ter a morte que recebera, soube abraçá-la sem pudor. Afinal, no momento que seus olhos se abriram novamente, era o povo cigano que a recebia. Era seu Ettheraldo que estendia-lhe as mãos.
--Meu amado, oh meu amado Ettheraldo! --ela pranteava ao jogar-se em seus braços--Eu sinto tanto, de verdade, eu sinto muito.
--Shh, shh--ele a consolava. Como era bom tê-la em seus braços novamente--Não se aflija mais, minha dama branca, minha Padilha. Nenhum veneno irá corrompê-la, nenhuma dor irá subjugá-la. Não, não. Tempos felizes chegaram para nós, como nas canções das quais falávamos.
--Mas todas elas continham tragédias...
Ele riu, e como ela havia sentido falta de sua risada.
--Que importam elas se o amor permanece quando elas se vão? O mundo é imutável e instável, minha amada Astrid, mas o amor é sempre o mesmo.

Fim.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

O Cerco da Morte: Memórias De Um Espectro

Quem faz o destino é o homem, e não Deus. Muitas vezes O culpamos pelos nossos infortúnios, as tristezas que carregamos e as frustrações que depositamos, mascaradas pelas expectativas, em outras pessoas. Buscamos glória, porém, colhemos orgulho, vaidade e fraquezas carnais. Eis, portanto, uma história que contém tais elementos.

Não vou dizer de quem vim, a que vim ou por que vim. Cheguei a uma família abastada, criado por um homem e sua esposa bastante importantes para a época. Recebi o nome, no batismo, de Edward, em homenagem ao meu pai e aquele que veio antes dele. Foi celebrada a alegria, em meio a um ambiente que carregava preocupações com o futuro, de fato, afinal, a instituição precisava ser passada a um herdeiro.
Cresci. E recebi uma educação apropriada ao título que, eu não sabia, jamais viria a receber. Segui os passos de minha mãe, tentei ser piedoso e absorver os ensinamentos de Deus, mas a hipocrisia me venceria, assim como faria com todos os outros. Ventos sussurravam em meu ouvido, mas eu não os escutava; não me apetecia apreciar a natureza, a criação de Deus; a humildade cabia apenas aos inferiores, de quem seríamos seus soberanos. Por mais que a bondade, a alegria e o amor rondasse-nos a todos, o orgulho e a ambição prevaleceriam. O gosto por sangue se manifestaria.
Tão logo provei-me forte e desafiei as instâncias da morte ao sobreviver a infância, incitaram-me a corresponder ao ideal de cavalheiro da época. Guerras, elas seriam as donas de mim e em tenra idade cravaram suas garras em mim. Na primeira vez em que fui à França ao lado de meu pai, a inocência e o horror deram espaço para o gosto pelo sangue. 
Cavalgava com velocidade, empunhava a espada na mão direita, meus dedos agarrando-se ao punho da bainha com força. E a primeira vez que o aço da espada, símbolo de poder, cortou a carne de meu inimigo, não senti piedade: ao contrário, regozijei-me. Igualmente, o fizera meu pai. Orgulhei-o e, eis meu caro, o início da minha queda. O orgulho. Ainda sinto vergonha em relembrá-lo, pois seria este sentimento terreno e sujo que me anteciparia à falha de uma melhora, da limpeza de meus pecados anteriores. 
Compartilhava com meus irmãos, especialmente John e Lionel, essa potência ascendente, em querer buscar o melhor de nós, procurando por qualidades que, hoje vejo, muito nos limitariam, de longe nos exaltaria como exemplos de seres humanos. O senhor, que está lendo isso, poderia argumentar que isso era reflexo de tempos que demandavam nossa formação a ser daquela maneira, mas como explicar que, mesmo intrínseco a uma sociedade guerreira, nos deparamos com outros personagens que se sobressaíram pela piedade, bondade, misericórdia e, acima de tudo, fé, paciência e resignação? Não, não. A juventude, independentemente do contexto, pode cegar a todos nós quando nos oferecem falsas promessas e, tolos, aceitarmos na falsa crença de agradarmos aquele que mais amamos. 
Construí uma fama, uma reputação. As damas admiravam minha beleza, os poetas dirigiam-me a atenção, tornando-me objeto de suas estórias tanto quanto era das canções cantadas pelos músicos. O belo príncipe, assim me qualificavam, tanto pela aparência quanto por ser o próximo leão da guerra. Pouco convia à inteligência de poucos e à ignorância da maioria que a superficialidade da virtude que projetavam em mim, era a encarnação dos vícios idealizados e consumados. Mas, vos digo, orgulho e amor não são autodestrutivos quando em conjunto?
