sábado, 2 de novembro de 2019

Velhas Memórias. Ciclo VIII.

Leste da antiga França, 817.
Nestes tempos tão turbulentos, vim à Terra novamente. Como devem ter observado, o espaço entre encarnações aumentou consideravelmente, pois meus trabalhos no plano espiritual expandiram-se rigorosamente. De todo modo, apesar de ter selado alguns carmas desenvolvidos nas existências precedentes, havia missões que precisavam ser cumpridas. Uma delas me levou à Frankia, que hoje em dia atende pelo nome de França. (Nota de Amadeus: Por motivos de compreensão pública, opto por orientar a médium a manter o nome do país pelo qual é conhecido atualmente).
Assim como na Inglaterra de 400 anos antes, a França do século IX era nada se não um amontoado de reinos e sub-reinos sem uma autoridade central, o que resultava em constantes guerras contra si mesmos pelos motivos mais banais que se poderia pensar. Apesar disso, não se deve menosprezar o reinado de Carlos Magno, personagem que muitos dos nossos leitores devem reconhecer.
Este renomado guerreiro não era, porém, um exímio espírito de inalcançável inteligência e possuidor de qualidades louváveis. No entanto, foi quem foi a partir do contexto sócio-histórico que o criou, o que tampouco justifica a crueldade com a qual subjugou tantos povos em nome do grande Mestre. Uma vez que se torna possível identificar cristãos genuínos em meio ao caos e violência geradas pelo apego material, podemos concluir que a sociedade era o reflexo de um conjunto de espíritos e não o contrário. Dando prosseguimento ao que dizia, Carlos Magno foi importante para o desenvolvimento da França, embora em seus findos dias sua consciência ainda estivesse tão presa à matéria que dificultaria sua transição para plano espiritual. Para uma época medieval que clamava e moldava costumes guerreiros como resultados seculares de domínios tribais (não podemos esquecer que nos dias do Império Romano, os ditos bárbaros provenientes da Germânia dominaram todo o território francês, responsabilizando-se parcialmente pelo declínio daquele poderoso império de antigamente), é fácil entender o motivo pelo qual este rei alavancou a dinastia que levaria seu nome (carolingea) a um patamar que seus ancestrais e antecessores falharam em fazer.
Entretanto, mesmo os grandes guerreiros não viviam para a sempre e a instabilidade ainda estava bastante enraizada para que os problemas de sucessão e autoridade régia cessassem com todo o poderio exercido pelo primeiro Imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Com isso, portanto, Carlos Magno veio a falecer em 814. Três anos mais tarde, quando se dá início a esta memória minha, a política fraca de Louis, O Piedoso colocaria a perder tudo aquilo que seu pai se esforçou em manter. A verdade é que conquistas, por sangrentas que fossem, nunca se perpetuavam. Para toda uma ação, há uma reação. Em seu íntimo, Carlos Magno sabia disso. É na proximidade da morte que os "instintos" espirituais se aguçam, pois que reconhecem a partida de um plano para o outro, do desprendimento da carne para a liberdade espiritual.
O reinado deste rei é, ainda mais para as interpretações atuais com diferenças de tantos séculos entre estes tempos e os dos leitores que aqui nos acompanham, complexo de ser compreendido. A alcunha de "o piedoso" nos faz pensar nele como uma figura que, a despeito de todo o esplendor que sua posição poderia lhe conceder, manteve-se humilde e realizou processos cristãos que contribuíram para elevá-lo a este patamar de opiniões públicas. Por outro lado, muitos culpabilizam seu "excesso de religiosidade" pelas guerras civis causadas em seu governo. A verdade é que ele não foi como seu pai, por isso tantas expectativas ao seu redor foram frustradas. Mas ele, assim como qualquer ser humano, era mais complexo do que sendo apenas "religioso" ou "fraco". Suas intenções eram boas, mas nem sempre elas são suficientes. De todo modo, posso dizer que, independentemente disso, suas encarnações posteriores foram melhores.
Este é, meus caros, o contexto em que nasci. Como falei no conto anterior, encerrei minhas vivências enquanto homem, por isso vim mulher. Meus pais terrenos deram-me o nome de Agnés, e éramos  simples camponeses que, entretanto, seriam afetados pelas guerras civis provocadas, ou não, pela falta de tato de Louis e seus companheiros aristocratas. Apesar de ter feito questão em ressaltar este contexto, não voltarei a mencioná-los no decorrer da história se não quando for extremamente necessário.
Ao sul do leste da França governada por Louis, minha mãe, uma senhora de bondoso espírito e resignação que já havia parido 15 filhos dos quais apenas 3 sobreviveram à infância, me deu à luz depois de bastante sacrifício. Faltava-lhe motivação em fazê-lo, por maior que fosse sua fé. Não há como culpar a pobre mulher: viu doze crianças morrerem sem ter qualquer poder para impedir tal desgraça. Entretanto, cultivava em seu íntimo uma esperança que não conseguia explicar: a de que os reencontraria novamente. A fé estável, consequência da elevação de seu espírito, moldou e preparou seu caráter para as dificuldades da vida. Aquela seria última encarnação na vida terrena. Tendo enfrentado todas as provações com certo sucesso, logo seu tempo cessaria e, no instante em que me deu à vida carnal, não sobreviveria a outro parto doloroso. Apesar disso, antes de partir para o outro lado, como os jovens de hoje em dia gostam de pontuar, nós desfrutamos de um breve reencontro: esta mulher foi tanto irmão quanto irmã de outras vidas, tendo sido antes disso mãe minha nas encarnações de contos que já escrevi (e que os mais atentos vão logo saber de quem me refiro). Não chorei tanto quanto uma criança normal e isso despertou a preocupação das parteiras, mas foi aquela que me concebeu quem prontamente recebeu atenção delas.
O pobre coitado do meu pai já era idoso para aqueles tempos, contando 35 verões. Ele estava devastado e não pude culpá-lo pela pronta rejeição com a qual ele me recebeu: não pensem que isso tenha a ver com desavenças anteriores, sendo este aqui um espírito novo. (Nota para os que estudam o assunto do espiritismo: ainda que seja muito comum espíritos reencarnarem em ciclos familiares, etc, por questões de afinidade e pendências precedentes que requerem uma resolução por motivos que somente Deus sabe, nada impede que Ele, em sua sabedoria infinita, interfira e coloque alguém que nós possamos ensinar e, claro, receber ensinamentos. Toda relação é uma via dupla, mas não é regra fixa que toda família tenha vindo dos mesmos ciclos e processos reencarnatórios). Pois bem, este meu progenitor achou por bem enviar-me à Igreja... mas foi persuadido em retardar isso pelo que ele diria mais tarde ter sido um "estranho aviso de Deus" (é claro que foi um de seus mentores espirituais que o preveniu de tê-lo feito besteira: o convento mais próximo que ele pretendia me enviar em aparência era humilde, mas por dentro, corroído por uma notória corrupção moral). Sendo assim, ele se viu forçado a aceitar a filha que matou sua amada esposa.
--Mais uma boca para alimentar--ele diria isso no decorrer de meu crescimento--E inútil, pois sendo mulher teria de me preocupar em arranjar marido, pedir permissão, se não implorar, para que o senhor das terras a deflore antes de passá-la ao seu esposo. Céus, o que vou fazer com você, menina?
Contava quase cinco anos quando percebi o verdadeiro significado de suas palavras: não o que elas denotavam em seu real pronunciamento, mas o tom de voz pode expor bastante a intenção da pessoa e eu logo percebi que não era bem-vinda. Meus irmãos, reencarnações das irmãs e companheiras de vidas preexistentes, logo tomaram meu lado e me protegiam do que prefiro chamar de frustrações acumuladas de nosso pai. No entanto, com a morte do primogênito, essa proteção não se manteria apesar dos esforços de Magnus. Assim, quando completei sete anos fui enviada para bem longe: ao convento situado em Paris. Por cruel que isso possa parecer ao leitor moderno, pois meu pai esperava que eu morresse no caminho, a perspectiva de um camponês nesta época era muito infeliz: era uma classe de pessoas pobres que dependiam de senhores não raramente abusivos na forma com a qual costumavam exercer seu poder. Para quem desconhece este período, quando meu pai disse que esperava, e não sem razão com desgosto, que o senhor a quem devíamos tudo (comida, teto e, principalmente, o resultado da colheita) me deflorasse antes que meu esposo o fizesse era porque este era um costume muito conhecido chamado de "noite do senhor", onde, em palavras simples, o rico detinha o direito de dormir com a esposa do trabalhador. Não preciso dizer o quão insatisfeitos este costume gerava nestes pobres coitados, chefes de família que viam com rancor tudo que lhes pertencia ser tirado deles e, não obstante, a filha que amavam ser violada sem qualquer pretexto (não que, tampouco, precisasse-se de um). Mas não havia qualquer esperança de lutarem contra isso pelo medo do que uma rebelião poderia lhes acarretar. Contudo, este hábito doentio logo desapareceria.
Pois bem, de volta ao conto. Acompanhava-me à estrada um pobre homem velho, mas muito velho mesmo, de aparência desgastada em razão dos anos dolorosos que o labor obrigatório (ou servidão, se lhes apetecem a palavra) lhe inculcou na saúde: era cego de um olho, não possuía dentes, e seus cabelos grisalhos estavam quase ralos. Sua pele sequer parecia caucasiana em decorrência da exposição excessiva ao sol, e havia bolhas em lugares não muito agradáveis de se olhar (ele teria o que se chamaria na posterioridade de câncer de pele) e as costas guardavam feridas que eu jamais sonharia em perguntar. Apesar disso, Clodovech, como gostava de ser chamado, não me parecia assustador de forma alguma. Ele era gentil e seu bom humor era contagiante. Adorava ouvi-lo cantar canções "pagãs" e contar histórias do povo germânico de quem orgulhosamente clamava descender:
--Dizem que o imperador não gosta dessas coisas, pequenina--ele me confidenciou, gostando da minha curiosidade insaciável infantil--Que ele abomina tanto a herança de seu próprio povo que mandou destruir tudo o que seu pai lutou para conservar.
--Não é sábio falar do imperador, homem--repreendeu-o a mulher que me acompanhava, sua esposa Geraldine. Assim como o marido, sua aparência não era bonita de se apreciar, mas que importava? Era discreta e muito piedosa, genuinamente cristã, o que explicava sua aversão à tendência "pagã" do consorte. Apesar disso, o estimava bastante e na sua ignorância era onde sua inteligência florescia.--Muito menos, contar destas besteiras suas para a menina que estamos encarregados de levar ao convento de Paris.
E seus olhos aqui brilharam de expectativa, porém, antes de começar a divagar sobre um dos conventos mais conhecidos do reino do Imperador francês (este título nada mais era que uma formalidade para Louis, cuja ambição descomedida o fez tentar ser como o pai, Imperador do Sacro Império Romano Germânico), Clodovech a interrompeu:
--Cale-se, mulher. Sabe muito bem que nossa entrada será proibida lá.
