Quem faz o destino é o homem, e não Deus. Muitas vezes O culpamos pelos nossos infortúnios, as tristezas que carregamos e as frustrações que depositamos, mascaradas pelas expectativas, em outras pessoas. Buscamos glória, porém, colhemos orgulho, vaidade e fraquezas carnais. Eis, portanto, uma história que contém tais elementos.
Não vou dizer de quem vim, a que vim ou por que vim. Cheguei a uma família abastada, criado por um homem e sua esposa bastante importantes para a época. Recebi o nome, no batismo, de Edward, em homenagem ao meu pai e aquele que veio antes dele. Foi celebrada a alegria, em meio a um ambiente que carregava preocupações com o futuro, de fato, afinal, a instituição precisava ser passada a um herdeiro.
Cresci. E recebi uma educação apropriada ao título que, eu não sabia, jamais viria a receber. Segui os passos de minha mãe, tentei ser piedoso e absorver os ensinamentos de Deus, mas a hipocrisia me venceria, assim como faria com todos os outros. Ventos sussurravam em meu ouvido, mas eu não os escutava; não me apetecia apreciar a natureza, a criação de Deus; a humildade cabia apenas aos inferiores, de quem seríamos seus soberanos. Por mais que a bondade, a alegria e o amor rondasse-nos a todos, o orgulho e a ambição prevaleceriam. O gosto por sangue se manifestaria.
Tão logo provei-me forte e desafiei as instâncias da morte ao sobreviver a infância, incitaram-me a corresponder ao ideal de cavalheiro da época. Guerras, elas seriam as donas de mim e em tenra idade cravaram suas garras em mim. Na primeira vez em que fui à França ao lado de meu pai, a inocência e o horror deram espaço para o gosto pelo sangue.
Cavalgava com velocidade, empunhava a espada na mão direita, meus dedos agarrando-se ao punho da bainha com força. E a primeira vez que o aço da espada, símbolo de poder, cortou a carne de meu inimigo, não senti piedade: ao contrário, regozijei-me. Igualmente, o fizera meu pai. Orgulhei-o e, eis meu caro, o início da minha queda. O orgulho. Ainda sinto vergonha em relembrá-lo, pois seria este sentimento terreno e sujo que me anteciparia à falha de uma melhora, da limpeza de meus pecados anteriores.
Compartilhava com meus irmãos, especialmente John e Lionel, essa potência ascendente, em querer buscar o melhor de nós, procurando por qualidades que, hoje vejo, muito nos limitariam, de longe nos exaltaria como exemplos de seres humanos. O senhor, que está lendo isso, poderia argumentar que isso era reflexo de tempos que demandavam nossa formação a ser daquela maneira, mas como explicar que, mesmo intrínseco a uma sociedade guerreira, nos deparamos com outros personagens que se sobressaíram pela piedade, bondade, misericórdia e, acima de tudo, fé, paciência e resignação? Não, não. A juventude, independentemente do contexto, pode cegar a todos nós quando nos oferecem falsas promessas e, tolos, aceitarmos na falsa crença de agradarmos aquele que mais amamos.
Construí uma fama, uma reputação. As damas admiravam minha beleza, os poetas dirigiam-me a atenção, tornando-me objeto de suas estórias tanto quanto era das canções cantadas pelos músicos. O belo príncipe, assim me qualificavam, tanto pela aparência quanto por ser o próximo leão da guerra. Pouco convia à inteligência de poucos e à ignorância da maioria que a superficialidade da virtude que projetavam em mim, era a encarnação dos vícios idealizados e consumados. Mas, vos digo, orgulho e amor não são autodestrutivos quando em conjunto?
Quando a vi pela primeira vez, não me importei com seus pecados, e tampouco com os meus. Talvez porque enxergasse uma redenção para aquela cujo espírito era tão livre e indomável quanto o meu. Recordo-me de sua aparência: pele alva como a porcelana, delicada, quase frágil ao toque; seus cabelos puxavam para o ouro mais escurecido, suas sobrancelhas eram finas e arqueadas; o nariz era longo, o rosto, oval, possuía características bastante aristocráticas: seus olhos eram de um azul tão profundo quanto os do oceano de Dover, e os lábios tão vermelhos quanto os do morango. Apaixonei-me. Enganam-se se acreditam em destino, embora os encontros jamais passem por coincidências. Vos digo que elas não existem.