Quando a vi pela primeira vez, não me importei com seus pecados, e tampouco com os meus. Talvez porque enxergasse uma redenção para aquela cujo espírito era tão livre e indomável quanto o meu. Recordo-me de sua aparência: pele alva como a porcelana, delicada, quase frágil ao toque; seus cabelos puxavam para o ouro mais escurecido, suas sobrancelhas eram finas e arqueadas; o nariz era longo, o rosto, oval, possuía características bastante aristocráticas: seus olhos eram de um azul tão profundo quanto os do oceano de Dover, e os lábios tão vermelhos quanto os do morango. Apaixonei-me. Enganam-se se acreditam em destino, embora os encontros jamais passem por coincidências. Vos digo que elas não existem.
--Meu senhor primo--sua voz era delicada, e sua humildade aparente, era encantadora--Como tem passado à corte?
--Mal tenho tempo para essas besteiras--eu respondi, arrogante como o era--afinal, esses passatempos são cabíveis aos cortesões. Ao contrário, tenho me ocupado em seguir meu pai à guerra.
--Ah, é mesmo? --seu orgulho, outra vez ele, mascarava sua sensibilidade às minhas palavras--Espero que tenha a decência de voltar vivo.
--Cabe às mulheres tais preocupações, senhora--disse eu, sorrindo-lhe; e desta maneira, fi-la sorrir também--Não pense que sou ingrato a elas.
--Não quis presumir isso, primo. 
--Como tem estado as crianças? --perguntei, embora meu interesse fosse vago, movido, ao contrário, pela luxúria que fazia-me de vítima, pois fraco que era, não encontrava forças para lutar contra ela. Ou eu apenas ceguei-me, fechando-me para os valores que importavam. 
O rubor no rosto de Joan, pois este era seu nome, traía-lhe os sentimentos. Soube, dessa forma, que era recíproco. Ela respondeu, portanto, em falsa compostura:
--Bem, graças a Deus. Vossa Graça, sua mãe, tem sido extremamente generosa para comigo e com elas ao nos dar pensão pela viuvez.
--Não se arrepende de ter sido tão imprudente em tão tenra idade? --eu indaguei, ousado e rude--Esqueceu de seus deveres ao apaixonar-se. 
Joan talvez não fosse diferente de mim em essência; aos 12 anos, fugiu de um casamento forçado ao casar-se com alguém de sua escolha, mas fora obrigada a retornar aos braços do marido. Não acatava ordens, protestava, e não tinha medo das consequências. A vaidade era sua arma poderosa, seduzia e enganava, mas eventualmente fora domada pelo espírito gentil e bondoso que se fez mostrar. Ainda assim, porém, poderia vislumbrar o apego à carne, um espectro que a circundava. Mas suas preces eram sinceras, quando as minhas não o eram, tornando-me um hipócrita.
--Não--ela retrucou--Devo me arrepender por ter amado meu marido? De tê-lo dado filhos? Não digo que é fácil cuidar de tantos, mas amor é um pecado? Por que deveria sê-lo?
Nossa conversa, que caminhava para um teor mais luxuriosa, fora abruptamente interrompida quando Lionel chegara. Cumprimentos formais daqui e acolá, ele logo me afastara da companhia de Joan. E eu, próximo de meu irmão, não me incomodei com isso. 
--Nosso pai está pretendendo ir à França outra vez. Fá-lo-á rei de lá--disse ele--Que acha disso?
--Os franceses são fracos--retruquei--Todavia, não herdarei o reinado da Inglaterra quando Deus assim quiser?
Mas Deus não assim quereria. E Ele, em sua sabedoria, havia velado tal conhecimento de mim. Nem tudo sabemos, e a certeza é mutável.
--Acho que a vingança de um rei jamais é completa--opinou Lionel, em um de seus momentos sábios--Por que descontar o ódio aos franceses se não é de interesse de ambos em conquistar uma terra e ser o soberano dela? Qual é o propósito de guerras?
--Que questionamentos idiotas, irmão--eu me ri dele, embora em meu fundo talvez desconfiasse de suas veracidades. Como viria a lamentar por não dar-lhe a razão--Levantamos a espada não para ceifar vidas, mas lembrar das consequências do que é meter-se conosco. Negaram-nos o direito de usar a coroa de lá e nosso pai irá lembrá-los que ele é o detentor dela.
--Mas achei que não estivesse interessado nela. 