Avançávamos numa carroça com o pouco que tínhamos: comida, palha para aquecer-nos às noites frias, e roupas velhas. Mas isso nunca me incomodou realmente, pois eu me alimentava daquelas conversas tão sábias e que, mesmo no futuro, não olvidaria.
--Por que?--indaguei, interrompendo meu silêncio pela primeira vez. O velho tornou a olhar para mim e com um sorriso bondoso, explicou:
--É um convento que só aceita mulheres pobres ou ricas, dependendo de como for, mas, acima de tudo, que sejam viúvas, solteiras, órfãs.
--Eu não sou rica--comentei, sem qualquer ressentimento.
--Não--ele concordou e, como homem da plebe que era, não restringiu sua língua solta ao comentar--E realmente não sei por que diabos você está indo para lá! Eles não vão aceitá-la, pois não possui qualquer dote!
--Clodovech!--protestou sua esposa, que acreditava, em sua pureza de alma, que lugares devotos exclusivamente ao Deus Uno não sofriam corrupções morais--Não fale tal heresia para a menina!
--Mas é verdade--retrucou o velho, indiferente--Francamente, não sei o que será dela, nem de nós! Será uma longa, longa jornada. Mas sabe, se estivéssemos nos tempos de meus avós, tudo seria melhor e diferente. Os deuses que eles cultuavam se importavam c'a gente do povo.
--Ignore estas blasfêmias, querida--aconselhou a bondosa senhora.
Mas Clodovech era homem de ferro e impassível em suas crenças, portanto, continuou a divagar sobre um passado não vivido, embora certamente experimentado por sua alma. Ele tinha todo esse apego porque seu espírito se recusava a aceitar àquela encarnação, ou ao menos, grandes aspectos dela. Era isso que dificultava sua vida, este apego a uma vida anterior que não poderia adequar àquele presente. Clodovech havia sido um soldado germânico, ainda da época de Santo Agostinho, e cuja tribo foi uma das responsáveis pela invasão às terras francesas. Todo este porte militar ele havia herdado desta experiência, e este resquício ainda demoraria a se esvair por algumas outras encarnações, pobre homem. Ele tinha um coração bondoso e sua fé, apesar dessa tendência politeísta (sobre a qual já discorri antes), era firme e genuína, por isso muitas das dificuldades e dos obstáculos que viveu e viveria posteriormente seriam apaziguadas em conjunto aos guias que o protegiam. Clodovech era o exemplo de bondade que conservei naquela encarnação, pois mostrava que, às vezes, aqueles que não rezam estavam muito mais próximos de Deus do que os outros que justificavam suas ações (muitas das quais eram terríveis, como no caso de Louis e os demais) em Seu nome. A boca que reza pode expressar mais inverdades do que aquele que produz somente com o coração.
Apesar de ser fervorosa, como haveria de ser tanto por intuição quanto pelo contexto em que estava inserida, não era, porém, intolerante como a época "exigia" do indivíduo. Afinal, o próprio soberano abominava práticas e heranças pagãs. Por isso, gostava de ouvi-lo contar sobre Thor, a vinda de Odin (muitas vezes confundido com Jesus) à Terra, o medo de morrer em vão (preferia, argumentava o velho, falecer com uma espada na mão como ditava o bom conselho, o que deixava a pobre Geraldine estarrecida), abominando a velhice... Mas também era sentimental. Lembro de ter me surpreendido quando Clodovech contou dos filhos que perderam para o labor: eram dois meninos, assim disse Clodovech, mas nenhum páreo para a vida dura que ele e a esposa haviam se acostumado. Com isso, lamentou profundamente o fim da linhagem e isso cortava-lhe o orgulho. Para ele, a única esperança de redenção estava numa curiosa mistura de crenças: morrer com a espada em mãos, mas encontrar o Salvador à espera dele.
Sorria disso porque reconhecia sua pureza, tal qual a da esposa, e todas as noites, quando eles dormiam, agradecia pela companhia deles. Esquecia-me do maus tratos infligidos pelo pai, pois considerava, ao contrário, filha daqueles que abandonaram seu conforto, seu lar, para me levar rumo ao desconhecido. Ainda que desconhecesse as doenças e as guerras, não era ignorante e conservava um instinto quanto a tais perigos. Por vezes, pedia desculpas por causar tantos incômodos, mas eles sequer se incomodavam.
A viagem duraria dois anos e foram tempos bons para todos nós. De repente, tinha sete anos, havia crescido e, apesar de suja, mantinha uma aparência agradável aos olhos de Geraldine: quando nos hospedávamos em tavernas, ela se esforçava em preservar a minha inocência (afinal, nestes lugares, havia muitas prostitutas também e as condições não eram boas, mas era onde podíamos pagar para hospedar) e gostava de pentear meus cabelos piolhentos e sujos. Toda noite, costurava vestidos com pedaços de tecidos diferentes que ela arranjava destas mulheres "impuras". Este preconceito com as moças da vida logo se dissiparia pois, como a vida é!, elas nos acolheriam quando uma tempestade nos atrasou para o nosso destino. Nosso cavalo, pobre bicho, foi vitima da natureza (se é que é justo para o animal colocar nestes termos), e foram essas moças que nos proveram tudo: comida e roupas frescas, mas também lar.
Recordo-me, inclusive, de uma moça (que viria a atuar, mais tarde, na linha das chamadas pombas-giras) chamada Crespine. Ela era dez anos mais velha que eu e possuía uma beleza quase iluminada: seu rosto era oval e alegre, os cabelos longos eram quase da mesma cor que a palha e todos as manhas acordava para pegar sol nas faces pálidas, beliscando as bochechas para que pudesse ruborizar e ser atraente aos clientes. Seu corpo era bonito para a época: o vestido que usava enaltecia os seios fartos e a cintura saliente. À primeira vista, um julgador a chamaria de prostituta barata (como certa vez aconteceu da parte de um cliente bêbado), mas ela era mais que isso. Crespine era pura em suas maneiras e muito cristã, diga-se de passagem. Uma vez, levando-me para um passeio, sentamos próximas de um lago e ouvi-a dizer:
--Deus é bom, Deus é tudo isso. Ele é onipotente e conhece nossos corações, sabia?
Fiz que sim com a cabeça e Crespine sorriu seus dentes amarelos.
--Por isso, esforço-me todos os dias em limpar meu coração. Sei que é desonesto dar meu corpo deste jeito para homens desconhecidos e ridículos, pois a luxúria é um pecado grave. No entanto--e aqui, ela parecia divagar mais para si mesma, esquecendo-se de que dirigia a palavra a uma criança de sete anos--não sinto nada disso, nem prazer, nem nada. E sabe por que?
--Por que?--eu perguntei, curiosa.
--Porque Deus está comigo, e só Ele importa.
--Não deveria estar em um convento?--eu indaguei, sem me conter--Afinal, me parece que ama Deus acima de todas as coisas como qualquer criatura deveria, mas de uma maneira parecida com uma freira. Eu quero ser uma, inclusive!
Ela riu, não de mim, mas como falei aquelas palavras. Um espírito se reconhecia no outro. Crespine, contudo, disse:
--Você é sábia para além da sua idade, pequena. Gosto de você por isso, mas nem todas nós podemos ter o bom fortuno de ser acolhidas pelos conventos. E não reclamo da vida que tenho, creio que não teria outro destino.
--Por que?
--Você gosta de perguntar--ela riu novamente--Oh não, por favor, não se acanhe. Eu gosto de falar disso, sabe? É uma camponesa cheia de sonhos, eu vejo isso. E eles vão se concretizar, tenho certeza, pois Deus fala com você.
--Como sabe?--eu exclamei, escandalizada.
--Porque Ele fala comigo também, mesmo sendo prostituta--ela me confidenciou aos sussurros--Mas não pode contar para ninguém.
--Por quê?
Mas Crespine se limitou a sorrir. Permita-me ilustrá-los, leitores, com o verdadeiro significado das palavras desta moça bela e de bom coração: ela era, tal como esta por cujas mãos escrevo esta memória minha, médium, embora esta designação fosse "criada" apenas no século XIX pelo Kardec. No entanto, para a Igreja Católica, muito controversa como bem sabemos, mulheres que recebiam comunicações do céu eram, ao contrário, vítimas do que chamavam de "diabo", "anti-Cristo", entre tantos nomes chulos que não me compete repetir. Com isso, precisavam ser "limpas" do pecado de Eva. Ou seja: eram vistas e tratadas como feiticeiras. Crespire era esperta o suficiente para saber que não seria bem recebida pelos padres da região ou quem quer que fosse se acaso soltasse essa sua confissão a mim para tais pessoas. Embora a religião cristã sempre pregasse a proximidade do crente ao Cristo, Nosso Senhor, o fazia com ressalvas (como a leitura da Bíblia ser limitada ao clero e, mesmo assim, a pouquíssimos membros deste; a interpretação das sagradas escrituras caber apenas às autoridades da Igreja, que, com toda a certeza, as manipulavam para exercer domínio mental e espiritual dos pobres ignorantes, entre outras coisas) para beneficiar não àqueles que, segundo suas palavras, a Igreja deveria proteger, mas a si próprios e seus egos encardidos pelo apego podre à matéria.
Para evitar ser queimada à fogueira, Crespine, que a tudo sempre observou e refletiu consigo mesma, manteve segredo. E eu, como que pela conexão que se estabeleceu entre nós, assenti, compreendendo de imediato o que se passava. Curioso como a mediunidade se manifestava nas pessoas de classes e posições sociais diferentes. Na verdade, Crespine não precisava mais encarnar, mas ela veio para acompanhar a missão de alguém que amava (não me compete abordar mais do que o necessário), por isso a sorte de tê-la, ainda que brevemente, em minha vida.
--É hora de voltarmos--ela decidiu--Vocês não devem ficar mais aqui por muito tempo, pois sua hora chega. Posso pedir um favor, pequena Agnés?
--Pode--eu falei, soando mais triste do que pretendia.
--Reze por mim, e pela minha alma. Um dia nos reencontraremos--disse Crespine, tranquilamente.
Abraçamo-nos forte e, assim, de mãos dadas voltamos à taverna em silêncio.

*                                                                              *                                                              *
Foi no verão que havíamos chegado à vila próxima de Paris, onde o convento que recebia o apoio financeiro de Louis o Piedoso se localizava. Suas ruínas foram destruídas em consequência das Guerras Religiosas que assolariam a França no século XVI, mas ainda é tempo de recordar sua construção, erguida em pedras de uma maneira simples que, por outro lado, também sabia impressionar quem quer que passasse por ali. Inspirava respeito e, apesar de bem cuidado, demonstrava sua imponência material. Contudo, não pressenti nada ruim, ao contrário, uma energia boa. Era ali que deveria estar.
