Nota do guia de Oxossi: a entidade que aqui se apresenta pode parecer densa em decorrimento de sua longa presença na Terra por escolha própria. Pode-se dizer, em vossos termos, que se trata de um espírito muito, muito velho. Não obstante, recomenda-se aqui o cuidado com o julgamento porque tende-se a pensar que alguém de sua natureza é apegada à carne, está pagando pelos pecados ou mesmo inferior. Ele é mais complexo que muitos pensam. Apesar disto, foi somente recente que ele de fato buscou pela falange de Oxossi para auxiliar seu adiantamento e verão no decorrer da história por quê isto se deu.
"Nasci no que se convencionou chamar Gales quando esta era desestruturada politicamente. Não havia unidade linguística, econômica, social ou religiosa. Sequer poderia-se apontar para uma autoridade completa e incontestável. Não, tais concepções não existiam quando encarnei naqueles dias.
Se querem mesmo saber a data, foi por volta do ano 300 depois de Cristo. Antes disso, havia nascido na Mesopotâmia em dias longínquos que me parecem pouco importante localizar agora. Vês como havia morrido, um velho de barba e cabelos compridos, rugas ao redor dos olhos outrora azuis-esverdeados, um nariz enrugado e lábios com dentes amarelados em vestes simples, prateadas e simbólicas, sentado num trono entre paredes velhas. Nem sempre fui deste jeito e espero fazer-me compreender porque me preservei assim. Para toda história não documentada, há um início, meio e fim, embora termos assim presumam um pensamento metódico acerca da concepção do tempo que, hoje em dia, sabe-se ser mais um reflexo da humanidade e sua necessidade de se situar espacialmente.
Enfim, sem mais delongas, voltamos à Gales de que falava. Dali nasci, é verdade, de uma família relativamente nobre. O império Romano não havia decaído, mas seu domínio naquela ilha sobre os celtas e seus descendentes parecia perecer. Estava determinado a um fim, como quase toda civilização neste planeta. Em meio a castelos, fui criado como um príncipe. Meus pais eram donos de uma vasta propriedade que, em contrapartida aos outros que detinham uma posse menor sobre terras (produtivas), os tornava respeitáveis, quando não ricos. Os que se tem muito causam uma impressão favorável aos que pouco possuem, desta forma, configurou-se na formação do que mais tarde chamariam 'aristocracia'. Conforme as distinções sociais se demarcavam e separavam uns dos outros, a preocupação com suas riquezas e quanto aos que as herdariam aumentou. Um príncipe não tinha obrigação na leitura, é verdade, pois que deveria na verdade possuir qualidades como: a de um guerreiro, para que pudesse defender sua terra e aqueles que dele dependiam; a de um sacerdote, para servir aos deuses com maestria; e as de um trabalhador porque não se saberia o dia de amanhã. Os braços eram os membros mais importantes que um homem poderia precisar, e não o cérebro.
Pois bem. A herança era passada sempre ao primeiro filho, e este costumeiramente era o homem, por mais que uma moça pudesse ter nascido primeiro. Pouco importava. Afinal, como uma dama haveria de cumprir com as qualidades que citei? Mesmo antes do domínio do cristianismo, pensava-se que a mulher faltava características de guerreiros. É claro que poderia se verificar uma variância daqui e ali, como em Gwynedd, onde as moças poderiam substituir seus maridos em batalhas dependendo da ocasião, ou mais ao sul, em Dublin, cujos papeis sociais expandiam-se para além o de cozer e rezar. Exceções, contudo, não fazem regra. O pensamento politeísta era predominantemente masculino.
Voltando à ocasião, eu tinha um irmão mais velho, a quem darei o nome de John (devo alertar ao leitor de que os nomes desta época eram muito complicados e sua grafia, além de diferir de região para região, era recordada apenas pelos poucos que detinham a pratica da escrita. Explico para que não estranhem a associação de nomes anglicizados e "contemporaneizados" à época de que falo. É apenas para facilitar o vosso entendimento). Ele era o herdeiro perfeito que meus pais esperavam que fosse: alto, esbelto e arrogante. Nos exercícios de guerra, sobressaía-se a mim, o que era natural. Do segundo filho, nada esperavam, mesmo sendo do sexo masculino. Dominava como ninguém a espada, a lança e o machado, três das armas usadas por homens privilegiados. Sorria quando tinha em mãos o machado. Ainda hoje recordo de suas palavras:
--Veja-me, Robert!--era assim que eu me achava, por assim dizer--O machado é mais assustador que todas as potentes armas de guerra!
--É pesada demais, entretanto--interferiu nosso tutor, um velho chamado Macnius (ou Magnus, se quiser, ele era "romano")--Não se recomenda muito seu uso se puder evitá-la.
--É somente pesada para os que não possuírem força para segurá-la adequadamente--retrucou John. Seus cabelos eram como da cor do sol, brilhavam como se para reforçar a aura belicosa que marcava sua alma. Seus olhos, mais azulados que os meus, eram ferozes de encarar, embora paradoxalmente existisse uma gentileza que a poucos compartilhava. Talvez eu fosse destes raros companheiros que o visse como realmente era e não como foi moldado a ser--Eu gostaria de tê-la. Assim, serei temido e poderei mandar vários inimigos ao Hades.
O velho bufou diante da teimosia do novo.
--Cuidado, senhor, estas não podem ser as palavras de um bárbaro.
Mas John não se importava, ele nunca se importou. Para ele, não existia isso de "bárbaro". Um inimigo em batalha era alguém que, independentemente de onde tiver vindo ou o quem que que tenha sido, deva padecer sob o jugo de sua arma. Tal como nosso pai pensava, os únicos que valiam a pena ocupar a mente eram os camponeses que dependiam de nossa proteção.
Naquele dia, o treinamento militar prosseguiu. Como eu era jovem, apenas de forma distante o observava. John tinha cerca de quinze a dezesseis anos, não me recordo com prontidão, enquanto eu era seis anos mais novo. Admirava-o e desejava seguir carreira como ele. Como recentemente atingira dez verões, minha educação era outra. Minha mãe, uma jovem galesa de Gwynedd, era a favorita de seu próprio pai e por isso teve acesso a estudos que tão poucos pais confeririam às filhas. Compartilhando da sabedoria daquele homem que por sorte posso chamá-lo de avô, ela decidiu que, se John seria o guerreiro, eu seria o sacerdote. Por isso, até àquele tempo, eu sabia ler e escrever, instruía-me nas artes da governança segundo as leis dos deuses e aprendia tudo o que podia de Roma e seu vasto império. Da mesma maneira, aprendi sobre os celtas, as tribos que agora viviam nas sombras na Britânia.
Nessa manhã de 310 d.c, enquanto assistia ao treinamento do meu irmão, meu cérebro processava as informações que havia lido sobre a guerra em Roma. Suas guerras eram violentas, dominadoras, mas paradoxalmente apaziguadoras. Lembrava-me de Júlio César, seu breve romance com Cleopatra, e me indagava sobre suas conquistas. Um homem como aquele poderia ter sido imperador, eu pensava comigo mesmo. Princeps de Roma. Imperator. Decerto havia o Senado, uma instituição que me parecia abstrata, pois na minha realidade de então não havia nada que pudesse ser comparado aquilo. Meu pai reinava absoluto sobre os outros, embora não da forma como surgiu o absolutismo no século XVI. Seu poder fora dado por seu próprio povo e ele tinha consciência disso, procurando ser justo em seu modo de governar. O sacerdote o apoiava, orientava, e vez ou outra chegava aos nossos ouvidos um "cristão". Mesmo com esse sujeito éramos-lho simpático. O pobre viajante em questão queria nos converter, mas temo ter encontrado um povo ferrenhamente apegado aos seus costumes para se permitir cultuar outro deus que não os antigos. Mas o recebíamos, enfim.
De todo modo, era nisso que pensava. Na concepção de poder, e indagando-me como César deixou de ser imperador. Era curioso como alguém militarmente poderoso como ele fosse subjugado por um mero Senado. Tal era como funcionava a mente aguda de um rapaz de dez anos.
Vendo-me contemplar e fitar o vazio, meu irmão se aproximou tendo findo suas classes:
--Está pensando em seus filósofos de novo?
Senti um deboche aflorar em suas palavras, mas em questão de temperamento, eu era o mais calmo dos dois.
--Na verdade, não--respondi tranquilamente, sem cair em suas provocações costumeiras--Ao contrário, pensava em Júlio César. Ele poderia ter sido como Alexandre Magno.
--Mas não foi--comentou John desinteressado. Dos jardins, entrávamos em nosso castelo de pedras e eu o segui como um cachorrinho fiel acompanhava seu dono.
--Não, e por quê?
--Porque ele foi burro--disse-me John--Ele confiou demais nos amigos e perdoou os inimigos.
Uma resposta sensata, eu havia pensado com alegria.
--Mas por que?
John parou para me encarar. Andávamos pelo longo corredor, frio como uma sepultura, mas era agradável. Não havia pinturas que enfeitassem as paredes, apenas pedras que as constituíam e locais para apoiar as chamas de forma a iluminar o corredor.
--Porque ele não desejava ser como seus predecessores. A noção de ditador era inerente a alguém que concentrava a maior parte de poderes mas que, ao contrário de um imperador, dependia de outros para se manter. Era um elemento primordial ao exercício das res pública. Ou seja, da representação do poder do povo--explicou-me John--Mas César sabia que outros ditadores haviam sido executados pelos súditos porque foram cruéis demais. Ele se aliou aos que pensava não lho trair por ter-lhos concedido cargos e situações de subjunções. No entanto, ao permitir que os inimigos vivessem, deu margem para que eclodisse uma traição ainda maior.
A isso tudo ouvi com muita atenção.
--O que você faria no lugar dele?
John me sorriu como se esperasse por aquela pergunta.
--Não perdoaria meus inimigos. Executaria a todos. E enviaria meus amigos ao exílio.
--Mas você precisaria de aliados--eu o lembrei--e se matasse todos os inimigos, seria visto como tirano. Segundo Aristóteles, isso dá margem para que coisas não muito boas aconteçam.
--Você está confundindo com Platão, mas suponho que não esteja tão errado em afirmar isso--e mais uma vez meu irmão surpreendeu, mostrando que mesmo um guerreiro como ele tinha um cérebro bem afiado--É verdade. Imagino que precisamos nos cercar dos bons tanto quanto dependamos dos maus. O que faria?
A pergunta me tomou de surpresa.
--Eu?
John riu e eu gostei de ouvi-lo rir. Até hoje o som de sua risada ecoa em minha memória.
--Sim. Você.
--Bem... --demorei a formular uma resposta, mas meu irmão tinha paciência comigo--Eu teria sido clemente com meus inimigos, mas não confiaria excessivamente nos amigos. Atentaria-me para as ações de cada sujeito e ponderaria a respeito de suas ambições.
John fez um aceno de aprovação, o que me deixou muito feliz.
--Você é esperto, irmãozinho. Saiba que os inimigos de hoje podem vir a ser os amigos de amanhã... E vice-versa.--E, como se para finalizar o assunto, depositou sua mão pesada sobre os ombros--Mas agora está na hora de suas lições com o sacerdote. Ande, vá!
Como uma criança serelepe, eu prontamente o obedeci, pensando em agradá-lo.
* * *
O cenário de minha infância foi relativamente tranquila. Como expus antes, minha mãe se responsabilizou por fazer de seu segundo e inútil filho letrado, certificando-se de que ele iria além do que a sociedade da época esperaria dele: que fosse meramente outro sacerdote enviado á Londonum para servir ao de Minerva. Meu pai, por sua vez, governava com justiça, era respeitado pelos mais pobres e invejado pelos vizinhos. Ele sabia disso e por isso nunca tomou como garantido a paz em suas terras. Portanto, meu irmão mais velho, seu herdeiro, treinava exaustivamente para ser um excelente guerreiro capaz de defender o povo e seu trono. John, apesar de corresponder os ideais de outrora, se interessava para além das espadas e dos cavalos, em como regir a casa e também nas leituras filosóficas, históricas e mesmo as fantasiosas que minha mãe trouxera consigo de Gwynedd.
Mas tudo isso viria a desmoralizar quando ela veio a falecer quando completei quinze anos. Foi o ponto da época. Ela e meu pai tentaram fazer outro filho. De fato, nasceram duas crianças depois de mim: quando contava onze verões, aquela que chamarei de Margaret nasceu, e quatro anos mais tarde, foi acompanhada de uma outra menina que nomearei Katherine. Contudo, a praga havia nos atingido e o coice da morte levou primeiro minha irmã, e depois minha mãe. Katherine também a seguiria no túmulo e, para o choque de todos, John também.
Pela primeira vez, éramos eu e meu pai. E foi quando nós nos notamos verdadeiramente. O castelo pareceu ficar escuro e os sons alegres daqueles que amamos trouxeram o silêncio. A sombra da morte pairava sobre nós.
--Não creio que os deuses possam ter sido cruéis--meu pai falou, e eu via nele um rosto cansado e marcado pelo tempo, a falta de cabelos mostrando um cocoruto branco. Seus olhos eram verdes e o nariz longo, e a boca parecia seca e sem cor. Assim como John e eu, era alto, seu porte era elegante e havia algo nele que o tonava bonito de admirar. Forte, astuto e inteligente, mas possuía um gênio terrível.--O que fiz de errado?
Seu olhar era frio, embora suas palavras traíssem a emoção que tempestuava sobre si. Ainda que eu mesmo estivesse abalado, aquela não era o momento para permitir que sofresse o luto. Logo, o respondi:
--Por que eles se zangariam pela promoção da paz, meu senhor? Platão costumava dizer...
--Não me venha com seus gregos!--ele gritou, e eu me silenciei--Que se fodam eles! Promovi a prosperidade e me tiraram todo o meu tesouro! Nenhum grego mudará isso.
Temi ter visto um tirano surgir. Outro Brutus. Por isso, falei:
--Ofenderia os deuses se fizesse algo contra sua vontade.
--Eles tiraram tudo o que possuía! E me deixaram você!--ele rosnou.
Fingi não ter me ofendido com seu desprezo.
--Em mim, sua linhagem continuará--prometi calmamente.
Diante disso, recebi nada mais que o franzir de sobrancelhas como resposta. Foi difícil lidar com a rejeição de meu pai e eu percebi que nunca havia sentido a necessidade de agradá-lo como aquele momento. Quando criança, cresci cercado sob a supervisão de minha mãe, governantas e tutores. Não estava ao lado de meu pai como John. Como os tutores eram bondosos comigo e me ensinavam tudo o que podiam, não sentia tanta sua falta. Num piscar de olhos, como a perspectiva havia mudado.
--Devo desposar a pretendente de John?--eu falei, quebrando o silêncio gélido entre nós. John estava a se casar naquele inverno com uma moça de Jeorvic, a quem chamarei de Catelyn. Era apenas dois anos mais velha que eu e era a filha mais velha de um poderoso senhor de terras da região.
Meu pai me encarou e ponderou a sugestão por uns momentos. De repente, pelo ímpeto da juventude, me ouvi dizer:
--Assim, não perderá a aliança com o senhor nortenho--lembrei-o de sua ambição em esticar as terras para o leste e parecia que havia encontrado neste mencionado indivíduo um reflexo de suas ambições.--E poderá dar prosseguimento às suas vontades.
--Não é uma ideia ruim--ele ponderou, antes de dizer--Ou talvez eu mesmo deva desposá-la a fim de produzir outro herdeiro. Ela é jovem, certamente é fértil: a mãe deu ao pai dezesseis irmãos pelo que soube.
Na verdade, e eu não quis contradizê-lo, apenas seis das dezesseis crianças haviam morrido na infância. O carma ali era fortíssimo, visto que os dezesseis espíritos foram nada mais que um grupo que havia cometido o crime de ter matado bebês sob a ordem daquele rei de Jerusalém em outra existência. Mas fiquei entristecido por não ter a sugestão acatada. Contudo, a autoridade paterna me exigia respeito e, por isso, me calei. Apesar disso, imaginei se John não teria retrucado imediatamente.
