As lembranças são como vento, vêm e vão em ritmo desacelerado, independente de nossas vontades. Revivê-las nunca é fácil porque o tempo é capaz de modificá-las ao seu bem querer. No mais, recordo com algum grau de precisão apenas porque o desencarne me permitiu enxergar no passado um caminho apropriado para o futuro. Quem somos nós sem os erros cometidos? Eis, portanto, a minha história.
Cairo, 1130.
Nos desertos da pobreza era onde fui criado, numa comunidade que dependia da sorte. Não tínhamos nada, e se sobrevivíamos era muito. Minha família era enorme, numa quantidade surpreendente de 15 filhos dos quais apenas 5 chegaram à vida adulta. Por ser o mais novo, pensavam que sucumbiria como tantos outros antes de mim, mas não era para ser assim. A morte não seria minha parceira, não naquele instante.
Alguns viajantes ocasionalmente passavam por ali. Recordo da infância observar camelos domesticados por tais homens, e me questionava como aquilo era possível. Meu mundo se limitava naquelas circunstâncias de pobreza e areia e jamais permiti a mim mesmo sonhar com o que a realidade não alcançava. E, no entanto, um desses homens, vestidos de maneira bastante peculiar --com todas aquelas vestimentas de alguém que pertencia a um status superior ao meu, tecidos roxos que cobriam todo o corpo, deixando à mostra apenas um par de olhos. E naquelas roupas, via objetos de riqueza que jamais havia visto antes: broches de animais como águias impediam do tecido mais grosso de deslizar do corpo daqueles que o usavam, ouro enfeitava seus pescoços, embora jamais houvesse me perguntado qual era o propósito de sair pelo deserto usando peças caras e inadequadas a um ambiente como aquele.
Por algum motivo, contudo, meu velho pai os reconhecia. E veio logo ao seu encontro, tratando-os com o devido respeito que a posição dos viajantes demandava. À época, eu tinha 10 anos, era sujo e não sabia sequer como era minha aparência, pois a simplicidade de nossa condição impedia-nos de ter os mais simples objetos como um espelho, por exemplo.
--Senhores! --ele exclamou, e eu percebi que sua voz tremia. Não demorei para supor que meu pai os temia, e, por extensão, senti seu medo também--Que fazem aqui? É uma temporada imprópria para longas viagens e já faz muito tempo desde que os vi pela última vez.
Aquele cuja túnica era negra como a noite sem estrelas deu um passo a frente, descobriu o rosto e assim, se pronunciou:
--O senhor sabe muito bem porque viemos aqui--e eis que seus olhos negros repousaram em mim--Precisamos do garoto.
Meu pai exclamou, protestou, mas foi tudo em vão. Logo descobriria que eles me tomaram porque minha família estava em dívidas para com aqueles estranhos. Também saberia que aqueles homens eram sarracenos, e não demoraria muito para que me tornasse um deles.
Salazar, o nome que me deram. Em voga à época, sabe-se lá por quê. Bem, fui treinado nas artes que, à época, os cristãos chamavam de 'negras' por se perderem na ignorância de seus tempos, marcada por uma hegemonia da Igreja que pouco disseminava a palavra de Cristo. Ao contrário, usava o amor como discurso para a violência. Conheci a religião muçulmana, o saber de Alá; fui apresentado à medicina, às práticas desdenhosamente chamadas de 'magia obscura'. Desenvolvi o dom da cura, aprendi como pronunciar as palavras. Tornei-me letrado. Minha infância infeliz se dissolveu, substituída pela juventude que descobria um novo mundo. Assim como na caverna de Platão, quase fiquei cego pela luz quando a encontrei.
Muito me apetecia conhecer os mistérios da medicina e da cura, mas meu verdadeiro dom... estava na espada. Tal objeto era, para mim, como a última palavra dos juízes: usava-o conforme acreditava na inocência do indivíduo, ou na sua culpabilidade quando cometia um crime horrendo. Vejam, pois! Sem ter qualquer formação voltada para o direito, usufruía das leis de acordo com minhas crenças pessoais. Chamem de ego, vaidade... O que for! Mas atire a primeira pedra quem não julgou o próximo da mesma forma, não necessariamente da forma literal.
Como podem ver, uma vez que meus conhecimentos expandiam minha visão do mundo, o poder me chamava --e eu poderia ouvi-lo com a mesma lucidez como agora, enquanto reconto minha trajetória terrena-- e, fraco como era, fui subjugado pela tentação que exercia sobre minha fraqueza carnal. A espada era minha vocação, e não hesitei em segui-la. Talvez, tudo fosse diferente caso pensasse em ficar para trás, aprofundar a instrução que, em um dos velhos palácios tomados pelos sarracenos, haviam incentivado por não querer um dos seus completamente desprovido de bom senso, como uma vez me contaram. Era religioso, de fato, porém não era espiritualista. Justificava minhas faltas pelas falas de Alá. Não compreendia como os outros não aceitavam a maneira pela qual Ele moldou o mundo.
A juventude, meus caros, é uma armadilha necessária para nossa evolução. Pouquíssimos são aqueles que passam por ela intactos. Um jovem que saiu da pobreza e conheceu tudo o que lhe faltara até então... desenvolverá vícios e, se tiver juízo, saberá cortá-los. No meu caso, digo que não soube. Oh, não. Salazar pensava alto e ele queria mais. Hábitos que valorizassem o saber, afinal, Alá não permitira que todos permanecessem na ignorância. E os juízos de valores seriam suplantados por sua sabedoria divina.
Mas o mundo era permeado em guerras. Ouvia notícias delas e meu temperamento juvenil borbulhava impaciente para derrotar os inimigos cristãos. A verdade é que éramos lados diferentes da mesma moeda. E ali, no velho palácio, enquanto observava o pôr do sol em mais um dia de verão, vendo a luz deixar as moradas para que a sombra tomasse conta, refletia a respeito disso quando ouvi uma voz aproximar-se de mim.
--Este é seu canto preferido, longe das festividades e das preces. Isolado da multidão que tanto o adora, dos poetas que louvam seu charme e dos homens que recitam seus feitos em batalha.
