sábado, 11 de janeiro de 2020

Sussurros Inaudíveis

Os tempos eram outros e, portanto, marcados por valores que, atualmente, são veemente repugnados pela maior parte dos espíritos que avançaram na mentalidade e na materialidade, compondo a sociedade deste novo século. Se ainda há resquícios desta época na contemporaneidade é porque tais espíritos (sobre quem vou falar a seguir) avançaram pouco, optando por permanecer na ignorância. De todo modo, a despeito da polêmica que esta memória minha possa vir a causar nos que se propuserem a ler, insisto em compartilhá-la a fim de que se possa instruir os leitores e abrir a mente para o fato de que a História da Humanidade nunca foi estritamente conforme contada pelos livros, historiadores e tão somente ilustrada por eles. Já deveriam saber que fostes muito mais do que documentos históricos, que, embora os guiem para o que muitas das vezes concorreu para existir de fato, não dão vozes para os marginalizados pelos mesmos. Que isso sirva de lição. 
Espírito Emanuel.

Brasil, 1822.
Naquele tempo, tão distante deste que vivem, este país que recebeu o nome de Brasil ainda não era, por si só, uma nação uniformizada. Meses antes de sua independência de Portugal, ela lutava contra o status que, por séculos, vinha-na difamando, diminuindo e impedindo que se desenvolvesse uma identidade própria: a colônia dos reis portugueses. Fonte de riqueza daquele reino europeu que outrora conquistara grande respeito de outros vizinhos, ainda não poderosos, por ter dado início à grande era da navegação ocidental (e digo ocidental porque sabe-se que os chineses fizeram isso muito antes), Brasil era preparado para receber uma quantidade de espíritos que contribuiriam para seu avanço... ainda que a quantas custas isso ocorreria! 
Em retrospectiva, digo o seguinte: tribos de índios marcaram o território com a espiritualidade que desenvolveria crenças como o xamanismo, a umbanda e mesmo o candomblé, além de suas vertentes pouco conhecidas. E os mais desenvolvidos entre eles prepararam-se para o pior, pois sabe-se que do século XVI ao XIX, a formação do Brasil não foi fácil e custou muitas vidas (ainda que uma variedade de indivíduos houvesse optado pelo que chamam de "destino"). 
Enfim. A escravidão foi um instrumento muito impróprio e infeliz que calcificou a construção do país, afinal, graças aos portugueses, índios foram extintos, ainda que a maioria escravizada fosse subjugada com o tempo pelas doenças, etc. O povo africano não foi exceção. Não cabe a mim explicar por qual motivo a raça negra foi dominada pela branca e o que fez os europeus, em particular os portugueses e espanhóis, a instrumentalizá-los, ignorando sua própria humanidade. Há uma série de explicações para isso, não somente uma, das quais não me convém me prolongar. Ao contrário, vou me limitar a mencionar o que a Vó do Congo uma vez contou: durante a Idade Média, e, previamente, no decorrer do Egito Antigo e toda a Antiguidade oriental, houve homens e mulheres que deliberadamente cometeram atos terríveis contra seus semelhantes. Podemos supor quais foram as naturezas de tais crimes: incesto, fratricídio, patricídio, etc. Para limparem-se destes horrores, pediram uma chance de redenção, e como tal pedido foi feito do coração, cientes afinal de que suas ações foram contra o grande ato de amor do Pai Maior, a reencarnação lhe foi concedida. Para tal, uma encarnação apenas não seria suficiente para expurgar séculos de vivência miserável. Com isso, seria necessário que passassem por provações duras continuamente até que seus karmas cessassem. 
Como falei, porém, isso não era regra: aqueles que vêm pela falange dos pretos velhos eram, em sua grande maioria, espíritos de luz em missão para estes tempos difíceis, porém necessários, de modo que auxiliassem estes irmãos sofredores. Cada um com sua missão, sua obra, sua caridade, não é mesmo? A individualidade não se perde com o desencarne, meus caros.

Todo este contexto foi importante para ilustrar a minha inserção no Brasil pré-independência, porém fortemente escravocrata. Em uma fazenda ao litoral de São Paulo, encarnei entre meus irmãos negros escravizados. Recebi um nome cristão, Paulo, e meus genitores trabalhavam para uma família dona de engenho, produzindo café com mais frequência do que açúcar. Desde tenra idade, recordavam-me do meu status de "coisa", de "objeto", não de ser humano, não de alguém que foi subjugado pelo seu semelhante. Não foi até os oito anos que eu, de fato, pude ter consciência do que acontecia ao meu redor.
Recordo-me de uma casa pintada de amarelo-ovo, grande e de telhados avermelhados. As janelas eram relativamente simples, mas havia riqueza nos detalhes: a cortina branca, cujo tecido foi importado; as mesas de madeira, produzidas de algum material estrangeiro e compradas no Rio de Janeiro; os utensílios para a cozinha, e por aí vai. O tecido de sinhá, e das sinhazinhas, também era demonstração de riqueza. Em suma, a simplicidade era como um véu que escondia o esplendor de um espectador mais atento.
Minha curiosidade me levou a entrar neste lugar que me sempre foi proibido e que se eu entrasse ali, provavelmente não voltaria vivo. Não tive medo, como um moleque ousado não teria, e um dia ensolarado fugi de meus afazeres para ver o que tinha de tão importante lá dentro para que meus companheiros de pele escura fossem afugentados. A princípio, não compreendi: vi duas negras dentro da casa, embora elas não me notassem, concentradas estavam em seus deveres. Uma costurava, a outra cozinhava. A mais velha delas, que tomava conta da cozinha, cantava uma música que reconheci: era o som de uma melodia que remetia a um dos deuses que meu povo cultuava, e seu nome era Osún, deusa do ouro, do amor, da prosperidade... Costumávamos crer que os deuses nos provavam e um dia nos resgatariam de tais misérias terrenas. Tal concepção, em sua essência, não estava de todo modo errada porque conservávamos em nossos espíritos a missão espiritual pela qual muitos de nós aceitou passar. Eventualmente, seríamos libertos, de fato, mas isso é outra história.
Quando prontifiquei-me a cantar junto, um berro me assustou. Veio de uma mulher, a sinhá da casa, que gritava:
--Tirem este negro daqui! Tirem este negro daqui! Quem o deixou entrar?
E, cega pelo ódio, descontou na primeira moça que viu, a jovem que costurava.
--Como ousa?
