segunda-feira, 13 de junho de 2022

Ciclos de Gaia I: Sirius pelo Espírito Wasilau

Orientações do Guia de Oxossi: “Saudações, minha cara amiga. A partir de hoje, daremos início a uma série de relatos espirituais, profundamente ricos em ensinamentos morais à luz de nosso mestre e exemplo Jesus o Cristo, trazidos por nossos amigos que, segundo suas encarnações mais marcantes na orbe terrestre, experimentaram na carne a vida que conheceis pelo termo “indígena”. Em conjunto com seu guia de Ogum, que toma a dianteira destes trabalhos, seguimos com a permissão do Grande Espírito para que tais ensinamentos cheguem a todos sem distinção de crenças ou obstáculos materiais. Que assim seja, minha pequena. Ahô!”

“Saudações a todos! Atendo pelo nome de Wasislau, mas podem me chamar por Was. Em uma de minhas infinitas encarnações na carne, vim exilado de outra galáxia a fim de expiar meus pecados, se assim posso nomear um conjunto de erros dos quais não me orgulho de modo algum. Mas a experiência que mais me marcou foi numa tribo nativo-americana situada nos Alpes. Contávamos o tempo diferente de como é quantificado em seu presente, por isso me absterei de me concentrar nisso. O que me importa mais é compartilhar o conhecimento adquirido nesta orbe.

Pois bem, fui mais um daqueles que vivia entre os conhecedores de Gaia. Admirávamos àquela que nos provia por meio de seus frutos, isto é, a Mãe Natureza que nos dava de comer, beber e acolhia-nos das intempéries. Nossa relação com os animais que nos cercavam era de respeito mútuo: não invadíamos seu espaço e eles, de alguma forma, faziam o mesmo. Todavia, a caça era importante para nossa sobrevivência: nem só de vegetais vivia o homem.

As crianças, sem distinção de gênero, eram educadas quase da mesma forma: deveriam todas compreender a função doméstica que viriam a desempenhar, a importância da união conjugal e todo o resto que vinha disto. Somente a partir dos 12 anos, o chefe da tribo, que atende como “cacique”, fazia as diferenciações necessárias para que o equilíbrio reinasse internamente. O que quero dizer com isso é que ele afirmava que o feminino e o masculino eram energias que pediam por mútuo complemento. E elas viviam em cada um, mas em alguns era mais incentivado do que outros. Assim, os garotos eram treinados na arte da guerra e as garotas, para a sabedoria doméstica. Isso não impedia, todavia, que algumas delas se destacassem na arquearia. O cacique diria que nada poderíamos diante da vontade Daquele que escolhe seus favoritos. Foi assim que conhecia Yvana.

Éramos dois jovens que não tinham mais do que quinze, dezesseis anos. Embora nossa tribo fosse pacífica, isso não significava que deveríamos pôr armas de lado. Afinal, precisávamos caçar e o mundo em que vivíamos era marcado por violência. Não pense que as tribos não gladiavam entre si e que a agressividade pertencia exclusivamente ao homem “branco”. Isso é ilusão. O bem e o mal são concepções que vão muito além à mentalidade presente da Terra.

Deste modo, estávamos a pescar. Enquanto ela levava um arco e flecha consigo, eu trazia uma lança. O barco no qual nos achávamos era feito de madeira das árvores que nos cercavam. O sol raiava naquela manhã nascente, momento ideal para pesca. Nossos olhos atentavam-se para o rio que passava por ali, longe de nossa casa, pois a distância de lá até o rio era considerável.

“Was, soube da reunião que o cacique convocou para mais tarde”, disse Yvana, rompendo o silêncio. Seu rosto era sério, embora marcado por traves suaves. Pinturas de cores vermelha e branca enfeitavam suas faces. Seus cabelos, escuros e lisos como a noite, estavam presos em uma longa trança. Ela segurava com firmeza o arco, pendendo a flecha entre seus dedos, atenta a qualquer movimento que viesse nas águas. Vestia no corpo couro de vaca e portava-se como a guerreira que era. O cacique dizia que seu lado masculino ultrapassava o feminino, o que significava que precisava ser trabalhado a fim de alcançar o equilíbrio. De vez em quando, batiam as cabeças, pois o cacique nem sempre tinha a temperança necessária para aplacar conflitos e Yvana era temperamental por natureza. “Estou preocupada. Já disse a ele milhões de vezes que não me interessa o artesanato.”

