Orientações do Guia de Oxossi: “Saudações, minha cara amiga. A partir de hoje, daremos início a uma série de relatos espirituais, profundamente ricos em ensinamentos morais à luz de nosso mestre e exemplo Jesus o Cristo, trazidos por nossos amigos que, segundo suas encarnações mais marcantes na orbe terrestre, experimentaram na carne a vida que conheceis pelo termo “indígena”. Em conjunto com seu guia de Ogum, que toma a dianteira destes trabalhos, seguimos com a permissão do Grande Espírito para que tais ensinamentos cheguem a todos sem distinção de crenças ou obstáculos materiais. Que assim seja, minha pequena. Ahô!”
“Saudações
a todos! Atendo pelo nome de Wasislau, mas podem me chamar por Was. Em uma de
minhas infinitas encarnações na carne, vim exilado de outra galáxia a fim de
expiar meus pecados, se assim posso nomear um conjunto de erros dos quais não
me orgulho de modo algum. Mas a experiência que mais me marcou foi numa tribo
nativo-americana situada nos Alpes. Contávamos o tempo diferente de como é
quantificado em seu presente, por isso me absterei de me concentrar nisso. O que
me importa mais é compartilhar o conhecimento adquirido nesta orbe.
Pois
bem, fui mais um daqueles que vivia entre os conhecedores de Gaia. Admirávamos
àquela que nos provia por meio de seus frutos, isto é, a Mãe Natureza que nos
dava de comer, beber e acolhia-nos das intempéries. Nossa relação com os
animais que nos cercavam era de respeito mútuo: não invadíamos seu espaço e
eles, de alguma forma, faziam o mesmo. Todavia, a caça era importante para
nossa sobrevivência: nem só de vegetais vivia o homem.
As
crianças, sem distinção de gênero, eram educadas quase da mesma forma: deveriam
todas compreender a função doméstica que viriam a desempenhar, a importância da
união conjugal e todo o resto que vinha disto. Somente a partir dos 12 anos, o
chefe da tribo, que atende como “cacique”, fazia as diferenciações necessárias
para que o equilíbrio reinasse internamente. O que quero dizer com isso é que
ele afirmava que o feminino e o masculino eram energias que pediam por mútuo
complemento. E elas viviam em cada um, mas em alguns era mais incentivado do
que outros. Assim, os garotos eram treinados na arte da guerra e as garotas,
para a sabedoria doméstica. Isso não impedia, todavia, que algumas delas se
destacassem na arquearia. O cacique diria que nada poderíamos diante da vontade
Daquele que escolhe seus favoritos. Foi assim que conhecia Yvana.
Éramos
dois jovens que não tinham mais do que quinze, dezesseis anos. Embora nossa tribo
fosse pacífica, isso não significava que deveríamos pôr armas de lado. Afinal,
precisávamos caçar e o mundo em que vivíamos era marcado por violência. Não
pense que as tribos não gladiavam entre si e que a agressividade pertencia
exclusivamente ao homem “branco”. Isso é ilusão. O bem e o mal são concepções
que vão muito além à mentalidade presente da Terra.
Deste
modo, estávamos a pescar. Enquanto ela levava um arco e flecha consigo, eu
trazia uma lança. O barco no qual nos achávamos era feito de madeira das
árvores que nos cercavam. O sol raiava naquela manhã nascente, momento ideal
para pesca. Nossos olhos atentavam-se para o rio que passava por ali, longe de
nossa casa, pois a distância de lá até o rio era considerável.
“Was,
soube da reunião que o cacique convocou para mais tarde”, disse Yvana, rompendo
o silêncio. Seu rosto era sério, embora marcado por traves suaves. Pinturas de
cores vermelha e branca enfeitavam suas faces. Seus cabelos, escuros e lisos
como a noite, estavam presos em uma longa trança. Ela segurava com firmeza o
arco, pendendo a flecha entre seus dedos, atenta a qualquer movimento que
viesse nas águas. Vestia no corpo couro de vaca e portava-se como a guerreira
que era. O cacique dizia que seu lado masculino ultrapassava o feminino, o que
significava que precisava ser trabalhado a fim de alcançar o equilíbrio. De vez
em quando, batiam as cabeças, pois o cacique nem sempre tinha a temperança
necessária para aplacar conflitos e Yvana era temperamental por natureza. “Estou
preocupada. Já disse a ele milhões de vezes que não me interessa o artesanato.”