Eu dei de ombros: a perspectiva de um futuro em que pudesse escolher o que me era garantido divertia-me como o inepto que era. Voltamos a falar de guerras, assunto que muito me deleitava; não pensávamos muito nas mulheres, embora, certamente, eu estivesse enamorado por uma. A corte era, certamente, intrigante, mas me entediava. Uma vez apresentado à adrenalina de decisões tomadas, de brilhantemente derrotar o inimigo no campo de batalha e ser o objeto de louvores, comparado à grandeza de meu pai na guerra, o resto pouco conseguia captar minha atenção. Mesmo atender às missas era-me enfadante. E eu ainda rezaria para que Deus me favorecesse ante os inimigos, temeroso de que a morte me levasse. Mas a confiança apossou-se de meus espíritos já frívolos e a possibilidade do inferno não me assustava. 
--Fico bastante feliz em tê-lo conosco, Edward--disse minha mãe, a rainha Philippa. Ela estava sentada no trono ao lado de meu pai, vestida fabulosamente em joias e roupas adequadas para sua posição. No entanto, ressalto que, em contraposição à minha avó, Isabella da França, ela era mais humilde e paciente. Reconheço que o mundano não lhe atraía tanto quando poderia parecer. Ademais, era popular mesmo entre os humildes, tendo conseguido poupar as vidas de alguns dos camponeses e mais pobres em várias situações. Respeitava-a por isso, mas atribuía tais características ao seu sexo--Seu pai não para de falar de você.
Apesar de me tratar com amabilidade, sendo a mãe que era, incomodava-me saber que não era seu preferido. Saber disso brotava em mim o ciume, ressaltando a vaidade e impulsionando o orgulho vazio porque não era como Lionel. Mas o amor maternal curava essas faltas, mesmo contra a minha vontade. 
--Estava na companhia de Lionel. Ele disse que vamos à guerra novamente.
--Guerra--resmungou minha mãe, uma defensora da paz--Isso é necessário? Meu rapaz, acredito que está na hora de casá-lo.
A ideia de me prender a uma instituição encheu meus pulmões de pânico. Como um guerreiro cumpriria com seus deveres, como alcançaria os louros da vitória esperada se tivesse uma esposa, encarregando-lhe de cumprir como esposo a fim de ter um filho para que herdasse propriedades? Protestei.
--Você será o futuro rei da Inglaterra--ela me disse em seu tom de voz solene--Não pense que esquecerei disso.
Eu ri. Era jovem e tenho ciência de que possam imaginar de como era naqueles dias. 
--Vá dançar--ela pediu, risonha--Agradaria-me muito se fizesse-me esse favor.
--Senhora mãe, eu sou um guerreiro e guerreiros não dançam! --exclamei, achando tal ideia inconsistente, mas meu pai, que muito se divertia com a conversa que ouvia, se intrometeu e falou:
--Pensa que não sei o que as moças falam de você, meu filho? Qual o perigo em dançar? 
Depois de muita conversa, enfim fui convencido. Sorri quando vi várias moças olhando de esgueira para mim. Àquela altura, era alto como meu pai; minha pele era morena, herança de minha mãe, embora fosse mais clara que a dela. A barba crescia ao redor de minhas faces, mas não cobria ainda os lábios; possuía ainda todos os dentes, o que, decerto, facilitava a atração para a época. Meu nariz era longo e um pouco largo, e meus olhos eram negros e intensos, se é que poderia caracterizar desta forma. Meus cabelos ainda eram curtos, mas começavam a crescer, e eles eram escuros como a noite. Apesar de ser Plantageneta, apontavam-me como Avesnes em toda a aparência.
Seja como for, nenhuma delas me atraía e estava a desistir quando a vi. Joan merecia todo o epíteto de ser a bela dama de Kent. Ela estava maravilhosamente vestida em ouro, e suas faces ruborizavam quando me vi. Como falei antes, o amor e o orgulho não andavam lado a lado por serem autodestrutivos quando combinados. E eu estava apaixonado. Fe-me humilde quando a vi. E tão logo esqueci de que estava sendo observado por todos da corte.
--Prima--eu me dirigi, soando mais rude do que planejei ao cortejá-la.
Ela me cumprimentou com uma mesura, ciente do protocolo de que deveria seguir.
--Vossa Alteza.
Mesmo no esplendor do orgulho, submeti-me à humildade quando respondi:
--Sem títulos. Chame-me pelo nome, Edward.