Petrificado fiquei diante daquela cena que passou rápido em meus olhos: a moça que costurava foi jogada ao chão e teve seus cabelos bagunçados. Não vou expor em detalhes a crueldade sofrida injustamente, mas podem imaginar o que lhe aconteceu. Em seguida, ela se virou para mim e foi como se estivesse vendo um demônio: seus olhos castanhos me miravam com tamanho ódio que fez meu corpo tremer. Aquela mulher não era diferente da outra, eu não entendia: que diferença tinha quanto àquela que maltratou? A cor, eu vi. Porque ela ressaltou-a de tal maneira que eu me senti esquisito, estranho, anormal. E ela me bateu, me arranhou. Teria me cegado se a cozinheira não houvesse interferido junto ao marido.
--Eu já falei que não gosto destes negros aqui em casa!--ela gritou.
Chorando, saí de perto. Seu esposo, o sinhô Carlos, foi mais bondoso. Mas ainda assim aquilo me afetou. E como não ser afetado por aquela crueldade?
--Avisei-o, menino--a vó Benta me chamou em meu colo no curral naquela noite e me consolou os prantos--Avisei-o para não entrar. Deu sorte que sinhô Carlos não era uma pessoa de má índole. E, mesmo assim, aquele homem não é confiável. Escute os 'véio', criança, e assim não passará por estas ocasiões novamente.
Triste, concordei. Mas não seria o mesmo menino alegre e risonho de outrora, o que não surpreendeu os que conviviam comigo. Este era o destino de todos, praticamente: a escravidão era um peso que nós forçosamente carregávamos, sem compreender o motivo pelo qual tal sistema estava em voga, por que humanos objetivavam seus semelhantes. Não havia entendido, até então, que a cor era o que nos diferenciava. Por algum motivo, os brancos subjugavam os negros.
Mas meu silêncio, que crescia à medida que escolhia os trabalhos mais simplórios para não atrair a atenção da sinhá, não escapou aos olhos atentos da preta velha. Vó Benta estendia as roupas uma certa manhã nublada e me chamou com um assovio para ficar perto dela.
--A vida não é fácil, menino, mas não deve deixar aquele ocorrido tomar conta de sua cabeça. Não lhe faz bem.
À época, contava doze anos. Era magricelo e quieto. Meu cabelo era constantemente raspado, pois, do contrário, poderia ser visto como ato rebelde. Meus pais foram separados conforme a vontade de sinhá, portanto, só tinha vó Benta comigo. E alguns poucos amigos: poucos mesmo, pois alguns não sobreviveram à infância.
--Acha que é o único a sofrer seus tormentos e sonhar pesadelos, criança? Não é--disse ela, e com uma serenidade que me deixou com os olhos arregalados. Sem ver minha expressão no rosto, entretanto, vó Benta riu.--Eu o conheço, sangue do meu sangue. Mas por que não me rebelo internamente como você? Porque aceitei meu fardo há muito tempo. E aceitar, menino, não quer dizer concordar.
Como não sabia o que dizer, apenas a encarei. Vó Benta sorriu um sorriso alegre e leve, e com seus olhos castanhos me fitou:
--Há esperança. Acompanho a nova geração e sei que lidaremos com outras pessoas, outros espíritos. Os deuses não são tão cruéis.
--Continuam a ser com nossos irmãos ao permitir que tamanha selvageria aconteça--retruquei, mal humorado.
--Os tolos se agarram à raiva porque é tudo o que conseguem sentir--prosseguiu vó Benta, como se não ouvisse meu rancor entalado na garganta--Não conhecem o amor porque estão embrutecidos, e se familiarizam com as densas trevas porque optam pelo que é mais fácil. Assim acontece com os brancos, filho. Já percebeu? A vaidade, o orgulho, estes pecados contra os quais tanto fingem lutar na igreja que frequentam estão enraizados numa identidade que eles próprios criaram.
"Dizem eles que são do sangue dos portugueses conquistadores. E estes, vieram d'onde? O que possuem para se orgulhar? O deus deles, filho, é simples como os nossos. Não te faz recordar de Om'u'lu? As chagas que carregou para salvar a humanidade... E, entretanto, o sofrimento os persegue como praga porque optam por isso. Nós não enxergamos, mas nem por isso elas não deixam de existir."
"Não esqueço a sabedoria dos meus ancestrais, e creio que não deve esquecer a sua também. Está no sangue, criança, e você sabe o que digo. Rezamos a fé deles sem, todavia, olvidar a nossa. O silêncio é um ato de liberdade, porque eles pensam que assim nos calam, quando nós falamos tão alto quanto sua hipocrisia."
"As chagas são libertadoras, criança. Pense nisso."
E, assim, ela encerrou nossa conversa. Continuou assobiando a canção de Osún, e eu fiquei ali, apenas, encarando aquela velha tão cheia de sabedoria. Resignada. E eu me entristeci porque percebi o significado daquilo tudo. Ela nos deixaria em breve.
Minha juventude não foi fácil. Meu temperamento ainda fervia, admito, e só piorou depois que vi vó Benta morrer na chicotada. Sinhô havia morrido, e a sinhá se casou com alguém tão cruel quanto ela. Diziam que eram amantes, e poderiam ser: semelhante atrai semelhante.
Rebelei-me, consequentemente, e fui castigado por isso. Não morri, porém, porque alguém interviu por mim. Para minha surpresa, foi uma branca. E seu nome era especial: Vivian. A primogênita de sinhá com sinhô Carlos impediu que morresse. Estava atado à grande madeira com as costas expostas, o sangue queimando a pele, mas no momento que ouvi um firme "NÃO" ecoar de seus lábios, soube o que vó Benta quis dizer quando se referiu à esperança da nova geração.
Vivian contava dezessete anos, como eu, e era esbelta: de estatura média, possuía um rosto oval com olhos negros intensos e lábios formosos. Seu nariz era delicado, suas bochechas altas concediam-lhe uma feição mais... aristocrata. Recusava vestidos caros, o que irritava sua mãe, mas, para apaziguar a raiva dela (que lhe era descontada quase como se fosse uma de nós), cedia à vaidade da pobre mulher. Vivian tinha os cabelos dourados como o sol, porém, viviam presos sob uma trança, um coque, enfim... não eram livres como seu espírito tampouco.
Desde a infância, ela costumava passar seu tempo livre com os escravos. Seu pai, a contragosto da esposa, à época incentivava este comportamento. Na verdade, nenhum dos dois apreciava a escravidão, mas não tinham como ir de contra à convenção na época. Por isso, se "tinham" vários escravos sob sua tutela, era  para conceder uma vida decente: não havia como libertá-los porque isso significaria entregar aqueles negros de línguas e vidas diferentes ao estranho, e seríamos marginalizados e excluídos da sociedade, como de fato aconteceria quando a república bradou seu golpe em 1889.