--Meu senhor primo--sua voz era delicada, e sua humildade aparente, era encantadora--Como tem passado à corte?
--Mal tenho tempo para essas besteiras--eu respondi, arrogante como o era--afinal, esses passatempos são cabíveis aos cortesões. Ao contrário, tenho me ocupado em seguir meu pai à guerra.
--Ah, é mesmo? --seu orgulho, outra vez ele, mascarava sua sensibilidade às minhas palavras--Espero que tenha a decência de voltar vivo.
--Cabe às mulheres tais preocupações, senhora--disse eu, sorrindo-lhe; e desta maneira, fi-la sorrir também--Não pense que sou ingrato a elas.
--Não quis presumir isso, primo.
--Como tem estado as crianças? --perguntei, embora meu interesse fosse vago, movido, ao contrário, pela luxúria que fazia-me de vítima, pois fraco que era, não encontrava forças para lutar contra ela. Ou eu apenas ceguei-me, fechando-me para os valores que importavam.
O rubor no rosto de Joan, pois este era seu nome, traía-lhe os sentimentos. Soube, dessa forma, que era recíproco. Ela respondeu, portanto, em falsa compostura:
--Bem, graças a Deus. Vossa Graça, sua mãe, tem sido extremamente generosa para comigo e com elas ao nos dar pensão pela viuvez.
--Não se arrepende de ter sido tão imprudente em tão tenra idade? --eu indaguei, ousado e rude--Esqueceu de seus deveres ao apaixonar-se.
Joan talvez não fosse diferente de mim em essência; aos 12 anos, fugiu de um casamento forçado ao casar-se com alguém de sua escolha, mas fora obrigada a retornar aos braços do marido. Não acatava ordens, protestava, e não tinha medo das consequências. A vaidade era sua arma poderosa, seduzia e enganava, mas eventualmente fora domada pelo espírito gentil e bondoso que se fez mostrar. Ainda assim, porém, poderia vislumbrar o apego à carne, um espectro que a circundava. Mas suas preces eram sinceras, quando as minhas não o eram, tornando-me um hipócrita.
--Não--ela retrucou--Devo me arrepender por ter amado meu marido? De tê-lo dado filhos? Não digo que é fácil cuidar de tantos, mas amor é um pecado? Por que deveria sê-lo?
Nossa conversa, que caminhava para um teor mais luxuriosa, fora abruptamente interrompida quando Lionel chegara. Cumprimentos formais daqui e acolá, ele logo me afastara da companhia de Joan. E eu, próximo de meu irmão, não me incomodei com isso.
--Nosso pai está pretendendo ir à França outra vez. Fá-lo-á rei de lá--disse ele--Que acha disso?
--Os franceses são fracos--retruquei--Todavia, não herdarei o reinado da Inglaterra quando Deus assim quiser?
Mas Deus não assim quereria. E Ele, em sua sabedoria, havia velado tal conhecimento de mim. Nem tudo sabemos, e a certeza é mutável.
--Acho que a vingança de um rei jamais é completa--opinou Lionel, em um de seus momentos sábios--Por que descontar o ódio aos franceses se não é de interesse de ambos em conquistar uma terra e ser o soberano dela? Qual é o propósito de guerras?
--Que questionamentos idiotas, irmão--eu me ri dele, embora em meu fundo talvez desconfiasse de suas veracidades. Como viria a lamentar por não dar-lhe a razão--Levantamos a espada não para ceifar vidas, mas lembrar das consequências do que é meter-se conosco. Negaram-nos o direito de usar a coroa de lá e nosso pai irá lembrá-los que ele é o detentor dela.
--Mas achei que não estivesse interessado nela.
Eu dei de ombros: a perspectiva de um futuro em que pudesse escolher o que me era garantido divertia-me como o inepto que era. Voltamos a falar de guerras, assunto que muito me deleitava; não pensávamos muito nas mulheres, embora, certamente, eu estivesse enamorado por uma. A corte era, certamente, intrigante, mas me entediava. Uma vez apresentado à adrenalina de decisões tomadas, de brilhantemente derrotar o inimigo no campo de batalha e ser o objeto de louvores, comparado à grandeza de meu pai na guerra, o resto pouco conseguia captar minha atenção. Mesmo atender às missas era-me enfadante. E eu ainda rezaria para que Deus me favorecesse ante os inimigos, temeroso de que a morte me levasse. Mas a confiança apossou-se de meus espíritos já frívolos e a possibilidade do inferno não me assustava.