--Que lindo este lugar!--exclamou Geraldine, emocionada.
--Vamos logo com isso, mulher--resmungou Clodovech.
Na verdade, o velho veio mais quieto do que o usual desde que deixamos a taverna para trás. Ele havia se acostumado com aquele ambiente, ajudando no que podia com o trabalho manual e mesmo produzindo cervejas para a clientela, com quem se enturmava fazendo os vários homens e mulheres rirem de suas histórias (que, mesmo o mais hipócrita dos cristãos, eram consideradas falsas). Era um pai para as moças locais, e tratava-as como filhas juntamente à Geraldine. Não somente isso, como nós três nos afeiçoamos bastante. Não obstante, Clodovech falava em alto e bom som que ali seria um ótimo lugar para constituir família.
Sim, ele me adotou como sua filha e eu o adotei como pai. Os laços espirituais nossos eram muito fortes, e mesmo hoje ainda me recordo deste tempo com carinho. De vez em quando ainda o visito, mas não posso me prolongar sobre isso. Pois bem, mesmo de tenra idade, pressentia a partida e eu também me entristeci. Clodovech me deu amor, compaixão, mas, acima de tudo, ensinou-me com suas atitudes o que era ser verdadeiramente cristão. Suas faltas sequer faziam diferença, e por quê mencioná-las? Digo o mesmo de Geraldine que, desde o dia em que minha mãe desencarnou por conta das complicações do parto, me tomou como a menina que nunca teve para chamar de sua. Ralhava como mãe e amou-me como uma. Eis sim, a família da qual fazia parte. E não precisou de sangue para isso.
Contudo, o desejo do meu progenitor de colocá-la na Igreja era algo que deveria ser cumprido e aquela gente tinha honra em seus corações.
--Tem certeza de que quer isso?--Geraldine foi ousada em verbalizar a pergunta que cruzava nossos pensamentos e manchava nossas almas com aquela partida. Temíamos falar disso, mas não havia outra escolha.
--Sinto que Deus me chama a cumprir meu dever aqui--falei, resignadamente. E, então, pela primeira vez em muito tempo, chorei. Porque não os veria de novo em vida, porque lamentava que seria assim, por mais que respeitasse a vontade do Criador. Despedidas terrenas, eu reconheço, nunca são fáceis, quaisquer que sejam as épocas em que tais acontecem.
Aqui, faço uma observação importante: sentimentos devem ser cultivados, por mais iluminado que um determinado espírito possa vir a ser. Aceitá-los faz parte da árdua tarefa de evoluir, mas há uma ideia errada sobre aqueles que, como eu, alcançaram certo patamar na vida espiritual. Pensam que nós somos frios, distantes e mais racionais. Será mesmo? Quando digo cultivar os sentimentos, não falo para negar os ruins, mas também ressaltar os bons! Pergunto a vocês: vieram mesmo para sofrer, para torturar a si mesmos por pecados de outras vidas? Sequer se recordam do que fizeram, por mais que preservam em seus íntimos a intuição do que puderam ter feito. E o que importa? Importa mais o orgulho, a inveja, a raiva do que o amor, a felicidade e mesmo a tristeza. Por que é ruim sentir? Vejam, sei que muitos vão se surpreender ao ler que eu chorei. A frieza, meus caros, é resultado do materialismo. Crer que nós não sentimos absolutamente nada é mesmo reforçar a falsa concepção de que Deus quer ver seus filhos imersos eternamente na infelicidade absoluta.
Kardec mesmo já criticou isso, e Chico Xavier avançou bastante nesta percepção. Recomendo que os leem e reflitam sobre isso. Daqui, do mundo espiritual, torcemos por nossos protegidos e amigos que "deixamos" (não aprovo esta palavra, mas ela faz-se necessário para a mensagem que desejo transmitir) na Terra. Ficamos felizes por suas conquistas e tristes com as dificuldades, aconselhamos no que podemos e respeitamos seu livre-arbítrio. Jamais os abandonamos. Sentimos saudade, é claro, pois as memórias que compartilhamos são caras. Raiva, contudo, angústia e toda outra sorte de sentimentos inferiores... não, não sentimos. Compreendemos quem ainda as sente, e por isso falamos para abraçá-los e tratá-los, não negá-los pelo orgulho que os mascara. O ponto é que se somos rígidos, uma situação aqui e alá pede, é porque enxergamos além do que vocês, no plano terreno, veem. Se nos distanciamos, é porque Deus assim demanda para que aprendam o que não aprenderam por, muitas das vezes, teimosia. O completo abandono jamais existe, ainda que ocasiões como os de obsessão, por exemplo, possa vir a acontecer. O que eu digo é que felicidade e tristeza são possíveis porque um equilibra o outro. A compreensão do futuro, do presente, da consciência que, aos poucos, vocês da Terra vão adquirindo não os isenta de abolir os sentimentos. Quer ser feliz? Seja! Deseja chorar pela partida breve de um familiar, por mais ciente que esteja do reencontro próximo? Chore! Prantear não é pecado, tampouco errado. Contudo, os séculos de história da humanidade mostram como sempre insistiram que sentir é ruim. O que é ruim é se colocar no poço e destratar a criação de Deus, que é você, humano encarnado (e mesmo os desencarnados perdidos, pobres seres). Tudo há uma solução e, portanto, ressalto: sentimentos são bons! Ser sentimental é ótimo! Mas que se busque um equilíbrio, afinal, tudo concorre para a saúde, não é mesmo?

Pois bem, prossigo com a memória. Resumo que a despedida entre nós, pelas memórias compartilhadas, causou-nos dor provisória, pois a vida confirmaria, mais tarde, que não os veria outra vez: Geraldine não suportou a separação e faleceu não muito tempo depois. Seu marido, o bom Clodovech, a seguiu ao túmulo.
Quanto a mim, admito que foi difícil me adaptar à rigidez extrema naquele convento. A madre superiora, como que por "instinto" (para não dizer intuição, mesmo mediunidade), aceitou-me prontamente assim que a freira a procurou para comunicar sobre uma pobre camponesa que veio de tão longe para lá. Minha vida, na verdade, minha missão naqueles dias teve enfim início.

*                                                                             *                                                                     *   
Tornei-me freira, de fato, somente aos dezessete anos. Dos sete aos dez anos, fui educada para esta vida religiosa, sendo bem recebida por todas as mulheres daquela casa espiritual. Apesar da minha firmeza em prosseguir com os votos, sempre houve a possibilidade de não necessariamente seguir aquela vida. Contudo, um arrependimento surgiria disso. Não chamo de imprudência porque tudo concorre para determinados eventos de nossa encarnação antes de virmos à Terra. De fato, jovem e ingênua, guiada pela minha família do plano espiritual, fui orientada para aquele caminho. Poderia ter negado, ou mesmo me rebelado, afinal o livre arbítrio faz-se aqui presente. No entanto, persisti naquele rumo que mudaria toda a minha vida.
O ano era 834 e aquelas terras sob domínio de Louis, O 'Piedoso' (creio que agora seja seguro dizer que ele foi tudo, menos piedoso, ao lidar com seus conterrâneos) haviam sangrado por muitas décadas. Guerras civis cruzaram o país do leste ao oeste, e eis por que a reputação do filho de Carlos Magno não resistiu ao tempo (o que marcaria seu espírito, como consequência de suas imprudências, de fato). Para que não houvesse oposições políticas quanto ao seu governo, o rei Louis, ou imperador se assim for do interesse do leitor denominá-lo desta forma, não teve quaisquer prudências ao optar por se apropriar da violência para lidar com seus irmãos de sangue e os filhos destes. Afinal, em se tratando de política, Louis não tinha escrúpulos: se havia pretendentes, que morressem, pois não corresponderiam perigo para ele nem tampouco inspiraria os descontentes consigo. Nesse sentido, foi bastante ignorante, para não me apropriar de outra palavra. Sangue manchou suas mãos e marcaria seu reinado instável.
Nós do convento fomos alertadas, se não levemente ameaçadas, pela madre superiora de manter-nos neutras quanto ao que o nosso soberano dizia ou fazia. Compreendia que, ao financiar-nos, Louis também pagava pelo nosso silêncio. Em meu íntimo, porém, discordava daquilo. Comecei a perceber o materialismo que rondava nossa casa e, consequentemente, de como não estávamos alheias aos pecados do mundo. Por dezessete anos, pensava que estava segura dos perigos que tanto pintavam para nós. Como o diabo tentava os homens e as mulheres, fazendo destas seus instrumentos perdidos. Para que fôssemos salvas da perdição de Eva, era necessário que nos inspirássemos em Maria. E ainda assim, escolhiam como falar da mãe do Grande Mestre: ignoravam sua vida terrena, afirmavam baboseiras como "engravidada por Deus" e pareciam mesmo se esquecer de que ela foi mulher como nós. Contudo, mesmo sua santidade não havia conquistado a todas que viviam naquela casa sagrada, pois, não obstante, éramos conduzidas pelas vidas dos santos. O culto mariano só seria revivido e reafirmado ante às grandes massas e mesmo em meio ao ambiente clerical e aristocrático no século XI. Seria ali que as mentes humanas se abririam para a atuação de Maria, a Escolhida de Deus.
Pois bem, como dizia, quanto mais observava os mínimos detalhes das ações dos outros, mais eu me incomodava e tornava questionadora. Contudo, sempre optei pelo silêncio, embora não houvesse feito este voto. Procurava rezar mais do que o recomendado, afinal, com o passar do tempo, ouvia e via coisas que me horrorizavam. A corrupção moral, eu percebi com tristeza, era inerente à humanidade, mesmo para aqueles que se esforçavam em mirar e copiar o comportamento de Cristo. Contudo, também eu percebi que ainda insistia em domar-me o velho orgulho, companheiro de outras vidas. Mais ainda insisti nas preces, ajoelhando-me no chão gelado e usando roupas simples, recusando tecidos mais sofisticados. Na verdade, fui ao ponto de cortar nos ombros os cabelos dourados que um dia foram motivo de orgulho para querida Geraldine. Uma irmã, que me acompanhava silenciosamente, não conseguiu esconder seu horror quando me viu cometer tal ato:
--Céus, irmã Justine!--era como passaram a me chamar depois que optei por seguir freira, abandonando para trás o nome Agnés--Por que faz isso com você?
--Sou devota ao único noivo com quem pretendo me casar--expliquei, calmamente--Jesus Cristo, Nosso Senhor. A ele, esperarei pelo resto das minhas vidas e sei que o cabelo é o motivo pelo qual o orgulho ainda banha suas impurezas em mim, distanciando-me Dele.
Adalsinda, nome adotado por Adèle quando chegou à Paris alguns anos depois de mim, encarou-me envergonhada. Sua devoção, ela assim achou, não era nada comparado à minha.