Lembro de ter sorrido. A presença de Yvana assustava, para não dizer que incomodava, a tantos, mas não a mim. Nossos laços eram naturais porque, em outras encarnações, éramos o par um do outro.

“O melhor a se fazer é ouvir. Você não sabe ouvir, Yvana”, falei com calma. “Assim como ele não sabe se expressar algumas vezes. Ele é sábio, mas como você foge à regra de certa forma, ele se depara com um enigma.” Diante do cenho franzido dela, apressei a acrescentar. “Ora, mas isso é bom. Você veio mudar os paradigmas.”

Ela suspirou e volveu o olhar para os céus. Gostava de contemplar as estrelas.

“É verdade, Was. Devo dar-lhe a razão por mais que isso incomode meu orgulho, o qual não deveria ter, mas sinto em mim. Mas como posso ouvir tais absurdos? Sabe, quando olho para cima, sinto que lá reside meu verdadeiro lar, onde meu verdadeiro “eu” é aceito. Sei que desdenham e debocham de mim por ser quem sou.” E subitamente seu olhar adoçou ao repousar em mim. “Mas você, não sei por que, é diferente.”

“Alguns dizem que sou o feminino que falta em você”, falei, fazendo-nos rir. “E eu agradeço, portanto, porque isso nos completa. Mas não lhes dê ouvidos. Acho que hoje a convocação se tratará dos animais que nos acompanham. Precisaremos das energias deles se o que ouvi foi verdade.”

Ela titubeou.

“O que você ouviu, Was?”

“Que a tribo nortenha tem interesse em nossas terras”, respondi. “Queira o Grande Espírito que isso seja inverdade. Me preocupo com os idosos que não têm mais força para combater e lamento ver que muitos dos nossos se preocupam mais com glória e imprudência do que outra coisa.”

Yvana sorriu.

“Você é a esperança que falta em nossa tribo. Mas não me faça o favor de voltar para nossa casa”, ela apontou para os céus outra vez, “sem a mim ao seu lado”.

Tomei a sua mão na minha por um instante e retribuí o sorriso.

“Acredito que nossa missão aqui é mais longa do que gostaria, minha cara.”

Não sentíamos a nossa idade, portando-nos como deveras velhos para aquela juventude. Tal era o julgamento que repousava em nós. Mas isso era necessário como descobriríamos mais à tarde. Depois de termos pescado, regressamos à tribo sem maiores problemas. Atravessamos as copas, cumprimentamos algumas aves que voavam em nosso caminho, mostrando-nos a trilha sem que nos perdêssemos.

O dia transcorreu com cada um em seu treinamento e deveres tribais a serem cumpridos. A reunião eventualmente chegou e todos nós, sem distinção, nos aglomeramos ao redor do chefe tribal. Uma grande fogueira era alimentada e, enquanto ele ocupava uma espécie de banquinho, nós sentávamos na terra. Em seus trajes típicos da posição que ocupava, com um coca de penas brancas da águia careca, ele fumava seu cachimbo, olhos semicerrados, em estado de contemplação. Enquanto isso, tambores eram tocados e muitos de nós cantávamos. Mas o silêncio não tardaria a se impor entre nós. A lua cheia brilhava alto quando ele falou:

“Boa noite a todos. O tempo de sangue se aproxima e é preciso que nos prepararemos. Mas hoje viemos contemplar os ensinamentos que o Grande Espírito vêm trazer mediante a sabedoria animal que buscamos invocar.” Ele tragou uma vez mais seu cachimbo e levantou. Nós o encarávamos em quase estado de transe.

“Há muitos e muitos séculos atrás, deixamos nossa morada em Sírius. A soberba, a ira, tudo aquilo que canaliza o excesso e que nos distancia da bondade Daquele que nos Reina, e a quem devemos obediência, nos trouxe aqui. Passamos a entender que nada nos pertence, nem este corpo, cujo espírito habita e logo mais sairá dele. Quanto mais cedo entendermos que o apego é inútil, tanto melhor.”