--Fico bastante feliz em tê-lo conosco, Edward--disse minha mãe, a rainha Philippa. Ela estava sentada no trono ao lado de meu pai, vestida fabulosamente em joias e roupas adequadas para sua posição. No entanto, ressalto que, em contraposição à minha avó, Isabella da França, ela era mais humilde e paciente. Reconheço que o mundano não lhe atraía tanto quando poderia parecer. Ademais, era popular mesmo entre os humildes, tendo conseguido poupar as vidas de alguns dos camponeses e mais pobres em várias situações. Respeitava-a por isso, mas atribuía tais características ao seu sexo--Seu pai não para de falar de você.
Apesar de me tratar com amabilidade, sendo a mãe que era, incomodava-me saber que não era seu preferido. Saber disso brotava em mim o ciume, ressaltando a vaidade e impulsionando o orgulho vazio porque não era como Lionel. Mas o amor maternal curava essas faltas, mesmo contra a minha vontade.
--Estava na companhia de Lionel. Ele disse que vamos à guerra novamente.
--Guerra--resmungou minha mãe, uma defensora da paz--Isso é necessário? Meu rapaz, acredito que está na hora de casá-lo.
A ideia de me prender a uma instituição encheu meus pulmões de pânico. Como um guerreiro cumpriria com seus deveres, como alcançaria os louros da vitória esperada se tivesse uma esposa, encarregando-lhe de cumprir como esposo a fim de ter um filho para que herdasse propriedades? Protestei.
--Você será o futuro rei da Inglaterra--ela me disse em seu tom de voz solene--Não pense que esquecerei disso.
Eu ri. Era jovem e tenho ciência de que possam imaginar de como era naqueles dias.
--Vá dançar--ela pediu, risonha--Agradaria-me muito se fizesse-me esse favor.
--Senhora mãe, eu sou um guerreiro e guerreiros não dançam! --exclamei, achando tal ideia inconsistente, mas meu pai, que muito se divertia com a conversa que ouvia, se intrometeu e falou:
--Pensa que não sei o que as moças falam de você, meu filho? Qual o perigo em dançar?
Depois de muita conversa, enfim fui convencido. Sorri quando vi várias moças olhando de esgueira para mim. Àquela altura, era alto como meu pai; minha pele era morena, herança de minha mãe, embora fosse mais clara que a dela. A barba crescia ao redor de minhas faces, mas não cobria ainda os lábios; possuía ainda todos os dentes, o que, decerto, facilitava a atração para a época. Meu nariz era longo e um pouco largo, e meus olhos eram negros e intensos, se é que poderia caracterizar desta forma. Meus cabelos ainda eram curtos, mas começavam a crescer, e eles eram escuros como a noite. Apesar de ser Plantageneta, apontavam-me como Avesnes em toda a aparência.
Seja como for, nenhuma delas me atraía e estava a desistir quando a vi. Joan merecia todo o epíteto de ser a bela dama de Kent. Ela estava maravilhosamente vestida em ouro, e suas faces ruborizavam quando me vi. Como falei antes, o amor e o orgulho não andavam lado a lado por serem autodestrutivos quando combinados. E eu estava apaixonado. Fe-me humilde quando a vi. E tão logo esqueci de que estava sendo observado por todos da corte.
--Prima--eu me dirigi, soando mais rude do que planejei ao cortejá-la.
Ela me cumprimentou com uma mesura, ciente do protocolo de que deveria seguir.
--Vossa Alteza.
Mesmo no esplendor do orgulho, submeti-me à humildade quando respondi:
--Sem títulos. Chame-me pelo nome, Edward.
Ela levantou os olhos e me encarou, surpresa. Quaisquer defeitos que, como eu, a possuísse, foram domados pelo amor que nascia entre nós. Ela sorriu e eu também.
--Muito bem, então. Edward.
--Joan. Vim cortejá-la. Aceita dançar?
--Os passatempos na corte não eram inúteis para um guerreiro? --ela desdenhou, jogando as minhas palavras contra mim.