Sorri ao reconhecê-la. Samira Abduh'uz era minha companheira desde o momento em que havia colocado os pés naquele palácio. Havia me acolhido como seu amigo e se responsabilizou por me inteirar na cultura muçulmana. Adorava dançar e podia falar diversas línguas, embora sua preferida fosse a persa. Quando brincávamos, em geral ela me levava ao quintal e ali fingíamos performar. Uma peça de teatro em persa, pois assim não seríamos repreendidos por aqueles mais religiosos. De todo o modo, dificilmente nos descobriam... provavelmente porque Samira e eu éramos os favoritos do local.
Conheciamo-nos perfeitamente bem, e admito que meu orgulho e minha vaidade foram bastante magoados quando ela foi casada com outro homem. Naquele verão, provavelmente contava 25 anos e já era experiente em batalhas, como ela mencionou de antemão: havia lutado contra os cristãos em variados momentos e, apesar de termos perdido incontáveis vezes, nem tudo foi perdido e obtivemos vitórias também. Como podem ver, era tolamente apaixonado por aquela mulher e não aceitava que, de todos os louros colhidos, ela não fosse minha esposa.
--Estava contemplando o passado--disse, reflexivo--Pergunto-me como os faraós deviam desfrutar desse local... Há tanto tempo atrás, eles eram louvados pelos povos vizinhos pela sabedoria que cultivavam... a despeito da idolatria. E, entretanto, tantos séculos depois, continuamos a venerá-los.
Ela se aproximou de mim, e eu podia sentir aquele cheiro familiar. Seu perfume me inebriava e não havia como escapar dele, tão fácil me prendia como uma cobra quando capturava sua presa. Samira era minha fraqueza, e acredito que ela tinha ciência disso. Sempre teve.
--Somos seus herdeiros agora--ela me disse tranquilamente, mas percebi o orgulho que denotava de sua voz--Feitos dos resquícios de uma velha civilização, criaremos outra.
--Será?--e pus me ao seu lado, encarando seus grandes olhos verdes que me miravam com ternura--Sinto que não é meu destino ficar aqui, Sami.
--É claro que não--Samira pôs uma mão em minha bochecha e pude ver, sob a máscara da calmaria, a tristeza de uma tempestade que se formava--Você é grandioso para nós, Salazar. Alá tem planos para você, certamente longe disso tudo. O antigo não é seu para governar, mas o novo... Certamente.
Ri diante das palavras que soavam uma profecia diante de meus ouvidos, como se uma predição ditasse todo o meu destino. A vaidade nos envolve e enfraquece a carne se não estivermos dispostos a enfrentar nossos demônios e lidarmos com a realidade crua da vida. E, à bem da verdade, não estava. Acreditei piamente nas palavras que ela dizia, ainda que a dor da separação --que, à época, pensava ser definitiva-- me fosse sentida internamente. No entanto, se não éramos casados, não teria por que me lamentar pela perda... Tal era o orgulho que, como veneno, corroía em meu ser, espreitando pelas boas qualidades que tinha a fim de sufocá-las na falsa escusa em me proteger. Hoje em dia, vocês chamam isso de autosabotagem.
--Não está feliz por mim? --ousei indagar--Sabe que, por mais satisfeito que me sinta aqui, me sinto preso e limitado por tudo isso. Uma vida de riquezas não é para mim, Sami.
--É claro que estou feliz por você --ela exclamou, magoada--Como não poderia? É tudo o que gostaria de ser, livre.
Eis que não havia me dado conta de que Samira nunca tomara decisão sobre sua vida: tudo nela havia sido cuidadosamente manuseado por outros. Como uma boneca, passava de mão a mão, seja por seu pai, irmão ou marido, o quer quer que gostaria de fazer... para isso precisaria consultar um deles. Apesar de ter sido feito prisioneiro desde tenra idade, desfrutei muito mais dessa liberdade do que ela. Como poderia o ser humano tratar seu igual de maneira inferior? Como poderíamos justificar a falsa superioridade masculina baseada em escritos de Deus? Por amor a Ele, muitos sequer pensavam.
--Sinto muito--falei, e a envolvi em meus braços--Não queria que você tivesse essa vida. É tão infeliz assim?
Ela levantou aqueles olhos para mim, e enquanto sentia o véu que cobria seus cabelos negros escorregar de suas costas, nossos olhares se encontraram. Impetuoso como era, não esperei por uma resposta, talvez porque já a soubesse. E a beijei ardentemente.
Samira guinchou surpresa, mas não resistiu. Ela queria aquilo também porque sentia o mesmo que eu. Voltávamos a outra vida juntos e, novamente, não a compartilharíamos. Assim estava escrito o destino. Enquanto o silêncio permanecia inalterável, o beijo durava. Contra minha vontade, todavia, o interrompi.
--Venha... Venha comigo--ouvi-me dizendo--Para a cama agora, e para o sempre depois. Esqueça-o e venha comigo.
Quando amamos de verdade, pensamos genuinamente em outra pessoa. Esquecemos o egoísmo, o orgulho, a vaidade; nossa felicidade é nada se comparada a do ser amado. Não há sentimento mais puro e abençoado do que o amor. Era como se houvesse regenerado minhas piores partes, como se estivesse em contato com a luz. Mas, para alguém acostumado com a escuridão, era certo que eventualmente me queimaria caso não tivesse cuidado.
E ela sentia o mesmo. Não era um sentimento daquela vida, mas de várias. A familiaridade era sentida no ar, quando, sem a necessidade de verbalizar o que passava em nossos corações, pressentimos outro adeus. Era por isso que chorava. Aquela seria a última vez...
--Não posso--sua voz, engasgada com tudo o que não fora dito, assim se pronunciou--Não posso. Tenho deveres a cumprir.
--Isso tudo é mundano--murmurei--Nada disso importa. Alá nos abençoará!
Doía-me mais do que muitas facadas, ferimentos de guerra, saber que ela preferia as atas daquela vida que só lhe causava miséria e infelicidade do que a arriscar tudo isso para viver feliz comigo.
--Sei que sim, mas conhece meu marido. Ele é poderoso demais e não aceitaria... Perseguiria a nós dois até que acabássemos mortos. Perdoe-me, Sal. Por favor--ela implorou, e vi em seus olhos que fazia aquilo não por ela, mas por mim, por nós.
Beijei-a novamente. Embora profundamente magoado, queimado pela luz sentida--em vez de aproveitá-la, me afastei, voltando para a escuridão--a perdoei. Mas pedi que passasse aquela noite comigo e, porque o marido estava ausente da corte, ela concedeu. Jamais me esqueci de como, sob a lua cheia que afastava as nuvens para iluminar o aposento, nos amamos com tamanha intensidade.