Sendo assim, Vivian preferia a companhia destes "excluídos" às moças da sociedade paulista. Para horror de sua mãe, tratava as negras que a acompanhavam como iguais, e gostava de lhes ensinar a ler e escrever em segredo. Um dia, quando éramos pequenos, recordo-me de ouvi-la dizer à vó Benta:
--Quero ensinar todos vocês a ler e escrever para que o mundo possa descobrir suas histórias.
Foi a única vez que ouvi vó Benta chorar. Afinal, em uma época tão cruel, aquela bondade genuína era como ser presenteado por Osún. E talvez houvéssemos sido presenteados.
De todo modo, como vinha dizendo, Vivian interferiu em meu favor. Houve briga, não me recordo bem porque desfaleci não muito tempo depois. E quando recuperei a consciência, era ela quem me cuidava. Enrubesci diante daquelas mãos pálidas e delicadas cuidando de meu peito nu.
--Sinhazinha!--exclamei, assim que percebi o que se passava. Mesmo para meus ouvidos, minha voz soava rouca, fraca e infeliz.
--Não fale nada--ela mandou, e a autoridade gentil em sua voz calou minhas indignações--Permita-me que cuide de vosmecê, Paulo. Por favor. Sabe que não sou como os outros.
Mesmo na repreensão aos atos de seus pais, não havia desprezo. Seu amor, sua luz, sua gentileza haviam me tocado tão profundamente que chorei. Não foi um choro de dor: esta me acompanhava há tanto tempo que... bem, me acostumei. Não falo com rancor, veja, mas quando se vive acorrentado por muitos e muitos anos, não deixam as correntes marcas em nossa pele?
Pranteei não por autopiedade, mas porque Osún me mostrou que existia bondade, luz em um mundo sombrio. A humanidade existia. A fé permanecia. Diante disso, porque ela me entendia, Vivian sorriu:
--Nunca esteve sozinho, por que não me deixou aproximar antes?
De olhos fechados, respondi:
--Tive medo.
--Compreendo.
Ficamos em um silêncio confortável, e eu percebi que aquele pranto foi a dissolução de minhas defesas e meus traumas. Foi quando falei:
--Por que interferiu em meu favor?
--Porque você não é objeto de crueldade, Paulo. É um ser humano, é meu irmão em Cristo.
Não encontrei palavras para falar, mas Vivian prosseguiu a conversa:
--Percebia que você se afastava de mim, era o mais solitário de todas as outras crianças--e ela dizia isso sem distinção, o que quase me fez chorar--Por que? Se desejar contar, é claro, fique à vontade.
Não compreendi de imediato o que se passava, mas, no plano espiritual, percebi que aquilo pelo qual passei foi um processo de cura. Não somente do corpo, mas da alma. Foi essencial para o desenrolar da minha encarnação naquele contexto.
E eu contei. Falei do meu trauma e não consegui esconder o rancor que sentia da mãe dela. Pensei que perderia sua ternura, mas Vivian me curava como fazia com outros irmãos meus.
--Não o julgo. Não cabe a mim fazê-lo--disse ela, afinal.
--É uma verdadeira cristã--pontuei, sarcástico.
Ela sorriu.
--Espero que sim. Se fosse da minha vontade, serviria a Deus em um convento. Mas minha mãe não quer, e penso que Deus também não.
Confuso diante daquilo tudo, falei:
--O que quer dizer?
Vivian, pacientemente, me explicou sobre o voto de castidade, o que pensava a respeito do casamento forçado que sua mãe e seu padrasto gostariam de arranjar para si. Uma vida, ela dizia, que não lhe apetecia. Sua voz doce me deixou enamorado, admito, conforme falava. E meu coração se entristeceu quando me contou em segredo sobre o significado de ser freira.
--Por que entristece-se, amigo?--ela indagou, diante de meu rosto sem expressão.
Dei de ombros, mas minha língua solta não demorou a derrubar meu orgulho:
--A senhora é bonita demais para ser freira.
Ela corou e eu rapidamente percebi que havia sido imprudente. Levantei-me com pressa e falei:
--Peço perdão, eu...!
Mas Vivian segurou minha mão com força, e, ainda que evitasse meu olhar, algo em seu semblante pedia para que ficasse. Assim, obedeci. E aguardei.
--Ninguém nunca me disse isso antes--ela sussurrou.
--P-Perdão, eu...
--Não, Paulo. Você falou com a alma--disse ela, docemente e agora sorrindo para mim com seus olhos--E eu nunca vou me esquecer disso.
E, sem palavras, fiquei. Eventualmente, tivemos que partir caminhos, mas aquela não seria a última vez que a veria. Na verdade, nos reencontraríamos mais vezes, embora não mais privadamente. Vivian cumpria com seus deveres, e eu compreendia isso. Ela restaurou em mim uma paciência, uma resiliência que pensei ter perdido.
--Você a ama--Júlio, um amigo meu, comentou. No ano seguinte, celebrávamos o natal. Se é que se poderia dizer isso. Apenas fomos deixados em paz, a bem dos fatos--O que há de errado contigo?
Não respondi. Não tive forças para negar aquilo que com tal veracidade me afirmava. Observei-o balançar a cabeça com desprezo. Soube que fiz algo de errado, mas o compreendia. Ele não a via como meus olhos, portanto, era natural que me julgasse.
--Ela é o inimigo. O lobo em pele de cordeiro. Cuidado.
Talvez antes houvesse brigado com ele, mas já contava vinte anos. Era homem. Construía minha sabedoria, não era mais ingênuo. Carregava minhas dores tanto quanto cada um deles carregava as suas. Apenas o abracei, e aquilo o surpreendeu. Mas apaziguou a dureza de seu coração.
No entanto, Vivian logo noivou. E aquilo partiu meu coração. Surpreendentemente, foi Júlio quem me consolou:
--Eu poderia dizer que o avisei, mas que utilidade isso teria? Vivemos na dor, e é na aflição que a gente se acha, não é mesmo?--e com um suspiro acrescentou--Será que um dia isso terá fim, meu amigo?
Mesmo despedaçado, falei:
--Sim. Tenho fé de que isso terminará.
--Se não agora, quando?
Dei de ombros.
--E que importa?
Júlio deu uma risadinha e sorriu:
--Se bebesse mais, falaria as baboseiras cristãs dos brancos.
