sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Velhas Memórias. Ciclo VII.

Inglaterra, 405 D.C.

Na verdade, esta história começa um pouco antes, em Roma. Foi lá onde fui concebido e recebido pelos meus pais terrenos. Outra vez, achei por bem ter nascido pobre e no corpo de um homem para que enfrentasse uma provação mais difícil do que a anterior, ao menos em alguns aspectos. Mas esta seria minha última existência em tal gênero.
Em retrospecto, torna-se fácil confirmar o ano de meu nascimento próximo da época em que o Imperador Teodósio estabelecera como lei a religião cristã por todo o seu império em 380 depois de Cristo. Meus progenitores há muito seguiam a palavra de Cristo e contavam com uma idade avançada para a época quando nasci. Seria o filho mais novo, sendo o mais velho aquele que receberia suas atenções por depositarem nele as esperanças de uma vida melhor. Isso não quer dizer que me dispensavam afeição, carinho e educação. Muito ao contrário, Aeliana e Genésio me tratavam bastante bem para a época em que a distância emocional dos filhos predominava na mentalidade dos que padeciam a influência da carne sobre o corpo. Sendo assim, recebi o nome de Augustus. 
Aeliana, tão devota quanto Santa Monica, preocupava-se com a extrema condição de pobreza de nossa família e todos os dias rezava com o ardor para que tal situação não levasse seus únicos filhos para a morte. Por mais que em seu íntimo houvesse a intuição de que o transpasse não impunha definitiva separação, era natural que, na ignorância de seu estado em decorrência da época vivida, temesse o pior. Nosso pai, Genésio, era comerciante, mas parecia que nada dava certo. Por anos a fio, viveu com dificuldades. Era, de fato, pessimista por natureza e com uma preocupante inclinação à depressão. Permita-me esclarecer aos caros leitores que este pai de quem falo é o espírito do irmão que tirou-me a vida em existência precedente, indivíduo tal que me empenhei para educar antes de reencarnamos juntos. Nossos caminhos se cruzariam pouco, entretanto: a divina providência acharia melhor que seguíssemos missões diferentes em vida.
Mas ele, ainda assim, esteve presente em minha vida. Educou-me da melhor forma que pôde. Aos cinco anos, ainda me recordo, ele veio a mim e disse:
--Sabe, filho, ultimamente ando pensando em você.
--Em que pensou, papai?--eu indaguei, naquela típica voz infantil, carregada de inocência.
--Em tantas coisas---ele suspirou, com o semblante carregado de tristeza--Eu gostaria de dar a você o mundo, meu caro menino. Sinto que há muito por que gostaria de dar a você e por vezes me culpo por ter sido um pai diligente.
Sem saber o que significava aquelas palavras, embora no íntimo que guardava a alma a sensação de conhecê-las, eu falei:
--Você é o pai que Senhor Deus me concedeu e eu fico feliz por isso.
Acreditando ter sido por inspiração divina que aquelas palavras teriam saído de minha boca, Genésio me pôs em seu colo e abraçou:
--Amará este seu velho pai? 
Sorrindo, respondi:
--Sempre.
Aquele momento significativo foi o instante em que nossas almas tão espontaneamente se reaproximaram. Como se houvéssemos enterrado nossas dividas e de fato nos perdoado por rivalidades anteriores. De todo modo, logo depois deste momento, pareceu que Deus houvesse nos escutado e permitido à família que saíssemos da obscuridade de certa maneira. Meu irmão, cuja saúde delicada preocupava minha mãe, provou ser robusto e bastante inteligente. Éramos relativamente próximos, mas como podem perceber, minha vida não estava destinada a ser vivida ali. Conforme melhorávamos, minha mãe decidiu agradecer a Deus oferecendo-me à vida na Igreja. Meu pai, a princípio, hesitou, mas foi vencido pelos argumentos da esposa:
--Não temos condições de sustentar Augustus como deveria, e sei que seu propósito encontra-se servindo a Jesus, Nosso Senhor. Ele o chama, confia, marido, que não falo blasfêmias.
Aos sete anos, portanto, fui aceito pelo bispo de Roma. No decorrer da minha infância e adolescência, sem quaisquer grandes acontecimentos para serem aqui ilustrados, vivi "enclausurado". Isto é, longe da realidade mundana que assolava a capital do império. Desconhecia a corrupção, a maldade humana, as mentiras, a vaidade, os pecados que Deus repreendia na humanidade. Por mais rigoroso que possa parecer ao leitor moderno, ter vivido em companhia de jovens que almejavam tornar-se padres ou mesmo missionários que levariam a palavra de Cristo ao mundo não era tedioso. Aprendi o domínio da leitura e da escrita, seguia exemplarmente, na medida do que me era possível, todo o evangelho. E nada me agradava mais do que ler os testamentos que compunham a bíblia.
--Você é um jovenzinho engraçado--uma vez comentou comigo um dos braços direitos do bispo, um senhor chamado Aelius. Seu rosto envelhecido era caucasiano, embora marcado por manchas na pele, e coberto por uma barba espessa; possuía um nariz longo e olhos azuis cansados. Sorria com frequência, a despeito da falta de dentes, o que lhe configurava um aspecto gentil--Não pensei que conheceria uma alma tão virtuosa entre nós, Augustus. Isso é bastante surpreendente. Creio que está destinado a grandes coisas.
Corei diante de tal elogio, desacostumado a recebê-lo: minha natureza introspectiva inclinava-me a passar tempos longe de meus colegas, evitando socializar-me com os demais. Rezava mais do que o indicado, e tinha bastante ciência de que outros de minha idade chamavam-me de ranzinza e severo pelas minhas costas. Apesar disso, não me importava e esperava não chamar a atenção: repudiava estar no centro da curiosidade alheia. Mas ali estava alguém que eu genuinamente admirava e por isso lhe sorri.
--Obrigado, senhor Aelius. Que Deus o recompense por tamanha gentileza.
Ao meu lado, ele se sentou. Seus bondosos olhos azuis fitavam a minha aparência como se me estudasse: à época, apesar de franzino, possuía uma saúde robusta. Meus cabelos desgrenhados caíam sobre os ombros, e eram tão negros quanto a noite, enfeitados por cachos embaraçados; minha pele era terrivelmente branca, beirando à palidez pois evitava o calor do sol. E, entretanto, em minhas bochechas podia-se ver um leve rubor pintando-as, pois quando havia trabalhos a serem feitos no lado de fora, era inevitável que me queimasse um pouco. Diziam meus colegas, pelo que me recordo, de que meus olhos eram verdes como o pasto, intensos quando atentos, pois era muito observador. O nariz longo, porém, não me fazia o mais belo dos homens. Era jovem e nem todos de minha juventude foram agraciados com a beleza. Contudo, isso não passava pela minha cabeça. Naquele dia, enfim, usava vestes cinzas que caíam soltas sobre meu corpo, presas apenas por uma espécie de cinto que afivelava o tecido.
--Amém, meu jovem. Obrigado. Mas estou realmente intrigado, os outros me disseram que aprende muito rápido e leva à sério seus afazeres. Tem-se destacado dentre os seus por este comportamento--ele assim falou.
Eu ruborizei.
--Obrigado, senhor--agradeci, timidamente--Não sei o que fiz para merecer sua atenção, mas humildemente regracio pela sua presença.
Um parênteses faz-se necessário fazer aqui para situar os leitores de uma particularidade deste tempo, embora a mesma tenha sido perpetuada até os tempos da Reforma, que era a concentração do clero no quesito dos estudos. Nem todos os padres liam e escreviam, possuindo, assim, o total domínio da língua latina. Como a Igreja de Cristo vinha se erguendo cada vez mais poderosa, a politicagem adentrava seus tentáculos nos homens que deveriam seguir nosso amado mestre. Mas é claro que, naqueles dias, não devíamos esperar muito de uma humanidade ainda muito presa às influências da carne. Desse modo, se eu porventura obtive acesso a esse tipo de aprendizado, afirmo categoricamente que foi porque Deus em sua sabedoria infinita assim determinou.
--Gostaria de propor um convite--disse Aelius, sem prolongar-se naquela conversa supérflua--Que pensa em acompanhar-me junto ao bispo de Roma por um tempo?
Arrepiei-me, pois senti em suas palavras a inspiração divina que me convidava à ação. Pressentindo minha missão, prontamente aceitei:
--Mas é claro! Penso que Nosso Senhor está me chamando a ser útil, senhor!--e tomando suas mãos para beijar-lhe, exclamei--Obrigado, obrigado, obrigado!
Rindo de minha inocência, porém, Aelius pareceu satisfeito com minha reação. Logo mais, levantou-se, pois não pretendia se demorar mais, já que era um homem ocupado e tinha lá seus afazeres. Mas ele prometeu entrar em contato e com isso, aguardei ansiosamente. Demorou um pouco mais de dois meses até que ele me buscasse novamente. A espera foi agonizante e não sei como meus colegas prontamente souberam da invitação estendida a mim pelo confidente do bispo romano. Naturalmente, a reação não foi tão positiva quanto esperava.