--Luar, luar, como brilha a lua--cantarolei em sussurros contra o ouvido da bela Samira, quando ela se aninhou contra meus braços e, em meio ao sono que a tomava, acabou dormindo--Em meio à noite, guia-nos para a chuva.. .a chuva de felicidade na qual um dia iremos nos deleitar.
Quando, na manhã seguinte, despertei, Samira havia ido embora. Foi uma sensação que me abalou muitíssimo, mas compreendi ser necessária. Afinal, nos dias próximos parti para o oeste. Nada mais me prendia ao Egito.
1150
Aquele cuja túnica era negra como a noite sem estrelas deu um passo a frente, descobriu o rosto e assim, se pronunciou:
--O senhor sabe muito bem porque viemos aqui--e eis que seus olhos negros repousaram em mim--Precisamos do garoto.
Meu pai exclamou, protestou, mas foi tudo em vão. Logo descobriria que eles me tomaram porque minha família estava em dívidas para com aqueles estranhos. Também saberia que aqueles homens eram sarracenos, e não demoraria muito para que me tornasse um deles.
Salazar, o nome que me deram. Em voga à época, sabe-se lá por quê. Bem, fui treinado nas artes que, à época, os cristãos chamavam de 'negras' por se perderem na ignorância de seus tempos, marcada por uma hegemonia da Igreja que pouco disseminava a palavra de Cristo. Ao contrário, usava o amor como discurso para a violência. Conheci a religião muçulmana, o saber de Alá; fui apresentado à medicina, às práticas desdenhosamente chamadas de 'magia obscura'. Desenvolvi o dom da cura, aprendi como pronunciar as palavras. Tornei-me letrado. Minha infância infeliz se dissolveu, substituída pela juventude que descobria um novo mundo. Assim como na caverna de Platão, quase fiquei cego pela luz quando a encontrei.
Muito me apetecia conhecer os mistérios da medicina e da cura, mas meu verdadeiro dom... estava na espada. Tal objeto era, para mim, como a última palavra dos juízes: usava-o conforme acreditava na inocência do indivíduo, ou na sua culpabilidade quando cometia um crime horrendo. Vejam, pois! Sem ter qualquer formação voltada para o direito, usufruía das leis de acordo com minhas crenças pessoais. Chamem de ego, vaidade... O que for! Mas atire a primeira pedra quem não julgou o próximo da mesma forma, não necessariamente da forma literal.
Como podem ver, uma vez que meus conhecimentos expandiam minha visão do mundo, o poder me chamava --e eu poderia ouvi-lo com a mesma lucidez como agora, enquanto reconto minha trajetória terrena-- e, fraco como era, fui subjugado pela tentação que exercia sobre minha fraqueza carnal. A espada era minha vocação, e não hesitei em segui-la. Talvez, tudo fosse diferente caso pensasse em ficar para trás, aprofundar a instrução que, em um dos velhos palácios tomados pelos sarracenos, haviam incentivado por não querer um dos seus completamente desprovido de bom senso, como uma vez me contaram. Era religioso, de fato, porém não era espiritualista. Justificava minhas faltas pelas falas de Alá. Não compreendia como os outros não aceitavam a maneira pela qual Ele moldou o mundo.
A juventude, meus caros, é uma armadilha necessária para nossa evolução. Pouquíssimos são aqueles que passam por ela intactos. Um jovem que saiu da pobreza e conheceu tudo o que lhe faltara até então... desenvolverá vícios e, se tiver juízo, saberá cortá-los. No meu caso, digo que não soube. Oh, não. Salazar pensava alto e ele queria mais. Hábitos que valorizassem o saber, afinal, Alá não permitira que todos permanecessem na ignorância. E os juízos de valores seriam suplantados por sua sabedoria divina.
Mas o mundo era permeado em guerras. Ouvia notícias delas e meu temperamento juvenil borbulhava impaciente para derrotar os inimigos cristãos. A verdade é que éramos lados diferentes da mesma moeda. E ali, no velho palácio, enquanto observava o pôr do sol em mais um dia de verão, vendo a luz deixar as moradas para que a sombra tomasse conta, refletia a respeito disso quando ouvi uma voz aproximar-se de mim.
--Este é seu canto preferido, longe das festividades e das preces. Isolado da multidão que tanto o adora, dos poetas que louvam seu charme e dos homens que recitam seus feitos em batalha.
Sorri ao reconhecê-la. Samira Abduh'uz era minha companheira desde o momento em que havia colocado os pés naquele palácio. Havia me acolhido como seu amigo e se responsabilizou por me inteirar na cultura muçulmana. Adorava dançar e podia falar diversas línguas, embora sua preferida fosse a persa. Quando brincávamos, em geral ela me levava ao quintal e ali fingíamos performar. Uma peça de teatro em persa, pois assim não seríamos repreendidos por aqueles mais religiosos. De todo o modo, dificilmente nos descobriam... provavelmente porque Samira e eu éramos os favoritos do local.
Conheciamo-nos perfeitamente bem, e admito que meu orgulho e minha vaidade foram bastante magoados quando ela foi casada com outro homem. Naquele verão, provavelmente contava 25 anos e já era experiente em batalhas, como ela mencionou de antemão: havia lutado contra os cristãos em variados momentos e, apesar de termos perdido incontáveis vezes, nem tudo foi perdido e obtivemos vitórias também. Como podem ver, era tolamente apaixonado por aquela mulher e não aceitava que, de todos os louros colhidos, ela não fosse minha esposa.
--Estava contemplando o passado--disse, reflexivo--Pergunto-me como os faraós deviam desfrutar desse local... Há tanto tempo atrás, eles eram louvados pelos povos vizinhos pela sabedoria que cultivavam... a despeito da idolatria. E, entretanto, tantos séculos depois, continuamos a venerá-los.
Ela se aproximou de mim, e eu podia sentir aquele cheiro familiar. Seu perfume me inebriava e não havia como escapar dele, tão fácil me prendia como uma cobra quando capturava sua presa. Samira era minha fraqueza, e acredito que ela tinha ciência disso. Sempre teve.
--Somos seus herdeiros agora--ela me disse tranquilamente, mas percebi o orgulho que denotava de sua voz--Feitos dos resquícios de uma velha civilização, criaremos outra.