Lembro
de ter sorrido. A presença de Yvana assustava, para não dizer que incomodava, a
tantos, mas não a mim. Nossos laços eram naturais porque, em outras encarnações,
éramos o par um do outro.
“O
melhor a se fazer é ouvir. Você não sabe ouvir, Yvana”, falei com calma. “Assim
como ele não sabe se expressar algumas vezes. Ele é sábio, mas como você foge à
regra de certa forma, ele se depara com um enigma.” Diante do cenho franzido
dela, apressei a acrescentar. “Ora, mas isso é bom. Você veio mudar os
paradigmas.”
Ela
suspirou e volveu o olhar para os céus. Gostava de contemplar as estrelas.
“É
verdade, Was. Devo dar-lhe a razão por mais que isso incomode meu orgulho, o
qual não deveria ter, mas sinto em mim. Mas como posso ouvir tais absurdos?
Sabe, quando olho para cima, sinto que lá reside meu verdadeiro lar, onde meu verdadeiro
“eu” é aceito. Sei que desdenham e debocham de mim por ser quem sou.” E
subitamente seu olhar adoçou ao repousar em mim. “Mas você, não sei por que, é
diferente.”
“Alguns
dizem que sou o feminino que falta em você”, falei, fazendo-nos rir. “E eu
agradeço, portanto, porque isso nos completa. Mas não lhes dê ouvidos. Acho que
hoje a convocação se tratará dos animais que nos acompanham. Precisaremos das
energias deles se o que ouvi foi verdade.”
Ela
titubeou.
“O
que você ouviu, Was?”
“Que
a tribo nortenha tem interesse em nossas terras”, respondi. “Queira o Grande
Espírito que isso seja inverdade. Me preocupo com os idosos que não têm mais
força para combater e lamento ver que muitos dos nossos se preocupam mais com
glória e imprudência do que outra coisa.”
Yvana
sorriu.
“Você
é a esperança que falta em nossa tribo. Mas não me faça o favor de voltar para
nossa casa”, ela apontou para os céus outra vez, “sem a mim ao seu lado”.
Tomei
a sua mão na minha por um instante e retribuí o sorriso.
“Acredito
que nossa missão aqui é mais longa do que gostaria, minha cara.”
Não
sentíamos a nossa idade, portando-nos como deveras velhos para aquela
juventude. Tal era o julgamento que repousava em nós. Mas isso era necessário
como descobriríamos mais à tarde. Depois de termos pescado, regressamos à tribo
sem maiores problemas. Atravessamos as copas, cumprimentamos algumas aves que
voavam em nosso caminho, mostrando-nos a trilha sem que nos perdêssemos.
O
dia transcorreu com cada um em seu treinamento e deveres tribais a serem
cumpridos. A reunião eventualmente chegou e todos nós, sem distinção, nos
aglomeramos ao redor do chefe tribal. Uma grande fogueira era alimentada e,
enquanto ele ocupava uma espécie de banquinho, nós sentávamos na terra. Em seus
trajes típicos da posição que ocupava, com um coca de penas brancas da águia
careca, ele fumava seu cachimbo, olhos semicerrados, em estado de contemplação.
Enquanto isso, tambores eram tocados e muitos de nós cantávamos. Mas o silêncio
não tardaria a se impor entre nós. A lua cheia brilhava alto quando ele falou:
“Boa
noite a todos. O tempo de sangue se aproxima e é preciso que nos prepararemos.
Mas hoje viemos contemplar os ensinamentos que o Grande Espírito vêm trazer
mediante a sabedoria animal que buscamos invocar.” Ele tragou uma vez mais seu
cachimbo e levantou. Nós o encarávamos em quase estado de transe.
“Há
muitos e muitos séculos atrás, deixamos nossa morada em Sírius. A soberba, a
ira, tudo aquilo que canaliza o excesso e que nos distancia da bondade Daquele
que nos Reina, e a quem devemos obediência, nos trouxe aqui. Passamos a
entender que nada nos pertence, nem este corpo, cujo espírito habita e logo
mais sairá dele. Quanto mais cedo entendermos que o apego é inútil, tanto
melhor.”