--Oh, abram alas para o escolhido do papa!--ouvi alguém zombar de mim, em suas palavras destilando inveja e sentimentos pouco honráveis--Sente-se especial, Augustus? E, no entanto, cá está aqui entre nós, pobres meninos.
Em geral, estava acostumado a lidar com aquelas provocações. Romulus era seu nome e ele me desaprovava e não sem motivo: não éramos almas afins, e se estávamos ali era para aprendermos um com o outro. Contudo, aquele jovem de origem escrava e celta pelo lado materno não se adequava ao novo ambiente em que se inseria. Não aceitava a humildade pregada e acreditava que a força era a resposta para tudo. Boatos corriam--por mais que não desse ouvidos a besteiras, era impossível ser surdo a elas--que ele mantinha um forte laço com os deuses antigos de sua família. Independentemente de suas crenças, aquele rapaz de pele oliva e olhos castanhos ferozes era um espírito rudemente atrasado. Não obstante, sua personalidade furiosa dominava aos que eram fracos demais para renegá-la, por isso andava em grupos.
--Sabe muito bem que não me sinto especial e não acredito em distinções quando Nosso Senhor ama a todos igualmente--respondi em voz baixa e com toda a calma que detinha.
Aquilo o enfurecia, tanto pela dificuldade em alterar seu comportamento (pois deve-se ser dito, caro leitor, de que um indivíduo furioso com o outro na verdade está frustrado consigo mesmo e projeta isto naquele que, ao contrário, o inspira a mudar para seu próprio bem) quanto por malograr em trazer-me para compartilhar suas raivas mal resolvidas.
--Se Ele nos ama a todos sem diferenças, por que é que você está sendo favorecido? Não faz mais do que nós--retrucou Romulus, satisfeito com o eco de aprovação que causava em seu pequeno grupo de seguidores.
--Lamento que pense assim, meu caro. Não acho que deva-lhe explicações sobre o que não tenho poder, de maneira alguma, de fazer acontecer. E ainda que tivesse, não caberia a mim fazê-lo. Sua fé deveria ser o suficiente.
Quando ele pensou em ser mais agressivo comigo, foi interrompido diante dos passos de nosso supervisor. Insatisfeito com a cena que presenciava, o homem repreendeu Romulus, pois seu temperamento já era conhecido e dispersou o grupo. Enfim, tive o caminho livre, mas optei por adiar meus afazeres daquela tarde para rezar pela alma do coitado e daqueles que aceitavam segui-lo. Pois não compreendia porque se submeter a seguir Deus e Suas palavras, ser Seu mensageiro se o fazia blasfemamente? Mas mesmo na capela, não completei minhas preces porque o senhor Aelius, outra vez em pessoa, veio me procurar.
--Imaginei que viria encontrá-lo aqui, rapaz. Soube que seu destaque tem sido motivo de discórdia por aqui.
--Fico triste que tenha alcançado seus ouvidos esta história, padre--falei, sinceramente--Até porque a Igreja não deveria ser assim.
--Não--concordou ele--A vida monástica deveria ser regada a mais humildade, decerto, mas poucos são os homens sujeitos a esta tão bela moral. Na verdade, filho, somos falhos, e isso não deve ser esquecido como tampouco ser o motivo para descrer na palavra de Cristo. Em meio a erros, um dia subiremos aos céus.
--Palavras sábias--falei, sorrindo.
Aelius assentiu e disse:
--Não temas, pois não está sozinho. Deus está contigo, Augustus. E é por isso que chamo-o aqui. O bispo gostaria de conhecê-lo. Estou arranjando um encontro com ele.
Perplexo havia ficado, é claro, pois não esperava que isso fosse acontecer. Minha educação, meu sacerdócio estariam me levando cada vez mais próximo de Deus e, como pensava, naquele que O servia diretamente. O bispo, cujo nome não me cabe revelar, diria assim que me encontrou:
--Vejo que Aelius está fazendo um excelente trabalho com os jovens pobres de Roma. Que homem está se tornando, meu jovem! Soube de seus atributos e espero conhecê-los bem.
Tentei não me apressar tampouco permitir que a ansiedade me controlasse. Concentrei-me, pois, nas preces que fazia. E recordei-me, curiosamente, de um sonho em particular que me perturbou ainda na véspera da visita de padre Aelius.

O sonho em questão era muito, muito curioso: achava-me em um campo florido que dava vista ao mar sem ondas. Atrás de mim, erguia-se uma casa de construção única, cuja arquitetura não marcava com aquela que eu conhecia. De lá, saíam dois homens vestidos em túnicas brancas e rumavam em minha direção. A luz em suas presenças eram muito fortes, mas não afetava a minha visão. Um deles era dono de olhos violetas e cabelos levemente ruivos, quase beirando ao louro: forte em sua constituição, transparecia calma e sorria com familiaridade para mim. Este aqui adotou o nome de Mikhail, ou, Miguel. O outro, ao seu lado e de mesma estatura, se chamava Rafael. Este possuía uma pele mais azulada e olhos da cor do universo, se posso fazer tal comparação. Era belo como o homem que o acompanhava, e sua túnica era branca com traços dourados.
--Saudações, caro Augustus. É bom revê-lo outra vez, vejo como tem se desenvolvido muito, muito bem. Como estão as coisas na Terra?
Em uma língua que soava estranha aos meus ouvidos, respondi, porém, com naturalidade:
--Não tão bem quanto se possa pensar, mas espero seguir o rumo da minha missão com paciência e resignação.
O tempo todo era Rafael quem conduzia a conversa:
--Há outros contemporâneos em missões parecidas, mas temo alertar para uma ameaça do insucesso quanto a sua.
--Tudo no tempo de Deus, penso eu--falei, embora soasse um pouco triste--Mas, se puder perguntar, fui escolhido para ser seu missionário?
Desta vez quem me respondeu foi Miguel:
--Sim. Levará a palavra para terras distantes de onde vive, mas é preciso se preparar para as dificuldades terrenas. Contudo, lembre-se de que o que vier a fazer terá fruto alcançado por outros em encarnações futuras.
--Não tema, Augustus. É mais difícil do que tem pensado, mas sê firme e forte que colherá bons frutos. Está no caminho da luz--disse Rafael, soando otimista.
--O medo é uma reação natural ao que está por vir--alertou Miguel, diante do meu silêncio--Não estamos em tempos fáceis, muito pelo contrário, a materialidade ainda impõe o véu da ignorância sobre tantos olhos. Cabe a você ser instrumento do Pai nessa caminhada. Não se desanime, pois não está sozinho.
--O espírito da Verdade o conduzirá no tempo certo--disse Rafael, com um sorriso--Estamos muito feliz pelo seu progresso, Augustus. A História não o lembrará, mas todos os outros um dia irão saber disto, e se recordarão do que fez.
--Não me importo com a História--disse eu, firmemente--Apenas desejo ser útil e cumprir com minha missão.
--Sua fé é a luz que ilumina os fracos e salva os ignorantes--disse Miguel, sorrindo pela primeira vez--Vá em paz, irmão, que em breve nos reencontraremos.
E assim, me despedi. Feliz, decerto, porém desapontado pela breve despedida. Mas não me recordaria deste sonho por algum tempo.

E, entretanto, a intuição proveniente deste encontro me foi guardada e, de alguma forma, ela se manifestou quando estive cara a cara com o bispo. Conversamos bastante e discutimos a teologia, pensando sempre em Deus.
--Tenho uma excelente impressão sobre você--ele me disse, satisfeito--É demasiado moço, mas isso não impede que Deus aja sobre você como tem agindo. A impressão que me tem é que Ele o quer que atue junto a sua Igreja.
--De fato, senhor--eu concordei, embora sem graça por ouvir aqueles lisonjas. Esperava apenas ser merecedor delas--E o que gostaria que eu fizesse?
--Sabe, muitos de nós pensamos que o cristianismo não é merecedor dos hereges e ignorantes, dos que lá fora cultuam demônios--ele disse, soando reflexivo--É de senso comum que a Igreja deva atuar dentro dos círculos do Império. O próprio imperador compartilha desta opinião e acha que nossa religião não deve ser imposta aqueles perdidos no escuro. Mas eu discordo e não é por questões puramente políticas, Augustus.
"Eu me preocupo com a alma daqueles bárbaros. Em sua ignorância, enxergam em qualquer objeto, animal e árvore centros de culto para o inexistente. Preocupam-se em arranjar explicações para si mesmos pela ausência de uma guia que os traga para a luz. Como podemos permitir que se percam na ignorância quando é nosso dever levar a ideia de Cristo aos nossos irmãos? Sim, pode surpreendê-lo que os veja como tais.