--E é isso--ele se decidiu--Desposarei a moça e darei prosseguimento a este plano. Quanto a você... Bem, o manterei aqui até seguir a confirmação da gravidez dela que eu conto que ocorrerá logo. Assim, o enviarei à Londonum para que cumpra com as vontades dos deuses.
Cruzou em meus pensamentos a vontade de retorquir, mas um leitor atento notaria que meu pai desejava me empurrar a sua discussão a fim de dominar-me. O luto trazia o pior lado dele e eu me assustava com isso, mas não ousava demonstrar.
Sendo assim, aquiesci e aquele jantar terminou sem sobremesa, deixando no ar a sensação agridoce de que algo terrível estava a caminho. E, realmente, meus instintos provariam ser corretos. Embora fosse respeitado pelos aldeões, que pretendiam me ter como seu novo senhor, meu pai ignorou tudo isso e prosseguiu com a ideia de desposar a jovem Catelyn. Ela era bela, produto do norte que fora: dona de cabelos negros emaranhados em ondas, sua tez era larga e seu semblante, tão branco quanto a neve. Os olhos eram azuis claros como o gelo, e o lábio vermelho. O dia em que chegou às terras, percebi que os deuses amaldiçoaram aquela família.
--Senhora Catelyn--eu a recebi segundo as ordens de meu pai. O castelo esvaziou-se com a morte de metade da minha família e poucos foram os serventes que prosseguiram com o serviço. O velho tutor romano Magnus continuou comigo e fez questão de ter me vestido adequadamente para a ocasião como um príncipe, ajeitando meus fios louros e deixando os curtos apropriadamente. A barba em meu rosto havia sido cuidadosamente aparada e pensava que não faria meu pai envergonhar-se mais do que já estava de mim.--Agradeço por ter vindo.
Ela me dirigiu um sorriso digno de ser comparado ao de Guinevère. Uma pena que naqueles tempos não existia contos como este gênero.
--Uma boa dama jamais se esquece de seus deveres--ela me disse docemente, embora tivesse detectado malícia em seu olhar. Vestida como uma romana, percebi que, por trás de suas maneiras recatadas, seu linguajar indicava uma personalidade forte. John teria gostado dela, eu lamentei em pensamento.
--Certamente que não--e percebi que ela estava consciente de que desposará o pai de seu noivo, em vez de seu novo herdeiro, o que me desagradou.--Assim é como os deuses determinam sua vontade.
Catelyn sorriu.
--São misteriosos, sem dúvida, e implacáveis.
E, conforme a liderava caminho adentro ao castelo, perguntei:
--Como foi a jornada? Espero que não tenha passado por vários perrengues.
--Oh, não. As estradas estão protegidas. Os soldados romanos ainda as dominam como de costume--ela comentou, e eu notei o desprezo que sentia pelos estrangeiros, mas nada comentei deste aspecto--Ao menos os ladrões e camponeses se afastam da tentação de possíveis problemas.
Sua arrogância novamente me lembrava de John. A diferença era, eu pensava comigo mesma, que meu irmão não fingia ser quem não era. Mas eu me perguntava se aquilo cabia às mulheres porque lhes faltavam a mão para controlar seu próprio destino. Como se fosse um mecanismo de defesa.
--Mas me fale de seu pai--ela pediu, tornando a fixar seus olhos de gelo sobre mim--Como é o temperamento dele? Não vou mentir, fiquei surpresa quando fui comunicada de suas intenções. Ainda que lamentasse o destino de meu prometido, achava que seria mais adequado desposar você.
Sua afirmação direta e precisa me tomou de surpresa, pois não esperava que fosse tão sincera. Ao ver o choque passar em meu rosto, Catelyn prontamente vestiu seu disfarce e disse:
--Perdoe-me, senhor, não quis ofendê-lo.
A suavidade em sua voz me desnorteou. Quase amaldiçoei os deuses por isso, mas pude me controlar e disse:
--Não há ofensa alguma, senhora. Fui surpreendido apenas porque pensava o mesmo.
Dei de ombros por ter falado o que passava em minha mente. Não conhecia o caráter daquela mulher, e se déssemos espaço para superstições tomar vazão, teria sido considerado um tolo, pois que era sabido que aquele gênero de indivíduos estava sujeito a todo tipo de prática desprezível. A respeito disso, comentarei no final desta lembrança.
Catelyn me observou por uns instantes como se estivesse indecisa em crer na veracidade de minhas palavras ou se deveria apenas rir de mim. Ao final, disse:
--Gosto do senhor. É Robert, não é mesmo?
--Sim--eu confirmei com a cabeça--Tal é o nome deste que vos fala.
Ela me sorriu. Notei que fui vítima de seus encantamentos, quaisquer que pudessem sê-los. Se uma parte de mim pensava que ela era ideal para John e não meu pai, a outra me repreendia por conceber admiração por aquela mulher livre do norte.
--Não precisa ser tão formal, senhor Robert. Serei sua madrasta, afinal--a ideia pareceu entretê-la tanto quanto provocar aversão. Tentei não me sentir ofendido diante de sua reação a este fato que também me enojava.
Nossa pequena conversa foi interrompida quando meu pai, acompanhado de dois de seus aliados (homens poderosos, seus vassalos, que atuavam como suseranos para camponeses longe da autoridade de meu pai e que respondiam a sua autoridade), se prostrou. Atrás dele, uma mesa de madeira longa estava coberta por um pano verde e sobre ela alimentos como frutas, pães, mel e tortas enfeitavam ao lado de vinho. Um sacerdote prostrava-se não muito atrás. Ao que tudo indicava, aquele casamento seria realizado no mesmo dia.
--Senhora Catelyn--meu pai fingiu um sorriso amigável ao cumprimentar a moça que seria sua filha, e não esposa.--Espero que tenha feito uma boa viagem, sem percalços desnecessários.
Com a postura régia de quem seria a rainha do local, Catelyn oferecia um sorriso tímido, quase recatado.
--Senhor, agradeço pela preocupação, mas a jornada até aqui foi tranquila. Estamos, como de costume, bem guardados.
--Ainda bem--disse meu pai--visto o imposto que pagamos aos romanos!
Em tempos como aquele, o desprezo ao domínio de Roma crescia cada vez mais e seria apenas uma questão de tempo até nos livrarmos de seu jugo. No entanto, a verdade era que privilegiados como nós havíamos nos acostumado com o benefício de seu poder, e por isso a rebelião não viria tão cedo assim. Tal era meu pensamento circunscrito à área onde cresci.
Distantemente, testemunhei meu pai e sua noiva conversarem amabilidades antes que ele, gentilmente, a levasse para o templo de Juno onde o sacerdote concederia sua bênção. Imaginei se havia motivo para a pressa ou se meu pai não dava importâncias para rituais. Notei que, apesar da praga ter se extinguido, o castelo permaneceu vazio. Sob a máscara da frieza, entretanto, existia aquele rapaz de antes, perdido e confuso, triste pelo passado irrecuperável.
Juno fazia parte dos deuses novos trazidos pela minha mãe. Equivalia à deusa Hera do casamento, segundo a concepção grega sobre o assunto. Nosso panteão, à época, era grande e eu me sentia, mesmo aos dezesseis anos, perdido quanto à deidade que deveria prestar culto. Era regra que não era sábio menosprezar um pelo outro se se quisesse evitar ter sua vida em bons olhos dos deuses. Mas, se tivesse que me perguntar, e em análise retrospecta daqueles dias, ouso dizer que minha inclinação seguia os deuses greco-romanos de minha mãe. Não à toa, ela tinha a intenção de que servisse à Minerva.
De todo modo, uma vez recebida a bênção do sacerdote, meu pai e a senhora Catelyn eram marido e mulher. E nada poderia dissolver sua união, a não ser que ela falhasse com seus deveres. Talvez seja correto afirmar que minhas relações para com meu pai houvessem sido rompidas naquela ocasião. Ou mesmo antes. Afinal, era o segundo filho e para a Gales medieval (como outras sociedades da época), isso era o mesmo que nada. Hoje, posso lembrar disso com segurança, mas na juventude tudo é sentido à flor da pele e não fui exceção da regra. Ressenti-me disto porque percebi que não era amado por ele e que infelicidade era ter aquela senhora como objeto de minhas afeições! Os lamentos daquele dia me fizeram escrever o seguinte poema:
'Que o bardo cante a canção
Do rapaz que de prontidão
Amou a moça em sua solidão
De olhos azuis como o gelo
De ônix era seu cabelo
A cor que pintava seus lábios
Era o vermelho
Que o bardo cante
Como este príncipe tudo perdeu
Como ele aprendeu
De tudo o que sofreu
Das adversidades que temeu
E graças a cada deus ele Deus
Que o bardo cante
Sobre o jovem sem terra
Sem herança a que peça
Sem coroa
Sem perspectivas
Assim foi traçado seu destino
Se do amor verte a dor
Se do frio vem o calor
Cante o bardo
Que no próximo barco
Este jovem ressurgirá do buraco
E honrará a deuses e homens iguais
Reconquistará o que nenhum outro jamais
Ousou tomar'
Era algo que refletia a mistura de sentimentos que assaltava um jovem como eu à noite. A falta do amor do pai, que, em sua ânsia para substituir o herdeiro que tinha, desposava a noiva do filho morto. O desejo pela prometida do pai, provavelmente reflexo de genuína atração temperada pelo anseio de desafiá-lo. Tudo isso porque brotou de mim a rejeição de um luto muito mal direcionado.
De todo modo, no dia seguinte, havia decidido deixar essa confusão para trás. Como prova disto, queimei na lareira esta mesma poesia que recitei em vossa língua materna. Garanto aos leitores que, guardadas as devidas diferenças, o sentido permaneceu o mesmo.
Apesar disso, a senhora Catelyn tomou gosto de minha presença e pedia a mim conselhos que, francamente, pensava que poderia pedir a outra pessoa. Meu ressentimento era porque não lhe desposara e também resultado da decepção de perceber que minha atração por aquela jovem ainda não se fora.
No dia seguinte à consumação do casamento, a levei para conhecer nossas terras e apresentá-la aos camponeses.
--Tudo aqui é fértil--ela comentou comigo--Em Jeorvic, é diferente. Nossos invernos dificultam o plantio. E aguardar a chegada da primavera é difícil.
--Creio que nesse sentido a deusa nos abençoou--eu comentei, reflexivo, referindo-me tanto á Perséfone quanto sua deusa-mãe--Mas mesmo assim há momentos em que sofremos com o tempo.
--E o senhor gosta daqui?--indagou Catelyn, não se importando em mudar o assunto.
--Sim, fui criado aqui--respondi, um pouco na defensiva, antes de suavizar diante do constrangimento que sem qualquer intenção lhe causei--Na verdade, passava mais tempo com os livros quando era criança do que com espadas. Como segundo filho, não era tão importante, mas minha mãe se responsabilizou pela educação que me deu. Disse que eu vinha de uma linhagem de romanos que remetiam à Júpiter, portanto, não deveria ficar à sombra de John, meu irmão mais velho. Embora ainda tivesse educação militar, fui direcionado a uma vida sacerdotal.
Catelyn, esperta, logo indagou:
--Mas como sacerdote se é agora o herdeiro daqui?
--Meu pai a desposou com o objetivo de prevenir que eu seja o próximo governante--comentei, e me surpreendi com a ausência de rancor ao explicar a situação.
--Ah, meu senhor!--ela exclamou, horrorizada--Perdoe-me!
A surpresa foi ainda maior diante daquela atitude. Perguntava-me por que ela se desculpava se vinha cumprir com seu dever, mas preferi não investigar questões que não eram minhas para cavar.
--Não há o que perdoar. Ele nunca me amou--dei de ombros--De todo modo, em breve sairei daqui. Rumarei a Londonum.
Catelyn mordeu o lábio inferior, e seu franzir de cenho indicava que reprovava esta atitude de meu pai. Condenava-o da mesma maneira que eu. Em meus pensamentos impuros, percebi que teria-na amado como merecia. Penso que ela deveria compartilhar dos mesmos sentimentos porque no decorrer dos dias, que viravam semanas e, logo, meses, a senhora Catelyn buscava pela minha companhia sob a desculpa de que era preciso se instruir sobre os costumes e os hábitos daquela região galesa. Como meu pai pouco lhe dava atenção, aquiesceu e não reclamou. Contudo, eu sabia que, assim que engravidasse, tudo mudaria.
Como, de fato, mudou. Um dia, a senhora de cabelos negros veio a mim para me comunicar notícias ambíguas. Estava ao lado de fora tomando conta dos cavalos quando ela pediu permissão para se dirigir a mim. Recordo-me bem deste fatídico dia: seus cabelos emaranhados prendiam-se sob um véu branco e o vestido roxo que usava era de tecido veludo. Lembro-me de ter admirado sua beleza, como o sol irradiava sobre sua pele branca e fazia enaltecer o azul de seus olhos.
--Senhora Catelyn--eu a cumprimentei apropriadamente antes de dispensar o cavalariço--A que devo as honras?
O rubor que subiu suas faces me alegrou. Confirmava minhas suspeitas de que sentia o mesmo por mim que ela. Oh, a tolice da juventude! Não percebia o perigo que isso poderia significar. Mas o deleite que fez abrir em meus lábios um sorriso acalentador logo se fechou quando ela disse, séria:
--Precisamos conversar, Robert.
Aos jardins ela me levou e, ali, tensa, segurando uma mão na outra, tomou seu lugar. Entre confuso e preocupado, sentei-me ao seu lado e aguardei.
--Pois então, mulher. Diga.
Evitando encontrar o meu olhar, ela disse:
--Estou grávida.
Senti meus dedos gelarem e minha face empalidecer. Assenti, prontamente compreendendo o que significava. Como ela havia demorado a conceber, pensei que haveria esperança. Cheguei mesmo a iludir minha tolice e pensar que meu pai a rejeitaria e logo nos casaríamos.
--Como tem certeza?--eu me ouvi perguntar.
Catelyn levantou os olhos e disse, ao tomar minhas mãos nas suas:
--Não sangro há três meses. Eu não queria contar... mas seu pai descobriu porque uma serva lho contou.
Como ela não quis se aprofundar nesta questão, eu não perguntei. Para o leitor curioso, no entanto, explico: meu pai era ciumento e percebeu que a sra Catelyn passava muito de seu tempo comigo. Estranhava, desta maneira, porque sua esposa não concebia e assim esforçou-se por nos manter separados, colocando ainda mais esforço em deitar-se com ela todas as noites, após o jantar. Para seguir a mulher que ele não confiava, tendo se tornado um homem paranoico e controlador, ele comprou alguma das empregadas do castelo para segui-la. E foi assim que ele teria a certeza de que foi ele quem engravidou a senhora sua esposa e não o filho que ele repugnava.
--Sinto muito--eu disse, sentindo-me sem reação.
--Não, eu que deveria sentir porque...--e, inesperadamente, olhou-me dentro dos olhos e sussurrou--eu o amo, Robert.
Palavras tão doces, porém tão amargas. Lembro-me de outro poema que escrevi, após esta ocasião:
'Vênus desceu acá
Em seu seio me tomou
Prometeu me ensinar
A Amar
Recitou-me a docitude do amor
Mas não me preparou para a dor
Como em Troia,
Iludiu um príncipe no ardor
Deixando-o em torpor
De fato Vênus me levou
Àquela que o destino me roubou
De olhos azuis como o céu
Jamais esquecerei
Aquilo que me tornei
Sim, amei
Quem não devia
Tolo, temia
As ações de outros
Por ela, guerrearia
Faltou-me coragem todavia
Pois que dever de um homem
Supre o amor de uma mulher
Contra os anseios de Vênus
Tomo as armas de Marte
E sigo em parte
Desolado, sob à vontade
Dos deuses que me aparte
Dela que eu amei...'
Seria egoísmo meu clamar aquele amor professado a mim. Friamente, me sobrepus às minhas paixões e percebi que não detinha qualquer direito em retornar aquele sentimento. Sim, nos amávamos, mas ela não era minha esposa e ainda que meu pai não respeitasse o matrimônio (eu já estava ciente de que deitava com outras moças), não poderia agir de similar forma.
