terça-feira, 11 de agosto de 2020

Contos Medievais, Romance II: Heloísa e Lucius.

[Nota do guia de Ogum: "Sejam bem-vindos novamente a este espaço de caridade, prezados leitores. Conforme apresentado no conto anterior, estamos levando a cabo a tarefa de auxiliar espíritos ainda "presos" aos tempos medievais de alguma maneira e que desejam se desassociar dos últimos resquícios que os prendem às memórias que alguns se voluntariaram para psicografar. Afinal, sabemos que o apego à matéria constitui relativa dificuldade, pois depende do esclarecimento da entidade, ao avanço moral e espiritual. Todos os contos, como deveis saber, trazem variados ensinamentos, tanto para vós que lestes  quanto aos que ditam a memória. Hoje, somos levados à transição do século XIII para o XIV em um local que para muitos de vós permanece desconhecido, a Hungria. A entidade que hoje vem contar sua história de amor neste tempo se chama Heloísa, e vale lembrar que, neste exercício, esclarecerei segundo for necessário em alguns pontos. No mais, desejo a vós uma gratificante leitura e que o Pai vos acompanhe sempre! George."

"Hungria, 1300.

Nasci em tempos distantes de vós. Hungria era um reino que, entre idas e vindas de guerras civis, nasceu sobre o sangue que, a custo, o elevou à independência de outros reinos poderosos. Entretanto, a situação caótica permanecia sob a ilusão de pacificação da parte dos nobres senhores. Corrompidos pelo poder, maquinavam o destino daqueles que deles dependiam segundo suas vontades. E, no entanto, havia espaço para o surgimento da felicidade e da simplicidade, por breves que pudessem ser. Neste contexto histórico marcado por tensões políticas e sociais, encarnei em uma família pobre e simples, iletrada e sem quaisquer conhecimentos complexos sobre a vida. Tudo o que meu pai, minha mãe e meus quatro irmãos conheciam dizia respeito à vida rural e jamais trazer sobre nós a ira dos senhores de quem dependíamos. 

Na realidade, minha vida em nada teve de extraordinário que pudesse alterar a existência dos poderosos de outrora ou mesmo de minha família. Ainda assim, porém, foi uma experiência gratificante que muito me auxiliou em tantas e tantas outras coisas que carreguei de vidas pregressas. Nesse sentido, pude dar valor ao labor físico e espiritual, a aceitar a vida como ela é e, como não somos jamais desamparados pelo Pai Maior, assim foi que obtive um grande presente: o meu amor Lucius. Mas não vamos adiantar a narrativa.

Como falei, nasci em 1300, na vida rural de Buda, até então capital do novo reino chamado de Hungria. Minha mãe era uma camponesa chamada Atalante e meu pai, Sérgio. Embora batizados na Igreja Católica, suas crenças mais os aproximavam da antiga religião popular do que à formalizada e institucionalizada pelo bispo de Roma. Isso se dava porque as missas eram muito difíceis de serem entendidas em si. Como nem um nem outro estavam capacitados para a leitura, não entediam os panfletos distribuídos por parte do clero que ainda se preocupava com o populacho. Que dizer do latim, idioma mundial que era dominado tanto pela Igreja quanto pelos nobres? Tal língua não era sequer acessível às pessoas no geral. Embora acreditassem no que lhes fosse dito, não havia como culpá-los por ver que determinado santo não detinha eficaz e acabasse encontrando solução na deidade dos rios, que, ao contrário, era muito mais rápida em resolver as incontáveis problemáticas pelas quais passaram meus pais em suas juventudes. 

Não obstante a ignorância característica daqueles que compunham a "base" de uma sociedade estamental, permanecia em seus espíritos a elucidação dos ensinamentos crísticos. Sabiam, compreendiam e aplicavam cotidianamente a compaixão, a empatia, a misericórdia e o amor ao próximo. Para meu pai, isto era muito difícil porque sentia-se testado a todo momento. Quando desposou minha mãe, ambos eram jovens e no auge de suas belezas terrenas. No entanto, era costume da época que o senhor das terras guardasse o leito matrimonial. Meu pai nunca perdoou por não ter sido ele a consumar o casamento e o trauma imposto a eles pelo nobre a quem deviam responder autoridade, dificultou a aproximação de marido e mulher. Enquanto minha mãe encontrava o bálsamos para suas feridas nas santas locais, meu pai seguia o caminho oposto e quase se afundou na estrada da vingança. Quando Hungria sangrou por aqueles que deviam protegê-la, ele prontamente seguiu o caminho belicoso que lhe era natural da alma. Afinal, em outra existência tinha sido ele também um guerreiro, embora próximo do imperador (e não me cabe dizer quem fora este) a ponto de ter igualmente usufruído de maneira negativa do poder em mãos, o que explica em parte a provação desta existência.

No entanto, para encurtar a longa história, os dois souberam se reencontrar e se perdoar. Foi um momento significativo, permitindo que chagas pretéritas enfim se limpassem, dando espaço para o surgimento do amor puro. Desta união, nasceram Hugo, Bonifácio, João e eu, Heloísa, a única menina dentre rapazes. Meu irmão mais velho, Hugo, contava que meu nascimento havia sido um desapontamento para o pai porque como poderia eu passar pelo que ele havia passado com nossa mãe? Esperava, porém, ter que me enviar ao convento, o que minha mãe prontamente concordou. Mas, como sabemos, a vida não segue nossos planos terrenos, mas os espirituais.