Revirei os olhos, mas senti meu rosto queimar. Que sensação era aquela que eu desconheci por quase toda a minha vida? Embora defendesse a honra, procurasse ser justo, qualidades louváveis para um observador de fora, elas não apagavam, sequer mudavam que eu era um homem orgulhoso, vaidoso atrás das vitórias e que, sem qualquer piedade, ceifava vidas de outros.
--Isso é um não?
--Achei que me conhecesse melhor.
--Isso é que o veremos.
Dançamos como dois corações em chamas, testemunhados pela esperança divina em ver meu lado selvagem ser domado pelo amor. Senti-me compelido a entregar-me, a banhar meus olhos naqueles tão azuis quanto o mar, no sorriso encantador... Quando juntos, esquecíamos de nossas faltas, não pensávamos em outra coisa que não em nós.
E naquela noite, me deitei com ela. Amei-a pelo que era, desesperadamente cravei pelo que me oferecia, e a luxúria unia nossos corpos, mas não como, nas noites seguintes, o apetite pelo amor que eu descobria e ela reencontrava depois de tanto tempo em luto. Esconder aquilo por um tempo fora uma tortura a qual eu me afligi. Longe das batalhas, tomei ciência do que deveria melhorar. E quando tornou-se evidente de que o cupido havia me atingido, como na época sussurravam, eu assim falei, bravamente como o príncipe honrado que acreditava ser:
--Seja minha esposa, Joan. Quero tomá-la como consorte, que seja minha rainha.
--Sim--ela disse, sem pensar duas vezes--Sim, serei sua rainha se assim me quiser.
Felicidade. Acreditamos que ela deve ser permanente e por ela lutamos, para fazê-la imutável, para de nós sermos os donos. Não havia sido uma atitude impertinente a ser tomada, apesar de ter assim parecido, visto que meus pais desaprovaram o casamento. Contudo, consentiram pois viram que não obteriam sucesso em dissuadir-me de desposá-la. Estava, a meu ver, tomando as rédeas do destino.
E nossos filhos viriam, mas a que preço? A felicidade permanente estava ligada aos bens terrenos, ao apego ao ouro, ao amor, por vezes carnal, desfrutado pela esposa, à família, mas, acima de tudo, ao que os homens dão aos homens. Dê a César o que é de César, não te aparece, leitor, familiar tais dizeres?
Eu não aprendi a me curvar às leis divinas, porque as ignorava. Quando meu herdeiro foi-se embora, não compreendi. Senti raiva. E as descontei, novamente, na batalha. O cheiro de sangue me ensandecia, e a reputação de guerreiro não mais levantava a admiração de inimigos ou colegas, mas atiçava o medo. Quase fui comparado até mesmo a Pedro, O Cruel de Castela. Pois assim acreditava que eu domava a morte como ela, mais tarde, me domaria. Aos poucos fazia seu cerco.
Não me compete dizer os nomes das cidades que celebrei minha fama em cima de sangue e mortes. Não se trata de envergonhar-me, mas, como costumam dizer, engrandecer o que não é merecido de engrandecimento. E porque, particularmente, acho que a mensagem não é esta.
Pois bem, prosseguindo com a estória, continuei na busca inflamável pelas vitórias. Poucos ousavam chamar-me de cruel, mas certamente assim o pensavam, pois receavam o dia que eu me tornaria rei Edward IV. Meu irmão, pobre John, sentia-se eclipsado por mim e por Lionel e ele também tentava suas próprias incursões ao exterior, mas ele lidaria com as consequências de seus atos mais tarde, embora ouse dizer que sua natureza guerreira era mais passiva a bondade do que a minha.
Quando tendemos a piorar e nos recusamos a melhorar, a aceitar que há decisões melhores a serem tomadas, a nos submeter às leis divinas, apenas a morte pode nos purificar. E eu só saberia disso tarde demais.
--É realmente necessário que você vá ao exterior outra vez? --Joan disse, e certamente seu pressentimento era um aviso para o qual fiz-me surdo--No início, compreendia, agora não sei. Temos uma família, filhos... E seu pai está doente, Edward. Nem sempre guerras nos trazem as respostas que precisamos.
--E o que saberia disso? É uma mulher que foi treinada para as artes domésticas--retruquei, ferindo-a.
--Se é assim que pensa, que seja.