Penso que poderia poupar o leitor de dramas do gênero, mas estou ciente de que é isto que o faz suspirar como em tantas novelas desse estilo. Apesar disto, não foi uma ficção aquilo que vivi. Antes fosse! O separar de partes que amam nunca é fácil, ao contrário, é doloroso. Hoje em dia, vejo que as mentalidades humanas avançaram o suficiente para permitir que o amor prevaleça sobre as leis dos homens, completamente materialistas e mesquinhas. Não vou me aprofundar mais, mas é uma observação que pensei ser importante constatar.
Em resumo, direi que se prosseguiu da seguinte forma:
--Não posso estar com você, senhora Catelyn, por pior que seja de mim pronunciar isso. Pensará mal de mim e lamento que assim seja, mas é a esposa de meu pai e tomá-la dele seria cometer sacrilégio diante dos deuses.
--Vênus foi a responsável por unir Páris e Helena--ela retrucou;
Sorri-lhe, embora nenhuma alegria estivesse neste sorriso.
--Como foi graças à ela que os gregos e troianos se opuseram em ferrenha guerra. Já me basta a rejeição paterna, não ousarei alimentar seu ódio.
--Gostaria de ter sua frieza para lidar com as formas--disse-me Catelyn, magoada.
--Não, não gostaria. Sinto que esteja infeliz, mas seu filho em breve nascerá e ocupará sua vida quando me for--eu a assegurei--Não nutra por mim rancor, é o que peço.
Aquela senhora nunca cessava de surpreender-me e, apesar de possuir temperamento de um espírito livre, era sábia para o tempo em que vivíamos.
--Meu coração se parte, é verdade, mas não posso culpá-lo pela sensatez com a qual conduz essa tempestade que os deuses nos uniram. Não por isso, não carrego nenhum arrependimento por tê-lo amado. Sei que me amou ao seu jeito.
Engoli em seco e não a encarei, mas Catelyn, vendo que em minhas faces surgiam lágrimas, tomou em suas delicadas mãos as minhas tão brutas.
--Não se culpe, meu senhor. Os deuses foram bondosos em ter amenuado as dificuldades da vida, pois qual homem teria encontrado amor puro de uma mulher e qual mulher haveria de ser amada sem nada em troca por um homem?
Levei sua mão aos lábios e a beijei.
--Perdoe-me...--eu murmurei, mas a senhora de cabelos emaranhados e olhos como o gelo já havia muito compreendido o que me faltava a sabedoria de então.
--Não há nada a ser perdoado. Está tudo bem, meu querido Robert.
No entanto, nossos corações sangravam e à cada noite, pranteávamos por aquilo que não poderíamos ter: o amor que um nutria pelo outro. Na manhã seguinte, me preparava para partir rumo à Londonum, mas meu pai não permitiu. Quis ele que eu permanecesse até o nascimento do bebê, a fim de certificar de que as coisas correriam seguindo sua vontade. Como filho obediente, aquiesci. No final, contava dezessete primaveras quando outro menino robusto nascera. Chamarei-o de Ambrosius. Não o conheci bem, admito, porque não era da vontade divina que nós cumpríssemos missão juntos. Com isso, parti enfim e não voltaria mais àquela região de Gales.
* * *
A jornada à Londonum seria longa, exaustiva e longe de ser tranquila. Acompanhavam-me um escudeiro e um pajem. Em seu rancor a mim dirigido, meu pai não quis me conceder alguns soldados para me seguir ao sul da Britânia já que eu era apenas sua ligação com o passado que não verteu no futuro glorioso que almejava. Com o nascimento de Ambrosius, eu tampouco lho seria útil uma vez que não possuía mais herança. Mas a senhora Catelyn, cumpridora de seus deveres, intercedeu por mim e encheu meus bolsos de ouro, dando-me sua adaga dourada com inscrição em latim enquanto um de seus homens de confiança me cedeu sua espada. Não achava que era merecedor de nada daquilo, mas penso que isso era mais orgulho do que humildade. À época, ansiava por cumprir com meu destino, mas como seria útil em fazê-lo se morresse? Precisava me defender. Mas ressentia-me ainda de meu pai, por isso agi defensivamente.
No mais, como dizia, tomei as estradas com dois homens que me afeiçoaria no decorrer da minha vida. Vou dar os seguintes nomes, agora mais "estranhos" à visão moderna e, segundo alguns leitores, mais apropriadas ao meu tempo. O pajem atendia pelo nome de Uhtred enquanto o escudeiro gostava de ser chamado de Julius. Um era demasiadamente nortenho enquanto o outro orgulhosamente romano. Que mistura!
Pois bem. Uhtred era um ano mais novo que eu e, se não me falha a memória, era alguns centímetros mais baixo que eu. Seu cabelo era de cor areosa, tinha um comprimento curto, porém dava a impressão de estar constantemente sujo. Seu rosto também não era muito limpo, embora seu semblante dava-lhe o ar de simpatia, concedendo um carisma surpreendente para um camponês. Seus olhos eram de um verde acastanhado e o nariz era torto porque, segundo me contou, quando jovem apanhou do irmão mais velho. Os lábios carregavam uma cicatriz, e creio que a impressão que dará ao leitor era de que estamos falando de um brigão nato. Não saberia dizer se tal é certa ou errada, já que Uthred era quieto, tímido, embora se provocado... provaria ser um excelente espadachim. Usava roupas para a época e creio que meu vocabulário aqui seja limitado para a descrição destas vestimentas. Estou ciente de que o instrumento de busca contemporânea que, segundo me consta, se chama internet, poderá ajudar aos que estiveram ansiosos em visualizar melhor meu caro companheiro.
Quanto ao escudeiro romano, Julius veio de uma família de Gwynedd que acompanhou minha mãe na ocasião de seu casamento com meu pai há tantos e tantos anos atrás. Seu pai servia bem o meu, e minha mãe insistia para que fôssemos criados juntos. Nossa ligação é natural de outras vivências, digo. Se não me falha a memória, chegamos mesmo a servir sob o comando do general, rei persa Cyrus o "grande". Enfim. A belicosidade não nos havia abandonado, como podem perceber. De todo modo, Julius era mais ou menos da minha altura, alto para a idade. Era dois anos mais velho que eu e tinha sido treinado pelo mesmo tutor militar de meu irmão John. Seus cabelos eram um emaranhado de cachos negros e sua pele só não era tão branca porque vivia exposto ao sol. Gostava de trabalhar com cavalos quando não treinava com espadas, ou lhe faltava missões enquanto escudeiro. Assim como Uhtred, era militar por natureza cujo temperamento não era recomendado provocar. Sua única falta era a bebida. Anos mais tarde, quando eu detinha corte, o reprovei por sua conduta infeliz ao ter-se excedido na cerveja e provocado uma confusão desnecessária entre meus homens. Por ora, mantinha um olho fechado a esta falta. Podia-se dizer que Julius era belo e característicamente romano, apesar dos cachos negros. Seu nariz era tipicamente romano, e as bochechas altas em conjunto com o rosto fino, também. Sua aparência dava-lhe mais idade do que dezenove verões. Em seu corpo, vestia armadura tipicamente romana.
Penso que poderia poupar o leitor de dramas do gênero, mas estou ciente de que é isto que o faz suspirar como em tantas novelas desse estilo. Apesar disto, não foi uma ficção aquilo que vivi. Antes fosse! O separar de partes que amam nunca é fácil, ao contrário, é doloroso. Hoje em dia, vejo que as mentalidades humanas avançaram o suficiente para permitir que o amor prevaleça sobre as leis dos homens, completamente materialistas e mesquinhas. Não vou me aprofundar mais, mas é uma observação que pensei ser importante constatar.
Em resumo, direi que se prosseguiu da seguinte forma:
--Não posso estar com você, senhora Catelyn, por pior que seja de mim pronunciar isso. Pensará mal de mim e lamento que assim seja, mas é a esposa de meu pai e tomá-la dele seria cometer sacrilégio diante dos deuses.
--Vênus foi a responsável por unir Páris e Helena--ela retrucou;
Sorri-lhe, embora nenhuma alegria estivesse neste sorriso.
--Como foi graças à ela que os gregos e troianos se opuseram em ferrenha guerra. Já me basta a rejeição paterna, não ousarei alimentar seu ódio.
--Gostaria de ter sua frieza para lidar com as formas--disse-me Catelyn, magoada.
--Não, não gostaria. Sinto que esteja infeliz, mas seu filho em breve nascerá e ocupará sua vida quando me for--eu a assegurei--Não nutra por mim rancor, é o que peço.
Aquela senhora nunca cessava de surpreender-me e, apesar de possuir temperamento de um espírito livre, era sábia para o tempo em que vivíamos.
--Meu coração se parte, é verdade, mas não posso culpá-lo pela sensatez com a qual conduz essa tempestade que os deuses nos uniram. Não por isso, não carrego nenhum arrependimento por tê-lo amado. Sei que me amou ao seu jeito.
Engoli em seco e não a encarei, mas Catelyn, vendo que em minhas faces surgiam lágrimas, tomou em suas delicadas mãos as minhas tão brutas.
--Não se culpe, meu senhor. Os deuses foram bondosos em ter amenuado as dificuldades da vida, pois qual homem teria encontrado amor puro de uma mulher e qual mulher haveria de ser amada sem nada em troca por um homem?
Levei sua mão aos lábios e a beijei.
--Perdoe-me...--eu murmurei, mas a senhora de cabelos emaranhados e olhos como o gelo já havia muito compreendido o que me faltava a sabedoria de então.
--Não há nada a ser perdoado. Está tudo bem, meu querido Robert.
No entanto, nossos corações sangravam e à cada noite, pranteávamos por aquilo que não poderíamos ter: o amor que um nutria pelo outro. Na manhã seguinte, me preparava para partir rumo à Londonum, mas meu pai não permitiu. Quis ele que eu permanecesse até o nascimento do bebê, a fim de certificar de que as coisas correriam seguindo sua vontade. Como filho obediente, aquiesci. No final, contava dezessete primaveras quando outro menino robusto nascera. Chamarei-o de Ambrosius. Não o conheci bem, admito, porque não era da vontade divina que nós cumpríssemos missão juntos. Com isso, parti enfim e não voltaria mais àquela região de Gales.
* * *
A jornada à Londonum seria longa, exaustiva e longe de ser tranquila. Acompanhavam-me um escudeiro e um pajem. Em seu rancor a mim dirigido, meu pai não quis me conceder alguns soldados para me seguir ao sul da Britânia já que eu era apenas sua ligação com o passado que não verteu no futuro glorioso que almejava. Com o nascimento de Ambrosius, eu tampouco lho seria útil uma vez que não possuía mais herança. Mas a senhora Catelyn, cumpridora de seus deveres, intercedeu por mim e encheu meus bolsos de ouro, dando-me sua adaga dourada com inscrição em latim enquanto um de seus homens de confiança me cedeu sua espada. Não achava que era merecedor de nada daquilo, mas penso que isso era mais orgulho do que humildade. À época, ansiava por cumprir com meu destino, mas como seria útil em fazê-lo se morresse? Precisava me defender. Mas ressentia-me ainda de meu pai, por isso agi defensivamente.
No mais, como dizia, tomei as estradas com dois homens que me afeiçoaria no decorrer da minha vida. Vou dar os seguintes nomes, agora mais "estranhos" à visão moderna e, segundo alguns leitores, mais apropriadas ao meu tempo. O pajem atendia pelo nome de Uhtred enquanto o escudeiro gostava de ser chamado de Julius. Um era demasiadamente nortenho enquanto o outro orgulhosamente romano. Que mistura!
Pois bem. Uhtred era um ano mais novo que eu e, se não me falha a memória, era alguns centímetros mais baixo que eu. Seu cabelo era de cor areosa, tinha um comprimento curto, porém dava a impressão de estar constantemente sujo. Seu rosto também não era muito limpo, embora seu semblante dava-lhe o ar de simpatia, concedendo um carisma surpreendente para um camponês. Seus olhos eram de um verde acastanhado e o nariz era torto porque, segundo me contou, quando jovem apanhou do irmão mais velho. Os lábios carregavam uma cicatriz, e creio que a impressão que dará ao leitor era de que estamos falando de um brigão nato. Não saberia dizer se tal é certa ou errada, já que Uthred era quieto, tímido, embora se provocado... provaria ser um excelente espadachim. Usava roupas para a época e creio que meu vocabulário aqui seja limitado para a descrição destas vestimentas. Estou ciente de que o instrumento de busca contemporânea que, segundo me consta, se chama internet, poderá ajudar aos que estiveram ansiosos em visualizar melhor meu caro companheiro.
Quanto ao escudeiro romano, Julius veio de uma família de Gwynedd que acompanhou minha mãe na ocasião de seu casamento com meu pai há tantos e tantos anos atrás. Seu pai servia bem o meu, e minha mãe insistia para que fôssemos criados juntos. Nossa ligação é natural de outras vivências, digo. Se não me falha a memória, chegamos mesmo a servir sob o comando do general, rei persa Cyrus o "grande". Enfim. A belicosidade não nos havia abandonado, como podem perceber. De todo modo, Julius era mais ou menos da minha altura, alto para a idade. Era dois anos mais velho que eu e tinha sido treinado pelo mesmo tutor militar de meu irmão John. Seus cabelos eram um emaranhado de cachos negros e sua pele só não era tão branca porque vivia exposto ao sol. Gostava de trabalhar com cavalos quando não treinava com espadas, ou lhe faltava missões enquanto escudeiro. Assim como Uhtred, era militar por natureza cujo temperamento não era recomendado provocar. Sua única falta era a bebida. Anos mais tarde, quando eu detinha corte, o reprovei por sua conduta infeliz ao ter-se excedido na cerveja e provocado uma confusão desnecessária entre meus homens. Por ora, mantinha um olho fechado a esta falta. Podia-se dizer que Julius era belo e característicamente romano, apesar dos cachos negros. Seu nariz era tipicamente romano, e as bochechas altas em conjunto com o rosto fino, também. Sua aparência dava-lhe mais idade do que dezenove verões. Em seu corpo, vestia armadura tipicamente romana.
Aqueles eram os meus confiados amigos e protetores. Juntos, atravessamos florestas, rezamos aos deuses, parávamos em ocasionais tavernas para nos hospedar. Certa vez, uma senhora gorducha, diante da moeda de ouro que lhe dava, exclamou:
--Meu caro senhor! Para alguém como vós, há uma taverna melhor e mais adequada que a minha!
Ri.
--Nobre senhora, não procuro por comodidades e creio que sua hospitalidade é melhor do que esperava receber com meus caros irmãos.
A saída de Gales rumo à Britânia só não seria problemática porque Julius, tipicamente romano em vestes e maneiras, passou uma imagem de respeito aos oficiais romanos quando cruzamos a fronteira. Não atraíamos problemas até então, mas ao nos depararmos com uma região inteiramente nova para nós... Seria apenas uma questão de tempo.
Permita-me situá-lo, nobre leitor. A Britânia foi uma região que, atualmente em vossos dias, é conhecida pelo nome de Inglaterra. À minha época, assim era chamada em decorrência do terreno ocupado pelos celtas, povo místico e, segundo dizem, de origem "extra-terrestre" que não deixou quase nada registrado no papel porque não se interessavam pela escrita. Antes do domínio do Império Romano sobre este território, os celtas se distinguiam uns de outros conforme as tribos que ocupavam o norte, o sul, o leste e o oeste. Mesmo à oeste, parte de Gales fundia-se às terras "inglesas". Não obstante, guerreavam entre si e não compartilhavam sequer a mesma língua.
Desta maneira, sua dispersão e a falta de uma unidade autoritária complexa e centrada permitiram que fossem dominados pelos romanos. Apesar das diversas rebeliões daquele povo, a mais conhecida liderada pela ruiva Bodicea, seus inimigos foram implacáveis. Os celtas que não se esconderam ou não viam outra opção a se render, ou mesmo a morrer por sua fé, pelo estilo de vida que marcou sua existência, fugiram para onde hoje em dia se situa a Irlanda.