--Será?--e pus me ao seu lado, encarando seus grandes olhos verdes que me miravam com ternura--Sinto que não é meu destino ficar aqui, Sami.
--É claro que não--Samira pôs uma mão em minha bochecha e pude ver, sob a máscara da calmaria, a tristeza de uma tempestade que se formava--Você é grandioso para nós, Salazar. Alá tem planos para você, certamente longe disso tudo. O antigo não é seu para governar, mas o novo... Certamente.
Ri diante das palavras que soavam uma profecia diante de meus ouvidos, como se uma predição ditasse todo o meu destino. A vaidade nos envolve e enfraquece a carne se não estivermos dispostos a enfrentar nossos demônios e lidarmos com a realidade crua da vida. E, à bem da verdade, não estava. Acreditei piamente nas palavras que ela dizia, ainda que a dor da separação --que, à época, pensava ser definitiva-- me fosse sentida internamente. No entanto, se não éramos casados, não teria por que me lamentar pela perda... Tal era o orgulho que, como veneno, corroía em meu ser, espreitando pelas boas qualidades que tinha a fim de sufocá-las na falsa escusa em me proteger. Hoje em dia, vocês chamam isso de autosabotagem.
--Não está feliz por mim? --ousei indagar--Sabe que, por mais satisfeito que me sinta aqui, me sinto preso e limitado por tudo isso. Uma vida de riquezas não é para mim, Sami.
--É claro que estou feliz por você --ela exclamou, magoada--Como não poderia? É tudo o que gostaria de ser, livre.
Eis que não havia me dado conta de que Samira nunca tomara decisão sobre sua vida: tudo nela havia sido cuidadosamente manuseado por outros. Como uma boneca, passava de mão a mão, seja por seu pai, irmão ou marido, o quer quer que gostaria de fazer... para isso precisaria consultar um deles. Apesar de ter sido feito prisioneiro desde tenra idade, desfrutei muito mais dessa liberdade do que ela. Como poderia o ser humano tratar seu igual de maneira inferior? Como poderíamos justificar a falsa superioridade masculina baseada em escritos de Deus? Por amor a Ele, muitos sequer pensavam.
--Sinto muito--falei, e a envolvi em meus braços--Não queria que você tivesse essa vida. É tão infeliz assim?
Ela levantou aqueles olhos para mim, e enquanto sentia o véu que cobria seus cabelos negros escorregar de suas costas, nossos olhares se encontraram. Impetuoso como era, não esperei por uma resposta, talvez porque já a soubesse. E a beijei ardentemente.
Samira guinchou surpresa, mas não resistiu. Ela queria aquilo também porque sentia o mesmo que eu. Voltávamos a outra vida juntos e, novamente, não a compartilharíamos. Assim estava escrito o destino. Enquanto o silêncio permanecia inalterável, o beijo durava. Contra minha vontade, todavia, o interrompi.
--Venha... Venha comigo--ouvi-me dizendo--Para a cama agora, e para o sempre depois. Esqueça-o e venha comigo.
Quando amamos de verdade, pensamos genuinamente em outra pessoa. Esquecemos o egoísmo, o orgulho, a vaidade; nossa felicidade é nada se comparada a do ser amado. Não há sentimento mais puro e abençoado do que o amor. Era como se houvesse regenerado minhas piores partes, como se estivesse em contato com a luz. Mas, para alguém acostumado com a escuridão, era certo que eventualmente me queimaria caso não tivesse cuidado.
E ela sentia o mesmo. Não era um sentimento daquela vida, mas de várias. A familiaridade era sentida no ar, quando, sem a necessidade de verbalizar o que passava em nossos corações, pressentimos outro adeus. Era por isso que chorava. Aquela seria a última vez...
--Não posso--sua voz, engasgada com tudo o que não fora dito, assim se pronunciou--Não posso. Tenho deveres a cumprir.
--Isso tudo é mundano--murmurei--Nada disso importa. Alá nos abençoará!
Doía-me mais do que muitas facadas, ferimentos de guerra, saber que ela preferia as atas daquela vida que só lhe causava miséria e infelicidade do que a arriscar tudo isso para viver feliz comigo.
--Sei que sim, mas conhece meu marido. Ele é poderoso demais e não aceitaria... Perseguiria a nós dois até que acabássemos mortos. Perdoe-me, Sal. Por favor--ela implorou, e vi em seus olhos que fazia aquilo não por ela, mas por mim, por nós.
Beijei-a novamente. Embora profundamente magoado, queimado pela luz sentida--em vez de aproveitá-la, me afastei, voltando para a escuridão--a perdoei. Mas pedi que passasse aquela noite comigo e, porque o marido estava ausente da corte, ela concedeu. Jamais me esqueci de como, sob a lua cheia que afastava as nuvens para iluminar o aposento, nos amamos com tamanha intensidade.
--Luar, luar, como brilha a lua--cantarolei em sussurros contra o ouvido da bela Samira, quando ela se aninhou contra meus braços e, em meio ao sono que a tomava, acabou dormindo--Em meio à noite, guia-nos para a chuva.. .a chuva de felicidade na qual um dia iremos nos deleitar.
Quando, na manhã seguinte, despertei, Samira havia ido embora. Foi uma sensação que me abalou muitíssimo, mas compreendi ser necessária. Afinal, nos dias próximos parti para o oeste. Nada mais me prendia ao Egito.
1150
Vinte anos se passaram desde então. Não retornei mais ao Egito, jamais olhei para trás. Samira não foi esquecida, apenas posta de lado. O passado não me pertencia mais e rezava apenas para o futuro quando vivia um presente perigoso.
Uma luta por crenças, uma batalha pela fé... Assim éramos, tanto um lado quanto o outro, movidos em prol da matéria que tão tolamente confundíamos com o espírito. Não, meus caros. A responsabilidade era toda nossa. O sangue que se espalhou no chão, os gritos que ecoavam nas noites vazias, as vidas arrancadas... A morte que cercava a todos nós, foi trazida por nós mesmos. É preciso reconhecer isso. Em meio à adrenalina, contudo, faltava-nos a razão.
--Eis o que vamos fazer--assim falei aos meus colegas quando estávamos reunidos ao redor do fogo--O inimigo vem, e sabe o que vamos fazer? Chamá-los para o centro. Esconderemo-nos nos pontos estratégicos--apontei para as mais altas montanhas, as cordilheiras que propiciavam caminhos que já nos eram familiares--e quando eles se aproximarem, atacaremos.