Ignorei a provocação e disse:
--E vosmecê me negaria uma bebida?
Como antigamente, rimos. Em meio ao caos, pudemos encontrar a paz. Em meio à tempestade, a calmaria nos achou. No final das contas, os valores nos salvavam de nós mesmos: a honestidade, o amor ao próximo, a caridade também. Quando nos prontificamos à ajudar a apaziguar a dor do outro em vez de nos afundar na nossa, é, de fato, aquilo que Jesus um dia lhes disse: "Amais uns aos outros como amam a ti mesmo."
O povo negro não foi subjugado por isso, apesar dos horrores que lhes foram impostos. Todavia, não se deve pensar que entre nós não havia pessoas de má índole: caráter não escolhe cor, posição, gênero, nada disso. Está embutido no espírito do indivíduo. Em alguns casos, é passível de melhora. Em outros, melhora depois de algumas encarnações embrutecidas.
Observador que era, testemunhei traumas entre os próprios irmãos de cor. Ouvi mesmo histórias dos que fugiram, mas voltaram para a vida porque, pasmem, a liberdade que lhes havia sido prometida foi uma enganação! A escravidão estava entre nós também. O domínio que o homem aprecia exercer sobre ele mesmo pode ser surpreendente. Casamentos arranjados eram hábitos perpetuados também pela espiritualidade. Explico, obrigar um rapaz a desposar uma jovem para formar uma família contra a vontade de ambos imperou por séculos desde que a Humanidade passou a constituir sociedades. Nesse sentido, tais valores vinham com estes espíritos. Não preciso dizer que a infelicidade se aprofundou com isso. Alguns de vocês dirão que o convívio com esses brancos pré-conceituosos resultou nesta reprodução inconsciente de hábitos. É verdade que o senhor de engenho muitas das vez impôs seu poder ao fabricar tais relações, entretanto, negar que nós mesmos fazíamos isso é calar o negro de sua história também. Repito: caráter não escolhe cor ou gênero.
Às vezes, no silêncio da noite, me perguntava se tudo isso não era resultado desta imposição dos senhores de engenho sobre nós. Violações, elas aconteciam. Mas ninguém ouvia os gritos das senhoras, ou mesmo dos rapazes, porque ambos se acostumaram a isso. É triste, mas precisa ser dito. A crueldade existiu e permanece neste mundo de expiações. Com a graça de Deus, agora vocês estão transitando para outro tipo de mundo, não é mesmo?
Bom, pouparei os leitores das ruindades porque, de fato, é enojante e muito infeliz rememorar e testemunhar tais fatos. Não somente porque as vivenciei, mas meus irmãos também sofreram com isso. Alguns de vocês interromperão a leitura, e não os culpo por isso.
Ao reencontro com Vivian, pois então. Aqui, já era mais velho. Na verdade, envolvi-me mesmo com duas negrinhas neste passar da juventude para a maturidade. Sofri nas mãos dos brancos, embora com raras frequências aos irmãos que, corajosos, recusavam-se a dobrar o joelho e esquecer sua dignidade. Cada qual com suas histórias, seus desamores, seus dessabores.
Apesar deste envolvimento, no primeiro carnal e no segundo emocional, nenhuma destas mulheres havia me encantado e tomado meu coração como aquela sinházinha que me acompanhava desde a infância. Por mais que já houvesse me curado do grande trauma da infância, o silêncio era meu companheiro. Não falava, e alguns dos irmãos me apelidaram de "O Mudo." Contava trinta anos quando ouvi a conversa seguinte se desenrolar:
--...disseram que se chamava assim p'ra agradar os velhos [referência aos avós de sinhá Vivian].
--Suponho que tenha sido mais porque o apóstolo santo apareceu para a mãe dele--conjecturou uma mulher, de meia idade. Ambas vinham de uma mesmo tribo africana, se não me engano, Serra Leoa, porém, de alguma maneira compreendia o que diziam.
A primeira mulher soltou uma risada debochada:
--Apóstolo santo? Crê na religião deles agora?
A segunda deu de ombros como se aquilo tivesse pouca importância. Seu maneirismo muito me recordava da preta velha vó Benta, a serenidade em seu rosto era cativante.
--Os errados não são os santos, minha cara, mas aqueles que os seguem. Não conhece a história de São Paulo?
Sem resposta da outra, ela continuou:
--Paulo nasceu com outro nome, Saulo, e ele era judeu. Era grande estudioso e quase se tornou um rabino, no entanto, seu orgulho falava mais alto que o conhecimento que poderia despontar sua bondade. Assim, perseguiu algumas comunidades cristãs. No final das contas, foi subjugado pelo próprio orgulho e adotou o nome pelo qual é conhecido entre os cristãos: São Paulo.
--O garoto não é orgulhoso--a primeira senhora pontuou, embora sua hesitação fizesse tremer a voz.
--Não é, de fato--e surpreendido fui quanto ao que ouvi. Meu coração se encheu de ternura--Por isso que o Santo o abençoou com o silêncio, para que as reclamações e os pesares da vida não enchessem seu orgulho nem pesassem sobre sua vida. Tal qual este sábio santo, nosso querido filho e irmão em Cristo é mais humilde do que nós em terríveis condições.
Não quis mais ouvir aquela conversa, sentindo-me um intruso. Procurei pelas matas e ali me escondi. Fiquei pensando sobre o que haviam me dito, e meu temperamento, ou o que restava dele, se suavizou. Nunca fui muito religioso, embora frequentasse os cultos secretos que meus irmãos de pele faziam na ausência dos senhores de casa, como também o fazia na igreja quando estes se apresentavam. Mas acreditava em um Deus Uno, Pai de Todos, que perdoava os pecados do mundo. Como qualquer ser humano, tinha minhas inquietações, entretanto, a fé prevalecia sobre elas. À noite, eu sonhava com um mundo melhor... e que Vivian, eu rezava em meu interior, estivesse nele.
Vivian cresceu, tornou-se mulher e, contra sua vontade, casou-se com um estranho que conhecera na noite de núpcias. Ele lhe era indiferente porque preferia a companhia masculina dos escravos, mas cumpria seu dever de marido e, juntos, conceberam uma criança. Seria a única que ela teria. O parto foi difícil, mas Vivian foi corajosa. Entregou sua vida à Virgem Maria e apenas pediu para que seu filho, a quem chamaria de Pedro em honra ao santo apóstolo que acompanhou Jesus, nascesse e tivesse uma vida saudável. Ainda que seus pedidos de mãe fossem atendidos pela intercessão de Nossa Senhora, sua vida foi poupada. Contudo, Vivian não teria mais filhos.
