Atenas, Grécia.
Sigamos adiante nos tempos antigos, no desenrolar da história da Humanidade do qual fiz parte embora a memória deste passado não será capaz de acoplar todos os indivíduos que viveram aqui, eu incluso. Outra vez, vim como homem, sob o nome de Patroklos, e numa família relativamente nobre. Na concepção presente, seria o mesmo que dizer 'classe média'.
Enfim, fui o primogênito da família Petropoulos, cujo patriarca Aléxandros era reconhecido como um dos atuantes na política da pólis. Cercava-se de filósofos e outros tantos homens ligados à monarquia da época, não raro sendo ilustre o suficiente para reunir-se a tais companheiros constantemente em vida. Por outro lado, não ocupava um cargo importante que atraísse a atenção de nosso soberano. De todo o modo, Aléxandros em sua juventude desposou Heléne, prima distante do rei ateniense. Não me ocuparei em devagar sobre como esta união de pessoas de caráter distintos se realizou. Se não havia amor entre as partes, respeito, por outro lado, conduzia o matrimônio, embora Aléxandros optasse frequentemente pela companhia masculina à da mulher.
No entanto, Heléne cumpriu com seu papel de esposa ao conceber dez crianças, dos quais cinco chegariam à vida adulta: eu, Patroklos, era o mais velho; fui seguido de Philippos, Sophia, Héktor e Lárissa. E todo o tempo Hélene cuidou de nós, devotando muito de seu tempo, supervisionando a educação de seus filhos com afinco e amor.
Recordo-me de ter sido próximo de Philippos, tanto pela idade quanto pelo temperamento, e Sophia. Na infância, gostávamos de desfrutar de nosso tempo livre passeando, quando não brincando, pelos jardins. De nós três, curiosamente era o menos agitado: havia aprendido a domar minha impaciência, afinal, embora não possa dizer o mesmo do orgulho, aquela falta que tanto teimava em aparecer... Mas, para ser justo comigo mesmo, veio tardiamente a aparecer. Enfim, prosseguindo: meu gosto cada vez mais recaía mais para os livros e menos pela espada, ainda que pudesse dominar ambas as artes com facilidade. Sophia, por sua vez, já possuía um intelecto mais afiado que o meu, apesar de detestar as tarefas femininas: discutia constantemente com nossa mãe sobre tecelagem, preferindo, ao contrário, ler do que a cozinhar, a cuidar da casa, entre outros deveres que, se cumpria, o fazia com relutância. Philippos, igualmente temperamental, demonstrava vigor para as espadas também: sua inclinação para a arte da guerra logo despertou a atenção de nosso pai que, na primeira oportunidade, o colocou entre os homens que serviam ao rei Dionísio.
No dia que ele foi embora, recordo-me de ter sido sensível a sua partida e ser repreendido pelo meu pai por prantear sua ausência:
--Seja homem e pare de frescura. Sequer sua mãe está lastimando por seu irmão. Isso é uma ótima oportunidade por ele. Deveria ficar feliz por Philippos.
Era verdade que estar junto ao meu pai constituía uma grande provação para mim: naquela existência eu desconhecia que ele havia sido meu irmão da vida anterior que, por sua vez, teria sido um rival precedentemente. Os leitores atentos o reconhecerão. Apesar da paz de então, precisávamos superar outros obstáculos. Entretanto, a tudo isso enfrentava relativamente tranquilo. Quando criança, aceitava prontamente a autoridade de Aléxandros e recusava responder ao que minha mãe constantemente alegava ser provocação. Sempre que discutiam, meu nome aparecia na boca de um ou outro, mas era ela que me defendia. Sophia mais tarde diria que invejava-me por ser o predileto de nossa mãe, mas aquilo era besteira. Afinidade nada tinha a ver com predileção.
De volta à estória, Philippos partiu para servir o rei e, infelizmente, aquela seria a última vez que o veria. Em uma das guerras que eclodiria contra Esparta, nosso bravo irmão desencarnaria tão pronto completou sua missão neste plano. Nada sabia disso até então, é claro, apesar da vaga intuição ao vê-lo ir, e me perguntando o que poderia ter feito para impedir sua ida. Guardava em minhas memórias os tempos de implicância e companheirismo, durante os quais Philippos era, inquestionavelmente, superior em suas ações, a despeito do temperamento. Colocava-se como se fosse primogênito, mas nunca houve inveja ou ambição descomedida de sua parte.
Desse modo, coube Sophia a ocupar o lugar deixado vago por Philippos.
--Você não tem curiosidade--ela me indagou uma vez, elétrica como costumava ser--de conhecer o mundo e os bárbaros que habitam nele?
Arqueei uma sobrancelha e disse:
--Não está lendo demais, Sophia?
Aquela cujo nome significava sabedoria prontamente fê-lo jus ao me retrucar:
--Ler nunca é demais, tal qual adquirir conhecimento torna-se uma excelente ferramenta mesmo para nós, mulheres. Athena, a deusa que favorece a cidade que leva seu nome, sempre foi muito sábia. A mais inteligente de todos os deuses.
--Você me venceu nesse argumento--admiti, meio sem graça.
Com olhar vitorioso sobre mim, minha irmã prosseguiu:
--Não fosse pela leitura, não questionaria. Às vezes, gosto de escutar os filósofos que papai traz a nossa casa quando ninguém está me vendo. Eles desprezam o diferente, mas se fôssemos todos iguais, não seria tudo chato?
--Creio que respeitar as individualidades seria o ideal--eu ponderei--mas seria o suficiente? O que é individualidade, afinal de contas?
--É sobre isso que os filósofos debatem--disse Sophia, antes de atingir o principal ponto--E sobre a alma também.
--A alma?--eu repeti, espantado.
--A alma--afirmou Sophia, categoricamente, encarando-me com seus enormes olhos azuis--Conta a história que, ao nos criar, Zeus separou nossa alma em duas. Habitávamos dois corpos, antes de termos sidos dissociados. Crê nisso, irmão?
--Por que duvidaria de nosso deus?--retruquei, mas quando as palavras saíram de minha boca, senti como se estivesse me traindo. Como se estivesse mentindo para mim mesmo. Franzi o cenho.
Sophia riu de minha reação. Assim como Philippos, ela era um espírito bastante avançado e superior a mim em muitas maneiras. No fim, deu de ombros e disse:
--Vamos conversar sobre isso em outro momento, preciso voltar a lição antes de mamãe chegar em casa.