Dei um sorriso malicioso, olhando cada companheiro nos olhos. Já não era jovem e vigoroso como antes, ainda assim, porém, era mais forte que muitos reis cristãos. Havia melhorado em muitos termos, porém, piorado em tantos outros. Minha barba havia crescido à altura do pescoço, e a prendi em um pedaço de ouro; minha pele estava queimada pela exposição ao sol, mas meus olhos castanhos enxergavam cada vez mais no escuro. Meus sentidos estavam constantemente alertas e jamais, jamais deixava de lado minha espada. Normalmente, carregava duas adagas e uma espada longa comigo, mas o uso das adagas facilitava bastante nos combates corpo-a-corpo quando se via vantagem sobre o inimigo. Não era regra, naturalmente, pois era preciso cautela. Antes de uma batalha, mirava a todos os cavalheiros que vinham ao meu encontro com sua cruz vermelha estampada orgulhosamente em seu peito, o elmo cobrindo suas feições e abafando os gritos de ódio contra nós... Habilidosos muitos ali eram, admito. Não há vergonha em reconhecer a honra no inimigo.
Mas conheci muitos traidores. Homens que fingiam diplomacia apenas para tentar nos atacar à noite, homens que fingiam honra para buscar uma oportunidade de nos matar fácil, infiltrando-se em nosso acampamento, ansiando pela chance de destruir nossa fé, nossas relíquias e julgando-nos infiéis. Um em particular chegou a morrer pelas minhas mãos. Seu nome era Andieu, ele era francês. Não era muito alto, embora fosse forte e gracioso enquanto montava seu cavalo; era sério, retraído, um homem que reprimia suas paixões. Por ter se apaixonado pela esposa de algum nobre, juntou-se aos nobres templários. Seus olhos verdes escuros eram astuciosos, e digo-lhes que os olhos são bastante indicativos de caráter quando bem observados, afinal, refletem o espírito e o que se passa nele. Convenceu meus homens de sua sinceridade quando foi capturado e implorou pela vida. Em uma noite, contou a história de seu amor proibido, disse que repugnava a violência, que não acreditava ser honesto seguir Cristo e, paradoxalmente, em seu nome deixar um rastro de mortes. Observei-o atentamente.
As chamas da fogueira ilustravam seu belo rosto angular, suas feições esquisitamente francesas: o longo nariz, as sobrancelhas cheias e a barba que crescia sem qualquer cuidado sobre o rosto; os cabelos encaracolados igualmente desajeitados, mal cuidados. Sua aparência era, em suma, suja, mas esquecíamos destes pormenores quando ele falava. Como um ator, sua eloquência era chamativa, e o desgraçado sabia como envolver a nós todos em sua narrativa.
--Seu nome era Aliénor, e era a mulher mais bela do reino. Rica de posses, graciosa em suas maneiras e, digo-lhes mais, que curvas, meus senhores! Comparada, de fato, à rainha que leva seu nome, Aliénor era, no entanto, menos que a esposa de um rei. Seus cabelos louros enfeitiçavam todos em qualquer lugar que estivesse, e não havia homem que não se afundasse em seus gentis olhos azuis. Era tão inteligente, gostava de poesia, olha que surpresa! Pois sim, as mulheres de nosso lar têm a permissão de ler e ouvir histórias dessa natureza.
"Era a consorte de um duque, como contava aos senhores, e eu? Quem sou eu se não inferior, vindo de uma família obscura e destinado ao cargo da Igreja? Não é irônico como terminei servindo a Deus de alguma maneira? Mas foi pelo pecado, oh sim, que terminei aqui. Apaixonei-me pela mencionada dama quando, um dia, ela me notou. Dançamos diante de todos os nobres, e como sussurravam os invejosos homens que não receberam sua atenção!
"Fui mui gracioso ao bailar com a dama Aliénor, e não demorou muito para que descobríssemos gostos em comum. Os contos cavalheirescos, a corte do amor, os poemas declamados! E, no entanto, o amor sucumbiu, não por muito tempo, à luxúria e logo consumamos o amor. Por algumas luas, isso continuou até o dia em que fui pego. A senhora implorou de joelhos ao rei para que o amante não fosse punido, e a rainha, que muito apetecia sua presença, acolheu-a como sua dama de companhia depois disso e em meu favor falou. E cá estou."
Vi que muitos dos meus homens ouviam assombrados. Quase nunca recebíamos relatos de tal natureza acerca do que acontece nos reinos cristãos. Admito que essa história me tocou da mesma maneira, pois me recordei do amor que sentia por Samira. Perguntei a mim mesmo se ela vivia, e uma dor rasgou meu peito naquela noite, pois o pressentimento que tinha era de que há tanto tempo minha amada partira deste mundo.
Desse modo, levantei-me e optei pela solidão. Deixei que a conversa acontecesse, que Andieu tagarelasse o que tinha para tagarelar com meus homens e deixei que a escuridão me envolvesse. Estava sentado no topo da montanha e permiti me livrar um pouco da túnica que cobria meu corpo. O vento uivava, mas era como se me protegesse. Nada temia, pois era um selvagem na melhor concepção do termo. Pertencia à natureza, e a natureza me pertencia. Éramos um igual, e por isso que era temido.
--Percebi que o senhor desapareceu quando contava sobre as mulheres da corte do rei Louis--a voz do francês intrometido ecoou não muito longe de onde estava. Instintivamente levei a mão à adaga que carregava ao meu lado. Aguardei por movimentos que o traíssem, afinal, estava sozinho e podia muito bem ser assassinado a qualquer momento. No fundo do meu ser, sabia que aquele homem não era confiável.
--Pouco me interessa saber de suas mulheres--retruquei, soando tão distante e sem emoções quando podia. Havia outro lado da verdade contada, e que ninguém jamais saberia: o quanto sentia falta de Samira, e como a história dele me lembrava a que havia vivido tanto tempo atrás--Por que veio aqui, afinal?
--Gostaria de conhecê-lo melhor--Andieu teve a audácia de sentar-se ao meu lado. Certamente, querendo conquistar minha confiança--É temido por outros.
Pela primeira vez em tanto tempo, ri. Mas não ousei encará-lo.
--Temido?