Dito isso, por muitos anos, décadas e séculos, os Imperadores de Roma eram também autoridade suprema dessa ilha que chamavam de Britânia. Muitos de seus costumes, hábitos e língua substituíram a cultura cética, embora nas florestas ainda existissem resquícios de cultos antigos, nos rios e nas pedreiras também... Não tão diferente quanto a valorização da natureza pelo que chamais de umbanda em vossos dias, guardadas as diferentes proporções, é claro. Como dizia, a Britânia Romana era dominada por centuriões, governadores e outros tantos tipos de homens gananciosos que não aceitavam ser contraditos em ordens. Para os próprios romanos, aquela região era bárbara e desprezavam inteiramente. Já na minha época, começaram a debandar para Roma porque não "suportavam aquela selvageria". Pensais que os celtas voltariam? Oh, não. Eles se foram havia muito! Mas eu logo descobriria que do leste europeu (para melhor entendimento do leitor, já que naqueles tempos não se possuía a mesma noção geográfica de agora), viriam outros tipos de conquistadores. Em região onde hoje em dia chamais por Alemanha, havia tribos descendentes dos celtas de que falei e que em quatrocentos anos mais tarde dariam origem aos "temidos" vikings. Da Jutlândia, de sub-regiões da Saxônia e dos Andes (ou Angles), viriam aqueles que, do século VI em diante formariam os reinos anglo-saxões. Por ora, entretanto, bandos daqueles lugares vinham como mercenários a fim de derrubar os reminiscentes romanos.
Voltando à memória, estávamos eu e meus dois amigos, Uhtred e Julius, a caminho de Londonum quando fomos forçados à parar numa região que atualmente é chamada de Northumberland. Lamento que o detalhe de seu nome original me fuja agora, mas seu nome moderno engloba menos cidades e condados do que em meus dias. Northumberland um dia viria a ser potente reino da Britânia (que, não muito tempo mais tarde, seria renomeada para Angla-Landa, ou seja: terra dos anglos. Angla-Landa seria logo Angland, portanto, England que, em vosso português, traduziu-se para Inglaterra). Condes germânicos já se infiltravam num meio que, até então, era dominado por romanos. Diferentes línguas marcavam aquela região. A estrada era cheia de pedras e as construções, bastante precárias.
Ao chegarmos no centro de Northumberland, um dos guardas nos havia parado. Como havia visto um broche de uma água dourada sobre a capa que usava, logo concedeu que era rico. Mas a desconfiança ainda estava em seu rosto porque eu vinha acompanhado de dois rapazes, um dos quais se vestia, segundo sua visão, como um pobre e miserável camponês, e o outro apropriadamente romano. Diante da dúvida no olhar com o qual me avaliava, falei:
--Chameis-me de Robert, senhor. Venho de região de Gales. Meu pai é o rei de lá, mas quis me enviar à Londonum para me fazer sacerdote de Minerva.
--Minerva, eh? Não creio que seja uma deusa favorável ao sul, mas quem sou eu para questionar a vontade dos deuses?--ele pareceu convencido, e não haveria de ser o contrário posto que falava a verdade--Mas meu senhor Romulo gostaria de recebê-lo antes de conceder-lhe partida, senhor, já que é filho deste rei que falaste.
Ignorei a troca de olhares entre Uhtred e Julius e assenti:
--É claro. A hospitalidade é uma ótima qualidade àquele que recebe os viajantes.
Com isso também quis dizer que aquele que traísse o princípio de receber bem um estranho a sua casa, seria castigado pelos deuses. Em outras palavras, a hospitalidade era tanto um direito daquele que viajava quanto um dever do governante da região. Os romanos levavam isso a sério: dos contos gregos, diziam o que aconteceria àquele que desrespeitasse esta lei e cometesse um ato contra a vida daquele que recebia em sua casa, mesmo sendo um inimigo. Da mesma maneira o contrário aconteceria se o convidado desrespeitasse as leis da casa que o acolhesse.
O soldado fez com a cabeça que entendia o que queria dizer e assim nos levou a uma grande casa de pedras onde fomos recebidos por um homem em vestes romanas ao lado de uma bela mulher que seguia a moda de outrora. Não me ocuparei descrevendo-os porque foi uma breve visita de fato, e não tão merecedora para este "conto" aqui, já que venho me prolongando mais do que pretendia e não gostaria de cansá-los demasiadamente.
O senhor romano, Tulius era seu nome, nos tratou bem. A mim, especificamente, porque era da realeza. A Uhtred, fingiu que não existia, e a Julius, um aceno de aprovação por portar-se como um centurião. Falou bastante de Roma, como de praxe, e ouviu de mim histórias de Gales, região que ele, sem pudor nenhum, pensava ser tão selvagem quanto Britânia. O pré-conceito não é apenas um problema da contemporaneidade, caros leitores, ele sempre existiu, lamento dizer.
Apesar de sua arrogância, suas maneiras eram impecáveis e até mesmo louváveis. Um ministrel performou uma melodia enquanto eu e meus companheiros nos alimentávamos. Contei de minha missão em Londonum, e, coincidência ou não (sabemos que tal não existe para a espiritualidade), a senhora sua esposa, a quem chamarei de Ursula, era devota de Minerva e convenceu o marido de que nossa visita era bênção da deusa. Sendo assim, o supersticioso Tulius nos concedeu uma guarda adequada à Londonum. Na manhã seguinte, partimos.
* * *
Era inverno quando eu, Uhtred e Julius, acompanhados de quarenta centuriões romanos, tomamos a estrada do norte para o sul. Devido a estação, passamos sem problemas, mas ainda assim... estava com um mau pressentimento. Pressentia em meu íntimo que meu protetor (como chamais, anjo da guarda) se comunicava comigo. Um alerta. De quê, porém? Como o ser falho que era (ainda sou, não é mesmo?), não concedi atenção.
E a paz que havia me seguido até então prontamente me abandonou. Já mencionei que havia celtas reminiscentes que viviam escondidos, alguns mesmo em suas florestas sagradas. Antes do ataque que deles sofreríamos, Uhtred comentou:
--Dizem que o velho povo habita as montanhas.
--Eles foram dizimados pelos romanos--retrucou Julius.
--A maioria, é verdade--concedeu o outro--Mas há sempre sobreviventes. Ouvi dizer na noite passada que os vingativos não dormem. Não aceitam que suas tradições tenham sido roubadas, que suas árvores foram queimadas, e que suas esposas foram escravizadas.
Um arrepio tomou conta de meu corpo.
--Na guerra, não há para onde fugir--comentou Julius.
--Seria mesmo necessário invadir assim?--indagou Uhtred.
--Os homens almejam a guerra porque vivem para ela--respondi, enfim--E, infelizmente, vivemos em tempos que ela nos seja necessária. Como proceder quando a desconfiança impera de um lado quanto o outro?
Aquela conversa não chegaria a uma conclusão porque homens de corpos pintados em cores coloridas e misturas levantavam seus arcos e atiravam-nos flechas. Nossos cavalos relincharam, mas os centuriões prontamente se colocaram a nossa defesa. O bando aumentou, entretanto, e por um minuto que parecia uma eternidade, constatei que estávamos em menor número.
Desmontei do cavalo e pedi a Uhtred que protegesse o animal, mas sem com isso que lhe desprotegesse. O rapaz fechou a cara e seu espírito guerreiro tomou conta de si. Enquanto isso, eu e Julius desembainhávamos nossas espadas e corremos de encontro aos nossos atacantes.
Fazia frio naquele dia, mas nenhum casaco de pele de animal era suficiente para competir com a adrenalina que, como o fogo, verdadeiramente queimava nossos corpos. Lutávamos para sobreviver. Mesmo hoje em dia não consigo enxergar outra opção. O diálogo teria sido viável? Mas de que maneira se não falávamos a mesma língua? Era defender ou morrer, e ninguém estava preparado para a última ocasião. Não os culpo, porém. Uhtred tinha razão ao ter dito que os celtas guardavam rancor dos romanos. Eu não pertencia a nenhum dos dois grupos, embora de meus pais tivesse sangue celta, por certo. De todo modo, no final das contas, nós os vencemos. Aço possuía vantagem sobre a madeira do arco e de sua outra arma não era poderosa a nos enfrentar. No curso da humanidade, a tecnologia bélica supera sua anterior e dificilmente é por ela barrada. Há, claro, casos em que uma flechada foi mais eficaz que pólvora, mas não é uma regra.
Perdi neste dia dez de meus homens. Trinta centuriões estavam ao meu lado. Mudaram a posição para me proteger e, não vou negar, senti-me envergonhadamente como um rei. Mas prevaleceu o sentimento de gratidão porque aqueles estranhos se dispuseram a me proteger, a mim e aos meus rapazes.
--Uma pena que eles tenham morrido--comentei, quando prosseguimos na estrada. O céu escurecia cada mais e não víamos uma taverna para nos hospedar.
--Era nós ou eles--pontuou o belicoso Julius.
Sorri.
--Ninguém gostaria de morrer, imagino.
--Mas isso pontua o que eu disse antes--insistiu Uhtred--De que tudo isso poderia ser evitado se...
Mas o interrompi.
--Não fará bem revisitar o passado--falei--Tudo aconteceu segundo as fortunas dos deuses. Não me encare assim, Uhtred. Sabe que falo a verdade.
--Perdoe-me, senhor, mas...
A verdade é que Uhtred em outra vida foi um celta. Era natural que se ressentisse, mas insisti que não faria bem olhar para o que já aconteceu. Não detínhamos poder em mudar o imutável. Por outro lado, falei, havia a possibilidade de escrever um novo futuro.
--O senhor é muito sábio--admirou-se Uhtred.
--Meu caro senhor! Para alguém como vós, há uma taverna melhor e mais adequada que a minha!
Ri.
--Nobre senhora, não procuro por comodidades e creio que sua hospitalidade é melhor do que esperava receber com meus caros irmãos.
A saída de Gales rumo à Britânia só não seria problemática porque Julius, tipicamente romano em vestes e maneiras, passou uma imagem de respeito aos oficiais romanos quando cruzamos a fronteira. Não atraíamos problemas até então, mas ao nos depararmos com uma região inteiramente nova para nós... Seria apenas uma questão de tempo.
Permita-me situá-lo, nobre leitor. A Britânia foi uma região que, atualmente em vossos dias, é conhecida pelo nome de Inglaterra. À minha época, assim era chamada em decorrência do terreno ocupado pelos celtas, povo místico e, segundo dizem, de origem "extra-terrestre" que não deixou quase nada registrado no papel porque não se interessavam pela escrita. Antes do domínio do Império Romano sobre este território, os celtas se distinguiam uns de outros conforme as tribos que ocupavam o norte, o sul, o leste e o oeste. Mesmo à oeste, parte de Gales fundia-se às terras "inglesas". Não obstante, guerreavam entre si e não compartilhavam sequer a mesma língua.
Desta maneira, sua dispersão e a falta de uma unidade autoritária complexa e centrada permitiram que fossem dominados pelos romanos. Apesar das diversas rebeliões daquele povo, a mais conhecida liderada pela ruiva Bodicea, seus inimigos foram implacáveis. Os celtas que não se esconderam ou não viam outra opção a se render, ou mesmo a morrer por sua fé, pelo estilo de vida que marcou sua existência, fugiram para onde hoje em dia se situa a Irlanda.
Dito isso, por muitos anos, décadas e séculos, os Imperadores de Roma eram também autoridade suprema dessa ilha que chamavam de Britânia. Muitos de seus costumes, hábitos e língua substituíram a cultura cética, embora nas florestas ainda existissem resquícios de cultos antigos, nos rios e nas pedreiras também... Não tão diferente quanto a valorização da natureza pelo que chamais de umbanda em vossos dias, guardadas as diferentes proporções, é claro. Como dizia, a Britânia Romana era dominada por centuriões, governadores e outros tantos tipos de homens gananciosos que não aceitavam ser contraditos em ordens. Para os próprios romanos, aquela região era bárbara e desprezavam inteiramente. Já na minha época, começaram a debandar para Roma porque não "suportavam aquela selvageria". Pensais que os celtas voltariam? Oh, não. Eles se foram havia muito! Mas eu logo descobriria que do leste europeu (para melhor entendimento do leitor, já que naqueles tempos não se possuía a mesma noção geográfica de agora), viriam outros tipos de conquistadores. Em região onde hoje em dia chamais por Alemanha, havia tribos descendentes dos celtas de que falei e que em quatrocentos anos mais tarde dariam origem aos "temidos" vikings. Da Jutlândia, de sub-regiões da Saxônia e dos Andes (ou Angles), viriam aqueles que, do século VI em diante formariam os reinos anglo-saxões. Por ora, entretanto, bandos daqueles lugares vinham como mercenários a fim de derrubar os reminiscentes romanos.
Voltando à memória, estávamos eu e meus dois amigos, Uhtred e Julius, a caminho de Londonum quando fomos forçados à parar numa região que atualmente é chamada de Northumberland. Lamento que o detalhe de seu nome original me fuja agora, mas seu nome moderno engloba menos cidades e condados do que em meus dias. Northumberland um dia viria a ser potente reino da Britânia (que, não muito tempo mais tarde, seria renomeada para Angla-Landa, ou seja: terra dos anglos. Angla-Landa seria logo Angland, portanto, England que, em vosso português, traduziu-se para Inglaterra). Condes germânicos já se infiltravam num meio que, até então, era dominado por romanos. Diferentes línguas marcavam aquela região. A estrada era cheia de pedras e as construções, bastante precárias.
Ao chegarmos no centro de Northumberland, um dos guardas nos havia parado. Como havia visto um broche de uma água dourada sobre a capa que usava, logo concedeu que era rico. Mas a desconfiança ainda estava em seu rosto porque eu vinha acompanhado de dois rapazes, um dos quais se vestia, segundo sua visão, como um pobre e miserável camponês, e o outro apropriadamente romano. Diante da dúvida no olhar com o qual me avaliava, falei:
--Chameis-me de Robert, senhor. Venho de região de Gales. Meu pai é o rei de lá, mas quis me enviar à Londonum para me fazer sacerdote de Minerva.
--Minerva, eh? Não creio que seja uma deusa favorável ao sul, mas quem sou eu para questionar a vontade dos deuses?--ele pareceu convencido, e não haveria de ser o contrário posto que falava a verdade--Mas meu senhor Romulo gostaria de recebê-lo antes de conceder-lhe partida, senhor, já que é filho deste rei que falaste.
Ignorei a troca de olhares entre Uhtred e Julius e assenti:
--É claro. A hospitalidade é uma ótima qualidade àquele que recebe os viajantes.
Com isso também quis dizer que aquele que traísse o princípio de receber bem um estranho a sua casa, seria castigado pelos deuses. Em outras palavras, a hospitalidade era tanto um direito daquele que viajava quanto um dever do governante da região. Os romanos levavam isso a sério: dos contos gregos, diziam o que aconteceria àquele que desrespeitasse esta lei e cometesse um ato contra a vida daquele que recebia em sua casa, mesmo sendo um inimigo. Da mesma maneira o contrário aconteceria se o convidado desrespeitasse as leis da casa que o acolhesse.
O soldado fez com a cabeça que entendia o que queria dizer e assim nos levou a uma grande casa de pedras onde fomos recebidos por um homem em vestes romanas ao lado de uma bela mulher que seguia a moda de outrora. Não me ocuparei descrevendo-os porque foi uma breve visita de fato, e não tão merecedora para este "conto" aqui, já que venho me prolongando mais do que pretendia e não gostaria de cansá-los demasiadamente.
O senhor romano, Tulius era seu nome, nos tratou bem. A mim, especificamente, porque era da realeza. A Uhtred, fingiu que não existia, e a Julius, um aceno de aprovação por portar-se como um centurião. Falou bastante de Roma, como de praxe, e ouviu de mim histórias de Gales, região que ele, sem pudor nenhum, pensava ser tão selvagem quanto Britânia. O pré-conceito não é apenas um problema da contemporaneidade, caros leitores, ele sempre existiu, lamento dizer.