Assenti e observei aquela criança de oito anos correr pelos corredores com seus cabelos louros e cacheados desmantelando pelas costas. Tão alegre, tão vívida, tão... livre. Como se lamentasse, tornei a me atentar outra vez para as lições, mas a pequena conversa com Sophia não deixou à mente.
Mais tarde, naquela noite, meu pai avisou que teríamos convidados ilustres ao redor da mesa. Minha mãe, uma mulher de não mais que trinta anos encarou seu esposo com um olhar cansado. Seus cabelos castanhos pareciam ter perdido vida e não me escapava à atenção a infelicidade que abatia sobre seu semblante: os olhos claros não refletiam mais a energia de antes. Na verdade, o que eu ignorava era a doença que havia tomado conta de seu corpo. Embora desconfiasse que minha mãe, na verdade, amava a escrava que mantinha perto de si o tempo todo, nada poderia fazer quanto a maneira pela qual ela era tratada por meu pai. Não gostava muito das companhias masculinas dele tanto quanto ele não apreciava Moura, a celta ruiva que ela mantinha por perto.
A escravidão, permita-me dizer, foi um sistema antigo que, como um câncer, atingia a humanidade ainda presa às vicissitudes da carne, que refletiam a inferioridade de seu espírito. Eu, minha mãe e alguns de meus irmãos, contudo, desprezávamos esta questão e, a contragosto de meu pai, tratávamos os escravos como os humanos que eram. Infelizmente, Aléxandros Petropoulos os desprezava como a sociedade da qual fazia parte e se não repelia a celta ruiva era porque reconhecia que sua presença, paradoxalmente, o inseria na elite ateniense. Pois quem possuía escravos, principalmente aqueles bárbaros (denominação para os povos germânicos e outros que viviam fora da Grécia ou, como éramos chamados então, das pólis helênicas), era rico, aristocrata ou o próprio rei. Sendo assim, conquanto não possuía outra, ele tolerava a presença da amante de sua esposa.
--Moura fará o jantar--disse minha mãe, cansada e empalidecida--Estou doente novamente.
Vi meu pai franzir ante aquela nova informação.
--Doente?--ele repetiu--Como isso?
--Dei à luz a dez filhos, por algum milagre dos deuses sobrevivi a tantos partos--respondeu Heléne, solenemente. Tendo alcançado a idade dos dez anos (ainda que, por ventura, me comportasse como uma), era permitido a me inserir naquela ocasião que, até então, me era proibida ver: a realidade nua e crua de casamentos feitos por alianças. Recordo-me de ter visto, na sala de estar, uma presença de luz que, à mente da época, associei à própria deusa Atena. Talvez assim fosse, embora não como pensava ser, de fato. Uma mulher ilustre de cabelos louros, vestida em trajes guerreiros e com olhos de violeta, assistia a tudo isso e me fitava com serenidade. Assombrado, nada comentei com meus pais sobre aquela visão e, portanto, estive surdo ante à desavença entre eles.
Perguntava-me por que a deusa da sabedoria se manifestaria entre nós, meros mortais. Não éramos uma família de sacerdotes, embora minha mãe e Sophia fossem-lhe devotas (Larissá se identificava mais com Árthemis); nem éramos ligados, ao menos não diretamente, ao rei e aos políticos que o cercavam. O que podíamos oferecer a ela?
Mas, no fundo, guardava a intuição de que os deuses não eram tão ruins ou exigentes, sequer invejosos, como acreditávamos: não era isso que a presença de Atena, que um dia teria transformado sua rival arrogante em aranha, me inspirava. Em tempo antes de Homero, já sabia que ela liderava os homens e os inspirava a seguir coragem, a fazer o bem sem esperar recompensa; de alguma forma, infundia a nós a pureza que deveríamos almejar. Ela era a Verdade e isso era o que importava. Vê-la pessoalmente, não como a descreviam, mas como acreditava, imprimiu uma paz inabalável.
Tão logo ela me sorriu e eu, de volta, e o ambiente pareceu harmonizar-se outra vez.
--...assim peço perdão por ter-lhe sido negligente--ouvi meu pai dizer--Hera está me punindo por isso.
--Não seja tolo--retrucou minha mãe--Não somos perfeitos e você nunca me desrespeitou. Filho, perdoe-nos por ter visto isso tudo, mas a conversa se fez necessária.
Alheio a tudo isso, eu, porém, aquiesci.
--Gostaria de tê-lo no jantar hoje--minha mãe prosseguiu e eu notei que seu rosto havia ganhado cor novamente--Já é um adulto e, como herdeiro da família, precisa tomar nota dos negócios.
Sorri bondosamente e falei, sob o olhar atento do pai:
--Cumprirei com máxima o meu dever, senhora--e acrescentei--O senhor não terá motivos para envergonhar-se de mim, pai--falei com firmeza, encarando-o nos olhos.
Pensei ter visto um deslumbre de orgulho quando ele falou:
--Estou feliz por tomar ciência de seus deveres para com esta família, garoto. É imprescindível que saiba disso. Sê responsável e os deuses o protegerão, mas fuja de suas responsabilidades e o castigo cairá sobre você.
Não reclamei, apenas assenti e concordei. Mais tarde, quando os filósofos que meu pai costumava se reunir se apresentaram para o jantar, fez-se a importância da presença daqueles homens, um dos quais marcaria minha vida em particular.
Todos eles usam túnicas brancas e sandálias marrons, embora em algumas que escorregavam sobre seu corpo verifiquei um acessório que diferenciava um homem do outro. Nomeá-los agora seria perda de tempo porquanto o conteúdo da conversa se faz mais urgente de reproduzir. Aquele de cabelos dourados e cacheados se pronunciou:
--Agradecemos a todos os deuses e aos familiares que nos acompanham pela presença e por ter nos reunido aqui nesta noite.
Sentado ao lado de meu pai, observei-o com o canto do olho murmurar alguma aprovação, levantar seu copo dourado cheio de vinho e copiei seu gesto. Foi a primeira vez que ingeri em meu organismo infantil aquele liquido alcoólico, mas disfarcei o azedume de minha face. O louro prosseguiu:
--E também pela hospitalidade que a família Petropoulos nos recebe. Que os deuses o louvem e a sua esposa, Heléne, meu caro Aléxandros.
--Obrigado, meu devoto amigo--disse meu pai, que fez um pequeno discurso de agradecimento antes que seu amigo de belas feições continuasse sua fala. Minha mãe e a escrava Moura haviam servido aos homens antes de desaparecerem com as crianças da sala, dando-nos, pois, a privacidade que nosso sexo requeria para reuniões daquele gênero.