--Temido--afirmou o francês, soando admirado--Dizem que é cruel e inabalável nas batalhas, que é o diabo em pessoa que faz prevalecer o terror nos homens mais fracos.
Minha risada desta vez ecoou mais forte e olhei para o estrangeiro. Encarei-o intensamente até fazê-lo dar de ombros.
--É assim que falam? Quando um inimigo não-cristão derrota seus semelhantes é chamado de diabo? Se lutam por Deus, por que Ele não lhes concede incontáveis vitórias? Que reputação é essa que tenho quando o que eu faço é defender meu povo, nossa fé de vocês?
Talvez houvesse falado demais. Que importa? Sacudi a cabeça e voltei a encarar a escuridão. A morte me cercava e eu esperava pela apunhalada imprevisível, pelos passos que não veria, pelo golpe que mal sentiria... Ouvi a respiração tensa de meu prisioneiro e tive minhas suspeitas confirmadas. Mas ele não era o cavalheiro das histórias contadas, não tinha honra, era apenas um covarde. Um filho de Deus cujo instinto de sobrevivência bradava o peito a fim de derrotar-me.
O silêncio, conforme aprendi no decorrer desses anos, costumava ser um excelente indício de caráter. Não demorei a perceber as intenções de Andieu, que fez um som de limpar a garganta antes de prosseguir:
--A coragem tem qualidades estranhas em homens diferentes de nós, presumo.
--O que você chama de coragem, forasteiro, vejo como honra.
--E a honra é o que move os infiéis?
Senti uma risada sufocada na pergunta feita, mas apenas voltei meu olhar para ele. Mesmo na escuridão, via os traços de sua presença. Eu o via como era.
--E o que move os cristãos? O que move a fé?
--A crença.
--A crença, você diz. E no que você crê? No que foi levado a crê? Somos tão diferentes assim, afinal? Louvamos a um só Deus, mas praticamos a religiosidade de outra maneira--no breu, sorri, pois ele sentia-se incomodado ante ao que ouvia--Não negue o que digo. Os pecados, todos eles, são o que nos movem. E, no entanto, não é preciso conhecê-los, sofrê-los todos antes de alcançar a salvação? Ah, Andieu. Você não me engana.
Quando as palavras são ditas e levadas pelo vento, elas açoitam aqueles cuja consciência só têm a temer. Pela tensão dos movimentos de Andieu, vi aonde seria levado. Repousei minha mão na adaga, preparando-me para o ápice da conversa.
--Em que erramos, me diga? Não foram vocês que expulsaram nosso povo e depois, procuraram por nosso conhecimento? Chama-me de infiel, mas o senhor não soube respeitar seu superior, seduziu sua esposa e cometeu adultério com a mesma--aqui, endureci minha voz--Enfeita seus feitios quanto quiser, mas o pecador, ao que me parece, é você. Com qual honra vem se infiltrar em meu acampamento, iludir a todos nós somente para que amanhã--e eu me levantei, minha voz elevando-se pouco a pouco--traga inúmeros homens para tirar de nós a vida que vocês não conceberam?
Não houve resposta do contador de histórias. Andieu provou-se ser apenas o sedutor, o mentiroso e desonroso homem que suspeitava ser desde o princípio. Ele veio me atacar, confiando arrogantemente em seus movimentos, mas esqueceu-se de que conheci bem demais a escuridão para temê-la. Em questão de segundos, desarmei-o e convoquei meus homens.
--Não sei por que o choque--disse, friamente, quando eles chegaram ao topo, com as tochas em mãos--Não sabem que não devemos confiar em cristãos? Quero-o executado, porém, apenas amanhã cedo, quando o sol raiar.
--Vocês morrerão! --berrou Andieu, atado por seus inimigos--Sofrerão por ter povoado a terra de Deus, pela heresia cometida contra Sua Santa Igreja.
--Há apenas um Deus--eu disse, no mesmo tom, antes de me afastar.
Quando os raios do sol iluminaram onde nós estávamos, fiz questão de levar o prisioneiro para o ponto principal do lugar onde tinha ciência de que os templários viriam. Desembainhei a espada enquanto meu braço direito segurava Andieu. Ele estava de joelhos, os olhos me encarando com ódio e desprezo. Virei-me para ele e, calmamente, falei:
--Que Alá o perdoe por todos os crimes que cometeu contra nós e os seus semelhantes.
Como havia mencionado antes, a espada que eu carregava era a sentença a ser promulgada. Uma vez culpado, Andieu foi vítima de suas escolhas e por ela morreu. Deixei o corpo ali, pois era um aviso. Um aviso de que não pouparíamos ninguém.
Em nome de Deus, cometemos perjúrios, atrocidades e tantos outros tipos de violência. A morte foi minha aliada, a escuridão, minha amante, e meus demônios, meus companheiros. A chuva de flechas que jogaram contra nós não impediu da fúria consumi-los, mas o fogo... Oh, sim. Dispersou a todos nós, mas se pela espada matei, por ela fui morto.
--Não há Alá que o salve agora--foi o último sussurro que ouvi antes de deixar o corpo que, por tanto tempo, habitei.
Colecionei arrependimentos, cometi erros, tirei vidas, julguei como fui julgado, traído e morto. Construí uma reputação sem meu consentimento, vivi por uma fé que se voltava mais para mim do que para o próximo. Senti a dor, tantas dores daqueles cujo golpe sem misericórdia desferi; senti o ódio, tanto ódio provocado sem justificativa por mim, como também dirigido a mim sem qualquer conhecimento de causa. Senti a miséria e infelicidade dos que por mim foram vítimas, de uma forma ou outra.
Os desejos da carne que não se dissiparam me arrastaram até o luar, e torturaram-me até que pudesse aprender a perdoar. A arrogância é a queda do homem, abre o caminho para vícios piores e invisíveis, mas, da mesma maneira, o amor é sua redenção. A luz para a escuridão, a cura para a doença, o consolo para a perda, o remédio para a dor. E é por isso que digo apenas isso: luar, luar, como brilha a lua....
Uma luta por crenças, uma batalha pela fé... Assim éramos, tanto um lado quanto o outro, movidos em prol da matéria que tão tolamente confundíamos com o espírito. Não, meus caros. A responsabilidade era toda nossa. O sangue que se espalhou no chão, os gritos que ecoavam nas noites vazias, as vidas arrancadas... A morte que cercava a todos nós, foi trazida por nós mesmos. É preciso reconhecer isso. Em meio à adrenalina, contudo, faltava-nos a razão.