--Perdoe-me, Justine. Deveria ser como você.
Bondosamente, sorri a ela e tomei sua mão nas minhas. Levei-a para o nosso quarto onde, vazio de outras irmãs, sentei-a na cama e disse, enfim:
--Não perca sua individualidade, querida Adalsinda. Não se esqueça de quem foi antes de tomar este véu, pois Jesus tudo viu e tudo verá. O que importa está em seu coração. Do que adianta dedicar-se a Deus se permanece em si velhos hábitos? É muito fácil julgarmos os que vivem fora desta casa, mas será que temos este direito?
Ela rapidamente captou o que eu queria dizer com aquilo. Como freiras próximas à madre superiora praticavam costumes inadequados e impróprios para mulheres que pretendiam relegar ao passado o que faziam em vida secular. Muitas dela, contra as regras do convento, mantinham ligações com o mundano e tinham mesmo relações com os padres que visitavam e homens dos reis. Quantas foram as vezes em que fi-me de surda e cega para os abortos? Ou para as tristezas que atormentavam aquelas almas que certamente não haviam sido destinadas para uma vida que elas não escolheram? Queriam ter filhos e, no entanto, foram forçadas a abandoná-los. Para deslegitimar seu sofrimento, pregavam um discurso que condenava este comportamento. Como resultado, aquelas que viveram por tanto tempo naquele convento eram as mais amarguradas. Todas possuíam um passado, e eu não seria exceção.
Na verdade, comecei logo a perceber como meu orgulho fazia-me julgar aquelas pobres criaturas. Isso me envergonhava, mas a juventude não faz de nós tolos? Quem foi jovem e não errou que atire a primeira pedra! Por isso a necessidade da encarnação! Mas era preciso que eu sentisse na pele o que eu julgava para que meu orgulho fosse, de uma vez por todas, quebrado e enterrado. De volta à conversa com Adalsinda, porém, falei, de coração:
--Tenho percebido que venho fazendo isso com mais frequência do que gostaria de admitir. Somos todas pecadoras, mas a prece nos elevará! Sem Deus, nada somos. Mas é preciso que O amemos genuinamente e procuremos seu perdão de coração aberto. Não creio que Ele nos punirá como tantas falam, mas, ao contrário, como bom pai, nos ensinará a seguir o caminho correto se desejamos segui-lo.
--Você é uma santa, Justine--murmurou Adalsinda, admirando-me com seus grandes olhos negros.
--Não--eu repelei tal título veementemente--Não pense isso de mim, Adalsinda! Por favor! Não mereço este título como tampouco almejo. Venha, a prece é o que precisamos agora para nos corrigirmos de nossas faltas.
Por mais exemplares que fôssemos em conjunto com algumas das freiras de nossa idade, algumas das mais velhas olhavam-nos com inveja e não gostavam, sabe-se lá por quê, que rezássemos com muita frequência. Por isso, delegavam-nos tarefas que, aos olhos delas, eram "humilhantes" e "degradantes" como lavar os lavatórios, limpar os chãos, esfregar as camas, trocar os lençóis, jogar as fezes ao rio próximo e ensaboar o chão de urina (pretendo poupar os leitores os detalhes da falta de higiene que era tão característico da época, mas do pouco de que falei já é possível imaginar a situação). A resposta era o silêncio, a que eu, desde cedo, me acostumei. Contudo, isso apenas irritava aquelas mulheres. No entanto, nem mesmo a madre superiora era cega para os maus tratos que sofríamos e um dia chamou a atenção daquelas velhas de baixo espírito (os mais atentos enxergarão numa dessas a reencarnação do ex-escravo que, na existência anterior, me importunava da mesma maneira) e em seguida, chamou-me e minha colega, a quem me afeiçoei e chamei-a de irmã, para uma conversa.
--Vocês estão muito reclusas--ela pontuou, preocupada--Não interagem com as noviças, sobre quem são responsáveis. Não posso admitir isso.
Uma parte minha pensou em dar uma resposta, mas meu espírito foi mais forte que a carne e eu, prontamente, mantive-me calada. Mas Adalsinda não foi tão sábia ao dizer:
--E, no entanto, por que não diz o mesmo das outras? Há, e não vou citar os nomes já que a senhora reconhecerá, irmãs que se ocupam em fofocar e esquecem tão deliberadamente do ensino de Cristo que elas também são negligentes com o ensino espiritual das noviças. Se somos responsáveis, o que eu, decerto, não ignoro, todas as outras também o são. Não é justo que apenas nós soframos a punição.
A coragem de Adalsinda foi surpreendente, deve-se dito. Aquilo me ensinou que o silêncio nem sempre era necessário, lembrando-me da coragem de outrora, causando-me o que chamam os jovens de hoje em dia de "déjavu": em retrospecto, era como se minha alma recordasse da ousadia que um dia marcou minha alma, ainda jovem e inexperiente, neste mundo. No entanto, um pouco mais consciente naquela existência, concluí que ser corajosa era mais do que abaixar a cabeça e permitir que me tratassem como quisessem. Não era o mesmo que ser ousada, pois isso não almejava sê-lo; mas brava o suficiente para me defender e aquilo que acreditava. Era isso que aquela irmã pretendia quando não se calou e, sendo assim, não era surpresa a perplexidade com a qual deixou a madre superiora. Decerto esta esperava que aquiescêssemos como costumeiramente o fazíamos.
Desconcertada, ela ponderou, pois, apesar de tudo, aquela sabia pensar e ser condizente no que podia na posição que ocupava. Se levássemos os boatos à sério, lidávamos com a irmã ilegítima do rei Louis, a filha bastarda do temeroso Carlos Magno, mas não me cabe discorrer sobre isso neste conto.
--Vejo que há razão em suas palavras--a madre reconheceu após longo suspiro--Verei o que posso fazer. Aproveitam o restante da tarde livre para desfrutar dos jardins e amanhã remanejarei os deveres, hm?
--Obrigada, senhora...--ia dizendo Adalsinda por nós duas quando a porta abriu-se escancaradamente, trazendo às nossas vidas o evento que nos mudaria para sempre.
Como falei antes, estávamos em guerra: irmãos contra irmãos digladiavam-se porque acreditavam cumprir com o dever de súditos de um rei mesquinho que sequer sabia como governá-los. A paz parecia distante e sua descrença, principalmente depois de dois conflitos violentos cujos resultados infelizes levavam agora ao terceiro, semeava ódio, descontentamento e, acima de tudo, muitas e muitas mortes.
Inevitavelmente, aquele cenário chegou à nós e não havia nada que pudéssemos fazer: lutar contra os desígnios de Deus estava fora de questão. Cada vez mais homens feridos buscavam nossa ajuda e a madre, apesar de seu voto de neutralidade ao irmão, não recusou o chamado divino em ser a servidora de Cristo que clamava tornar-se desde o dia que seu pai a colocou naquela posição. A despeito de breve relutância, prontamente mudou de ideia ao ver o número de pobres coitados que, sem qualquer distinção de posição, compartilhavam dor e aguardavam nada se não o conforto das noivas do Filho de Deus. Se tivessem que morrer, que partissem daquele mundo com dignidade. Como a madre recusaria isso?
--Quero a ajuda das melhores entre nós--ouvi-a determinar à outra mulher que costumava estar sempre ao seu lado em assuntos urgentes. A madre logo se virou para nós e, no mesmo tom, urgiu:--E vocês, irmãs, me acompanhem.
Nervosa, mas igualmente ansiosa em querer provar meu valor a Deus, assenti prontamente e não esperei resposta. Segui a madre e Adalsinda para nos juntarmos às outras freiras que o braço direito da madre havia reunido. Foi uma bagunça, de fato, pois teríamos que impôr reclusão às noviças, especialmente aquelas cujo comportamento mundano era bastante conhecido, como também impedir que houvesse qualquer ligação da parte dos homens. Era preciso frieza e inteligência, uma luta, como diriam aquelas pessoas, contra a natureza infortúnia de nosso sexo. Por isso, as mais adequadas para aquela missão receberam sem qualquer emoção os feridos. A madre inspecionava os feridos e, inconscientemente, designava cada uma de nós aos que requisitavam nossa atenção. Foi quando o reconheci.
O mais belo dos homens achava-se deitado num leito improvisado com a blusa aberta, fedida, manchada pelo sangue e rasgada. Em seu peito, uma ferida profunda infligia-lhe dor, pois havia sofrido um corte profundo do que supus, como se por pressentimento, ter vindo de uma espada. A visão não era bonita, mas meus olhos não se incomodavam com aquela visão, mas a do rosto daquele camponês. Seus cabelos marrons e sujos estavam emaranhados e cobertos de terra, e em seu semblante, havia tristeza e angústia. Como também podia-se ver resignação. Naqueles olhos castanhos, para a mais atenta das criaturas, estava um apelo mudo ao Senhor para que seu espírito encontrasse alguma paz--se acaso assim merecesse--fora daquele corpo. A verdade é que ele passou por tantas provações que ali, a desencarnação teria sido a solução mais apropriada, de fato. Ninguém é merecedor da dor, mas ela era, e ainda continua sendo, um expurgo para os pecados. E Nigel precisava melhorar como eu. Reencontrávamos como em todas as outras encarnações éramos destinados a nos reunir e sempre nesta posição de amantes.
Quando aqueles olhos me fitaram, a palidez pareceu sumir de seu rosto como a infelicidade dissipou-se de seu olhar, substituía pela esperança. Um sorriso marcou seu lábio cortado e ensanguentado, expondo alguns dentes quebrados. Mas sua voz, por mais rouca que fosse, era possível de ouvir:
--Ajude-me.
Não recusei o sorriso que me oferecia e prontamente me recordei do meu dever. Esqueci do tempo enquanto me dedicava a limpá-lo, esforçando-me em costurar suas feridas e poupá-lo de uma morte, pois tão de repente aquela recatada freira, cujo contato com o mundo exterior havia sido tão limitado, desejava asperamente reviver aquele estranho e conhecê-lo melhor. A impulsividade, por mais domada que pudesse estar, insistia em reaparecer.
Foi árduo, mas as habilidades conservadas de outras encarnações e aprimoradas naquela, permitiram que Nigel, como viria a saber seu nome, vivesse. Era noite quando trouxe-lhe ensopado de galinha junto a um copo de ale. Observei-o comer faminto e beber como um desesperado. Pus-me a pensar sobre o que havia acontecido com ele para que seu corpo reagisse daquela maneira ao comer e beber, mas esperei.
--Obrigado--ele agradeceu, esboçando outro sorriso--Que Deus a abençoe, senhora.
Abaixei a cabeça para que não visse em mim um rubor inapropriado subir minhas faces. Mas Nigel confundiu aquele gesto com o de um agradecimento.
--Que dia é hoje?--quis saber ele, ansioso por uma conversa.