"Mas Cristo dizia para amar o próximo como a nós mesmos, e, apesar das desfeitas que Judas cometeu contra ele, não foi Nosso Senhor quem o perdoou e o amou? Não foi Ele quem instigou seus apóstolos a levar a palavra do Pai aos que o desconheciam para que assim soubessem de Suas várias moradas? Por que deveríamos nos aquietar e permitir que nossos irmãos permaneçam perdidos?
"Não, Augustus. Não concordo com esta situação. E é por isso que o enviarei às terras obscuras. Precisamos de apóstolos, de missionários, de homens de fé que tenham a paciência para converter esta problemática pela qual sofremos. Para derrotar os demônios, meu caro, é preciso de muita luz."
Na ocasião, estávamos nos aposentos do bispo, outrora simples e pouco ornamentados com nada além de uma cama, escrivania, cadeiras e uma cruz. A janela abria-se para a visão de uma Roma populosa, a capital do Império, embora deva-se dizer que não fosse tão limpa ou benquista. Mas me atentei muito pouco às características dos homens com quem dialogava ou com o cenário em que me achava, pensando, ao contrário, nas palavras daquele que logo mais seria papa.
--Nesse caso--disse eu, sentindo-me repentinamente confiante--aceito o desafio, senhor. Para onde pretende me enviar?
Apesar da jovem idade e pouca experiência terrena, não era tolo. Já havia colecionado vivências anteriores o suficiente que me permitiam enxergar o caráter verdadeiro que poderiam distinguir o lobo do cordeiro. As intenções do homem com quem me encontrava eram boas e inspiradoras, entretanto, será que elas permaneceriam intactas à mácula do mundo em que estávamos inseridos? De todo o modo, eu percebi que o bispo já havia conversado sobre este assunto, ainda que discretamente, com o senhor Aelius e, como eu suspeitava, sem o consentimento prévio do imperador. Não importava, porém: meu destino estava selado.
*                                                                            *                                                                            *
A viagem às terras longínquas da Bretanha foi tediosa e marcada por uma mistura de sensações que me inquietavam. Não se tratava de questionar a missão divina, sequer de duvidar da capacidade em levá-la a cabo, mas da falta da confiança em mim mesmo. Lembrem-se que ainda sofria influência da matéria. Portanto, era natural que temesse o futuro incerto, desconfiasse de mim mesmo e, não obstante, desse vazão às paranoias: tais eram permeadas pelos boatos, de certa maneira infundados, de que lidaria com selvagens imbecis sob o rígido rugo de demônios.
Passava pela minha mente, entrementes o medo que não cessava de arrombar meus pesadelos à noite  e aquietar-me no decorrer do dia, que lidaria com selvagens brutos. Muitos talvez saibam que este conceito foi desenvolvido paulatinamente nas obras kardecistas, tratando-se não dos índios e outros povos (como alguns de vocês erroneamente supuseram), mas de indivíduos completamente ignorantes, primitivos em crenças e pensamentos. Pois bem, dada esta explicação, aproprio-me desta concepção para ilustrar meus temores, mesclados, sem sombra de dúvida, ao contexto do império romano que tão preconceituosamente excluía e classificava outros povos conforme os subjugava.
É certo que os leitores que se interessarem pela História deste período poderão contestar a veracidade deste meu conto porque, em termos documentais, está registrado que a inserção do cristianismo foi amplamente aceito no século seguinte, e mesmo assim, tardiamente, quase no decorrer de alguns decênios do século VI. Asseguro-lhes, porém, de que não somente a História foi e continua sendo documentada e mapeada pelos "vitoriosos", como também de minha parte não há mentira alguma. Sendo assim, ressalto igualmente que, infelizmente, pouco se chegou aos dias desta nova contemporaneidade sobre os tempos em que vivi.
Prossigo, portanto, com a estória. A Inglaterra do século V foi recentemente conquistada, na verdade, estava ainda em processo de conquista, por duas tribos provindas da Germânia: os anglos e os saxões. Ambos adoravam deuses de nomes como Loki, Odin, Freyja, Balder, etc, embora a partir de nomeações diferentes, pois vinham de regiões distintas. Nesse sentido, as crenças os norteavam, tais como fariam mais tarde com os vikings, a se dissiparem tais quais a dominarem outras terras em decorrência do excesso populacional que se manifestaria por séculos nas regiões nórdicas. Pois bem, a Inglaterra não mais fazia parte do Império Romano e por muito tempo esteve abandonada. No entanto, os romanos que persistiram em manter-se por lá não eram de todo cristãos ainda. A pluralidade de crenças mobilizava um território disperso: a Inglaterra, que recebeu o nome de Angla-Landa na linguagem anglo-saxã (e que, por sua vez, significava terra dos anglos), passaria a formar cinco reinos distintos: Northingham abrigaria ainda o que no presente é reconhecido geograficamente como sul da Escócia; Kent, a região um pouco mais abaixo, porém, mais larga do que a cidade que segue seu nome atualmente; Sussex, que seria dominada amplamente por outra parte da tribo saxã (e cujo nome significava saxões do sul); Mercia e, a mais conhecida de todas, Wessex.
Quando estava a chegar, o líder tribal chamado Cerdic, por assim dizer, vencia violentamente as últimas resistências romanas, dando aval para que cada reino, portanto, se formasse. Não o conheci naqueles tempos, embora ouvisse falar dele constantemente, e só o encontraria no plano espiritual para ajudá-lo a se desapegar dos valores materiais inculcados em seu espírito. Pois bem, como dizia, este cenário bagunçado era a Inglaterra que me encontraria, daquele tempo tão longe dos que agora leem esta memória minha.
Mas não me prolongarei mais: como dizia, a jornada foi tortuosa e não escapei dos preconceitos. Para tudo há um propósito, porém, e isso é sabido. Aportei em Dover, ou o que era Dover então, localizado no sudeste de Kent, o reino que, largo em território, abrangeria outros espaços que na posterioridade seriam abarcados pelos mercianos. Seu rei, cujo nome não me cabe revelar, era, a bem da verdade, mais um líder tribal que recebeu tal titulação porque era mais forte que os demais. Nestes tempos, não existia perspectivas de poder de maneira que formassem os Estados como séculos mais tarde, como este não era exclusivamente concentrado em uma pessoa só. O rei O... dependia de companheiros que, numa oportunidade, poderiam desbancá-lo. Não havia padres, sistemas organizados: a própria cultura, suas formações, eram dadas originalmente. Não os julguem pela capa, porém: a História marcou tais tribos como voltadas exclusivamente para a violência, com um certo desdém pela crença politeísta.
Espiritualmente falando, esta fé em entidades plurais nada mais era que uma fé que ligava aqueles espíritos perdidos a outros de esferas que poderiam ser superiores ou inferiores. Como exemplo, a deusa do amor que cultuavam nada mais era que o espírito de uma feiticeira que, em eras mais antigas e de outras dimensões, se apoderou de seu poder por vias não muito benéficas. Entretanto, ela poderia atuar como uma entidade a serviço de Deus se optasse por buscar seu melhoramento. E passou a fazê-lo quando adquiriu consciência do bem que poderia causar a fim de remediar o mau que provocou. Contudo, foi associada, pela ignorância dos homens, a uma "deusa". A lógica foi a mesma para outros nesta categoria, e foram necessários porque aproximava, de certa maneira, os indivíduos perdidos ao Deus uno. Não à toa, estes mesmos sujeitos reencarnariam em tempos ainda sombrios, porém marcados por uma religiosidade mais "racional", na época das Reformas Protestantes.
Como dizia, o rei O..., um sujeito alto e de complexões que remetem muito ao alemão típico de cabelos louros e olhos azuis, me receberia em pessoa assim que soube do desembarque de um estranho em vestes ainda mais estranhas em suas terras. À primeira vista, quando o barco em que me encontrava aportou nas areias de Dover, quatro homens em vestes tribais (isto é, desnudos da cintura para cima, calções largos e, em uma mão seguravam uma lança, na outra via-se escudos de portes diferentes) com expressões ferozes vinham a mim. Estava acompanhado de dois assistentes designados pelo bispo, Petrônio e Octávio, e ambos temiam a visão daqueles "pagãos". Agarravam-se à cruz que levavam consigo em colar e murmuravam preces em latim. Silenciei-os prontamente, e aqui minha personalidade de guerreiro (que o leitor haverá de recordar de leituras prévias, se tiver sido atento) se mostrou útil.
--Sejamos corajosos--repreendi-os--pois obedecemos às ordens de Cristo. Do contrário, seremos tão impuros quanto estes infiéis.