O cacique fez uma pausa para olhar cada um, como se buscasse algo nas almas de seus companheiros.

“Não estou isento de erros. Se assim fosse, creio que outro estaria em meu lugar. Sendo assim, por mais que tenha me esforçado em liderar uma vida menos animalesca, sinto que meus esforços foram inúteis. Aqui não é como lá em cima. Aqui, a belicosidade persiste. Paira sobre nós um grande teste. E, infelizmente, a nossa sobrevivência está em cheque. Hoje, porém, pedimos por orientação. Sirius, o Lobo, rogamos a ti que nos oriente. Cada um de vocês, homens e mulheres, velhos e jovens, sentirão dentro de si a resposta para nossas inquietações. E nela, tentaremos almejar o equilíbrio necessário para o dia sangrento que foi anunciado semana passada.”

Fez uma pausa. Voltou para o seu banquinho de madeira, sentou-se. O silêncio reinava absoluto. Ele logo mais se abaixou, pegou um punhado de ervas e mergulho em água quente. Misturou, misturou, misturou e depois passou para o segundo mais velho da tribo.

“Beba somente um gole e passe aos outros.”

Em seguida, levantou-se e, com o cajado em mãos, proclamou:

“Clamamos por ti, oh Grande Espírito! Mostre-nos o caminho que devemos percorrer! Tenha misericórdia por nós, Espíritos do Lobo sofredores e perdidos em nossa jornada! Não nos deixe cair na tentação sangrenta que nos ameaça! Salve-nos de todo mal!”

Tambores foram ouvidos. Mas o som me pareceu distante depois que ingeri a mistura de ervas. Tudo ficou confuso. O barulho, vozes, uivos... Sim. Uivos. Vi diante de mim, com os olhos fechados, a figura de um lobo completamente branco. Mostrava-me os dentes. Mas ao seu lado, caía no chão um urso. Sangrava.

Senti um torpor me abalar. Meu espírito abandonava a casca. O lobo rosnava. O uivo pranteava. O que aquilo significava? Quase entrei em pânico. Até que um velho veio diante de mim. Parou entre os dois animais e me encarou. Seu rosto enrugado estava pintado de branco e sobre a cabeça a máscara de uma águia. Segurava um cajado. Disse:

“Wasislau, a inércia não é para você. Há sabedoria e experiência. Caminha em direção ao Grande Criador no equilíbrio que se esforça em alcançar. Mas ainda há desequilíbrio em sua alma.” Apontou para o urso caído. “Sabe o que significa? Que parte sua precisa de recomposição. O Urso é força, lar, cuidado, casa. Sua origem repousa em Ursa Maior. Mas o egoísmo foi sua queda fatal. Não demorará a encontrar sua redenção. Mas precisa fazer mais pela tribo. O Lobo está agressivo porque também está ferido. Engole demais seus sentimentos em prol dos outros. Não confia no que dizem a você, é desconfiado tanto que prefere a solidão. Mas o momento que chega o impele aos outros. Erga o urso, acalme o lobo. É o que digo.”

“Quem é você?”, inquiri assustado.

O velho sorriu.

“Que te importa quem eu sou, jovem? O que importa é a mensagem. Alimente seus animais à luz do Grande Espírito. Assim é que as sombras se dissiparão. Não almeje a perfeição nem os aplausos alheios. O embate é inevitável. Seu lobo derrotou o seu urso. Mas não é assim que se chega a uma vitória. O eclipse virá. Mas que lado tomará?”

Eram enigmas que eu não compreendia. Mas uma última mensagem mudaria tudo.

“E antes de regressar à casa, recorde uma última coisa. Confie mais. Questione menos. Será mais útil a sua tribo se seguir seu coração.”

E sua presença se dissipou. Quando voltei a mim, estava tonto. O som era insuportável, e eu parecia sentir tudo nos extremos. Quando percebi, vomitava. Yvana me acolhia e um de meus irmãos me segurava. Mas o cacique pediu que me deixassem sem nenhum auxílio. Sorriu e disse:

“Eis o nosso escolhido! Eis o nosso guerreiro!”