Sem levantar o olhar, respondi-o educadamente:
--Dia de São Valentim--repliquei, lutando contra o instinto de estimular a tagarelice que não pensava existir em mim.
--Abençoado o seja--disse Nigel, sem qualquer sinal de reconhecimento--Conhece todos os santos, senhora...?
--Irmã Justine--respondi, seca, evitando seu olhar, mas sentindo com um nó no estômago o desapontamento com o qual Nigel me dirigia.
--Irmã Justine--ele repetiu, reflexivo--É muito quieta, dona... digo, irmã. Não a ensinaram a ser hospitaleira com os estranhos que recebem?
Suspirei e, reconhecendo que tinha razão, mirei meu olhar no dele. Vi o arrepio percorrer seu torço nu, onde estava enfaixado, e constatei com mais certeza a conexão que nos rondava. Nigel sorriu, porque ele sentia o mesmo que eu. Almas tão afins, meus caros, não necessitam de linguagem para expressar o óbvio muitas das vezes.
--Perdoe-me, é o primeiro homem com quem tenho contato desde tenra idade--falei, procurando justificar minha rudeza--Não pensamos que um dia a guera os traria aqui.
Nigel suspirou. Era tarde, e muitos de seus companheiros já repousavam; a lareira estava acesa e as irmãs mais sérias não cessavam sua vigília. Nesse sentido, não prestavam atenção em nós, e não teriam motivo para fazê-lo. Incansável, porém, ele continuou a conversa.
--É complicado. Não era o que pretendíamos também, mas que solução tínhamos?
Em silêncio pela primeira vez, Nigel se calou, talvez desistindo de conversar comigo. Seu semblante expunha o que ele se esforçava em esconder: os traumas vistos e vividos em campo de batalha, a frustração por  lutar por algo que ele não acreditava mais. A dor, tanto física quanto psicológica, estava lá e ela me comoveu a sair do meu lugar comum.
--Está tão ruim assim?--perguntei, aos sussurros.
Nigel virou seu olhar para mim e deu uma risadinha. A barba mal feita não escondia os ferimentos, e as cicatrizes nas bochechas dali saíam para deixar uma marca eterna no rosto. Constatei, com horror, que ele havia lutado sem proteção adequada.
--Chamam o rei de piedoso porque ele luta contra o que diz ser pagãos--ele me respondeu, dando de ombros--O que é ser pagão, dona? Eu não sei. O que eu sei é que Deus não permitiria esta carnificina! Nosso monsenhor (do francês antigo: mon sieur, que, posteriormente, viria a ser monsieur e que na língua dos leitores equivaleria a "meu senhor") nos governa como pensa tê-lo feito seu pai. Um tão cruel quanto o outro, impulsionando pobres como eu e meus caros a uma luta em que apenas nós morremos.
"Crucificam-nos como os romanos crucificaram Jesus, irmã. Perdoe-me o linguajar, mas é a verdade que eu conheço. Cresci em meio a este tumulto, onde o ódio substitui a linguagem do amor do deus Uno que juram defender. Eu me pergunto: quão diferentes são estes homens dos imperadores antigos que cultivavam Ares, Marte, seja lá que divindade tinha o nome, mas cuja principal característica era levar seus súditos em lutas ensanguentadas? Perdoe-me, estou falando heresia, mas estou condenado!"
Para minha surpresa, aquele homem chorou. Fitei-o horrorizado enquanto Nigel pranteava, e por mais que me compadecesse de suas dores, suas aflições, seus traumas, o que poderia fazer? O instinto me compelia a abraçá-lo, mas não poderia fazê-lo. Com isso, tolamente ofereci outro copo de ale, mas desta vez, mais apropriadamente inspirada por meus guias, falei:
--É um homem bom, o senhor. Deus não repudia aqueles que, em ignorância, travam batalhas contra sua vontade. Que outra escolha poderia tomar? O mundo é perigoso, e não por isso estou aqui. Ainda assim, será mesmo que estou segura? Eu não sei. Veja, pensávamos, as irmãs e eu, que não viveríamos o que vocês viveram. Em um mundo como esse, não há lugar para nós, noivas de Cristo. Contudo, será mesmo assim? Vamos rezar juntos, senhor. Pela sua alma e pela minha.
--Sua voz é doce, irmã--ele disse, sem qualquer malícia, ao me encarar com olhos encharcados de lágrimas--Seu conforto é muito bem-vindo. Mas poderia Deus me perdoar? Eu tive escolhas, sabe, e ainda assim tirei a vida de meus irmãos. Vi a morte tirar de seu corpo a alma. E ainda ouço suas vozes à noite.
Ignorando um arrepio que me percorria, pois, de repente, me recordei das premonições da prostituta que marcou minha infância, decidi escutá-lo verdadeiramente:
--O que elas dizem?--eu falei, esperando que não fossem demônios os que sussurravam contra a mente do pobre rapaz, mas em meu íntimo, conservava contrária intuição.
Envergonhado, Nigel hesitou como Crespine havia hesitado, mas ele prontamente foi ousado ao dizer:
--Que deveria me perdoar. Eles cumpriram seu destino, me disseram; e estavam felizes por isso, porque estas guerras não perturbariam suas consciências.--e aqui ele chorou copiosamente--Dizem que não podem descansar até me perdoar. Que Deus assim determina. Mas como posso ser perdoado depois de tudo que fiz?
Sua aflição, resultado de tamanho trauma, aqui expõe duas questões de cunho carnal e espiritual. Para os leitores modernos, logo compreenderão do que trato: do transtorno do estresse pós-traumático, ocasionado por uma situação emergente que abala as estruturas psicológicas daquele que sofre patologicamente, podendo até mesmo reverter sua personalidade. A outra, espiritual, reflete o expurgo pelo qual Nigel estava passando pela sua escolha feita antes de encarnar a fim de que pudesse alcançar um patamar ainda mais elevado, pois, tendo podido cessar seu ciclo de reencarnação, recusou-o até que comigo acontecesse o mesmo. Estávamos, portanto, ligados tamanho era o amor que sentíamos (e ainda sentimos!) um pelo outro.
Contudo, naquele século em que estávamos vivendo, os conhecimentos medicinais não eram tão desenvolvidos. Por isso, a escassez de possibilidades com que poderia tratar aqueles sintomas. Nigel possuía o costume de sacrificar-se pelo outro, mas precisava, ainda, aprender a amar a si próprio. A respeitar-se, e a ser menos impulsivo, como eu. Era, enfim, necessário um equilíbrio e precisávamos nos esforçar para alcançá-lo quando a Terra ainda era permeada por um forte apego às necessidades materiais.
--Rezarei por sua alma--eu falei, depois de longo silêncio, onde deixei que pranteasse suas perdas, quaisquer que fossem elas--Deus fala, e o senhor deveria ouvi-Lo. Suas feridas, penso eu, não estão apenas no seu corpo. Descanse, meu caro, pois me parece que precisa de uma longa recuperação.
Assim, sem esperar qualquer resposta, deixei-o ali. Não queria revê-lo porque temi o descontrole que ele provocou em mim: a necessidade de amá-lo, de ampará-lo, de afastar dele os demônios que o cercava. Com discrição, pude disfarçar o que passava em minha mente angustiada, pois detinha alguma racionalidade sobre aqueles sentimentos "novos" e "energéticos" que a presença masculina na casa predominantemente feminina impunha.
Naquela noite, rezei por ele, mas também sonhei com ele. Para minha surpresa, foi um sonho bom. Éramos nós e não havia nada que nos atrapalhasse. Recordo bem: passeávamos pelo jardim e Nigel ria, sarado de suas feridas; estava com os cabelos limpos, e não havia cicatrizes que maculassem seu rosto. Encarava-me com nada se não amor, e oferecia-me a mão para tomar. Tão convidativo que fê-me sorrir. No momento que a tomei, porém, já éramos outras pessoas: africanos, orientais, europeus... Tudo numa rápida mistura, e em todas aquelas visões eu o beijava apaixonadamente. Meu coração batia com ardor e era como se nossa áurea expandisse em uma única luz, atingindo várias cores diferentes. Olhei-o, de volta enquanto Agnés/Justine e ele Nigel, e disse:
--Amo-o.
Tocando em minha face, ouvi-o dizer claramente:
--Amo-a também, minha querida. Como é bom revê-la...
Mas aquele sonho, que, na verdade, era a resposta aos anseios que nossos espíritos aguardavam, dissipou-se tão logo despertei. E eu acordei com lágrimas nos olhos porque conservava apenas duas intuições: que o objeto de minhas afeições repousava em Nigel, mas que jamais poderia tê-lo para mim.
Pensei em evitá-lo no dia seguinte, mas a madre superiora requisitou que o ajudasse outra vez: sem qualquer suspeita, disse-me que Nigel recusava a ajuda de outras freiras, exigindo pela minha presença, em vez disso.
--Estou orgulhosa de seus esforços, irmã Justine.
Apenas assenti e prometi que faria o que estivesse em meu poder para ajudá-lo. Com isso, estava novamente ao redor dele. Deitado em seu leito com uma serenidade em sua face como se havia muito estivesse resignado com seu destino, Nigel encarava o teto com um quê de impaciência.
--Bom dia, senhor--murmurei, ao me aproximar em silêncio. Quando seus olhos encontraram os meus, um brilho iluminou todo o seu ser e fê-me sorrir como de reflexo. Sua presença trazia-me paz e eu agradeci a Deus em meu íntimo por isso.--Dormiu bem?
--O melhor em tantas noites mal dormidas, irmã--disse-me ele, alegre--Bom dia, de fato! Tive um sonho muito curioso que me permitiu repousar como nunca antes, mas, engraçado, não consigo me recordar de como foi!
Aquilo me causou uma certa angústia em meu peito, talvez porque ainda conservasse alguma lembrança deste sonho sobre o qual falou. Contudo, repeli meus pensamentos tolos de que ele tivesse sonhado comigo. Repreendi-me severamente por isto, afinal, quantas não foram as vezes em que julguei minhas companheiras de casa por atos semelhantes? Ruborizei quanto à vergonha que, estampada tão evidentemente em meu rosto, capturou a curiosidade daquele homem.
--O que houve, irmã Justine? Cora violentamente em minha presença! Fui rude com a senhora? Saiba, pois, que não foi minha intenção causar qualquer constrangimento--ele exclamou--O que posso fazer para aliviar a preocupação que a faz franzir o cenho?
--Oh não!--disse eu, rapidamente--Não, senhor, nada tem a ver com a sua pessoa os pensamentos irritantes que cruzam minha mente enquanto nós conversamos. Não há com quê se culpar, garanto-lhe que digo somente a verdade. Mas admito que minha fraca inaptidão para sociabilidades torna-me uma pessoa desagradável como companhia adequada a um soldado.
Nigel riu, e a verdade em minhas palavras aliviou-o de uma consciência pesada. Pobre homem.