--Estes dias, na casa de nosso companheiro P...., viemos discutindo sobre o conhecimento. E, a partir dele, vimo-nos indagar sobre os perigos do mesmo. Afinal, o quanto ele se faz necessário em nossa vida? Lembro-os, ressalto, que a virtude nada tem a ver com esta categoria que os apresento.
Outro homem, um dos mais velhos daquele grupo que sentava-se à mesa redonda da sala, manifestou-se prontamente:
--Meu caro L...., permita-me questionar sobre o perigo do conhecimento quando a ignorância prende o homem às raízes do instinto e, portanto, a vicissitude. Como não associar a virtude ao saber? Aquele que trabalha ardosamente no campo, porquanto desconhece a vida nos papiros, sequer lê as letras, estaria preso ao obscurantismo? Nosso amigo P.... mesmo os disse que a virtude é inerente à alma quando somos postos em contato com a bondade e o discernimento que resguardamos em face ao aprendizado de existência prévia, não é isso? Pois pergunto a que conhecimento se refere e qual perigo poderia o mesmo oferecer a nós?
O tal L.... assim respondeu, calmamente:
--De fato, o senhor traz verdades, meu caro. Nosso amigo P....--e ele aponta para outro homem de cabelos negros e barba espessa cujos olhos castanhos fitavam a nós todos com uma atenção fixa--teve a bondade de nos esclarecer quanto a isso, de fato. Não nos foi ensinado que a tudo o quanto tivemos contato desde nossa infância até o presente momento foi um resgate de competências dominadas pela alma anteriormente? Assim, compreendemos que os deuses são benfeitos quando permitem que temo-nos acesso ao que aprendemos previamente. Entretanto, o uso do conhecimento é para isso que atento na reunião de hoje. Este sim pode ser o condutor do caráter do cidadão, não acha?
--O conhecimento em todas as suas formas pode ser direcionado a um determinado fim--expressou-se meu pai, reflexivo--E, com isso, entendemos que mesmo o mais tolo de nós em sua capacidade de exercer o raciocínio que os deuses nos conceberam, pode cair-se em si próprio.
--Sem dúvida--concordou outro que da mesa também fazia parte, não sendo nem o mencionado senhor P..., ou mesmo aquele de nome L...., que também expressava-se tranquilamente--E aqui nos perguntamos: como direcionar o conhecimento para o bem sem cairmos em nós mesmos?
--A virtude precisa ser contrabalanceada a vicissitude--afirmou categoricamente aquele que sentava ao lado do senhor P..--E ela far-se-á presente em suas ações.
--Questiono-o, porém, se a virtude é para um o que pode ser vicissitude para outrem--disse, novamente, o senhor L.
--É certo que se reunirmos um ideal de pessoas que corresponde aquilo que nós, em nosso conjunto de ideais e concepções, concordamos serem virtuosas, encontraremos o conceito que aí está trazendo. Pois o virtuoso não usaria de seus estudos e experiências para provocar o mau próximo. Não haveria necessidade para isso e, se houvesse, não seria qualificado como tal--disse, então, meu pai.
Houve um murmúrio de concordância antes do louro, o que deu inicio ao debate, silenciar a todos e dizer:
--Se o conhecimento dirigido para o bem promove a virtude, como termos certeza de que as vicissitudes não o derrubarão? E se acaso acontecer, pode ser o sábio um homem virtuoso? Pergunto mais, é possível um indivíduo que não conheceu a virtude inculcar tal valor a um outro como jovem presente nesta reunião?
Todos os olhares se voltaram a mim por um rápido momento. Senti meu rosto ruborizar, mas, graças aos deuses, não precisei responder.Foi o senhor L... quem respondeu:
--Não é sabido que a virtude torna o homem ideal depois de tantas existências? Porquanto assim se faz, como haveria-o de sucumbir aos vícios se não tendo as conhecido para repeli-las? Para o falso virtuoso, chamamo-nos de hipócrita: prega o que não pratica e se vangloria do que não exerceu tanto nesta quanto em outra realidade. A este homem, os deuses negam. A não ser que ele esteja muito arrependido e deseja reunir em si mesmo as qualidades que almeja, não vejo por que razão deveria ser tal sujeito impedido de ensinar os mais jovens a obter aquilo que falhou em sua jornada.
"A verdade é, meus caros, que somos ensinados que a imprudência leva à sabedoria. Não está de todo errado, pois os deuses, em si mesmos, não cometem os erros que somos levados a pensar que fazem. Já tivemos esta discussão antes na casa do senhor P...., na companhia do senhor S.... que, infelizmente, não está mais entre nós para glorificar nossas reuniões com sua sabedoria. De todo modo, para alcançar o conhecimento e levá-lo aos ignorantes é preciso associá-lo a virtude alcançada. Aquele, porém, que não a exerce apropriadamente ainda não domina o saber, sequer está preparado para refletir com clareza o que aqui fazemos com regularidade."
--Guardar o que sabemos é um erro--ouvi alguém se manifestar--E, no entanto, o fazemos. Isso não nos torna hipócritas?
O silêncio se fez entre o grupo antes do senhor P... enfim se manifestar:
--O que o faz pensar isso quando nem todos estão preparados para receber o que demoramos, em nós mesmos, a conceber?
--Somos frutos do meio e negar isso é fechar os olhos para o conhecimento recebido--acrescentou o senhor L....
--Será mesmo?--indagou o senhor P... com sua voz serene e calma.--Veja como nós pudemos ir além nesta discussão. Contudo, deixe-me orientar o jovem cuja presença estamos deliberadamente ignorando. Afinal, o conhecimento precisa ser passado não é mesmo. Como se chama, rapaz?
Quando os olhos voltaram a mim, senti meu corpo ser tomado por um arrepio e meu rosto ruborizar. Contudo, pelo canto do olho vi novamente a presença da deusa Atena e fui inspirado a me manifestar antes que meu pai me repreendesse por hesitar demais:
--Patroklos Petropoulos, filho de Aléxandros Petropoulos.
Os homens deram uma risadinha, todos eles assentindo com a cabeça respeitosamente. No entanto, o senhor P... de olhos intensos não se abalou com a reação dos outros.
--Muito bem, filho. Vejo que respeita e tem orgulho da família que vem, o que me diz muito do seu caráter. Entende o que se passa por aqui?