Assim sendo, cresci sem dar qualquer importância ao destino que meus pais haviam tecido para mim. Brincava com meus irmãos quando não estava auxiliando nossa mãe a costurar, rezar e outros assuntos domésticos que caíam nas mãos femininas. Embora simples e insignificante para os observadores externos, nossa vida em família era amorosa. Éramos todos próximos, a despeito das ambições sem ilimites de Hugo, que recordo ter preocupado nossa mãe por um tempo. Hugo, o primogênito, era alto e forte, de cabelos castanhos curtos e mal cuidados e olhos de mesma cor que guardavam sombras incógnitas de um passado esquecido. Era temperamental e não aceitava sua condição de servo. Custava muito ao pai impedir-lhe de entrar em confusões com os vizinhos, mas quando todos nós passamos da puberdade, foi aí que se decaiu. 

Hugo se envolveu com uma das empregadas da casa do senhor a quem devíamos obediência e fidelidade. Quando foi descoberto... Ah, que inconsequências trouxe a nós todos! Nosso pai foi punido com chibatadas por ter falhado em criar o primogênito adequadamente nos costumes cristãos, embora a realidade fosse mais dura. O senhor não tolerava relacionamentos impuros e por isso prontamente levou Hugo junto ao seu exército para auxiliar o rei Carlos na guerra civil que, novamente, estourou em nosso país. Foram dias atormentados. Hugo regressou depois de alguns meses completamente transformado, embora depressivo. Nossos pais não sabiam o que fazer com ele, mas havia pouco a ser feito porque, em seguida, foram todos os homens, com exceção a João que contava quinze anos, convocados para servir numa guerra que não nos competia lutar.

Nossa mãe padeceu de amargura com isso. Ela que nunca se revoltava com a vida, um dia expressou seus descontentamentos através de infindáveis correntes lagrimosas. João e eu nos esforçamos para consolá-la, mas com muito pouco sucesso. Afinal, a guerra não parecia ter fim e até então estávamos agradecidos por não termos sido envolvidos naquele conflito bestial. Mas me recordo de ter sido abençoada com uma inspiração divina quando falei à nossa mãe:

"Tenha força, mamãe. Vamos nos resignar na fé em Cristo. Nada disso é permanente, confia que tudo passará."

Tocada pelas palavras ditas, ela levantou aqueles olhos azuis, os mesmos que os meus, e disse:

"É de um coração nobre e puro, fidelíssimo ao nosso senhor, filha. Ah, e como isto transparece em sua beleza! Mas que seja, ignore os pensamentos desta velha mãe que carrega incontáveis preocupações na mente!"

João, de natureza introspectiva e mais ligada à Igreja que todos nós em conjunto, possuidor de bela alma e ainda mais alta consciência, ecoou minha fala ao dizer:

"Ora, mamãe. Não deveríamos nos regozijar por podermos passar por tudo isso de cabeça erguida? Se formos olhar para tudo o que nós passarmos, verá que sucedemos a infinitas enfermidades e não fomos tirados de seu seio materno para regressar ao lar de Deus antes do tempo."

A isto, mamãe secou as lágrimas e nos abraçou. A mortalidade infantil era alta e, não muito tempo antes, a peste havia ceifado as vidas dos mais jovens. Quase todos os que eu conhecia partiram e também os conhecidos de João se foram. Poderia-se pensar que estávamos isolados, se não abandonados, mas concluir desta maneira seria rebelar-se contra os desígnios de Deus. Assim foi a réplica de nossa mãe, compreensiva do ensinamento não proferido:

"Sou muito afortunada por ter todos os meus filhos queridos perto de mim, e que papai do Céu tenha permitido que você, Heloísa, ao lado de João, esteja comigo nestes tempos difíceis. Perdoem a velha mãe que tem nada se não a mesma preocupação com toda a família!"

João sorriu e, inclinando-se para mais perto da mãe, depositou um beijo sobre sua testa e disse:

"Não tema, mamãe. Jamais a abandonaríamos e tampouco poderíamos culpá-la por emular Maria em toda a sua vida."

Afinal, em meio à escuridão que nos cercava, havíamos acendido a luz que, embora pequenina, reforçava a esperança interna e resignação dentro de cada um de nós.

*                                                                              *                                                                               *

Por motivos que não me compete desenrolar aqui, Hugo desencarnou, deixando vago, assim, o cargo de herdeiro do pai para nosso próximo irmão, Bonifácio. A guerra transformou profundamente cada um de nós, e todos lamentávamos a ausência de Hugo a cada noite. Para piorar, a seca veio a seguir e afetou nossas plantações. No entanto, coube a João não deixar que fôssemos desestimulados por um cenário tão agradável. 

Apesar disto, papai cada vez mais se preocupava comigo. Não era mais uma moçoila de doze anos e ignorante do mundo, mas, tendo sangrado aos quatorze, era uma mulher feita. Estava em idade de casar e não nego que a perspectiva de ter uma família tal qual meus pais tiveram me animava. Entretanto, ao mesmo tempo temia ter de compartilhar a primeira noite com o nobre senhor que ainda vivia e, segundo se dizia, vestia-se mal e nunca se limpava, não obstante o ouro que esplandecia seus palácios. Esta perspectiva me atormentava, visto que, como camponesa, reconhecia que não havia como lutar contra isto. Até que um dia, a antiga solução foi anunciada logo nas primeiras horas da aurora.

"Filha minha, preciso dizer que eu e sua mãe vínhamos pensando sobre seu destino", disse o velho Sérgio com olhos carregados de lamento que, antes mesmo do anúncio, inundaram-me de pesar. Papai, apesar da vida que carregava nos ombros, costumava sorrir aos céus e brindar a todas às deidades. Uma vez, chegou mesmo a me dizer que o Pai não era egoísta a ponto de manter para si o próprio culto. Do contrário, afirmou ele, por que teria permitido a criação de outras deidades que nada mais eram se não santos sob outros nomes? Era grato e sabia a quem dirigir a prece, porém, dizia papai, não podemos incomodar o Criador com besteiras cotidianas, não é mesmo? Assim é que seu bom humor manifestava-se sempre nos olhos, a janela da alma. Era sábio e resignado, apesar das tragédias pelas quais passou. 