O
cacique fez uma pausa para olhar cada um, como se buscasse algo nas almas de
seus companheiros.
“Não
estou isento de erros. Se assim fosse, creio que outro estaria em meu lugar.
Sendo assim, por mais que tenha me esforçado em liderar uma vida menos
animalesca, sinto que meus esforços foram inúteis. Aqui não é como lá em cima. Aqui,
a belicosidade persiste. Paira sobre nós um grande teste. E, infelizmente, a
nossa sobrevivência está em cheque. Hoje, porém, pedimos por orientação.
Sirius, o Lobo, rogamos a ti que nos oriente. Cada um de vocês, homens e
mulheres, velhos e jovens, sentirão dentro de si a resposta para nossas
inquietações. E nela, tentaremos almejar o equilíbrio necessário para o dia
sangrento que foi anunciado semana passada.”
Fez
uma pausa. Voltou para o seu banquinho de madeira, sentou-se. O silêncio
reinava absoluto. Ele logo mais se abaixou, pegou um punhado de ervas e
mergulho em água quente. Misturou, misturou, misturou e depois passou para o
segundo mais velho da tribo.
“Beba
somente um gole e passe aos outros.”
Em
seguida, levantou-se e, com o cajado em mãos, proclamou:
“Clamamos
por ti, oh Grande Espírito! Mostre-nos o caminho que devemos percorrer! Tenha
misericórdia por nós, Espíritos do Lobo sofredores e perdidos em nossa jornada!
Não nos deixe cair na tentação sangrenta que nos ameaça! Salve-nos de todo mal!”
Tambores
foram ouvidos. Mas o som me pareceu distante depois que ingeri a mistura de
ervas. Tudo ficou confuso. O barulho, vozes, uivos... Sim. Uivos. Vi diante de
mim, com os olhos fechados, a figura de um lobo completamente branco.
Mostrava-me os dentes. Mas ao seu lado, caía no chão um urso. Sangrava.
Senti
um torpor me abalar. Meu espírito abandonava a casca. O lobo rosnava. O uivo
pranteava. O que aquilo significava? Quase entrei em pânico. Até que um velho
veio diante de mim. Parou entre os dois animais e me encarou. Seu rosto
enrugado estava pintado de branco e sobre a cabeça a máscara de uma águia.
Segurava um cajado. Disse:
“Wasislau,
a inércia não é para você. Há sabedoria e experiência. Caminha em direção ao
Grande Criador no equilíbrio que se esforça em alcançar. Mas ainda há
desequilíbrio em sua alma.” Apontou para o urso caído. “Sabe o que significa?
Que parte sua precisa de recomposição. O Urso é força, lar, cuidado, casa. Sua
origem repousa em Ursa Maior. Mas o egoísmo foi sua queda fatal. Não demorará a
encontrar sua redenção. Mas precisa fazer mais pela tribo. O Lobo está
agressivo porque também está ferido. Engole demais seus sentimentos em prol dos
outros. Não confia no que dizem a você, é desconfiado tanto que prefere a
solidão. Mas o momento que chega o impele aos outros. Erga o urso, acalme o
lobo. É o que digo.”
“Quem
é você?”, inquiri assustado.
O
velho sorriu.
“Que
te importa quem eu sou, jovem? O que importa é a mensagem. Alimente seus
animais à luz do Grande Espírito. Assim é que as sombras se dissiparão. Não
almeje a perfeição nem os aplausos alheios. O embate é inevitável. Seu lobo
derrotou o seu urso. Mas não é assim que se chega a uma vitória. O eclipse
virá. Mas que lado tomará?”
Eram
enigmas que eu não compreendia. Mas uma última mensagem mudaria tudo.
“E
antes de regressar à casa, recorde uma última coisa. Confie mais. Questione
menos. Será mais útil a sua tribo se seguir seu coração.”
E
sua presença se dissipou. Quando voltei a mim, estava tonto. O som era
insuportável, e eu parecia sentir tudo nos extremos. Quando percebi, vomitava. Yvana
me acolhia e um de meus irmãos me segurava. Mas o cacique pediu que me
deixassem sem nenhum auxílio. Sorriu e disse:
“Eis
o nosso escolhido! Eis o nosso guerreiro!”