Senti-me relutar, temendo falar alguma besteira, mas a deusa assentiu em minha direção, atrás do sujeito que se dirigia a mim, e eu falei:
--S-Sim, senhor. Meu pai certificou-se de que estava me saindo bem nos estudos para acompanhá-los esta noite.
De novo, murmúrios dos companheiros de meu pai: alguns me admiravam, outros nem tanto. Não virei o rosto para saber como ele reagia a tudo isso, mas o senhor P... manteve a expressão inalterável ao dizer:
--E ele está certo. O cérebro é para nós o que a espada é para os homens. Desde tenra idade precisa compreender isso para que faça o certo e o útil não apenas a si próprio como para os outros que o seguirão. Creio que será responsável pelos seus irmãos, pela propriedade que herdará de seu pai e igualmente dos escravos que aqui se encontram. Desempenhará um papel nesta pólis, qualquer que seja ele, dominada por um soberano que, a bem da verdade, mais aproxima-se de um tirano. Compreende, de fato, o que estou dizendo?
Ele falava com tamanha autoridade e seriedade que ninguém ousou se manifestar. Nossos olhos se encaravam, eu reconhecia o aviso sútil e temia, por ora, o que poderia viver no futuro próximo. Contudo, mais que isso, a sabedoria daquele indivíduo era inspiradora.
--Sim--eu disse com firmeza, sem ter hesitado ou gaguejado daquela vez--Tudo o que aprendemos não dever ficar guardado apenas a nós, ou fazemos uso inútil daquilo que os deuses bondosamente nos concederam quando, anteriormente, nos esforçamos para conquistar aquilo que chamam de conhecimento. É nosso dever ensinar sem esperar recompensas e prover-nos útil o tanto quanto possível para que possamos tornar-nos sábios.
Minha fala provocou admiração dos homens e surpresa em meu pai, mas tais reações não me abalaram. Não me expressei para agradá-los, mas porque o senhor P... esperava uma resposta contemplativa que, contudo, fosse a mais realista possível. E eu acreditava em tudo o que dizia porque guardava em meu íntimo tudo aquilo que me foi ensinado em existências anteriores.
O senhor P... sorriu sob a barba espessa e disse:
--Sua mente é mais afiada do que pensei. Vejo qualidades em sua alma, meu jovem. Espero que saiba exercitá-las.
Aquilo me instigou, se não inspirou, a verbalizar a discussão que tive com minha irmã mais cedo naquele mesmo dia:
--O que o senhor pensa da alma?
Alguns riram e meu pai esteve a me repreender quando o senhor P... silenciou a todos e disse:
--Ora, senhores, não estamos lidando com apenas um garotinho aqui. É um homem como nós, embora certamente mais jovem, ainda que possuidor de uma sagacidade que faltam a muitos. Por que negar sua voz?
"Direi-lhe o que penso da alma, meu caro Patroklos, nome de um herói cantado por um poeta há tanto tempo. Creio que deve conhecer Homero? A despeito de sua excessiva humanização de nossos deuses, sua inspiração vem da alma. E o que penso dela? Que é imortal. Que possui conhecimentos que tanto podem incliná-la para o bem quanto para o mal, para a virtude ou a vicissitude, se o sujeito souber despertá-la em si próprio."
"A alma pode seguir rumo a três caminhos que você me parece tomar nota, Patroklos: os campos elísios, os campos secos e a moradia de Hades. Normalmente, aquele que chega à primeira opção pode optar por renascer, esquecer-se de tudo e viver novamente. No entanto, desconfiamos que seja mais comum aqueles que vivem nos campos secos escolherem o renascimento. Como diz o nome, campos secos é o intermediário. Onde nada há se não o tédio, a vagueza das coisas e a inutilidade d'alma. Zeus todo poderoso que nos criou se satisfaria em ver-nos inúteis? Decerto que não. E tampouco se satisfaria em manter-nos ignorantes? Óbvio que não. Ou Atena não viria inspirar a todos nós a buscar a sabedoria, não é mesmo?"
"Os deuses não são nossos reflexos e portanto vão além do que nossa alma pode conceber. Esta não é sua questão, meu jovem, mas não há como dissociar uma ideia da outra. As histórias que nos contam apontam para divindades falhas, invejosas e que necessitam a todo o momento relacionar-nos conosco para mostrar seu poderio. Pergunto a você o seguinte: se o deus que cria nossa alma imortal, qual seria seu intuito ao fazê-lo? Seria para zangar-se constantemente? Qual seria o propósito de nos humilharmos e forçar a nós termos relações com as divindades sem nossa vontade? Por que haveríamos de ser castigados sem uma chance sequer de redenção?"
"Nas estórias em que heróis sofrem e, na pureza, são resgatados de morte terrível pelos deuses, vemos a compaixão divina cair sobre nós. Somos merecedores desta, assim me parece, conquanto somos puros. No entanto, aqueles que faltam tal caráter são merecedores de eterna punição? Por que a divindade sentiria inveja de sua criação? Por que ela a condenaria a eterna maldição? Acha mesmo que Hades se compraz do sofrimento alheio? Ou que ele se levantará contra Zeus? Ou mesmo que planeja destitui-lo de seu trono ao lado do soberano dos mares?"
"A alma que Zeus criou seria passível de outras existências, de escolher por elas para renascer apenas para sofrer infinitamente? Você me pergunta o que é a alma, nos vê discutir sobre o conhecimento, a confabular a respeito do exercício do mesmo. Depois disso que contei, a que conclusões chegou?"
Aquele homem me observou atentamente como se me avaliasse. Fitou-me como se estivéssemos apenas os dois na sala, consciente de que sua presença me intimidava. E, mesmo assim, falei:
--Os deuses são superiores a nós, de tudo sabem a nosso respeito: do passado, do presente e do futuro. Se fossem doravante cruéis como as fábulas reportam, não haveria sentido em sermos constantemente punidos. Tal é a liberdade que concedem a nossa alma, para que possamos desenvolver as faculdades que criaram em nós. Não por isso a alma é imortal, reflexo da divindade sem, contudo, fazer dela parte. Com isso, somente tornamo-nos sábios não porque a nós nos foi concedido a estrada que, sozinhos, devemos seguir, mas porque assim progredimos a fim de fazer o mesmo com nossos semelhantes sempre ao modelo que os deuses nos inspiram.