"Pois diga, papai. Em que posso ser útil?" indaguei, imaginando se tudo aquilo se referia ao assunto do casamento. 

Mamãe, que estava sentada ao meu lado direito, acariciou meus longos cabelos cacheados, que à luz do sol pareciam resplandecer para a cor do mel. Em seguida, fez o mesmo com minhas bochechas rosadas e disse:

"Enviaremos-na para seguir vida na Igreja, filha. Sei que desejava ter sua própria família, mas..." Ela deixou no ar aquilo que não conseguia dizer.

Engoli em seco, compreendendo seus temores ao mesmo tempo em que lamentava por uma vida que, pensava eu, não teria. 

"Como João deseja servir à ordem franciscana, por que não também acompanhá-lo?" Disse o pai, fingindo animação.

Foi quando João, sinceramente alegre, exclamou:

"Eis o chamado do Senhor, a fim de tirar-nos de miserável infelicidade mundana!"

Embora devotos, nenhum de nós compartilhava sua empolgação. Mas aquiesci e não reclamei, sabendo que era melhor que assim fosse do que ser violada por um homem que, por possuir riquezas, acreditava-se dono de todos nós. Assim, as preparações para a partida deram início e mamãe informou que já havia recebido a permissão do padre para que fosse enviada à ordem cisteciense. Como viria a saber, era uma ordem religiosa voltada para a prática da oração e da caridade, embora bastante rígida e enclausurada. Os abades separaram segundo os sexos, evitando, desta forma, qualquer interação feminina e masculina. Ela foi trazida à Hungria pelos monges desta ordem que acompanharam o rei Carlos quando ele veio clamar o trono húngaro pela via materna depois de ter sido deserdado pelo avô francês.

Com isso, partimos eu e meu irmão na primeira oportunidade e com a vaga sensação de que nossos pais não consultaram os nobres senhores sobre o destino de seus filhos. Pensando nisso, me virei para João e o monge que nos acompanhava e indaguei:

"Por que o senhor nos trata como objetos?"

"Que senhor?" Indagou João. 

Montávamos em um burro enquanto o monge chamado Antonius seguia caminhando à pé e descalço.

"Ora o poderoso dono das terras de quem somos vassalos", falei.

"Ah." João deu de ombros. "É a ordem da vida."

Não pude deixar de me indagar, tola como era, se aquela ordem havia sido instigada por Deus e por que cargas d'água havia permitido isso. Observando meu silêncio e, suspeito eu, a revolta por trás dos meus olhos, meu irmão acrescentou:

"Os ricos precisam dos pobres, irmã. Não sabe disso?"

"Não ignoro", comentei. "Mas acho injusto que eles vivem uma vida montada em luxo quando abominam o trabalho, e disto nós o fazemos sem, com isso, usufruirmos qualquer benefício disto".

João arqueou as sobrancelhas.

"O labor é feito de várias maneiras, não somente destas que nós nos tornamos familiarizados. Ademais, que bem traz ao homem o luxo? Não vê que os senhores acreditam-se superiores em tudo por causa disto? Se assim o são, motivo há para sê-lo e não nos compete indagar a este respeito. Dê graças ao Pai por não repetir o destino de nossa mãe."

Enrubesci e me aquietei, desviando o olhar para a natureza selvagem que nos cercava conforme adentrávamos a estrada que cruzava os bosques. João talvez tivesse razão e eu silenciei meus pensamentos revoltosos da mesma maneira como havia feito com o instinto maternal que aflorava quando sonhava com a família que, daquele instante em diante, não teria. Isto me faria revoltosa por não ter dado o consentimento àquela empreitada, mas que poderia eu fazer?

Lembrando das palavras de meu irmão, agradeci. Naquela noite, quando paramos perto de uma taverna, o monge veio ter comigo uma palavra:

"Sinto que a senhorita não está convencida de que seu destino repouse no convento."

Enrubesci.

"Está tão evidente em minhas faces a indignação, senhor?"

Ele me sorriu. Era um senhor bondoso de ordem franciscana, possuidor de olhos azuis com os céus e cabelos tosados ao redor da cabeça, expondo, desta maneira, a parte alta da cabeça. Usava trajes marrons e simples, e seus pés haviam muito se acostumado com a ausência de quaisquer pares que pudessem confortar suas solas dos perigos das estradas.

"Não a julgo. É um destino que apetece a poucas, mas tudo na vida há um propósito mesmo que não possamos ver agora", predisse ele. "Confie seu coração a Deus e não se entregue à tristeza rapidamente. Sei que em algumas ordens é possível se manter noviça até a preparação para ser freira. Não é de imediato que isto ocorre. Fique tranquila."

Agradeci o conforto de suas palavras que acalentaram meu coração. Entretanto, me senti irrequieta antes de dormir. Muitas indagações pesavam o peito e enchiam a mente de conjecturas sobre as quais nenhum controle possuía. Desejava eu controlar meu destino, ao mesmo tempo em que, reconhecia, devia dar graças ao Pai por ele.

Na manhã seguinte, porém, determinei a mudar meus espíritos sobre a nova situação. Era quase como se houvesse guardado em mim a intuição de que minha vida melhoraria significantemente depois de duras provações sofridas ao longo dos anos. Em verdade, leitor, admito que naquela madrugada, meu espírito se havia desprendido e, tendo reencontrado os bondosos espíritos que me mentoreavam do plano espiritual, soube que em breve o bálsamo para minhas dores chegaria a mim. O amor pré-destinado tão logo seria encontrado. No entanto, era preciso que me esquecesse a fim de que isso não influenciasse qualquer decisão tomada ao curso daqueles dias.