Com isso, os dois rapazes, também de minha idade, assentiram e se aquietaram. Creio que por inspiração divina, consegui me expressar mesmo sem o domínio da língua. Tentarei, desta forma, reproduzir o diálogo que tive com o líder destes guerreiros:
--O que querem?--indagou aquele que me parecia ter mais influência sobre os demais, um rapaz de idade aproximada à minha e cujos cabelos pretos recaíam à cintura, possuindo, além disso, uma barba preta tão longa quanto. Seus olhos eram, por contraste, mais claros, de um verde que se assemelhava à grama molhada que enfeitava o monte da paisagem. O rosto, franzino, mostrava cicatrizes que indicavam experiência em batalhas. Seu corpo, forte e musculoso, também colecionava marcas provocadas pelos encontros bélicos dos quais participara, mas presumi que seu temperamento rude foi o que rebaixara sua posição: um guerreiro forte como ele não seria designado a meramente vigiar as fronteiras dos reinos tribais e sim a lutar ao lado de seu rei. Deveria ter feito algo para estar ali. Ademais, um pressentimento inspirado por meu anjo protetor pedia que fosse cauteloso.
Assim sendo, limpei a garganta e, oferecendo o mais amigável dos sorriso, falei:
--Viemos de longe, de terras longínquas, para tratar com seu líder.
O rosto deste homem não se amenizou diante de minha simpatia. Ao contrário, suas desconfianças pareceram aprofundar-se. Ignorei o medo que meus colegas inspiravam e tentei novamente:
--Deve estar ciente de que nós, eu e estes bravos homens que aqui me acompanham, não somos provenientes de outras tribos que possam ser inimigos das suas...
Ele, enfim, me interrompeu:
--Estrangeiros.
Foi tudo o que disse e, em sua língua estrangeira, ordenou que fôssemos levados ao seu chefe. No decorrer do caminho, Petrônio sussurrou próximo ao meu ouvido:
--Não sabia que falava a língua destes selvagens.
--Quieto--sibilei--Não é o momento de conversávamos.
Era verdade que eu também me encontrava surpreso pelo que se desenrolou: como poderia falar um idioma que não dominava? Deus claramente sabiamente o que estava fazendo ao inculcar-me por intuição, através de um guia espiritual que outrora vivera naquele espaço, o uso da língua com tranquilidade.
O caminho até a tribo que configuraria no grande reino de Kent seria longo. Atravessaríamos, todo o grupo em silêncio constante e permeado por tensões de ambas as partes (já que temíamos ser atacados da mesma maneira que aqueles homens esperavam algo de nós), bosques, andaríamos por velhas estradas romanas até nos depararmos com a vida no centro do local.
O vilarejo com o qual viemos nos deparar crescia exponencialmente, construções eram erigidas, quando não aperfeiçoadas, pelos saxões do oeste. Templos romanos, outrora voltados para deuses não mais cultuados em Roma, eram adequados para receber seus novos hóspedes divinos: pedra sobre pedra, pinturas estranhas e outras tantas manifestações respeitosas à natureza caracterizavam aqueles centros de devoção politeísta. A manifestação daquele tipo de fé me chamou mais a atenção do que a arquitetura local: cada mulher, acompanhada de algum parente ou amigo, visitava correntemente os vários templos em lugares diferentes com um semblante bastante sério. Acreditavam firmemente nos deuses que, de suas casas régias, determinavam o destino dos homens, prontos a decidirem se mereciam castigos ou louvores.
Fiquei triste, embora igualmente impressionado, pelo que vi. Thor, por exemplo, não passava de um espírito guerreiro cuja vaidade culminou num culto desproporcional. Hoje em dia, é verdade, ele foi apropriado pela cultura de um povo morto e renascido de maneiras mais sutis. Talvez, suas intenções fossem boas, mas a vaidade não é um traço para ser louvado, certamente. De todo modo, estas coisas que lhos digo é porque as aprendi no plano espiritual, logo após meu desencarne. No entanto, não são os "deuses" o foco da minha memória ainda que lhes cause curiosidade.
Como ia dizendo, a religiosidade daquele povo me capturou a atenção: sua fé era intensa, eu podia sentir a energia dela. Na maior parte, era genuína e de bom coração, não reflexo de espíritos presos às necessidades materiais, conquanto tampouco significassem mérito de alta evolução. No entanto, pouco tempo tive para me deter e apiedar-me daquela gente que se perdia no que eu qualificava, pelo viés do "pré-conceito" da época, de ignorância obscura, afinal, o guerreiro enraivecido me levava ao seu líder.
A analogia de locações régias aqui se faz pobre, infelizmente, porque ao pensarmos em "castelos", somos levados às construções arquitetônicas que marcaram belamente o período medieval. No entanto, ainda estávamos na transição da Idade Antiga para a Idade Média e com isso as obras não eram tão adequadamente produzidas como na posterioridade, o que não configurava regra para todos os reinos e todos os povos, é claro. Neste sentido, o castelo deste líder tribal, ou rei de Kent se assim optar por designá-lo como tal, era, em sua essência, feita de madeira e palha. Em seu interior, não inspirava o luxo que marcava, por contraste, as residências de imperadores romanos, ou mesmo o ambiente no qual vivia o soberano de seu povo. Mesas longas ocupavam o espaço e um grande barulho ecoava das pessoas que sentavam-se nelas: homens barbudos e sujos, mas que em seus braços usavam braceleiras e outros tipos de joias, ostentavam o prestígio que era beber e comer sob a vista do rei.
Este, cujo nome não me foi permitido revelar, achava-se acompanhado de uma bela mulher que, curiosamente, me inspirava uma familiaridade. Mas concentremo-nos na figura régia de seu esposo: o líder O... era alto e dava indícios de que um dia havia sido celebrado pela beleza, mas o cansaço em suas faces rosadas e na acumulação de gordura em seu corpo prenunciavam uma queda de status. Sua bravura deveria ter sido motivo de respeito no passado, pois um homem como aquele não me parecia um guerreiro que saía constantemente em busca de lutas. A barba mal tratada cobria os lábios e chegavam à altura do peito, conquanto os cabelos louros quase prateados derramavam-se porcamente sobre corpo, num emaranhado de fios que confundiria a visão de um observador inatento. Seus olhos azuis indicavam cansaço, e eu não pude refrear o pensamento de indignação: como aquele era o rei de homens mais jovens e incansáveis? Era no mínimo curioso, levando-se em conta do que observei até então daquela sociedade que se expandia, que O... fosse ainda visto como autoridade máxima de seus súditos.
Sua esposa, porém, era o contraste! Beleza nunca me encantou tão fortemente! Suspeito de que os leitores mais observadores terão percebido o que aqui se passou. De cabelos louros escuros e trançados de forma qual que expusesse todo seu semblante oval, aquela mulher encarnava, porém, uma tristeza profunda, quase uma resignação de seu destino. Certamente não desposou seu consorte por escolha própria! E ai destes tempos, meus caros leitores, em que a lei do homem predominava sobre a lei de Deus! Ai daqueles que sofreram por não poderem amar! Ai daqueles que, ao contrário, subjugaram seus próximos em favor dos piores sentimentos para anular os mais sinceros!
Em suma, possuidora de olhos verdes escuros e pele rosada, trajava roupas adequadas à época. Tinha toda uma majestade em sua pessoa, uma firmeza que transpassava a infelicidade que rondava sua energia. Era digna e calma, mas seus olhos refletiam sua alma: não via propósito de estar em um lugar como aqueles, ainda que a postura régia lhe caísse bem. Sua presença contrastava com a dos homens e mulheres que permeavam aquele cenário.
Contudo, algo em seu olhar despertou quando me percebeu em meio a multidão e o mundo pareceu tomar um rumo mais lento conforme nós nos reconhecíamos e percebíamos um ao outro. Um leve, porém discreto, sorriso iluminou suas faces e o rubor que correu de seu pescoço para o rosto agraciou-lhe ainda mais. Meu coração, diante daquela visão, descompassou-se. Bateu forte, rápido. Em minha mente nada mais havia se não a figura daquela que me oferecia seu sorriso sincero e gentil.
Octávio, porém, observador, rapidamente me arrancou das ilusões que formavam em minha mente e disse:
--Somos homens de Deus. Falhos, é verdade, mas poderia tentar ser um pouco menos? Nossa missão, não a esqueça! Não seja maculado por tentações insípidas!
Franzi o cenho ao meu colega por ter chamado a bela rainha de "tentações insípidas", mas a verdade tão logo caiu sobre mim que era como se houvesse sentido uma espada cruzar-me a carne novamente. No que estava pensando? A missão que tinha para com Deus era mais importante e não deveria ser posta em segundo lugar, em prol de uma atração que eu julgava erroneamente ser passageira. Sendo assim, assenti em concordância e falei:
--Fala a verdade, irmão. Perdoe-me.