Recordo-me de meu pai ter me encarado com perplexidade e o silêncio cair sobre todos os presentes. O senhor P.... assentiu a cabeça e disse, alegremente:
--Ao que parece, encontramos nosso semelhante, senhores. Espero que o jovenzinho aqui pratique o que pregou e siga neste caminho. A filosofia lhe fará bem, caro Patroklos, astutamente herói real e não das fábulas homéricas.
Sorri tanto com o elogio quanto com a advertência sútil que me foi dada. Aquele seria o único encontro que teria com aquela personalidade cujo nome não me foi permitido expor, e isso se refletiria na forma como moldaria meu caráter no decorrer da vida, assim como, consequentemente, apuraria o meu espírito nesta já mencionada estrada.
Ao fim de memorável noite, meu pai virou-se para mim e disse:
--Sinto que o subestimei demais em todos estes anos, Patroklos. É mais merecedor de tudo isso do que jamais pensei. Perdoe-me.
Aquele gesto me surpreendeu porque nunca, em apenas uma década de vida, vi o patriarca agir sensivelmente para comigo. Foi significativo porque nossas almas se reaproximaram e tudo parecia indicar um caminho melhor para nós mesmos.
--Não há o que perdoar, meu pai--falei, sincero--Está tudo bem.
Ele me sorriu, um sorriso cansado. Não era mais jovem, estava próximo dos quarenta anos, e seus cabelos já estavam quase grisalhos; os olhos azuis me miravam com ternura e percebi que nunca o tinha amado como o amava naquele instante, por mais breve que fosse. Fui me deitar feliz e, ao ver a deusa Atena outra vez, senti-me ainda mais contente. Afinal, a sensação de que trilhava um bom caminho me acalmava a alma.
* * *
Dos dez aos quinze anos, desde aquela noite, não houve momentos significativos a compartilhar aqui. Segui estudando e acompanhando meu pai nas questões que requeriam urgência a serem resolvidas. Mas também minha mãe foi essencial em me ensinar sobre a gerir uma casa, ainda que esta fosse uma tarefa mais tarde incumbida a minha esposa. Era preciso, ela dizia, que eu soubesse de tudo.
Naquele verão, entramos em guerra novamente contra Esparta e houve uma eclosão de nova praga, doença que acabou por levar a bela Heléne de nós todos. Moura sofreu o luto, provavelmente mais que a nós todos, como Aquiles sofreu por Patróclo, de quem recebi seu nome.
Meu pai lamentou sua perda, mas a vida precisava seguir em frente. Casou Sophia ao filho do senhor L..., enquanto ofereceu Larissá a Arthemis, tornando-a, portanto, sua sacerdotisa. Minha irmã mais jovem possuía, de fato, fortes inclinações religiosas para esta deusa, embora nosso pai provavelmente desejasse que ela servisse à Atena. E o que fazer com Hektor? Philippos seguia carreira militar, por mais que tão logo sua vida fosse ceifada em combate, e eu era o herdeiro das propriedades da família. Todavia, Hektor ressentia-se de ser o filho cujo destino pairava no ar e a rebeldia começava a dar os ares. O que, o pai se perguntava, deve ser feito dele? Que habilidades existiam no rebento mais novo que pediam por incentivo?
O conflito entre os dois não tardou a florescer: quando fui receber a jovem Erhais de família nobre do norte de Atenas, contava dezoito anos e Hektor, doze, tão homem feito quanto eu. Planejou sequestrar a pobre Erhais com dois escravos. Nosso pai descobriu, entretanto, e o enviou para o campo enquanto açoitou os outros dois, evitando enviá-los à morte porque o impedi.
Este assunto me preocupava, pois, conforme crescia, desenvolvia forte aversão a hostilidades, principalmente familiares. Moura costumava dizer que herdei da minha mãe o senso de pacificador e, sendo assim, fui incentivado por ela a desenvolver ainda mais esta qualidade. Foi quando decidi conversar com meu pai sobre Hektor.
--Já considerou enviá-lo a Esparta?--perguntei a ele--Se ele servisse o rei de lá, é provável que teria uma vida melhor.
--Enviá-lo a Esparta?--repetiu o patriarca, atônito a sugestão--Por que, em nome de Hades, eu faria isso?
Suspirei, mas esforcei-me em praticar a paciência.
--Porque ele claramente tem os dons para ser um guerreiro, e o senhor deveria dar a Hektor uma chance de prová-lo, pai.
--E por que enviá-lo para servir o rei espartano? O que há de errado com o nosso?
Internamente, lamentei por meu pai não perceber que vivíamos sob uma tirania inconcebível. O que seria de Atenas sendo governado por tal rei? Mas nada falei. Aléxandros, porém, não faltava cérebro e, compreendendo aquilo que não disse, respondeu:
--Concordo que não seria a opção mais viável, mas quem sabe no campo ele não se ajeita?
No entanto, ambos sabíamos que Hektor continuaria a ser um problema e o pai se recusava a lidar com essa situação. Enquanto isso, me preocupava com minhas próprias questões domésticas. Não amava Erhais, mas tampouco me preparava para amar alguém. Não concebia o amor por desprezá-lo. Eis a manifestação do orgulho que ainda insistia em velar-me para o bons sentimentos por melhor que eu estivesse em relação às realidades que outrora experimentei neste mesmo plano.
Erhais era bela com seus cabelos negros que, em cascata, derramavam-se às costas: com frequência, porém, os prendia sob uma faixa branca em respeito ao status de casada, mas os soltava quando o pedia na intimidade. Usava túnicas apropriadas para a sua posição, normalmente de cor azul do oceano por ser devota de Poseidon, o que achei curioso. Sua pele de oliva contrastava à minha, o que achei bem-vindo. Aos poucos, me acostumava a sua beleza que, mesmo na idade dos quatorze anos, florescia adoravelmente.
--Creio não estar dando a você a atenção que merece, Erhais--eu disse uma vez, alguns meses depois do nosso matrimônio--Peço perdão por esta negligência do meu dever para contigo. É que questões domésticas pedem com urgência a minha presença.
Erhais possuía uma docilidade em temperamento desde o princípio e isso dava-me uma alegria descomunal. No entanto, os deuses foram sábios em velar de meu espírito, ao menos por ora, o reconhecimento passado.
--Não há o que perdoar--disse ela e seus olhos de amêndoa, janelas da alma, transpareciam a sinceridade de suas palavras--Está aprendendo o que provavelmente porá em prática em alguns anos. Assim é a família e ela é sagrada aos olhos dos deuses.