[Nota de Ogum: "É mais comum do que se pensa estes reencontros 'fora do corpo' no instante em que os sujeitos se põem a dormir. Chico Xavier e Allan Kardec já debateram bastante sobre este assunto, assim como outros autores espiritualistas. O que determina para onde o espírito vai e quem encontrará, é a consciência desta entidade. Não se trata de que nível de 'perfeição' estamos pensando, mas o que habita em nossos corações e motiva nossos atos cotidianos. Se é a bondade, ainda que 'imperfeita', que impera, logo mais é ela que os aproxima dos mentores. Do contrário, as distanciaria. E ainda assim os mentores espirituais nunca se afastam completamente daqueles que vêm proteger e guiar. Recomendo aos interessados as leituras das obras de André Luiz que refletem bastante estes encontros entre mentores e seus protegidos. No mais, voltando em particular a esta menção que a entidade aqui trouxe, seu encontro, ou melhor dizendo, reencontro com a alma gêmea foi designada antes da reencarnação de cada um. No entanto, dependendo das circunstâncias, antes mesmo deste reencontro físico, pode-se constatar o reencontro espiritual tal qual foi este o caso relatado. Afinal, almas afins que se amam e desejam tanto a reunião, podem concretizá-la ainda espiritualmente segundo as vontades que imperam sobre seus corações e consciências. Como falei, se for a bondade que ordena as motivações cotidianas, nada impede que isto aconteça... dentro, é claro, dos desígnios de Deus. No mais, tudo ocorre com Sua permissão."] 

A abadessa da ordem veio logo me receber somente para trocar breves palavras com o monge. Dali, me deixou aos cuidados de seu braço direito, uma freira chamada Stephanie, que aguardou minha presença no momento em que eu me despedi de João. Não sabia, mas não nos veríamos nunca mais.

"Que Deus o acompanhe, meus irmãos", falei, emocionada, tanto a ele quanto ao monge franciscano. "Obrigada por tudo."

João sorriu e eu pude ver um halo de luz ao redor de sua cabeça. Com esforço, engoli as lágrimas e em silêncio abençoei-o e agradeci ao Pai outra vez mais por nos ter feito irmãos e tão próximos!

"A você também, irmã. Guardarei-a em minhas preces sempre", ele disse, inclinando-se para depositar um beijo sobre minha testa.

"Deus a proteja, menina!" Disse o monge de sorriso amarelo, cujos olhos refletiam a alegria dos céus sem nuvens. 

E com isso, seguimos caminhos diferentes para o restante de nossas vidas.

*                                                                                *                                                                            *

As primeiras semanas na abadia cisterciense foram difíceis de serem apreendidas, admito. Não se tratava, como haviam me informado, de somente rezar e praticar a caridade. Para as recém-chegadas como eu, éramos incumbidas de limpar os vitrais da abadia, verificar o fogo da lareira, varrer e passar pano molhado no chão. No final do mês, já contava bolhas nos dedos.

A freira Stephanie se responsabilizava pelas noviças, por isso, me agrupou a um grupo de jovens pobres, separando-nos daquelas enviadas por famílias mais ricas. Apesar desta segregação, ela se certificava de que o regime estrito da ordem fosse seguido e era natural que nos dirigisse como se fôssemos logo fazer os votos. Neste meio tempo de adaptação, fiz amizade com duas moças de mesma idade, a quem chamarei de Ana e Constança. Eram irmãs que foram enviadas à abadia porque seus pais faltavam o ouro que pudesse pagar pelo dote. A mais jovem delas, Constança, reportou-me com muita tristeza que havia engravidado do seu noivo, segundo me disse. A pobrezinha foi por ele abandonada quando reconheceu que nada dela receberia. E a reputação, mesmo para uma camponesa, era significativa. Com horror, teria sido expulsa de casa se não fosse a excelsa intervenção de Ana. Recordando-os dos destinos das moças sem dote, servir à Igreja era uma excelente solução. Entre conversas aqui e acolá, tudo se resolveu. Ana me confidenciou mesmo que não se interessava de forma alguma em se casar. 

Com o passar do tempo, porém, vi que Ana era a mais sincera devota das duas. Depois que Constança dera luz a um natimorto--para o alívio das freiras, que não sabiam o que fazer caso houvesse nascido uma criança--ela não aprendera a lição e permanecera vivendo na licenciosidade. Isto é, buscou o amor fora de si como forma de revolta por tudo o que lhe havia passado. Na abadia, as línguas ferinas das freiras mais vaidosas a julgavam como prostituta. Mas uma dessas, devo dizer, não hesitou em envolver-se com a mesma pessoa que tanto duramente criticava. Para a surpresa das que a conheciam, o amor sincero floresceu entre Constança e a vaidosa freira a quem chamarei de Agnés. Mas, como podem pensar, todas ignoravam o caso e fingiam que a amizade entre ambas era apenas isso, amizade.

Se por um lado fiquei feliz por Constança ter enfim deixado para trás uma vida material, observando que o amor sincero transformava-a tanto quanto sua parceira, por outro eu me sentia cada vez mais inadequada à freira. Não desejava uma vida de amor, pensava eu, mas uma na qual pudesse criar meus próprios filhos. Queria uma família, mas me sentia culpada por, depois de dois anos, ter permitido que tais pensamentos se enraizassem quando a minha nova vida como freira Joana não permitia. Na verdade, ainda não havia feito meus votos, mas este era o novo nome que me chamavam.