Apesar de sua arrogância, suas maneiras eram impecáveis e até mesmo louváveis. Um ministrel performou uma melodia enquanto eu e meus companheiros nos alimentávamos. Contei de minha missão em Londonum, e, coincidência ou não (sabemos que tal não existe para a espiritualidade), a senhora sua esposa, a quem chamarei de Ursula, era devota de Minerva e convenceu o marido de que nossa visita era bênção da deusa. Sendo assim, o supersticioso Tulius nos concedeu uma guarda adequada à Londonum. Na manhã seguinte, partimos.
* * *
Era inverno quando eu, Uhtred e Julius, acompanhados de quarenta centuriões romanos, tomamos a estrada do norte para o sul. Devido a estação, passamos sem problemas, mas ainda assim... estava com um mau pressentimento. Pressentia em meu íntimo que meu protetor (como chamais, anjo da guarda) se comunicava comigo. Um alerta. De quê, porém? Como o ser falho que era (ainda sou, não é mesmo?), não concedi atenção.
E a paz que havia me seguido até então prontamente me abandonou. Já mencionei que havia celtas reminiscentes que viviam escondidos, alguns mesmo em suas florestas sagradas. Antes do ataque que deles sofreríamos, Uhtred comentou:
--Dizem que o velho povo habita as montanhas.
--Eles foram dizimados pelos romanos--retrucou Julius.
--A maioria, é verdade--concedeu o outro--Mas há sempre sobreviventes. Ouvi dizer na noite passada que os vingativos não dormem. Não aceitam que suas tradições tenham sido roubadas, que suas árvores foram queimadas, e que suas esposas foram escravizadas.
Um arrepio tomou conta de meu corpo.
--Na guerra, não há para onde fugir--comentou Julius.
--Seria mesmo necessário invadir assim?--indagou Uhtred.
--Os homens almejam a guerra porque vivem para ela--respondi, enfim--E, infelizmente, vivemos em tempos que ela nos seja necessária. Como proceder quando a desconfiança impera de um lado quanto o outro?
Aquela conversa não chegaria a uma conclusão porque homens de corpos pintados em cores coloridas e misturas levantavam seus arcos e atiravam-nos flechas. Nossos cavalos relincharam, mas os centuriões prontamente se colocaram a nossa defesa. O bando aumentou, entretanto, e por um minuto que parecia uma eternidade, constatei que estávamos em menor número.
Desmontei do cavalo e pedi a Uhtred que protegesse o animal, mas sem com isso que lhe desprotegesse. O rapaz fechou a cara e seu espírito guerreiro tomou conta de si. Enquanto isso, eu e Julius desembainhávamos nossas espadas e corremos de encontro aos nossos atacantes.
Fazia frio naquele dia, mas nenhum casaco de pele de animal era suficiente para competir com a adrenalina que, como o fogo, verdadeiramente queimava nossos corpos. Lutávamos para sobreviver. Mesmo hoje em dia não consigo enxergar outra opção. O diálogo teria sido viável? Mas de que maneira se não falávamos a mesma língua? Era defender ou morrer, e ninguém estava preparado para a última ocasião. Não os culpo, porém. Uhtred tinha razão ao ter dito que os celtas guardavam rancor dos romanos. Eu não pertencia a nenhum dos dois grupos, embora de meus pais tivesse sangue celta, por certo. De todo modo, no final das contas, nós os vencemos. Aço possuía vantagem sobre a madeira do arco e de sua outra arma não era poderosa a nos enfrentar. No curso da humanidade, a tecnologia bélica supera sua anterior e dificilmente é por ela barrada. Há, claro, casos em que uma flechada foi mais eficaz que pólvora, mas não é uma regra.
Perdi neste dia dez de meus homens. Trinta centuriões estavam ao meu lado. Mudaram a posição para me proteger e, não vou negar, senti-me envergonhadamente como um rei. Mas prevaleceu o sentimento de gratidão porque aqueles estranhos se dispuseram a me proteger, a mim e aos meus rapazes.
--Uma pena que eles tenham morrido--comentei, quando prosseguimos na estrada. O céu escurecia cada mais e não víamos uma taverna para nos hospedar.
--Era nós ou eles--pontuou o belicoso Julius.
Sorri.
--Ninguém gostaria de morrer, imagino.
--Mas isso pontua o que eu disse antes--insistiu Uhtred--De que tudo isso poderia ser evitado se...
Mas o interrompi.
--Não fará bem revisitar o passado--falei--Tudo aconteceu segundo as fortunas dos deuses. Não me encare assim, Uhtred. Sabe que falo a verdade.
--Perdoe-me, senhor, mas...
A verdade é que Uhtred em outra vida foi um celta. Era natural que se ressentisse, mas insisti que não faria bem olhar para o que já aconteceu. Não detínhamos poder em mudar o imutável. Por outro lado, falei, havia a possibilidade de escrever um novo futuro.
--O senhor é muito sábio--admirou-se Uhtred.
Eu ri, mas, de repente, lembrei-me dos cachos emaranhados da senhora Catelyn e uma tristeza repentina tirou dos meus lábios um breve sorriso.
--Não acho que seja, Uhtred. Longe disso.
E seguimos caminhando.
* * *
Demorou um ano até que chegássemos em nosso destino final. É verdade que fomos roubados uma única vez desde o ataque dos reminiscentes celtas, mas em seguida os deuses estenderam sua proteção a nós e se a ocasião dos ladrões ocorreu foi porque permitiram que assim fosse feito. Meus homens o derrotaram, apesar disso, e o tesouro foi recuperado. "Tesouro", se é que assim pode ser dito, eram minhas vestes e a comida que carregamos. Procurei oferecer-lhos as frutas que tínhamos, mas o derramamento de sangue já havia ocorrido.
Neste período que fiquei em Londonum até minha maturidade aos vinte e cinco anos foi o suficiente para instruir-me na magia e no seu bom uso. Não há muito o que contar aqui, seria muito enfadonho para vós, caríssimos leitores. No entanto, farei um resumo destes seis anos e meio em que fiquei lá. Um dos grandes sacerdotes romanos me adotou e por dois anos, nada nos atrapalhou. Londonum crescia em população, Uhtred e Julius faziam suas vidas, embora não tivessem, ainda, desposado moças e criado famílias. Liberei os centuriões de seu serviço, mas dez deles insistiram em permanecer ao meu lado, leais que eram. Recompensei-os por isso. Dos dezoito aos vinte, portanto, ampliei meu conhecimento na prática da cura. Compreendi a relação homem-natureza para além do divino. O sacerdote-mor uma vez me disse:
--Minerva, em sua sabedoria infinita, assim instruiu os homens: nós, os deuses, não gostaríamos de vê-lhos sofrer e padecer em infinitas enfermidades quando há inúmeras possibilidades de curarem-se e aos vossos irmãos. Se da natureza recolheis vossos alimentos, por que não dela se tirará a cura?
Aprendi bastante sobre plantas venenosas, as que eram curativas e quando, na cupidez da juventude, indaguei a relação de ser sacerdote quanto a instruir na arte da cura, o velho homem me explicou pacientemente:
--A prece nos liga ao divino, meu caro. Como falei, Minerva foi bondosa e misericordiosa ao recusar a morte de prato cheio ao homem. Permitiu iluminá-los a respeito de como curarem-se. E isto não é, pois, outra forma de nos aproximarmos dela? Que utilidade teríamos aos deuses se guardássemos o conhecimento para nós mesmos?
--Platão uma vez disse que os deuses vivem acima das vicissitudes dos homens.
--E ele está correto em sua concepção. Temos a infeliz mania de queremos ser mais sábios que os outros, possuidores de uma razão que pelos divinos sagrados mestres nos foi concedida. Como eles se equiparariam a nós, falhos humanos? Não há sentido.
Assim, me ia esclarecendo nestas questões. Porém, daí surgia em minha mente a seguinte questão: por que povos diferentes temiam tanto os mesmos deuses? O que os aprisionava? Reflexões me deixavam cada vez mais quieto e, quando tornava a analisar meu passado, encontrava respostas similares. Uhtred, o pajem que compartilhava muito das minhas tendências filosóficas mesmo sem acesso a instrução, esteve ao meu lado quando comentei:
--O que acha que causa nos homens a vontade de mandar, obedecer, reinar e matar? O que nos faz desejar a mulher inalcançável? Por que não nos contentamos com o que temos e pretendemos, dessa maneira, ir aonde não possamos alcançar?
--O poder corrompe as almas, senhor.
--E de onde surgiria esse poder, Uhtred?
--Da vontade de dominar o mais fraco, senhor.
--Mas por qual motivo?
--Insatisfação de si para consigo mesmo de modo a enxergar o semelhante como bárbaro para satisfazer suas vontades.
--A mente governa o corpo? Ou o corpo governa a mente?
Pensei que estávamos em um debate complexo para Uhtred, mas ele surpreendeu minha vaidade ao responder:
--A mente deveria governar o corpo, senhor.
--E por que isso não ocorre?
--Porque a mente é equilibrada, conquanto o corpo é animado por instintos. Para atingir o equilíbrio, precisamos satisfazer estes instintos que nos excitam. Muitos preferem o fácil ao difícil por este motivo.
--Sensato--comentei, aprovando-o--Penso o mesmo. A razão está para ser usada, mas se formos comparar os estudos de um príncipe, por exemplo, com a vontade de um rei, o que prevaleceria?
--A vontade do rei sobre os estudos do príncipe, senhor.
--E por que?
--Porque estudar exige disciplina, demanda tempo, o conhecimento não é adquirido de uma vez por todas. É um caminho constante. Disciplinar a mente pede que extingamos os instintos animalescos.
Sorri para Uthred.
--E por que os reis vão à guerra e se satisfazem com pouco?
--Porque o corpo dita sobre a mente na fuga, ou penso eu, do medo de responsabilizar-se de suas ações.
--Concorda, portanto, quando digo que o homem poderia se curar, mas pelo medo, prefere aquilo que o fere?
--Concordo, senhor.
--Pela lógica, aquilo que fere advém da carne sobre a mente porque os instintos pedem que minta para não enfrentar a verdade; mate, para não preservar a vida que o ensina às boas coisas; seduza, para que não se contente com a desilusão da matéria; e guerreie para não compreender que a paz, fora da carne, traria possibilidades de prosperidade mais calmas.
--De fato, senhor.
--Por que isso, eu vos pergunto, Uhtred?
--Pelo desequilíbrio da carne sobre o espírito, senhor. E isso é o que faz os homens temerem os deuses.
--Achais que os deuses são responsáveis pelas feridas que os homens causam sobre si, Uhtred?
--Não, senhor.
--Por que dizeis que as divindades são temidas? Não concorda que o fato de ser divino significa ter poderes, presença e qualidades infindáveis? Do contrário, não seria este divino humano? Afinal, o divino é belo e imortal, não é mesmo?
--Falais a verdade, senhor.
--Como o homem, falível e escravo de suas vontades, pode temer aquilo que, sendo belo, imortal e responsável por introduzir-lho a cura de si mesmo, não corresponde às suas vicissitudes? Não haveria de ser o contrário.
--É verdade, senhor.
--O homem pode ser curado pelos deuses, Uhtred?
--Creio que sim, senhor.
--Por que "crê" e não afirma com certeza?
Uhtred aqui hesitou, mas sorrio para ele.
--Concordamos até aqui que os deuses estão acima de nós porque, sendo tais, não possam compartilhar aquilo que nos faz, homens, falíveis e intoleráveis. Os vícios surgem porque a humanidade permite-se ser escravizada ao caminho mais fácil, que muita das vezes leva-a para a devassidão. Se os deuses são causadores de tudo isso, como muitos de nós se propõe a afirmar, por que eles nos ensinariam a cura? A natureza não é a nós sagrada?
--Sim, senhor.
--Portanto, Uthred, somos os responsáveis por escrever inverdades sobre estes deuses. Causamos sofrimentos a nós mesmos e uns aos outros porque assim quisemos. Ninguém guerreou com o vizinho por determinação de Marte. General nenhum planejou dominar uma província inocente porque sonhou com Minerva. Ninguém maltrata sua família porque Vênus lho prometeu uma melhor. Não é por medo de castigos que os homens cometem atrocidades assim, é por eles mesmos. No entanto, que escolha temos nós se somos atacados? Deveremos abraçar o ataque mesmo que tenhamos esta compreensão de que os deuses estão longe de ser imperfeitos como nós?
--Não, senhor. A vida foi inspirada por eles, e isso seria um disserviço.
--Exatamente. E é por isso, meu caro Uhtred, que devemos nos defender, sim, mas utilizando a razão. Não poderemos tratar os deuses como fazemos com nossos inimigos ou amigos. Agradeceremos, sim, e faremos nossas ofertas quando necessário. Não vos esqueceis que Minerva permitiu que os homens curassem uns aos outros e a si mesmos. Um deus vingativo não faria isso, não é mesmo?
Antes que percebesse, Julius estava conosco, ouvindo nossa conversa com um espanto evidente em nossa face. Ao seu lado, outros centuriões e mesmo o sacerdote-mor também se fazia presente. Com felicidade, o velho exclamou:
--Que fortunioso é ter-nos conosco, Robert de Gales!
Mas havia muito a aprender, e eu prezava muito pelo conhecimento.
* * *
Dos vinte aos vinte e três anos, prossegui com a educação mística. O estudo da cura tornava-me mais humilde e atento para os problemas da desigualdade que vivíamos. Os pobres eram ignorados pelos privilegiados, e morriam de sintomas que poderiam ser prevenidos se os físicos de outrora lhos concedessem atenção.
Ao mesmo tempo, Julius me convenceu, por certo através de inspiração divina, de que deveria expandir meu conhecimento para outras áreas.
--Senhor, tive um sonho com Marte! Escutai-me, por favor.
Sorri-lhe pacientemente, e dei-lho permissão a falar. Sonhos, quando analisados apropriadamente à luz da razão, são instrumentos poderosos que nos ligam ao mundo divino.
--Uma grande guerra ocorrerá. Derrubará impérios e tudo o que conhecia. Marte o favorece ao lado de Minerva. (Nota de Oxossi: a sabedoria e a guerra caminham juntos, por certo. Na analogia contemporânea, associa o leitor a quem?) E sereis coroado, meu senhor. Rei do Norte.
--Rei? Eu?--ri, mas não de desdém e sim de descrença.
--Sim, vós--ele afirmou prontamente e com seriedade.
Uhtred sorriu.
--Ele seria um bom rei, realmente. Militarmente capaz de defender seus protegidos e com senso de dever que faltam a muitos.
--Não falem besteiras, estou aqui a servir Minerva--retruquei.
Mas Julius estava convencido do que falava.
--Senhor, Minerva o quer rei.
Eu mal sabia que, para o bem ou mal, Julius estava correto. Seu sonho havia sido uma espécie de premonição, resultado de sua mediunidade de clarividência. Mas, teimoso, não quis aceitar. De todo o modo, os deuses tinham planos e não havia como fugir deles.
(Nota de Oxossi: vejam como a mediunidade era tão fluida nestes tempos, imaculada pelo excessivo ceticismo que hoje marca seus tempos. Não os chama atenção que, ao se referir a deuses como Minerva e Marte, está se tratando de guias espirituais que atuam sob esta linhagem? Atualmente, seria o mesmo que dizer que fulano é filho de Iansã e Ogum, e que seus guias vieram dar-lhos avisos. É uma analogia que poderia servir também para os que veem São Jorge e Santa Bárbara tomar a frente de suas batalhas, para quem determinados cristãos dirigem suas preces. Reflitam, jovens leitores.)
* * *
A grande guerra ocorreu, de fato. Mas isso foi somente quando me aproximava dos trinta verões. Antes disso, testemunhei invasões cada vez mais intensas de tribos "bárbaras", e pouco a pouco caía o domínio romano sobre a Britânia. Londonum sofreu bastante com isso, e houve uma curiosa ocasião onde conheci um romano chamado Vertigern.