--Muito ao contrário, irmã Justine. A senhora é mais do que adequada a alguém como eu--ele sorriu e eu retribuí tão naturalmente como os pássaros que cantam ao sol quando ele dissipa as nuvens do céu--Apesar de que não me considero um soldado, sequer um homem do rei! Não, não, sou um camponês humilde que luta pelos outros.
Ele soltou um resmungo, mas notei que as aflições da noite anterior já não ocupavam o mesmo espaço que antes, embora certamente ainda estivessem ali.
--E o que há de errado em ser camponês?--eu disse--Também fui camponesa, senhor, antes de seguir esta vida que Deus me concedeu.
De alguma forma, aticei sua curiosidade. Nigel encarou-me com seus olhos fixos como se quisesse me desvendar. Tomou um copo de ale ao fazê-lo e mesmo sabendo que era a causa pela qual outra vez um rubor subisse às minhas faces, não ousamos desviar o olhar um do outro.
--Pergunto a mim mesmo se seria pecado inquirir a respeito da vida que levou antes daqui.
--Normalmente não é costume revivermos o passado mundano, senhor--alertei-o.
--Isso me parece errado--contestou ele, sem satisfazer-se com a resposta que recebeu--Sua família, sua vida, nada mais interessa depois que veio servir a Deus? Creio que Ele não gostaria disso, irmã. Se me recordo, senhora, as palavras do padre sempre reforçaram o amor e respeito pela família.
Sorri diante disso, mas repliquei:
--Como ele deve também ter dito para amar e louvar o Senhor acima de todas as coisas.
Nigel fez uma careta, mas aquiesceu.
--É verdade. No entanto, não consigo conceber isso! Minhas irmãs, sempre fui apegado a elas. Protegi-as até que cada uma se casasse e fiz questão de que seus maridos fossem homens de honra--disse-me ele, recuperando sua energia ao falar de sua família--Nossos pais morreram jovens, por assim dizer, embora eu já tivesse ideia o suficiente de minhas tarefas para fazer o que deveria ser feito. Fui um bom súdito para o rei Carlos Magno, e seus representantes nunca tiveram razão de reclamar da minha pessoa.
"Um de seus bispos, inclusive, era próximo de mim. Na medida do possível, é claro, pois como camponês deveria prestar-me ao meu lugar. E tinha ciência disso, sempre tive. No entanto, depois que morreu... Quando este novo rei ascendeu, intitulando-se imperador e, segundo dizem as más línguas, exercendo todo seu poder para destruir seus próprios irmãos (sendo legítimos ou não, compartilhavam seu sangue), percebi que precisava proteger minhas queridas irmãs. Se fosse possível, as teria enviado para um convento de confiança, senhora, mas não tinha qualquer dote para isso. Portanto, certifiquei-me de que se casariam com homens decentes... e que, preferencialmente, morassem longe do poder de homens avaros."
Aqui ele fez uma pausa, e me lançou um longo olhar significativo.
--Compreende o que quero dizer?
Eis que eu me recordo da fala de meu pai há tantos anos e assenti:
--Sim. O direito da primeira noite que cabe aos senhores, nossos suseranos.
Nigel fez um movimento com a cabeça, concordando.
--Dei um jeito... Não preciso dizer como, mas consegui proteger minhas irmãs disso tudo. E agora só me resta como único da linhagem de nossa família. Precisava desposar uma senhora, quem quer que fosse, mas creio que não viverei muito para dar continuidade aos passos de meu pai.
Novamente, um arrepio, como um choque, percorreu meu corpo. Havia verdade naquelas palavras e aquilo encheu meus pulmões de terror. Com isso, vi-me forçada a protestar:
--Não! O senhor viverá bem e por muito tempo. Arranjará uma esposa que o dará bastantes filhos, e estes crescerão em épocas de paz! Sei que as guerras cessarão e que tudo isso não importará mais.
Nigel sorriu e, sem que percebesse, tomou minha mão na sua e falou:
--A inocência desta vida religiosa a previne de ver o mundo como vi, senhora. Não serei eu a destroçá-la para a realidade como ela é.
Sacudi a cabeça e, com relutância, afastei-me dele. Prontamente, me vi cuidando dele outra vez. Nigel a toda hora me observava, seus olhos rondando o meu rosto como se buscasse por alguma coisa que não soubesse o que era. Sob sua atenção, ruborizava mais de uma vez e aquilo parecia diverti-lo.
--Contei tudo de mim--ele interrompeu o silêncio, e vi que não gostava da quietude, talvez porque esta o fizesse pensar em seus pesadelos--Não me dará a honra de conhecê-la melhor?
--Não há o que se conhecer de uma freira--repreendi-o, embora concedesse um doce sorriso.
--Como se chama? Não Justine, eu sei que não--ele teimou--Meu nome é Nigel, ou foi este o que me deram, de toda forma.
Sem qualquer resistência, e sabendo que não seria interrompida, cedi.
--Agnés foi o nome que minha mãe deu quando nasci. Vivi ao leste de Paris, pelo que recordo. Minha família era muito pobre, e me lembro apenas de dois irmãos que me protegiam do meu pai--falei, sem qualquer remorso--Ele me culpava pela morte de mamãe, já que ela sofreu um parto difícil e partiu deste mundo depois de ter pronunciado o nome que deveria carregar pelo resto da vida.
--Sinto muito--ele murmurou, compadecido.
Sorri.
--Não sinta, senhor. Esta é a vida de tantos nós--e prossegui--Cresci próxima dos meus irmãos, embora lamentavelmente não me recorde de seus nomes, mas de suas aparências. Ainda sonho com eles, se quer saber minha opinião. Bom, o primogênito faleceu antes mesmo de eu completar cinco anos. Meu pai logo quis se livrar de mim, e não receio falar disso porque Nosso Senhor preparou uma vida para mim.
"Demorei dois anos até chegar aqui, realmente, e um casal de idosos chamado Clodovech e Geraldine me criou neste meio tempo. Guardo memórias muito felizes ao lado deles. Rememoro, de vez em quando, as paisagens pelas quais passamos, os momentos divertidos em meio ao caos... Afinal, era apenas uma criança. Geraldine gostava de pentear meus cabelos dourados e insistia que devesse me limpar porque, ela dizia, deste modo eles brilhariam como o sol."
Percebi que me emocionei depois de tanto tempo. Acreditava que se não falasse deles para ninguém, não seria necessário voltar a uma das épocas mais felizes de minha vida. E, no entanto, conforme as lágrimas ameaçavam subir meus olhos, constatei que senti falta deles. E que poderia ter dito não, e ter tido uma vida feliz ao lado deles. Ainda que morresse jovem, o que era comum àquela época, teria partido de volta ao mundo espiritual mais feliz. Foi quando me dei conta de que era eu mesma a responsável pelas dores que carregava. E concluir isso me entristeceu consideravelmente.
Pois, leitor, por maior que seja nossa fé em Deus, há, como disse e continuarei a pregar, o livre arbítrio. Não precisamos nos suceder voluntariamente às infinitas possibilidades de infelicidades para que possamos evoluir e alcançar a graça de Nosso Pai. Tudo o que fazemos, colhemos. Há aprendizados mais difíceis, mas isso não quer dizer que tenhamos de ser infelizes. Como disse uma vez um espírito sábio, nossa felicidade será proporcional àquela que causamos aos outros.
--Vejo que a senhora conserva boas memórias de uma vida que se esforça em esquecer--disse-me Nigel, nato observador que já me conhecia bem--E por que faz isso consigo mesma?
--Achava que era feliz aqui, servindo ao Nosso Senhor--eu confessei, falando a verdade sem mentir para mim mesma.
--Acredita mesmo que Deus, Nosso Pai, se contentaria em vê-la infeliz para servir a Ele?--indagou ele, cheio de verdades sob uma aparência misteriosa.
Antes que pudesse respondê-lo, porém, Adalsinda veio me procurar. Requeria de ajuda minha e, assim, me recompus rapidamente e pronta para o serviço. Energética como era, ou como passaria a ser, aquela irmã veio me contar de notícias que chegavam de Rhine. Como imaginava, não eram boas.
--Irmãos contra irmãos, filhos contra filhos--disse-me ela--E a guerra parece que chegará aqui em breve! O rei logo soube de que há homens hospedados aqui e exige seu retorno.
--O quê?--exclamei, horrorizada, sem conseguir me manter impassível diante do que ouvia. Havia algo em meu semblante que expunha meus pensamentos, porque Adalsinda urgentemente me levou a um canto onde não havia ninguém para dizer:
--Sei que está encantada com aquele rapaz--e, colocando um dedo indicador sobre meus lábios a fim de me impedir que a contestasse, disse--Seja discreta, eu ajudarei nisso, mas não pode impedi-lo de seu destino.
--Irmã...
Ela me abraçou com força, e eu me entreguei às lágrimas. Nigel abriu em mim emoções que pensei ter sido bom reprimir, mas agora, subjugada por elas, notei o quão infeliz era.
--Já passei por isso também--murmurou Adalsinda--Foi por isso que vim pra cá. Envolvi-me com quem não deveria ter me envolvido. Meus pais descobriram e, abominando-me por ter gerado um bastardo, enviaram-me para cá.
--Céus!--guinchei, preocupada--E a criança?
--Deus a poupou de ter tido uma vida miserável entre nós--disse a irmã, com serenidade da voz--Estamos todas juntas para cumprir o mesmo propósito, que é nos reaproximar de Deus. Não se esqueça disso, querida. Ame, não é pecado amar. Afinal...
--Se amar é pecado, somos todos pecadores--murmurei, sem saber de onde vinha esta frase.
Adalsinda me sorriu e liberou de seus abraços. Éramos, eu notei, mais do que companheiras religiosas, mas irmãs de alma, de fato. Uma poderia confiar na outra e em tempos obscuros como aqueles em que vivíamos, isso era muito, muito necessário.
Assim, voltei para cuidar de Nigel. Qual foi a minha surpresa ao ver que ele já não estava ali! Procurei-o na medida em que minha ansiedade não expusesse o verdadeiro motivo pelo qual buscava por ele. Mas uma freira distraída me disse que o camponês estava nos jardins. Contendo um suspiro de alívio, fui até ele.
Sentado em meio aos pomares, acompanhado de roseiras e tantas outras plantas que enfeitavam aquele cenário, estava Nigel. Mais limpo e com as roupas remendadas, ainda assim eram visíveis as cicatrizes que marcavam seu corpo. Vê-lo tranquilo, porém, apertou meu coração. Queria guardar a visão de seu sorriso, de seu olhar, mas minha presença traiu o que pretendia fazer: a observá-lo de longe.
--Irmã Justine--disse Nigel, alegremente--Venha sentar-se ao meu lado, por favor.
Com um sorriso que passava a acompanhar sua aura sempre que dirigia sua palavra a mim, eu obedeci e tomei o lugar ao lado como ele instruiu.