Quando o jovem Pedro ainda era um infante, seu pai veio a falecer, deixando, assim, Vivian uma mãe viúva. À época, isso foi visto como liberdade por ela, já que sua mãe e o padrasto passaram para o plano espiritual, e não havia ninguém que contestar-lhe-ia sua herança. Embora no decorrer dos anos seguintes, atraísse um considerável número de pretendentes, ela recusaria a todos eles.
Assim, foi numa tarde tranquila em que desfrutava sua viúvez quando veio me procurar. Ocupado com minhas tarefas de carpinteiro, prontamente as deixei de lado quando sinhá, sempre em suas vestes simples para sua posição, veio encontrar-me.
--Paulo, meu querido--ela me cumprimentou com um ar tão alegre que me deixou ruborizado--Estava o procurando.
Prontamente releguei para o esquecimento minhas tarefas, a fim de que pudesse dar àquela dama a atenção que requisitava de mim.
--Pois sim, senhora? O que gostaria de mim?--indaguei, soando tolo aos meus ouvidos.
Mas Vivian era a pessoa mais pura que eu poderia conhecer. Em vez de rir ou zombar de seu escravo, ela tomou suas mãos nas minhas e as segurou. Notei que não usava luvas, percebi a ausência de joias que enfeitavam seus dedos. Mesmo viúva, a aliança não fazia mais parte de sua mão de casada. Percebi que ela também foi escravizada à vontade dos outros, porém, encontrou à sua maneira sua libertação.
--Gostaria de convidá-lo para uma caminhada--ela convidou, e uma vez que aceitei, disse--Não pretendo me demorar, pois que há um assunto que me cobre a cabeça de preocupação. Gostaria de seu assunto porque é bem amado por todos aqui.
Reparei que havia algum traço de infelicidade por isso, mas controlei minha ansiedade e aguardei que viesse a dizer o que quer que a incomodava.
--Soube esses dias que outros países, reinos, como queira chamá-los, vêm aderindo à causa da abolição. No entanto, aqui ainda isso é visto com desdém, uma ideia absurda. Apesar disso, quero libertar a todos. O que pensa disso?
Aquilo para mim era novo. O cenário em si o era: quem veria uma bela moça branca de alta classe do país caminhar lado a lado com um negro escravizado e tratá-lo não como um objeto, mas como o ser humano que era? Ademais, havia outra questão que me inquietava: abolição. Aquele sistema ocorria há tantos séculos que muitos de meus irmãos não pensavam, sequer sonhavam que isso poderia ser uma realidade. A infelicidade ampliava-se e marcava toda uma vivência, afinal, nascia-se em correntes, mas somente a morte poderia ser a completa libertação. Uma vida sem sofrimentos? Era o que desejava, não somente para mim, mas para meus irmãos também.
Todavia, havia outra questão ainda mais importante que a concepção de liberdade poderia trazer, findando um longo tempo de dor para os negros. Era o racismo. Produto dessa superioridade tola que a maioria da raça branca impunha aos seus semelhantes, cujo único pecado foi nascer de pele mais escura. Embora haja explicações espirituais abrangentes para esta questão, não devemos desmerecer ou apaziguar as razões histórico-sociais para este pensamento tão impuro embrutecer espíritos ruins e limitar os bons. Afinal, o responsável pelo sistema de escravidão, em vigência desde à antiguidade, é por conta do homem, e o racismo também por ele.
Em minha memória, recordo-me de tantas e tantas humilhações pelas quais muitos de nós passaram sob esta palavra tão carregada significantemente. De fato, traria lições para a humanidade (a menos aos que se dispusessem a aprendê-la), mas a que custo? Presa nos vícios carnais, esta raça humana precisaria carregar chagas se quisesse desprender-se dos pecados cometidos, das faltas sofridas em existências milenares.
Sendo assim, o país Brasil tinha várias boas intenções no decorrer de sua construção. Contudo, pecava, dentre tantos erros descomedidos, pela diferenciação da cor de pele, causando a exclusão daqueles que não se enquadravam como "caucasianos". Esta exclusão levaria a quê? Digo, pois, que a caminhos desvirtuosos para o fraco de mente, e mesmo aquele mais preparado para enfrentar uma vida difícil pode cair na tentação, na fraqueza... Ninguém é perfeito. Entretanto, negar que não existe relação entre racismo e crime é fechar os olhos para toda uma estrutura que um sistema criou. Mesmo naquela época, percebi isso.
--Acho que é uma bela decisão a ser tomada, senhora--falei, por fim--No entanto, devemos ser realistas: arrumaremos algum emprego decente? Seremos vistos como "irmãos em Cristo" conforme prega o padre todos os domingos de manhã? Seu coração é bom e nós todos aqui a temos em estima, mas se for para ser sincero...
--Entendo--ela falou com um suspiro--E percebo que sou minoria aqui. Mas... Mas darei um jeito.
--Não vale a pena se arriscar...--me ouvi dizer, preocupado.
Vivian me encarou com serenidade quando respondeu:
--Claro que vale, meu caro. Estou disposta a correr os riscos necessários para salvá-los. A vida é mais que cor de pele, cada ser humano merece viver em termos iguais--e aqui ela compartilhou comigo sua paixão humanitária, suas filosofias de vida, tendo a paciência com minhas limitações humanitárias e explicando-me tudo. Foi uma tarde inesquecível, de fato.
Ao chegar da noite, ela disse:
--Agora, preciso me retirar. No entanto, espero revê-lo novamente, Paulo. Sabe que é querido.
Assim, me deixou sem palavras. Não sabia o que responder, tolo que era. Mas Vivian era compreensiva, um ser muito além de seu tempo. Ela tocou em meu rosto, trocamos olhares por uma última vez e a vi regressar a sua casa, à grande casa que eu nunca pertencerei. De certa maneira, conscientizar-me disso me entristeceu.
Nunca fui rebelde no sentido pejorativo do termo, caro leitor. Havia muitos motivos para me revoltar, mas do que valeria? Tudo o que eu conhecia era aquela realidade de dentro do cativeiro, matagal cá e acolá e ser obrigado a lidar com o dia-a-dia. Era como se estivesse sendo desafiado a ir contra minha natureza, que, sem qualquer estudo, teria sido livre demais, por assim dizer, causando a mim mesmo uma abreviação da vida desnecessária antes do tempo certo. E por que isso? Não há pontos sem nós, não é mesmo? Minhas existências pregressas foram, em sua maioria, em campos de batalha. Soldado, rei, guerreiro, camponês, não importa. Minha vida findava no momento em que a espada, um martelo de guerra, uma lança, um punhal cruzavam minha carne e cessavam o último movimento dos órgãos que me mantinham vivo em corpo. Afinal, o espírito não morre e disso se sabe.