Em uma das rebeliões, este rapaz veio consultar-se com o sacerdote-mor de Minerva, a quem vinha servindo desde os dezoito anos segundo a vontade de minha finada e amada mãe. Recordo-me brevemente da aparência deste romano rebelde. Vertigern tinha aparência de um rei e não general. Alto, opulento em suas vestes militares, tudo nele era expansivo. Diziam que era favorecido por Júpiter, e outros apontavam para deusas como Bellona como sua mãe. O que quer que fosse, na visão da época, deuses o protegiam. Para a espiritualidade, foi como o senhor Oxossi disse-lhos ali em cima: guias que atuavam sobre a energia destas divindades.
Pouco importava na prática. Vertigern estava bem protegido e excelentemente aconselhado. Seus olhos verdes escuros eram ferozes, seu nariz longo tipicamente italiano e sua tez era larga. Havia poucos cabelos em sua cabeça, o que curiosamente me remeteu ao meu pai, quem eu não pensava desde o dia que parti do norte de Gales. Enfim, ele desejava consultar suas sortes.
Foi quando soube de seu plano.
--Preciso reunir homens capazes de derrotar os últimos romanos ao norte. Londonum caiu e está sob meu poder.
--O que quer dizer com isso?--exclamou o sacerdote-mor.
--Não quero dizer com nada--ele dissimulou.
Mas o religioso não acreditou.
--O senhor pretende subjugar toda a Britânia sob seu poder? Mas que audácia!
Vertigern era frio e astucioso. Os mais sábios belicosos sabiam como lidar com a descrença daqueles de quem dependiam seu poder. Apesar disso, era carismático.
--Não tenho tais pretensões, senhor, mas estamos sofrendo com invasões de povos estranhos. Roma pouco se importa conosco.
--Isso é verdade--concedeu o velho.
--Preciso da ajuda divina tanto quanto dos homens que sabem usar uma espada--e, sabe-se lá por que, seu olhar recaiu sobre mim.
O sacerdote-mor, pressentindo para onde tudo isso daria, virou-se para mim e sutilmente comentou:
--Minerva também é guerreira como Bellona.
Meu rosto ruborizou e vi, de canto de olho, que Julius se deleitava quando percebia que a "profecia" dava indícios de confirmar-se. Mas achei melhor dissimular. O velho se viu forçado a ser mais claro:
--Ela vem traçando planos para você, príncipe Robert.
Vertigern exclamou:
--Príncipe? Sacerdote? Oras, como pode isso?
Expliquei calmamente sobre o pai que me enviou para servir Minerva em Londonum. O romano me encarou com uma expressão divertida no rosto.
--Muito interessante. Pois bem, imagino que me servirá?
Sufoquei uma risada (de nervoso, como vocês jovens gostam de dizer).
--Senhor, não estou apto a...
--Minerva me trouxe a você. Isto para mim está claro--ele retrucou, indicando que não discutiria mais.--Obrigado, sacerdote. Que os deuses estejam conosco.
O velho pareceu igualmente satisfeito ao anuir com a cabeça e dizer:
--Eles estão sempre, senhor. Os deuses antigos e os novos.
E, não sem frustração, me vi arrastado para os combates que pretendia evitar desde o encontro com os últimos celtas tantos anos antes.
--Para onde iremos?--perguntei a Vortigern depois de sairmos do templo de Minerva, seguidos do meu pajem e do meu escudeiro e dos centuriões que nos protegiam.
--A primeira grande batalha ocorrerá na região de Dover, pois que o porto lá receberá tantos aliados quanto inimigos. A segunda, ao lado dos anglos, será realizada ao norte, próximo de Jeorvic.
Com uma pontada no meu coração, lembrei da senhora Catelyn. Assenti com a cabeça, sem qualquer expectativa.
Na realidade, ao todo umas cinco grande batalhas nos esperavam. Nenhuma delas foi fácil, e todas demandaram que meu lado guerreiro de vidas pregressas voltasse com ardor. Não havia tempo para me lamentar e mesmo Uhtred dizia que não era momento para divagar sobre a paz. Precisavam de guerreiros, por isso agiríamos como tais.
Em vários sonhos, Minerva veio a mim. Como devem saber, ela não era somente a deusa belicosa de outrora, mas também uma excelente general. Orientou-me em seu proceder e, às vezes, me via como Eneias. Ou melhor ainda, Heitor. Próximo da maturidade, ainda nutria ideias tolas.
A segunda batalha não se realizou em Jeorvic como pensávamos, mas em Cent (Kent) que situava perto de Dover. A terceira ocorreu em uma região que veio a ser nominada como Saxões do Sul (ou, em linguagem moderna para o leitor, Sussex). É verdade que os romanos caíam sobre nossas espadas, espíritos apegados ao poder que, em verdade, nunca lhes pertenceu. Viviam em ilusões que somente a morte poderia lhos limpar.
Os anglos eram um povo quase bárbaro no termo da palavra e não conforme os pré-conceitos greco-romanos sobre gente diferente da sua. Eram soldados primitivos, e não poupavam crueldades no campo de batalha. Lutavam com lanças, machados e armas ferozes. Recordei-me da admiração de John, meu irmão, com o martelo de guerra e lamentei que ele não tivesse vivido para ver uma delas ser usada com ferocidade. De todo modo, não gostava muito deles e temo que ainda conserve um pouco da repugnação de outrora. Nunca afirmei ser perfeito, porém, e em breve me limparei deste resquício.
Quem me chamou a atenção foram os saxões do oeste, porém. À época, o grande Cerdic ainda não havia encarnado. Não obstante, sua tribo já tentava assentar-se pela Britânia, o que não correspondia à maioria dos anglos e dos jutos. Como dizia, aqueles saxões me seriam caros. Aproximei-me deles e fiz amizade com um chamado Cerwyn. Rapaz de bom caráter, cultuava deuses que, até então, não conhecia. Atendiam pelos nomes de Woden, Freya e Thórus.
--Thórus me parece nome latino--comentei uma vez.
Cerwyn, louro de barba ruiva e olhos azuis, riu.
--Cada região pronuncia seu nome de forma diferente, e onde vim, recentemente nos libertamos do jugo dos romanos. No entanto, dizem que os hábitos demoram a morrer, então...--ele deu de ombros.
Era um sujeito bem humorado que adorava cerveja. Foi aí que ele introduziu o péssimo hábito de beber até perder a consciência a Julius.
--Nossa cultura diz que, para alegrarmos os deuses, precisamos desfrutar do presente que nos deram--explicou o grandalhão--E como não beber uma coisa dessas? Abençoados sejam os Aesir!
Aprendi muito com aquele homem, e foi uma cultura que vi se expandir consideravelmente nos séculos seguintes. Mas, por ora, focamos no presente. Lutei lado a lado com ele sem perceber que os saxões começavam a mancomunar com os anglos. A liderança de Vertigern despertava insatisfações. Algumas vezes, os saxões de Cerwyn vinham sentar-se comigo e os rapazes à fogueira e dizer:
--Que pensa do romano? Ele é um traidor da própria pátria.
Nem eu mesmo tinha uma visão daquele homem. Por isso, dei de ombros e falei:
--Não me compete julgá-lo. Conheço-o pouco.
--Mas ele o comprou também, não foi?--insistiu Cerwyn, que, logo percebi, era o líder daquela tribo.
--Não me comprou com ouro, não--respondi, soando mais ofendido do que pretendia--Apenas fui impelido a lutar pela sua causa conforme a deusa pediu.
--Deusa?--indagou Cerwyn, e percebi a curiosidade em seus olhos. Depois que lhe expliquei de Minerva, quem era e qual seu propósito, ele coçou a longa barba e conjecturou--Bem, a meu ver, ela não gosta deste Vertigern. E você foi desapropriado de sua herança. Carregais o favor desta deusa Minerva, meu caro amigo.
Na ocasião, não percebi o que Cerwyn pensava, mas Uhtred e Julius perceberam e, assim que o grupo foi dormir, me contaram de suas suspeitas.
--Ele irá coroá-lo rei--comentou Julius, feliz, mas o silenciei com um olhar.--Não me desaprove por falar a verdade, senhor!
--Está delirando. Não quero ouvi-los falar estas besteiras.
Fiquei incomodado com tudo aquilo. Parecia que, mesmo contra minhas vontades, estava tudo se desenrolando conforme previra Julius. Mas não havia tempo para pensar demais. Logo mais, estávamos batalhando próximo a Jeorvic.
Foi uma guerra dura. Durou dois anos, se não me falha a memória. Inimigos de todos os lados: alguns dos galeses chamados britões vinham em auxílio dos últimos romanos; os gauleses aportavam ao norte e diziam que as tribos irrequietas do que hoje em dia chamamos de Escócia, estavam a seu caminho. Cada batalha endurecia mais os homens. A fé lhos escapava a cada desencarne. Afinal, como seria possível que os deuses não os salvassem do perigo iminente? Mas a maioria enfrentava a morte com coragem.
Eu mesmo dei de cara com vários inimigos passados que caíram sobre minha espada. Pedi-os perdão posteriormente. Sabia que os anglos não me aprovavam, e desdenhavam da minha religiosidade. Constatei que, no fundo, éramos todos (talvez, à exceção dos saxões que gostavam de mim) inimigos uns dos outros. Temi mesmo por Vertigern, mas não havia o que fazer. Seu destino selou quando, ao fim dos últimos britões, recusou-se a partilhar do ouro e de suas conquistas com os outros. Quando dei por mim, fui acordado às primeiras horas do solstício de primavera por Cerwyn, que, me sacudindo pelos ombros, exclamou:
--Salve, rei de Jeorvic! Salve, rei galês!
* * *
Vertigern foi traído e assassinado como César. Facadas encurtaram sua vida, e dizem que foi cego. Se aquele fora a reencarnação de Brutus, bem, seria uma baita ironia que aquele que concedeu tirar a vida de seu melhor amigo, sofresse em similares mãos do mesmo ato. Não importa. Vertigern estava morto e os anglos, saxões e os jutos começaram a espalhar-se pelas terras amplas. Sua conquista estava apenas se dando início. Sei que, dado minhas palavras, parece que tudo aconteceu como um "filme", em questão de horas. Mas a conquista destas tribos demoraria 200 anos de fato.
Enfim, aos trinta e três anos de idade (número simbólico, não é mesmo) fui "coroado" rei de Jeorvic. Pensavam que eu seria um fantoche, mas os desapontaria. Apesar disso, quando me elegeram rei daquelas terras pelo direito de conquista (não pretendo me aprofundar nestas questões aqui), me viam mais como produto saxão do que britânico, galês ou britão. Quem eu era, afinal? Nem eu pensava nisso. Identidade não era um conceito daqueles tempos. Mas percebi que era da vontade dos deuses e me restava a obedecer. Um homem destes tempos teria pensado assim. Ademais, havia outros fatores: era minoria entre tantos estrangeiros e não havia mais lugar para mim em Londonum. Regressar à Gales onde meu irmão, já provavelmente em sua maioridade, provavelmente reinaria... estava fora de questão. Orgulho? Provavelmente. Mas não era tolo de me arriscar a voltar a uma terra como um fracassado "mago" sem heranças, amigos ou perspectivas. Sendo rei, reivindicava minha mãe, meus ancestrais, cumpridor dos meus deveres com os mais pobres, aqueles que viriam em mim quem pudessem contar. Desta maneira, estabeleci uma espécie de contrato com Cerwyn:
--Aceitarei esta posição conquanto permita que eu seja justo em tudo o que fizer. Se um de seus confrades cometer um crime, será punido. Ouro nenhum me comprará. Atenderei seus interesses desde que estes não sobrepujam os do povo.
Mesmo conhecendo a inclinação de Cerwyn para a mercearia e a corrupção, era um homem de boa natureza e aquele era apenas um de vários reencontros.
--Confio em vós, senhor. Quanto a isto não se preocupe. Desejamos assentar-nos, e muito melhor será sob a tutela de um homem honesto e eleito pelos deuses.
No final das contas, tive de dar o braço a torcer e Julius rugiu, feliz. Fizemos agradecimentos aos deuses, mas não quis participar da cerimônia de sacrifício dos animais aos deuses. Por mais que não concordasse com tal prática, não detinha poder para cambiar a mentalidade daqueles que praticavam. Portanto, escusei-me e fiz-me rezar em meus novos aposentos.
* * *
--Não acho que seja, Uhtred. Longe disso.
E seguimos caminhando.
* * *
Demorou um ano até que chegássemos em nosso destino final. É verdade que fomos roubados uma única vez desde o ataque dos reminiscentes celtas, mas em seguida os deuses estenderam sua proteção a nós e se a ocasião dos ladrões ocorreu foi porque permitiram que assim fosse feito. Meus homens o derrotaram, apesar disso, e o tesouro foi recuperado. "Tesouro", se é que assim pode ser dito, eram minhas vestes e a comida que carregamos. Procurei oferecer-lhos as frutas que tínhamos, mas o derramamento de sangue já havia ocorrido.
Neste período que fiquei em Londonum até minha maturidade aos vinte e cinco anos foi o suficiente para instruir-me na magia e no seu bom uso. Não há muito o que contar aqui, seria muito enfadonho para vós, caríssimos leitores. No entanto, farei um resumo destes seis anos e meio em que fiquei lá. Um dos grandes sacerdotes romanos me adotou e por dois anos, nada nos atrapalhou. Londonum crescia em população, Uhtred e Julius faziam suas vidas, embora não tivessem, ainda, desposado moças e criado famílias. Liberei os centuriões de seu serviço, mas dez deles insistiram em permanecer ao meu lado, leais que eram. Recompensei-os por isso. Dos dezoito aos vinte, portanto, ampliei meu conhecimento na prática da cura. Compreendi a relação homem-natureza para além do divino. O sacerdote-mor uma vez me disse:
--Minerva, em sua sabedoria infinita, assim instruiu os homens: nós, os deuses, não gostaríamos de vê-lhos sofrer e padecer em infinitas enfermidades quando há inúmeras possibilidades de curarem-se e aos vossos irmãos. Se da natureza recolheis vossos alimentos, por que não dela se tirará a cura?
Aprendi bastante sobre plantas venenosas, as que eram curativas e quando, na cupidez da juventude, indaguei a relação de ser sacerdote quanto a instruir na arte da cura, o velho homem me explicou pacientemente:
--A prece nos liga ao divino, meu caro. Como falei, Minerva foi bondosa e misericordiosa ao recusar a morte de prato cheio ao homem. Permitiu iluminá-los a respeito de como curarem-se. E isto não é, pois, outra forma de nos aproximarmos dela? Que utilidade teríamos aos deuses se guardássemos o conhecimento para nós mesmos?
--Platão uma vez disse que os deuses vivem acima das vicissitudes dos homens.
--E ele está correto em sua concepção. Temos a infeliz mania de queremos ser mais sábios que os outros, possuidores de uma razão que pelos divinos sagrados mestres nos foi concedida. Como eles se equiparariam a nós, falhos humanos? Não há sentido.
Assim, me ia esclarecendo nestas questões. Porém, daí surgia em minha mente a seguinte questão: por que povos diferentes temiam tanto os mesmos deuses? O que os aprisionava? Reflexões me deixavam cada vez mais quieto e, quando tornava a analisar meu passado, encontrava respostas similares. Uhtred, o pajem que compartilhava muito das minhas tendências filosóficas mesmo sem acesso a instrução, esteve ao meu lado quando comentei:
--O que acha que causa nos homens a vontade de mandar, obedecer, reinar e matar? O que nos faz desejar a mulher inalcançável? Por que não nos contentamos com o que temos e pretendemos, dessa maneira, ir aonde não possamos alcançar?
--O poder corrompe as almas, senhor.
--E de onde surgiria esse poder, Uhtred?
--Da vontade de dominar o mais fraco, senhor.
--Mas por qual motivo?
--Insatisfação de si para consigo mesmo de modo a enxergar o semelhante como bárbaro para satisfazer suas vontades.
--A mente governa o corpo? Ou o corpo governa a mente?