--Hoje, o dia está muito bonito para ficar aqui. A madre superior permitiu que respirasse o ar puro da natureza por uns instantes.
Em silêncio, me atentei para a maneira com a qual falava: um pouco trêmula, esforçando-se a passar uma confiança que, na verdade, não tinha, eu notei com tristeza que já havia recebido as más notícias. Mas procurei, também, demorar-me nas madeixas amarronzadas que caíam sobre seu pescoço, desorganizadas e sujas, porém, produzindo alguns cachos nas pontas; vi a barba que crescia rapidamente, já cobrindo as feridas em torno do maxilar, do pescoço e um pouco das bochechas. O corpo, no entanto, fê-me corar violentamente, pois notei como, a despeito das cicatrizes, aqueles músculos bem trabalhados causou em mim uma curiosidade que nunca havia sentido antes, aumentando mais ainda o desejo em curá-lo.
Desviei prontamente o olhar, mas Nigel sabia, como sempre soube, quando repousava minha atenção nele.
--Devo partir em breve--ele me disse--Não nos veremos outra vez, Agnés.
Surpreendida pela forma com a qual chamou meu nome, eu senti meus olhos se arregalando e disse:
--Senhor...!
--Oh, por favor--ele riu, mas o som que saiu de seus lábios era preenchido por uma melancolia de dar dó--Acha que não sei o que passa contigo, nem comigo? Sou inexperiente em algumas coisas, mas não sou burro. Dois dias podem ser pouco, mas, para mim, foram suficientes. Estou melhorando, mas sabe que, se pudesse, a desposaria aqui e agora mesmo.
Encarei-o com perplexidade e prontamente removi minha mão da dele, embora sentisse em meu coração que falava a verdade.
--O senhor é muito ousado--eu o acusei, mas sem ter me prontificado a deixá-lo para trás.
--Sou?--ele me encarou como se me desafiasse a abandoná-lo.
E quando abri a boca para retrucar, fomos interrompidos porque a madre superiora precisava de mim. Assim, levantei e, sem olhar para trás, voltei à posição que me era requisitada. No decorrer do dia, porém, afastada dele, percebi que cumpria minhas funções no automático. Esforçava-me sempre para ignorar as provocações usuais de outras irmãs frívolas que nunca se cansavam do meu silêncio. Acompanhava Adalsinda aonde quer que ela fosse, mas evitava as refeições, preferindo rezar na capela, de preferência longe das velas.
--Sabia que a encontraria aqui--ouvi uma voz familiar dizer.
Fechei os olhos, temendo mesmo que fôssemos ser pegos. Já previa o pior e por isso temi por mim. Assim, nada respondi. Nigel, entretanto, foi além e, embora não ousasse ficar perto de mim, não se situou tão longe tampouco.
--Vim pedir perdão pelos pecados cometidos. Um deles foi tê-la ofendido.
Virei-me para encará-lo, aflita, e disse:
--Ofendido?
--Sim. Não respeitei seus votos, penso que me admirei rápido demais pela sua pessoa, irmã. Apenas vim dizê-la isso. Que Deus a abençoe por seu nobre coração e perdoe-me pelo meu já tão falho e maculado pela vida.
Sem esperar uma resposta minha, vi-o ir embora. No restante da noite, porém, me vi confusa e presa às tantas batalhas que me submeti por conta de uma escolha. Na realidade, aquele enclausuramento num convento era menos por fé do que pelo medo de lidar com sentimentos provenientes do passado. A rejeição do pai, a perda dos irmãos, minha recusa em viver com uma família... Poderia ter um casamento decente, criaria meus filhos... E foi quando notei esta frustração que vinha de tantas e tantas encarnações: eu nunca tive crianças. Sejam elas de sangue ou não. Neguei meu lado 'materno', a experiência de ser mãe, ou mesmo de pai, por medo ou orgulho. Ou por ambos. Ainda que me esforçasse em cumprir com tudo o que me era exigido, e ajudar ao próximo era o que me dava mais deleite em toda a vida, constatei que minhas próprias felicidades estavam em segundo plano.
Na manhã seguinte, sem saber exatamente o que fazia, fui atrás de Nigel. Decidi que o conheceria melhor, sem esperar por nada em troca, amaria-o distantemente por mais que aquilo me doesse. Não pensaria em família ou matrimônios, apenas na felicidade instantânea que ele inspirava meu ser.
--Bom dia, senhor--eu disse, encontrando-o em seu leito como vinha fazendo nos últimos dias--Está descansado?
Surpreso em me ver, Nigel rapidamente se ajeitou e, ignorando a dor em suas costelas, disse:
--Minha senhora! Achei que...
--Seria muito não cristão da minha parte deixá-lo às suas infelicidades, caro homem--retruquei, sem aguardar resposta dele--Não falemos mais do passado, mas do presente.
Nigel me encarou por um longo momento, como se esperasse que mudasse de ideia. Ele relutou, mas eventualmente cedeu.
--As notícias da guerra que chegam a nós são aterrorizantes. O rei deseja que regressamos tão breve quanto possível.
--Sinto muito--lamentei sinceramente--Tenho rezado para que isso não aconteça mais, mas temo ter me enganado.
--A madre foi bondosa em atrasar nossa partida o tanto quanto possível--ele contou--Muitos dos homens não estão em condições de voltar agora. Estamos mergulhados em silêncio, cercados pela culpa, raiva, ódio... A ignorância nos rodeia tal qual a morte nos espreita. A maioria certamente espera por esta última.
Ouvi-lo desabafar sobre estas circunstâncias cruéis que o rei/imperador impôs aos seus próprios súditos era muito ruim. Terrível. Em termos espirituais, havia tantas explicações para isso. Não se tratava exclusivamente de uma abertura para as trevas atuarem livre e espontaneamente, mas o acolhimento destas e a justificativa de desperdício de sangue em nome do Grande Mestre que pranteava tudo aquilo. Sim, havia a liberdade de escolha... como não havia como fugir da colheita. E em breve, em alguns anos, Louis, o 'Piedoso, colheria o que plantou. Pobre homem. (Nota de Amadeus: Recentemente, ao reencontrá-lo no plano espiritual, antes de seu processo reencarnatório, quando obtive sua permissão de inserir parte de sua história que está intrínseca a minha de várias maneiras, este espírito demonstrou ainda grande vergonha deste passado. Ao menos, o coitado está melhorando como haveria ser, mas ainda há muito a expiar).
--A fé é o único instrumento que nos salva de desejar ansiosamente pela morte do corpo--eu falei, tomando sua mão na minha--Ninguém almejou esta vivência, senhor Nigel, mas de que adianta fugir disto tudo?
--É preciso coragem para enfrentar os demônios que tentam as pessoas--ele respondeu, infeliz--Duvido constantemente da minha. Para alguns, sou covarde por pensar assim. Estes meus companheiros estão contaminados pelo ódio.
--Não posso culpá-los--comentei, reflexiva--Estão todos assim, pelo que sei. Mas não falemos mais disso, senhor. Vamos rezar a Deus, Todo Poderoso, e pedir pela intercessão dos Santos para que esse sentimento ruim abandone a nós todos; que Ele, em sua infinita misericórdia, limpe os maus pensamentos do rei e daqueles que os cercam.
Assim, em única voz e coração, de almas juntas e tão afins, fizemos uma longa prece em latim. Por horas, rezamos e, ao final, algumas freiras próximas de nós copiavam nossos gestos, emocionadas.
--Que Deus a abençoe, senhora--ouvi-o murmurar antes de tomar seu leite de papoula e dormir tranquilamente.
Naquele fim de tarde e início da noite, Adalsinda, como de costume, veio me acompanhar na assistência à Nigel. Aos sussurramos, trocamos confidências:
--Há algumas freiras que suspeitam de que fora abençoada pela graça divina, Justine. Sua prece mais cedo curou alguns dos homens que os acompanharam.
Novamente, neguei a associação a uma possível santidade, descrente das palavras de minha cara amiga.
--Não fale besteiras, Ada. Sabe bem que não gosto disso.
--Humilde como haveria de ser--ela me sorriu--E como ele está?
--Bem, porém assombrado pela guerra.
Adalsinda suspirou.
--Deus que me perdoe, mas entreouvi uma conversa da madre superiora com aquelas velhas que as acompanham--ela ignorou meu franzir de cenho quanto à forma que ela chamava das freiras mais antigas que nos desprezavam--Lothair, o filho mais velho do rei, juntou-se a ele. Há uma reconciliação de pai e filho, mas a situação não parece nada amenizante. Há tensões aqui e lá, lordes discutindo, outros tantos convocando seus vassalos... E cada vez mais, a guerra ruma ao sul.
Fechei os olhos e murmurei uma prece. Ada continuou:
--O rei tem pressionado a madre para que envie seus homens de volta, embora sejam apenas camponeses. Mas ele precisa de todo apoio que puder. Ela sugeriu ao monsenhor de que os deixasse aqui para defender o convento, mas a resposta recebida foi uma evasiva sarcástica: quem haveria de violar o convento sagrado? Ninguém seria tão estúpido assim.
Arregalei os olhos.
--Foi esta a missiva que o soberano enviou a ela?
--Ao que parece sim. Bom, a situação não é boa e seremos deixadas à nós mesmas. Que Deus nos proteja, minha irmã, porque se isso não significa o fim dos tempos, não sei mais o que poderia ser.
Dando-me um beijo na testa, Adalsinda levantou-se e voltou para seus afazares. Naquela noite, sem qualquer apetite, voltei para a capela e rezei ardentemente pela situação que estava a França inserida. Nenhuma perspectiva de paz, e que me importava como se relacionava Louis e Lothair? Aqueles homens não conheciam a desgraça como era de fato, e eu me perguntava como conseguiam dormir à noite. Imaginei se era este o legado de Carlos Magno, e logo pressenti que seu império não duraria muito se aquelas guerras civis prosseguissem interminavelmente.
A semana passou-se devagar e permeada por tensões, ameaças e tristezas. O ambiente no convento era marcado por pesares e silêncios. As noviças atrevidas choravam pelos seus rapazes, mas nem mesmo a madre conseguia controlá-las. A guerra chegou, afinal, a nós e não poderíamos fazer nada se não ajudar aqueles pobres homens que estavam sendo pressionados a regressarem a uma vida terrível, regada a grande desperdício de sangue, sem saber por que lutavam ou mesmo para quem levantavam suas armas. Como eram camponeses, não possuíam qualquer meio de riqueza que pudesse comprar meios de proteção. Mas o convento, apoiado financeiramente pelo rei, possuía algo do tipo. Logo, todas as freiras e noviças receberam ordens de costurar armaduras, roupas novas, o que quer que fosse para ajudar aqueles rapazes.
Sem qualquer suspeita, cumpria meu dever sempre próximo ao leito de Nigel. Às vezes, ele ficava em silêncio, e era quando eu o estimulava a falar.