E por que tantas vivências com fins parecidos? Porque eu não admitia o meu orgulho, não aceitava ser submetido a outros, confundindo pedidos com ordens e acreditando que eu era o dono da razão. Ignorava conselhos, porque apenas os meus eram válidos. Entretanto, se as dores diminuíram com o passar do tempo foi porque, aos olhos do Grande Pai, eu melhorei. Foi um esforço descomunal, é verdade, mas ninguém se aprimora com facilidades.
Assim, Vivian me ajudava bastante com isso. Ela era quase uma santa, pois aceitava seu destino sem qualquer reclamação e raramente pranteava: se o fazia, era pelos outros, cujas dores sentia como se fossem suas. Foi assim que aprendi a ser humilde e a fazer a caridade. Eu estava aprendendo em essência, pela alma, por pior que possa ter sido viver acorrentado. Com isso, não me isolei mais. E foi quando se deu o início do fim.
--"Deu meia noite, a lua se escondeu..."--ouvi alguém cantar.
Seu nome era Zé dos Alves, e ele gostava de uma bebida. Naquela noite não seria diferente. Achava-se bêbado e perambulando para longe da senzala. Não usava cabelo, seu corpo traía as cicatrizes e as dores de um passado que, lentamente, mudava-se no presente. A tristeza em seu olhar era um pedido de socorro silencioso, e foi quando cheguei a ele.
--Meu caro, o que está fazendo? Embebedando-se outra vez?
Seu Zé, pois era alguns anos mais velho que eu, me sorriu e disse:
--O que é a vida sem uma bebida, rapaz? Agridoce, não acha?
--Fugir dos problemas não é a solução.
--E existe alguma? Nossos deuses nos abandonaram e nem este dos brancos nos quer entre eles--resmungou.
Foi a minha vez de sorri.
--Permita-me retrucá-lo, seu Zé, acho que o senhor está errado.
Ele bufou.
--Como?
Guiei-o para um local onde os escravos costumavam fazer suas preces sem que os senhores brancos tomassem consciência. Mesmo com pouca iluminação, conhecíamos o lugar bem para nos sentar sem temer pisar sem quer nos bichos silvestres.
--Não vê que todos os deuses nos levam a Um só? O Pai de Todos? Seu Filho, Jesus, não te parece em tanto com Oxalá? Ambos não sofreram, não pereceram para o bem maior da humanidade?
Embora respeitoso, o desdém de seu Zé falou mais alto:
--De fato, rapaz, mas para quê? A humanidade é uma grande merda, se quer saber minha opinião.
--A humanidade ou os brancos?
--E faz diferença?
Ri.
--Faz. Somos todos humanos, filhos de Deus e irmãos em Cristo. É difícil, mas devemos perdoar nossos atrozes.
Seu Zé soltou um soluço, mas me encarava quase como se seu julgamento pouco estivesse afetado pela bebida.
--Diz isso porque ama aquela branca. Isto é um erro, rapaz. Escute o que digo.
--Talvez seja--eu disse, ponderando sobre as palavras a dizer--E o amor é um pecado, seu Zé? Osún não amou Sanjô?
--Ela amou Ogún, que, por sua vez, preferiu a guerreira dos ventos--retorquiu seu Zé--Causou tantas brigas desnecessários este sentimento tolo...
--O senhor diz isso porque perdeu quem amava, não foi?--falei, solidarizando-me com o homem--É por isso que bebe. Ela o ajudava a equilibrar a luz e a escuridão que habitam em seu interior, mas sem ela... o que é a vida? O que é a vida sem o amor, eu pergunto? Respondo, meu amigo: não há perdão, há trevas, escuridão. Há infelicidades.
Seu Zé suspirou. Fez algum movimento como se estivesse com a bebida em mãos, mas tendo-na perdido, limitou-se a resmungar:
--Tão jovem para falar verdades.
Sorri.
--O senhor é temperamental como Ogún.
Aqui, seu Zé voltou a sobriedade com tranquilidade e chegou a me conceder um sorriso:
--Sim, eu sou. Tenho vinte anos a mais que você, jovem, e entretanto ainda coleciono recordações do que me foi roubado. Nasci em Angola, já sabia português, meus pais falavam este idioma...--ele suspirou, perdido no passado--Não éramos os mais ricos, nem os mais pobres, mas possuímos um valor inestimável: a liberdade. Conheci isso, filho. Corria pelos matos verdes, nadava nos rios limpos, e saudava os mais velhos com respeito. E ela cresceu comigo também. Nossos pais planejavam nossos casamentos, inclusive nossas vidas: minha mãe era vidente e via, como você acertadamente pontuou, o velho guerreiro Ogún, Marte, se quiser chamá-lo assim, me protegendo. Eu viria a lutar, me disseram. E contra algumas tribos lutei, de fato.
"Contudo, do que valeram minhas forças? Do que, eu pergunto? No dia que voltei de uma vitória, percebi que regressei perdedor. Ah, caro Paulo! A tristeza foi... indescritível. Homens brancos com seus cavalos entrando em um reino que não lhes pertencia e demandando que fôssemos entregues a eles... O pior é que havia traidores entre nós! Oh, sim! Não vi meus pais, nunca mais. Mas Ogún se apiedou de mim e permitiu que minha prometida fosse comigo. Digo que se apiedou porque daí em diante..."
Ele fez uma pausa e vi as lágrimas surgirem nos olhos daquele velho forte e rabugento, tão orgulhoso quanto eu, submetido à humildade pela vida. Alguns diriam que foi Exú, outros, Ogún. O que importa? Seu Zé continuou:
--Perdi a fé neles quando ela se foi. Naquele navio horroroso! Foi sufocante, posso recordar ainda hoje do cheiro de urina, fezes, se misturando... O desespero do nosso povo! Vários povos submetidos a esta gente, Paulo. E por que? Para quê? Em nome de um Deus que ama a todos nós igualmente? Que igualdade é essa? Kaarjina não sobreviveu. Morreu em meus braços, pedindo perdão por ter sido violada. Mas me pediu que eu continuasse a luta por ela. "Não desista", ela disse, "nem resista. Apenas lute".
"E sabe o que eu entendi, depois de todo esse tempo? Que eles querem que nós morremos, oh sim. Mas lutarei para viver, sou filho de Ogún, meu rapaz. E ninguém conseguiu acorrentá-lo. Muito menos Exú."