Lancei meu olhar ao cacique, sem entender nada. Estava assustado. Nosso líder se ajoelhou e disse, com um sorriso no rosto:

“Falaram com você, não foi? Sirius reside em você, menino. E caberá a você cumprir a tarefa que lhe darei.”

E meu destino foi selado.

A primeira invasão veio cerca de luas minguantes depois da convocação do cacique. Mas antes dela, a tribo em si estava tensa. Eu não era exceção. Aquele dia mexeu muito comigo e o sonho continuava a me perturbar. Yvana reparou que isso chegou ao ponto de modificar minhas atitudes e minguar meu humor.

“Você não me disse o que aconteceu com você naquela reunião. Que animais você viu?”

Ela soava ansiosa.

“Não estou muito interessado em ter esta conversa”, retruquei, dispensando sua preocupação.

O jovem orgulhoso ainda fazia morada em meu coração. Não se tratava, como se poderia supor, de glórias a serem alcançadas na guerra a seguir. Muito pelo contrário, me sentia inseguro e incapaz de desempenhar o papel de liderar os guerreiros como me predisse o cacique. Minha alma queria fugir, esquivar-se do dever e se esconder. No entanto, sempre que aquela sensação surgia, lembrava das palavras do velho. E comecei a me isolar, tal qual o lobo ferido que se distancia da matilha.

Sim, meus leitores, o orgulho também se dissimula na insegurança. Quando não confiamos em nós mesmos, nos recusamos a ceder espaço para a razão. Deixamos que as tarefas sejam apropriadas por outros e nos colocamos como vítimas a todo instante. Não tomamos o papel de protagonistas por medo de falhar, por crer na inferioridade de si mesmo.

Não à toa afastei Yvana de mim. E ela, por outro lado, se viu obrigada a recorrer ao cacique. Segundo ela me contou, eles tiveram a seguinte conversa.

“Ele está sendo teimoso de novo”.

O cacique estava cercado de anciãos, monitorando seu trabalho quando ela se aproximou sem esperar convite.

“Ah, a mocinha impetuosa vem a mim”. Ele sorriu. “Deixe-me dizer uma coisa a respeito de Wasilau. Ele está em uma jornada de autodescoberta. Por muitos séculos, viveu à sombra de outros, obedecendo à autoridade alheia, que, em verdade, massacrava seu potencial de crescimento espiritual. Consequentemente, o que você chama de teimosia, chamo de orgulho. Ele se acostumou à zona de conforto. É por isso que o coloquei como líder de nossos guerreiros.”

“Oh!” Yvana não sabia disso. “O senhor deu a Was tal papel?”

“Sim. E por que isso deveria surpreendê-la?”

Ela teve a decência de ruborizar.

“Não me surpreende, senhor. Mas... Mas por que ele tem agido tão estranho?”

“Porque romper a zona de conforto é a principal brecha que quebra velhos paradigmas e faz dali nascer o novo. Já ouviu falar da fênix? Há um conto em nossa tribo que é transmitida de geração a geração. Um dos primeiros Sirianos que habitou à Terra jurou ouvir um chamado para desvendar as densas matas. Acreditando estar em um jardim divino, ele se deparou com uma criatura mítica. Na verdade, era uma ave gigantesca. Mas ela estava muito machucada. Tinha se queimado. A ferida que habita nos animais traz à tona sangramentos que os torna ferozes e desconfiados. O siriano sabia disso, mas teve paciência. Ele faria aquela ave renascer das cinzas.”

“E como ele fez isso?”

O cacique lhe sorriu.

“Curando a ave. Apagou o restante do incêndio que cercava aquele animal, ganhando, assim, sua confiança. Em seguida, com o conhecimento medicinal que tinha, fez da ave uma nova. Chamou-a de fênix por sua pelugem vermelha. Mas sabemos que tais criaturas não habitam este plano.”

Yvana tornou a ponderar a respeito desta história, mas enquanto refletia, o cacique prosseguiu.