Embora de muitas das freiras houvesse antipatia por ter vindo de uma família de camponeses, e cujo sentimento também originava de existências pretéritas, eu me esforçava por uma vida invisível. Rezava a mais que todas as outras não porque minha devoção era melhor ou mais sincera, mas como forma de apaziguar as inquietudes internas. Embora devota e temente a Deus, ainda conservava instintos mundanos e nenhuma vocação apagaria isto. Ao menos, por enquanto. Mas não reclamava e cada vez mais que as inquietações surgissem, mais eu reforçava as auto-flagelações quando ninguém via e os jejuns. Isto, porém, estava fadado a mudar.

E tudo começou quando, já nos meus dezenove anos e às vésperas de fazer os votos, fui enviada pela recém eleita abadessa Stephanie para ir ao vilarejo próximo e fazer as compras usuais no mercado local. Assim foi que, como de costume em silêncio, fui só. Usava um manto marrom-claro e, para cobrir minhas longas madeixas trançadas, um capuz de semelhante cor. O vilarejo e seu mercado não se situavam tão longe, por isso fui à pé. Calcei minhas sandálias, despedi-me de Ana e segui meu caminho.

Foi precisamente no decorrer da estrada pouco enlamaçada que ouvi uma cantoria. O dono da bela voz cantava assim:

'E quando o sol se pôr, 

Meu amor, assim me vou.

Pois quando sol nascer, 

Afazeres me aguardam para ter.

Não posso quedar mais

Ainda que a volúpia de seu corpo me satisfaz...'

Horrorizada com aqueles versos, eu me virei prontamente para repreender por cantar assim tão perto da abadia. Foi quando me deparei com um rapaz, meio cigano segundo me pareceu, em vestes de camponês. Seus cabelos louros caíam encaracolados pelos ombros, dando ao rosto oval aspecto angelical. Nos olhos azuis escuros, via uma luz, uma alegria contagiante. Seu nariz era longo, embora torto, o que me fez imaginar que deveria ser resultado de uma briga que se envolveu. Os lábios, vermelhos, eram finos e repuxavam-se em um sorriso assim que se deparou com meu franzir de sobrolho.

Carregando em suas mãos o alaúde de outrora, ele parou de dedilhar a melodia assim que me viu e disse:

"Acaso estou a incomodando, senhora freira?"

"Seus versos são impolidos", eu disse, com uma sensação esquisita que me queimava o peito. Senti-me forçada a acrescentar. "E eu não sou freira."

Ainda sorrindo, o músico se aproximou de mim e disse:

"Me parece que é, pelas vestes. E peço desculpas se acaso ofendi seus ouvidos sensíveis."

Não pude deixar de retribuir o sorriso, ainda que de má vontade.

"Está perdoado."

E, no entanto, ele insistiu na conversa.

"Se não é freira, o que é, então?"

Arqueei uma sobrancelha para ele.

"Ora, mas este é um tipo de pergunta que uma criança de cinco anos faria."

"Como saberia dizer que isso assim se realizaria? Não me parece que conhece crianças de cinco anos"< ele retrucou, divertido.

Eu virei o rosto para que não visse o rubor que pintava minhas bochechas pálidas.

"Mas hein? Não poderia me dar uma resposta?" E, como provocação, acrescentou: "Achava que as freiras eram mais educadas."

Irritada, olhei-o e disse:

"Somos educadas com quem merece, e não sou freira, já disse. Sou uma noviça."

O jovem pareceu pensar isso, e eu, que apesar do mal humor, não desejava me desvencilhar dele... Contudo, o orgulho é perigoso venenoso que interfere na verdadeira vontade do coração. Assim foi que eu não falei mais nada.

"Noviça", repetiu ele. "E por que não fez os votos?"

Dei de ombros, recusando a dar uma resposta significativa quando, na verdade, eu estava envergonhada por ele ter me dirigido uma pergunta de cunho tão pessoal. Como isso seria possível? Nem mesmo na abadia, haviam me pressionado daquela forma.

Mais observador do que aparentava ser, ele riu diante de minha expressão fechada. Isso me forçou a encará-lo outra vez. Detestava notar que, mesmo sujo, impressão que me passava, ele parecia tão angelical.

"Não é da sua conta".

"Parece uma jovem forçada a ser enclausurada", ele comentou com certeira constatação. "Se está tão infeliz com sua vida, por que não foge?"

Para minha surpresa, e talvez a dele, eu ri. 

"Ah, ela ri! Achava que seria impossível disto acontecer."

Ignorei-o outra vez, mas aquele era um rapaz muito impertinente para se deixar abater por uma ocasião atípica como daquelas.

"Está bem, está bem", ele cedeu. "Posso ao menos saber seu nome?"

Adentrávamos o vilarejo quando ele fez a pergunta. Parei brevemente somente para encará-lo com as sobrancelhas arqueadas novamente. Limitei-me a respondê-lo friamente.

"Se por educação devo dizer, que seja por Joana. Mas não me procure. Passe bem."

"Não acho que seu nome seja Joana", tornou ele a responder e com uma arrogância que me fez parar meus movimentos. 

"O senhor é muito petulante", observei.

"Não sou. Veja, tenho viajado por bastante tempo e não encontro muitas companhias para conversar."

"Deve ser porque o senhor é chato", eu disse sem perceber que pensava alto.

O rapaz fingiu ter sido ofendido pelo meu comentário mordaz.

"Se assim sou, a senhora não deveria me dar trela. No entanto, suspeito de que seja o primeiro homem, com exceção dos enfadonhos padres, que atrai sua atenção. Do contrário, por que conversaria comigo?"

Bufei, e, ignorando-o, prossegui em minha caminhada rumo ao mercado. Mas, é claro, ele não deixaria passar barato.