Pensei que estávamos em um debate complexo para Uhtred, mas ele surpreendeu minha vaidade ao responder:
--A mente deveria governar o corpo, senhor.
--E por que isso não ocorre?
--Porque a mente é equilibrada, conquanto o corpo é animado por instintos. Para atingir o equilíbrio, precisamos satisfazer estes instintos que nos excitam. Muitos preferem o fácil ao difícil por este motivo.
--Sensato--comentei, aprovando-o--Penso o mesmo. A razão está para ser usada, mas se formos comparar os estudos de um príncipe, por exemplo, com a vontade de um rei, o que prevaleceria?
--A vontade do rei sobre os estudos do príncipe, senhor.
--E por que?
--Porque estudar exige disciplina, demanda tempo, o conhecimento não é adquirido de uma vez por todas. É um caminho constante. Disciplinar a mente pede que extingamos os instintos animalescos.
Sorri para Uthred.
--E por que os reis vão à guerra e se satisfazem com pouco?
--Porque o corpo dita sobre a mente na fuga, ou penso eu, do medo de responsabilizar-se de suas ações.
--Concorda, portanto, quando digo que o homem poderia se curar, mas pelo medo, prefere aquilo que o fere?
--Concordo, senhor.
--Pela lógica, aquilo que fere advém da carne sobre a mente porque os instintos pedem que minta para não enfrentar a verdade; mate, para não preservar a vida que o ensina às boas coisas; seduza, para que não se contente com a desilusão da matéria; e guerreie para não compreender que a paz, fora da carne, traria possibilidades de prosperidade mais calmas.
--De fato, senhor.
--Por que isso, eu vos pergunto, Uhtred?
--Pelo desequilíbrio da carne sobre o espírito, senhor. E isso é o que faz os homens temerem os deuses.
--Achais que os deuses são responsáveis pelas feridas que os homens causam sobre si, Uhtred?
--Não, senhor.
--Por que dizeis que as divindades são temidas? Não concorda que o fato de ser divino significa ter poderes, presença e qualidades infindáveis? Do contrário, não seria este divino humano? Afinal, o divino é belo e imortal, não é mesmo?
--Falais a verdade, senhor.
--Como o homem, falível e escravo de suas vontades, pode temer aquilo que, sendo belo, imortal e responsável por introduzir-lho a cura de si mesmo, não corresponde às suas vicissitudes? Não haveria de ser o contrário.
--É verdade, senhor.
--O homem pode ser curado pelos deuses, Uhtred?
--Creio que sim, senhor.
--Por que "crê" e não afirma com certeza?
Uhtred aqui hesitou, mas sorrio para ele.
--Concordamos até aqui que os deuses estão acima de nós porque, sendo tais, não possam compartilhar aquilo que nos faz, homens, falíveis e intoleráveis. Os vícios surgem porque a humanidade permite-se ser escravizada ao caminho mais fácil, que muita das vezes leva-a para a devassidão. Se os deuses são causadores de tudo isso, como muitos de nós se propõe a afirmar, por que eles nos ensinariam a cura? A natureza não é a nós sagrada?
--Sim, senhor.
--Portanto, Uthred, somos os responsáveis por escrever inverdades sobre estes deuses. Causamos sofrimentos a nós mesmos e uns aos outros porque assim quisemos. Ninguém guerreou com o vizinho por determinação de Marte. General nenhum planejou dominar uma província inocente porque sonhou com Minerva. Ninguém maltrata sua família porque Vênus lho prometeu uma melhor. Não é por medo de castigos que os homens cometem atrocidades assim, é por eles mesmos. No entanto, que escolha temos nós se somos atacados? Deveremos abraçar o ataque mesmo que tenhamos esta compreensão de que os deuses estão longe de ser imperfeitos como nós?
--Não, senhor. A vida foi inspirada por eles, e isso seria um disserviço.
--Exatamente. E é por isso, meu caro Uhtred, que devemos nos defender, sim, mas utilizando a razão. Não poderemos tratar os deuses como fazemos com nossos inimigos ou amigos. Agradeceremos, sim, e faremos nossas ofertas quando necessário. Não vos esqueceis que Minerva permitiu que os homens curassem uns aos outros e a si mesmos. Um deus vingativo não faria isso, não é mesmo?
Antes que percebesse, Julius estava conosco, ouvindo nossa conversa com um espanto evidente em nossa face. Ao seu lado, outros centuriões e mesmo o sacerdote-mor também se fazia presente. Com felicidade, o velho exclamou:
--Que fortunioso é ter-nos conosco, Robert de Gales!
Mas havia muito a aprender, e eu prezava muito pelo conhecimento.
* * *
Dos vinte aos vinte e três anos, prossegui com a educação mística. O estudo da cura tornava-me mais humilde e atento para os problemas da desigualdade que vivíamos. Os pobres eram ignorados pelos privilegiados, e morriam de sintomas que poderiam ser prevenidos se os físicos de outrora lhos concedessem atenção.
Ao mesmo tempo, Julius me convenceu, por certo através de inspiração divina, de que deveria expandir meu conhecimento para outras áreas.
--Senhor, tive um sonho com Marte! Escutai-me, por favor.
Sorri-lhe pacientemente, e dei-lho permissão a falar. Sonhos, quando analisados apropriadamente à luz da razão, são instrumentos poderosos que nos ligam ao mundo divino.
--Uma grande guerra ocorrerá. Derrubará impérios e tudo o que conhecia. Marte o favorece ao lado de Minerva. (Nota de Oxossi: a sabedoria e a guerra caminham juntos, por certo. Na analogia contemporânea, associa o leitor a quem?) E sereis coroado, meu senhor. Rei do Norte.
--Rei? Eu?--ri, mas não de desdém e sim de descrença.
--Sim, vós--ele afirmou prontamente e com seriedade.
Uhtred sorriu.
--Ele seria um bom rei, realmente. Militarmente capaz de defender seus protegidos e com senso de dever que faltam a muitos.
--Não falem besteiras, estou aqui a servir Minerva--retruquei.
Mas Julius estava convencido do que falava.
--Senhor, Minerva o quer rei.
Eu mal sabia que, para o bem ou mal, Julius estava correto. Seu sonho havia sido uma espécie de premonição, resultado de sua mediunidade de clarividência. Mas, teimoso, não quis aceitar. De todo o modo, os deuses tinham planos e não havia como fugir deles.
(Nota de Oxossi: vejam como a mediunidade era tão fluida nestes tempos, imaculada pelo excessivo ceticismo que hoje marca seus tempos. Não os chama atenção que, ao se referir a deuses como Minerva e Marte, está se tratando de guias espirituais que atuam sob esta linhagem? Atualmente, seria o mesmo que dizer que fulano é filho de Iansã e Ogum, e que seus guias vieram dar-lhos avisos. É uma analogia que poderia servir também para os que veem São Jorge e Santa Bárbara tomar a frente de suas batalhas, para quem determinados cristãos dirigem suas preces. Reflitam, jovens leitores.)
* * *
A grande guerra ocorreu, de fato. Mas isso foi somente quando me aproximava dos trinta verões. Antes disso, testemunhei invasões cada vez mais intensas de tribos "bárbaras", e pouco a pouco caía o domínio romano sobre a Britânia. Londonum sofreu bastante com isso, e houve uma curiosa ocasião onde conheci um romano chamado Vertigern.
Em uma das rebeliões, este rapaz veio consultar-se com o sacerdote-mor de Minerva, a quem vinha servindo desde os dezoito anos segundo a vontade de minha finada e amada mãe. Recordo-me brevemente da aparência deste romano rebelde. Vertigern tinha aparência de um rei e não general. Alto, opulento em suas vestes militares, tudo nele era expansivo. Diziam que era favorecido por Júpiter, e outros apontavam para deusas como Bellona como sua mãe. O que quer que fosse, na visão da época, deuses o protegiam. Para a espiritualidade, foi como o senhor Oxossi disse-lhos ali em cima: guias que atuavam sobre a energia destas divindades.
Pouco importava na prática. Vertigern estava bem protegido e excelentemente aconselhado. Seus olhos verdes escuros eram ferozes, seu nariz longo tipicamente italiano e sua tez era larga. Havia poucos cabelos em sua cabeça, o que curiosamente me remeteu ao meu pai, quem eu não pensava desde o dia que parti do norte de Gales. Enfim, ele desejava consultar suas sortes.
Foi quando soube de seu plano.
--Preciso reunir homens capazes de derrotar os últimos romanos ao norte. Londonum caiu e está sob meu poder.
--O que quer dizer com isso?--exclamou o sacerdote-mor.
--Não quero dizer com nada--ele dissimulou.
Mas o religioso não acreditou.
--O senhor pretende subjugar toda a Britânia sob seu poder? Mas que audácia!
Vertigern era frio e astucioso. Os mais sábios belicosos sabiam como lidar com a descrença daqueles de quem dependiam seu poder. Apesar disso, era carismático.
--Não tenho tais pretensões, senhor, mas estamos sofrendo com invasões de povos estranhos. Roma pouco se importa conosco.
--Isso é verdade--concedeu o velho.
--Preciso da ajuda divina tanto quanto dos homens que sabem usar uma espada--e, sabe-se lá por que, seu olhar recaiu sobre mim.
O sacerdote-mor, pressentindo para onde tudo isso daria, virou-se para mim e sutilmente comentou:
--Minerva também é guerreira como Bellona.
Meu rosto ruborizou e vi, de canto de olho, que Julius se deleitava quando percebia que a "profecia" dava indícios de confirmar-se. Mas achei melhor dissimular. O velho se viu forçado a ser mais claro:
--Ela vem traçando planos para você, príncipe Robert.
Vertigern exclamou:
--Príncipe? Sacerdote? Oras, como pode isso?
Expliquei calmamente sobre o pai que me enviou para servir Minerva em Londonum. O romano me encarou com uma expressão divertida no rosto.
--Muito interessante. Pois bem, imagino que me servirá?
Sufoquei uma risada (de nervoso, como vocês jovens gostam de dizer).
--Senhor, não estou apto a...
--Minerva me trouxe a você. Isto para mim está claro--ele retrucou, indicando que não discutiria mais.--Obrigado, sacerdote. Que os deuses estejam conosco.
O velho pareceu igualmente satisfeito ao anuir com a cabeça e dizer:
--Eles estão sempre, senhor. Os deuses antigos e os novos.
E, não sem frustração, me vi arrastado para os combates que pretendia evitar desde o encontro com os últimos celtas tantos anos antes.
--Para onde iremos?--perguntei a Vortigern depois de sairmos do templo de Minerva, seguidos do meu pajem e do meu escudeiro e dos centuriões que nos protegiam.
--A primeira grande batalha ocorrerá na região de Dover, pois que o porto lá receberá tantos aliados quanto inimigos. A segunda, ao lado dos anglos, será realizada ao norte, próximo de Jeorvic.
Com uma pontada no meu coração, lembrei da senhora Catelyn. Assenti com a cabeça, sem qualquer expectativa.
Na realidade, ao todo umas cinco grande batalhas nos esperavam. Nenhuma delas foi fácil, e todas demandaram que meu lado guerreiro de vidas pregressas voltasse com ardor. Não havia tempo para me lamentar e mesmo Uhtred dizia que não era momento para divagar sobre a paz. Precisavam de guerreiros, por isso agiríamos como tais.
Em vários sonhos, Minerva veio a mim. Como devem saber, ela não era somente a deusa belicosa de outrora, mas também uma excelente general. Orientou-me em seu proceder e, às vezes, me via como Eneias. Ou melhor ainda, Heitor. Próximo da maturidade, ainda nutria ideias tolas.
A segunda batalha não se realizou em Jeorvic como pensávamos, mas em Cent (Kent) que situava perto de Dover. A terceira ocorreu em uma região que veio a ser nominada como Saxões do Sul (ou, em linguagem moderna para o leitor, Sussex). É verdade que os romanos caíam sobre nossas espadas, espíritos apegados ao poder que, em verdade, nunca lhes pertenceu. Viviam em ilusões que somente a morte poderia lhos limpar.
Os anglos eram um povo quase bárbaro no termo da palavra e não conforme os pré-conceitos greco-romanos sobre gente diferente da sua. Eram soldados primitivos, e não poupavam crueldades no campo de batalha. Lutavam com lanças, machados e armas ferozes. Recordei-me da admiração de John, meu irmão, com o martelo de guerra e lamentei que ele não tivesse vivido para ver uma delas ser usada com ferocidade. De todo modo, não gostava muito deles e temo que ainda conserve um pouco da repugnação de outrora. Nunca afirmei ser perfeito, porém, e em breve me limparei deste resquício.
Quem me chamou a atenção foram os saxões do oeste, porém. À época, o grande Cerdic ainda não havia encarnado. Não obstante, sua tribo já tentava assentar-se pela Britânia, o que não correspondia à maioria dos anglos e dos jutos. Como dizia, aqueles saxões me seriam caros. Aproximei-me deles e fiz amizade com um chamado Cerwyn. Rapaz de bom caráter, cultuava deuses que, até então, não conhecia. Atendiam pelos nomes de Woden, Freya e Thórus.
--Thórus me parece nome latino--comentei uma vez.
Cerwyn, louro de barba ruiva e olhos azuis, riu.
--Cada região pronuncia seu nome de forma diferente, e onde vim, recentemente nos libertamos do jugo dos romanos. No entanto, dizem que os hábitos demoram a morrer, então...--ele deu de ombros.
Era um sujeito bem humorado que adorava cerveja. Foi aí que ele introduziu o péssimo hábito de beber até perder a consciência a Julius.
--Nossa cultura diz que, para alegrarmos os deuses, precisamos desfrutar do presente que nos deram--explicou o grandalhão--E como não beber uma coisa dessas? Abençoados sejam os Aesir!
Aprendi muito com aquele homem, e foi uma cultura que vi se expandir consideravelmente nos séculos seguintes. Mas, por ora, focamos no presente. Lutei lado a lado com ele sem perceber que os saxões começavam a mancomunar com os anglos. A liderança de Vertigern despertava insatisfações. Algumas vezes, os saxões de Cerwyn vinham sentar-se comigo e os rapazes à fogueira e dizer:
--Que pensa do romano? Ele é um traidor da própria pátria.
Nem eu mesmo tinha uma visão daquele homem. Por isso, dei de ombros e falei:
--Não me compete julgá-lo. Conheço-o pouco.
--Mas ele o comprou também, não foi?--insistiu Cerwyn, que, logo percebi, era o líder daquela tribo.
--Não me comprou com ouro, não--respondi, soando mais ofendido do que pretendia--Apenas fui impelido a lutar pela sua causa conforme a deusa pediu.
--Deusa?--indagou Cerwyn, e percebi a curiosidade em seus olhos. Depois que lhe expliquei de Minerva, quem era e qual seu propósito, ele coçou a longa barba e conjecturou--Bem, a meu ver, ela não gosta deste Vertigern. E você foi desapropriado de sua herança. Carregais o favor desta deusa Minerva, meu caro amigo.
Na ocasião, não percebi o que Cerwyn pensava, mas Uhtred e Julius perceberam e, assim que o grupo foi dormir, me contaram de suas suspeitas.
--Ele irá coroá-lo rei--comentou Julius, feliz, mas o silenciei com um olhar.--Não me desaprove por falar a verdade, senhor!
--Está delirando. Não quero ouvi-los falar estas besteiras.
Fiquei incomodado com tudo aquilo. Parecia que, mesmo contra minhas vontades, estava tudo se desenrolando conforme previra Julius. Mas não havia tempo para pensar demais. Logo mais, estávamos batalhando próximo a Jeorvic.
Foi uma guerra dura. Durou dois anos, se não me falha a memória. Inimigos de todos os lados: alguns dos galeses chamados britões vinham em auxílio dos últimos romanos; os gauleses aportavam ao norte e diziam que as tribos irrequietas do que hoje em dia chamamos de Escócia, estavam a seu caminho. Cada batalha endurecia mais os homens. A fé lhos escapava a cada desencarne. Afinal, como seria possível que os deuses não os salvassem do perigo iminente? Mas a maioria enfrentava a morte com coragem.