Não houve mais tempo para a conversa, pois o rei nos fitou e tão logo o guerreiro rude se aproximou, pressenti tensão entre as partes. Claramente, algo não estava bem entre eles e eu assumi que minha observação anterior estava correta: mas eu sequer poderia imaginar que aquele homem de constituição rude seria o responsável por ceifar a vida do soberano mais tarde.
--Quem é você?--o chefe tribal encarou seus olhos ferozes rumo em minha direção, e algo em seu olhar me fez arrepiar.
Novamente inspirado, gaguejei em sua língua nativa:
--Augustus, meu senhor. Venho de Roma, enviado do imperador....
--Não quero saber de Roma!--ele esbravejou, e seu tom pareceu trazer a atenção dos bêbados que o ignoravam de volta a ele--Vá embora!
Octavio e Petrônio trocaram olhares significativos, mas não desistiria fácil.
--Poderia inquirir por que não gostaria de conhecer o império mais poderoso do mundo?
A rainha achou melhor intervir e sua doce voz ecoou como uma melodia ao falar:
--Que sejam acalmados os ânimos, meus senhores. Meu marido, acredito que seria traição aos deuses se desonrássemos os convidados.
Um murmúrio foi ouvido e o rei, insatisfeito, concedeu:
--Muito bem. Sejam bem-vindos a minha casa, mas recomendaria cautela e prudência ao se dirigir a mim!
Contendo um suspiro e domando ainda o pouco do orgulho que insistia em cravar suas garras em meu espírito, baixei a cabeça e concordei. Allana, o nome de sua bela consorte, veio nos receber em pessoa, cumprindo com o papel de rainha:
--Meus senhores, fico feliz de receber notícias de Roma depois de tanto tempo ter-nos dominado. Pensei que em posterior abandono, não haveriam de regressar.
A isso, arqueei uma sobrancelha. Claramente ela possuía um temperamento, o que havia me surpreendido, pois a julgava ser alma calma e sábia. E, no entanto, logo mais pagaria com meu julgamento pois nem sempre o temperamento significa ausência de tais qualidades.
--Viemos com outro propósito--eu disse, ainda inseguro sobre a conversa que ela insistia em ter conosco partindo do princípio de que falava bem saxão quando, ao contrário, era inspirado a parecer que sim.--Nada tem a ver com as políticas que opõem grandes reinos.
--Grandes reinos--ela repetiu com um quê de desdém, embora todo o tempo fosse polida. Eis que ela surpreende a mim e a meus colegas falando em latim--Não ajam como idiotas, não me tratem como uma. Kent sequer pode ser chamado de reino, embora tenhamos a pretensão de fazê-lo como tal. Ele vem crescendo, é verdade, porém, estamos atentos a uma possível ameaça do leste. Está ciente de Cerdic, meus senhores? Cerdic, o Saxão? Expulsou o restante dos romanos que ousaram permanecer nesta ilha outrora chamada de britânica pelos celtas.
--É sábia para uma mulher!--meu colega teve a infelicidade em expressar o que qualquer um pensaria naqueles tempos, mas a rainha Allana o encarou com indiferença.
--Sou a herdeira de meu pai, e ele quis que sua filha, mãe de descendentes que carregassem seu sangue, transpassasse sua sabedoria. Não confundam beleza com ignorância. Venham... Aqui não é lugar para tratar de negócios.
E, sem esperar uma palavra de nós em resposta, levantou-se e saiu de cena. Seu esposo juntava-se a um grupo de beberrões em tal estado de leviandade que se esqueceu de que tinha visitantes em sua "corte". Octavio, por sua vez, temeu que ela fosse uma bruxa e alertou-me para o perigo de uma possível enrascada. Não dei ouvidos aquela asneira e, impaciente, instiguei-o a seguir-me. Petrônio o fazia sem questionar-me, porém.
Aquele castelo de palha era maior que pensava e logo eu e os rapazes fomos surpreendidos por um corredor relativamente largo antes de avistarmos os guardas que acompanhavam a bela rainha. Allana aguardava-nos com paciência antes de nos guiar aposento adentro para que pudéssemos conversar, embora não fosse tola em excluir seus seguranças. Mal prestei atenção aos detalhes que compunham o cenário do qual fazia parte, embora a luz de velas marcasse o ambiente e refletisse uma relativa pobreza de móveis que sequer merecia comparação aos que me acostumei a utilizar em Roma. De todo modo, havia lugares para todos nos sentarmos e meu olhar estava tão petrificado pela doçura que mesclava-se em falsa arrogância de Allana que não prestei atenção no desconforto dos outros ao nosso redor.
--Percebi que é o líder do seus--ela comentou, encarando-me com tamanha profundidade que eu, à época completamente convicto na falsa concepção de inferno, pensei sentir o fogo do diabo penetrar em minha carne. Mas lutei com meus demônios, pois esforçava-me em concentrar na missão que Deus bondosamente me concedera--Fale, pois, quem são.
Eu assenti e obedeci:
--Augustus é o meu nome, e estes são Octavio e Petrônio. Viemos de Roma, fomos sacramentados pelo bispo maior. Servimos a Cristo e, claro, ao Imperador.
Allana jogou a cabeça para o lado e sua trança seguiu movimento similar; as joias que enfeitavam em seu corpo tintilaram levemente. Havia um reconhecimento de seu espírito ao que falava, mas seu corpo não conseguia perceber sobre o que era.
--O imperador romano se chama Cristo?--indagou a rainha, confusa--E quem é, por Hella, esse bispo de quem diz servir?
Com paciência, expliquei detalhadamente quem havia sido Jesus de Nazaré, o Cristo que foi sacrificado para salvar a humanidade de seus pecados; como a crença em Sua pessoa, filho de Deus encarnado homem, foi motivo de várias perseguições por sujeitos cegos de poder e ambição que acreditavam ser eles mesmos deuses, quando não descendentes de divindades inexistentes. Nesse instante, pensei que seria interrompido: vi um brilho de dúvida pairar naqueles belos olhos verdes, uma inquietação que parecia gladiar contra suas próprias crenças. Mas como me permitiu falar, fui estimulado a falar muitíssimo mais da trajetória de Jesus, esquecendo-me do motivo "diplomático" para o qual eu e meus colegas fomos enviados. Entretanto, em retrospecto, aquele pequeno passo era exatamente aquilo que meus superiores desejavam que fizesse. No decorrer do século V e até antes da ascensão de Carlos Magno, a pregação era por viés da paz e sem qualquer uso da violência por mais que vivêssemos em tempos sombrios, ainda fortemente influenciados pelo descabimento de força daqueles espíritos apegados à carne.
Abordei, em minha fala, a história de todos os apóstolos que acompanharam Jesus e como a santidade de cada indivíduo que o seguiu fez milagres, e continua fazendo, demonstrando assim a onipotência e onipresença de Deus, Nosso Senhor. Também aproveitei a chance de explicar como Deus era três em um: pela linguagem da época, me esforcei arduamente em distinguir Nosso Pai da crença politeísta que marcou profundamente a (Grã)Bretanha medieval. E, finalmente, contei dos superiores: dos bispos que, em breve, seriam papas.
--É muito impressionante tudo isso que me contou--disse Allana, assim que me calei--Estou incomodada, não vou mentir. A paixão e devoção em seus olhos fê-me claro porque veio a nós, porque Roma, de repente, decidiu retornar sua atenção a um povo que não mais lhe obedece. No entanto, ainda assim, vejo-me obrigada a perguntar--e aqui ela olhou para cada um de nós--o que querem aqui. Estão em uma terra de outros deuses, de domínio selvagem e independente. Os primeiros povos que habitaram, meus ancestrais, morreram sob o jugo romano. Não espera que eu acredite que vieram em paz porque supostamente o seu deus prega esta palavra.
Não sabia como responder àquele argumento, posto que foi colocado docemente, com sutileza, mas também com razão. Eu sabia que ela entendia, para não dizer que reconhecia, o propósito pelo qual estava naquelas terras. Também estava ciente de que, embora houvesse uma grande chance de aceitar e converter-se, a dificuldade apresentava-se e sobrepunha-se ao desejo de ambos em fazer acontecer. Afinal, éramos minoria.
--Mas não somos como os romanos pagãos--disse Petrônio, de repente, surpreendendo a todos nós pela quebra de seu silêncio--Embora os bretões sejam desprezados pelo império, nós, como servidores de Cristo, estamos empenhados em mudar esta situação.
--Deseja que nós esqueçamos a crença de nosso povo para abraçar a de um que nos subjugou por tanto tempo?--inquiriu a rainha, embora em sua voz não houvesse raiva ou desprezo ao direcionar-se ao meu colega.
Para minha surpresa, Petrônio foi calmo e gentil ao responder:
--Pedimos apenas uma chance, senhora, de apresentarmos outro mundo para seu povo. Não há necessidade de relegar ao esquecimento a tradição da família de cada um de vocês. Vejo em sua pessoa o sangue bretão que não corre no sangue de seu marido estrangeiro. E, ainda assim, cá está. Abraçou os deuses dele, mas certamente não olvidou-se dos seus.