--Eis o que vamos fazer--assim falei aos meus colegas quando estávamos reunidos ao redor do fogo--O inimigo vem, e sabe o que vamos fazer? Chamá-los para o centro. Esconderemo-nos nos pontos estratégicos--apontei para as mais altas montanhas, as cordilheiras que propiciavam caminhos que já nos eram familiares--e quando eles se aproximarem, atacaremos.
Dei um sorriso malicioso, olhando cada companheiro nos olhos. Já não era jovem e vigoroso como antes, ainda assim, porém, era mais forte que muitos reis cristãos. Havia melhorado em muitos termos, porém, piorado em tantos outros. Minha barba havia crescido à altura do pescoço, e a prendi em um pedaço de ouro; minha pele estava queimada pela exposição ao sol, mas meus olhos castanhos enxergavam cada vez mais no escuro. Meus sentidos estavam constantemente alertas e jamais, jamais deixava de lado minha espada. Normalmente, carregava duas adagas e uma espada longa comigo, mas o uso das adagas facilitava bastante nos combates corpo-a-corpo quando se via vantagem sobre o inimigo. Não era regra, naturalmente, pois era preciso cautela. Antes de uma batalha, mirava a todos os cavalheiros que vinham ao meu encontro com sua cruz vermelha estampada orgulhosamente em seu peito, o elmo cobrindo suas feições e abafando os gritos de ódio contra nós... Habilidosos muitos ali eram, admito. Não há vergonha em reconhecer a honra no inimigo.
Mas conheci muitos traidores. Homens que fingiam diplomacia apenas para tentar nos atacar à noite, homens que fingiam honra para buscar uma oportunidade de nos matar fácil, infiltrando-se em nosso acampamento, ansiando pela chance de destruir nossa fé, nossas relíquias e julgando-nos infiéis. Um em particular chegou a morrer pelas minhas mãos. Seu nome era Andieu, ele era francês. Não era muito alto, embora fosse forte e gracioso enquanto montava seu cavalo; era sério, retraído, um homem que reprimia suas paixões. Por ter se apaixonado pela esposa de algum nobre, juntou-se aos nobres templários. Seus olhos verdes escuros eram astuciosos, e digo-lhes que os olhos são bastante indicativos de caráter quando bem observados, afinal, refletem o espírito e o que se passa nele. Convenceu meus homens de sua sinceridade quando foi capturado e implorou pela vida. Em uma noite, contou a história de seu amor proibido, disse que repugnava a violência, que não acreditava ser honesto seguir Cristo e, paradoxalmente, em seu nome deixar um rastro de mortes. Observei-o atentamente.
As chamas da fogueira ilustravam seu belo rosto angular, suas feições esquisitamente francesas: o longo nariz, as sobrancelhas cheias e a barba que crescia sem qualquer cuidado sobre o rosto; os cabelos encaracolados igualmente desajeitados, mal cuidados. Sua aparência era, em suma, suja, mas esquecíamos destes pormenores quando ele falava. Como um ator, sua eloquência era chamativa, e o desgraçado sabia como envolver a nós todos em sua narrativa.
--Seu nome era Aliénor, e era a mulher mais bela do reino. Rica de posses, graciosa em suas maneiras e, digo-lhes mais, que curvas, meus senhores! Comparada, de fato, à rainha que leva seu nome, Aliénor era, no entanto, menos que a esposa de um rei. Seus cabelos louros enfeitiçavam todos em qualquer lugar que estivesse, e não havia homem que não se afundasse em seus gentis olhos azuis. Era tão inteligente, gostava de poesia, olha que surpresa! Pois sim, as mulheres de nosso lar têm a permissão de ler e ouvir histórias dessa natureza.
"Era a consorte de um duque, como contava aos senhores, e eu? Quem sou eu se não inferior, vindo de uma família obscura e destinado ao cargo da Igreja? Não é irônico como terminei servindo a Deus de alguma maneira? Mas foi pelo pecado, oh sim, que terminei aqui. Apaixonei-me pela mencionada dama quando, um dia, ela me notou. Dançamos diante de todos os nobres, e como sussurravam os invejosos homens que não receberam sua atenção!
"Fui mui gracioso ao bailar com a dama Aliénor, e não demorou muito para que descobríssemos gostos em comum. Os contos cavalheirescos, a corte do amor, os poemas declamados! E, no entanto, o amor sucumbiu, não por muito tempo, à luxúria e logo consumamos o amor. Por algumas luas, isso continuou até o dia em que fui pego. A senhora implorou de joelhos ao rei para que o amante não fosse punido, e a rainha, que muito apetecia sua presença, acolheu-a como sua dama de companhia depois disso e em meu favor falou. E cá estou."
Vi que muitos dos meus homens ouviam assombrados. Quase nunca recebíamos relatos de tal natureza acerca do que acontece nos reinos cristãos. Admito que essa história me tocou da mesma maneira, pois me recordei do amor que sentia por Samira. Perguntei a mim mesmo se ela vivia, e uma dor rasgou meu peito naquela noite, pois o pressentimento que tinha era de que há tanto tempo minha amada partira deste mundo.
Desse modo, levantei-me e optei pela solidão. Deixei que a conversa acontecesse, que Andieu tagarelasse o que tinha para tagarelar com meus homens e deixei que a escuridão me envolvesse. Estava sentado no topo da montanha e permiti me livrar um pouco da túnica que cobria meu corpo. O vento uivava, mas era como se me protegesse. Nada temia, pois era um selvagem na melhor concepção do termo. Pertencia à natureza, e a natureza me pertencia. Éramos um igual, e por isso que era temido.
--Percebi que o senhor desapareceu quando contava sobre as mulheres da corte do rei Louis--a voz do francês intrometido ecoou não muito longe de onde estava. Instintivamente levei a mão à adaga que carregava ao meu lado. Aguardei por movimentos que o traíssem, afinal, estava sozinho e podia muito bem ser assassinado a qualquer momento. No fundo do meu ser, sabia que aquele homem não era confiável.
--Pouco me interessa saber de suas mulheres--retruquei, soando tão distante e sem emoções quando podia. Havia outro lado da verdade contada, e que ninguém jamais saberia: o quanto sentia falta de Samira, e como a história dele me lembrava a que havia vivido tanto tempo atrás--Por que veio aqui, afinal?