Lancei
meu olhar ao cacique, sem entender nada. Estava assustado. Nosso líder se
ajoelhou e disse, com um sorriso no rosto:
“Falaram
com você, não foi? Sirius reside em você, menino. E caberá a você cumprir a
tarefa que lhe darei.”
E
meu destino foi selado.
A
primeira invasão veio cerca de luas minguantes depois da convocação do cacique.
Mas antes dela, a tribo em si estava tensa. Eu não era exceção. Aquele dia
mexeu muito comigo e o sonho continuava a me perturbar. Yvana reparou que isso
chegou ao ponto de modificar minhas atitudes e minguar meu humor.
“Você
não me disse o que aconteceu com você naquela reunião. Que animais você viu?”
Ela
soava ansiosa.
“Não
estou muito interessado em ter esta conversa”, retruquei, dispensando sua
preocupação.
O
jovem orgulhoso ainda fazia morada em meu coração. Não se tratava, como se
poderia supor, de glórias a serem alcançadas na guerra a seguir. Muito pelo
contrário, me sentia inseguro e incapaz de desempenhar o papel de liderar os
guerreiros como me predisse o cacique. Minha alma queria fugir, esquivar-se do
dever e se esconder. No entanto, sempre que aquela sensação surgia, lembrava
das palavras do velho. E comecei a me isolar, tal qual o lobo ferido que se
distancia da matilha.
Sim,
meus leitores, o orgulho também se dissimula na insegurança. Quando não
confiamos em nós mesmos, nos recusamos a ceder espaço para a razão. Deixamos
que as tarefas sejam apropriadas por outros e nos colocamos como vítimas a todo
instante. Não tomamos o papel de protagonistas por medo de falhar, por crer na
inferioridade de si mesmo.
Não
à toa afastei Yvana de mim. E ela, por outro lado, se viu obrigada a recorrer
ao cacique. Segundo ela me contou, eles tiveram a seguinte conversa.
“Ele
está sendo teimoso de novo”.
O
cacique estava cercado de anciãos, monitorando seu trabalho quando ela se
aproximou sem esperar convite.
“Ah,
a mocinha impetuosa vem a mim”. Ele sorriu. “Deixe-me dizer uma coisa a respeito
de Wasilau. Ele está em uma jornada de autodescoberta. Por muitos séculos,
viveu à sombra de outros, obedecendo à autoridade alheia, que, em verdade,
massacrava seu potencial de crescimento espiritual. Consequentemente, o que
você chama de teimosia, chamo de orgulho. Ele se acostumou à zona de conforto.
É por isso que o coloquei como líder de nossos guerreiros.”
“Oh!”
Yvana não sabia disso. “O senhor deu a Was tal papel?”
“Sim.
E por que isso deveria surpreendê-la?”
Ela
teve a decência de ruborizar.
“Não
me surpreende, senhor. Mas... Mas por que ele tem agido tão estranho?”
“Porque
romper a zona de conforto é a principal brecha que quebra velhos paradigmas e
faz dali nascer o novo. Já ouviu falar da fênix? Há um conto em nossa tribo que
é transmitida de geração a geração. Um dos primeiros Sirianos que habitou à
Terra jurou ouvir um chamado para desvendar as densas matas. Acreditando estar
em um jardim divino, ele se deparou com uma criatura mítica. Na verdade, era
uma ave gigantesca. Mas ela estava muito machucada. Tinha se queimado. A ferida
que habita nos animais traz à tona sangramentos que os torna ferozes e
desconfiados. O siriano sabia disso, mas teve paciência. Ele faria aquela ave
renascer das cinzas.”
“E
como ele fez isso?”
O
cacique lhe sorriu.
“Curando
a ave. Apagou o restante do incêndio que cercava aquele animal, ganhando, assim,
sua confiança. Em seguida, com o conhecimento medicinal que tinha, fez da ave
uma nova. Chamou-a de fênix por sua pelugem vermelha. Mas sabemos que tais
criaturas não habitam este plano.”
Yvana
tornou a ponderar a respeito desta história, mas enquanto refletia, o cacique
prosseguiu.