Ela pareceu ponderar a palavra de Petrônio quando ouvi Octavio dizer, surpreendentemente no mesmo tom:
--Há somente um único Deus, senhora. Mas Ele fala pelos seus, que, embora não o sejam, estão ligados a sua família.
Lentamente, comecei a compreender o que eles esforçavam-se em expressar, mas talvez não tivessem palavras ainda para isso: se inseríssemos a cultura cristã junto à pagã, não tardaria para facilitar uma conversão mais rápida daquele povo. Na verdade, a própria Igreja Católica faria isso no decorrer dos séculos até os dias da Reforma Protestante: apropriaria-se de valores e costumes de sociedades previamente politeístas para expandir seu poder. No século XI, por exemplo, ainda na Inglaterra os cristãos iletrados consultariam padres (igualmente iletrados) cristãos para expulsar um elfo ou outra criatura mística de suas casas, como também rezariam para outros deuses (mais tarde transformados em santos, como o caso de Brigida da Irlanda) se Jesus ou outro apóstolo não lhe fornecesse solução. Isso, na verdade, culminaria na cultura popular que ainda hoje em dia perdura em outras formas, mas que à época era a expressão de ignorância de sociedades espiritualmente primitivas.
--Posso falar com meu esposo--Allana enfim cedeu--mas nada garanto que obtenham sucesso sobre a missão de vocês aqui.
--Obrigado, senhora--disse Octavio, alegremente, evidentemente tendo se esquecido de que ela possivelmente era uma feiticeira--Foi muito gentil em receber-nos. Que Deus a proteja.
Ela assentiu solenemente.
--No entanto, é meu dever alertá-los de que estão lidando com descendentes de Odin, Thor e Loki. Cuidado com as palavras.
E, assim, sem qualquer despedida, seguimos caminhos diferentes. Observei aquela trança dourada cair enfeitada em sua costa enquanto Allana caminhava com todo o esplendor que sua posição lhe concedia. E sorri comigo mesmo porque aquele reencontro de almas aconteceu.
*                                                                               *                                                                            *
Não foram dias fáceis, de fato. Pensar em Allana era o que me inspirava a ter paciência com os selvagens que recebiam a mim e meus colegas com desdém, para não dizer ódio. Não raro me repreendia por tê-la em meus pensamentos, e o fato de ter impureza neles me assustava. Por outro lado, o trabalho da caridade tinha o efeito de sobrepor-se a tais sensações emanadas da carne e acabou me aproximando também dos colegas que, na verdade, eram amigos de existências precedentes. Sim, meus caros, são os mesmos espíritos que me acompanham desde a minha primeira encarnação na África antiga.
--Confesso achar um absurdo, para não dizer ofensa, que essa gente ache enfadonho morrer crucificado--confessou-me Octavio, em tom de lamurio--Preferem morrer em batalhas e ir a este lugar que chamam de Valhala a fazer companhia a Nosso Senhor! A ameaça do inferno sequer os abala!
--Entendo sua decepção, meu estimado amigo--falei, contente de poder chamá-lo assim--Mas assim é a vida. O Verbo que se fez carne e habitou entre nós... não foi tão prontamente aceito por seus semelhantes. Não foi ele constantemente rejeitado até ser aceito e seguido pelo próprio império que o crucificou?
--É um bom argumento--concordou Petrônio, reflexivo--Mas entendo também que Jesus de Nazaré sofreria das mesmas injúrias aqui. Veja como esse povo trata o doente, o velho, o incapaz de morrer segurando uma espada.
--Somos todos falhos--limitei-me a concordar--Um dia, no entanto, isso mudará. Não devemos desistir de nossa missão, meus amigos. Uma hora o fruto será colhido.
Mas a situação ficava cada vez mais complicada, não necessariamente quanto a mim e aos padres que me seguiam nessa empreitada. Como Allana, a rainha, havia dito, Kent estava se expandindo e isso significava guerras e apropriações, subjugações e outros tipos de violência que marcariam a ascensão daquele reino. Para os que ficavam ajudando os camponeses a lavrarem suas terras, como eu e Octavio e Petrônio, porém, víamos de perto outra ameaça surgir: a interna. O guerreiro que nos recebeu logo de princípio chamava-se Oeric e, como eu suspeitava, não tardou a rebelar-se contra aquele que se chamava de "rei". Matou-o, portanto, e foi aceito como o novo rei. Desposou Allana, que a tudo isso se viu forçada a aceitar tão gentilmente quanto possível.
Foram dias bastante difíceis, pois os guerreiros que foram dominar as tribos provindas de Jutlândia voltaram bravos e com alguma razão. Uma guerra civil não tardou a eclodir e eu e meus colegas, que não éramos guerreiros e nem poderíamos ser por determinação da classe social da qual fazíamos parte, fomos forçados a nos esconder.
--Não gosto disso--uma vez confessei, ciente de que estava dando voz ao orgulho que insistia em escapar do meu controle--De ficar aqui, quando poderíamos estar ajudando aqueles pobres coitados lá fora.
Octavio, porém, disse algo sensato, ainda que pudesse parecer frio para os mais sensíveis:
--Eles foram criados para enfrentar este tipo de situação. Muitos preferem morrer empunhando uma espada a esconder-se aqui. Não é o deus deles que vai lhes ajudar ou remediar a situação dependendo de como correr?
Estávamos numa tumba subterrânea, cercados de protegidos da rainha Allana. Todos eles falavam energeticamente e, de vez em quando, encaravam-nos com a testa franzida.
--Não acho que são merecedores disto--eu falei--Estão perdidos.
--Ninguém disse que eles merecem morrer--retrucou Octavio--mas é fato que vivem para a morte, buscando-a com vontade ou não. Sinto pena destes pobres bastardos, recordam-me daquele celta filho de escravos que nos atormentava.
--O que será de nós?--indagou Petrônio--Na melhor das hipóteses sairemos vivos daqui, mas me pergunto se conseguiremos deixar este lugarzinho a que chamam de Kent.
Nenhum de nós três falou: era como se sentíssemos a sombra da morte pairando sobre nós, como se fôssemos avisados de que o fim estava próximo. Fechei os olhos e rezei. Pedi com todo o coração para que Jesus tocasse as almas daqueles homens e apaziguasse a guerra que tão tolamente travavam uns contra os outros. De alguma forma, a prece me trouxe uma resposta na figura da rainha Allana. Um arrepio percorreu meu corpo ao vê-la novamente.
--Ah, padres cristãos--ela nos recebeu com um risinho, embora em seus olhos houvesse o cansaço e o medo--Estão vivos aqui, vejo. Devem ser muito estimados pelo deus de vocês para saírem intactos daqui.
--Senhora Allana--eu falei, honradamente--creio que veio nos trazer boas novas?
--A luta cessou--comentou a rainha em sua voz solene--E Odin determinou que nosso rei o acompanhasse à Valhala.
Apesar dos suspiros que ouvi de meus prezados irmãos de alma, aquela notícia por si só não me surpreendeu: a causa de minha surpresa, na verdade, repousava na descrença com a qual aquela mulher se referia aos seus próprios deuses. Teria eu tido alguma parte no despertar de seu verdadeiro ser, o crente no Deus uno em pessoas três?
--Entendo--disse, sem lamentar verdadeiramente pela morte de tal ser--E quem agora será o rei?
Aqui, ela sorriu:
--Permitiram que eu governasse até decidirem meu próximo esposo.
Chocado, não pude dizer outra coisa que não refletir o preconceito cristão da época:
--Você governará esta tribo?
Com um risinho, Allana disse, sem desvir de mim seu olhar penetrante:
--Serei aconselhada, é claro. Um grupo de homens da minha confiança me acompanhará neste quesito. Não posso incluí-los, infelizmente, mas gostaria de tê-los comigo de todo o modo.
Sorri humildemente e me curvei a sua presença.
--É claro, senhora.
--Mas como é possível?--exclamou Octavio, ecoando meus pensamentos.
Allana o encarou, um pouco fria em suas maneiras:
--Acompanhei dois reis, meu senhor, e com eles desempenhei bem o papel que Freyja achou adequado me conceder. Por que seria diferente? Não sou incapaz e conheço as regras de meus súditos tanto quanto daquelas que regeram a terra dos meus ancestrais. Pensei que o Deus de quem tanto pregava visse com bons olhos esta ação, afinal, um Pai não ama a todos sem distinção?
Octavio corou e ouvi Petrônio conter uma risadinha, mas eu a observava com a devoção de um amante.
--Pois bem, homens cristãos, sigam-me--ela ordenou e, em silêncio, a seguimos.