Ela levantou os olhos e me encarou, surpresa. Quaisquer defeitos que, como eu, a possuísse, foram domados pelo amor que nascia entre nós. Ela sorriu e eu também. 
--Muito bem, então. Edward.
--Joan. Vim cortejá-la. Aceita dançar?
--Os passatempos na corte não eram inúteis para um guerreiro? --ela desdenhou, jogando as minhas palavras contra mim.
Revirei os olhos, mas senti meu rosto queimar. Que sensação era aquela que eu desconheci por quase toda a minha vida? Embora defendesse a honra, procurasse ser justo, qualidades louváveis para um observador de fora, elas não apagavam, sequer mudavam que eu era um homem orgulhoso, vaidoso atrás das vitórias e que, sem qualquer piedade, ceifava vidas de outros.
--Isso é um não?
--Achei que me conhecesse melhor.
--Isso é que o veremos.
Dançamos como dois corações em chamas, testemunhados pela esperança divina em ver meu lado selvagem ser domado pelo amor. Senti-me compelido a entregar-me, a banhar meus olhos naqueles tão azuis quanto o mar, no sorriso encantador... Quando juntos, esquecíamos de nossas faltas, não pensávamos em outra coisa que não em nós.
E naquela noite, me deitei com ela. Amei-a pelo que era, desesperadamente cravei pelo que me oferecia, e a luxúria unia nossos corpos, mas não como, nas noites seguintes, o apetite pelo amor que eu descobria e ela reencontrava depois de tanto tempo em luto. Esconder aquilo por um tempo fora uma tortura a qual eu me afligi. Longe das batalhas, tomei ciência do que deveria melhorar. E quando tornou-se evidente de que o cupido havia me atingido, como na época sussurravam, eu assim falei, bravamente como o príncipe honrado que acreditava ser:
--Seja minha esposa, Joan. Quero tomá-la como consorte, que seja minha rainha.
--Sim--ela disse, sem pensar duas vezes--Sim, serei sua rainha se assim me quiser.
Felicidade. Acreditamos que ela deve ser permanente e por ela lutamos, para fazê-la imutável, para de nós sermos os donos. Não havia sido uma atitude impertinente a ser tomada, apesar de ter assim parecido, visto que meus pais desaprovaram o casamento. Contudo, consentiram pois viram que não obteriam sucesso em dissuadir-me de desposá-la. Estava, a meu ver, tomando as rédeas do destino. 
E nossos filhos viriam, mas a que preço? A felicidade permanente estava ligada aos bens terrenos, ao apego ao ouro, ao amor, por vezes carnal, desfrutado pela esposa, à família, mas, acima de tudo, ao que os homens dão aos homens. Dê a César o que é de César, não te aparece, leitor, familiar tais dizeres?
Eu não aprendi a me curvar às leis divinas, porque as ignorava. Quando meu herdeiro foi-se embora, não compreendi. Senti raiva. E as descontei, novamente, na batalha. O cheiro de sangue me ensandecia, e a reputação de guerreiro não mais levantava a admiração de inimigos ou colegas, mas atiçava o medo. Quase fui comparado até mesmo a Pedro, O Cruel de Castela. Pois assim acreditava que eu domava a morte como ela, mais tarde, me domaria. Aos poucos fazia seu cerco.
Não me compete dizer os nomes das cidades que celebrei minha fama em cima de sangue e mortes. Não se trata de envergonhar-me, mas, como costumam dizer, engrandecer o que não é merecido de engrandecimento. E porque, particularmente, acho que a mensagem não é esta.
Pois bem, prosseguindo com a estória, continuei na busca inflamável pelas vitórias. Poucos ousavam chamar-me de cruel, mas certamente assim o pensavam, pois receavam o dia que eu me tornaria rei Edward IV.  Meu irmão, pobre John, sentia-se eclipsado por mim e por Lionel e ele também tentava suas próprias incursões ao exterior, mas ele lidaria com as consequências de seus atos mais tarde, embora ouse dizer que sua natureza guerreira era mais passiva a bondade do que a minha. 
Quando tendemos a piorar e nos recusamos a melhorar, a aceitar que há decisões melhores a serem tomadas, a nos submeter às leis divinas, apenas a morte pode nos purificar. E eu só saberia disso tarde demais. 
--É realmente necessário que você vá ao exterior outra vez? --Joan disse, e certamente seu pressentimento era um aviso para o qual fiz-me surdo--No início, compreendia, agora não sei. Temos uma família, filhos... E seu pai está doente, Edward. Nem sempre guerras nos trazem as respostas que precisamos.