“A natureza é o caminho correto que nos eleva, minha filha. Por muito tempo, admito que não a compreendia. Achava que as energias não se mesclavam, mas fui tolo em minhas concepções. No final das contas, todos nós, sem exceção, possuímos papeis a desempenhar na vida. Os animais mostram isso a nós”. Ele parou e a encarou com aqueles grandes olhos acinzentados. “O leão que está em você ruge a tal ponto que dissimula a doçura trazida pela ursa. E seu parceiro também o urso como lado feminino. Não deixe que as diferenças interfiram no plano que vocês traçaram juntos. Ele precisará muito de você, Yvana. Tal como você precisará dele.”

Ela engoliu em seco, mas assentiu. Era impetuosa e orgulhosa, mas leal e bondosa. Sabia onde seu coração repousava. Levantava-se, como se inspirada por estranha força a movê-la de volta a me encontrar, mas o cacique a chamou uma vez mais.

“Não sei se sobreviveremos a isso”, disse o cacique, soando mais triste do que pretendia. “Mas lembre-se de uma coisa, Yvana. Fugir de conflitos que não são seus não a faz covarde. O leão, muitas das vezes, não invade o território dos hipopótamos, por exemplo. Ele procura sua caça em outros lugares e sequer se intromete nas brigas entre as hienas.”

Yvana ponderou por uns instantes antes de dizer:

“Sou muito impetuosa, não é mesmo?”

Nosso chefe riu.

“Muitos jovens trazem esse desafio. Há um guerreiro que vive em você, mas precisa domesticá-lo. Lembre-se do equilíbrio. Esta é uma adversidade que, seja nesta ou outra vida, precisa ser vencida.”

“Farei o meu melhor”, ela prometeu.

“Sei que sim. O esforço é significativo, diz que a alma já despertou. Agora vá. Wasilau precisa de você.”

E assim ela correu de volta. Eu me achava nas altas pedreiras, tomado de uma melancolia inexplicável.

“Aí está você”, disse-me ela, sentando-se ao meu lado. “Continua rabugento, Was?”

De má vontade, ri. Via verdade naquela acusação certeira.

“Só estou sendo...”

“...orgulho e obstinado.” Yvana sorriu como se entendesse. E me contou em detalhes sobre seu encontro com o cacique, o que me deixou mais propenso a uma profunda reflexão.

Lembrando do velho que me visitou quando tomei o chá no dia da convocação da tribo, pensei muito no que tinha dito sobre o urso ferido. E, de fato, eu nunca fui o mais social dos homens. Nem com minha família era perto. A única que venceu minha barreira foi Yvana. Por que eu duvidava tanto de mim?

Foi a pergunta que deixei escapar em voz alta. Yvana tomou minha mão na dela e respondeu:

“Você duvida de si porque tem medo do erro, de falhar. E quando isso acontece, se fecha em torno de si mesmo. Isso não é viver, Was. Acertos e erros nos fortalecem. Seu Urso está ferido porque você perdeu a confiança em si. É quase uma automutilação. Por que isso? Por que as pessoas o subestimam? Prove-os que está errado. E morra tentando se necessário. Não se trata mais de você, mas da tribo.” E ela colocou a mão sobre meu peito. “Há coragem dentro de você. Mas para resgatá-la, será preciso enfrentar suas inseguranças. Não é o momento de ser orgulhoso.”

“Às vezes”, deixei-me colocar para fora o que me feria por dentro, “sinto que não sou o suficiente.”

Enquanto conversávamos, as estrelas brotavam no céu e a lua nascia. Yvana fez-me encarar o novo cenário que surgia diante de nossos olhos.

“Veja a Mãe Lua. Hoje, está cheia. Sinta-a banhar em seu ser. Ela o acolherá. Você basta para ela, para o Pai, para mim. Sua família o ama. Sei que é difícil se curar, mas é um siriano. Somos fortes. Não esqueça disso, da sua herança espiritual.”