Quando seu Zé terminou de esbravajar, vi algo ao redor dele: um sorriso maroto, um olhar perspicaz... mas também uma presença de guerra, séria. Não havia injustiças, eu pensei, que sairiam impunidas.
Ficamos em silêncio por um tempo, e mentalmente agradeci aqueles deuses que, da África, vieram conosco. Ao contrário do que seu Zé pensava, eles não haviam nos abandonado. E minha fé, tão de repente, se renovou.
--Obrigado por ter conversado comigo, seu Zé. Somos dois lobos solitários, não é mesmo?
Seu Zé, depois de ter chorado e exposto suas frustrações, sentia-se mais leve. Mais calmo mesmo. Sua revolta, sua angústia, foram amenizadas. Ele só queria ser ouvido, mas prendeu-se dentro de si por todos aqueles anos.
--Sim, filho, nós somos. Já não me pergunto mais o por que, quero apenas viver--e ele riu desta constatação--Para muitos, a morte é uma libertação. Mas não penso assim, não. É claro, enquanto admito ter me acostumado com essas correntes, também me habituei a lutar contra elas. É algo diário, renova minhas forças. É tudo o que tenho.
--O senhor não está sozinho, seu Zé. Mas precisamos nos aproximar dos jovens, acredito que há uma esperança para tudo.
Ele sorriu para mim.
--Como consegue ter esperanças, criança, é uma pergunta sem resposta para mim.
--Da mesma maneira que o senhor acende o fogo para a luta diária--respondi, retornando o sorriso--E os lobos precisam proteger a alcateia.
--Do contrário ela se dispersa--ele acrescentou, coçando a barbicha em pensamento--Como pode ser tão sábio?
Meu sorriso se estendeu aos lábios. Fiquei feliz de possuir muitos dos dentes intactos ainda.
--Ainda não sou sábio, seu Zé. Pretendo ser um dia, há muito pelo qual devo passar ainda.
--Sua fé é inabalável, porém.
--Devemos deixar o orgulho para trás--e enfim disse--Ogún e Exú nunca o abandonaram. Os deuses continuam conosco. Acham mesmo que nos preteririam? Não, seu Zé. A liberdade é contínua, mas existe. Não aqui, em meio ao caos e à imperfeição, mas lá em cima. Ao redor deles, num grande salão de ouro em meio ao mar ou ao rio. De sua preferência.
Seu Zé sorriu e deu uma fungada.
--Sinto falta, cumpadre. De minha mãe contando as histórias de 'Manjá, dos amores de Osún, das vitórias de Yan'sã. Há outras também, Isis, que nos abençoou pelo rio de Osún e subjugou a morte. Enganou-a--ele deu uma risada que ecoou pela mata selvagem--Um dia enganarei a morte também.
Pude ouvir a risada de Exú e quase tive a certeza de deslumbrar o sorriso de Ogún em meio à escuridão.
--Quem sabe, seu Zé. Quem sabe.
E com as forças renovadas, o velho homem se levantou e disse:
--Sinhá Benta te educou bem, Paulo. E este nome não combina com você.
Foi minha vez de rir, e senti-me leve enquanto o acompanhei de volta à senzala:
--Nomes pouco importam quando tratamos de ações, seu Zé. Que Deus o abençoe.
E, com um olhar curioso lançado a mim, o velho riu e disse:
--A você também, Paulo, a você também.
Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, dormi bem. E senti que finalmente havia um propósito que me mobilizava. De fato, por mais que Vivian me ajudasse nesta questão da aforria, sofreríamos várias sanções até ela ser realizada. E muitos de nós jamais a viria, pois que a lei que pontualmente findava (ao menos dentro da jurisdição do país) a escravidão, só ocorreria no ano de 1888. Se não me falha a memória, no decorrer desta história, não havíamos ainda entrado a década de 50 daquele século.
Apesar disso, resistiríamos como podíamos. Vivian e eu passamos a conversar com todos os escravos, falando sobre as mudanças que ocorreriam dali para frente. Ela lhes deu a opção de trabalhar para ela se assim desejassem, recebendo um pagamento adequado para os serviços prestados, podendo construir em suas terras casas para viverem. Se, ao contrário, optassem por sair dali e viver uma outra vida, ela os apoiaria da mesma maneira.
--Minha intenção--ela disse--não é expulsá-los ou renovar sua dependência para comigo. Vocês são humanos, possuem suas histórias de vida, suas crenças e todo um contexto que lhes foi arrancado injustamente. Compreendo se não confiarem em minha palavra, pois vivemos em tempos obscuros. Contudo, garanto-lhes que vim a fazer o bem, a lutar por, e não contra, vocês.
Aquela decisão de conceder aos irmãos negros a liberdade de vida soou como uma revolução aos ouvidos daqueles indivíduos tão afundados na miséria espiritual e carnal. Muitos se emocionaram, como outros desconfiaram. Vivian não os culpou por diferentes reações, e mesmo quando questionada se manteria a decisão diante de um possível desprezo da outra população branca, ela disse:
--Não importa o que os outros pensam. Meus deveres estão com vocês, e se tiver que pagar por isso, pagarei eu mesma.
Foi um ato de coragem e raríssimo num contexto como aquele, principalmente vindo de uma mulher. Afinal, quando lemos a História, conhecemos apenas homens como Joaquim Nabuco e outros abolicionistas que se esforçaram para acabar com aquele sistema injusto e desigual. No entanto, houve mulheres como Vivian, mas a documentação e outros meios de localizar estes sujeitos históricos... foi dissipado, para não dizer deliberadamente apagado.
Mas a mentalidade é difícil de se alterar. A desconfiança prevaleceu pelo primeiro mês. Observava e seguia os passos de Vivian, que me pedia auxílio para esta tarefa. Ela sentava com todas as senhoras e todos os senhores negros antes de se aproximar dos mais jovens. Recordo-me de uma conversa que teve com um rapaz mais novo que eu chamado Rafael.
--Brancas como a senhora envenenam nossas mentes já que não basta tomar conta de nossos corpos.
--Rafael, cuidado com a língua--repreendi-o severamente, mas Vivian segurou gentilmente meu braço e disse:
--Não, deixe que o fale.
Rafael encarava a nós dois com suspeita. Era um jovem de dezoito anos, talvez um pouco menos, que deixou seu cabelo crescer e carregava em seu corpo marcas de chicote e outros instrumentos de tortura. Entristecia-me que ele, como tantos de nós, colecionava traumas que se enraizaram em sua alma. Não podia culpá-lo, porém.