Assenti com a cabeça em concordância. Era uma tarde de verão e ela estava tecendo ao lado de uma escrava que havia trazido consigo, uma bárbara do oriente chamada Yin. Desta forma, nossa conversa soava casual e isso me incomodava porque sentia que podíamos ser mais que isso, e não queria que aquela união se tornasse vazia por mais respeitosa que fosse, como foi o caso dos meus pais. Por isso pedi gentilmente que Yin se retirasse e me deixasse à sós com Erhais. Ela, por sua vez, surpresa com aquele pedido me fitou como se houvesse enlouquecido.
--Quero que sejamos mais que alianças matrimoniais--eu expliquei--Poderia me dar a honra de conhecê-la melhor?
Erhais timidamente concedeu e, com isso, fomos caminhar pelos jardins. Foi quando ela disse:
--Pensei que seria como seu pai. Normalmente, os primogênitos costumam seguir os patriarcas. Um costume que Atenas costumeiramente segue.
--Ele é inspirador para muitas coisas--respondi--mas possuo discordâncias quanto a estas questões matrimoniais.
--Graças aos deuses--ela deu um risinho e eu a acompanhei--Posso perguntar o que causou isso?
--Nada tenho a esconder--disse eu--portanto, posso responder o desejar questionar. Mas a verdade é que houve dois momentos significativos na minha vida em que percebi que a gentileza deveria prevalecer sobre todo o resto. Minha mãe, por mais respeitada que pudesse ter sido tratada pelo pai, foi infeliz em seu casamento. De fato, foi louvável em tudo o que fez sem murmurar, mas porque encontrou consolo em outro lugar, vou dizê-la discretamente sobre isso.
"Ainda que não tivesse encontrado, nunca falhou com seus deveres. Dedicou-se à família, recebeu hóspedes, em suma, cumpriu com o papel de esposa e mãe. Mas havia algo faltando, eu sabia disso. Tanto nela quanto no meu pai. E quando criança, estive presente nas reuniões filosóficas de meu pai e seus amigos. Fui ensinado tanto sobre conhecimento e virtudes, agraciado com sujeitos iluminados, sem dúvida."
--Provavelmente foram os deuses que desceram à Terra e se comunicaram contigo--disse-me Erhais, soando contemplativa--Você se tornou merecedor deles, Patroklos.
Em silêncio, ponderei suas palavras. Erhais me observava com serenidade, não havia nada em seu semblante que indicasse possuir uma fé cega, e de algum jeito sabia disso. Aos poucos, a reconhecia como era sem os apetrechos da beleza física: a resignação, a bondade, a doçura. Apaixonei-me.
--Os deuses não concebem seu favor a qualquer um--prosseguiu ela--portanto, deve-se ater aos sinais. Não é como acontece nas fábulas que lemos, não, é mais que isso. E, entretanto, as mensagens estão lá para aqueles que leem para além do que está escrito.
--Sábia como é, me admira que não seja devota de Atena--comentei, meio divertido.
Erhais me concedeu um sorriso.
--Respeito todos os deuses e amo-os sem distinção. A cada um me inspira a cultivar uma qualidade em mim mesma, resguardado em alma por eles, disso sei pois às divindades tudo devo. Contudo, o mar... Poseidon é um grande ensinador, de fato. Alguns o chamam de instável, mas seria mesmo? Não se controla as ondas, não se luta contra elas. Assim é o nosso destino.
Novamente, me vi pensando sobre o que me foi falado.
--O que é o destino?--eu indaguei--É o conhecimento?
--O que é o conhecimento?--me respondeu Erhais--É um saber passivo? Um saber receptivo? Um saber criador? Ou apenas experiências que a alma há de acordar a cada instante?
Sorri.
--Que surpresa é encontrar alguém que se propõe a pensar assim.
Erhais riu.
--Que mundo triste é o dos homens por crer que suas parceiras são incapazes de produzir belas poesias, criar estórias e, principalmente, discutir filosofia.
--Jamais pensei isso de você--eu disse, em parte na defensiva.
Mas ela era compreensiva demais para mim.
--E não disse que pensava--rebateu--mas vivemos em um mundo masculino, meu querido. E ele funciona desta forma.
Com isso, me deu um piscadela e seguiu em frente, ciente de que me fazia apaixonar-me por aquela mulher. Alheio mesmo à presença dos deuses, a filosofia sequer cruzava meus pensamentos. O amor, ao contrário, impunha-se sobre todo o resto e minhas faltas eram, enfim, subjugadas. Afinal, mesmo ainda jovem, compreendi que o conhecimento significava mais do que leituras e indagar sobre o desconhecido para curvá-lo ao que nós sabemos, de fato. Era a autocompreensão e a abnegação de nós mesmos para o sacrifício da luz. Aqueles tempos eram difíceis e as provações, ainda mais. Lembrar de tais é rememorar a angústia que senti ao tomar ciência disso.
E a tendência era, como dizem nos dias presentes, piorar.
* * *
Quando meu pai desencarnou, o fez sem ter cumprido completamente sua missão para com Hektor. Talvez porque ainda não era hora. Quando ele regressou a casa, decidi ajudá-lo e, por que não, incentivá-lo às artes?
Mas Hektor voltou embrutecido, carregando cicatrizes que custou-me a contar (descobriria mais tarde que ele, dentre outras coisas, foi violado) o que me fez renovar somente os esforços em me aproximar dele. No meio tempo, minha esposa assumia os deveres domésticos por completo, regendo a casa e lidando com outros afazeres conquanto me dedicava ao meu irmão.
Hektor era agora um homem feito de 20 anos, cabelos pretos curtos e barba feita por fazer. Possuía um olhar feroz que marcava o rosto endurecido. Era forte de corpo, mas em questão de altura era mais baixo que eu. Desde o momento de sua chegada, evitou-me, e não me passou despercebido o quanto olhava para minha esposa.
--Precisamos conversar--eu falei.
--E chegou o novo chefe da família--ele me recebeu com sarcasmo, mas calmamente o fitei.
--Sophia e Larissá vêm nos visitar esta semana--comuniquei-o antes de tomar lugar ao seu lado--Pretendo reunir a nós todos.
Hektor assentiu, mas senti-o distante. Pressenti que seria difícil, que havia algo de errado com ele. Era preciso paciência, porém, e humildade ao lidar com meu irmão.
--E não quero mandá-lo embora, irmão. Sabe que é bem-vindo aqui. Não falo isso apenas por comiseração ou porque é meu dever. Mas gostaria de acertar as coisas...