"Seu nome verdadeiro, e eu a deixo em paz."

Mas, algo em mim gritava, não queria ser deixada em paz. Outra vez, porém, o orgulho prevaleceu e eu demorei a dar-lhe réplica. No entanto, houve um instante, e não saberia como precisá-lo, em que nossos olhares se encontraram. Foi como se um trovão relampejasse, porque me estarreceu e eu cedi.

"Heloísa".

E ele, compartilhando de mesmo sentimento, me sorriu acalentadoramente. 

"É um belo nome para uma noviça. Meu nome é Lucius, e eu sou um bardo." Mas, assim foi que, como se houvesse ganhado um desafio não-dito pelas partes da conversa, ele fez uma reverência--um tanto dramática--e se foi, deixando-me estupefata.

*                                                                                 *                                                                           *

A verdade era que estava muito incomodada com aquela situação. Havia me acostumado, e até mesmo aceitado, de que não desposaria nem criaria meus próprios filhos. A família que eu tinha era a de minhas irmãs noviças e freiras, e meu noivo era Jesus. Uma concepção um tanto engraçada, já que não éramos filhas Dele?

Bem, como Lucius corretamente pontuara, eu não conhecera muitos homens em minha vida. Quando criança, cercava-me de irmãos bagunceiros e cumprimentava, no amanhecer da juventude, os rapazes vizinhos. De vez em quando ousava um sorriso e uma troca de olhares, mas nada que pudesse desviar-me de meus deveres enquanto filha de minha devota mãe. Em seguida, me familiarizei com o monge Antonius, que me levou até à abadia e quem nunca mais vi. Desde então, se recebíamos qualquer homem naquele local sagrado, eram padres ou homens da Igreja. Pais, quiçá, das moças mais ricas. Já vi mesmo uma delas sair de lá para desposar outro nobre de longínqua região. 

Mas jovens como aquele bardo? Não, não era familiarizada com eles. Sequer considerava sua existência, e não digo de maneira soberba, mas porque eu certamente desconhecia o que era um bardo e que função desempenhava. Se agora o sabia, foi porque as noviças mais nobres contavam para todas as outras de suas vidas na corte do rei Carlos. Lá, diziam, em seu salão dourado, homens das mais diferentes estações competiam entre si pela altamente posição de "poeta da corte". Havia trovadores, que nada mais eram que escritores de romance, poetas, de fato, que escolhiam outros rapazes para declamar seu 'coração partido' para aquela que ocuparia seu coração. Nem sempre estes trovadores remontavam aos amores impossíveis em seus poemas, mas também às batalhas vencidas, aos esforços magnânimos de seus contratantes, no caso, o rei húngaro de origem franco-italiana. 

Recordava-me ainda da freira Agnés contar sobre o trovador apaixonado pela rainha Beatriz, louvando sua beleza e inteligência, e que, para contornar os ciúmes  do rei, evocou suas grandezas militares. Desta maneira, enriqueceu-se a tal ponto que agora havia rumado para a corte francesa. Em meio a tais lembranças, me indagava sobre Lucius enquanto colhia as frutas, verificava os legumes e cumprimentava os vendedores com simpatia. Foi quando o destino me pregou uma peça e, pronto, lá estava ele novamente.

Cuidadosamente, me aproximei da praça onde Lucius, com seu alaúde, dedilhava. Desta vez, saía de seus lábios palavras mais belas do que àquelas que haviam me enfurecido antes de entrar no vilarejo. Assim, cantava ele:

"No alto da colina, 

Existia um castelo de pedras

E foi neste salão em que deixei meu coração.

Lembro-a bem

Da donzela de cabelos dourados

Que me deixou perdidamente apaixonado

Na primeira dança

Bailamos até cansar 

No segundo luar

No meu colo tornou a repousar

E no terceiro solar

As alegrias

Passamos a compartilhar.

Mas naquele salão

Seu pai disse-lhe não

Por que eu pedisse perdão

Por tê-la amado, em vão

Me concedeu 

Permissão para desposá-la

E assim foi que desapareceu

O sorriso que um dia me deu.

Naquele salão,

Fui forçado a ver

A bela dama que jamais poderia ter

Dar seu coração a outro.

Mas este outro agora é 

Um fantasma perdido

Triste e sentido

Atormentou-a várias vezes

Neste mesmo salão

Amou-a em vão.

Neste mesmo salão,

Pranteou a dama em sua escuridão."

Suponho que para o leitor esta canção não o sensibilizará como me sensibilizou, mas a voz dele ao dar vida às tristes letras muito me comoveu. Ao final, todos nós os aplaudimos e eu, esquecendo-me que era uma quase freira e não uma moça mundana, discretamente aplaquei pequenas lágrimas que brotavam de meus olhos.

Lucius sorria a todos, mas não via nele qualquer expressão de arrogância ou presunção tal como havia me cumprimentado. No entanto, quando notou minha presença na multidão, me cedeu um sorriso pretensioso. Revirei os olhos, mas, no instante em que recomeçou a tocar, percebi que permanecia no mesmo lugar.

"Doce senhora, 

Cujo coração me é tão distante de conquistar.

Por breve que seja seu olhar, 

Permita-me te adorar!

Doce senhora, 

A quem antes nunca vi, 

Desejei sumir se somente te perdi!

Doce senhora, 

Que seja difícil de acreditar, 

Mas meu coração pulsa no anseio em te amar!

Doce senhora, 

Não me negue este pedido

Do contrário, estarei perdido

Nas desventuras da Terra!

Não demorou Sir Lancelot a encontrar Guinevere?

Por pior que tenha sido, 

Não mais estava o bom cavaleiro ferido!