Seus olhos eram de um azul esverdeado e, para alguém mais atento, observaria traços mistos: na verdade, ele era meio-irmão de Vivian: a mãe de ambos, a odiosa sinhá esposa de sinhô Carlos, não resistiu a um negro que tanto desprezava. Traiu seu segundo esposo com ele, e não preciso dizer o que resultou disto quando o padrasto de Vivian descobriu o adultério. Logo, constatei as semelhanças e me perguntei se Vivian notava isso também.
Rafael era temperamental, mas porque havia sido rejeitado pela mãe e foi violado pelo esposo desta em tenra idade. A raiva que guardava vinha destes fatos, como, ao que parece, foi obrigado a satisfazer uma das amigas de sua mãe. Peço perdão ao leitor por expor estes fatos, mas é necessário compreender que um espírito raivoso nem sempre o é por natureza. As circunstâncias cruéis da Terra não são fáceis para aqueles que vinham (e continuam vindo) expiar por faltas passadas. É por isso que devemos sempre exercer o amor ao próximo. Melhorar é difícil, e muitas vezes o auxílio é bem-vindo para que essa tarefa seja cumprida com êxito.
--Sei que me odeia--disse Vivian--e não o culpo por isso. Tentei muitas vezes interceder ao seu favor...
--Não fez o suficiente--retrucou ele--Se pudesse, a matava agora. O que me impede de fazê-lo? Há vários aqui que desejam o mesmo.
O ódio que vinha dele me assustava e eu temi por Vivian. Havia verdade naquelas palavras, e me pareceu que as trevas haviam se apossado do garoto. Mas antes que pudesse falar alguma coisa, ela tomou as mãos dele e fez o que surpreendeu a ambos: abraçou-o.
Rafael não soube o que dizer, nem o que fazer. Ele havia acabado de ameaçar sua senhora e, no entanto, em vez de receber alguma punição por isso, como esperava, ela o abraçou! Perplexo, ele não a repudiou, mas tampouco retornou o gesto. E mesmo assim, Vivian continuou o abraçando. Aos poucos, a resistência dele diminuía e as trevas o abandonaram quando prontamente caiu no choro.
--Que Deus o abençoe e o livre de todo mal--ela sussurrou ao ouvido dele--Perdoai-me, Senhor, por não tê-lo conseguido salvar. Perdoa-me, Rafael, por não ter sido uma boa irmã para você.
Foi um momento eletrizante e que atraiu os olhares de todos os presentes: muitos de nossos irmãos vieram acompanhar a cena e, como o temperamento de Rafael era bastante conhecido, ficaram chocados em vê-lo às lágrimas. E aos braços da senhora! Aquilo os desarmou, e mesmo os mais resistentes àquilo tudo, perceberam as reais intenções de Vivian. Ainda assim, a perspectiva fora do cativeiro era mais atraente do que permanecer em um lugar onde tantas memórias ruins ecoavam. Poucos foram os que optaram por ficar. E, curiosamente, seu Zé foi um deles.
--Minha hora final se aproxima--ele me contou isso alegremente, para meu espanto--Embora prefira ser enterrado longe daqui, gostaria de ficar ao seu lado, filho. Acredito que me afeiçoei a você.
Eu, que nunca tive alguém para chamar de pai ou mãe (dado que ambos faleceram quando eu ainda era bem jovem, um bebê), me comovi com aquela ternura. Não percebi que sentia falta tanto de um carinho paternal, mas agradecia a Deus por ter me levado àquele homem.
--E eu, ao senhor--respondi, feliz--Gostaria de tocar um pandeiro?
Ele riu, um som que eu apreciava bastante.
--Não, meu caro Paulo. É um instrumento para os jovens, não para os velhos. Ainda prefiro minha pinga!
Acompanhei-o no riso.
--Ainda nisso?
--Ainda nisso--ele me deu uma piscadela--Não se bebe apenas para afundar as tristezas e esquecer o passado, mas para celebrar a vida. Há ainda muito a ser lutado, e eu um dia lutarei pelos nossos, meu caro! Esteja aonde estiver, farei isso! A luta corre em minhas veias, mas agradeço por isso.
--O senhor me comove com tanta sabedoria--disse, emocionado--Ainda não acredito que vivemos isso.
--Sim, mas por quanto tempo?--e antes que pudesse elaborar uma resposta para aquela pergunta sombria, ele acrescentou--Não vamos confabular demais. Exú não gostaria disso.
E assim falamos de santos e deuses, de um passado que não nos pertencia mais. Seu Zé se libertava de seus demônios, de seu passado, das correntes que o prendiam aqui na Terra. Quando veio a desencarnar, o homem foi recebido com alegria pelos seus protetores. Talvez vocês o conheçam agora pelo nome de Zé Pilintra. Sim, tive a boa fortuna de tê-lo conhecido.

Vivian e eu nos amamos platonicamente. Não consumimos o amor porque estávamos engajados demais em nossas lutas para fazê-lo. E, no entanto, havia sempre o dia em que sorríamos um para o outro, abraçávamos e conversávamos sobre a vida. O momento mais íntimo não foi na cama, mas na Igreja: rogando a Deus, ela segurou minha mão e eu, a dela. Não precisávamos de mais nada. Ali, sob a testemunha de Jesus e seus apóstolos, de Oxalá e os deuses que o seguiam... éramos um.
Quando sua saúde debilitada enfraqueceu-se, pediu para que eu não me esforçassem em salvá-la. Que não me entristecesse. Assim, fiquei ao lado dela. Pranteei pela primeira vez em anos. E ela, com seus olhos tenros, apenas disse:
--Eu o amo, Paulo.
--E eu a amo, Vivian.
Entrelaçamos os dedos, juntamos as cabeças e fechamos os olhos para juntos deixarmos este plano. Desencarnamos como um só, porque nossas missões de tantas e tantas vidas haviam finalmente findado. Dali em diante, nos comprometeríamos a ajudar estes que temporariamente habitam a Terra, mas igualmente outras moradas do Grande Pai.
Com isso, concluo esta memória, este ensinamento, esta história. Meus agradecimentos aos leitores, e também à médium pela paciência e bondade com cuja fidelidade compartilhou minha mensagem. Que nada disso seja esquecido, mas permaneça o amor ao próximo, a empatia e os bons valores que Deus, através de seu Filho, nosso Mestre, nos passou.

               Espírito Emanuel.

















Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...