Era verdade que ninguém ali recebia bem nossas pregações, dificultando e muito nossa missão. Quando voltamos ao grande salão onde a "nobreza" que elegeu Allana como rainha da tribo se encontrava, fomos vistos com desdém e a nós foram dirigidos muitos olhares fulminantes. Eram pessoas ignorantes, que temiam o que desconheciam. Por outro lado, se aumentava a indiferença com a qual alguns nos tratavam, posso dizer que minha esperança crescia na mesma proporção de que o tratamento tornasse-se afetuoso a ponto de abraçar a causa cristã. Mas como eu sabia tão pouco! Quão ingênuo eu era!
A festa se decorreu tranquilamente, porém: éramos ignorados e mesmo a rainha dava-nos pouca atenção, mas disso não tinha qualquer culpa por ser requisitada por homens e mulheres de estações mais baixas que precisavam de favores seus.
--Até pouco tempo atrás eles se odiavam mutuamente--comentou Petrônio comigo--e, no entanto, agora se abraçam como se o ontem nunca houvesse existido.
--A paz é sempre bem-vinda--confabulei--até porque, por mais barbáries que pudessem ter sido cometidas, ninguém gosta de se matar a troco de nada.
--A questão é: até que ponto esta paz vai durar?
Petrônio, de idade similar a minha, detinha mais sabedoria do que uma inspeção a sua aparência na primeira vista poderia conceder. Franzino em corpo, possuía um rosto firme e olhos decididos, mas que lhe davam um ar introspectivo; seu nariz era longo, porém torto em decorrente de um soco de um adversário que o quebrou quando era criança. Seus lábios vermelhos eram finos e secos, e faltavam-lhe alguns dentes. Era observador e calmo, tranquilo em aspectos e, por mais que refutasse, tinha uma fé mais racional. Aprendeu a ser paciente e viveria mais do que nós todos, chegando a conhecer e trabalhar com Santo Agostinho.
Quanto a Octavio, também ele possuía um aspecto intelectual, embora lesse pobremente devido a um problema de visão que nos dias presentes os médicos classificariam de grau agudo de miopia. Era calvo desde a juventude, seus olhos castanhos transmitiam a calma que, não obstante, por vezes davam vazão a um temperamento antigo. Assim como Petrônio, Octavio era sábio, porém, ao contrário de nosso amigo, era mais propenso a seguir as emoções. Não era detentor de má índole e tinha algo de protetor para comigo.
Juntos, os três éramos próximos pela longa convivência e afinidade que não se prendia àquela existência. Estávamos em constante aprendizado e cada um possuía algo que faltava ou complementava o outro. Era por isso que seguíamos quase sempre os mesmos caminhos.
--Devo dizer que a paz aqui não é tão estável quanto poderia ser em Roma--comentei--embora os imperadores vivam se matando em busca de poder.
--O império não é mais o mesmo, Augustus--disse Octavio.
--Ah, sem dúvida que não--e falávamos anos antes de sua queda--Os germânicos vêm ocupando cada vez mais os territórios do imperador, isso sem dizer que não há mais a preocupação de outrora em governar os súditos de longe.
--É uma questão complicada--disse Petrônio, soando indiferente--Políticas não são assuntos nossos para resolver.
E ele não estava errado nessa afirmação. Éramos homens servindo a Cristo e nada mais importava. Por mais que ser padre pudesse estar maculado às questões da época, o que só mudaria no primeiro decênio do século XI, ainda havia aqueles que resistiam. No meu caso, porém, até quando resistiria? Em tudo o que eu fazia em Kent, fazia com devoção e pensamento voltado para os ensinamentos em Cristo. Contudo, nada me distraía de Allana, e estar separado dela era um pesar para o meu coração. Depois deste dia de festividade em que se comemorava o início de seu reinado, cada vez menos nos víamos. De longe, observava como era imune aos desejos da carne: via como os homens a desejavam, como sua presença os encantava. Isso não me causava qualquer ciúme, pois aquela não era mulher de possuir apenas para satisfazer os desejos carnais. Não me sentia inseguro em qualquer campo afetivo, não pela vaidade ou orgulho, mas porque em meu íntimo confiava na afinidade de nossas almas. Cada um de nós seguia suas respectivas missões que Deus nos designou em sua sabedoria divina, mas eventualmente nos encontraríamos de novo. Havia paz ao olhá-la e admiração quando a via ser cortejada por tantos que almejavam um trono também ao seu lado.
--Você não devia se apaixonar--censurou-me Petrônio, ao ver-me mirando a rainha loura que governava seus súditos com dignidade--Cuidado com a tentação da carne--ele alertou.
Senti raiva pela primeira vez desde que havíamos aportado àquela terra estranha, mas sabiamente a contive. Mordi a língua, e, ao contrário, repliquei calmamente:
--E por acaso demonstro ter cedido a ela?
Petrônio corou, visto que em todos aqueles meses--oh sim, perdoem-me pela falta de tato, mas o tempo correu bastante desde então--eu cumpri firmemente com meu propósito. Embora houvesse conquistado a simpatia de alguns poucos camponeses, não havia tido sucesso em converter nenhum deles. Isso não quereria dizer, contudo, que houvesse desprezo mútuo das partes quanto a isso. Deixem-me reproduzir uma conversa que tive com um senhor de 35 anos chamado Aelio.
--Sou neto de romanos--ele me disse, explicando-me porque seu nome diferia tanto dos outros--por isso, tomaram-me como servo, escravo, o nome que preferir dar a condição que estou aqui, na fazenda do braço direito da rainha. Meu orgulho não será esquecido, por isso a língua latina me é fortalecida pelas histórias que guardo de meus ancestrais. Entenda, filho, eu respeito muito alguém que tenha se sacrificado pela humanidade... e concordo que o amor possa curar tudo, mas não explica por que tantos de nós passamos pelo que passamos.
"E, veja, não estou reclamando. É claro que me sinto ofendido por ter sido subjugado por um bárbaro em minha própria terra e sido impedido de procriar com outros de meu sangue, tendo sido obrigado a desposar uma ruiva da laia deles. Por outro lado, acredito que haja algum propósito nisso. Somente os deuses sabem e tecem os nossos destinos. Não existe acaso, e é por isso que nada temo."
--Por que não fugiu?--eu indaguei--Por que não tentou encontrar um meio de voltar à pátria de seus ancestrais?
--Os deuses assim não quiseram--ele respondeu, simplesmente, com um dar de ombros--E veja, filho, é assim que as coisas são. Como falei, há um propósito e só saberei disso no dia que eu morrer. Não tirarão de mim a minha dignidade, as tradições e os costumes pelos quais me educaram. Você me disse que o orgulho é um vício que mata, e pode ser que tenha razão nisso aí: vi vários homens cometerem tolices em nome disto que chama de orgulho. Para mim, entretanto, é o que me resta. Ou de mim não farão homem ou escravo, mas um bastardo. E isso é intolerável.
Compreendi que o orgulho era sua única defesa diante de tudo pelo qual passou: desde que a ilha britânica havia sido abandonada pelos romanos, várias invasões de tribos germânicas tornaram-se frequentes. Aelio resistiu, mas não foi tolo para oferecer sua vida em  troco de uma morte supérflua. Sua resignação, porém, mostrava a força de um espírito que via mais do que a carne lhe impunha e isso o faria uma grande personalidade em encarnações seguintes. Não cabe a mim aqui contar quem foi.
Pois bem, havia sabedoria nos lavradores, nos comerciantes, nos guerreiros. Nos mais simples, nos que conviviam com o luxo. Isso me deixava atônito, pois a visão que tinha daquele povo entrava em conflito com o que me havia sido ensinado. Não concordava com seu culto, mas aos poucos compreendia que seu politeísmo era tudo o que tinham, pois em sua concepção haviam sido esquecidos por Cristo.
Uma vez, isolado de toda aquela gente, decidi voltar às origens: à praia, onde tudo começou. Senti que estava sendo vigiado, pois mesmo depois dos meses que viraram anos, ainda era um estrangeiro, um espião, ou o que quer que fosse. Sentei-me na areia, porém, e fiquei ali observando as ondas. O azul do mar era cultuado porque aquela realidade lhe tocava, alcançava e oferecia alguma explicação. E, de fato, nenhuma força da natureza é inativa por si só, há todo um princípio, uma força que a comanda. Os espíritos bondosos assumem falanges confundidas com deuses, é fato, mas isso era necessário para a época, para aquele que tinha um coração puro. Sim, mesmo ali, eu encontrei com uns cuja pureza me encantava.
Assim, perdido nos pensamentos, não vi a rainha chegando e quase pulei quando a vi sentar-se ao meu lado:
--Senhora!--eu exclamei, assustado--O que faz aqui?
Ela deu um riso solto. Seus cabelos não estavam presos em tranças, caindo em cachos bagunçados que a embelezavam ainda mais. Apesar do rubor em suas faces e o surgimento de algumas rugas ao redor dos olhos, Allana permanecia bela aos meus olhos. Não concebia seu envelhecimento, mas isso tampouco me importava.