Por sua bela e amada dama, 

Frio algum apaziguaria a chama

Que é a do reencontro

De dois amores de pronto.

Oh, doce senhora!

O hábito que veste não engana,

Não mascara seu coração.

Oh, minha senhora!

Permita-me envolvê-la 

Neste amor que tanto procura

Que a mim, tanto busca.

Senhora, prontifico eu

Nesta multidão

Que entre estranhos, não passarão

O que de outros ocultarão.

Conheço seu coração

Permita-me, senhora,

Que eu prossiga te amando

Como venho feito desde então."

E quando ele terminou de declamar sua poesia como o verdadeiro bardo a que veio a ser, notei que seus olhos jamais haviam deixado os meus. Aquilo me fez chorar, tal qual um amor instantaneamente brotou em mim. Um reconhecimento mútuo, o despertar se fez ocorrer! Mas, ciente de meu próprio dever, virei as costas e, aos soluços, fui embora. 

Não esperava vê-lo outra vez, mas como estava enganada. Poderia afirmar que o Pai mesmo tem senso de humor.

"Mas já te vai, Heloísa?"

Tendo levado um susto com sua presença, eu tropecei e quase caí, as compras a um ponto de escorregarem de minhas mãos. Mas fui salva por Lucius, como era de se esperar.

"Não caia de amores por mim", ele avisou, brincando.

"Ora, essas! Largue de mim, sou noiva de Cristo!" bradei, me sentindo nervosa porque a presença dele e aqueles versos tão belamente pronunciados diante de uma multidão na praça, haviam estremecido minha alma e provocado alterações que até então ignorava.

"Peço perdão se acaso a ofendi", disse Lucius, e eu percebi, para meu consternamento, que ele falava sério. "Achei que tinha apreciado meus poemas."

Decidi que aquele não era momento para orgulho e baixei a guarda. 

"Apreciei, de fato. Me parece que é um daqueles trovadores", falei, lembrando-me de Agnes. 

Lucius sorriu, mas não me escapou aos olhos que ele enrubesceu. E, diante daquela cena, eu me percebi sorrindo em resposta.

"A senhora é muito gentil, mas sou apenas um trovador. Nômade, é verdade, pois dependo do bom favor dos outros que me empregam."

"E tem tido sorte nesta empreitada?", indaguei, sem perceber que caminhávamos lentamente de volta à abadia.

"Mais ou menos", ele replicou como se não pensasse muito a respeito.

"Já vi que não", eu pontuei, sem perceber que soava crítica.

Notei que Lucius não gostou do meu comentário impertinente, mas, em vez de dizer algo, preferiu se calar. Aquilo me incomodou.

"Desculpe", me ouvi dizer. "Não tive a intenção de criticá-lo."

"Não sabia que noviças se desculpavam", ele retorquiu, e eu me senti magoada com aquele comentário. 

Tentei me esforçar para consertar a situação, mas antes que eu dissesse algo, ele se afastou:

"Cá estamos, dona. Espero que seu Jesus te aguente mesmo, porque não sabia que eram orgulhosas aquelas que a Ele se afiliavam."

E foi neste instante que me vi segurando as lágrimas. No entanto, me fez refletir sobre meu comportamento e, embora mais tarde, chorasse enquanto todas dormiam, percebi que desejava uma oportunidade por reencontrá-lo.

*                                                                                 *                                                                           *

Como de costume, fui a escolhida para ir ao mercado novamente. Para meu desapontamento, porém, ele não estava lá. Ao menos, não inicialmente. Pois é claro que quando tudo está destinado a acontecer, o destino faz a sua parte. Embora Lucius, igualmente orgulhoso, houvesse me ignorado de primeira, tendo ele percebido que eu desejava falar com ele, eventualmente cedeu e eu peguei a deixa.

"Gostaria de me desculpar pelo meu comportamento", disse eu, soando mais sensível do que pretendia. "Não fui justa com o senhor."

"Não sou nenhum senhor", ele retrucou, embora menos rude do que à vez em que havíamos partido em maus termos. "Mas eu a desculpo. Também eu devo fazer o mesmo pela inconveniência."

O que já estava feito, permanecia feito. E foi quando sorri como uma tola que Lucius também percebeu isso. Ele disse:

"Gostaria de ouvir mais sobre sua vida na abadia, se tiver tempo."

"O tempo que tenho é para o mercado", falei, mais docemente. "E não acho que gostaria de conhecer a vida de uma noviça."

Eu ri, mas mesmo para mim, minha risada soava vazia. Foi naquele instante que percebi que havia me acostumado com a infelicidade das circunstâncias que me levaram até o presente, por grata que fosse por isso.

"Permita-me discordar", insistiu ele. "Creio que tem tanto a dizer, mas poucos se dispõem a ouvir, não é mesmo?"

Eu ruborizei. Deveria ser sensata, mas não era mais uma presa de meu próprio orgulho. Algo em mim me dizia que poderia confiar naquele homem. E, assim, arranjando um tempo em meio ao mercado, conversamos. Falei de meus pais, de minha vida no campo, e como me tornei noviça. Admiti relutar em fazer os votos e confessei, envergonhada, que desejava ter uma família para chamar de minha.

Com um sorriso alegre em seu rosto, reflexo de seu temperamento, Lucius me contou de si, por sua vez. Também ele veio de uma família de camponeses, mas que teve a boa fortuna de trabalhar dentro do séquito do rei. Tornou-se um de seus trovadores, disputando o cargo de vez em quando com um ou outro novo favorito em ascensão. Notei que isso trazia infelicidade a Lucius, que desejava apenas contentar e tocar os corações alheios. O ouro, disse ele, era consequência e não a causa.