--Não há nada para ser acertado--retrucou--Claramente, concorda com nosso pai quando deixou que fosse enviado.
O suspiro que eu procurava conter se soltou.
--Esforcei-me em dissuadi-lo da tarefa. Sugeri enviá-lo à Esparta para que fosse útil ao rei de lá. Sempre possuiu qualidades que o igualavam a Philippos, o irmão que não sei se lembra dele. Poderia ter sido tão grande quanto.
Hektor soltou um resmungo. Por algum motivo, evitava me encarar nos olhos.
--Tão fácil falar agora que eu voltei. Onde estavam suas cartas? Sua preocupação?--sua voz ressoava um forte ressentimento que eu temia não ter forças para combater--Os seus esforços de nada valeram para impedir meus desfortúnios.
--Crê que os deuses seriam assim tão cruéis contigo?
Meu irmão levantou o olhar pela primeira vez e um sorriso venenoso cruzou seus lábios cortados:
--Crê que eles creiam em mim?
--Por que haveria de ser o contrário?
Hektor se levantou e bradou:
--Porque eles só o favorecem, você que nunca fez nada! Sequer sofreu nas mãos de terceiros, toda a vida protegido pelo pai e, em sua ausência, pela mãe. Não conheceu a negligência, pois sempre obedeceu. Tão fácil obedecer quando se é o favorito por todos! É mais apropriado chamá-lo de Aquiles, pois! Mas me pergunto se há uma fraqueza sua? Ah, decerto que sim! O ponto fraco de tolos como vocês é o amor.
Meu rosto queimou em fúria porque percebi que ele me ameaçava ao mencionar minha esposa. Contudo, com grande esforço não me ajoelhei a tal sentimento. Em vez disso, lutei contra ele porque aquilo era a provocação de Hektor que me convidava a única companhia que conhecera: a dor. Quanto mais me instigava ao seu deboche, a sua língua ferina, mais sofrimento ele mostrava.
--Sinto pelo que o pai lhe causara, mas crê quando digo que será melhor agora.
--Será que sim? O rei é louco, dizem. Com o nome que tem...
--Não maldiga os deuses!--sibilei, impaciente--E cada um sabe da dor pela qual passa. Não vou julgá-lo como tampouco compete a você me julgar. Vamos lá, seja sábio!
--Não sou a porcaria de um filósofo!--berrou Hektor--Pare de me tratar como um!
--Poderia ser, se me permitir!--insisti--Escute-me, Hektor. Sei que está sofrendo...
--Que dor poderia o perfeito Patroklos conhecer?
Não o respondi. Hektor continuou vociferando ofensas e eu ali ouvi tudo, mesmo magoado com aquelas palavras jogadas contra mim. No entanto, ele dava vazão à fúria, sentimento tal que reprimira por anos. E eventualmente, ele se cansou.
E chorou.
--Nosso pai não está mais entre nós--disse eu, sentando-me ao lado dele. Estávamos nos jardins, sob um pomar qualquer--Não há o que se preocupar. Acha que gosto mesmo da posição que ocupo? Crê que sempre desfrutei de um favor abençoado, tanto divino quanto mundano?
--Sua vida sempre foi perfeita--Hektor cuspiu inveja em suas palavras, veneno que corroía seu coração--Nunca vi-o ser repreendido por ninguém.
--Você é alguns anos mais novo que eu, não éramos próximos por isso. Costumava passar mais tempo com Philippos e Sophia--disse, contemplativo--Sendo assim, como pode acusar-me de tantas coisas que falou? Eu tentei de todos os jeitos interferir a seu favor, mas falhei. Não adianta acusar o velho pai agora, ele não está mais entre nós para se defender.
Quando os soluços cessaram, Hektor secou os olhos e, pela primeira vez, admitiu:
--Sofro, irmão. Por ele, eu sofro. Sinto inveja sua, mas, deuses, não consigo odiá-lo.
Pousei uma mão em seu ombro e disse:
--Dará tudo certo. Esse sofrimento passará.
A verdade é que eu o subestimei. Se pelo resquício de orgulho ou vaidade, ou porque de fato acreditei que pudesse melhorar, não sei. Olhando em retrospectiva, creio que seja reflexo dos dois. Sim, mesmo então, uma parte de mim se aliviava por não ter sido o filho que Hektor foi para o pai e me julgava melhor que ele, apropriado para levá-lo a uma melhora de conduta a partir do que a filosofia havia me ensinado. Neste quesito, faltou-me humildade. Entretanto, sempre nutri afeição por todos os meus irmãos e com ele não seria diferente: desejava ajudá-lo genuinamente, sem esperar retorno. Queria inculcar nele o sentimento que o senhor P.... havia me inspirado há tantos anos atrás, quando era um garoto. Queria abrir os olhos de Hektor para o véu da matéria que, insipidamente, caía sobre ele. Mas querer nem sempre é poder.
A princípio, ele cedeu: contou-me sobre seu passado no campo. Que envolvera-se com homens mais velhos, mas um deles aproveitou-se do seu consentimento. Quanto a isto, não deu detalhes e eu não forcei a dizê-lo. Os tios que o receberam não o tratavam bem, e de nada adiantou quando descobriram que se tornou amante da prometida do primo. Foi expulso de lá, consequentemente. Sem ter para onde ir, buscou refúgio na casa de um antigo amante: mas Hektor foi recusado a morar lá. Não havia perspectivas e a prostituição foi uma breve solução. No entanto, a profissão parecia induzi-lo a miséria... E cá estava ele, pronto a implorar perdão para o pai se o aceitasse.
Quanto ao perdão, não acreditei porque um pressentimento ruim tomou-me conta. De todo modo, novamente não o forcei a falar contra sua vontade. Ofereci minha casa e todo o mais contanto que ele não permanecesse desocupado. Hektor concordou e, no decorrer da semana, confessou que planejava tornar-se parte do exército do rei.
Novamente, fui tomado por um pressentimento não muito bom e fui comunicar isso a Erhais.
--Há algo de errado com ele--eu disse, antes de contar a ela sua estória. Erhais havia conseguido engravidar depois de cinco anos de casamento. Antes disso, sofrera dois abortos espontâneos, mas naquele instante tudo concorria para que a criança viesse a nascer. Fizemos promessas para Hera e Árthemis, e Larissá prometeu ajudá-la no parto quando a hora viesse.