“A
natureza é o caminho correto que nos eleva, minha filha. Por muito tempo,
admito que não a compreendia. Achava que as energias não se mesclavam, mas fui
tolo em minhas concepções. No final das contas, todos nós, sem exceção,
possuímos papeis a desempenhar na vida. Os animais mostram isso a nós”. Ele
parou e a encarou com aqueles grandes olhos acinzentados. “O leão que está em
você ruge a tal ponto que dissimula a doçura trazida pela ursa. E seu parceiro
também o urso como lado feminino. Não deixe que as diferenças interfiram no
plano que vocês traçaram juntos. Ele precisará muito de você, Yvana. Tal como
você precisará dele.”
Ela
engoliu em seco, mas assentiu. Era impetuosa e orgulhosa, mas leal e bondosa.
Sabia onde seu coração repousava. Levantava-se, como se inspirada por estranha
força a movê-la de volta a me encontrar, mas o cacique a chamou uma vez mais.
“Não
sei se sobreviveremos a isso”, disse o cacique, soando mais triste do que
pretendia. “Mas lembre-se de uma coisa, Yvana. Fugir de conflitos que não são
seus não a faz covarde. O leão, muitas das vezes, não invade o território dos hipopótamos,
por exemplo. Ele procura sua caça em outros lugares e sequer se intromete nas
brigas entre as hienas.”
Yvana
ponderou por uns instantes antes de dizer:
“Sou
muito impetuosa, não é mesmo?”
Nosso
chefe riu.
“Muitos
jovens trazem esse desafio. Há um guerreiro que vive em você, mas precisa
domesticá-lo. Lembre-se do equilíbrio. Esta é uma adversidade que, seja nesta
ou outra vida, precisa ser vencida.”
“Farei
o meu melhor”, ela prometeu.
“Sei
que sim. O esforço é significativo, diz que a alma já despertou. Agora vá.
Wasilau precisa de você.”
E
assim ela correu de volta. Eu me achava nas altas pedreiras, tomado de uma melancolia
inexplicável.
“Aí
está você”, disse-me ela, sentando-se ao meu lado. “Continua rabugento, Was?”
De
má vontade, ri. Via verdade naquela acusação certeira.
“Só
estou sendo...”
“...orgulho
e obstinado.” Yvana sorriu como se entendesse. E me contou em detalhes sobre
seu encontro com o cacique, o que me deixou mais propenso a uma profunda
reflexão.
Lembrando
do velho que me visitou quando tomei o chá no dia da convocação da tribo,
pensei muito no que tinha dito sobre o urso ferido. E, de fato, eu nunca fui o
mais social dos homens. Nem com minha família era perto. A única que venceu
minha barreira foi Yvana. Por que eu duvidava tanto de mim?
Foi
a pergunta que deixei escapar em voz alta. Yvana tomou minha mão na dela e
respondeu:
“Você
duvida de si porque tem medo do erro, de falhar. E quando isso acontece, se
fecha em torno de si mesmo. Isso não é viver, Was. Acertos e erros nos
fortalecem. Seu Urso está ferido porque você perdeu a confiança em si. É quase
uma automutilação. Por que isso? Por que as pessoas o subestimam? Prove-os que
está errado. E morra tentando se necessário. Não se trata mais de você, mas da
tribo.” E ela colocou a mão sobre meu peito. “Há coragem dentro de você. Mas
para resgatá-la, será preciso enfrentar suas inseguranças. Não é o momento de
ser orgulhoso.”
“Às
vezes”, deixei-me colocar para fora o que me feria por dentro, “sinto que não
sou o suficiente.”
Enquanto
conversávamos, as estrelas brotavam no céu e a lua nascia. Yvana fez-me encarar
o novo cenário que surgia diante de nossos olhos.
“Veja
a Mãe Lua. Hoje, está cheia. Sinta-a banhar em seu ser. Ela o acolherá. Você
basta para ela, para o Pai, para mim. Sua família o ama. Sei que é difícil se
curar, mas é um siriano. Somos fortes. Não esqueça disso, da sua herança
espiritual.”