E em sua fúria silenciosa, desapareceu de minha vista. Apesar dessa impressão, procurei-a para, não sem dificuldade, confessar minha culpa. Contudo, o orgulho já estava havia muito impresso em mim, e eu não conseguia mais me livrar dele. Seria minha sentença de morte.
Despedimos-nos em paz, porém, e lamentei vê-la prantear pela minha partida. Era a última vez que nos veríamos em vida e eu optei por deixar seu coração partido para ir atrás de glórias. Quão fraco fui eu, acreditando reinar sobre mim e os outros ao meu redor, mas minha mácula só poderia ser retirada de mim pela morte que tanto debochei.
Não citarei o último cerco de que participei, não há necessidade para remoer-se detalhes que, em suma, não são importantes para a história. Talvez há aqueles que saibam, outros nem tanto, mas o conhecimento virá para aqueles que buscam.
Lembro da escuridão da noite. Barulhos permeavam o silêncio que era afugentado pelo desespero. Pediam por comida e bebida, mas por clemência acima de tudo enquanto nós os cercávamos. Vieram a mim, uma palavra e tudo poderia ser mudado, mas o que saiu de minha boca foi apenas:
--Não.
--Mas, meu senhor, são milhares de vidas! Elas não podem ser desperdiçadas desta forma! São civis, nada têm a ver com nossa batalha!
--Eu disse que não! E que se dane se são civis, assim o rei dessas pessoas aprenderá a não negar-nos presença, nossos pedidos!
O cerco continuou. A negação permaneceu a mesma, e, a despeito do sufoco que aquela situação toda havia nos proporcionado, a vitória veio. E, junto com ela, a morte.
A cabana foi montada quando adoeci. Xinguei os médicos, aqueles que me acompanhavam tiveram o desprazer de ver meu temperamento Plantageneta em ação, mas muitos apaziguavam a rudeza de minha natureza pela doença que me acometia.
--Ele é o herdeiro da coroa--ouvi-os murmurar--Não pode morrer.
Mas eu havia passado tempo demasiado com homens para saber quando mentiam, se preocupavam, tinham medo... E certamente os que me temiam não lamentariam minha morte. Aquilo me irritou, mas a morte me cercava. E ela pressionava por um indício de arrependimento, de medo, qualquer coisa que não tivesse sido sufocado pelo orgulho e pela vaidade que, por anos, me consumiram. O único arrependimento que eu carregava, entretanto, era o de não ter sido mais saudável para levar mais conquistas para a Inglaterra. Eu não havia aprendido nada, afinal.
Ela não foi sutil, não foi clemente e não ouviu meus pedidos para que fosse misericordiosa para comigo. E por que deveria? O que eu havia feito em vida? O que eu deixei de legado para meus filhos, minha família? Digo-lhes que aprendi, meus caros leitores, que não há glória em deter poder sobre várias vidas, ser responsável por elas apenas para esmagá-las com a insignificância do poder mundano... que me era tirado, que se dissolvia enquanto a morte me pressionava, inútil como uma flor morta, pisoteada.
Chamaram o padre mais próximo para me dar a última unção. A sombra se aproximava e eu vi, digo-lhes, vi os espectros que me cercavam. Uns com raiva nos olhos, outros com piedade neles. Não me recordava deles até ter ciência de que foram as vítimas, diretas ou não, da minha espada, da minha ganância, da minha arrogância...
Então, o véu dos meus olhos foi tirado e eu rezei. Sinceramente, desta vez. Por perdão. E se a dor era o que eu precisava para passar daquele desencarne, que seja. Eu a aceitaria e a abraçaria. Porque, meus caros leitores, eu não aprendi. E não entendam isso como um lamento, mas uma lição. A vida é breve, de fato, mas nem por isso o que fazemos não retornam para nós. Ah, voltam, sim. E como voltam!
No meu último respiro, ouvi o seguinte epíteto:
--Morre hoje nosso líder, guerreiro, temível e respeitado Edward Plantageneta, o príncipe negro.
E era este o legado que deixaria, ao lado de um merecido esquecimento por tantos séculos para que aprendesse a ser mais humilde e a submeter às leis divinas. É necessário que se compreenda que os louvores que buscamos não são a felicidade que merecemos, e mais ainda, que a humildade vem com resignação, paciência e fé. Assim sendo, vos deixo com minha estória.