--Ele sofreu bastante o pobre coitado--disse Erhais--É nosso dever ajudá-lo.
--Sim--eu concordei prontamente--mas algo me incomoda. Algo não está certo.
Naquela noite, em sonho a deusa Atena veio comunicar-se comigo.
--Seu fim se aproxima, creio que já sabe disso.
Lembro de ter ficado aturdido com isso.
--O que eu fiz de errado?--me ouvi dizer.
Mas Atena sorria a mim com paciência e ternura.
--Por que pensa isso? Não crê que fez o suficiente por ora? Aprendeu o que já tinha que aprender? Voltará, sua intuição reconhece o que digo, mas não agora.
--Falhei com Hektor--eu desabei, pois foi tudo o que conseguia pensar.
Consoladora, Atena pôs a mão em meu ombro e disse:
--Não, meu amor. Você não falhou. Entenda, as pessoas são livres para escolher o caminho que desejam. Não aprendeu isso antes com P....? Nada pode fazer se o sujeito em questão deseja permanecer no erro.
--Não há nada que eu possa fazer?
--Infelizmente, não. Mas para que a criança nasça saudável, e ela nascerá sem qualquer custo à vida da mãe, envie-a ao norte juntamente a sua irmã--aconselhou Atena, a de olhos glaucos--E quando a hora chegar, sê comedido e resignado. Não é culpa sua, a missão que escolheu foi concluída.
Assenti.
--Ainda assim sinto-me na obrigação de pedir perdão aos deuses...
--Não há o que pedir perdão, meu caro--refutou-me Atena, bondosamente--Fez o que pôde ser feito. As circunstâncias não se alterariam se houvesse feito diferente. Nem sempre cabe a nós mudar tudo e todos. E não se preocupe com o que Zeus pensaria de você. Apenas aceite e siga em frente.
Outra vez fiz um meneio com a cabeça.
--Mas é claro. Obrigado, agradeço sinceramente, deusa Atena.
Ela me lançou um breve sorriso.
--Estarei com você sempre, meu caro.
E, com isso, despertei.
* * *
--Estou com uma sensação terrível no peito--confessou-me Erhais no dia da partida, com os olhos cheios de lágrimas--Por que precisa enviar-me longe? E tão guardada assim?
--É o melhor que posso fazer, os deuses assim determinaram--falei, bondosamente--Não faria isso se fosse o contrário. Amo-a, Erhais.
--E eu a você. Eternamente sua serei--murmurou ela, repousando sua testa contra a minha.
Não havia tempo para despedidas, embora estivesse resignado com elas. Uma sensação amarga invadiu-me o estômago como se aquele cenário fosse reconhecido. Triste, suspirei. A sacerdotisa de Árthemis, minha irmã, reconheceu isso também e me lançou um longo olhar:
--Não gostaria de vê-lo assim, mas a deusa determinou que o deixasse e partisse com Erhais.
--É a vontade divina--eu falei, soando distante até para mim mesmo.
--Que os deuses o protejam, meu irmão. Não a abandonarei, nem a ela, nem a criança--disse-me Larissá, soando um pouco profetiza nas palavras.
--Agradeço, irmã. Que eles a protejam também.
Observando as duas mulheres que amava em lágrimas partiu-me o coração, por mais resignado que estivesse. Hektor, que com seu olhar já característico de raiva a tudo assistia, se aproximou:
--Por que as mandou embora?
--Porque os deuses assim quiseram--eu respondi, sustentando seu olhar até que ele, envergonhado os desviasse.
Ao entrarmos na casa, tendo também insistido para que Moura acompanhasse a esposa juntamente a Yin, ele se virou:
--Você tem tudo. Isso é injusto.
--A vida não se trata de posses, irmão. Mas e quanto à vida no exército?--perguntei, já ciente da resposta que viria. Fui dito mais cedo por um dos escravos que tentei libertar, mas por teimosia recusou, que Hektor havia roubado uma das espadas de nosso pai. E já havia vislumbrado a arma juntamente a ele, porém ainda insistia em tentar ajudá-lo.
Hektor ficou balançado em sua decisão. Era visível a vergonha que cobria seu rosto, e vi que Apolo o inspirava a não tomar a decisão que pairava sobre si. Do outro lado, porém, uma sombra negra sussurrava-lhe o ouvido e esta eu não soube reconhecer.
--Hektor--eu chamei de volta--Está tudo bem?
--Não--ele confessou--Deixe-me.
E antes que pudesse fazer algo ele desapareceu da minha vista. No restante do dia, agradeci a Apolo pela ajuda, mas fiquei em tensão não pelo medo do desencarne e, sim, pela forma como isso aconteceria. Confiava em Atena, em Zeus, nos deuses, mas... temia. Era natural que temesse, afinal.
O dia sucedeu à noite e nada de Hektor. Relutei em dormir, até que ele por fim apareceu com um semblante mais calmo. Em suas mãos, um cálice e não uma espada. Aliviei-me.
--Não bebeu nada o dia inteiro--ele observou, vindo tomar seu lugar ao pé da minha calma.--E me parece que não está bem.
--Não, não estou--disse eu, aceitando de bom grado o vinho. O cansaço, na verdade, fora inspirado por Atena e ao meu lado direito, via a presença de Apolo, a luz quase de todo iluminando o quarto escuro. Também por Atena, senti sede, porém um ímpeto de falar impediu que de todo ingerisse o veneno contido no vinho--Gostaria de ter sido um irmão melhor, Hektor. Vejo agora que me perdi na expectativa em agradar nossos pais. Cumprir com o dever, ser filósofo e um bom marido... De que tudo isso significa se falhei com você enquanto irmão?
Hektor tremeu diante daquelas palavras. O arrependimento estava em seus olhos, mas o sono que Atena me inspirava fê-me beber o vinho.
--Espero que me perdoe. Obrigado pela bebida--falei--Vai me ajudar a dormir.
--Patróklos!
Ele me chamou, mas era tarde demais. Adormeci e, sem sentir o efeito do veneno em si, desencarnei. Não muito depois, Hektor também seguiu meu destino, embora de uma maneira pior e deliberadamente. Por um bom tempo, recusei a encarnar para ajudá-lo. Creio poder dizer que consegui. O suficiente, porém, para que ele voltasse ainda nos tempos de nosso mestre Jesus.
Mas eu viria posteriormente quando Ele me permitiu, quando o Pai determinou que fosse necessário. Pois não mais encarnaria para expiar, mas em missões...