--E o que saberia disso? É uma mulher que foi treinada para as artes domésticas--retruquei, ferindo-a. 
--Se é assim que pensa, que seja.
E em sua fúria silenciosa, desapareceu de minha vista. Apesar dessa impressão, procurei-a para, não sem dificuldade, confessar minha culpa. Contudo, o orgulho já estava havia muito impresso em mim, e eu não conseguia mais me livrar dele. Seria minha sentença de morte.
Despedimos-nos em paz, porém, e lamentei vê-la prantear pela minha partida. Era a última vez que nos veríamos em vida e eu optei por deixar seu coração partido para ir atrás de glórias. Quão fraco fui eu, acreditando reinar sobre mim e os outros ao meu redor, mas minha mácula só poderia ser retirada de mim pela morte que tanto debochei.
Não citarei o último cerco de que participei, não há necessidade para remoer-se detalhes que, em suma, não são importantes para a história. Talvez há aqueles que saibam, outros nem tanto, mas o conhecimento virá para aqueles que buscam.
Lembro da escuridão da noite. Barulhos permeavam o silêncio que era afugentado pelo desespero. Pediam por comida e bebida, mas por clemência acima de tudo enquanto nós os cercávamos. Vieram a mim, uma palavra e tudo poderia ser mudado, mas o que saiu de minha boca foi apenas:
--Não.
--Mas, meu senhor, são milhares de vidas! Elas não podem ser desperdiçadas desta forma! São civis, nada têm a ver com nossa batalha!
--Eu disse que não! E que se dane se são civis, assim o rei dessas pessoas aprenderá a não negar-nos presença, nossos pedidos!
O cerco continuou. A negação permaneceu a mesma, e, a despeito do sufoco que aquela situação toda havia nos proporcionado, a vitória veio. E, junto com ela, a morte.

A cabana foi montada quando adoeci. Xinguei os médicos, aqueles que me acompanhavam tiveram o desprazer de ver meu temperamento Plantageneta em ação, mas muitos apaziguavam a rudeza de minha natureza pela doença que me acometia. 
--Ele é o herdeiro da coroa--ouvi-os murmurar--Não pode morrer.
Mas eu havia passado tempo demasiado com homens para saber quando mentiam, se preocupavam, tinham medo... E certamente os que me temiam não lamentariam minha morte. Aquilo me irritou, mas a morte me cercava. E ela pressionava por um indício de arrependimento, de medo, qualquer coisa que não tivesse sido sufocado pelo orgulho e pela vaidade que, por anos, me consumiram. O único arrependimento que eu carregava, entretanto, era o de não ter sido mais saudável para levar mais conquistas para a Inglaterra. Eu não havia aprendido nada, afinal.
Ela não foi sutil, não foi clemente e não ouviu meus pedidos para que fosse misericordiosa para comigo. E por que deveria? O que eu havia feito em vida? O que eu deixei de legado para meus filhos, minha família? Digo-lhes que aprendi, meus caros leitores, que não há glória em deter poder sobre várias vidas, ser responsável por elas apenas para esmagá-las com a insignificância do poder mundano... que me era tirado, que se dissolvia enquanto a morte me pressionava, inútil como uma flor morta, pisoteada.
Chamaram o padre mais próximo para me dar a última unção. A sombra se aproximava e eu vi, digo-lhes, vi os espectros que me cercavam. Uns com raiva nos olhos, outros com piedade neles. Não me recordava deles até ter ciência de que foram as vítimas, diretas ou não, da minha espada, da minha ganância, da minha arrogância... 
Então, o véu dos meus olhos foi tirado e eu rezei. Sinceramente, desta vez. Por perdão. E se a dor era o que eu precisava para passar daquele desencarne, que seja. Eu a aceitaria e a abraçaria. Porque, meus caros leitores, eu não aprendi. E não entendam isso como um lamento, mas uma lição. A vida é breve, de fato, mas nem por isso o que fazemos não retornam para nós. Ah, voltam, sim. E como voltam!
No meu último respiro, ouvi o seguinte epíteto:
--Morre hoje nosso líder, guerreiro, temível e respeitado Edward Plantageneta, o príncipe negro.
E era este o legado que deixaria, ao lado de um merecido esquecimento por tantos séculos para que aprendesse a ser mais humilde e a submeter às leis divinas. É necessário que se compreenda que os louvores que buscamos não são a felicidade que merecemos, e mais ainda, que a humildade vem com resignação, paciência e fé. Assim sendo, vos deixo com minha estória.

Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...