Eu mesmo dei de cara com vários inimigos passados que caíram sobre minha espada. Pedi-os perdão posteriormente. Sabia que os anglos não me aprovavam, e desdenhavam da minha religiosidade. Constatei que, no fundo, éramos todos (talvez, à exceção dos saxões que gostavam de mim) inimigos uns dos outros. Temi mesmo por Vertigern, mas não havia o que fazer. Seu destino selou quando, ao fim dos últimos britões, recusou-se a partilhar do ouro e de suas conquistas com os outros. Quando dei por mim, fui acordado às primeiras horas do solstício de primavera por Cerwyn, que, me sacudindo pelos ombros, exclamou:
--Salve, rei de Jeorvic! Salve, rei galês!
* * *
Vertigern foi traído e assassinado como César. Facadas encurtaram sua vida, e dizem que foi cego. Se aquele fora a reencarnação de Brutus, bem, seria uma baita ironia que aquele que concedeu tirar a vida de seu melhor amigo, sofresse em similares mãos do mesmo ato. Não importa. Vertigern estava morto e os anglos, saxões e os jutos começaram a espalhar-se pelas terras amplas. Sua conquista estava apenas se dando início. Sei que, dado minhas palavras, parece que tudo aconteceu como um "filme", em questão de horas. Mas a conquista destas tribos demoraria 200 anos de fato.
Enfim, aos trinta e três anos de idade (número simbólico, não é mesmo) fui "coroado" rei de Jeorvic. Pensavam que eu seria um fantoche, mas os desapontaria. Apesar disso, quando me elegeram rei daquelas terras pelo direito de conquista (não pretendo me aprofundar nestas questões aqui), me viam mais como produto saxão do que britânico, galês ou britão. Quem eu era, afinal? Nem eu pensava nisso. Identidade não era um conceito daqueles tempos. Mas percebi que era da vontade dos deuses e me restava a obedecer. Um homem destes tempos teria pensado assim. Ademais, havia outros fatores: era minoria entre tantos estrangeiros e não havia mais lugar para mim em Londonum. Regressar à Gales onde meu irmão, já provavelmente em sua maioridade, provavelmente reinaria... estava fora de questão. Orgulho? Provavelmente. Mas não era tolo de me arriscar a voltar a uma terra como um fracassado "mago" sem heranças, amigos ou perspectivas. Sendo rei, reivindicava minha mãe, meus ancestrais, cumpridor dos meus deveres com os mais pobres, aqueles que viriam em mim quem pudessem contar. Desta maneira, estabeleci uma espécie de contrato com Cerwyn:
--Aceitarei esta posição conquanto permita que eu seja justo em tudo o que fizer. Se um de seus confrades cometer um crime, será punido. Ouro nenhum me comprará. Atenderei seus interesses desde que estes não sobrepujam os do povo.
Mesmo conhecendo a inclinação de Cerwyn para a mercearia e a corrupção, era um homem de boa natureza e aquele era apenas um de vários reencontros.
--Confio em vós, senhor. Quanto a isto não se preocupe. Desejamos assentar-nos, e muito melhor será sob a tutela de um homem honesto e eleito pelos deuses.
No final das contas, tive de dar o braço a torcer e Julius rugiu, feliz. Fizemos agradecimentos aos deuses, mas não quis participar da cerimônia de sacrifício dos animais aos deuses. Por mais que não concordasse com tal prática, não detinha poder para cambiar a mentalidade daqueles que praticavam. Portanto, escusei-me e fiz-me rezar em meus novos aposentos.
* * *
Como rei, havia obrigações a cumprir. Desposei uma senhora de Northumberland a quem chamarei de Evalya. Moça formosa de cabelos ruivos e dona dos olhos mais verdes que vi, apaixonei-me perdidamente. Seu caráter era bondoso, e somente cultivo boas palavras a dar-lho. Ainda hoje sinto sua falta e talvez seja por isso que vim falar. Gostaria de retomar meu lado ao dela agora que cumpri com um último dever aqui entre vós.
Evalya deu à luz à dez crianças. Aryanne, Duncan, Arthur, Guinovin, Guinever, e tantos outros. Destes que citei, Aryanne seria enviada para desposar o sobrinho de Evalya, Guinever infelizmente não sobreviveu à infância, e Duncan e Arthur cresceriam próximos como haveria de ser. Guinovin foi casada com um senhor de terras ao sul da Britânia.
Foram tempos prósperos e não quero dizer com isso que somente eu tive parte disso. Julius prosperou como senhor de Northumberland e logo tornaria seu nome mais saxão do que outra coisa. Uhtred quis permanecer em meu serviço, como resultado, permiti que desposasse a irmã de Evalya. Éramos mais unidos agora em família. Os saxões do oeste não me deram trabalho, soube impor respeito mesmo àqueles indomáveis. Permiti que cultuasse seus deuses e tive mesmo interesse em conhecer Odin, Thor (não mais Thórus) e Freyja. Os poucos romanos leais a mim que combateram enquanto centuriões desapegavam-se do seu "ser romano" e orgulhosamente se intitulavam britânicos.
Com o tempo, chegou aos meus ouvidos que meu pai falecera depois de ter enviuvado pela segunda vez, pobre Catelyn. Ambrosius o sucedera como rei e sua reputação crescia consideravelmente. Suas ambições fariam crescer os domínios da terra que poderiam ter sido minhas, se eu tivesse a natureza mais...feroz de John, por assim dizer.
De longe, observava meu jovem irmão dominar todo o norte de Gales, englobando Gwynedd e constatei que ele não demoraria a vir para cá. Diziam que os últimos romanos seguiam seu comando, mas que não se enxergavam como tais ou mesmo britões. Sob o estandarte de um dragão vermelho, era apenas uma questão de tempo até começar a subjugar os britânicos do oeste.
--Não deveria comunicar com ele?--indagou, certa vez, Evelya.
Encarei-a com um sorriso. Já era velho, mas não encurvado.
--Deixe-o com suas glórias. Aqui, ele não chegará.
--Como pode ter certeza?
Eu ri.
--Porque os deuses assobiam em seus ouvidos e Ambrosius não é tolo.
É verdade que eu poderia ter tentado uma comunicação com meu irmão, mas optei por não fazê-lo. Sabia que ele desconhecia minha existência e pensei que seria melhor assim. Um homem como ele me veria como ameaça à herança de seus filhos e tentaria extinguir antes que tal se provasse concreta. Jeorvic se situava ao norte da Britânia e não lho oferecia tantos benefícios quanto se poderia pensar.
Pois bem, imagino que esta narrativa seja cansativa ao leitor desacostumado com os fatos medievais em questão e não pretendo me prolongar demais.
Aproximava o fim dos meus dias e cada vez mais, meu filho Duncan assumia as rédeas do governo ao lado de seu irmão Arthur. Eu, por minha vez, me voltava mais para o misticismo, a cura, a espiritualidade. Quando Evelyn me deixou, entristeci-me, é claro. Não o suficiente, porém, para me deprimir. Afinal, ainda lembro de sua doce juventude quando se aproximou de mim e disse:
--Está na hora de ir.
Contava quase setenta e cinco anos quando desencarnei, minha jovem. Vivi bastante, se quer saber minha opinião. Lutei e rezei na mesma medida sem descumprir com meus deveres. Mas não testemunhei a queda de Ambrosius nem a ascensão de Arthur. Isso ficará para o próximo debate.
* * *
Posfácio, nota de Robert, o velho rei:
Em retrospecto, vejo que poderia ter repensado atitudes e aprimorado mais a minha moralidade. Lamento que tenha desperdiçado oportunidades. Apesar disso, quando reencarnei, estava diante dos "deuses" que me acompanharam toda a vida: Minerva e Marte. Por diplomático que pudesse ter tentado ser, a guerra me encaminhava para o poder. Deixarei ao leitor o julgamento disto. Não importa.
Diante deles, fizemos um breve aparato do que havia sido minha encarnação e, vendo que pretendia me fazer útil, perguntaram se eu pretendia juntar-me à Evelyn e à senhora Catelyn e toda minha família em existência posterior num espaço menos violento e estagnado ou cumprir com uma missão aqui. Perguntei-lhos se seria necessário encarnar novamente para isso. "É uma escolha vossa", disseram. Quando ponderei com cautela, percebi que a humanidade terrícola muito me interessava apesar dos apesares.
Não percebo como apego à carne ou à vida que tive, mas o conhecimento. Este sim sempre me foi encantador. Por isso, optei por ficar. Gostaria de ver tudo o que vi, testemunhar as guerras, o surgimento da paz, a concentração da monarquia, a complexidade das sociedades. Creio que fui um anglo-saxão primitivo mesmo. E sinto-me feliz em fazer esta exposição. Aprendi o que tinha de aprender e pus neste papel através deste aparelho, desta intercessora, minha memória recente na esperança de elucidá-los às questões que os perturbam em espírito.
Dizer que senti falta de meus tempos ou o quanto lamento na insistência de comportamentos reprováveis seria admitir que minha verdade e meus posicionamentos tanto então quanto agora me valem como exemplo a ser seguido e isso seria mentir. Diante do Pai Maior, digo esta verdade. Estou aqui para ajudar, auxiliar e nada mais do que isso. Gosto bastante de Oxóssi porque, como ele, sou "solitário" na "caça" ao conhecimento e através das matas, cultivei, aprendi e pratiquei a boa magia. A cura. É verdade que poderia utilizar meu verdadeiro nome aqui, o que me faz rir, mas isso seria vaidoso da minha parte e não tenho qualquer pretensão de causar problemas à médium que dispôs de horas de seu dia para transcrever a longa mensagem deste velho mago e rei. Com isso, desejo-os bem, meus caros amigos e leitores. Estou aonde serei preciso, mas, no momento, sinto necessidade de partir da Terra. Gostaria de reencontrar os amados e consertar os laços do passado.
Que o Pai os abençoe, crianças. Na sabedoria e no conhecimento, estão as respostas para vossas questões. De vosso estimado amigo,
Robert.
Evalya deu à luz à dez crianças. Aryanne, Duncan, Arthur, Guinovin, Guinever, e tantos outros. Destes que citei, Aryanne seria enviada para desposar o sobrinho de Evalya, Guinever infelizmente não sobreviveu à infância, e Duncan e Arthur cresceriam próximos como haveria de ser. Guinovin foi casada com um senhor de terras ao sul da Britânia.
Foram tempos prósperos e não quero dizer com isso que somente eu tive parte disso. Julius prosperou como senhor de Northumberland e logo tornaria seu nome mais saxão do que outra coisa. Uhtred quis permanecer em meu serviço, como resultado, permiti que desposasse a irmã de Evalya. Éramos mais unidos agora em família. Os saxões do oeste não me deram trabalho, soube impor respeito mesmo àqueles indomáveis. Permiti que cultuasse seus deuses e tive mesmo interesse em conhecer Odin, Thor (não mais Thórus) e Freyja. Os poucos romanos leais a mim que combateram enquanto centuriões desapegavam-se do seu "ser romano" e orgulhosamente se intitulavam britânicos.
Com o tempo, chegou aos meus ouvidos que meu pai falecera depois de ter enviuvado pela segunda vez, pobre Catelyn. Ambrosius o sucedera como rei e sua reputação crescia consideravelmente. Suas ambições fariam crescer os domínios da terra que poderiam ter sido minhas, se eu tivesse a natureza mais...feroz de John, por assim dizer.
De longe, observava meu jovem irmão dominar todo o norte de Gales, englobando Gwynedd e constatei que ele não demoraria a vir para cá. Diziam que os últimos romanos seguiam seu comando, mas que não se enxergavam como tais ou mesmo britões. Sob o estandarte de um dragão vermelho, era apenas uma questão de tempo até começar a subjugar os britânicos do oeste.
--Não deveria comunicar com ele?--indagou, certa vez, Evelya.
Encarei-a com um sorriso. Já era velho, mas não encurvado.
--Deixe-o com suas glórias. Aqui, ele não chegará.
--Como pode ter certeza?
Eu ri.
--Porque os deuses assobiam em seus ouvidos e Ambrosius não é tolo.
É verdade que eu poderia ter tentado uma comunicação com meu irmão, mas optei por não fazê-lo. Sabia que ele desconhecia minha existência e pensei que seria melhor assim. Um homem como ele me veria como ameaça à herança de seus filhos e tentaria extinguir antes que tal se provasse concreta. Jeorvic se situava ao norte da Britânia e não lho oferecia tantos benefícios quanto se poderia pensar.
Pois bem, imagino que esta narrativa seja cansativa ao leitor desacostumado com os fatos medievais em questão e não pretendo me prolongar demais.
Aproximava o fim dos meus dias e cada vez mais, meu filho Duncan assumia as rédeas do governo ao lado de seu irmão Arthur. Eu, por minha vez, me voltava mais para o misticismo, a cura, a espiritualidade. Quando Evelyn me deixou, entristeci-me, é claro. Não o suficiente, porém, para me deprimir. Afinal, ainda lembro de sua doce juventude quando se aproximou de mim e disse:
--Está na hora de ir.
Contava quase setenta e cinco anos quando desencarnei, minha jovem. Vivi bastante, se quer saber minha opinião. Lutei e rezei na mesma medida sem descumprir com meus deveres. Mas não testemunhei a queda de Ambrosius nem a ascensão de Arthur. Isso ficará para o próximo debate.
* * *
Posfácio, nota de Robert, o velho rei:
Em retrospecto, vejo que poderia ter repensado atitudes e aprimorado mais a minha moralidade. Lamento que tenha desperdiçado oportunidades. Apesar disso, quando reencarnei, estava diante dos "deuses" que me acompanharam toda a vida: Minerva e Marte. Por diplomático que pudesse ter tentado ser, a guerra me encaminhava para o poder. Deixarei ao leitor o julgamento disto. Não importa.
Diante deles, fizemos um breve aparato do que havia sido minha encarnação e, vendo que pretendia me fazer útil, perguntaram se eu pretendia juntar-me à Evelyn e à senhora Catelyn e toda minha família em existência posterior num espaço menos violento e estagnado ou cumprir com uma missão aqui. Perguntei-lhos se seria necessário encarnar novamente para isso. "É uma escolha vossa", disseram. Quando ponderei com cautela, percebi que a humanidade terrícola muito me interessava apesar dos apesares.
Não percebo como apego à carne ou à vida que tive, mas o conhecimento. Este sim sempre me foi encantador. Por isso, optei por ficar. Gostaria de ver tudo o que vi, testemunhar as guerras, o surgimento da paz, a concentração da monarquia, a complexidade das sociedades. Creio que fui um anglo-saxão primitivo mesmo. E sinto-me feliz em fazer esta exposição. Aprendi o que tinha de aprender e pus neste papel através deste aparelho, desta intercessora, minha memória recente na esperança de elucidá-los às questões que os perturbam em espírito.
Dizer que senti falta de meus tempos ou o quanto lamento na insistência de comportamentos reprováveis seria admitir que minha verdade e meus posicionamentos tanto então quanto agora me valem como exemplo a ser seguido e isso seria mentir. Diante do Pai Maior, digo esta verdade. Estou aqui para ajudar, auxiliar e nada mais do que isso. Gosto bastante de Oxóssi porque, como ele, sou "solitário" na "caça" ao conhecimento e através das matas, cultivei, aprendi e pratiquei a boa magia. A cura. É verdade que poderia utilizar meu verdadeiro nome aqui, o que me faz rir, mas isso seria vaidoso da minha parte e não tenho qualquer pretensão de causar problemas à médium que dispôs de horas de seu dia para transcrever a longa mensagem deste velho mago e rei. Com isso, desejo-os bem, meus caros amigos e leitores. Estou aonde serei preciso, mas, no momento, sinto necessidade de partir da Terra. Gostaria de reencontrar os amados e consertar os laços do passado.
Que o Pai os abençoe, crianças. Na sabedoria e no conhecimento, estão as respostas para vossas questões. De vosso estimado amigo,
Robert.