--Uma vez conheci uma prostituta muito religiosa--contei a ele, em tom leve para que pudesse distraí-lo de si mesmo--Seu nome era Crespine e ela era muito bela. Você gostaria dela.
Nigel riu, e desta vez sua gargalhada sonora mostrava um divertimento mais sincero. Sorri diante disso.
--Pensa que sou homem de prostitutas, senhora?--indagou ele, fingindo ofensa.
--Não, mas é um belo rapaz--falei, sem pensar--Certamente gostaria de ter mulheres belas como ela ao seu lado.
Nigel tomou minha mão na sua e a levou para seus lábios. Aquilo fê-me ruborizar, mas também esquentou meu coração. E, então, disse:
--Já falei que preferia desposá-la. Passariam-se meses, anos e até séculos e eu não me esqueceria da senhora. Se eu soubesse escrever, declamaria um poema para você, Agnés.
--Ninguém se apaixona assim por alguém em uma semana--eu respondi entre risinhos, embora, apesar de falar na defensiva, meu semblante traísse o que eu sentia.
Mas Nigel sorriu e disse:
--Não acredito nestas palavras, mas que seja. Apenas vivemos o momento.
Foram bons dias, na verdade. Aquela semana foi sucedida por outra até virar o mês, ou, segundo os velhos costumes, vir a mudança lunar. Com isso, esquecemo-nos dos eventos externos, de que havia lutas sangrentas desnecessárias assolando vários reinos. E todas as preces que cantávamos ritualmente antes do pôr do sol pareciam ter algum efeito, de fato, sobre os doentes presentes. Nigel mesmo achava-se curado, embora agisse como contrário.
--Precisa mesmo esconder seus cabelos?--uma vez ele me perguntou, observando-me curar um de seus amigos--Estou curioso.
Lancei a ele um olhar de reprimenda.
--Se não faço mais parte do mundo, por que meus cabelos deveriam ser exibidos?
--A senhora possui uma língua afiada para alguém que veste os trajes de uma freira--disse ele, aos risos.
Enrubesci.
--Perdoe-me, mas a sua curiosidade me coloca em situações constrangedoras, às vezes.
--Esqueci de minha posição, irmã, quem lhe deve perdão sou eu--disse Nigel, soando distante.
Suspirei e voltei meu olhar para ele, o único homem que amaria na vida.
--Cortei meus cabelos curtos há tanto tempo para esquecer os dias vividos. Geraldine tinha muito orgulho deles, e eu não queria isso.
A isso, Nigel me observou como se contemplasse as minhas palavras.
--A senhora vive em um mundo onde o orgulho é enaltecido, seja aonde estiver. Ele não pode ser seu escudo para sempre, irmã.
Como detestava aquelas formalidades, pensei enraivecida. Meu coração almejava tantas e tantas coisas, mas a minha razão as domava e subjugava. Compreendi, portanto, por que era orgulhosa. Não era nas minhas ações com os outros, mas comigo mesma. Desprezava meus sentimentos porque os acreditava ser impotentes e insignificantes. Em outras palavras (para o leitor moderno), me faltava amor próprio. Afinal de contas, as cicatrizes podem ser profundas e ainda abertas se souber como escavá-las.
Diante do meu silêncio, Nigel percebeu que me feriu e lutou-se para consertar outra vez o que havia feito:
--Não quis dizer isso. Só... Só queria que fosse feliz.
Aproveitando uma oportunidade para que ficássemos à sós, falei a ele a verdade:
--Eu não sou infeliz, senhor, embora pense que poderia ser muito mais feliz ao seu lado. Estou contente com onde estou, ainda que pudesse experimentar alegrias inexprimíveis se morássemos juntos. Nada tenho a reclamar de aqui estar na companhia de minhas irmãs, mas nenhum desagrado vivenciaria se um padre abençoasse nossa união e tivéssemos filhos.
Perplexo com minha declaração, vi lágrimas surgindo naqueles olhos quase cor de âmbar de Nigel. Havia tocado seu coração como ele fizera comigo e, então, nos compreendemos verdadeira e mutuamente.
--Fuja comigo--ouvi-o implorar--Não precisamos nos submeter a tudo isso.
--Não posso--neguei com todas as forças que tinha, engolindo minhas próprias lágrimas e o nó na garganta que elas formavam--Não posso e nem ousarei quebrar meus votos.
Nigel não insistiu, embora uma parte minha quisesse que o tivesse feito. Como de costume, nossos caminhos seriam separados. Mas ele tirou, sabe-se lá de onde, um anel e colocou no meu dedo indicador.
--Este anel, por alguma razão, nunca o perdi. É simples, um ferreiro o havia feito há tanto tempo atrás quando meu pai o procurou para produzir uma joia significativa a fim de dar à mulher que amava--contou-me ele, com voz emocionada--Meu pai deu todas as suas economias para que aquele homem produzisse isso. E minha mãe o usou até o final de seus dias. Um dia, antes de morrer, ele veio até a mim e me deu seu bem mais precioso porque queria que eu conhecesse alguém decente e merecedora deste anel. Não posso tê-la comigo, mas você pode ter uma parte de mim. Amei-a desde o dia em que pus meus olhos neste rosto frágil, delicado, mas que escondia uma alma tão forte e impenetrável como as muralhas do castelo. E continuarei a amando até o fim dos meus dias, Agnés.
Antes que pudesse me dar um beijo para selar suas palavras, fomos interrompidos por Adalsinda, minha amiga e confidente, a única que estava a par de tudo o que estava acontecendo.
--A madre está chamando todas nós--ela avisou, urgentemente--Um dos homens do rei chegou para buscá-los.
Assenti com a cabeça, mas antes que fôssemos separados, procurei um instrumento, qualquer que fosse ele, e cortei um pedaço de uma mecha de meu cabelo.
--Que você nunca se esqueça da mulher que o amou desde o instante em que repousou estes olhos cheios de ternura e afeição quando entrou aqui--falei, quase sufocando com as lágrimas que prontificavam a serem derramadas.
Emocionado, Nigel assentiu. Guardou com afinco o presente mais precioso que poderia dar e, com muito esforço, limitou-se a depositar um beijo na testa. Assim, em silêncio entramos e, daquele dia em diante, nunca mais nos veríamos. E ninguém, com exceção de Adalsinda, saberia o que se passou entre nós dois.
*                                                                                   *                                                                      *
Nigel desencarnou dois anos mais tarde quando a guerra civil atingia seu ápice. Contudo, era possuidor de tão iluminado espírito que sequer sentiu quando a espada atravessou seu corpo. Não receberia suas notícias se não pelos sonhos. E aqui relato a vocês, leitores, o que se passou. À época, não contei a ninguém, nem mesmo à querida Ada, como carinhosamente chamava minha irmã de alma, porque era particular demais para ser dividido.

Nos dois anos desde que ele havia ido embora, passei a ficar doente com mais frequência. Ajudava em meus afazeres, mas sentia um grande e desalentador esforço em cumpri-los. Recusava comer, embora eventualmente comesse pouco. Meus guias trabalhavam comigo noite e dia para que não desistisse da missão que eu mesma havia optado por seguir. Lembravam-me disso e alimentavam com sua bondade a minha resignação. Quando pensei estar me recuperando, numa noite de verão sonhei que estava em um campo de lírios, onde o sol brilhava em seu domínio incontestável e não se sentia nada que não uma brisa perto ao mar. Ali, sob o pomar, estava Nigel. Vestido todo de branco e com uma paz absoluta em seu semblante, ele me aguardava. Como se sentisse minha presença, aquele belo homem se virou a mim e disse:
--Senti sua falta, bela Agnés.
Corri em sua direção sem pensar duas vezes. Pranteei porque de imediato soube o que aconteceu.
--Não me perdoo por isso. Por favor, por favor, peço que não se esqueça de mim.
Abraçava-me com força e cheirando meus cabelos, Nigel, entretanto, estava em paz.
--Não há o que ser perdoado. Mas as lições foram aprendidas, por nós dois. Nenhuma lei dos homens pode separar o amor que vem a ser unido. E, no entanto, por que toda vez me repele? Prefere mesmo se submeter a tantos sofrimentos a se permitir ser feliz, minha cara?--sua voz era doce e soava como melodia--Não se culpe, por favor. Assim era para ocorrer para que pudéssemos evoluir. E estamos seguindo rumo ao Grande Mestre.
--Eu o amo--era o que conseguia dizer--Não consigo viver sem você, não consigo.
Nigel levantou meu queixo para que nossos olhares se cruzassem uma última vez e, sem responder, levou seus lábios de encontro aos meus. Senti todas as minhas sombras se dissiparem e a luz mergulhar em minha alma.
--Eu a amo--ele murmurou--Estarei esperando por você. Quero que saiba que agora é safo dizer que não mais nos separaremos. Lembre-se disso, meu amor.
E sem esperar por uma réplica minha, ele desapareceu e eu acordei de volta ao mundo chuvoso e triste dos homens. Apesar disso, havia renovado minhas forças e compreendido minha provação. Aceitado mesmo que, em meio a uma série de erros, havia acertado, no final das contas, por escolher o dever sobre todas as outras.
Quando completei vinte anos, meus "poderes" de cura começaram a alcançar um considerável número de seguidores, fama qual eu nunca gostei e nem pretendia desfrutar. Com a morte da madre superiora, o bispo de Paris ofereceu-me tal posição que eu não hesitei em negar. Havia trabalhos a serem feitos e títulos nem posições chamavam minha atenção, não por orgulho, mas porque meu dever era para com os pobres e não os ricos. Apesar disso, o que mais gostei de receber foi o respeito de todas. Adalsinda tornou-se madre em meu lugar alguns anos depois e ela incentivava que eu levasse minhas preces para os pobres parisienses. Abrimos o convento para o público e com isso, exercia todo o conhecimento medicinal de outras vidas para os que necessitavam.
Vivi muito tempo, de fato, e ocupava minha mente para que não pensasse nele. Mas Nigel me visitava de vez em quando, o que me confortava quando a tristeza batia profundamente. No mais, ainda que o cansaço batesse cada vez mais, resistia às doenças. Insistia nas tarefas e ajudar aqueles que mais precisavam. Aos poucos, meu corpo cedia: a cegueira tomou conta dos olhos no meu quadragésimo ano de vida. Em seguida, vieram a anemia, a doença dos ossos, dos pulmões... até que no ano de 867, aos 50 anos, desencarnei para o plano espiritual. Ser recebida com todo o amor que conheci pouco no plano terreno compensou, sem dúvida alguma, os sofrimentos pelos quais me submeti, mas que também poderiam ter sido evitados.
O amor, como bem dizem, vence todas as coisas e derruba todos os obstáculos levantados pelas criaturas da Terra.















Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...