--Sinto falta de sua companhia, meu caro--ela tomou a liberdade de segurar minhas mãos na dela em um ato tão espontâneo que não tive a coragem de remover--Estamos próximos, mas não como antigamente. Não vem falado mais de seu Cristo comigo.
Sorri um pouco diante disso.
--Devo levar a palavra a todos.
--Estou ciente de que tem causado grande incômodo por onde quer que passa--disse-me Allana--E vale a pena, eu pergunto? Desafiar todos e tudo por causa de um deus que está ausente? Que permite que seus próprios filhos mergulham num mar de fogo e infelicidade? Como pode Ele ser bom se concede o eterno sofrimento àqueles que diz amar?
Inspirado pelo mentor que me acompanhava, segurei as mãos de Allana contra as minhas e, mergulhando naqueles olhos verdes, reganhei a confiança que um dia pensei ter perdido e falei:
--Não acredito que Deus permita o inferno se seus filhos não se esforçarem em melhorarem. Ele não é tão rígido assim, pois se ama incondicionalmente sua própria criação, não há por quê deixá-la afundar-se em seus erros. Ao contrário, ele dá várias e várias chances para a redenção. E creio que ela virá para todos, mais cedo ou mais tarde.
--E por que é tão errado cultuar outros deuses? Você diz que Deus é amor, que Cristo, quem quer que seja, é nosso irmão, mas veja... No momento em que pede para nos renegar, com ameaças sutis de inferno aqui e acolá, quão diferentes podem ser dos nossos deuses? Sentem ciúmes, punem, mas também amam e perdoam.
--Será mesmo? As histórias de Odin não me parecem que fazem de seu deus um perdoador--eu comentei, reflexivo.
--Permita-me cultuar meus deuses que eu cultuarei o seu também--ela disse, em um sussurro que fê meu coração bater rápido. Allana se aproximava de mim--Eu o amo, meu doce padre. Amei-o desde o primeiro momento que depositei meus olhos em você.
Fechei os olhos e senti a brisa bater contra meu rosto, o cheiro da maresia inundar meu nariz. O amor dela não era de luxúria, embora este sentimento inevitavelmente estivesse intrínseco a tudo o que sentíamos um pelo outro. Eu amava, sim. Todas as qualidades, todos os defeitos, tudo. Não havia o que não amar, mas... mas... eu tinha um dever a ser cumprido.
--Não posso--eu falei, minha voz sufocada pelo cheiro que vinha dela... um cheiro que me recordava o mar, a chuva, e ao mesmo tempo o sol, a luz que enaltecia e que também queimava. Era algo tão intenso que sequer permitia que eu respirasse--N-Não posso.
Mas isso não a impediu de tomar meus lábios nos seus e não fui forte em repelir-me de seus braços. Não. Ao contrário, cedi e quando o fiz, nada me afundava mais do que a paz. Por mais que a consciência carnal gritava-me culpa, acusando-me de nomes, minha alma a silenciava, porém: reunia-me com grande amor meu e nada nos separaria novamente.
--Eu a amo--falei, beijando-a com cada vez mais ardor--Eu a amo, Allana.
--E eu amo você--ela respondeu com urgência.
Ali, diante da presença da deusa do mar e do deus do amor, de entidades que, no fundo, eram todas testemunhas do Deus Uno, amamo-nos. Consumamos o ardor que nos queimava incontrolavelmente. E fui feliz.
*                                                                                      *                                                                   *
Sim, encontrei a felicidade e ela não se manifestou de uma forma material. Não quis nenhum enriquecimento que Allana pudesse me oferecer, e ela ofereceu diversas vezes. As dificuldades mantiveram-se espelhadas continuamente em obstáculos que aumentavam perigosamente, de certo. Mass nada me abalava quando a via, quando nos deitávamos. Todavia, um dia acusaram-na de negligenciar seus deveres para com os verdadeiros deuses. E seus conselheiros, os mesmos que a ajudaram a estabelecer-se no trono, planejavam traí-la.
Permitam-me localizá-los: o ano era 425. Estava sozinho em minha missão: enviei Petrônio a muitas custas para a África, como meus mentores espirituais haviam-me pedido em sonho, para que trabalhasse junto aquele que seria conhecido como Santo Agostinho. E nosso outro amigo, Octavio, havia desencarnado por suspeitas de envenenamento, pobre sujeito. Estava cônscio de que os perigos me cercavam cada vez mais, mas pouco me importava. Amava e era feliz. Mas isso também me fez mais ousado.
Não mais preguei em voz baixa e para os escravos; sequer me limitava às discussões felizes que tinha com Allana. Sentia-me adoecer, porém: já não era mais jovem, e mesmo sendo robusto para a época, enfraquecia-me consideravelmente. Crescia o número de irritados para comigo, pois minha voz começou, eventualmente, a tocar alguns corações. No entanto, acabei colocando em risco minha amada. E toda a felicidade que um dia almejei e pensei ter conquistado, pois tolo fui em crer que seria permanente mesmo sabendo que nada neste plano assim o era, começou a dissipar-se ante a mim.
--Você precisa ir embora--Allana um dia me disse--Estão insatisfeitos comigo e correm boatos de que meus inimigos estão procurando apoio de Cerdic de Wessex. Por favor, evite tolices.
--Não posso abandonar minha missão--eu retruquei. E o orgulho, sempre ele, era o principal obstáculo para minha melhora.
Na verdade, meus caros, a esta época eu me achava muito, muito adoentado. Os médicos de sua contemporaneidade teriam visto câncer afundar meus pulmões, mas eu diria que este tipo de doença seria muito necessário para extirpar o orgulho que, embora em menor grau que nas vidas precedentes, ainda insistia em manifestar-se. Talvez por pressentir o fim, eu nada mais temia.
--Seu Deus não gostaria disso--ela falou, e eu sabia que era seu mentor falando por si.--Por favor. Não é covardia esconder-se, fugir ou o quer que seja. Não está mais seguro tanto quanto eu também não estou.
Eu estava pronto a contra-argumentar e ser obstinado, mas as lágrimas de desespero e pavor naqueles olhos me comoveram a não ser imprudente. Ela intuía meu desencarne tanto eu pressentia o dela, tal era a nossa conexão. E percebi que, outra vez mais, nossos caminhos precisavam ser separados. Pela segurança dela, eu aquiesci.
--Tudo bem. Eu me irei--falei, sem esforçar em esconder meu pesar.
Allana me abraçou e aquela seria a última vez que pressionaria seu corpo contra o meu, que seu suor se misturaria ao meu, que seus lábios selariam nos meus.
--Eu o amo, eu o amo--disse-me ela--Por favor, que Deus Cristo o abençoe, meu amor.
Sorri. Sorri porque, apesar de breve confusão, a trouxe para a verdade. Não em sentido superior que possam alguns de vocês tão erroneamente pensar, mas no reconhecimento espiritual que florescia mais e mais. Afinal, é na dor que se vence as piores batalhas. Na madrugada, pois, eu parti. Sozinho e em silêncio, sem lágrimas, embora carregasse meu pesar resignadamente.
Mas me aguardavam os conspiradores, oh sim. Pois aquele que odeia, não necessariamente sente este tipo de sentimento por motivos de existências regressas, mas por projetar aquilo que lhes falta. No entanto, Deus em sua infinita misericórdia permitiu que a doença me levasse antes que os golpes mortais de meus inimigos chegassem a mim.
Quanto a Allana, veio a falecer em batalha contra seus próprios inimigos. Não deixou filhos, mas, tal qual aconteceu comigo, foi poupada de piores eventualidades. No entanto, concorreu para a expansão daquele reino Kent, mais lembrado pela tomada do líder Hengst em 455. Dali em diante, uma série de monarcas governaria até Kent ser absorvido pela Mércia e esta por Wessex no decorrer da unificação de Angla-Land. Muitos se recordam de Alfredo, o Grande, por ter sido o primeiro cristão a governar a Inglaterra, mas seus predecessores devem ser lembrados também.
Independentemente disso, porém, outros romanos, irlandeses (como o São Patrício) deixaram seus legados para a expansão cristã naquelas ilhas que um dia foram desprezadas pelos cristãos europeus pela suposta obscuridade enraizada através do culto politeísta. No entanto, a arrogância e tantos outros vícios eram continuamente semeadas pela humanidade terráquea e persistiriam ainda por muito tempo, desvirtuando as palavras de Cristo para si mesmos... 

Contos de Nanã, vol.1--Nas Areias Do Cairo, pelo Espírito X.

Nota da guia de Nanã: "Caríssimos amigos, irmãs e irmãos na Terra. Em nossa longa caminhada espiritual, habitamos inúmeras moradas do P...