E
como se para me encorajar ainda mais, depositou sobre meus lábios um beijo doce
que eu prontamente retribuí com outro. Mais tarde, quando dormia em seus
braços, meu espírito foi convocado a sair do corpo e levado diretamente de
volta a um planeta onde o céu era laranja e o sol tinha um aspecto quase
esverdeado. Tudo era tão diferente daquilo que eu vivenciava. Experimentei a
saudade, pois ali era meu verdadeiro lar. Pranteei. E o velho de antes me
apareceu, embora em vestes brancas.
“Saudações,
meu caro Wasilau. Como é bom vê-lo outra vez. Está contente em ver de volta seu
lar, presumo.”
Soltei
um soluço.
“Ora”,
ele sorriu e apertou meu ombro com gentileza. “Por que o pranto? Eis aqui a misericórdia
do Grande Espírito. Está prosseguindo ao ponto de rever a casa que deixou. Em determinado
momento, poderá reavê-la. Mas para isso é preciso que enfrente os desafios,
alguns dos quais, no entanto, demorarão pequeno número de encarnações para
removê-los dependendo de como lidar com eles no presente.”
“Não
estou em posição de reclamar sobre isso”, respondi, ainda soando melancólico. “Foi
por merecimento que vim à Terra.”
“De
fato foi. Não preciso enumerar os erros pretéritos que ecoam no seu presente,
mas veja bem, filho, por que se concentrar no que não pode ser mudado? Olhe
para o agora, veja quanto seu esforço tem lhe dado frutos! Muitos acham que a
cura é rápida. Basta um chá, encontrar seus espíritos animais e, ao voltar à
carne, vivem como se uma vida fosse o suficiente. Não é assim que funciona.
Mudar dói. Romper consigo mesmo dói. Olhar para as feridas e suas causas
passadas, dói. Mas eu o pergunto: não valeu a pena? Está aqui, não está?”
Procurei
absorver aquelas palavras, refletindo sobre as mesmas.
“Tantas
perguntas, não sei nem por onde começar. Mas devo admitir que, apesar da Terra
ser um planeta de provas e expiações, me considero muito afortunado por residir
nela. Não sei se seguiria aprendendo o que aprendi se permanecesse em Sirius.”
E ousei sorrir. “Há males que vêm para bem.”
O
velho riu, alegre.
“Viu
como aprendeu? Abrace sua essência divina, meu filho. A cura não vem rápido,
mas se estiver disposto, poderá acelerá-la.”
Assenti
com a cabeça, compreendendo.
“Gostaria
de saber apenas uma coisa. Terei sucesso no dever que o cacique me passou?”
“Isso
só depende de você, Wasilau. Mas não esqueça disso: não está só. E eu, junto
com seus outros guias, o amamos do jeito que é.”
E
foi assim que me senti mais encorajado a lidar com os obstáculos que,
inevitavelmente, foram postos no meu caminho. A primeira invasão resultou em vitória
para a minha tribo, mas o destino quis que não durássemos por mais tempo. Yvana
e eu não passaríamos dos vinte anos. Nossa tribo não deixaria registros para a
História humana. Muitos de nós pereceram sob a lança do inimigo do norte,
enquanto os poucos que sobreviveram à guerra fugiram e se inseriram às outras
tribos, produzindo tantas mais que, no curso da História, enfrentariam os
homens dito “brancos”.
No
final das contas, reencarnei em outra tribo, desta vez no Brasil, entre os
guapimirins. A cura, como foi-me dito, é um processo que depende mais da
vontade do espírito em se aprimorar do que outros. Olhar para si mesmo requer
coragem e ousadia, pois se trata de sair da zona de conforto e ver que não
somos vítimas ou algozes, mas espíritos com uma longa caminhada, trazendo
bagagem que contempla o progresso das luzes e a estagnação das trevas. Nem
sempre é um processo bonito e florido. Mas é necessário para aquele que decide
adensar as matas de si mesmo a fim de encontrar a luz. E o mais importante
disto tudo é saber que não estamos desamparados. Nenhum filho que faz longa
jornada sai desacompanhado. O Pai e a Mãe, Uno no Grande Espírito, nos ama e
não nos lega ao abandono.
Eis
aqui o que aprendi vivendo neste planeta que tanto amo e prezo. Agradeço pela
oportunidade de me fazer ouvir. Que o Grande Espirito os acompanhe hoje e
sempre. Ahô! -Wasilau."