Em meio a este cenário, fomos nos conhecendo melhor. À cada ida ao mercado, ele estava presente. Entre sorrisos e confidências, o sentimento foi brotando... até que um dia ele fixou residência em nós mesmos. 

"Devo professar meus sentimentos a você", disse-me Lucius em um destes encontros semanais no mesmo local de costume. "Case-se comigo."

Lembro do choque de ter ouvido aquelas palavras, impulsivas, porém sinceras, ditas espontaneamente da parte dele. Recordo de ter arregalado os olhos e mal crer de que o amor havia batido a minha porta. Entretanto, alertou minha consciência, estava presa aos votos que haveria de fazer em breve. Quando falei isto a ele, Lucius respondeu:

"Que importa isto? Você mesma me disse que é uma noviça. Não está presa a algo que não te fez quem é. E por que deveria se submeter a mais uma série de infelicidades?"

Não obstante minha relutância, Lucius também interpretou outra perspectiva:

"Se pensa que digo palavras adocicadas para desposá-la, saiba que não é esta minha intenção, nem nunca foi. A cada olhar, riso, palavra que temos trocado desde o dia um, sabe que o que eu sinto também você sente."

Eu hesitei ainda em falar, a talvez admitir que ele estivesse certo. Lucius, como já havia dito, não era de desistir. Ele tomou minhas mãos nas dele e falou:

"Se amar é pecado, que eu seja um pecador por isso."

"Eu tenho medo..." admiti em voz baixa.

"Medo de que?"

Não saberia dizer por que motivo exatamente, embora listasse o castigo que pudesse ser-me infligido pela abadasse caso a verdade chegasse aos seus ouvidos. A verdade, porém, nos ligava a um longo e distinto passado: em quase todas as existências pregressas, nós falhamos em nos reencontrar. Ou quando nos reencontrávamos, não estava destinado a dar certo. Isto porque, ainda na Roma Antiga, havíamos cometido um crime e, como para regenerar deste, cumprimos as existências posteriores até que a "dívida" fosse saldada. 

Como se lesse minha alma, Lucius tomou minhas faces em suas mãos e disse:

"Eu juro que nada acometerá se fugirmos juntos. Já tenho absolutamente tudo combinado. Afinal, não tenho contatos da corte?"

"Oh céus", eu falei, sentindo que a possibilidade de tudo se realizar dar certo.

E, de fato, deu.

*                                                                                      *                                                                   *

Pagamos uma multa poderosa à abadia pela fuga que se sucedeu à promessa de casamento. Isso ocorreu graças a um dos poderosos duques que patrocinavam Lucius. E, ainda assim, não tínhamos como dar por garantida sua ajuda, já que quando ele morreu, seu filho nos despejou. 

Mas que importa? Lucius e eu enfim nos reunimos. A cerimônia foi discreta. Agnes nos auxiliou quanto aos detalhes, já que ela também era filha da nobreza. Ao lado de Constança e de Ana, minhas amigas, estiveram presente no dia em que, depois de tantas lutas, enfim conquistei o direito de ser a esposa de meu amado marido.

Nós nos estabelecemos em uma das propriedades do irmão de Agnes, que prometeu ser benevolente conosco desde que não falhássemos em dar a ele o produto do trabalho segundo os conformes da época. Assim, isso se fez porque Lucius era um homem bastante esforçado e que cumpria com sua palavra. De fato, voltou a ser um trovador estimado por este irmão, mas logo se aposentou depois do nascimento de cinco crianças. Dei a elas o nome de Helena, Leon, Augusto, Atalante e Sérgio, em homenagem aos avós que nunca viriam a conhecer.

Ainda vivi por mais algum tempo que Lucius, tendo a infelicidade de tê-lo visto partir antes de mim. No entanto, com resiliência e aceitação, esperei pela minha vez. E assim foi que cumpri com a minha missão, tendo desencarnado no inverno da metade daquele século.

Não foi uma vida colorida, caros leitores, como poderiam pensar. Teve seus altos e baixos como toda experiência humana haveria de ser na Terra, especialmente em um contexto no qual a infelicidade imperava para quase todos. Não pensem, porém, que somente o amor e a felicidade cabiam aos poderosos nobres de outrora. Os camponeses, também eles, amavam em qualquer circunstância. O que vim trazer a vocês não é a romantização de um período duro para a história humana, mas é como o amor a tudo prevalece. É ele quem dissolve o orgulho, cura o rancor, transforma-nos em humildes filhos de Deus. Cabe a nós mesmos ponderarmos sobre o instrumento que o Pai nos dá e pensar que obra poderemos criar a partir disto. Se é o bem ou o mal que plantaremos, a isto somente a sua consciência pode elucidar. E mesmo assim, nada é perdido, não existe castigo eterno. O perdão, a misericórdia, a compaixão e a redenção existem para aqueles que procuram. A tudo isto, sempre existiu na humanidade independentemente do cargo ocupado em Terra e da época de vida.

Assim, concluo minha história ao lado de Lucius. E sou muito grata por ter vivido em tão distante passado e lembrá-lo com carinho. Pois tudo é aprendizado, e nada ocorre sem nosso consentimento. Para nos elevarmos ao Pai, que o façamos no dia-a-dia pelo amor. Afinal, como falei, o amor a tudo prevalece. 

Agradeço ao Pai por esta oportunidade de levar aos leitores esta memória que me é tão cara, de existência que tanto contribuiu para meu crescimento enquanto espírito, e que somente reforçou o amor infinito que eu e Lucius temos um pelo outro. Também agradeço a George e à médium pela paciência, pelo carinho e respeito com que se deu este trabalho. Que Deus os abençoe a todos. ~Heloísa.

Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...