E como se para me encorajar ainda mais, depositou sobre meus lábios um beijo doce que eu prontamente retribuí com outro. Mais tarde, quando dormia em seus braços, meu espírito foi convocado a sair do corpo e levado diretamente de volta a um planeta onde o céu era laranja e o sol tinha um aspecto quase esverdeado. Tudo era tão diferente daquilo que eu vivenciava. Experimentei a saudade, pois ali era meu verdadeiro lar. Pranteei. E o velho de antes me apareceu, embora em vestes brancas.

“Saudações, meu caro Wasilau. Como é bom vê-lo outra vez. Está contente em ver de volta seu lar, presumo.”

Soltei um soluço.

“Ora”, ele sorriu e apertou meu ombro com gentileza. “Por que o pranto? Eis aqui a misericórdia do Grande Espírito. Está prosseguindo ao ponto de rever a casa que deixou. Em determinado momento, poderá reavê-la. Mas para isso é preciso que enfrente os desafios, alguns dos quais, no entanto, demorarão pequeno número de encarnações para removê-los dependendo de como lidar com eles no presente.”

“Não estou em posição de reclamar sobre isso”, respondi, ainda soando melancólico. “Foi por merecimento que vim à Terra.”

“De fato foi. Não preciso enumerar os erros pretéritos que ecoam no seu presente, mas veja bem, filho, por que se concentrar no que não pode ser mudado? Olhe para o agora, veja quanto seu esforço tem lhe dado frutos! Muitos acham que a cura é rápida. Basta um chá, encontrar seus espíritos animais e, ao voltar à carne, vivem como se uma vida fosse o suficiente. Não é assim que funciona. Mudar dói. Romper consigo mesmo dói. Olhar para as feridas e suas causas passadas, dói. Mas eu o pergunto: não valeu a pena? Está aqui, não está?”

Procurei absorver aquelas palavras, refletindo sobre as mesmas.

“Tantas perguntas, não sei nem por onde começar. Mas devo admitir que, apesar da Terra ser um planeta de provas e expiações, me considero muito afortunado por residir nela. Não sei se seguiria aprendendo o que aprendi se permanecesse em Sirius.” E ousei sorrir. “Há males que vêm para bem.”

O velho riu, alegre.

“Viu como aprendeu? Abrace sua essência divina, meu filho. A cura não vem rápido, mas se estiver disposto, poderá acelerá-la.”

Assenti com a cabeça, compreendendo.

“Gostaria de saber apenas uma coisa. Terei sucesso no dever que o cacique me passou?”

“Isso só depende de você, Wasilau. Mas não esqueça disso: não está só. E eu, junto com seus outros guias, o amamos do jeito que é.”

E foi assim que me senti mais encorajado a lidar com os obstáculos que, inevitavelmente, foram postos no meu caminho. A primeira invasão resultou em vitória para a minha tribo, mas o destino quis que não durássemos por mais tempo. Yvana e eu não passaríamos dos vinte anos. Nossa tribo não deixaria registros para a História humana. Muitos de nós pereceram sob a lança do inimigo do norte, enquanto os poucos que sobreviveram à guerra fugiram e se inseriram às outras tribos, produzindo tantas mais que, no curso da História, enfrentariam os homens dito “brancos”.

No final das contas, reencarnei em outra tribo, desta vez no Brasil, entre os guapimirins. A cura, como foi-me dito, é um processo que depende mais da vontade do espírito em se aprimorar do que outros. Olhar para si mesmo requer coragem e ousadia, pois se trata de sair da zona de conforto e ver que não somos vítimas ou algozes, mas espíritos com uma longa caminhada, trazendo bagagem que contempla o progresso das luzes e a estagnação das trevas. Nem sempre é um processo bonito e florido. Mas é necessário para aquele que decide adensar as matas de si mesmo a fim de encontrar a luz. E o mais importante disto tudo é saber que não estamos desamparados. Nenhum filho que faz longa jornada sai desacompanhado. O Pai e a Mãe, Uno no Grande Espírito, nos ama e não nos lega ao abandono.

Eis aqui o que aprendi vivendo neste planeta que tanto amo e prezo. Agradeço pela oportunidade de me fazer ouvir. Que o Grande Espirito os acompanhe hoje e sempre. Ahô! -Wasilau."

Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...