--Gostaria de conhecê-lo melhor--Andieu teve a audácia de sentar-se ao meu lado. Certamente, querendo conquistar minha confiança--É temido por outros.
Pela primeira vez em tanto tempo, ri. Mas não ousei encará-lo.
--Temido?
--Temido--afirmou o francês, soando admirado--Dizem que é cruel e inabalável nas batalhas, que é o diabo em pessoa que faz prevalecer o terror nos homens mais fracos.
Minha risada desta vez ecoou mais forte e olhei para o estrangeiro. Encarei-o intensamente até fazê-lo dar de ombros.
--É assim que falam? Quando um inimigo não-cristão derrota seus semelhantes é chamado de diabo? Se lutam por Deus, por que Ele não lhes concede incontáveis vitórias? Que reputação é essa que tenho quando o que eu faço é defender meu povo, nossa fé de vocês?
Talvez houvesse falado demais. Que importa? Sacudi a cabeça e voltei a encarar a escuridão. A morte me cercava e eu esperava pela apunhalada imprevisível, pelos passos que não veria, pelo golpe que mal sentiria... Ouvi a respiração tensa de meu prisioneiro e tive minhas suspeitas confirmadas. Mas ele não era o cavalheiro das histórias contadas, não tinha honra, era apenas um covarde. Um filho de Deus cujo instinto de sobrevivência bradava o peito a fim de derrotar-me.
O silêncio, conforme aprendi no decorrer desses anos, costumava ser um excelente indício de caráter. Não demorei a perceber as intenções de Andieu, que fez um som de limpar a garganta antes de prosseguir:
--A coragem tem qualidades estranhas em homens diferentes de nós, presumo.
--O que você chama de coragem, forasteiro, vejo como honra.
--E a honra é o que move os infiéis?
Senti uma risada sufocada na pergunta feita, mas apenas voltei meu olhar para ele. Mesmo na escuridão, via os traços de sua presença. Eu o via como era.
--E o que move os cristãos? O que move a fé?
--A crença.
--A crença, você diz. E no que você crê? No que foi levado a crê? Somos tão diferentes assim, afinal? Louvamos a um só Deus, mas praticamos a religiosidade de outra maneira--no breu, sorri, pois ele sentia-se incomodado ante ao que ouvia--Não negue o que digo. Os pecados, todos eles, são o que nos movem. E, no entanto, não é preciso conhecê-los, sofrê-los todos antes de alcançar a salvação? Ah, Andieu. Você não me engana.
Quando as palavras são ditas e levadas pelo vento, elas açoitam aqueles cuja consciência só têm a temer. Pela tensão dos movimentos de Andieu, vi aonde seria levado. Repousei minha mão na adaga, preparando-me para o ápice da conversa.
--Em que erramos, me diga? Não foram vocês que expulsaram nosso povo e depois, procuraram por nosso conhecimento? Chama-me de infiel, mas o senhor não soube respeitar seu superior, seduziu sua esposa e cometeu adultério com a mesma--aqui, endureci minha voz--Enfeita seus feitios quanto quiser, mas o pecador, ao que me parece, é você. Com qual honra vem se infiltrar em meu acampamento, iludir a todos nós somente para que amanhã--e eu me levantei, minha voz elevando-se pouco a pouco--traga inúmeros homens para tirar de nós a vida que vocês não conceberam?
Não houve resposta do contador de histórias. Andieu provou-se ser apenas o sedutor, o mentiroso e desonroso homem que suspeitava ser desde o princípio. Ele veio me atacar, confiando arrogantemente em seus movimentos, mas esqueceu-se de que conheci bem demais a escuridão para temê-la. Em questão de segundos, desarmei-o e convoquei meus homens.
--Não sei por que o choque--disse, friamente, quando eles chegaram ao topo, com as tochas em mãos--Não sabem que não devemos confiar em cristãos? Quero-o executado, porém, apenas amanhã cedo, quando o sol raiar.
--Vocês morrerão! --berrou Andieu, atado por seus inimigos--Sofrerão por ter povoado a terra de Deus, pela heresia cometida contra Sua Santa Igreja.
--Há apenas um Deus--eu disse, no mesmo tom, antes de me afastar.
Quando os raios do sol iluminaram onde nós estávamos, fiz questão de levar o prisioneiro para o ponto principal do lugar onde tinha ciência de que os templários viriam. Desembainhei a espada enquanto meu braço direito segurava Andieu. Ele estava de joelhos, os olhos me encarando com ódio e desprezo. Virei-me para ele e, calmamente, falei:
--Que Alá o perdoe por todos os crimes que cometeu contra nós e os seus semelhantes.
Como havia mencionado antes, a espada que eu carregava era a sentença a ser promulgada. Uma vez culpado, Andieu foi vítima de suas escolhas e por ela morreu. Deixei o corpo ali, pois era um aviso. Um aviso de que não pouparíamos ninguém.
Em nome de Deus, cometemos perjúrios, atrocidades e tantos outros tipos de violência. A morte foi minha aliada, a escuridão, minha amante, e meus demônios, meus companheiros. A chuva de flechas que jogaram contra nós não impediu da fúria consumi-los, mas o fogo... Oh, sim. Dispersou a todos nós, mas se pela espada matei, por ela fui morto.
--Não há Alá que o salve agora--foi o último sussurro que ouvi antes de deixar o corpo que, por tanto tempo, habitei.
Colecionei arrependimentos, cometi erros, tirei vidas, julguei como fui julgado, traído e morto. Construí uma reputação sem meu consentimento, vivi por uma fé que se voltava mais para mim do que para o próximo. Senti a dor, tantas dores daqueles cujo golpe sem misericórdia desferi; senti o ódio, tanto ódio provocado sem justificativa por mim, como também dirigido a mim sem qualquer conhecimento de causa. Senti a miséria e infelicidade dos que por mim foram vítimas, de uma forma ou outra.
Os desejos da carne que não se dissiparam me arrastaram até o luar, e torturaram-me até que pudesse aprender a perdoar. A arrogância é a queda do homem, abre o caminho para vícios piores e invisíveis, mas, da mesma maneira, o amor é sua redenção. A luz para a escuridão, a cura para a doença, o consolo para a perda, o remédio para a dor. E é por isso que digo apenas isso: luar, luar, como brilha a lua....